
INGRID BETANCOURT

No h silncio que no termine


Meus anos de cativeiro na selva colombiana


Ficha tcnica:
Ttulo da obra: No h silncio que no termine
Autor: INGRID BETANCOURT
Ttulo original: Mme le silence a une fin
Editora: SCHWARCZ
Digitalizao: Dbora Paiva da Costa
Reviso: Dbora Paiva da Costa
Total de pginas: 553
Paginao: roda p


Traduo
Antonio Carlos Viana
Dorothe de Bruchard
Jos Rubens Siqueira
Rosa Freire d'Aguiar
 

Capa
warrakloureiro
[2010]
Todos os direitos desta edio reservados 
EDITORA SCHWARCZ LTDA.
Rua Bandeira Paulista 702 cj. 32 04532-002 - So Paulo - SP Telefone (11) 3707-3500 Fax (11) 3707-3501
www.companhiadasletras.com.br
Copyright (c) 2010 by Ingrid Betancourt
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Ttulo original
Mme le silence a une fin
Imagem de capa Ingrid Betancourt
Preparao Cacilda Guerra
Reviso
Daniela Medeiros Huendel Viana
10-08385
CDD-986.10634092
                   ndice para catlogo sistemtico: 1. Colmbia : Sequestradores polticos : Biografia 986.10634092

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Betancourt, Ingrid
No h silncio que no termine : meus anos de cativeiro na selva colombiana / Ingrid Betancourt. - So Paulo : Companhia das Letras, 2010.
Ttulo original: Mme le silence a une fin. Vrios tradutores.
ISBN 978-85-359-1738-3
1. Betancourt, Ingrid, 1961 - Cativeiro, 2002-2008 Betancourt, Ingrid, 1961 - Rapto 3. Colmbia - Biografia 4. Colmbia
-                Poltica e governo - 1974 - 5. Foras Armadas Revolucionrias da Colmbia 6. Legisladores mulheres - Colmbia - Biografia 7. Mulheres candidatas 
presidenciais - Colmbia - Biografia 8. Sequestro poltico - Colmbia 9. Vtimas de sequestro - Colmbia
-                Biografia 1. Ttulo.
r - M
 

A todos os meus irmos ainda mantidos como refns Aos meus companheiros de cativeiro A todos aqueles que lutaram pela nossa liberdade
A Mlanie e Lorenzo
 

Sumrio
1.                a fuga da jaula ... 13
2.                Adeus         ... 37
3.                A captura        ....... 46
4.                El Mocho Csar                ... 58
5.                O acampamento de Snia         ... 67
6.                A morte de meu pai         ... 83
7.                O abismo         ... 88
8.                Os marimbondos        ... 96
9.                As tenses do convvio         . . . 109
10.                Prova de sobrevivncia        ... 117
11.                A casinha de madeira        ... 122
12.                Ferney        ... 130
13.                Aprendiz de tecel        ... 136
14.                Os dezessete anos de Mlanie        ... 140
15.                 flor da pele        ... 144
16.                O raide        ... 150
17.                A jaula        ... 159
18.                Os amigos que vm e vo        ... 163
19.                Vozes de fora        ... 169
20.                Uma visita de Joaquin Gmez                ... 173
21.                Segunda prova de sobrevivncia        ... 181
22.                A vidente        ... 186
23.                Um encontro inesperado        ... 190
24.                O acampamento de Giovanni        ... 194
25.                Nas mos da sombra        ... 201
26.                A serenata de Sombra        ... 207
27.                O arame farpado... 211
28.                A antena parablica        ... 218
29.                Na priso        ... 222
30.                A chegada dos americanos        ... 227
31.                A grande disputa        ... 233
32.                A numerao        ... 239
33.                A misria humana        ... 243
34.                A doena de Lucho                ... 247
35.                Um triste Natal        ... 256
36.                As querelas        ... 265
37.                O galinheiro        ... 271
38.                Volta  priso                ... 278
39.                O confisco dos rdios        ... 283
40.                A libertao dos filhos de Gloria        ... 293
41.                As pequenas coisas do inferno        ... 296
42.                O dicionrio        ... 302
43.                Meu amigo Lucho         ... 305
44.                A criana        ... 309
45.                A greve        ... 314
46.                Os aniversrios        ... 319
47.                A grande partida        ... 324
48.                A crise de fgado        ... 327
49.                A pilhagem de Guillermo        ... 333
50.                Uma ajuda inesperada        ... 336
51.                A rede        ... 341
52.                Venda de esperana        ... 346
53.                O grupo dos dez        ... 354
54.                A marcha interminvel        ... 362
55.                As correntes        ... 370
56.                A lua de mel        ... 374
57.                Nas portas do inferno        ... 381
58.                A descida aos infernos        ... 387
59.                O diabo...         392
60.                Agora ou nunca        ... 398
61.                A fuga        ... 403
62.                A liberdade        ... 415
63.                A escolha        ... 426
64.                O fim do sonho        ... 431
65.                Punir        ... 436
66.                A retirada        ... 442
67.                Os ovos        ... 448
68.                Monster        ... 452
69.                O corao de Lucho        ... 458
70.                A fuga de Pinchao        ... 466
71.                A morte de Pinchao...         474
72.                Meu amigo Mare        ... 480
73.                O ultimato         .... 487
74.                As cartas        ... 493
75.        A        separao        ... 500
76.                Afagando a morte        ... 504
77.                Terceira prova de sobrevivncia        ... 513
78.                A libertao de Lucho        ... 519
79.                A discrdia        ... 528
80.                O Sagrado Corao        ... 535
81.                O embuste        ... 539
82.                O fim do silncio        ... 548


1. A fuga da jaula

Dezembro de 2002

       Tomei a deciso de fugir. Era minha quarta tentativa, mas depois da ltima vez as condies de deteno tinham se tornado ainda mais terrveis. Eles haviam 
nos instalado numa jaula construda com tbuas de madeira e folhas de zinco  guisa de telhado. O vero estava chegando, fazia mais de um ms que no tnhamos tempestades 
 noite. Ora, uma tempestade era indispensvel para ns. Eu localizara uma tbua meio podre num canto de nosso cubculo. Empurrando-a fortemente com o p, consegui 
rach-la o suficiente para criar uma abertura. Fiz isso numa tarde, depois do almoo, enquanto o guarda cochilava em p, equilibrado sobre seu fuzil. O barulho o 
assustou. Ele se aproximou, nervoso, e deu a volta na jaula devagar, como um animal selvagem. Eu o acompanhava pelas fendas que separavam as tbuas, prendendo a 
respirao. Ele no conseguia me ver. Parou duas vezes, chegando a grudar o olho num buraco, e por um instante nossos olhares se cruzaram. Deu um pulo para trs, 
assustado. Depois, para disfarar, plantou-se bem na entrada da jaula; estava indo  forra, pois no tirava mais os olhos de mim.
       Evitando o olhar dele, eu fazia clculos. Era possvel passar por aquela abertura? Em princpio, se a cabea passasse, o corpo tambm deveria passar. Eu pensava 
em minhas brincadeiras de criana, esgueirando-me entre as barras de uma grade do parque Monceau. Era sempre a cabea que bloqueava tudo. Mas eu j no tinha tanta 
certeza. Para o corpo de uma criana a coisa funcionava assim, mas
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para um adulto as propores seriam as mesmas? Eu estava mais inquieta ainda porque, embora fssemos bem magras, Clara e eu, nas ltimas semanas eu tinha notado 
um fenmeno de inchao dos nossos corpos, provavelmente uma reteno de lquidos decorrente da imobilidade forada. Em minha companheira isso era muito visvel. 
Em mim era mais difcil avaliar, pois no tnhamos espelho.
       Eu havia falado com ela sobre isso, o que a irritara profundamente. Tnhamos feito duas tentativas de fuga antes e isso se tornara um assunto de desentendimento 
entre ns. Conversvamos pouco uma com a outra. Ela perdia a pacincia facilmente e eu andava s voltas com minha obsesso. S pensava na liberdade, em dar um jeito 
de escapar das mos das Fare.
       Portanto, fazia clculos ao longo dos dias. E preparava com detalhes o material para nossa expedio. Dava muita importncia a coisas bobas. Pensava, por 
exemplo, que era inimaginvel partir sem meu casaco. Esquecera que ele no era impermevel e que, uma vez molhado, pesaria toneladas. Achava tambm que deveramos 
levar o mosquiteiro.
       "Tambm vou ter de prestar muita ateno na questo das botas. De noite sempre as deixamos no mesmo lugar, na entrada do cubculo. Podemos comear a coloc-las 
aqui dentro para que eles se acostumem a no v-las mais quando dormimos... Tambm teremos de conseguir um faco. Para nos defender dos animais selvagens e para 
abrir caminho no mato. Vai ser muito difcil. Eles esto de p atrs. No esqueceram que conseguimos surrupiar um faco quando estavam construindo o antigo acampamento. 
Pegar as tesouras que eles nos emprestam de vez em quando. Tambm tenho de pensar nos mantimentos. Precisamos estocar sem que eles percebam. E tudo deve estar bem 
embalado dentro de plsticos, porque teremos de nadar. E no deve estar pesado demais, do contrrio teremos dificuldade em avanar. Devemos estar o mais leve possvel. 
E levarei meus tesouros: nem pensar em deixar as fotos das crianas e as chaves do meu apartamento."
       Assim, eu passava os dias a cogitar, repensando vinte vezes no percurso a seguir quando tivssemos sado do cubculo. Avaliava parmetros de todo tipo: onde 
devia estar o rio, de quantos dias precisaramos at obter ajuda. Imaginava, horrorizada, o ataque de uma anaconda dentro da gua, ou de um enorme jacar como aqueles 
que eu tinha visto, de olhos vermelhos e brilhantes, sob a tocha de um guarda quando descamos o rio. Via-me atracada com um tigre,* pois os guardas tinham me feito 
uma descrio feroz desse bicho. 
* Denominao corrente, na Colmbia, da ona-pintada.
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Pensava em tudo o que podia me dar medo, para me preparar psicologicamente. E tinha decidido que, dessa vez, nada me deteria.
       S pensava nisso. No dormia mais desde que compreendera que no sossego da noite meu crebro funcionava melhor. Observava e tomava nota de tudo: a hora das 
trocas dos guardas, como se posicionavam, qual deles vigiava, qual dormia, qual fazia um relatrio ao seguinte sobre o nmero de vezes que tnhamos nos levantado 
para urinar...
       E, depois, tentava tambm manter contato com minha companheira a fim de prepar-la para o esforo que a fuga exigiria, as precaues a tomar, os barulhos 
a evitar. Ela me escutava, desesperada, em silncio, e s me respondia para expressar uma recusa ou um desacordo. Alguns detalhes eram importantes. Era preciso preparar 
um boneco, que colocaramos sobre nossas camas para dar a impresso de um corpo encolhido no lugar do nosso. Eu no tinha o direito de me afastar da jaula, a no 
ser para ir aos chontos* fazer minhas necessidades. Era, ento, o momento de dar uma olhada no buraco do lixo, com a esperana de descobrir elementos preciosos.
       Certa noite, voltei de l com uma velha sacola de feira que estava mergulhada nos restos de comida em decomposio e com pedaos de papelo: o material ideal 
para fabricar nosso boneco. Minha atitude irritara o guarda. No sabendo se devia me proibir de pegar o que tinha sido jogado fora pelo grupo, ele me intimou a me 
apressar, reforando a invectiva com um movimento do cano da arma. Quanto a Clara, ficou com nojo do precioso butim, sem entender que serventia poderia ter para 
ns.
       Eu percebia o quanto estvamos afastadas. Obrigadas a permanecer grudadas uma na outra dia e noite, reduzidas a um regime de irms siamesas sem ter nada em 
comum, vivamos em mundos opostos: ela procurava se adaptar, eu s pensava em fugir.
       Depois de um dia particularmente quente, comeou a ventar. A selva ficou silenciosa por alguns minutos. Nem mais um s pio de pssaro nem um sussurro de asas. 
Todos ns viramos a cabea para o vento, a fim de escrutar o tempo: a tempestade se aproximava.
       O acampamento entrava numa atividade febril. Uns checavam os ns de suas barracas, outros iam correndo recolher a roupa que secava num quadrado ensolarado, 
alguns, mais previdentes, iam aos chontos, para o caso de a tempestade se prolongar. 
* Termo usado pelas Fare para designar as latrinas improvisadas, cavadas na terra.
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Eu olhava para aquela agitao com um n na barriga de tanta angstia, rezando para que Deus me desse foras para ir at o fim. "Esta noite estarei livre." Repetia 
essa frase sem parar, para no pensar no medo que retesava meus msculos e os esvaziava de sangue, enquanto fazia a muito custo os gestos mil vezes previstos em 
minhas horas de insnia: esperar que anoitecesse para construir o boneco, dobrar o grande plstico preto e enfi-lo dentro da bota, abrir o pequeno plstico cinza 
que me serviria de poncho impermevel, verificar se minha companheira estava pronta. Esperar que a tempestade casse.
       Eu tinha aprendido com as tentativas de fuga anteriores que o melhor momento para escapar era na hora do lusco-fusco, o que na selva acontecia pontualmente 
s seis e quinze. Durante alguns minutos, quando os olhos comeavam a se adaptar  escurido, e antes que a noite casse de vez, todos ns ficvamos cegos.
       Eu tinha rezado para que a tempestade casse exatamente nessa hora. Se sassemos do acampamento logo antes que a noite tomasse conta da selva, os guardas 
se sucederiam sem notar nada de especial e o alerta s seria dado na manh seguinte, bem cedinho. Isso nos dava o tempo necessrio para nos afastarmos e nos escondermos 
durante o dia. As equipes lanadas em nosso encalo iriam avanar muito mais depressa do que ns, porque eram bem mais treinadas e se beneficiariam da luz do dia. 
Mas, se consegussemos sair sem deixar rastro, quanto mais nos afastssemos, mais o permetro de busca se estenderia. Assim, para cobrir essa rea, eles precisariam 
de um grupo de homens maior do que aquele de que dispunham no acampamento. Pensei que era possvel nos deslocarmos de noite porque no nos procurariam no escuro: 
suas lanternas nos permitiriam localiz-los e nos esconder antes que conseguissem nos encontrar. Ao fim de trs dias, andando a noite inteira, estaramos a uns vinte 
quilmetros do acampamento e seria impossvel que nos achassem. Depois disso, teramos de caminhar durante o dia, perto do rio, sem propriamente marge-lo, j que 
o mais provvel era que as buscas prosseguiriam por ali, e enfim chegaramos a algum lugar onde pedir ajuda. Era factvel, sim, eu acreditava. Mas precisvamos sair 
cedo para andar o mximo possvel nessa primeira noite e conseguir uma boa distncia do acampamento.
       Ora, naquela noite a hora propcia tinha passado e a tempestade no chegava. O vento soprava sem parar, mas o temporal roncava ao longe e uma certa tranquilidade 
voltara ao campo. O guarda se enrolou num grande plstico preto que lhe dava um ar de guerreiro antigo, desafiando os elementos com a capa ao vento. E cada um se 
preparava para a chegada da tempestade com a serenidade do velho marinheiro que pensa ter escorado sua carga.
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       Os minutos se passavam numa lentido infinita. Ao longe, um rdio fazia chegar at ns os ecos de uma msica alegre. O vento continuava a soprar, mas a tempestade 
se calara. De vez em quando, um raio cruzava a muralha vegetal e minha retina me imprimia no crebro a imagem em negativo do acampamento. Estava fresco, quase frio. 
Eu sentia a eletricidade cruzar o espao e me arrepiar a pele. Pouco a pouco, meus olhos incharam de tanto esquadrinhar a escurido, e minhas plpebras estavam ficando 
pesadas. "Esta noite no vai chover." Minha cabea tombava. Clara se enrolou em seu canto, vencida pela sonolncia. E eu mesma me senti aspirada por um sono profundo.
       Uma chuvinha que atravessou as tbuas me acordou. Senti o frio na pele e fiquei arrepiada. O barulho dos primeiros pingos de chuva no zinco acabou por me 
tirar do torpor. Encostei no brao de Clara: tnhamos de partir. A chuva ia ficando cada vez mais forte, mais grossa, mais apertada. Mas a noite continuava muito 
clara. A lua no estava do nosso lado. Olhei l fora, entre as tbuas: era possvel enxergar como se fosse dia claro.
       Teramos de sair da jaula e correr bem em frente, esperando que das barracas vizinhas ningum tivesse a ideia de olhar nesse exato instante para nossa priso. 
Eu refletia. No tinha relgio, contava com o de minha companheira. Ela no gostava que eu lhe perguntasse as horas. Hesitei em faz-lo, mas fui em frente. "So 
nove horas", ela respondeu, compreendendo que no era o momento de criar tenses desnecessrias. O acampamento j dormia, o que era um ponto a favor. Mas para ns 
a noite ia ficando cada vez mais curta.
       O guarda lutava para se proteger da tromba-d'gua que caa em cima dele, o barulho da chuva no zinco abafava meus pontaps nas tbuas podres. No terceiro 
chute, a tbua se espatifou. Mas a abertura que se formou no era muito grande.
       Passei minha pequena mochila e a coloquei do lado de fora. Minhas mos ficaram encharcadas. Eu sabia que teramos de passar dias inteiros molhadas at os 
ossos e para mim esse pensamento era absolutamente repulsivo. Irritava-me comigo mesma  ideia de que uma noo qualquer de conforto pudesse interferir em minha 
luta pela liberdade. Parecia-me ridculo perder tanto tempo em me convencer de que no adoeceria, que minha pele ficaria um trapo depois de trs dias de intempries. 
Ento pensava com meus botes que minha vida tinha sido fcil demais e que eu estava condicionada por uma educao em que o medo da mudana se escondia atrs de 
prescries de prudncia. Observava aquela gente jovem que me mantinha presa e no podia deixar de admir-la. No sentiam calor, no sentiam frio, nada os picava, 
mostravam uma notvel habilidade em todas as atividades que exigiam fora e flexibilidade e se deslocavam pela selva andando
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trs vezes mais depressa que eu. O medo que eu devia superar era feito de preconceitos de todo tipo. A primeira tentativa de fuga fracassara porque tive medo de 
morrer de sede, j que me proibira de beber a gua marrom das poas que se espalhavam pelo cho. Agora, fazia meses que me exercitava em beber gua barrenta do rio, 
para provar a mim mesma que sobreviveria aos parasitas que j deviam ter colonizado minha barriga.
       Alis, desconfiava que o comandante da frente que me capturara, El Mocho Csar, tinha dado aos guerrilheiros, na minha frente, a recomendao de "ferver a 
gua das presas" a fim de que eu ficasse mentalmente dependente dessa medida de assepsia e que tivesse medo de sair do acampamento e me aventurar na mata.
       Para alimentar nosso medo da selva, ele ordenara que nos levassem  beira do rio para assistir  morte de uma cobra imensa que haviam capturado quando ela 
estava prestes a atacar uma guerrilheira, na hora do banho. O animal era um verdadeiro monstro. Eu o medi com os ps. Tinha oito metros de comprimento e 55 centmetros 
de dimetro - a medida da minha cintura. Foram necessrios trs homens para tirar a cobra da gua. Chamavam-na de guio, e no meu entender era uma anaconda. Meses 
a fio, no consegui tir-la de meus pesadelos.
       Eu via aquela juventude  vontade na selva e me sentia desajeitada, enfraquecida, como que deficiente. Comecei a perceber que era minha autoimagem que estava 
em crise. Num mundo em que eu no inspirava respeito nem admirao, sem a ternura e o amor dos meus, sentia-me envelhecer sem perdo, ou melhor, condenada a detestar 
aquilo em que tinha me transformado, to dependente, to boba, to incapaz de resolver os pequenos problemas cotidianos.
       Por mais alguns instantes observei a abertura estreita e, l fora, a muralha de chuva que nos esperava. Clara estava agachada ao meu lado. Virei-me para a 
porta da jaula. O guarda tinha desaparecido sob o temporal. Tudo estava parado, a no ser a gua, que caa sem d. Minha companheira virou-se para mim. Nossos olhares 
se cruzaram. Nossas mos se encontraram, estvamos unidas uma  outra, at na dor.
       Tnhamos de ir. Soltei-me, alisei minhas roupas e me deitei ao lado do buraco. Passei a cabea entre as tbuas com uma facilidade encorajadora, depois os 
ombros. Com uma contoro, fiz o corpo avanar. Senti-me bloqueada e esperneei nervosamente para forar a sada de um brao. Quando consegui, impulsionei o corpo. 
Com a fora da mo livre, enfiando as unhas no cho, consegui passar o torso. Rastejei numa contoro dolorosa dos quadris para que o resto do corpo escorregasse 
enviesado pela abertura. Finalmente sa e pulei sobre as pernas. Dei dois passos de lado, a fim de que minha companheira tambm pudesse sair.
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       Mas no havia nenhum movimento ao lado do buraco. O que Clara estava fazendo? Por que ainda no sara? Agachei-me e olhei para dentro. Nada, s a escurido 
uterina do buraco que me intimidava. Arrisquei-me a cochichar seu nome. Nenhuma resposta. Enfiei a mo e procurei, tateando, um contato. Um forte enjoo apertava 
minha garganta. Permaneci de ccoras, observando cada milmetro de meu campo de viso, pronta para ver os guardas pularem em cima de mim. Tentei calcular o tempo 
que havia passado desde minha sada. Cinco minutos? Dez? Era incapaz de avaliar. Refleti rapidamente, indecisa,  espreita do menor rudo, de olho na menor luz. 
Uma ltima vez, de ccoras diante da abertura, chamei Clara, pressentindo que no haveria resposta.
       Levantei-me. Diante de mim, a mata cerrada e aquela chuva torrencial que viera atender a todas as minhas preces dos dias anteriores. Eu estava do lado de 
fora, no havia recuo possvel. Precisava agir depressa. Assegurei-me de que o elstico que prendia meu cabelo estava no lugar. No queria que a guerrilha encontrasse 
o menor indcio do caminho que eu ia pegar. Devagar, contei: um... dois... No trs, parti, em frente, para a selva.
       Eu corria, corria, tomada de um pnico incontrolvel, esgueirando-me das rvores por reflexo, incapaz de ver, de esperar, de pensar, sempre em frente, at 
a exausto.
       Enfim, parei e dei uma olhada para trs. Ainda conseguia ver a entrada da selva como uma claridade fosforescente entre as rvores. Quando meu crebro voltou 
a funcionar, me dei conta de que estava recuando automaticamente, incapaz de me resignar a partir sem ela. Relembrei, uma a uma, todas as nossas conversas, repassando 
as recomendaes combinadas entre ns. Uma em particular me vinha  memria e a ela eu me agarrava com esperana: se nos perdssemos na sada, nos encontraramos 
nos chontos. Tnhamos falado disso uma vez, de passagem.
       Felizmente meu senso de orientao parecia funcionar bem. Podia me perder numa grande cidade quadriculada, mas na selva eu encontrava meu norte. Sa exatamente 
na altura dos chontos. O lugar,  claro, estava vazio. Olhei enojada para a nuvem de bichinhos acima das fossas cheias de excrementos, para minhas mos sujas, minhas 
unhas pretas de lama e aquela chuva que no parava. No sabia mais o que fazer, estava prestes a cair no desespero.
       Ouvi vozes e depressa me refugiei na densidade da mata. Tentei perceber o que estava acontecendo dos lados do acampamento e o rodeei para me aproximar da 
jaula, protegendo-me, bem no lugar de onde eu tinha sado. O temporal se transformou numa garoa persistente, que permitia que os sons se propagassem. Chegou-me a 
voz forte do comandante. Impossvel entender o que dizia, mas o
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tom era ameaador. Uma lanterna de bolso iluminou o interior da jaula, depois
o feixe de luz entrou com violncia pelo buraco das tbuas e percorreu a clareira
da esquerda para a direita, passando a poucos centmetros de meu esconderijo.
Dei um passo atrs, suando em bicas, com vontade de vomitar, o corao em disparada. Foi quando ouvi a voz de Clara. O calor que me sufocava deu lugar, sem
transio, a um frio mortal. Todo o meu corpo comeou a tremer. Eu no entendia
o que poderia ter acontecido: por que ela fora capturada? Outras luzes apareceram, ordens circulavam, um grupo de homens munido de lanternas se dispersou:
alguns inspecionavam as paredes da jaula, os cantos, o teto. Pararam perto do buraco, depois iluminaram a entrada da mata. Vi quando falaram entre si.
       A chuva parou de vez e a escurido caiu como uma chapa de chumbo. Vislumbrei a silhueta de minha companheira dentro da jaula, a uns trinta metros de
meu esconderijo. Ela acabara de acender uma vela, prerrogativa muito rara: como
prisioneiras, no tnhamos direito de ter luz. Falava com algum, mas no era o
comandante. As vozes eram pausadas, como que contidas.
       Sozinha, encharcada e trmula, contemplei aquele mundo que j no me era
acessvel. Era to tentador confessar-me vencida e voltar ao seco e ao calor! Contemplei aquele espao iluminado, pensando que no podia me afligir com minha
sorte, e repeti para mim mesma: "Tenho de ir embora, tenho de ir embora, tenho
de ir embora!"
       Apartei-me dolorosamente da luz e enfiei-me na escurido. A chuva recomeou. Estendi as mos para a frente, a fim de evitar os obstculos. No havia conseguido 
um faco, mas tinha uma lanterna de bolso. O risco de us-la era to ggrande
quanto o medo de faz-lo. Fui andando devagar por aquele espao ameaador,
pensando que a acenderia quando realmente no aguentasse mais. Minhas mos
batiam em superfcies midas, enrugadas e viscosas, e eu esperava a qualquer momento sentir a queimadura de um veneno fulminante.
       A chuva despencou de novo. Ouvi seu rudo ao bater nas camadas de vegetao que me protegeriam ainda por alguns minutos. Esperava que a qualquer momento meu 
frgil telhado de folhas acabasse cedendo e desmoronasse sob o peso da
gua. Acabrunhava-me a perspectiva do dilvio que no tardaria a me submergir.
J no sabia se o que escorria em minhas faces eram pingos de gua ou lgrimas, e
me exasperava por ter de arrastar aqueles resqucios de criana chorona.
       Tinha me afastado bastante. Um raio rasgou a mata, aterrissando a poucos
metros de mim. Num piscar de olhos o espao ao redor me foi revelado em todo
o seu horror. Cercada de rvores gigantescas, eu estava a dois passos de cair num
barranco. Parei de repente, completamente cega. Agachei-me para retomar o flego entre as razes da rvore que havia  minha frente.
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 Estava a ponto de pegar a lanterna quando observei ao longe alguns raios de luz intermitentes vindo na minha direo. Ouvia as vozes deles. Deviam estar pertinho, 
um deles gritava que tinha me avistado. Escondi-me entre as razes da velha rvore suplicando a Deus que me tornasse invisvel.
       Acompanhei a direo dos passos deles pelo balano dos feixes luminosos. Um deles apontou a lanterna para mim e me ofuscou. Fechei os olhos, imvel,  espera 
dos uivos de vitria antes que tivessem pulado em cima de mim. Mas os raios de luz me abandonaram, deambularam mais adiante, retornaram por um momento, e ento se 
afastaram de vez, deixando-me no silncio e no breu.
       Levantei-me sem acreditar demais naquilo, ainda trmula, e encostei-me na rvore centenria para me refazer do susto. Permaneci ali por longos minutos. Um 
novo raio iluminou a selva de repente. De memria, segui por um caminho em que tive a impresso de perceber uma passagem entre duas rvores, esperando que um novo 
raio viesse me tirar de novo das trevas. Os guardas no estavam mais l.
       Minha relao com aquele mundo da noite j mudara. Eu avanava com mais facilidade, minhas mos se revelavam mais geis em reagir e meu corpo aprendia a antecipar 
os acidentes do terreno. A sensao de horror comeava a se diluir. Ao meu redor j no havia um ambiente totalmente hostil. Eu percebia aquelas rvores, aquelas 
palmeiras, samambaias, aquele mato invasor como um possvel refgio. De repente, o desespero de minha situao, o fato de estar encharcada, de ter as mos e os dedos 
sangrando, de estar coberta de lama, sem saber para onde ir, tudo aquilo perdia importncia. Eu podia sobreviver. Precisava andar, manter-me em movimento, afastar-me. 
De manhzinha eles recomeariam a perseguio. Mas em meio  energia da ao eu repetia para mim mesma "estou livre" e minha voz me fazia companhia.
       De forma imperceptvel, a selva se tornou mais familiar, passando do mundo negro e plano dos cegos aos relevos monocromticos. As formas ficaram mais ntidas 
e finalmente as cores se apossaram de novo do universo: era o alvorecer. Eu precisava encontrar um bom esconderijo.
       Apressei o passo, imaginando os reflexos deles e procurando adivinhar seus pensamentos. Queria encontrar um rebaixamento de terreno que me permitisse enrolar-me 
no grande plstico preto e me cobrir de folhas. Em poucos minutos a selva passou do cinza-azulado ao verde. J deviam ser cinco horas da manh, eu sabia que podiam 
pular em cima de mim a qualquer momento. No entanto, a mata parecia to fechada! Nem um rudo, nem um movimento, o tempo parecia suspenso.
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       Custei a recuperar o estado de alerta, enganada pela quietude que vinha com o claro do dia. Continuei a avanar, mas cautelosamente. De repente, sem aviso 
prvio, uma grande claridade perpassou o espao de um lado a outro. Intrigada, me virei. Atrs de mim, a mata ainda se mantinha opaca. Compreendi ento o que o fenmeno 
anunciava. A poucos passos, as rvores j se afastavam para dar lugar ao cu e  gua.
       O rio estava ali, avanando aos borbotes, trazendo furiosamente em seu leito rvores inteiras que pareciam pedir ajuda. Aquela gua borbulhante me intimidou. 
No entanto, eu precisava me jogar nela e me deixar levar. Esse era o preo da salvao.
       Fiquei imvel. A ausncia de perigo iminente me fornecia boas razes para no mergulhar. A fraqueza tomava forma. A covardia tomava forma. Aqueles troncos 
de rvores que rolavam na gua e desapareciam para reaparecer mais adiante, com seus galhos estendidos para o cu, eram eu. Via minha vida ser engolida por aquela 
lama lquida. Minha covardia inventava pretextos para postergar a ao. Com minha companheira, provavelmente eu no teria hesitado; teria visto naqueles troncos 
levados pela corrente perfeitas bias de salvao. Mas estava tomada por um medo feito de uma srie de pequenos medos insignificantes. Medo de ficar novamente encharcada, 
quando eu tinha conseguido me aquecer com a marcha. Medo de perder minha mochila com as magras provises que ela continha. Medo de ser levada pelas ondas, sem saber 
para onde. Medo de estar sozinha. Medo de ter medo. Medo de morrer, bobamente.
       Ento, nessa reflexo que me desnudava vergonhosamente diante de mim mesma, compreendi que ainda era um ser medocre e banal. Que ainda no havia sofrido 
a ponto de ter no ventre a fria necessria para lutar at a morte por minha liberdade. Ainda era um co que, apesar dos golpes, esperava sua tigela. Olhei ao redor, 
nervosa,  procura de um buraco onde me esconder. Os guardas iam atingir o rio e me procurariam ali, mais do que em outro lugar. Voltar atrs, para a densidade da 
mata? Estavam em meu encalo e eu me arriscava a dar de cara com eles.
       Perto do rio havia mangues e velhos troncos apodrecendo, vestgios de antigas tempestades. Um em especial era de difcil acesso, mas tinha um rebaixamento 
importante em todo um flanco. As razes dos mangues criavam uma barragem em torno dele e, parecia-me, escondiam melhor aquele local. Engatinhando, e depois rastejando 
e me contorcendo, consegui chegar ao buraco. Abri cuidadosamente o grande plstico que enfiara dentro da bota antes da fuga. Minhas meias estavam encharcadas, o 
plstico tambm. Sacudi-o e fiquei apavorada com o barulho. Estaquei, prendendo a respirao para detectar o menor movimento. A selva despertava,
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o zumbido dos bichinhos ganhava amplido. Mais calma, recomecei a tarefa para me esconder bem na cavidade do tronco, enrolada no plstico.
       Ento a vi. Yiseth.
       Ela estava de costas. Chegara correndo, sem fuzil mas de revlver em punho. Usava um colete de tecido de camuflagem cuja feminilidade lhe dava um ar inofensivo. 
Virou-se devagar e de imediato seus olhos encontraram os meus. Fechou-os um segundo como para agradecer aos cus e se aproximou, cautelosa.
       Com um sorriso triste, me estendeu a mo, como para me ajudar a sair do esconderijo. Eu no tinha mais escolha. Sa. Foi ela que dobrou cuidadosamente o plstico 
e me deu, para que eu o recolocasse na bota. Balanou a cabea e depois, satisfeita, dirigiu-se a mim como a uma criana. Suas palavras eram estranhas. No usava 
o discurso dos guardas, sempre preocupados em no ser flagrados em erro por um colega. Olhando para o rio como se falasse bem alto, seu discurso vinha carregado 
de desculpas e ela acabou me confessando que vrias vezes tambm pensara em fugir. Falei-lhe ento de meus filhos, de minha necessidade urgente de estar com eles, 
de voltar para casa. Ela me contou sobre seu bebezinho, que deixara na casa da me quando ele tinha poucos meses. Mordia os lbios e seus olhos pretos se encheram 
de lgrimas.
    -                Venha comigo - propus.
       Ela pegou minhas mos e seu olhar ficou frio.
    -                Eles nos encontrariam e nos matariam.
       Supliquei-lhe, apertando suas mos com mais fora, obrigando-a a olhar para mim. Ela se negou, peremptria, pegou novamente a arma e me encarou:
    -                Se me virem falar com voc, vo me matar. No esto longe. Ande na minha frente e oua com muita ateno o que vou lhe dizer.
       Obedeci, apanhando minhas coisas, recolocando a mochila a tiracolo. Ela se grudou atrs de mim e cochichou, com a boca em meu ouvido:
    -                A ordem do comandante  maltrat-la. Quando chegarem, vo berrar, insult-la, empurr-la. No responda, de jeito nenhum. No diga nada. Querem 
castig-la. E vo lev-la. S haver homens com voc. Ns, mulheres, temos ordem de voltar para o acampamento. Entendeu direitinho?
       Suas palavras ressoavam entre minhas tmporas. Parecia que eu tinha perdido meu espanhol. Fiz um grande esforo de concentrao, tentando ir alm dos sons, 
mas a angstia paralisara meu crebro. Andava sem saber que andava, olhava para aquele mundo como se estivesse dentro dele, como se estivesse num aqurio. A voz 
da moa me chegava deformada, muito alta, intermitente, apagava-se e depois voltava. Senti a cabea muito pesada, como que apertada num torno. Minha
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lngua se cobriu de uma pasta seca que a mantinha colada no palato e minha respirao se tornou profunda e pesada, como se eu precisasse bombear o ar de um balo 
de oxignio. Andava e o mundo subia e descia ao ritmo de meus passos. Minha cabea latejava, invadida pelos batimentos amplificados do corao.
       No os vi chegarem. Um deles comeou a rodar em volta de mim, o rosto vermelho como um porquinho e os cabelos louros eriados. Segurava o fuzil com dificuldade, 
no alto da cabea, pulava e gesticulava, deixando-se levar por uma ridcula e violenta dana guerreira.
       Uma pancada que levei nos flancos me fez compreender que havia um segundo, um homenzinho moreno de ombros robustos e pernas arqueadas. Ele acabara de me enfiar 
o cano do fuzil acima dos quadris e fingia se controlar para no faz-lo de novo. Berrava e cuspia, me xingando com palavras grosseiras e absurdas.
       No vi o terceiro, que me empurrava pelas costas. Seu riso perverso parecia excitar os outros dois. Arrancou-me a mochila e a esvaziou no cho, remexendo 
com a ponta da bota os objetos que sabia serem preciosos para mim. Ria e os enfiava na lama com o p, para me obrigar a apanh-los e recoloc-los na mochila. Ajoelhada, 
vi em suas mos o brilho de um objeto metlico. Ento ouvi o estalo da corrente e me levantei num pulo para ficar em frente a ele. A moa estava ali, perto de mim, 
segurando meu brao com fora e me empurrando para que eu andasse. O cara que ria lhe fez sinal para ir embora. Ela deu de ombros, aceitando a derrota, evitou meu 
olhar e me abandonou.        
       Fiquei tensa e ausente, o sangue latejando nas tmporas. Tnhamos avanado alguns metros, com a tempestade as guas haviam subido e transformado o local. 
Aquilo era um lago salpicado de rvores que se obstinavam em no sair do lugar. Ao longe, mais alm das guas paradas, adivinhava-se a violncia da corrente pelo 
estremecimento persistente dos arbustos.
       Os homens giravam ao meu redor, berrando. O estalido da corrente era cada vez mais insistente. O rapaz brincava com ela para torn-la viva, como uma serpente. 
Eu me proibia qualquer contato visual, tentando pairar acima daquela agitao, mas minha viso perifrica agarrava gestos e movimentos que me gelavam o sangue.
       Era mais alta que eles, mantinha-me de cabea erguida e rgida e todo o meu corpo estava retesado de raiva. Nada podia contra eles, mas eles no tinham certeza 
disso. Percebi que sentiam mais medo que eu, mas tinham a seu favor o dio e a presso dos outros. Bastava um gesto para que fosse quebrado aquele equilbrio em 
que eu ainda levava vantagem.
       Ouvi o homem da corrente se dirigir a mim. Repetia meu nome com uma familiaridade insultante. Eu decidira que eles no me fariam mal. O que quer que
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acontecesse, no teriam acesso  minha essncia. Senti que, se pudesse permanecer inacessvel, evitaria o pior.
       Ouvi de muito longe a voz de meu pai, em minha mente s vinha uma palavra, em letras maisculas. Descobri, porm, horrorizada, que essa palavra se esvaziara 
totalmente de sentido e no me remetia a nenhuma noo concreta alm da imagem de meu pai em p, lbios cerrados, o olhar ntegro. Eu a repetia como uma prece, como 
um encantamento mgico capaz talvez de desfazer o malefcio, DIGNIDADE. Isso no significava mais nada. Mas bastaria repeti-la para imitar a atitude de meu pai, 
como uma criana que imita as expresses no rosto do adulto diante dele e sorri ou chora, no porque sinta alegria ou dor, mas porque, reproduzindo as expresses, 
desencadeia em si mesma as emoes que elas devem manifestar.
       E por esse jogo de espelhos, sem que minha reflexo tivesse algo a ver com isso, compreendi que estava alm de meu medo e murmurei:
       - H coisas mais importantes na vida.
       A raiva me abandonou, dando lugar a uma extrema frieza. A alquimia que se operava em mim, imperceptvel do exterior, substitura a rigidez de meus msculos 
por uma fora do corpo que se preparava para enfrentar os choques da adversidade. No havia resignao, longe disso, e tampouco qualquer especulao. Eu me observava 
de dentro, media minha fora e minha resistncia, no pela capacidade
de dar golpes, mas pela capacidade de receb-los, como um navio que, apesar de
fustigado pelas ondas, no afunda.
       Ele se aproximou e, com um gesto rpido, tentou me passar a corrente em volta do pescoo. Esquivei-me instintivamente e dei um passo para o lado, ficando 
fora de seu alcance. Os dois outros, sem ousar avanar, lanavam invectivas para encoraj-lo a recomear. Ferido em seu orgulho, ele se controlava, calculando o 
momento exato de atacar de novo. Nossos olhares se cruzaram, ele deve ter lido no meu a determinao para evitar a violncia e deve t-la interpretado como arrogncia. 
Precipitou-se para cima de mim e, com um golpe seco, me bateu na cabea com a corrente. Ca de joelhos na frente dele. Ao redor o mundo girava. Depois da escurido 
inicial, com a cabea entre as mos, vi estrelas intermitentes atrs dos olhos, antes que minha viso voltasse enfim ao normal. Senti uma dor intensa, acrescida 
da grande tristeza que me invadia em pequenas ondas  medida que retomava a conscincia do que acabara de acontecer. Como ele se atrevera? No senti indignao, 
mas, bem pior, a perda da inocncia. Novamente meu olhar topou com o dele. Seus olhos estavam injetados de sangue e no canto da boca um ricto deformava seus lbios. 
Meu olhar lhe era insuportvel: ele tinha se desnudado na minha frente. Flagrei-o me observando com o horror que lhe produziam
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seus prprios gestos, e a ideia de que eu podia ser um reflexo de sua prpria conscincia o enlouquecia.
       Endireitou-se e, como para apagar qualquer rastro de culpa, comeou a me pr a corrente no pescoo de novo. Resisti com firmeza a seus gestos, evitando sempre, 
o mximo possvel, o contato fsico, s o suficiente para tornar evidente minha recusa. Por muito menos do que isso ele reagiria. Ento, retomou impulso e desceu 
mais uma vez a corrente sobre mim, com um rudo rouco que multiplicava a fora de seu golpe. Ca inerte, no escuro, perdendo a noo do tempo. Sabia que meu corpo 
era objeto das violncias deles. Escutava as vozes ao redor, cheias do eco tpico dos tneis.
       Senti-me vtima de uma investida, portanto de convulses, como levada num trem de grande velocidade. No creio que tenha perdido os sentidos, mas, embora 
suponha ter mantido os olhos abertos, os golpes que recebi no me permitiam mais ver. Meu corpo e meu corao ficaram gelados durante o curto espao de uma eternidade.
       Quando consegui afinal me sentar, estava com a corrente em volta do pescoo e o sujeito a puxava aos trancos, para me obrigar a segui-lo. Ele babava quando 
gritava comigo. A volta para o acampamento me pareceu muito longa sob o peso de minha humilhao e de seus sarcasmos. Um na minha frente, os dois outros atrs, eles 
falavam em voz alta e trocavam gritos de vitria. Eu no tinha vontade de chorar. No era orgulho. Era s um desprezo necessrio, para comprovar que a crueldade 
daqueles homens e o prazer que tiravam disso no haviam estragado minha natureza, porque no tinham atingido minha alma.
       Durante o tempo em suspenso daquela marcha sem fim, senti-me mais forte a cada passo, pois mais consciente de minha extrema fragilidade. Submetida a todas 
as humilhaes, obrigada a andar de coleira como um bicho, atravessando o acampamento inteiro debaixo dos gritos de vitria do resto da tropa, excitando os mais 
baixos instintos de abuso e dominao, eu acabara de ser testemunha e vtima do pior.
       Mas sobrevivi numa lucidez recm-adquirida. Sabia que, de certa forma, ganhara mais do que perdera. No tinham conseguido me transformar num monstro sedento 
de vingana. Esperei que o mal fsico se manifestasse no repouso e me preparei para o aparecimento dos tormentos do esprito. Mas j sabia que tinha a capacidade 
de me libertar do dio e vi naquele exerccio minha mais aprecivel conquista.
       Cheguei  jaula, vencida, mas certamente mais livre do que antes, tendo tomado a deciso de me isolar, de esconder minhas emoes. Clara estava sentada
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de costas, o rosto voltado para a parede, diante de uma tbua que fazia as vezes de mesa. Virou-se. Fiquei desconcertada com sua expresso, na qual adivinhei uma 
manifestao de satisfao que me feriu. Rocei nela ao passar, sentindo a imensa distncia que nos separava novamente. Procurei meu canto para me refugiar, debaixo 
do mosquiteiro, em cima de meu colcho, evitando pensar demais, pois no estava em condies de fazer avaliaes corretas. Por ora, estava aliviada por no terem 
considerado necessrio amarrar a outra ponta da corrente na grade com um cadeado. Sabia que mais tarde o fariam. Minha companheira no fez nenhuma pergunta e fiquei-lhe 
grata por isso. Depois de um longo momento de silncio, ela me disse simplesmente:
    -                No terei uma corrente no pescoo.
       Afundei num sono profundo, curvada sobre mim mesma, como um bicho. Os pesadelos voltaram, mas mudaram de natureza. J no era papai que eu encontrava ao dormir, 
e sim eu mesma, sozinha, afogando-me em guas paradas e profundas. Via as rvores me olharem, seus galhos se curvando para a superfcie trmula. Sentia a gua tremer 
como se estivesse viva e depois perdia de vista as rvores e os galhos, tragada no lquido salobro que me aspirava, cada vez mais fundo, meu corpo estendido dolorosamente 
para aquela luz, aquele cu inacessvel apesar de meus esforos para soltar os ps e subir  tona para respirar.
       Acordei exausta e suando. Abri os olhos e vi minha companheira, que me fitava. Ao me ver sair do sono, ela retomou o trabalho que estava fazendo.
    -                Por que voc no me seguiu? - perguntei.
    -                A garota iluminou a jaula quando eu ia sair. Deve ter ouvido um barulho... E eu no tinha ajeitado direito o meu boneco. Ela viu logo que eu 
no estava na cama.
    -                Quem era?
    -                Betty.
       Eu no quis prosseguir. Em certo sentido, estava zangada por ela no demonstrar interesse pelo que tinha me acontecido. Mas, por outro lado, sentia-me aliviada 
por no ter de falar de coisas que me faziam muito mal. Sentada no cho, com a corrente no pescoo, relembrei todo o percurso das ltimas 24 horas. Por que eu tinha 
fracassado? Por que estava de novo na jaula, quando tinha ficado livre, totalmente livre, ao longo daquela noite fantstica?
       Obriguei-me a pensar nos momentos sofridos que acabara de viver nos pntanos. Fiz ento um esforo sobre-humano para encarar a bestialidade daqueles homens. 
Queria me dar o direito de conferir um nome quilo, a fim de poder cicatrizar meus ferimentos e me lavar.
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       Meu corpo se rebelou: comecei a ter espasmos. Recolhi depressa os metros de corrente, pulei para fora da jaula e, em pnico, pedi ao guarda permisso para 
ir aos chontos. Ele no se deu ao trabalho de responder, sabendo que, no meu impulso, eu j tinha ido, encurtando a passos largos a distncia que nos separava do 
que servia de latrina. Meu corpo tinha a memria daquele trajeto e sabia que eu no chegaria l. O inevitvel aconteceu a um metro dali. Agachei-me ao p de uma 
pequena rvore e vomitei at as tripas. Meu ventre se esvaziou, sacudido por contraes secas e dolorosas que no deixavam mais nada subir. Enxuguei a boca com as 
costas da mo e olhei para um cu ausente. S havia verde. A folhagem cobria o espao como uma cpula. Diante da imensa natureza, senti-me ainda menor, os olhos 
midos pelo esforo e a tristeza: "Preciso me lavar".
       A hora do banho ainda demoraria muito, demais para quem no tinha mais nada a fazer alm de ruminar sua repugnncia. Alm disso, eu estava com as roupas encharcadas 
da vspera e cheirava mal. Queria falar com o comandante, mas sabia que ele se negaria a me receber. No entanto, a ideia de incomodar os guardas com o pedido me 
deu energia para sair da apatia e formul-lo. Pelo menos o guarda ficaria chateado por ter de me dar uma resposta.
       Ele me observou com desconfiana e esperou que eu lhe dirigisse a palavra. Por precauo, ajeitou o fuzil Galil verticalmente sobre a barriga, com a mo no 
cano, a outra na coronha, em posio de alerta.
     -                Eu vomitei.
     -                Preciso de uma p para cobrir o vmito.
     -                Diga ao comandante que preciso falar com ele.
     -                Volte para a jaula. Voc no tem direito de sair.
       Voltei. Ele parecia pensar depressa, desconfiado, notando que eu me afastara o suficiente do posto de guarda. Depois, com ar autoritrio, gesto brusco, berrou 
para o guerrilheiro mais acessvel. O outro veio andando, sem pressa. Vi os dois cochicharem enquanto me olhavam. O segundo se afastou e voltou com um objeto escondido 
na mo.
       Quando chegou perto da entrada da jaula, deu um pulo rpido para dentro. Pegou depressa a ponta da corrente, prendeu-a em volta de uma estaca e passou um 
cadeado grande.
       Era bvio que aquela corrente no pescoo, mais que pelo peso e pelo incmodo constante, era tambm uma confisso da fraqueza deles: temiam que eu conseguisse 
fugir definitivamente. Achei-os patticos com seus fuzis, suas correntes,
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uma profuso de homens, tudo isso para enfrentar duas mulheres indefesas. Em sua violncia, eram covardes, e eram frouxos numa crueldade que se exercia por conta 
da impunidade e da falta de testemunhas. As palavras da jovem guerrilheira me vieram  mente. Eu no tinha esquecido. Ela quisera me avisar que era realmente uma 
ordem. E me dissera.
       Como era possvel dar uma ordem dessas? O que podia passar na cabea de um homem para exigir tal coisa de seu subordinado? A selva me deixara meio boba. A 
inteligncia era caprichosa e naquele ambiente hostil eu havia perdido grande parte de minhas faculdades. Portanto, tornava-se essencial para mim abrir uma porta 
que me ajudasse a me situar novamente no mundo, ou melhor, a situar novamente o mundo dentro de mim.
       Eu era uma mulher adulta, tinha uma mente estvel. Isso me ajudaria a compreender? Provavelmente, no. H ordens a que devemos obedecer, acontea o que acontecer. 
Claro que a presso do grupo era forte. No s a dos trs homens que tinham recebido a ordem de me levar de volta e me punir, e que haviam incitado uns aos outros 
a ir mais longe na brutalidade, mas tambm a presso do resto da tropa, que os aclamaria se soubessem aplicar seu castigo. O que tinha sido fatal para mim no eram 
eles, mas a representao que haviam feito de si mesmos.
       Algum pronunciou meu nome e levei um susto. O guarda estava em p na minha frente. No o ouvira chegar. Ele abriu o cadeado. Eu continuava sem entender o 
que estava acontecendo. Ele se ajoelhou e passou a corrente entre meus ps formando um oito, para fech-la novamente com o mesmo cadeado enorme. Despeitada, fingi 
que ia me sentar, o que o irritou. Com ar condescendente, me informou que o comandante queria me ver. Com os olhos arregalados, perguntei como pensava que eu conseguiria 
andar com aquele monte de ferros entre as pernas. O guarda me pegou pelo brao para me pr de p e me empurrou para fora da jaula. O acampamento inteiro iria assistir 
de camarote ao espetculo.
       Olhei para meus ps, atenta em coordenar os passos, e evitei cruzar o olhar com quem quer que fosse. Disposto a bancar o tal na frente dos colegas, o guarda 
ordenou que eu me apressasse. No respondi e, como tampouco fiz cara de quem ia obedecer, ele se irritou de vez, disposto a no parecer um idiota diante dos colegas.
       Cheguei ao outro extremo do acampamento, onde ficava a barraca do comandante Andrs, tentando adivinhar que tom ele escolheria para essa audincia particular.
       Andrs era um homem que acabara de entrar na maturidade, feies finas de espanhol e pele acobreada. Nunca o achara propriamente antiptico, embora
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desde o primeiro dia em que assumira o comando daquela misso ele tivesse feito questo de se manter inacessvel. Eu pressentia nele um forte complexo de inferioridade. 
Ele conseguia escapar  desconfiana doentia quando a conversa desviava para as coisas da vida. Era loucamente apaixonado por uma moa bonitinha, sedenta de poder, 
que o levava pelo beio. Era bvio que a moa se aborrecia com ele, mas o fato de ser a mulher do comandante lhe dava acesso aos luxos da selva: reinava sobre os 
demais e, como se as coisas fossem concomitantes, engordava a olhos vistos. Talvez ele pensasse que eu pudesse ter alguma serventia para decifrar os segredos daquele 
corao feminino, que cobiava mais que tudo. Vrias vezes viera falar comigo, dando voltas no assunto, sem coragem de ir at o fim de seus pensamentos. Eu o ajudava 
a ficar  vontade, a falar de sua vida, a se abrir. De certa forma isso me dava a impresso de ser til.
       Andrs era, antes de mais nada, um campons. Seu grande orgulho era ter sabido se adaptar s exigncias da guerrilha. Baixo mas forte, sabia executar melhor 
que ningum aquilo que exigia de sua tropa. Fazia-se respeitar retificando ele mesmo as obras malfeitas dos subordinados. Sua superioridade residia na admirao 
que conseguia suscitar entre os soldados. Mas tinha duas fraquezas: o lcool e as mulheres.
       Encontrei-o esparramado na cama de campanha, entregue a uma brincadeira de ccegas com Jssica, sua companheira, cujos uivos de prazer ressoavam do outro 
lado do rio. Ele sabia que eu estava ali, mas no tinha a menor inteno de me dar a entender que poderiam interromper a brincadeira por minha causa. Portanto, fiquei 
 espera. Andrs acabou se virando, dando-me um olhar cuja inteno era aparentar menosprezo, e perguntou o que eu queria.
       - Gostaria de falar com voc, mas acho que seria melhor que estivssemos sozinhos.
       Ele se sentou, passou a mo nos cabelos e pediu  moa que nos deixasse, o que ela fez com um muxoxo e arrastando os ps. Minutos depois, Andrs pediu ao 
guarda que me acompanhara que tambm sasse. Finalmente fixou seu olhar em mim.
       A animosidade e a dureza que mostrava queriam indicar que no era nem um pingo sensvel ao espetculo da criatura destruda e acorrentada que tinha diante 
de si. Avaliamo-nos mutuamente. Ele estava curioso para assistir quela cena cujo piv era eu e que evidenciava as engrenagens da mecnica humana. Eu sabia que havia 
muitas coisas em jogo, como as rodas dentadas de um relgio que dependeriam umas das outras para se movimentar. Em primeiro lugar, eu era mulher. Ele poderia ter 
sido indulgente com um homem, o que revelaria uma nobreza
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de corao que aumentaria seu prestgio. Mas ali, sabendo estar cercado por dezenas de olhos que o escrutavam com mais avidez ainda uma vez que no poderiam ouvi-lo, 
seus gestos precisavam ser impecveis. Iria me tratar asperamente, para no se arriscar a parecer fraco. Em segundo lugar, o que haviam feito era odioso. Os cdigos 
escritos de que se prevaleciam no lhes deixavam a opo da dvida. Portanto, precisavam se refugiar nas zonas cinzentas do que chamavam de avatares da guerra: eu 
era o inimigo, eu tinha tentado fugir.
       Eles no podiam encarar os prprios atos como um erro que teriam de justificar, nem mesmo um abuso que tentariam esconder. Queriam considerar o que se passara 
como o preo a pagar pela afronta que eu lhes fizera. Portanto, no haveria sano contra seus homens e muito menos considerao comigo.
       Eu era uma mulher instruda, portanto perigosa. Poderia ficar tentada a manipul-lo, enrol-lo, e ele estaria perdido. Mais que nunca, ele estava de p atrs, 
endurecido por todos os seus preconceitos e todas as suas culpas.
       Mantive-me na frente dele, invadida pela serenidade que a distncia produz. No tinha nada a provar, estava derrotada, mortificada, no havia mais lugar para 
o amor-prprio em mim. Poderia viver com minha conscincia, mas queria compreender como Andrs viveria com a dele.
       O silncio que se instalou entre ns era o fruto de minha determinao. Ele queria acabar com aquilo, eu queria observ-lo  vontade. Ele me olhava de cima 
a baixo, eu o examinava. Os minutos iam sendo desfiados como uma punio.
    -                Ento, o que tem a me dizer?
       Ele me desafiava, no suportando minha presena, meu silncio obstinado. Ento ouvi-me recomear em voz alta, muito devagar, uma conversa que vinha tendo 
comigo mesma desde que voltara para a jaula.
       Ele fora imperceptivelmente transportado para a intimidade de minha dor, e,  medida que lhe revelava a profundidade de minhas feridas, como a um mdico a 
quem mostramos um machucado supurante, eu o via empalidecer, incapaz de me interromper, fascinado e enojado ao mesmo tempo. Eu j no precisava falar para me libertar. 
Podia, portanto, descrever com exatido o que tinha vivido.
       Ele permitiu que eu terminasse. Mas, assim que ergui os olhos, o que traa minha vontade secreta de escut-lo, reaprumou-se e assestou o golpe que preparara 
meticulosamente, bem antes que eu chegasse:
    -                 o que voc diz. Mas meus homens dizem outra coisa...
       Estava deitado de lado, apoiado num dos cotovelos, brincando negligente com um raminho que pendia em sua boca. Levantou os olhos e os fixou no 
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orizonte, nas outras barracas armadas em semicrculo em volta da sua, e onde a tropa se instalara para 
acompanhar nossa conversa. Sem pressa, seus olhos passaram por seus homens, de um a outro, como o fariam 
durante uma revista militar. Fez uma pausa e prosseguiu:
    -                E acredito no que meus homens dizem!
     Comecei a chorar sem controle, no conseguia acalmar a avalanche de lgrimas - contragolpe tanto mais 
inesperado pelo fato de eu no identificar o sentimento que o desencadeara. Tentei enfrentar aquela inundao 
com a ajuda de minhas mangas repugnantes devido ao cheiro de vmito, afastando o cabelo que grudava nas 
faces banhadas como para aumentar minha confuso, e s consegui acusar a mim mesma. A raiva me deixava 
digna de pena e a conscincia de ser observada s aumentava minha falta de jeito. A ideia de me mexer, de 
pegar o caminho de volta, acorrentada como estava, obrigou-me a me concentrar na mecnica do deslocamento e 
ajudou-me a recuperar o controle de minhas emoes. Eu tinha visto e ouvido coisas demais.
     Andrs, no mais se sentindo examinado, relaxou, dando vazo  sua malignidade.
    -                Tenho um corao sensvel... No gosto de ver mulher chorar, menos ainda uma prisioneira! 
Em nosso regulamento est estipulado que devemos ter considerao pelos presos...
     Sorria de orelha a orelha, sabendo que a galeria se deliciava. Com um dedo, fez sinal para aquele que me 
brutalizara. O sujeito se aproximou, balanando os ombros, com jeito de quem compreende a importncia da 
misso que lhe ser confiada.
    -                Tire-lhe as correntes, vamos mostrar a ela que as Fare sabem ter considerao.
     Violentei-me ao mximo para suportar o contato das mos daquele homem que roava minha pele ao 
introduzir a chave no cadeado pendurado em meu pescoo. Ele teve a inteligncia de no demorar, depois se 
ajoelhou sem olhar para mim e tirou a corrente que me prendia os ps.
     Aliviada desse peso, pensei no que fazer. Seria melhor ir embora sem perguntar mais nada, ou agradecer ao 
comandante o gesto de clemncia? Sua indulgncia era o resultado de um jogo pernicioso. O objetivo era 
ampliar o ultraje a que havia me submetido por meio de um capricho engenhoso, que me tornava devedora na 
relao com meu torturador. Ele havia planejado tudo, usando seus subordinados como lacaios de carrasco. 
Autor intelectual de sua vilania, pretendia ser seu juiz.
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    Optei pela sada que outrora tanto teria me custado. Agradeci-lhe com todas as frmulas de cortesia. Senti 
necessidade de me revestir de ritos, recuperar o que fazia de mim um ser humano civilizado, moldado por uma 
educao que se inscrevia numa cultura, numa tradio, numa histria. Mais do que nunca, sentia a necessidade 
de me afastar da barbrie. Ele me olhou surpreso, sem saber se eu estava debochando ou se acabara por curvar a 
espinha.
    Peguei o caminho de volta, sentindo em mim os olhares de escrnio, mas nos quais se podia ler o despeito 
pela constatao de que, apesar de tudo, eu me sara bem. Podia apostar que todos tinham concludo que a velha 
ttica das lgrimas por fim vencera a teimosia do comandante. Eu era uma mulher perigosa. Os papis tinham se 
invertido sub-repticiamente: outrora vtima, eu agora era temida por ser uma mulher "poltica".
    Essa denominao encerrava todo o dio de classe com que eles lavavam seus crebros diariamente. O 
doutrinamento era uma das responsabilidades do comandante. Cada acampamento era construdo segundo o 
mesmo modelo e compreendia a construo de uma sala de aula, onde o comandante informava e explicava as 
ordens e onde todo mundo devia denunciar qualquer atitude no revolucionria que tivesse testemunhado, sob 
pena de ser considerado cmplice, passvel de julgamento em corte marcial e de fuzilamento.
    Tinham explicado a eles que eu me candidatara s eleies presidenciais da Colmbia. Portanto, eu me 
encaixava no grupo dos refns polticos, cujo crime era, segundo as Fare, ter aprovado leis a favor da guerra. A 
reputao de nosso grupo era odiosa. ramos uma espcie de sanguessugas, prolongvamos a guerra para tirar 
dela vantagens econmicas. A maioria daqueles jovens no entendia o sentido da palavra "poltico". Ensinavam-
lhes que a poltica era a atividade dos que conseguiam ludibriar e enriqueciam sonegando impostos.
    O problema era que eu em grande parte concordava com essa explicao. Alis, tinha me envolvido com a 
poltica na esperana, se no de mudar esse estado de coisas, de pelo menos ter a possibilidade de denunciar a 
injustia.
    Para eles, todos os que no estavam com as Fare eram crpulas. De nada adiantava eu me esfalfar para 
explicar meu combate e minhas ideias, isso no lhes interessava. Quando lhes explicava que fazia poltica contra 
tudo que detestava - a corrupo, a injustia social e a guerra -, a resposta inevitvel era: "Todos vocs dizem a 
mesma coisa".
    Voltei para a jaula livre das correntes, mas com o peso daquela animosidade que se reforava contra mim. 
Foi ento que ouvi pela primeira vez essa cantiga farquiana cantada com uma melodia infantil:
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     Esos oligarcas hijue putas que se roban la plata de los pobres.
     Esos burgueses malnacidos los vamos a acabar, los vamos a acabar.* * Esses oligarcas filhos da puta que roubam a grana dos pobres. Esses burgueses malnascidos 
vamos acabar com eles, vamos acabar  com eles.
     No incio, era um ronronar, uma surdina vindo de uma das barracas, depois o canto se deslocou e veio me 
acompanhar em minha passagem. Perdida em divagaes, no achei ruim. Foi s quando vozes masculinas 
comearam a entoar o refro, articulando-o bem alto de propsito, que levantei o nariz. No que tivesse 
entendido de imediato a letra, j que volta e meia o sotaque regional que os fazia deformar certas palavras me 
obrigava a pedir que repetissem o que diziam, mas porque o circo que se instalara progressivamente acabou por 
provocar um riso geral. Essa mudana de atmosfera me trouxe de volta  realidade.
     Quem cantava era aquele mesmo homem que tinha soltado as correntes. Cantava com um sorriso esquisito 
nos lbios, bem alto, como que para ritmar os gestos, enquanto fazia de conta que arrumava suas coisas dentro 
da mochila. O outro, aquele que fizera o percurso da jaula  barraca, era um pobre-diabo, mirrado e careca, que 
costumava fechar os olhos a cada dois segundos, como se estivesse enfrentando um golpe. Uma das moas, 
sentada no colcho dos rapazes, se divertia em cantarolar a msica, que, visivelmente, todos conheciam de cor, e 
me olhava de soslaio. Hesitei, cansada de tanto combate, pensando que, afinal de contas, no devia me sentir 
visada por aquela letra. Havia na atitude deles a maldade criminosa dos ptios de recreio. Sabia que o melhor 
era me fazer de surda. Mas me decidi pelo contrrio e parei. O guarda que me seguia de perto mal teve tempo de 
parar tambm e quase se esborrachou como um bobo em cima de mim, o que o irritou. Intimou-me a avanar, 
num tom grosseiro, aproveitando um pblico que lhe era facilmente favorvel.
     Virei-me para a moa que cantarolava e ouvi-me dizendo:
     - No cante mais essa msica na minha frente. Vocs tm fuzis, no dia em que quiserem me matar, basta 
faz-lo.
     Ela continuou a cantar, junto com os companheiros, mas j tinha perdido o nimo. No podiam, diante de 
suas vtimas, fazer da morte uma espcie de uni-duni-t. Tinham entendido que no deviam se divertir com a 
morte.
     A ordem de tomar banho no custou a chegar. A tarde ia terminar e me anunciaram que o tempo dedicado a 
isso seria muito curto. Sabiam que a hora do
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banho era para mim o melhor momento do dia. Encurt-lo era um indcio do regime a que de agora em diante eu 
devia me sujeitar.
    Eu no disse nada. Escoltada por dois guardas, fui at o rio e mergulhei na gua cinzenta. A corrente 
continuava muito forte e o nvel da gua no parara de subir. Agarrei-me a uma raiz perto da margem e mantive 
a cabea submersa, com os olhos bem abertos, esperando assim lavar tudo o que tinha visto. A gua estava 
gelada e em contato com ela todas as minhas dores despertaram. Senti dor at a raiz dos cabelos.
    O lanche chegou assim que voltei para a jaula. Farinha, gua e acar. Naquela noite, eu estava toda 
enroscada em meu canto, dentro de roupas secas e limpas, para beber aquela colada, no porque era boa, mas 
porque era quente. No teria foras para enfrentar outros dias como aquele. Devia me proteger, inclusive de 
mim mesma, pois estava claro que eu no tinha condies para suportar por muito tempo o regime em que me 
mantinham. Fechei os olhos antes que casse a noite, mal respirando, na esperana de ver diminuir o sofrimento, 
a angstia, a solido e o desespero. Durante as horas dessa noite sem sono e os dias que se seguiram, todo o meu 
ser iniciou o curioso caminho da hibernao da alma e do corpo, esperando a liberdade como se fosse a 
primavera.
    O dia seguinte chegou, como todas as manhs e todos os anos de toda a minha vida. Mas eu estava morta. 
Tentava povoar as horas interminveis, ocupando meu esprito com outra coisa que no eu mesma, mas o mundo 
no me interessava mais.
    Vi-os chegar de longe, do outro extremo do acampamento, calados, um atrs do outro, ou melhor, um 
empurrado pelo outro. Quando estavam na altura do guarda, Yiseth falou-lhe algo ao ouvido. Ele fez um sinal 
com o queixo, autorizando a passagem. Ela lhe disse palavras que pareceram incomod-lo.
   -                Queremos falar com voc - disse-me, e eu me esforcei para no fazer cara de quem tinha algo 
a ver com aquilo.
    Ela usava o colete de tecido de camuflagem da vspera. Mantinha o mesmo ar duro e secreto que a 
envelhecia.
    Ergui os olhos para ela, olhos pesados de amargura. Seu companheiro fazia parte do grupo dos trs que 
haviam se enfurecido comigo nos pntanos. Sua simples presena me causou um arrepio de repulsa. Ela 
percebeu e apressou o rapaz com um toque no ombro:
   -                Vamos, diga a ela.
   -                Viemos... Vim dizer que... sinto muito. Peo perdo pelo que lhe disse ontem. 
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Yo no pienso que usted sea una vieja hijue'puta. Quiero pedirle perdn, yo s que usted es una persona 
buena! * * No acho que voc seja uma velha filha da puta. Quero lhe pedir desculpas, sei que voc  uma pessoa boa!
     A cena me pareceu surrealista. Aquele homem vinha me pedir desculpas, como um garoto que levou uma 
bronca da me severa. Sim, tinham me chamado de todos os nomes. Mas aquilo no era nada diante do horror 
que tinham me feito passar.
     Tudo era absurdo. A no ser o fato de que tinham vindo. Eu escutava. Achava que estava indiferente. Levei 
tempo at entender que aquelas palavras e a maneira como haviam sido ditas me aliviaram tremendamente.
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2. Adeus

23 de fevereiro de 2009

    Faz exatamente sete anos que fui sequestrada. A cada aniversrio, quando acordo, levo um susto ao tomar 
conscincia da data, embora h semanas saiba que ela est chegando. Empreendi uma contagem regressiva 
consciente, com a inteno de marcar esse dia para nunca, nunca esquec-lo, para descascar, remoer, ruminar 
cada hora, cada segundo da cadeia de instantes que culminaram com o horror prolongado de meu interminvel 
cativeiro.
    Levantei hoje de manh como todas as manhs, dando graas a Deus. Como todas as manhs depois de 
minha libertao, levo alguns instantes, fraes de segundo, para reconhecer o lugar onde dormi. Sem 
mosquiteiro, em cima de um colcho, com um teto branco em vez do cu camuflado de verde. Acordo naturalmente. A felicidade no  mais um sonho.
    Mas hoje, 23 de fevereiro, assim que abri os olhos senti-me culpada por no ter sabido. Sinto-me culpada 
por t-la perdido em minhas lembranas, e parece-me que o alvio de ter me lembrado  bem menor que o 
remorso de no ter pensado nele. Sob o efeito desse mecanismo de culpa e angstia, minha memria 
enlouqueceu, vomitando sobre mim tamanha quantidade de lembranas que tive de pular da cama e escapar dos 
lenis, como se o contato com eles pudesse, por um malefcio irreversvel, me tragar e me jogar novamente nas 
profundezas da selva.
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    Uma vez longe do perigo, com o corao bem ancorado na realidade, percebi
que o apaziguamento por ter reencontrado minha liberdade no podia nem de
longe ser comparado com a intensidade do martrio que vivi.
    Lembrei-me ento da passagem da Bblia que me impressionou quando 
eu estava no cativeiro. Era um cntico do Livro dos Salmos, em louvor a Deus e 
que descreve toda a dureza da travessia do deserto. A concluso me pareceu surpreendente. Dizia-se que a 
recompensa para o esforo, a coragem, a tenacidade, a 
resistncia, no era a felicidade nem a glria. O que Deus ofereceria como recompensa era o descanso.
     Para apreciar a paz  preciso envelhecer. Eu sempre tinha vivido num turbilho de acontecimentos. 
Sentia-me viva, era um ciclone. Casei-me cedo, meus dois 
filhos, Mlanie e Lorenzo, realizavam todos os meus sonhos e resolvi transformar 
meu pas com a fora e a cegueira de um touro. Acreditava na minha boa estrela, 
trabalhava duro e sabia fazer mil coisas ao mesmo tempo porque tinha certeza de 
que seria bem-sucedida.
    
Janeiro de 2002
    Eu estava viajando pelos Estados Unidos, acumulando noites insones e emendando um encontro no outro 
para angariar o apoio da comunidade colombiana 
para meu partido, Oxignio Verde, e a campanha presidencial. Minha me me 
acompanhava e estvamos juntas quando recebi uma ligao de minha irm, Astrid. 
Papai tivera um problema de sade, nada grave. Meus pais tinham se divorciado alguns anos antes, mas 
permaneciam muito prximos. Minha irm nos explicou que 
ele estava cansado e perdera o apetite. Lembramo-nos de imediato das mortes de 
meus tios e tias, todas repentinas, depois de um simples mal-estar. Astrid ligou dois 
dias depois: papai tivera uma parada cardaca. Precisvamos voltar imediatamente.
    A viagem de volta foi um pesadelo. Eu adorava meu pai. Os momentos passados perto dele nunca tinham 
sido banais. A existncia sem ele, eu imaginava, 
era como um deserto de tdio. Cheguei ao hospital para encontr-lo ligado a um 
aparelho assustador. Ele acordou, me reconheceu, seu rosto se transformou:
   -                Voc est aqui!
    E caiu novamente num sono profundo de barbitricos, para voltar a si dez 
minutos depois, reabrindo os olhos e exclamando de novo:
   -                Voc est aqui! - E assim sucessivamente, durante uma hora.
    Os mdicos pediram que nos preparssemos. O padre de sua parquia veio
lhe ministrar a extrema-uno. Durante um hiato de lucidez, ele chamou todos
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ns para perto da cama. Escolhera as palavras de seu adeus, dando a cada um uma bno com a justeza de um 
sbio que escruta os coraes. Deixaram-nos, a mim e minha irm, sozinhas com ele. Tomei conscincia de que 
chegara a hora de sua partida e de que eu no estava pronta. Ca em prantos na frente dele, agarrada 
desesperadamente em sua mo. Essa mo sempre estivera ali para mim, afastara os perigos, me consolara, me 
segurara para atravessar a rua e me guiara nos momentos difceis da vida, e me mostrara o mundo. Era ela que 
eu pegava assim que estava perto dele, como se ela me pertencesse.
    Minha irm virou-se para mim e disse, com ar severo:
   -                Pare. Nossa lgica  uma lgica de vida. Papai no vai morrer.
    E, pegando a outra mo dele, garantiu-me que tudo iria bem. Ela a apertou com fora. Enquanto eu 
soluava, sentia que algo extraordinrio nos acontecia. De meu brao, uma onda eltrica se difundia para suas 
artrias, atravs de meus dedos. O formigamento no deixava nenhuma dvida. Olhei para minha irm:
   -                Est sentindo?
    Sem mostrar surpresa, ela respondeu:
   -                Claro que estou sentindo!
    Nessa posio passei provavelmente a noite inteira. Estvamos mergulhadas no silncio, sentindo esse 
circuito de energia que se formara entre ns, fascinadas por uma experincia que no tinha nenhuma explicao, 
a no ser a do amor.
    Meus filhos tambm visitaram meu pai. Vieram de Santo Domingo com Fabrice, o pai deles. Fabrice 
continuava muito prximo de meu pai, embora no estivssemos mais casados. Meu pai sempre o considerou um 
filho. Quando Mlanie ficou sozinha comigo  cabeceira de meu pai, experimentou, ao segurar a mo dele, a 
mesma estranha sensao de corrente eltrica que Astrid e eu tnhamos sentido. Meu pai voltou a abrir os olhos 
quando Lorenzo lhe deu um beijo; Anas- tasia e Stanislas, os filhos de Astrid, ainda bem pequenos, 
permaneciam em volta querendo igualmente ficar abraados com ele. Meu pai se sentiu to feliz por ter a 
famlia inteira junto dele que comeou a se recuperar.
    Minha me e eu ficamos ao lado de papai no hospital durante as duas semanas que durou sua 
convalescena. Eu sabia que no teria foras para prosseguir, se por acaso ele viesse a me faltar.
    Em plena campanha presidencial, eu vivia um momento de extrema importncia para nosso partido. O 
Oxignio Verde era uma organizao poltica ainda jovem - criada quatro anos antes - e congregava um grupo 
de cidados apaixonados e independentes que lutavam contra os muitos anos de corrupo poltica que haviam 
paralisado a Colmbia. Defendamos uma plataforma 
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fundamentada numa alternativa ecolgica e um compromisso com a paz. ramos Verdes, apoivamos as 
reformas sociais, ramos "limpos", num pas em que a poltica era conduzida, com demasiada frequncia para o 
nosso gosto, por bares da droga mancomunados com os paramilitares.
     A doena de papai tivera como resultado a interrupo total de todas as minhas atividades polticas. 
Desapareci da cena jornalstica e despenquei em queda livre nas pesquisas. Em pnico, uma parte de meus 
colaboradores desertou, para engordar as fileiras do candidato que estava em primeiro lugar. Vi-me  sada do 
hospital com uma equipe reduzida para preparar a reta final. A eleio presidencial seria em maio. Tnhamos 
trs meses pela frente.
     A primeira reunio da equipe completa ps em pauta a agenda das semanas vindouras. A discusso foi 
inflamada. A maioria insistia para continuarmos com o programa que fora estabelecido no incio da campanha e 
que previa uma visita a San Vicente dei Cagun. Os membros da direo propunham que fssemos dar uma 
ajuda ao prefeito de San Vicente, o nico prefeito eleito no pas com a bandeira de nosso partido. A equipe 
queria que eu fizesse um esforo extra para compensar as semanas passadas  cabeceira de papai e que eu me 
envolvesse a fundo na campanha.
     Senti-me na obrigao de estar  altura da dedicao deles e aceitei a contragosto fazer a viagem a San 
Vicente. Ela foi anunciada numa entrevista coletiva, durante a qual explicamos nosso plano de paz para a 
Colmbia. Desde os anos 1940 o pas vivia mergulhado numa guerra civil entre o Partido Conservador e o 
Partido Liberal. A guerra fora to cruel que esse perodo era chamado de "La Violncia". Essa luta pelo poder se 
propagava a partir de Bogot, a capital, e ensanguentava o campo. Os camponeses identificados como liberais 
eram massacrados pelos partidrios dos conservadores e vice-versa. As Fare* nasceram espontaneamente da 
reao dos camponeses que procuravam se proteger contra essa violncia e evitar o confisco de suas terras pelos 
proprietrios liberais ou conservadores. Os dois partidos conseguiram chegar a um entendimento para dividir o 
poder e pr um fim  guerra civil, mas as Fare foram excludas desse acordo. Durante a Guerra Fria, o 
movimento deixara de ser uma organizao rural e defensiva, tornando-se uma guerrilha comunista e stalinista 
que tinha como objetivo a conquista do poder. Instituiu uma hierarquia militar e abriu frentes em vrias partes 
do pas, atacando o Exrcito e a polcia. Nos anos 1980, o governo colombiano tentou dar um fim s hostilidades.
* A sigla oficial da organizao  Farc-EP, que em espanhol significa Foras Armadas Revolucionrias da Colmbia - Exrcito do 
Povo.
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 Foi proposta s Fare uma trgua, em seguida firmada, e no Congresso votaram-se 
reformas polticas para apoiar um retorno  paz. Com o crescimento do trfico de drogas, porm, as Fare tinham 
encontrado um meio de financiar sua guerra e o acordo de paz fracassou. A organizao espalhou o terror no 
interior do pas, matando os camponeses e trabalhadores rurais que no aceitavam sua dominao. A disputa 
pelo controle da droga entre os traficantes e as Fare no tardou a dar ensejo a outra guerra, enquanto os para-
militares se manifestavam a favor de uma aliana entre a extrema direita poltica (particularmente os 
proprietrios) e os traficantes, destinada a enfrentar as Fare e expuls-las de suas regies. Em 1998, Andrs 
Pastrana venceu as eleies presidenciais com um programa que previa o engajamento num novo processo de 
paz com as Fare.
    O objetivo do Oxignio Verde era estabelecer um dilogo simultneo com todos os atores do conflito, 
mantendo uma forte presso militar. Para melhor salientar nossa mensagem na entrevista coletiva, sentei-me no 
centro de uma mesa comprida, entre as fotos de papelo, em tamanho natural, de Manuel Marulanda, o chefe das 
Fare (a mais antiga guerrilha comunista da Amrica do Sul), e Carlos Castano, seu maior adversrio, o chefe dos 
paramilitares, assim como dos generais do Exrcito colombiano que combatiam os dois grupos.
    Dias antes, em 14 de fevereiro, ocorrera um debate televisionado de todos os candidatos  presidncia, 
justamente em San Vicente dei Cagun, com os membros do Secretariado das Fare. Esse encontro fora 
organizado pelo governo que estava deixando o poder e que pusera o avio presidencial  nossa disposio para 
fazer a viagem de ida e volta. O governo queria angariar apoio para seu processo de paz com as Fare. O 
processo era alvo de crticas cada vez mais acerbas, pois a organizao tinha conseguido o controle de uma zona 
de 42 mil quilmetros quadrados, praticamente do tamanho da Sua, como garantia para se sentar  mesa de 
negociaes. San Vicente dei Cagun era exatamente o centro dessa zona.
    Os membros das Fare sentaram-se de um lado, os candidatos e membros do governo, do outro. O encontro 
virou um requisitrio contra a guerrilha, acusada de bloquear as negociaes.
    De meu lado, quando me deram a palavra, exigi das Fare um comportamento coerente com seus discursos 
de paz. O pas tinha acabado de assistir com horror  morte de Andrs Felipe Prez, um garotinho de doze anos 
que suplicara que o deixassem falar com o pai antes de morrer. A criana estava com um cncer em fase 
terminal e o pai era soldado do Exrcito colombiano feito refm pela organizao havia vrios anos. As Fare no 
cederam. Expus a amargura que todos ns sentimos
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e o horror diante da falta de humanidade de um grupo que se proclamava defensor dos direitos humanos. 
Conclu que a paz na Colmbia deveria comear pela libertao dos refns - mais de mil - das Fare.
     Na semana seguinte, as Fare piratearam um avio comercial no sul do pas e sequestraram o senador 
mais importante da regio, Jorge Eduardo Gechem. O presidente da Repblica encerrou o processo de paz. 
Num discurso televisionado, anunciou que em 48 horas o Exrcito colombiano retomaria o controle da regio 
e desalojaria as Fare do territrio.
     Nas horas que se seguiram, o governo anunciou que as Fare tinham abandonado o territrio de San 
Vicente e que a ordem fora restabelecida. Como prova, a imprensa anunciava uma viagem do presidente 
Andrs Pastrana  cidade, dali a dois dias, exatamente no dia em que tnhamos previsto a nossa, semanas 
antes.
     As linhas telefnicas de nosso quartel-general ficaram congestionadas. Se o presidente ia a San Vicente, 
tambm poderamos ir! Minha equipe de campanha entrou em contato com o gabinete do presidente para 
perguntar se podamos viajar com a comitiva do presidente, mas o pedido foi negado. Depois de longas horas 
de conversas com meio mundo, ficou claro que era possvel chegar de avio a Florncia - cidade a 370 
quilmetros ao sul de Bogot - e fazer de carro o resto do percurso. O aeroporto de San Vicente estava sob 
controle militar e fechado aos voos civis. Os servios de segurana confirmaram uma escolta slida: dois 
carros blindados nos esperariam na descida do avio, um para mim, outro para a equipe de segurana que se 
deslocaria comigo e com o grupo que me acompanhava, bem como batedores na frente e atrs da comitiva.
     Falei ao telefone com o prefeito de San Vicente. Ele insistia muito para que eu fosse. Helicpteros 
militares tinham sobrevoado a cidade durante a noite toda e a populao estava amedrontada. As pessoas 
temiam represlias, tanto dos paramilitares como da guerrilha, pois a cidadezinha de San Vicente apoiara o 
processo de paz.
     O prefeito contava com a cobertura da mdia da qual eu, como candidata a presidente, me beneficiava, 
para alertar a opinio pblica sobre os riscos corridos pela populao. Pensava que eu poderia servir de 
escudo contra as aes violentas de que ela eventualmente seria vtima. Para acabar de me convencer, 
argumentou que o bispo de San Vicente pegara a estrada naquela mesma manh e chegara a seu destino sem 
dificuldade. O trajeto no era perigoso.
     Portanto, aceitei ir, contanto que a presena do dispositivo de segurana em solo me fosse confirmada 
antes de nossa partida, prevista para as cinco horas da manh seguinte.
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    Naquela noite, eu estava exausta ao sair do nosso quartel-general. Mas minha noite apenas comeava. 
Tinha um encontro com amigos da esquerda colombiana muito engajados em favor de uma paz negociada. Nosso 
objetivo era elaborar, juntos, uma estratgia diante da nova situao de retomada das hostilidades. Sa da 
reunio para ir ao jantar de uma colaboradora de minha campanha que reunira em sua casa o "ncleo duro" do 
grupo. Todos ns precisvamos nos encontrar para comentar os acontecimentos recentes.
    No meio da noite, recebi um telefonema de uma de minhas novas colaboradoras, Clara. Ela havia entrado 
em nossa campanha substituindo nosso administrador, que fora engrossar as fileiras de outro candidato  
presidncia. Queria participar da viagem a San Vicente. Seria melhor que no fosse, respondi. Havia tanto 
trabalho a fazer nos prximos dias, repeti-lhe vrias vezes, que ela poderia passar o fim de semana preparando 
as providncias que seriam necessrias. Clara insistiu. Recm-chegada  campanha, queria mergulhar nos 
assuntos, conhecer nossa equipe de San Vicente. Combinamos, ento, que eu passaria para peg-la de carro, de 
madrugada.
    Sa da reunio s dez da noite. Tinha pressa de ir para os braos de papai. Ele ainda no teria jantado, pois 
estaria  minha espera, e eu queria coloc-lo na cama antes de ir para casa. Desde sua sada do hospital eu me 
impusera a regra de concluir meu dia de trabalho indo lhe dar um beijo. Era um prazer sempre renovado discutir 
com ele sobre todas as pequenas crises do momento. Ele olhava para o mundo do alto. Ali onde eu via imensas 
ondas, ele via apenas um mar ondulante.
    Eu sempre chegava com o rosto frio e as mos geladas, feliz de poder beij-lo. Ele tirava a mscara de 
oxignio e fazia um ar de quem estava desagradavelmente surpreso. "Ai! Parece um sapo!" dizia, como se no 
gostasse que eu me encostasse nele e o fizesse sofrer o frio trazido de fora.
    Era uma brincadeira que desencadeava uma chuva de beijos e ele ria.
    Mas quando cheguei naquela noite ele estava, sob a mscara de oxignio, com uma aparncia grave. Pediu-
me para sentar no brao da poltrona, o que fiz, intrigada. Disse-me ento:
   -                Sua me est muito aflita com sua viagem amanh...
   -                Mame vive aflita com tudo... - respondi, despreocupada, e depois, refletindo, acrescentei: - E 
voc, est inquieto?
   -                No, no propriamente.
   -                Se no quiser que eu v, cancelo tudo, voc sabe.
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                    Papai, se eu no for, no tem a menor importncia. E no estou exatamente com vontade de 
ir, gostaria de ficar com voc.
     Meu pai era prioridade absoluta na minha vida naquele momento. No dia de sua sada do hospital, seu 
mdico tinha nos chamado  parte, minha irm e eu, e nos levara para uma salinha abarrotada de 
computadores. Mostrando numa tela um corao que batia, ele apontara um percurso caprichoso: "Esta  a 
artria que mantm seu pai vivo. Ela vai arrebentar. Quando? S Deus sabe. Pode ser amanh, depois de 
amanh, daqui a dois meses ou dois anos. Preparem-se".
    -                Papai, me diga que prefere que eu fique, e eu ficarei.
    -                No, minha querida, faa o que tem de fazer. Voc deu sua palavra, as pessoas de San 
Vicente a esperam, voc tem de ir.
     Pousei a mo na dele, como sempre. Olhamo-nos nos olhos, calados. Papai sempre tomava suas decises 
baseando-se em princpios. Eu tinha me rebelado muito contra isso; quando jovem, achava essa atitude rgida 
e boba. Depois, quando eu mesma tive de tomar minhas decises, compreendi que, diante da dvida, o melhor 
caminho era sempre o dele. Fiz de seu exemplo minha prpria mxima, e deu certo. Naquela noite, tambm 
encarava a viagem a San Vicente como uma questo de princpios.
     De repente, numa espcie de mpeto irracional, ouvi-me dizer a ele:
    -                Papai, espere por mim! Se me acontecer alguma coisa, espere por mim! Voc no vai morrer!
     Seus olhos se arregalaram de surpresa e ele me respondeu:
    -                Claro que esperarei, no vou morrer.
     Depois seu olhar sossegou, ele respirou fundo e acrescentou:
    -                Sim, esperarei por voc, meu amor. Se Deus quiser.
     Ento virou-se para a imagem de Jesus que havia no quarto. Seu olhar era to intenso que me obrigou a 
virar-me tambm. Aquela imagem, que estava l desde sempre, eu nunca a observara de verdade. Aos meus 
olhos de adulta, parecia-me um tantinho kitsch. Mas era um Jesus de ressurreio, cheio de luz, os braos 
abertos e o corao saliente. Ele me pediu para me colocar  sua frente, sob a imagem sacra, e disse:
    -                Mi buen Jesus, cuidame a esta nina* * Meu bom Jesus, tome conta desta menina.
     Deu uns tapinhas em minha mo, para indicar que era de mim que falava, como se seu pedido pudesse se 
prestar a confuso.
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    Levei um susto, assim como ele levara outro minutos antes. Suas palavras me pareciam curiosas. Por que 
dizia "esta menina", e no "minha filha"? Papai costumava usar expresses antiquadas, nascera antes do bonde, 
no tempo das berlindas e das velas. Fiquei imvel, observando a expresso de seu rosto.
   -                Cuidame a esta nina.
    Repetiu duas ou trs vezes a frase, que me impregnou intimamente, como se fosse gua que ele tivesse 
despejado sobre minha cabea.
    Ajoelhei-me na frente dele, apertando suas pernas contra mim, e encostei nelas meu rosto:
   -                No se preocupe. Vai dar tudo certo.
    Era mais para me tranquilizar que eu proferia essas palavras. Depois, ajudei-o a ir para a cama, tomando o 
cuidado de posicionar corretamente o balo de oxignio em sua cabeceira.
    Ele ligou a televiso, que estava transmitindo o ltimo telejornal. Aninhei-me contra ele e descansei minha 
cabea em seu peito, escutando os batimentos de seu corao, e adormeci em seus braos, confiante.
    Por volta de meia-noite me levantei, apaguei as luzes e o beijei, cobrindo-o bem. Ele estendeu a mo para 
me dar a bno e dormiu antes mesmo que eu tivesse cruzado a porta. Virei-me para olh-lo uma ltima vez 
antes de ir embora, como fazia todas as noites.
    No podia saber que essa era a ltima vez que o via.
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3. A captura

23 de fevereiro de 2002

     A escolta chegou como previsto, um pouco antes das quatro da manh. Ainda era noite e vesti meu 
uniforme de campanha: camiseta com nosso slogan da eleio, "Por uma Colmbia Nova", jeans e botinas de 
marcha. Pus o casaco de l grossa e, antes de partir, num impulso, tirei o relgio.
     Pom, minha cadela, era a nica em casa que j estava acordada. Beijei-a entre as duas orelhas e sa, com 
uma sacola pequena, apenas o necessrio para passar uma noite fora.
     Quando cheguei ao aeroporto, verifiquei se o plano de segurana fora mesmo confirmado. O capito 
encarregado da coordenao da equipe de segurana tirou um fax do bolso e me mostrou:
     - Est tudo em ordem, os veculos blindados foram postos  sua disposio pela prefeitura.
     Sorriu para mim, satisfeito por ter cumprido sua misso.
     O restante do grupo j estava no local. O avio decolou de manhzinha. Faramos escala em Neiva, a 250 
quilmetros de Bogot, bem antes de atravessar os Andes e aterrissar do outro lado, em Florncia, capital do 
departamento do Caquet, nos Llanos Orientales, uma extenso de terras planas e luxuriantes entre  floresta 
amaznica e a cadeia andina. Ento pegaramos o carro para San Vicente.
     A escala, que devia durar cerca de meia hora, prolongou-se um pouco mais
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de duas horas. Mal me dei conta disso, pois meu celular no parou de tocar: um artigo venenoso na imprensa 
local falava da ciso que houvera em nossa equipe de campanha. O jornalista s publicara as declaraes 
indelicadas daqueles que tinham desertado. A equipe estava indignada e queria que reagssemos o quanto antes. 
Passei grande parte do tempo ao telefone, no papel de intermediria entre o quartel-general da campanha e o 
editor do jornal em questo para conseguir que nossa explicao dos fatos fosse publicada.
    Pegamos de novo o avio num calor sufocante. Chegando a Florncia, j estvamos atrasados em relao  
programao. Mas ainda havia tempo suficiente para chegar a San Vicente antes do meio-dia. Os cerca de cem 
quilmetros que tnhamos pela frente podiam ser feitos em menos de duas horas.
    O aeroporto de Florncia fora inspecionado pelas foras militares. Uma dzia de helicpteros Black Hawk 
alinhados na pista esperava, com as hlices girando, a ordem de decolar. Assim que desci do avio fui recebida 
por um coronel encarregado das operaes no local; ele me levou a uma sala com ar-condicionado forte 
enquanto minha segurana contatava os responsveis pelo nosso deslocamento terrestre e cuidava dos ltimos 
detalhes antes da partida. O coronel aproximou-se respeitosamente e, muito corts, ofereceu-se para nos levar de 
helicptero at San Vicente:
   -                Temos helicpteros que partem a cada meia hora. A senhora pode subir no prximo.
   -                 muita gentileza sua, mas somos quinze...
   -                Deixe-me fazer uma consulta.
    Saiu e voltou dez minutos depois, anunciando, com ar contrariado:
- S podemos levar cinco pessoas a bordo.
    O capito que cuidava de minha segurana foi o primeiro a reagir:
   -                Uma parte da equipe de segurana pode ficar.
    Perguntei se o helicptero poderia levar sete.
   -                Sem problemas - concordou o coronel, pedindo para esperarmos em sua sala pelo prximo 
helicptero.
    Previa-se meia hora de espera. Minha segurana estava reunida, provavelmente para decidir quem me 
acompanharia. Um dos guarda-costas se dedicava a limpar sua arma e recolocava as balas no revlver. As balas 
tinham sido retiradas para a viagem de avio. Nessa manobra, ele acionou o gatilho e ouviu-se um tiro, 
felizmente sem consequncias. A bala passou por mim raspando e quase morri de susto, de to nervosa que 
estava.
    Eu detestava esses pequenos incidentes, no por si mesmos, mas por causa
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das ideias que eles faziam vir imediatamente  cabea. Costumava ter pensamentos discordantes, que me davam 
a impresso de que havia vrias pessoas falando ao mesmo tempo dentro de meu crebro. "Mau pressgio", 
ressoava a voz em mim num tom monocrdico, como no roteiro de um filme ruim. "Que ideia estpida, ao 
contrrio, que sorte!" Eu via minha equipe em alerta, espreitando minha reao, e o pobre sujeito, vermelho at 
as orelhas, que se desdobrava em desculpas.
    -                No se preocupe. Mas sejamos prudentes. Estamos todos cansados - eu disse, para pr um fim 
no incidente.
     Pensei em ligar para papai, mas me lembrei de que naquela regio as comunicaes eram arriscadas. A 
espera se prolongou. O resto do grupo se dispersou, uns indo ao banheiro, outros indo beber alguma coisa. Eu j 
tinha visto mais de trs helicpteros levantando voo e a nossa vez no chegava. No queria parecer impaciente, 
ainda mais que a oferta era muito generosa. Por fim, levantei-me  cata de informaes.
     O coronel estava l fora, discutindo com meus oficiais de segurana. Ao me ver chegar, interrompeu a 
discusso e virou-se para mim, embaraado.
    -                Sinto muito, senhora, acabei de receber ordens de no lev-los de helicptero.  uma ordem 
de cima, no posso fazer nada.
    -                Bem, nesse caso, temos de voltar ao Plano A. Senhores, podemos pegar a estrada 
imediatamente?
     O silncio de minha escolta era pesado. O coronel me sugeriu ento apelar para seu general, que estava na 
pista:
    -                S ele pode dar a autorizao.
     Um grandalho meio rude estava dando ordens na pista de aterrissagem. Era o general em questo.
     Recebeu-me com uma agressividade que me constrangeu.
    -                No posso fazer nada pela senhora. Libere a pista, por favor!
     Por um instante, pensei que ele no tinha me reconhecido e tentei lhe explicar a razo de minha presena 
ali. Mas ele sabia quem eu era e o que queria. Irritado, distribua ordens aos seus subordinados a todo momento, 
ignorando-me grosseiramente, de modo que acabei falando sozinha. Ele sem dvida nutria preconceitos em 
relao a mim, decerto em razo das discusses no Congresso durante as quais eu denunciara casos de corrupo 
entre alguns funcionrios de alto escalo. Sem perceber, elevei o tom de voz. Cmeras brotaram do nada e num 
segundo um grupo de jornalistas nos rodeou.
     O general passou um brao em meus ombros e me empurrou para o escritrio, a fim de que sassemos da 
pista e nos afastssemos das cmeras. Explicou que
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estava apenas obedecendo a uma ordem, que o presidente chegaria dali a pouco, acompanhado de uma centena 
de jornalistas, e que os helicpteros deviam ficar  disposio para transport-los a San Vicente.
    - Se quiser esperar aqui, ele vai passar bem na sua frente e, se vir a senhora, com toda certeza vai parar 
para cumpriment-la e dar a ordem de transport-la.  tudo que posso fazer pela senhora - acrescentou.
    Fiquei ali, de mos abanando, pensando se de fato precisava me prestar a essa encenao. Mas, antes 
mesmo que eu conseguisse refletir seriamente sobre a questo, um bando de jornalistas acorrera para o meu lado 
a fim de filmar a aterrissagem do avio presidencial. Nem pensar em me mexer. Teria sido interpretado como 
falta de cortesia.
    A situao era ainda mais embaraosa porque o presidente da Repblica estava a par de nosso pedido da 
vspera para viajar com o grupo de jornalistas que se deslocaria para San Vicente, pedido que ele mesmo tinha 
se negado a atender. Fazia 24 horas que os telejornais no paravam de repetir que a regio estava liberada e que 
as Fare tinham evacuado completamente a rea. A viagem do presidente a San Vicente confirmava isso: era 
preciso mostrar ao mundo inteiro que o processo de paz empreendido pelo governo no havia sido um grande 
erro, que sua consequncia seria a perda, para a guerrilha, de parte significativa do territrio nacional. Pelo que 
consegui saber, a zona estava sob controle militar: helicpteros das Foras Armadas no pararam de decolar 
para San Vicente desde nossa chegada. Caso Pastrana se negasse de novo a atender nosso pedido, teramos, pura 
e simplesmente, de pegar a estrada como prevramos, sem perder mais tempo.
    O avio do presidente aterrissou, um tapete vermelho foi desenrolado na pista, colocou-se a escada diante 
da porta. E a porta no se abriu. Nas janelinhas apareceram rostos, que logo se esconderam. Eu estava em p, 
bloqueada entre a fileira dos soldados em posio de sentido e a massa de jornalistas atrs de mim, com uma 
nica vontade: sumir.
    Nem sempre as relaes com o presidente Andrs Pastrana tinham sido boas. Eu o apoiara durante sua 
campanha, com a condio de que ele iniciasse amplas reformas contra a corrupo poltica, modificando 
particularmente o sistema eleitoral. Ele no cumprira a palavra, eu passara para a oposio. Ele atacara ferozmente minha equipe e conseguira aliciar dois dos meus 
senadores.
    Entretanto, eu sempre o apoiara no processo de paz. Poucas semanas antes, tnhamos nos encontrado num 
coquetel na embaixada da Frana e ele me agradecera por meu apoio indefectvel s negociaes de paz.
    A porta do avio acabou se abrindo. O primeiro a descer no foi o presidente,
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mas seu secretrio. Lembrei-me de repente de um incidente que desde ento me sara da cabea. Durante o 
debate televisionado com os comandantes das Fare, nove dias antes, eu sustentara a tese da necessidade de 
coerncia entre a ao e o discurso de cada uma das partes para criar um espao de confiana entre o governo e 
a organizao. Minhas crticas s Fare tinham sido, de fato, severas, mas no menos do que as que fizera ao 
governo. Em particular, eu explicara que um governo que parecia complacente com a corrupo no era digno 
de credibilidade num processo de paz. E tinha mencionado um caso escandaloso, em que o secretrio do 
presidente fora acusado de manipular em benefcio prprio a compra de uniforme para as foras de ordem, 
razo pela qual eu pedia que fosse afastado de suas funes. Ora, os dois eram amigos ntimos. Fazer seu 
secretrio descer primeiro era uma mensagem clara do presidente para mim: ele me recriminava por minhas 
declaraes. Punha o secretrio na sua frente para que eu soubesse que este contava com todo o seu apoio.
     O que aconteceu em seguida apenas confirmou minhas dedues. O presidente passou na minha frente 
roando em mim, sem parar para me estender a mo. Recebi calada a afronta. Dei meia-volta mordendo os 
lbios: bem feito para mim, deveria ter ido embora sem esperar!
     Aproximei-me de meu grupo, mergulhado na consternao mais completa.
    -                Vamos, precisamos ir, j estamos muito atrasados! - eu disse.
     Meu capito, vermelho como um pimento, transpirava de dar pena dentro do uniforme. Eu me preparava 
para reconfort-lo com uma palavra gentil quando ele disse:
    -                Senhora, sinto muito, recebi agora mesmo uma ordem peremptria de Bogot. Minha misso 
acaba de ser cancelada. No posso acompanh-la a San Vicente.
     Olhei para ele, incrdula.
    -                Espere, no estou entendendo. Que ordem? De quem? Do que est falando?
     Ele se adiantou, tenso, e me estendeu o papel, que amassava nervosamente nas mos. De fato, estava 
assinado por seu superior. Ele me explicou que acabara de passar vinte minutos ao telefone com Bogot, 
tentando de tudo, mas que a ordem viera "do alto". Perguntei-lhe o que isso significava e ele disse, com um 
doloroso suspiro:
    -                Da presidncia, senhora.
     Ca das nuvens, comeando a compreender a extenso do estrago. Se eu fosse para San Vicente, viajaria, 
de novo, sem proteo. Isso j tinha acontecido, quando
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o governo nos recusara um reforo para a minha escolta para atravessar o vale do Mdio Madalena, a terra 
banida dos paramilitares. Olhei ao redor, para a pista agora quase deserta. Os ltimos jornalistas da comitiva 
presidencial estavam subindo num helicptero semivazio, e trs outras aeronaves, com as hlices girando, 
permaneciam no solo, sem passageiros para transportar.
    O general se aproximou e me disse, com ar paternalista:
   -                Bem que eu avisei!
   -                Bom, e agora, o que prope? - perguntei, irritada. - Afinal de contas, se eu no tivesse levado 
a srio a proposta de seu coronel, teria partido h muito tempo e j teria chegado a San Vicente!
   -                Faa o que havia programado antes! Pegue a estrada! - ele retrucou, contrariado, e o vi 
desaparecer dentro do prdio, com todos os seus gales.
    O que no era to simples, pois ainda precisariam ter nos deixado os carros blindados.
    Aproximei-me de novo de minha equipe de segurana para saber o que estava programado no que se referia 
 equipe local, que devia assegurar nosso transporte. Todos se atrapalharam, sem saber o que responder. Um 
deles, que fora enviado em busca de notcias, voltou com ar desolado.
   -                Os homens da equipe local tambm partiram. Receberam ordens de abortar a misso.
    Tudo tinha sido tramado para evitar minha chegada a San Vicente. Provavelmente o presidente temia que 
minha presena l o prejudicasse. Sentei-me um instante para refletir: o calor, o barulho, as emoes 
embrulhavam minhas ideias. Quis agir da melhor maneira possvel.
    O que aconteceria com nossa democracia se os candidatos  presidncia aceitssemos que, ao retirar nossa 
segurana, o governo nos impusesse uma tutela  nossa estratgia de campanha? No ir a San Vicente era aceitar 
uma censura suicida. Era perder a liberdade de se expressar sobre a guerra e sobre a paz e a capacidade de agir 
em favor das populaes marginalizadas que no tinham direito  palavra. Nessas condies, aquele que tinha o 
poder poderia, da mesma forma, designar seu sucessor.
    Um dos integrantes da nossa segurana conseguira estabelecer um bom contato com homens da segurana 
do aeroporto. Esses funcionrios podiam pr  nossa disposio um dos veculos oficiais estacionados, para o 
trajeto a San Vicente. Aps se informar, ele voltou com a autorizao.
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     Era um pequeno 4x4 Luv, com uma cabine na frente, portas duplas e uma caamba aberta atrs. S havia 
lugar para cinco pessoas: nada a ver com o carro blindado com que contvamos. Pedi a opinio do grupo. Uns 
riram, outros deram de ombros. Meu chefe de logstica, Adair, se aproximou para se oferecer como motorista. 
Sem hesitar, Clara se declarou pronta para ir a San Vicente. Nosso assessor de imprensa desistiu - queria que 
houvesse lugar para o cinegrafista e para um dos jornalistas estrangeiros que nos acompanhavam. Os dois 
jornalistas franceses estavam em acalorada discusso. Finalmente, a jovem reprter resolveu no ir. No se 
sentia em segurana e preferia que seu companheiro mais velho fosse conosco, ele faria belas fotos. Um dos 
membros de minha segurana me pegou pelo brao e pediu que lhe concedesse alguns minutos. Era o mais 
antigo do grupo, incumbia-se de minha proteo fazia mais de trs anos. Fora o nico a ir comigo ao vale do 
Madalena.
    -                Quero ir com a senhora. - Tinha o semblante nervoso e embaraado. - No gosto do que esto 
fazendo com a senhora.
    -                Falou com seu superior?
    -                Falei.
    -                Se me acompanhar, o senhor corre o risco de ser demitido?
    -                Seguramente.
    -                No, escute aqui. No  hora de criar mais dificuldades! - Ento, querendo um conselho, 
perguntei: - O que pensa da estrada? Acha que pode ser perigosa?
     Ele sorriu, triste. Respondeu-me com ar resignado:
    -                No mais do que em outro lugar.
     Depois, como para explicar no que se fundamentava seu pensamento, acrescentou:
    -                Os militares esto por todo lado,  seguramente menos perigoso do que nossa travessia do 
Madalena! Telefone-me assim que chegar a San Vicente, farei o necessrio para que a volta transcorra em 
condies melhores.
     Minha equipe cobrira o veculo de cartazes improvisados com meu nome e a palavra PAZ. Estvamos prestes 
a partir quando o homem do departamento de segurana que nos conseguira o carro veio correndo em nossa 
direo, visivelmente excitado. Segurava na mo umas folhas de papel e explicava, ofegante:
    -                Vocs no podem ir embora sem assinar um termo de responsabilidade. Este  um veculo do 
Estado, se por acaso houver um acidente, tero de assumir as despesas!
     Fechei os olhos. Tinha a impresso de estar num filme cmico mexicano.
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Decididamente, queriam fazer de tudo para atrasar nossa partida. Sorri, armando-me de pacincia.
   -                Onde  preciso assinar? - perguntei.
    Clara pegou a folha me dizendo, gentil:
   -                Eu cuido disso, espero que meus anos de direito me sirvam para alguma coisa!
    Achei graa e deixei o assunto por conta dela. J era meio-dia, o calor estava ficando sufocante, no 
devamos esperar mais.
    Pegamos a estrada, com o ar-condicionado no mximo. S a perspectiva de passar duas horas naquele 
pequeno forno metlico respirando um ar artificial me deixou no maior mau humor.
   -                H uma barreira militar na sada de Florncia.  s questo de rotina para controle de 
identidade.
    Eu tinha feito aquele trajeto inmeras vezes. Os militares eram sempre meio tensos. A barreira logo 
apareceu  nossa frente. Os carros, em fila, esperavam pacientemente. Todo mundo devia ser revistado. 
Estacionamos o carro e descemos.
    O telefone tocou. Remexi em minha bolsa e levei alguns segundos para peg-lo e atender. Era mame. Eu 
estava surpresa com sua ligao, pois em geral na sada de Florncia no havia mais sinal. Contei-lhe os ltimos 
detalhes de nossas peripcias:
   -                Minha escolta recebeu ordem de no vir comigo. Parece que isso foi obra do presidente em 
pessoa. Mas mesmo assim preciso ir, dei minha palavra. Gostaria de estar com papai. Diga a ele que lhe mando 
um monte de beijos.
   -                No se preocupe, querida, vou dizer a ele. E estou com voc a cada segundo, a cada passo que 
der estarei com voc. Seja prudente.
    Enquanto falava com mame, os militares se apossaram do veculo, examinando minuciosamente o tapete, 
as sacolas e o porta-luvas. Ao desligar, segurei-me para no dar um telefonema a papai. Virei-me para o oficial 
que estava meio afastado, provavelmente encarregado de supervisionar as operaes, e perguntei como andava o 
trnsito.
   -                Est tudo normal. At agora no tivemos problemas.
   -                Qual  a sua opinio?
   -                No tenho opinio a lhe dar, senhora.
   -                Bem, mesmo assim agradeo.
    Pegamos a estrada atrs de um nibus, acompanhados de uma pequena moto acelerada a fundo por uma 
jovem de braos de fora, cabelos ao vento e olhar grudado no asfalto. Com o acelerador no mximo, ela mal 
chegava a se manter
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emparelhada conosco; parecia querer apostar corrida. A situao era um tanto engraada e nos divertia. Mas o 
barulho de seu motor era infernal. Aceleramos para ganhar distncia e chegar mais depressa ao posto de gasolina 
de Montanitas, etapa inevitvel do percurso. Toda vez que eu fazia aquele trajeto parava ali para encher o 
tanque, beber gua gelada e conversar com a proprietria.
     Como sempre, ela estava em seu posto de guarda. Cumprimentei-a, contente de encontrar um rosto 
simptico. Olhando ao redor, ela me confessou:
    -                 um alvio que eles tenham ido embora! Esses guerrilheiros tinham se instalado na regio 
como se ela lhes pertencesse. Tive muitos problemas com eles. Agora o Exrcito conseguiu que dessem o fora 
daqui. Fez um bom trabalho.
    -                Ele no desmantelou os postos de controle que os guerrilheiros tinham instalado na estrada?
    -                Sim, sim. A estrada est completamente desimpedida. Se houvesse qualquer coisa, eu seria a 
primeira a saber. Quando um carro  obrigado a dar meia-volta,  aqui que ele para, a fim de dar o alerta.
     Entrei no carro satisfeita e relatei a meus companheiros as palavras da proprietria. Depois, abri-me com 
todos, amarga:
    -                Estou convencida de que eles no queriam que fssemos a San Vicente. Azar, vamos com 
atraso, mas vamos.
     Partimos e uns quinze minutos depois avistamos ao longe duas pessoas sentadas bem no meio da estrada. 
Chegando mais perto, percebemos que havia uma ponte em obras. Na viagem anterior, tnhamos enfrentado 
exatamente o mesmo problema na volta de San Vicente. Era a temporada das chuvas, o rio transbordara e a fora 
das guas fragilizara a estrutura da ponte. Tnhamos sido obrigados a contorn-la, como deveramos fazer agora, 
e atravessar o rio de carro. Nesse dia, nada havia para cruzar alm de um filete de gua, s um pequeno desvio 
em nosso trajeto. As duas pessoas se levantaram para nos indicar o caminho, com o brao esticado. 
Precisvamos virar  esquerda e descer o declive.
     Na nossa frente, um carro branco da Cruz Vermelha, que descia pelo desvio que amos pegar, desapareceu 
de nossa vista assim que chegou ao outro lado do talude. Ns o seguimos cautelosamente.
     Assim que nosso carro saiu do talude, eu os vi. Estavam vestidos dos ps  cabea com roupas militares, 
fuzil a tiracolo, agrupados em volta do veculo da Cruz Vermelha. Por reflexo, olhei atentamente para seus 
sapatos: botas pretas de borracha, muito usadas pelos camponeses nas zonas pantanosas. Tinham me ensinado a 
identific-los assim: se fossem botas de couro, eram os militares; se fossem de borracha, eram as Fare.
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    Um dos guerrilheiros, ao perceber nossa presena, caminhou em nossa direo, com o fuzil AK47 apontado:
   -                Deem meia-volta, a estrada est fechada - ordenou.
    Nosso motorista improvisado, Adair, olhou para mim, sem saber o que fazer. Hesitei um momento, dois 
segundos de mais: j tinha passado por controles das Fare. Falava-se com o comandante do grupo, ele pedia 
autorizao pelo rdio e passvamos. Mas isso tinha sido na poca da "zona de distenso", quando as 
negociaes de paz aconteciam em San Vicente. Fazia 24 horas que tudo tinha mudado.
   -                D meia-volta, depressa! - eu disse a Adair.
    A manobra no era bvia, estvamos bloqueados entre o carro da Cruz Vermelha e o talude. Ele a iniciou 
sob uma enorme tenso.
   -                Depressa, depressa! - gritei.
    Eu j tinha percebido os olhares da tropa assestados sobre ns. O chefe deles deu uma ordem e nos 
interpelou de longe. Um de seus homens correu em nossa direo, com cara de mau. J tnhamos feito trs 
quartos da manobra quando ele nos pegou, pondo a mo na porta e fazendo sinal para Adair baixar o vidro:
   -                Parem! O comandante quer falar com vocs. No saiam correndo.
    Respirei fundo e rezei aos cus. Eu no tinha reagido suficientemente rpido. No deveramos ter hesitado 
em recuar e pegar o caminho de volta. Fiquei zangada comigo mesma. Virei-me. Sentia-me culpada. Meus 
companheiros estavam lvidos.
   -                No se preocupem - disse-lhes, sem convico. - Vai dar tudo certo.
    O comandante passou a cabea pela janela e encarou cada um de ns atentamente. Fixou o olhar em mim e 
perguntou:
   -                Ingrid Betancourt  voc?
   -                Sim, sou eu.
    Era difcil negar: os cartazes em volta do carro mostravam meu nome ostensivamente.
   -                Bem, siga-me. Estacionem o carro na estrada lateral. Ele tem de passar entre os dois nibus.
    Ele no largou a porta, obrigando o carro a andar muito devagar. Foi ento que senti um cheiro fortssimo. 
Um homem, segurando um galo amarelo, jogava gasolina na carroceria dos dois nibus. Ouvi um barulho de 
motor e me virei. A moa com a moto, como ns todos, tinha cado na emboscada. Um dos guerrilheiros ordenou 
que ela descesse e pegou sua moto, fazendo-lhe sinal para ir embora.
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Ela ficou ali, em p, sem saber o que fazer. Sua moto tambm foi molhada de gasolina. Ela compreendeu e saiu 
rpido em direo  ponte.
     Na outra margem da estrada, um homem parrudo, de pele acobreada e farto bigode preto, suando em bicas, 
enxugava-se nervosamente com um leno vermelho. Impaciente, torcia as mos at deixar brancas as juntas dos 
dedos. As feies de seu rosto estavam deformadas pela angstia. Devia ser o motorista do nibus que estivera 
 nossa frente na estrada.
     Por um instante, o tempo de passarmos entre os dois veculos, perdemos de vista os passageiros do carro 
da Cruz Vermelha, que esperavam na lateral da estrada, sob a mira de um homem armado. Todos 
acompanhavam o que estava acontecendo, com os olhos cravados em ns.
     O comandante mandou nosso carro parar a alguns metros dali. O homem que tinha inundado a moto de 
gasolina abandonou-a encostada na carroceria do nibus e, depois de uma chamada de seu chefe, correu at ns. 
A uns dez metros, quando ele atravessava o acostamento da estrada, uma exploso nos fez tremer de pavor. O 
homem foi arremessado para cima e caiu de volta no cho. Estava numa enorme poa de sangue. Seu olhar 
espantado fixou-se no meu. Ele me olhava apavorado, sem entender o que acabara de lhe acontecer.
     O comandante vociferava, xingando e amaldioando o mundo inteiro. No mesmo instante, o homem ferido 
comeou a berrar de pavor: puxava de trs de si sua bota, que continha um pedao de perna sanguinolenta e um 
osso, que no mais lhe pertencia.
    -                Vou morrer, vou morrer! - ele berrava.
     O comandante ordenou que seus subordinados o instalassem na caamba de nossa picape. O homem estava 
coberto de sangue, que respingava por todo lado. Sua perna se reduzira a nacos de carne espalhados, alguns dos 
quais haviam se colado na carroceria de nosso veculo e no para-brisa, e tambm nas roupas de uns, e nos 
cabelos e rostos de outros. O cheiro de carne queimada misturado com o de sangue e gasolina era repugnante. 
Ouvi-me dizendo:
    -                Podemos lev-lo ao hospital, podemos ajudar vocs!
     Eu falava com o chefe do grupo como a um acidentado na estrada.
    -                Voc ir aonde eu lhe disser para ir.
     Depois, virando-se, mandou o homem ferido se calar, o que ele fez na mesma hora, gemendo baixinho 
como um co, entre a dor e o medo. O comandante pareceu satisfeito.
    -                V em frente! - ordenou ao nosso motorista. - V com jeito, e depressa!
     Adair no se fez de rogado. Ligou o carro, enquanto os ltimos membros da
tropa pulavam para dentro da caamba. Um deles entrou no veculo, segurando
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sua arma pelo cano e empurrando meus companheiros para se sentar no banco traseiro. O rapaz se desculpou por 
incomod-los, ps seu fuzil em p entre as pernas e sorriu, olhando para a frente. Estavam todos apertados, os 
cotovelos imveis, tentando evitar o contato com o recm-chegado.
    Eu disse em francs para o jornalista que nos acompanhava:
   -                No se preocupe, sou eu que eles querem. Nada acontecer com vocs.
    Ele fez que sim com a cabea, nem um pouco tranquilo. Gotas de suor brotavam em sua testa. Pelo vidro 
traseiro, vi a cena aterradora que se passava na caamba. O ferido chorava, segurando seu coto com as duas 
mos. Seus companheiros tinham lhe feito uma espcie de torniquete com uma camisa, mas o sangue espirrava, 
efervescente, pelo tecido j encharcado. O carro dava um solavanco a cada dois segundos, tornando quase 
impossvel a colocao de mais um garrote. O comandante bateu na carroceria, vociferando, e Adair diminuiu a 
marcha. O ferido balanava a cabea para trs, com olheiras cor de prpura, j semi-inconsciente.
    Fazia vinte minutos que andvamos por uma estradinha esburacada e empoeirada, sob um calor infernal, 
quando o chefe nos mandou parar, justo antes de uma curva que contornava um promontrio.
    De todos os lados apareceram jovens fardados. Mulheres, com as tranas presas num coque, que sorriam de 
orelha a orelha, alheias ao drama. Eram todos adolescentes. Vrios deles descarregaram o ferido para um lugar 
meio escondido, onde se percebia o telhado de uma casa.
   -                 nosso hospital - declarou orgulhoso o rapaz que viera conosco dentro do carro. - Ele vai sair 
dessa, estamos acostumados.
    No havamos parado nem um minuto e o chefe j nos dava ordens para partir. Outros homens subiram 
atrs, na caamba, e ficaram em p, apesar dos solavancos e da velocidade do carro. Todos estavam armados, 
ameaadores.
    Dez minutos depois, o carro parou. Um dos novos caronistas pulou da parte traseira e veio abrir as portas:
   -                Saiam todos, andem, depressa!
    Apontou o fuzil para ns e me pegou rudemente pelo brao:
   -                D o seu celular. Deixe eu ver o que tem a dentro.
    Remexeu na minha sacola e me empurrou para a frente, enfiando o cano de seu fuzil nas minhas costas.
    Desde o incio eu tinha mantido a esperana de que nos levariam ao lugar onde cuidariam do ferido e que 
em seguida poderamos dar meia-volta e partir.
    Nesse momento tive de encarar o que estava me acontecendo. Eu acabara de ser pega como refm.
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4. El Mocho Csar

     Eu tinha apertado a mo de Marulanda, Mono Jojoy, Ral Reyes e Joaquin Gnez - da ltima vez, 
exatamente duas semanas antes -, e isso me levara a crer que um dilogo se instalara entre ns e que isso me 
dava imunidade contra suas aes terroristas. Tnhamos discutido poltica horas a fio, partilhado refeies. Eu 
no conseguia imaginar que, da noite para o dia, essas pessoas afveis pudessem tomar a deciso de nos 
sequestrar.
     E, no entanto, os que estavam sob suas ordens me ameaavam de morte, obrigando-me a acompanh-los. 
Tentei tirar do carro minha sacola de viagem, mas o indivduo que me empurrava com a arma me proibiu, aos 
berros. Deu ordens, com voz histrica, para me separarem dos demais e vi meus companheiros de infortnio 
alinharem-se miseravelmente do outro lado da pista, cada um mantido a distncia por um homem armado. Rezei 
com todas as minhas foras para que nada lhes acontecesse, j aceitando a sorte que acreditava ser a minha. Meu 
esprito navegava por um nevoeiro denso e eu s registrava os sons e gestos com certo atraso, como se estivesse 
com um tampo nos ouvidos. Eu j tinha visto aquela estrada. Eu j tinha vivido aquela cena. Ou talvez a tivesse 
imaginado. Lembrei-me da foto de jornal que me consternara de horror. Naquela estrada, ou talvez numa 
parecida, havia um carro estacionado no acostamento, como estava o nosso. Os cadveres jaziam de barriga para 
cima, espalhados em volta do veculo com as portas ainda abertas. A mulher que fora morta junto com os 
membros de sua escolta era a me
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de um membro do Congresso. Ao olhar a foto, eu tinha imaginado tudo, seu pavor diante da instantaneidade da 
morte, sua resignao diante do inevitvel, e depois o fim da vida, o tiro, o nada. Agora entendia por que tudo 
aquilo me obcecara. Era um espelho do que me esperava, um reflexo de meu futuro. Eu pensava em todos que 
amava e achava uma idiotice morrer assim. Estava numa bolha, encolhida dentro de mim mesma. Portanto, no 
ouvi o motor, e quando ele estacionou perto de mim sua grande picape Toyota ltimo tipo, baixou o vidro 
automtico e falou comigo, no consegui fixar seu olhar nem compreender suas palavras:
   -                Doctora* Ingrid... Doctora Ingrid... Ingrid!
    Eu acabava de sair de meu torpor.
   -                Entre - ele ordenou.
    Aterrissei no banco dianteiro, ao lado daquele homem que me sorria pegando minha mo como a de uma 
criana.
   -                No se preocupe, comigo a senhora est em segurana.
   -                Sim, comandante - respondi sem refletir.
    Era Csar, El Mocho Csar, chefe da Frente 15 das Fare. Eu no tinha me enganado, era ele mesmo o 
comandante. Parecia radiante que eu tivesse adivinhado.
    Olhou ao redor e perguntou:
   -                Quem so essas pessoas?
   -                Ela  minha assistente.
   -                E eles, no so guarda-costas?
   -                No, nada disso, trabalham comigo na campanha. Um cuida da logstica, organiza os 
deslocamentos. O outro  um cinegrafista que contratamos para nos acompanhar. O mais velho  um jornalista 
estrangeiro, um fotgrafo francs.
   -                A senhora no corre nenhum risco. Mas quanto a eles... Preciso verificar a identidade de cada 
um.
    Fiquei lvida, compreendendo bem demais o alcance dessas palavras.
   -                Por favor, acredite em mim, no h nenhum agente da segurana...
    Olhou-me com grande frieza, o tempo de um piscar de olhos, e depois, imperceptivelmente, sua atitude 
voltou a ser amena.
   -                Todos os seus pertences esto a?
   -                No, no me deixaram trazer minha sacola.
    Passou a cabea pela janela e deu ordens. Eu compreendia seu significado mais pelos gestos que 
acompanhavam as palavras do que pelas palavras em si. 
* Na Colmbia, uma forma de cortesia.
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tremia da cabea aos ps. Vi que Clara tinha sido separada do grupo e fora forada a subir na traseira, junto 
conosco. Um homem correu para pegar minha sacola e a deixou rapidamente entre minhas pernas, antes de 
tambm pular na caamba da caminhonete, no exato instante em que o comandante Csar engatava a marcha a 
r. Virei-me. Clara estava agora sentada num dos dois bancos que tinham sido instalados na caamba, imvel no 
meio de uma dzia de homens e mulheres armados at os dentes, cuja presena eu no tinha notado antes. 
Nossos olhares se cruzaram. Ela sorriu imperceptivelmente.
     Virei-me, apenas o tempo de ver os meus outros companheiros serem empurrados rudemente para dentro do 
carro que fora o nosso at ento. Um guerrilheiro pegou a direo.
    -                O ar no a incomoda? - perguntou, num tom corts.
    -                No. Obrigada, est timo assim.
     Olhei para ele atentamente. Era um homenzinho moreno, a pele tostada de sol. Devia estar na faixa dos 
cinquenta anos e tinha uma barriga proeminente em cima do que devia ter sido um corpo de atleta. Notei que lhe 
faltava um dedo. Ele acompanhava, divertido, a inspeo de sua pessoa, e me disse:
    -                Chamam-me El Mocho,* evidentemente!
     Mostrou ostensivamente seu coto e concluiu:
    -                Foi um presentinho dos militares. Eu lhe meto medo?
    -                No, por que me meteria medo?  bastante educado.
     Ele riu a valer, encantado com minha resposta.
    -                Os comandantes me encarregaram de lhe transmitir seus cumprimentos. Como ver, as Fare 
vo trat-la muito bem.
     Olhei para o outro lado.
    -                Gosta de msica? De qu? Vallenatos,** boleros, salsa? Abra o porta-luvas, tem tudo o que 
quiser a dentro, v! Escolha!
     Eu estava achando essa conversa absolutamente surrealista. Mas, sentindo os esforos que ele fazia para 
me relaxar, joguei o jogo. Havia uns CDS empoeirados e jogados de qualquer jeito. Eu no conhecia nenhum dos 
intrpretes e lia com dificuldade o que restava de seus nomes nas etiquetas. Visivelmente, era uma bela coleo 
de CDS piratas. Rejeitei-os um a um e observei a impacincia de Csar diante de minha falta de entusiasmo.
* Mocho: cortado.
** Msica de Valledupar, na costa caribenha.
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-                Pegue o azul, esse a. Vou faz-la ouvir nossa msica. Isso  um puro produto Fare, o autor e 
o intrprete so guerrilheiros! - fez questo de salientar, 
levantando o indicador. - Gravamos em nossos prprios estdios. Oua isto!
    Era uma msica que chiava e rasgava os tmpanos. O sistema de som parecia 
ultramoderno, com luzes fluorescentes que partiam em todas as direes como o 
painel de bordo de uma nave espacial: "Digno de um narcotraficante!", no pude 
deixar de pensar. Imediatamente me recriminei, ao ver o orgulho infantil daquele 
homem. Ele tocava em todos os botes com a destreza de um piloto de avio e, ao 
mesmo tempo, conseguia manobrar o volante naquela estrada infernal.
    Chegamos a um vilarejo. Meu espanto era extremo: como ele podia passear 
comigo, sua refm, assim to despreocupadamente, diante do mundo?
    De novo Csar leu meu pensamento.
   -                Aqui, o rei sou eu! Este vilarejo me pertence,  Unin-Penilla. Todos aqui 
me adoram.
    E, como para me provar a veracidade de suas afirmaes, abriu a janela e acenou com a mo, dando bom-
dia aos passantes. Naquela rua comercial do vilarejo, 
pelo visto a principal, as pessoas retribuam o gesto e o cumprimentavam, gentis, 
como teriam cumprimentado o prefeito.
   -                Ser rei de um vilarejo no  bom para um revolucionrio! - retruquei.
    Ele me olhou, surpreso. Depois caiu na risada.
   -                Eu tinha vontade de conhec-la. Vi voc na tev.  mais bonita na tev.
    Foi a minha vez de rir.
   -                Obrigada,  muita gentileza sua. Voc faz bem ao meu estado de esprito.
   -                 uma nova vida que vai comear conosco. Precisa se preparar. Farei o 
possvel para lhe facilitar as coisas, mas vai ser duro para voc.
    Ele no ria mais. Fazia clculos, planejava, tomava decises. Naquela cabea 
estavam se definindo coisas essenciais para mim, que eu no podia antecipar nem 
avaliar.
   -                Tenho um favor a lhe pedir. Meu pai est doente. No quero que seja informado de meu 
sequestro pelos jornais. Quero ligar para ele.
    Csar me olhou longamente. Depois, como se pesasse cada uma de suas palavras, respondeu:
   -                No posso permitir esse telefonema. Poderiam nos localizar e isso a deixaria em perigo. Mas 
permito que lhe escreva. Enviarei sua carta por fax, hoje mesmo 
ele a receber.
    Mais de trs horas se passaram depois de nossa passagem por Unin-Penilla. 
Eu estava morrendo de vontade de ir ao banheiro. Csar me garantira que 
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chegaramos em alguns minutos, mas esses poucos minutos haviam se estendido para mais de uma hora e ao 
redor s havia campos ermos.
     De repente, aps uma curva, vi seis pequenos barracos de madeira, alinhados trs a trs em cada lado da 
estrada. Eram todos parecidos, como caixas de sapatos, sem janelas, teto de folha de flandres enferrujada e 
cobertos por um verniz de poeira que unificava em tom cinza as velhas tintas coloridas que deveriam ter 
embelezado as paredes.
     Csar freou abruptamente diante da entrada de um deles. A porta estava escancarada e por ela via-se at o 
fundo do quintal. Era uma casinha modesta mas limpa, na sombra e agradavelmente fresca.
     Csar me empurrou para dentro, mas me recusei a ir adiante, pois queria ter certeza de que Clara nos 
seguia. Ela desceu e pegou minha mo, como para se assegurar de que no ficaramos separadas.
    -                - No se preocupem, vocs vo ficar juntas.
     Csar nos fez entrar e me indicou o banheiro, no fundo do quintal.
    -                Pode ir, uma moa vai lhe mostrar o caminho.
     O jardim era cheio de flores de todas as cores. A essa altura, pensei que, se nosso local de cativeiro fosse 
aquela casinha, eu poderia aguentar sem me queixar.
     Um cubculo com porta de madeira aparentava ser o banheiro em questo. S vi a moa segundos mais 
tarde. Devia ter no mximo quinze anos e sua beleza me impressionou. Vestindo uniforme de camuflagem, o 
fuzil de vis diante do peito, estava em p, as pernas afastadas, com um movimento dos quadris muito sedutor. 
Tinha um bonito rosto, o cabelo louro trigo enrolado no alto da cabea como um ninho de pssaros pousado ali, 
e brincos cuja feminilidade contrastava com o rigor do uniforme. Respondeu-me quase intimidada, com um belo 
sorriso.
     Entrei no cubculo, que exalava um cheiro horroroso. No havia papel higinico. Um zumbido de grandes 
moscas verdes em cima do buraco nauseabundo tornava o exerccio ainda mais penoso. Sa dali a ponto de 
desmaiar.
     Csar nos esperava em p, dentro da casa, com uma bebida fresca, que nos entregou orgulhoso, e duas 
folhas de papel, que colocou sobre a mesinha da sala. Explicou que podamos escrever uma mensagem para 
nossas famlias.
     Refleti longamente nas palavras que queria usar para escrever a papai. Expliquei-lhe que acabara de ser 
pega como refm, mas que me tratavam com considerao e que eu no estava sozinha, pois Clara permanecia 
comigo. Descrevi-lhe as condies em que tnhamos sido capturadas, como eu ficara aflita ao ver um dos
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guerrilheiros perder a perna ao andar sobre uma mina antipessoal que eles haviam colocado na estrada e 
finalmente disse que detestava a guerra.
    Queria que ele sentisse pelas minhas palavras que eu no estava com medo. E queria prolongar nossa ltima 
conversa, pedir-lhe que me esperasse.
    Csar voltou, disse-nos que tnhamos todo o tempo, mas que no devamos dar nenhuma indicao de lugar 
nem de tempo, nem mencionar nenhum nome, pois nesse caso ele no poderia enviar nada. Ele leria minha carta, 
naturalmente, talvez at a censurasse!
    Afastou-se, mas senti seu bafo na minha nuca, como se lesse por cima de meu ombro. Azar, escrevi o que 
tinha decidido, tomando cuidado para que as lgrimas que me escapavam no cassem no papel. Precisava ser 
forte, olhar em frente. Mas "em frente" era tenebroso. Minha boa estrela acabara de se extinguir.
    Csar partiu, mas voltou pouco depois, acompanhado por um homem baixo e redondo como uma pipa, com 
um bigode que lembrava uma escovinha e o cabelo brilhante de gordura. Seus olhos se viravam para todo lado e 
ele nos observava em pnico, como se tivesse visto o diabo. Entrelaava as mos, nervoso, e visivelmente 
esperava instrues do chefe.
   -                Apresento-lhe a doctora Ingrid.
    O recm-chegado nos esticou a mo enorme, coberta de gordura, que tentara limpar rapidamente no jeans e 
na camiseta furada.
    Csar prosseguiu num tom pausado, articulando bem as palavras, como se quisesse ser bem compreendido 
para no ter de repetir:
   -                V comprar roupas, calas, jeans, alguma coisa chique, e camisetas bem bonitas, para moas, 
entendeu?
    O homem concordou com a cabea, rapidamente, os olhos cravados no cho em sinal de extrema 
concentrao.
                   Pegue tambm roupa de baixo. Bem feminina, da melhor qualidade...
    A cabea do homem balanava de alto a baixo, como acionada por uma mola, e ele prendia a respirao.
   -                E botas de borracha. Traga as boas, as Vnus. No as nacionais. E v tambm me pegar um 
bom colcho, espessura dupla, com um mosquiteiro. Mas dos bons, no quero aquelas peneiras que voc me 
descobriu da ltima vez! E mande tudo imediatamente para Snia. Conto com voc, quero qualidade, entendeu?
    O homenzinho saiu, cumprimentando e recuando, antes de dar meia-volta na entrada e desaparecer.
   -                Se esto prontas, vamos logo embora!
    Era o fim do dia, o calor estava insuportvel e a estrada no passava de uma
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pista empoeirada horrorosa, cheia de crateras imensas com lama estagnada. Grandes rvores centenrias 
bloqueavam o horizonte e o cu que serpenteava acima da estrada era vermelho-sangue. Clara e eu agora 
estvamos na frente, na cabine. O som finalmente se calou e nosso silncio foi invadido pelos pios de milhes de 
pssaros invisveis que circulavam no cu por punhados negros quando passvamos, para logo voltarem atrs e 
retomarem seu lugar na escurido das folhagens. Tentei passar a cabea pelo vidro, para observar no alto da copa 
das rvores a silhueta daqueles pssaros fericos e livres. Se papai estivesse ali comigo, ele gostaria de contempl-
los, como eu. Pela primeira vez senti que esse espetculo maravilhoso me fazia mal, a felicidade daqueles 
pssaros me fazia mal, e a liberdade deles tambm.
    -                Ter de se habituar a comer de tudo - Csar observou. - Aqui, a nica carne  de macaco!
    -                Sou vegetariana... - retruquei. Era mentira, mas eu precisava responder com uma tirada. - Ter 
de me providenciar saladas, frutas e legumes. Acho que, com todo esse verde, no vai ser difcil.
     Csar se mantinha calado. Mas parecia se divertir com a conversa. Fui um pouco mais longe.
    -                E, se quiser realmente me dar um prazer, providencie queijo!
     Dez minutos depois, ele parou a caminhonete no meio de um lugar ermo. Os guerrilheiros que estavam 
atrs desceram para esticar as pernas e urinar na frente de todo mundo, sem cerimnia. Csar tambm desceu e 
deu ordens, depois partiu com dois deles para uma casinha escondida entre as rvores, que eu no tinha visto. 
Voltou sorrindo com um saco de plstico em cada mo, seguido pelos dois outros, que traziam uma caixa de 
cerveja.
     Entregou-me um dos sacos plsticos:
    -                Tome, isso  para voc. Sempre que eu puder vou lhe conseguir, mas aqui no  fcil.        
     No pude deixar de sorrir. Havia na sacola um grande pedao de queijo fresco e uma dzia de limezinhos 
verdes. Observei o olhar de soslaio dos rapazes e guardei o saco na sombra, debaixo do banco.
     A pista agora era mais estreita e as rvores pareciam dominar tudo. S se via o cu atravs da cpula de 
vegetao. De repente, depois de cruzar um riacho, o carro virou  esquerda bruscamente. Ia se esmagar contra o 
arbusto. Ergui o antebrao diante dos olhos para me proteger do impacto, mas em vez disso o carro abriu uma 
passagem e avanou para uma espcie de praa de terra batida. Era
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uma clareira. O espao fora limpo de toda vegetao. O carro parou. Comeava a escurecer, a noite caa.
    O rangido da freada anunciara nossa chegada e um grande pastor-alemo vinha trotando, latindo, certo de 
estar cumprindo seu dever. Csar desceu do carro. Fiz o mesmo.
   -                Cuidado,  um co muito mau.
    De fato, o animal se lanou para cima de mim, latindo com todas as suas foras. Deixei-o se aproximar, me 
farejar, depois esbocei um afago entre suas orelhas. Csar me observava de soslaio.
   -                Adoro ces - aventurei-me a explicar. No queria que Csar pensasse que podia me intimidar.
    Havia em torno do espao aberto algumas cabanas, mais ao longe barracas de campanha e, de um lado, uma 
espcie de alpendre grande que abrigava, a cada meio metro, mesas baixas feitas de tbuas sustentadas por 
cavaletes. Uma das cabanas era totalmente fechada por um muro de terra, outra, totalmente aberta, tinha bancos 
alinhados como numa igreja, diante de uma pequena televiso suspensa no galho de uma grande rvore que 
penetrava por um dos lados da construo. Entrei pela primeira vez num acampamento das Fare.
   -                Apresento-lhes Snia.
    Uma mulher grande, o cabelo pintado de louro ao estilo Marilyn Monroe preso no alto da cabea em corte 
militar, me estendeu a mo. No a vira chegar, estendi a minha com algum atraso. Ela esmigalhou meus ossos e 
berrei de dor. Soltou-me e sacudi a mo com fora para fazer a circulao voltar. Csar estava radiante. Snia, 
curvada, ria at as lgrimas. Depois, retomando o flego, me disse:
   -                Sinto muito, no quis lhe fazer mal.
   -                Bem, voc entendeu: trate-a com delicadeza - disse Csar, e partiu.
    Antes mesmo que eu pudesse me despedir dele, Snia me pegou pelos ombros, como uma velha colega de 
classe, e me levou para conhecer o local. Clara nos seguiu.
    Snia comandava o acampamento. Vivia com seu companheiro, um homem mais moo e de patente 
subalterna, a quem dava ordens de forma ostensiva, para nos mostrar que era a chefe. Levou-nos para visitar sua 
cabana, a nica, na verdade, a ter uma parede, e portanto a dispor de alguma intimidade. Mostrou-nos, reinando 
entre um colcho posto diretamente do cho e uma cadeira de plstico, uma pequena geladeira eltrica. Abriu-a 
com orgulho, s tinha dois refrigerantes e trs garrafas de gua. Como para se desculpar por contar com um luxo 
to grande, explicou-nos:
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    -                 para os remdios...
     Olhei para ela, sem entender.
    -                Sim, este acampamento  um hospital das Fare. Recebemos todos os feridos da regio, os que 
esto esperando para ser operados na cidade, e os que esto em convalescena.
     Levou-nos depois para o grande abrigo. Numa das mesas do fundo, moas olhavam com curiosidade o 
contedo de grandes sacos plsticos pretos. Havia tambm um colcho enrolado e suspenso por cordinhas e um 
grosso rolo de malha.
    -                Isabel e Ana, vocs vo se revezar para a guarda. Faam a cama, instalem-nas.
     As mesas baixas eram camas. No outro extremo do abrigo, os guerrilheiros comeavam a instalar os 
mosquiteiros e se esticavam para dormir sobre plsticos pretos que tinham estendido direto sobre tbuas de 
madeira. Em cada um dos quatro cantos do abrigo um homem montava guarda. Era difcil sair dali sem ser visto.
     As moas tinham acabado de fazer uma cama. Olhei ao redor e no vi nada para fazer outra. Perguntei por 
que e uma delas me respondeu que a ordem era de dormirmos juntas. Uma lua imensa iluminava o 
acampamento. Perguntei a Clara se queria caminhar um pouco comigo. Logo estvamos l fora, respirando o ar 
leve de uma bela noite tropical. Sentia-me ainda livre e me recusava a entrar no papel de refm. As moas que 
nos seguiam forneceram uma lanterna para cada uma de ns.
    -                S as utilizem em caso de absoluta necessidade. Jamais apontem com elas para o cu. 
Apaguem-nas assim que ouvirem um avio ou helicpteros se aproximando, ou quando algum mandar. Agora 
temos de voltar. Se precisarem de alguma coisa, chamem-nos. Uma de ns ficar ao p da cama de vocs.
     A moa que tinha falado se afastara e se pusera de p na nossa frente, os cotovelos apoiados na ponta do 
fuzil, que deixara descansar no cho. Imaginei que era nossa guarda pessoal e que os quatro outros eram 
sentinelas postadas ali de modo habitual.
     Sentei-me na beira do colcho, sem foras para olhar para dentro das sacolas com nossas novas roupas. No 
tinha comido nada o dia todo. Vi o saco plstico de Csar: estava vazio, e os limes boiavam na gua do queijo. 
Clara j dormia, deitada sob o mosquiteiro, toda vestida e coberta por um lenol bege de flores marrons. Deitei-
me tambm, tentando ocupar o menor espao possvel. Examinei o mosquiteiro com a lanterna, no queria que 
os bichinhos entrassem. Depois a apaguei. Onde estariam os outros? Adair? O fotgrafo francs? Uma tristeza 
sbita me invadiu e chorei em silncio.
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5. O acampamento de Snia

     No preguei o olho durante a noite. Espiava os guardas mais do que eles me vigiavam. A cada duas horas, 
outros homens chegavam para substitu-los. Eu estava distante demais para ouvir o que diziam, mas eram poucas 
palavras, um tapinha nas costas, uns iam embora, deixando os outros em p no lugar deles, em plena escurido. 
As moas que se sucediam  nossa cabeceira acabaram se sentando na cama vazia em frente e devagar pegaram 
no sono. Como sair dali? Como retomar a estrada? Como voltar para casa? Haveria guardas mais longe? Na sada 
do acampamento? Eu precisava observar tudo o mais em detalhes, perguntar, olhar. Imaginava partir para a 
liberdade com minha amiga. Ela concordaria em me seguir? Eu iria direto ver papai. Chegaria de surpresa em seu 
quarto. Ele estaria sentado na poltrona de couro verde. Estaria com a mscara de oxignio. Ele me abriria os 
braos e eu me aninharia e choraria de felicidade por estar com ele. Depois, chamaramos todo mundo. Que 
alegria! Talvez fosse preciso pegar um nibus na estrada. Ou talvez andar para chegar a uma cidade. Seria mais 
seguro. A guerrilha tinha espies por todo canto. Seria preciso procurar uma base militar ou um posto de polcia. 
Quando Csar havia parado para pegar o queijo e as cervejas, apontara para a direita. Rira ao explicar que a base 
militar ficava ali pertinho. Dissera que os chulos eram estpidos. Eu no sabia que a guerrilha chamava os 
soldados de chulos, abutres. Senti-me magoada, como se fosse um insulto dirigido a mim. No entanto, eu no 
tinha dito nada. "Daqui para a frente, vou ficar sempre do lado dos militares", pensei.
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     Qual seria a reao do pas ao saber do meu sequestro? Que fariam meus concorrentes? Seriam solidrios 
comigo? Eu pensava em Piedad Cordoba, uma colega do Senado. Conheci Manuel Marulanda, o chefe das Fare, 
por seu intermdio. Tnhamos percorrido de txi a estrada entre Florncia e San Vicente. Foi a primeira vez que 
l estive. Pegamos uma estrada terrvel, verdadeiras montanhas-russas. Enfiamo-nos vrias vezes na lama, 
forados a andar a p em certos momentos para aliviar o peso do veculo. Todos ns havamos empurrado, 
puxado e erguido o carro antes de chegarmos, negros de poeira, a um posto avanado das Fare na entrada da 
mata virgem. Vi como o velho Marulanda tinha o controle absoluto de todos os seus homens. A certa altura, 
havia se queixado da lama debaixo de sua cadeira. Foi literalmente levantado, como um imperador, enquanto os 
demais comandantes tinham posto tbuas de madeira no cho e montado um tablado improvisado. Piedad 
Cordoba fora sequestrada pelos paramilitares seis meses depois de nossa visita s Fare. Castano, o chefe deles, a 
acusava de ter se juntado  guerrilha. Fui falar com um fazendeiro idoso a quem conhecia, alguns diziam que ele 
era interlocutor de Castano. Pedi-lhe para intervir em favor da libertao de Piedad. Muitos tinham se 
manifestado em seu favor. Alguns dias depois, ela fora libertada. Eu esperava que meu caso fosse similar ao dela. 
Talvez fosse apenas questo de poucas semanas at obterem minha libertao. Todas essas questes em que se 
misturavam fantasmas e realidade me ocuparam a noite inteira.
     O dia comeava a raiar, o primeiro de minha vida em cativeiro. O mosquiteiro que tinham nos fornecido 
era branco, de malha muito apertada. Atravs dele eu acompanhava o mundo estranho que acordava ao meu 
redor, como protegida num casulo, com a iluso de poder olhar sem ser vista. Os contornos dos objetos 
comearam a se destacar na noite negra. Estava bem fresco, quase frio. Eram quatro e meia da manh quando um 
dos guerrilheiros ligou o rdio suficientemente alto para que eu conseguisse ouvir. Falavam de ns. Apurei o 
ouvido, tensa ao extremo e sem ousar sair de meu refgio para me aproximar do rdio. A voz confirmava que eu 
tinha sido sequestrada pela guerrilha, ouvi as declaraes de mame e meu corao se contraiu dolorosamente, 
impedindo-me de ouvir direito. Depois falou-se de Clara. Acordei-a para que acompanhasse o noticirio comigo. 
O guerrilheiro mudava de estao, e a cada vez caa em alguma que estava transmitindo notcias a nosso respeito. 
Ali perto, algum sintonizou o aparelho no mesmo programa, depois um terceiro fez a mesma coisa. O som nos 
chegava em estreo e facilitava a escuta.
     Pouco antes das cinco da manh algum passou perto de ns fazendo um barulho com a boca, desagradvel 
e muito alto, o que teve como resultado pr o
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acampamento em movimento. Isso se chamava la churuquiada, outro desses termos tipicamente farquianos que 
designava a imitao dos guinchos dos macacos. Era o toque de alvorada da selva.
    Todos os guerrilheiros convalescentes que dormiam conosco sob o alpendre se levantaram imediatamente. 
Tiraram os mosquiteiros, os dobraram depressa e os enrolaram num rolo apertado, solidamente preso pelas 
mesmas cordinhas que serviam para pendur-los nos quatro cantos das camas. Eu os observava, fascinada, 
enquanto escutava os boletins informativos. Clara e eu nos levantamos, pedi para ir ao banheiro.
    Nossa guarda se chamava Isabel. Era uma mulher baixinha, de uns trinta anos, cabelo muito comprido e 
crespo, que usava num coque atrs da cabea. Tinha bonitos brincos de ouro e presilhas infantis para prender 
longe do rosto as mechas rebeldes. Meio gordinha, usava cala de tecido de camuflagem um pouco apertada 
demais para estar confortvel. Recebeu meu pedido dando-me um de seus mais belos sorrisos e estava 
visivelmente encantada em cuidar de ns. Pegou-me pela mo e depois prendeu meu antebrao sob seu cotovelo, 
num gesto inesperado de afeto e cumplicidade:
   -                Vocs vo gostar de ficar conosco, podem acreditar, no tero mais vontade de ir embora!
    Eu a segui, esperando encontrar uma latrina parecida com a que usara na vspera, na casa na estrada, j 
preparada para prender a respirao e enfrentar o mau cheiro.
    A alguns metros, vinte no mximo, nos metemos na mata cerrada. Eu ainda no via nenhum banheiro por 
ali. Acabamos chegando a uma clareira bastante ampla. O cho de terra parecia ter sido todo revolvido. Um rudo 
de mquina me chamou a ateno. Perguntei a Isabel qual era o motor que funcionava nas redondezas. Ela no 
entendeu a pergunta, e depois, ouvindo mais atentamente, afirmou:
   -                No, no, no h nenhum barulho de motor.
   -                H, sim, eu no estou louca, h um barulho muito forte, oua!
    Isabel prestou ateno e depois caiu na risada, apertando o nariz como uma garotinha para no fazer 
barulho.
   -                Que nada! So as moscas!
    Olhei para o cho, apavorada. Rodopiando a meus ps, milhares de moscas de todo tipo, grandes, gordas, 
amarelas, verdes, aglutinavam-se ao meu redor, to excitadas que colidiam umas com as outras e caam de costas 
na terra, as patas viradas para o ar, as asas vibrando inutilmente contra o solo. Descobri ento
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um mundo de insetos extraordinariamente ativos. Vespas atacando moscas antes que estas conseguissem se 
levantar, e formigas batendo nas duas primeiras para transportar at as tocas o butim ainda trepidante. Besouros 
pesados de couraas brilhantes que voavam e vinham se esborrachar em nossos joelhos. No consegui segurar um 
grito nervoso quando percebi que uma mirade de formigas minsculas tomara de assalto minha cala e j 
chegava  minha cintura. Tentei sacudi-las, batendo os ps nervosamente, para evitar que continuassem a me 
escalar.
    -                Ento, onde  o banheiro?
    -                Mas estamos nele! - Isabel rolava de rir. - So os chontos. Ainda h buracos disponveis: voc se 
agacha em cima dele, faz suas necessidades e cobre com a terra que est ao lado, assim, empurrando com o p.
     Olhei com mais ateno o solo, que tinha sido esburacado aqui e ali. Nos buracos, o espetculo era ignbil. 
Insetos chafurdavam na matria mal recoberta. Eu j estava me sentindo mal e instintivamente me dobrei, vtima 
de espasmos, sentindo com horror o cheiro que subia, nauseabundo, e me enchia as narinas. Vomitei de repente, 
e o vmito respingou em ns duas, at a camisa.
     Isabel j no ria. Enxugou-se com a manga do casaco e cobriu meu vmito com o montinho de terra mais 
prximo.
    -                Bem, vou esper-la ali em frente.
     A ideia de ficar sozinha naquele inferno fez com que me sentisse desamparada. Do outro lado da mata vi 
sombras se agitarem.
    -                Mas todo mundo pode me ver!
     Isabel me passou o rolo de papel higinico.
    -                No se preocupe, no deixarei ningum se aproximar.
     Voltei para o campo cambaleando, j com saudades da latrina da casinha na estrada. Precisava lavar as 
roupas que estava usando e vestir as que tinham nos fornecido. Havia quatro calas, todas jeans de tamanhos e 
feitios diferentes, camisetas com estamparias infantis e roupas de baixo, algumas muito simples, de algodo, 
outras cheias de rendas e de cores espalhafatosas. A diviso se fez facilmente: cada uma pegou as peas de 
tamanhos que mais lhe convinham. Havia tambm duas grandes toalhas de rosto e dois pares de botas de 
borracha, as mesmas que tinham me ajudado a identificar os guerrilheiros. Instintivamente, deixei-as de lado, 
achando que nunca as usaria.
     Uma moa bem novinha, que eu no vira antes, se aproximou. Parecia muito intimidada. Isabel nos 
apresentou:
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   -                 a recepcionista de vocs.
    Arregalei os olhos. No podia imaginar que naquele lugar completamente perdido pudesse haver uma 
"recepcionista". Isabel me explicou:
   -                 ela a encarregada das refeies de vocs. O que querem tomar?
    Deviam ser seis e meia da manh, o mais tardar. Pensei, portanto, num caf
da manh, o mais simples possvel: ovos estrelados? Maria saiu, com o ar aflito, para o fundo do acampamento e 
depois desapareceu numa rampa. Isabel, por sua vez, saiu sem que eu lhe perguntasse como fazer para tomar um 
banho. Clara foi se sentar e em seu rosto se lia todo o tdio do mundo. Olhei ao redor. No havia doentes nas 
camas. Estavam ocupados em seus afazeres habituais: alguns trabalhavam em pedaos de madeira com o faco, 
outros costuravam alas nas mochilas, outros teciam correias com uma tcnica muito esquisita. Tinham mos to 
geis que era impossvel seguir seus movimentos.
   -                Vamos dar uma volta pelo acampamento? - propus  minha companheira.
   -                Tudo bem - ela me respondeu, com entusiasmo.
    Arrumamos nossas coisas da melhor maneira possvel num canto da cama e nos preparvamos para sair do 
abrigo quando s nossas costas a voz de uma mulher nos fez parar.
   -                O que esto fazendo?
    Era Ana. Pegara o fuzil FAL com as duas mos e nos olhava com ar severo.
   -                Vamos dar uma volta pelo acampamento - respondi, surpresa.
   -                Tm que pedir autorizao.
   -                A quem devemos pedir autorizao?
   -                A mim.
   -                Ah, bom! Ento, bem: "Voc pode nos autorizar a dar uma volta pelo acampamento?"
   -                No.
    No mesmo instante Maria voltou com uma panela escaldante, de onde vinha um forte aroma de caf. Na 
outra mo, segurava dois pezinhos e duas xcaras de inox. Snia chegou atrs, sorridente.
   -                Ento, Ingrid, como vai?
    Acertou-me um tapa nas costas que me desequilibrou, e prosseguiu, radiante:
   -                S falam de voc no rdio! O Secretariado* anunciou que vo publicar um comunicado esta 
noite. Vai dar a volta ao mundo!
* Corpo dirigente da cpula da hierarquia das Fare.
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     A guerrilha estava muito orgulhosa com a repercusso que minha captura lhe proporcionara na imprensa. 
Mas eu estava longe de pensar que a notcia atrairia a ateno internacional. Esperava, no mximo, que 
despertasse o governo para que se mexesse a fim de conseguir nossa libertao, tanto mais necessria para ele na 
medida em que a revelao dos fatos que haviam precedido meu sequestro podia ser constrangedora.
    -                Poderamos ver os telejornais desta noite? Reparei que vocs tm uma televiso...
     Snia fez uma expresso sria e meditativa, que eu j tinha visto no rosto de El Mocho Csar. Todos se 
viraram para ela, prendendo a respirao em meio a um silncio absoluto, como se suas vidas dependessem da 
resposta. Depois de algum tempo, ela decretou, pesando cada palavra:
    -                A televiso est proibida por causa da aviao - disse. - Mas abrirei uma exceo esta noite...
     Uma lufada de felicidade invadiu o acampamento. As conversas foram retomadas alegremente, risos ao 
longe cruzavam o ar.
    -                O comandante Csar avisou que vem para uma visita. Venha me ver em minha caleta quando 
quiser - disse-me Snia antes de se afastar.
     Eu estava tentando apreender esses novos cdigos, esse vocabulrio desnorteante. A caleta devia ser sua 
cabana, assim como os chontos eram o banheiro, e a recepcionista era a empregada. Imaginava que numa 
organizao revolucionria certas palavras deviam ser banidas. Devia ser impensvel engajar-se nas Fare para 
acabar fazendo o trabalho de uma domstica. Claro, era melhor ser chamada de recepcionista.
     Ana voltou, visivelmente contrariada, com a misso de nos levar para o banho.
    -                Andem, depressa, peguem suas roupas limpas e as toalhas, tenho mais o que fazer!
     Apanhamos apressadas as coisas que tnhamos jogado de qualquer jeito dentro de um saco de plstico, 
encantadas com a ideia de nos refrescar. Pegamos de novo a alameda que ia at os chontos, mas bem antes de 
chegar l viramos  direita. Sob um telhado de zinco tinham construdo um tanque de cimento, que enchiam de 
gua com a ajuda de uma mangueira de regar.
    -                Perfeito,  esta a minha ducha! - pensei alto.
     Ana nos entregou uma barra de sabo de lavar roupa e foi at os arbustos. O barulho do motor se extinguiu 
e a gua parou de jorrar. Ana voltou, sempre de
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mau humor. Isabel havia nos seguido. Mantinha-se na entrada, de p, as pernas afastadas, o fuzil a tiracolo. 
Calada, observava Ana.
     Observei  minha volta, o lugar era cercado por um matagal denso. Procurei com os olhos onde colocar 
minhas coisas.
   -                V cortar uma barra para elas - disse Isabel, seca.
     Ana pegou o faco e escolheu um galho teso da rvore mais prxima. De um golpe o cortou e o agarrou no 
voo, com espantosa habilidade. Limpou-o e descascou-o at transform-lo num cabo de vassoura to perfeito que 
parecia sado da fbrica. Eu no acreditava no que estava vendo. Ento ela o prendeu, uma ponta na beira do 
tanque, a outra na forquilha de um arbusto que havia ali ao lado; verificou a solidez de seu trabalho e recolocou o 
faco no estojo. Ali pendurei, aplicadamente, as roupas que ia vestir, ainda impressionada com seu trabalho. 
Depois, procurando Clara com os olhos, a vi despir-se completamente. Sim, claro, era o que tnhamos de fazer. 
As moas nos olhavam, impassveis.
   -                E se algum chegar de repente? - hesitei.
   -                Gente  tudo igual - Ana retrucou. - E da?
   -                Ningum vir, no se preocupe - Isabel falou como se no tivesse ouvido a observao da 
colega. Depois, com voz suave, acrescentou: - Pegue este timbo.
     Eu no tinha a menor ideia do que podia ser um timbo. Procurava com os olhos e no via nada. A no ser, 
dentro da gua, um galo de leo cortado no meio, com a ala e o fundo formando um recipiente prtico. Clara e 
eu o passamos de uma para a outra.
     Ana se impacientou. Ficou batendo os ps, perto dos arbustos, resmungando. Resolveu religar o motor da 
bomba-d'gua:
   -                Pronto, esto contentes? Agora se apressem.
     A ducha final s durou uns poucos segundos. Dois minutos depois, estvamos vestidas e prontas para 
receber o comandante Csar.
     Sua caminhonete estava estacionada na clareira. Ele conversava com Snia. Aproximamo-nos, escoltadas 
pelas duas guerrilheiras. Snia as despachou imediatamente. Csar me estendeu a mo, sorridente:
   -                Como vai?
   -                Mal. No sei nada de meus companheiros, voc tinha me dito que...
     Cesar me interrompeu:
   -                Eu no lhe disse nada.
   -                Disse que ia verificar a identidade deles.
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    -                Voc me disse que eram jornalistas estrangeiros...
    -                No, eu lhe disse que o velho era um fotgrafo de uma revista estrangeira, o jovem era um 
cinegrafista contratado para a minha campanha e o outro, aquele que estava dirigindo, era meu chefe de 
logstica.
    -                Se o que me diz  verdade, eu respondo pela vida deles. Confisquei todo o material de vdeo e 
ontem  noite o assisti: os militares no gostam muito de voc! Bela discusso a que voc teve com o general na 
pista do aeroporto. Isso lhe custou o posto! E eles j esto em seu encalo. H combates perto de Unin-Penilla. 
Vai ser preciso ir embora daqui bem depressa. Trouxeram-lhe as suas coisas?
     Aquiesci, automaticamente. Tudo o que ele me dizia era preocupante. Gostaria de ter certeza de que meus 
companheiros ficariam em lugar seguro e seriam libertados logo. A histria dos combates em Unin-Penilla era 
uma fonte de esperana. Mas, se ocorressem enfrentamentos, haveria o risco de mortes. Como ele podia saber 
que o general fora destitudo de seu posto? Naquele momento ele era a pessoa ideal para fazer uma operao 
bem-sucedida de salvamento. Era o homem que conhecia a zona, o homem de ao, o homem que me vira pela 
ltima vez.
     Csar partiu. No havia nada a fazer seno esperar, sem saber exatamente o qu. Os minutos se esticavam 
numa eternidade pegajosa e preench-los exigia uma vontade que eu no tinha. Nada mais me restava a no ser 
ruminar meus pensamentos. Havamos reparado num tabuleiro de xadrez no canto do que pretendia ser uma 
mesa. Sua existncia era inesperada e surpreendente no meio daquele mundo fechado. Passamos a cobi-lo 
como a uma prola rara. Mas, quando sentei defronte do tabuleiro, o pnico me invadiu. Ns ramos aqueles 
pees. Nossa existncia se definia segundo uma lgica que nossos sequestradores procuravam sempre nos 
ocultar. Afastei o tabuleiro, incapaz de continuar. Quanto tempo aquilo iria durar? Trs meses? Seis meses? 
Observei as criaturas ao redor. A despreocupao em que viviam e que escapava de cada um de seus gestos, 
aquela lentido do bem-estar, a doura daquele tempo ritmado por uma rotina imutvel, tudo isso me deixava 
doente. Como conseguiam dormir, comer, sorrir, dividindo o tempo e o espao com o calvrio de outra pessoa?
     Isabel acabara seu turno de guarda e viera para o almoo. Olhava, com um desejo manifesto, para as roupas 
de baixo vermelhas de rendas pretas, intactas dentro dos saquinhos. Ofereci-as. Ela as revirava em todos os 
sentidos, com uma felicidade infantil, e as guardava de novo, como se afastasse uma tentao grande demais. 
Finalmente se levantou, levada por um sbito arroubo, e falou bem alto para que os companheiros ouvissem:
    -                Vou apresentar meu requerimento.
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    Os "requerimentos", eu aprenderia mais tarde, eram parte fundamental da vida nas Fare. Tudo era 
controlado e vigiado. Ningum podia ter uma iniciativa qualquer, dar um presente a algum ou receb-lo, sem 
pedir permisso. Podiam recusar a algum o direito de se levantar ou de se sentar, de comer ou de beber, de 
dormir ou ir aos chontos. Isabel voltou correndo, com as faces coradas de felicidade. Obtivera licena para aceitar 
meu presente.
    Olhei para ela enquanto se afastava e tentei imaginar o que podia ser a vida de uma mulher num 
acampamento. Havia uma comandante, claro, mas eu tinha contado cinco moas para uns trinta homens. O que 
podiam esperar de melhor ali e no em outro lugar? Sua feminilidade no parava de me espantar, embora elas 
jamais se separassem dos fuzis, tivessem reflexos masculinos que no me pareciam artificiais. Assim como fizera 
com o vocabulrio novo, as msicas singulares, o habitat especial, olhei com espanto para aquelas mulheres que 
pareciam todas sadas de um mesmo molde e ter perdido qualquer individualidade.
    Ser prisioneira j era muito. Mas ser uma mulher prisioneira nas mos das Fare era ainda mais delicado. 
Para mim, era difcil formular isso. Intuitivamente, sentia que as Fare tinham conseguido instrumentalizar as 
mulheres, com o consentimento delas. A organizao trabalhava com a sutileza, as palavras eram escolhidas 
conscienciosamente, as aparncias eram cuidadas... Eu acabara de perder minha liberdade, no queria entregar 
minha identidade.
    Quando caiu a noite, Snia veio nos buscar para assistirmos ao jornal na tev. O acampamento se reunira na 
cabana onde imperava a telinha. Ela nos indicou nossos lugares, depois se retirou para ligar o gerador eltrico. 
Uma lmpada solitria balanava no teto, como um enforcado. A lmpada acendeu e o grupo ficou extasiado. 
Custei a compreender a excitao deles. Esperava, sentada, no meio de homens armados, com os fuzis entre as 
pernas. Snia voltou, ligou a televiso e saiu, deixando uma imagem desregulada e um som de chiados. Ningum 
se mexia, os olhos grudados na tela. Snia acabou voltando, girou dois botes e uma imagem fora de foco, mais 
em preto e branco do que colorida, apareceu na tela. O som chegava bem nitidamente. O telejornal j comeara. 
Vi Adair, meu chefe de logstica. Eles todos tinham acabado de ser libertados e falavam com emoo dos ltimos 
instantes passados conosco. Pulei de alegria. Minha emoo, visivelmente, no era contagiante. Alguns pediram 
silncio, sem qualquer amabilidade. Afundei no meu banco, com os olhos marejados.
    No estava com sono. A lua brilhava de novo e l fora fazia um tempo 
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agradvel. Queria andar para espantar os espritos. Isabel montava guarda. Acatou facilmente o meu pedido. 
Comecei a andar para l e para c, da praa aos chontos, passando defronte da cabana de Snia e rodeando o 
abrigo. Alguns convalescentes tinham ligado o rdio e ecos de msica tropical me chegavam como a lembrana 
de uma felicidade perdida. Imaginava o mundo sem mim, aquele domingo de tristeza e inquietao para os que 
eu amava. Meus filhos Mlanie e Lorenzo, e Sbastien, meu enteado, certamente j sabiam da notcia. Eu 
esperava que fossem fortes. Muitas vezes tnhamos evocado a possibilidade de um sequestro. Mais que de um 
assassinato, era do sequestro que sempre tive medo. Eu lhes dissera que jamais deviam aceitar a chantagem e 
que era melhor morrer do que se submeter. Agora eu j no tinha certeza disso. No sabia mais o que pensar. A 
dor deles, mais que tudo, era insuportvel. No queria que ficassem rfos, tinha de lhes devolver a 
despreocupao. Imaginava-os conversando entre si, unidos pelo mesmo tormento, tentando reconstituir os 
acontecimentos que haviam antecedido meu sequestro, tentando compreender. Isso me doa.
     Eu j entendera o significado do comunicado  imprensa que o Secretariado divulgara. Eles confirmavam 
que eu estava com eles como refm e includa no grupo dos "intercambiveis"* Ameaavam me matar se ao fim 
de um ano exato de minha captura no se chegasse a um acordo para libertar os guerrilheiros presos nos 
crceres colombianos. Ficar um ano em cativeiro para ser executada em seguida: eis o que me esperava. Iriam 
cumprir as ameaas? Eu no conseguia acreditar nisso, mas no queria estar ali para verificar. Precisava fugir.
     A ideia de preparar nossa fuga me acalmou. Fiz o mapa do lugar mentalmente e tentei reconstituir de 
memria a estrada que tnhamos pegado para chegar. Estava certa de que havamos percorrido um trajeto quase 
em linha reta, para o sul. Precisaramos andar muito, mas era factvel.
     Por fim fui me deitar, toda vestida, ainda incapaz de fechar os olhos. Deviam ser nove da noite quando os 
ouvi chegando de longe. Helicpteros - havia vrios se aproximando rapidamente de ns. No mesmo instante 
um frenesi tomou conta do acampamento. Os convalescentes saltaram da cama, puseram as mochilas nas costas 
e saram correndo. Ordens foram gritadas no escuro, a agitao chegou ao auge.
     - Nada de luzes, porra!
* Refns polticos capazes de ser alvo de uma troca com guerrilheiros das Fare presos nas prises colombianas.
76
 



    Era Snia, que gritava com voz de homem. Ana e Isabel apareceram, arrancando o mosquiteiro e nos 
empurrando para fora da cama:
   -                Peguem tudo que puderem, vamos embora imediatamente,  a aviao!
    Meu crebro entrou em estado de viglia. Ouvi as vozes histricas ao meu
redor e entrei num outro estado, meio inconsciente: calar os sapatos, enrolar as roupas dentro da sacola, pegar 
a sacola, verificar se algo foi esquecido, marchar. Meu corao batia devagar, como quando eu fazia mergulho. 
O eco do mundo exterior me chegava da mesma maneira, como que filtrado por uma imensa parede de gua. 
Ana continuava a berrar e a me empurrar. J havia uma fila indiana de guerrilheiros seguindo por uma trilha 
desconhecida. Virei-me. Ana enrolara o colcho e o segurava sob o brao. Apertado sob o outro brao, levava o 
mosquiteiro dobrado como um rolo. Alm disso, carregava sua enorme mochila, que a forava a jogar-se para a 
frente, de to pesada que estava. "Que vida de cachorro!", murmurei, mais irritada do que outra coisa. No tinha 
medo. A pressa deles no me dizia respeito.
    A uns cem metros do acampamento, recebemos ordem de parar. A lua proporcionava claridade suficiente 
para que eu distinguisse as pessoas ao redor. Os guerrilheiros se sentaram no cho, encostados nas mochilas. 
Alguns tiraram delas os plsticos pretos e se cobriram com eles.
   -                Quanto tempo vamos ficar aqui? - cochichei para Isabel.
    O barulho dos helicpteros continuava presente, mas tive a impresso de que no se aproximavam mais.
   -                No sei. Precisamos esperar as instrues de Snia. Podemos ter dias de marcha pela frente...
   -                Dias de marcha?
   -                As botas ficaram no acampamento - prossegui, na esperana de ter um motivo para 
voltarmos.
   -                No, fui eu que as guardei. - Mostrou-me as botas, dobradas numa sacola que ela usava como 
travesseiro. - Voc devia cal-las, pois no vai conseguir andar na montanha sem isso.
   -                Na montanha? Vamos para a montanha?
    Isso atrapalhava todos os meus clculos! Eu tinha previsto que amos para o sul, para os confins dos Llanos. 
Depois, era a Amaznia. A montanha: isso significava voltar na direo de Bogot. Os Andes eram uma barreira 
natural praticamente intransponvel a p. Bolvar conseguira cruz-los com seu exrcito, mas era uma faanha!
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     Minha pergunta lhe pareceu suspeita, como se eu tentasse lhe armar uma cilada para obter uma 
informao secreta. Isabel me olhou, desconfiada:
    -                Sim, a montanha, al monte -
     Eles chamavam de monte a selva, a floresta virgem, e qualquer vegetao que no tinha sido modificada 
pelo homem. Era curioso, pois o significado antigo da palavra monte era mesmo esse. Eles a haviam assimilado  
palavra montana e a usavam indistintamente. Seu dialeto se prestava a confuso. Eu comeava a aprend-lo 
como se fosse uma lngua estrangeira, tentando memorizar as palavras cognatas entre o meu espanhol e o deles. 
Quando compreendi que estvamos andando para os Llanos, meu esprito foi longe.
     O barulho dos helicpteros aumentou depressa, com seu voo rasante acima das rvores. Avistei trs deles 
alinhados numa formao, no alto de minha cabea, e pressenti que deviam ser muito mais numerosos. V-los 
me encheu de felicidade: eles estavam nos procurando! Era visvel a angstia dos guerrilheiros. Viravam o rosto 
para o cu com os maxilares apertados, pelo desafio, o dio, o medo. Eu sabia que estava sendo observada por 
Ana. Evitava exteriorizar meus sentimentos. Agora os helicpteros se afastavam. No voltariam mais. Esse 
segundo de esperana que senti fora percebido ao meu redor. Eles eram uns animais treinados para farejar a 
felicidade dos outros. Fiz a mesma coisa. Farejei o medo deles e me alegrei com isso. Agora, podia sondar a 
satisfao deles diante de minha decepo. Eu lhes pertencia, a sensao de vitria os excitava. Cutucavam-se 
com os cotovelos e murmuravam, mirando-me direto nos olhos. Baixei os meus, impotente.
     A fila se desfez, cada um voltou a cuidar de seu canto. Fui ver Clara. Pegamos nas mos uma da outra, 
caladas, sentadas lado a lado, retesadas em cima de nossas mochilas. Estvamos habituadas com a cidade. A 
noite avanava. Grandes nuvens viajavam em nossa direo e povoavam o cu. A lua se ocultou. Um alvoroo 
sacudiu o espao. Os guerrilheiros tinham se ajoelhado diante das mochilas, que abriam depois de ter desfeito 
as mil correias, fivelas e ns que as prendiam.
    -                O que est acontecendo?
    -                Vai chover - respondeu Isabel, tambm concentrada em sua mochila.
    -                E ns, o que fazemos?
      guisa de resposta, ela me entregou um plstico preto.
    -                Cubram-se vocs duas com isto!
     Os primeiros pingos comearam a cair. De incio os ouvimos batendo nas folhas das copas das rvores, 
ainda sem trespassar a vegetao. Algum nos jogou outro plstico, que acabou parando a nossos ps. Foi bem a 
tempo: a tempestade despencou como um dilvio bblico.
78
 



    s quatro e meia da manh, voltamos ao acampamento. Os rdios foram ligados, vozes familiares 
anunciavam as manchetes do dia. Um cheiro de caf preto marcava o incio de um novo dia. Desabei sobre as 
tbuas antes mesmo de ter me reinstalado.
    Maria trouxe um grande prato de arroz e lentilhas, com duas colheres.
   -                Voc tem garfos? - perguntei.
    Eu no tinha o hbito de comer com colher.
   -                Vai precisar fazer o requerimento ao comandante - respondeu.
   -                A Snia?
   -                No, ao comandante Csar!
    Ele chegara ao acampamento no incio da tarde em sua grande caminhonete vermelha, luxuosa demais 
para um rebelde. Sorri pensando na histria que me contara. Tinha mandado comprar o carro em Bogot, por 
intermdio de um miliciano das Fare, que o dirigira at a zona desmilitarizada, onde o veculo lhe fora 
entregue. Em seguida, o comandante tinha declarado que o carro fora roubado e recebera o dinheiro do seguro. 
Era o mtodo das Fare. Mais que rebeldes, eram verdadeiros bandidos! Um grande caminho de canteiro de 
obras abarrotado de jovens guerrilheiros seguia o carro.
    Csar me cumprimentou, com o ar contente:
   -                Tivemos combates ontem  noite. Matamos uma meia dzia de soldados. Eles tinham vindo 
para pegar voc. Finalmente entenderam que jamais conseguiro! Temos de partir imediatamente. Este lugar j 
foi detectado.  para sua segurana. Preparem suas coisas.
    Dessa vez, Csar no nos acompanhou. Quem dirigia era o mesmo senhor gordo que comprara o colcho e 
as roupas. Os quinze que tinham vindo com Csar continuaram o caminho conosco, na caamba do caminho, 
todos em p, armados com fuzis. Clara e eu subimos na boleia, junto com o motorista.
    Por causa da tempestade da vspera, a pista tinha virado um pegajoso tobog de lama. Era impossvel 
avanar a mais de vinte quilmetros por hora. Estvamos pegando de novo a estrada para o sul, cada vez mais 
enfiados nos Llanos. A paisagem se tornara muito arborizada, ainda vamos alguns campos no cultivados e 
outros terrenos mordidos por incndios controlados. Os especialistas davam a isso o nome de "fronteira 
agrcola". A floresta amaznica devia estar pertinho.
    O cu estava em chamas. O sol caa em grande aparato. Tnhamos andado muitas horas sem parar.  
medida que avanvamos, meu corao se comprimia: eram tantos outros quilmetros extras a percorrer para 
voltar para casa. Eu me acalmava calculando que era possvel guardar algumas provises para nossa fuga,
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o suficiente para aguentar uma semana de marcha. Ela deveria ser empreendida durante a noite, quando os 
guardas relaxavam a ateno. Teramos de andar at de manhzinha e nos esconder durante o dia. Pedir ajuda a 
civis era invivel, eles podiam estar de conluio com as Fare. A atitude do motorista era reveladora, pois indicava 
relaes quase feudais entre o campesinato e a guerrilha, movidas a dependncia, submisso, interesse e medo.
     Eu estava mergulhada em minhas reflexes quando o veculo parou. Tnhamos chegado ao alto de um 
morro. O pr do sol oferecia-se em todo o seu esplendor.  esquerda, havia uma entrada que lembrava as das 
haciendas. A propriedade estava fechada, no por um muro, mas por uma tela encerada verde que a rodeava e a 
isolava, de modo que, da estrada, o que havia ali dentro ficava completamente invisvel.
     Os guerrilheiros pularam do caminho e partiram em grupos de dois, posicionando-se nos cantos da 
propriedade. Um rapaz alto, de bigode fino, abriu o porto. Era muito jovem, tinha talvez vinte anos. O 
caminho entrou, sem fazer barulho. O cu ficou verde e a noite caiu de repente.
     O grandalho se aproximou e me estendeu a mo:
     - Muito honrado em conhec-la, sou seu novo comandante. Se precisar de alguma coisa,  a mim que 
pedir. Meu nome  Csar. Ela  Betty, vai se ocupar de voc,  sua recepcionista.
     Betty no era seu verdadeiro nome. Todos os guerrilheiros tinham nomes de guerra, escolhidos pelo 
comandante que os recrutara. Muitas vezes era um nome estrangeiro, ou bblico, ou tirado de uma srie de 
televiso. A srie Yo Soy Betty, la Fea, durante bastante tempo fizera muito sucesso na Colmbia e imaginei que 
por a se explicava a escolha. Alm disso, estvamos com um novo chefe com nome igual.* "Realmente, todos os 
comandantes aqui se chamam Csar", pensei, achando graa.
     Nossa Betty no era feia, mas era baixinha como uma an. Acendeu a lanterna e pediu que a segussemos. 
O caminho logo foi embora, vazio, e o porto se fechou. Ela nos levou para uma velha cabana cujo teto 
apodrecido desabara no cho. Sob a metade ainda de p havia duas camas iguais quelas que tnhamos usado no 
hospital, a no ser pelas tbuas que tambm estavam podres e caam aos pedaos.
     Betty ps sua mochila num canto e, com o fuzil sempre a tiracolo, fez questo de recuperar as poucas 
tbuas que ainda estavam slidas para com elas fazer uma
* A srie colombiana inspirou a srie americana Uggly Betty.
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nica cama. Tinha posto a lanterna na boca para deixar as mos livres e trabalhar mais depressa. Os feixes 
luminosos acompanhavam seus gestos. Ela estava prestes a pr a mo numa das tbuas quando deu um pulo e 
perdeu a lanterna, que rolou no cho. Eu a tinha visto ao mesmo tempo que Betty: uma enorme tarntula de 
pelos ruivos, de peito estufado sobre as grossas patas, pronta para pular. Peguei correndo a lanterna para 
procurar o bicho, que tinha pulado para debaixo da cama e ia fugindo pelo lado do telhado e do monte de palha. 
Com seu faco, Betty cortou o animal ao meio.
   -                No poderei dormir aqui, tenho horror a esses bichos. Alm disso, eles vivem aos pares, o 
outro no deve estar longe!
    Minha voz soou aguda, revelando meu estado de nervos. Era espantoso. Eu acabara de falar igual  minha 
me. Era ela que tinha horror "a esses bichos". Eu, no. Ao contrrio, eles me fascinavam, pois pela imensido 
de seu tamanho pareciam sair do mundo dos insetos para entrar no dos vertebrados.
   -                Vamos limpar bem a rea, vou olhar debaixo da cama e por todos os cantos. E alm disso 
dormirei aqui com vocs, no tenham medo.
    Betty estava com vontade de rir e se esforava para disfarar. Minha companheira se jogou na cama assim 
que o colcho e o mosquiteiro foram postos no lugar. Betty voltou com uma vassoura velha, que peguei para 
ajud-la. Pus nossas coisas sobre uma tbua que ela instalara  guisa de prateleira e tambm fui me deitar. No 
consegui dormir at de madrugada. A insnia, porm, me permitiu descobrir o local dos guardas e conceber um 
plano de fuga para a noite seguinte. Tinha at localizado um canivete na mochila de Betty, que poderia nos ser 
til.
    Infelizmente, minhas esperanas de fuga no foram longe. El Mocho Csar apareceu por volta de meio-dia 
e pegamos a estrada de novo, sempre para o sul. Novamente a angstia me apertou a garganta. Eu calculava 
que, agora, precisaria de mais de uma semana para voltar pelo caminho que tnhamos feito. A situao estava 
ficando crtica. Quanto mais nos afastvamos, mais as chances de xito diminuam. Precisvamos reagir o 
quanto antes e nos equipar para poder sobreviver numa regio cada dia mais hostil. Havamos deixado uma 
regio plana e comevamos as subidas e descidas numa paisagem cada vez mais ondulada. Os camponeses 
deram lugar a uma populao de lenhadores, detectvel unicamente pela amplido dos estragos que deixavam 
atrs de si. Espectadores impotentes de uma catstrofe ecolgica que no interessava a ningum, atravessamos 
o espao devastado como se fssemos os nicos sobreviventes de uma guerra nuclear.
    El Mocho parou o carro no alto de um pequeno morro. Embaixo, numa casinha construda no meio de um 
cemitrio de rvores, crianas seminuas brincavam
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no cho. A lareira fumegava tristemente. Ele mandou que um grupo de guerrilheiros fosse at l pegar queijo, 
peixe e frutas. Peixe? Eu no via nenhum rio. A nossos ps estendia-se uma imensa vegetao: rvores at o 
infinito. Rodopiei: em 360 graus o horizonte tinha se tornado uma s linha verde, ininterrupta.
     El Mocho ficou de p a meu lado. Eu estava emocionada, sem saber por qu. Sentia que ele tambm estava. 
Ps a mo diante dos olhos para se proteger da reverberao e me disse, depois de um longo silncio:
    -                Isso a  a Amaznia.
     Disse isso com grande tristeza, quase com resignao. Suas palavras ficaram gravadas em minha mente, 
como se eu no conseguisse compreender seu significado. Sua voz e o tom que usava me deixaram, dessa vez,  
beira do pnico. Eu olhava para a frente, incapaz de falar, o corao disparado, escrutando o horizonte a fim de 
encontrar uma resposta. Estava morta de medo. Sentia o perigo. No o via. No o reconhecia. Mas ele estava ali, 
na minha frente, e eu no sabia como evit-lo.
     Mais uma vez, adivinhando o que eu sentia, Csar disse:
    -                 para l que voc vai.
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6. A morte de meu pai

23 de maro de 2009

    Estou s. Ningum me olha. Finalmente, sozinha comigo mesma. Nessas horas de silncio que adoro, falo 
comigo e rememoro. O passado, fixo no tempo, imvel e infinito, se volatilizou. Dele nada resta. Por que, ento, 
sofro tanto? Por que essa dor sem nome? Fiz o caminho que tinha estabelecido para mim e perdoei. No quero 
ficar acorrentada ao dio nem ao rancor. Quero ter o direito de viver em paz. Voltei a ser dona de mim mesma. 
Levanto-me de noite e ando de ps descalos. No h ningum para me cegar com uma lanterna, ningum. E 
estou sozinha. Meu barulho no me atrapalha, meu andar no intriga ningum. No pedi permisso, no tenho de 
me explicar. Sou uma sobrevivente! A selva ficou em minha cabea, mesmo no havendo nada ao meu redor 
para testemunhar, fora a sede com que bebo a vida. Fico muito tempo no chuveiro. A gua est escaldante, no 
limite do tolervel. O vapor invade o espao. Posso receber a gua em minha boca e deix-la correr devagar, 
morna, sobre o rosto e o pescoo. Ningum fica enojado com isso, nenhum olhar de soslaio. Fecho a torneira. 
Agora, quero a gua fria. Meu corpo a aceita sem se retesar. Tem o treinamento de anos demasiado longos de 
gua fria, muitas vezes gelada.
    Hoje faz sete anos que papai morreu. Estou livre e choro. De felicidade e de tristeza, de honra e de gratido. 
Tornei-me um ser complexo. No consigo mais sentir uma emoo de cada vez, estou dividida entre contrrios 
que me habitam e
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me sacodem. Sou dona de mim mesma, mas pequena e frgil, humilde pois consciente demais de minha 
vulnerabilidade e de minha inconsequncia. E minha solido me descansa. Sou a nica responsvel por minhas 
contradies. Sem precisar me esconder, sem o peso daquele que escarnece, que late ou que morde.
     H sete anos, exatamente, vi os guerrilheiros se reunirem em crculo. Olhavam-me de longe e falavam 
entre si. Estvamos instalados num novo acampamento. O grupo tinha aumentado. Outras moas haviam se 
juntado a Betty: Patrcia, a enfermeira, e Alexandra, uma moa muito bonita, por quem todos os rapazes 
pareciam estar apaixonados.
     Dez dias antes, houvera um alerta, os chulos percorriam o rio. Estvamos em plena fuga. Havamos 
caminhado durante vrios dias. Eu andara doente durante todo o trajeto. Patrcia e Betty ficaram perto de mim 
para me ajudar. Andvamos dias e dias, de enfiada. A estrada era bastante larga para permitir a circulao de 
veculos nos dois sentidos e fazia a ligao entre a margem de um rio e a foz de outro, a quilmetros de 
distncia. Nesse labirinto de cursos de gua que  a Amaznia, a guerrilha construra um sistema de vasos 
comunicantes que ela guardava em segredo. Sabiam manejar  perfeio os aparelhos GPS e os mapas virtuais 
para encontrar o caminho certo. A determinada altura, foi preciso atravessar mais um rio  beira do qual 
havamos acabado de chegar. Eu no via como. Fazia pelo menos um ms que tinha sido capturada. Minhas 
coisas estavam sendo transportadas pelos guerrilheiros dentro de um saco de compras que eu via passar de mo 
em mo ao longo de todo o trajeto. O saco fora deixado ali na margem do rio, como se quem o transportasse 
tivesse se fartado de faz-lo. Quando fui peg-lo, as moas me empurraram rudemente para dentro do mato, 
perdi o equilbrio e me vi no cho.
    -                Cuidado, carajol Es la marrana * * Cuidado, porra!  a porca!
    -                La marrana?
     Eu esperava ver chegar em cima de mim uma porca furiosa e tentei me levantar o quanto antes. Mas as 
moas, segurando-me pelos ombros, me foraram a ficar no cho, o que aumentou meu pnico.
    -                Arriba, mire arriba! Alia est la marrana.** ** No alto, olhe para o alto! A marrana est l.
     Olhei para o que uma delas me apontava. Acima de nossas cabeas, atravs
84
 



das nuvens, no meio de um cu azul, muito alto e muito longe, um avio, como uma minscula cruz branca, nos 
sobrevoava.
    - Esos son los chulos! Asi es como nos miran para despus "horrbadiarnos".* * Esses so os chulosl  assim que nos miram para depois nos bombardear.
    Ela pronunciava errado o verbo bombardear e dizia borrbadear, como uma garotinha que tivesse distrbios 
de elocuo. Eles tambm empregavam o verbo "olhar" em lugar do verbo "ver". O resultado era surpreendente: 
diziam "olhei para ela" quando queriam dizer que tinham visto alguma coisa. Sorri. Como poderiam nos 
localizar naquela distncia? Isso me parecia impossvel. Mas senti que nem sequer valia a pena discutir. O que 
contava era ter entendido que os militares prosseguiam em suas buscas, e que para os guerrilheiros aquela 
marrana era o inimigo, portanto a esperana para mim.
    Eu tinha conscincia de que nos enfurnvamos cada vez mais na selva, que cada passo nos afastava um 
pouco mais da civilizao. Mas a presena da marrana provava que os militares estavam seguindo nosso rastro. 
No haviam nos abandonado. Meia hora depois, o avio deu meia-volta e desapareceu. Logo o cu ficou 
carregado de grandes nuvens pretas. Mais uma vez, o mau tempo tomara o partido da guerrilha. No mais 
ouvimos o motor da marrana. As moas me entregaram um grande plstico preto.
    Grandes pingos de chuva formavam crculos na superfcie calma do rio. Ouvi o canto de um galo, no 
muito longe, na outra margem. "Meu Deus, deve haver gente por aqui!", pensei. Fui invadida por uma alegria 
simples. Se algum me visse, poderia dar um alerta, e os militares viriam nos procurar.
    O jovem Csar chegou, com ar altivo. Tinha encontrado uma piroga para fazermos a travessia. Na outra 
margem havia uma grande finca.** A mata tinha sido derrubada, dando lugar a uma imensa pastagem no meio 
da qual havia uma bonita casa de madeira pintada de cores alegres, verde e laranja. Consegui avistar galinhas, 
porcos e um cachorro cansado, que comeou a latir assim que samos da mata cerrada para embarcar.
    Csar exigira que atravessssemos o rio bem cobertas para que os "civis" no pudessem nos reconhecer. A 
tempestade desabara sobre ns. Eu estava molhada at os ossos, apesar do plstico preto, avanando na chuva 
horas seguidas at que j fosse noite escura. Os guerrilheiros tinham instalado uma barraca na beira da estrada, 
entre duas rvores, direto sobre a terra, com o tamanho exato para estender o mosquiteiro. Desabamos ali em 
cima, encharcadas.
** Fazenda.
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     No dia seguinte, a marcha continuou at um lugar onde se percebia que outros guerrilheiros tinham 
dormido antes. Era bonito. Uma nuvem de borboletas coloridas rodopiava em volta de ns. Estvamos de novo 
perto da estrada, e pensei que a fuga ainda era possvel.
     Mas no dia seguinte, de madrugada, nos mandaram empacotar tudo de novo. Sem que ningum soubesse 
como, inmeros sacos de mantimentos tinham sido empilhados perto da estrada durante a noite. Os 
guerrilheiros, j carregados com suas mochilas pesadas, pegavam, ademais, uma parte dos mantimentos, que 
levavam sobre a nuca, com a espinha curvada.
     Depois de uma hora de marcha, na altura de um grosso tronco de rvore cado atravessado na estrada, 
pegamos uma bifurcao para uma pequena trilha coberta de plantas adventcias. Essa trilha serpenteava 
caprichosamente entre as rvores. Eu precisava me concentrar para no perder de vista as marcas que os que iam 
 nossa frente haviam deixado, a fim de nos orientar no caminho. O lugar era muito mido e eu suava em bicas.
     Tnhamos cruzado uma pontezinha de madeira semipodre. Depois uma segunda, e uma terceira. Elas iam 
ficando mais compridas  medida que avanvamos. Algumas eram praticamente alamedas construdas sobre 
pilotis atravs da selva. Fiquei alucinada, pois vi a dificuldade de percorrer em sentido contrrio o mesmo 
caminho, durante a noite e tateando. Quando anoiteceu, chegamos a uma espcie de clareira em suave declive. 
Bem no alto, uma barraca j estava armada. Tinham construdo no meio do mato uma cama de verdade, com 
quatro forquilhas a uns vinte centmetros do cho  guisa de ps para sustentar os galhos transversais em que 
repousava o colcho. O mosquiteiro estava pendurado, como numa cama de baldaquino, em longas estacas nos 
quatro cantos, a que chamavam de esquineras*
     Foi nesse acampamento que os vi conspirar perto do economato, nome que davam ao abrigo sob o qual os 
mantimentos eram estocados.
     Estvamos no dia 23 de maro, um ms exato desde meu sequestro. Eu sabia que a Frana tinha lhes dado 
um ultimato. Ouvira no rdio de um dos guardas. Se no me libertassem, as Fare seriam includas na lista das 
organizaes terroristas feita pela Unio Europeia.
     Depois de nossa chegada, dez dias antes, uma rotina se instalara, ritmada pelas trocas de guarda a cada 
duas horas e pelos intervalos das refeies. Eu j
* Cantoneiras.
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tinha percebido exatamente a hora ideal para fugir. Clara concordava em me acompanhar.
    Eles discutiam e lanavam olhares sinistros para mim. Imaginei que j sabiam da notcia e senti certo alvio 
com a ideia de que estavam sob presso para me soltar. De qualquer maneira, estava pouco ligando. Em poucos 
dias estaria em casa, nos braos de papai. Fixei como data limite para a fuga o domingo seguinte. Tinha certeza 
de que ia dar certo. Estvamos no incio da Semana Santa. Queria fugir no domingo de Pscoa.
    Observei o concilibulo. Estavam visivelmente aflitos. O jovem Csar acabou por dispers-los e Patrcia, a 
enfermeira, veio falar conosco, com cara de quem tinha sido investida de uma misso delicada. Agachou-se 
diante da nossa coleta.
   -                Que notcias vocs ouviram recentemente?
   -                Nada de especial - aventurei-me a responder depois de um silncio, tentando entender o 
objetivo de sua aproximao.
    Ela se mostrou particularmente amvel a fim de ganhar nossa confiana. Alegava ter pena de nossa situao 
e querer nos dar coragem. Disse que precisvamos ser um pouco mais pacientes, que j tnhamos esperado "o 
mais longo", que agora podamos esperar "o mais curto". Afirmou que breve seramos libertadas. Senti que 
estava mentindo.
    Eu s pensava em uma coisa: disfarar tudo que pudesse alert-los sobre nosso plano. Minha alma estava 
blindada. Na verdade, no era uma fuga que os inquietava. O olhar de Patrcia no vasculhava a coleta  procura 
de um indcio. Ela estava calma e ponderada, sondando meus olhos como se procurasse ler meus pensamentos. 
Foi embora. Pensei que estivesse irritada por no ter conseguido tirar nada de ns. Enganava-me. Na verdade, 
retirou-se aliviada.
    Meu pai acabara de morrer. Eles queriam apenas se certificar de que eu no estava a par disso. A partir 
desse momento, tinham me impedido de ouvir rdio. Temiam que a tristeza me levasse a fazer loucuras.
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7. O abismo

3 de abril de 2002

     Voltamos para o acampamento trs dias depois de nossa segunda fuga, empurradas pelos dois guardas que 
tinham nos capturado. Clara estava com os ps inchados, quase no conseguia mais andar. Eu, mortificada, me 
recriminava terrivelmente por no ter tido bons reflexos, por no ter sido mais previdente e cautelosa. Pensava 
em papai. No estaria com ele no dia de seu aniversrio. No estaria em casa para o Dia das Mes. Em setembro 
minha filha completaria dezessete anos. E, se por acaso eu ainda no tivesse sido solta, viria em seguida o 
aniversrio de meu filho. Queria tanto estar l para seus catorze anos...
     Os guardas nos empurravam. Debochavam. Tinham dado tiros para o ar ao chegar ao acampamento e todos 
gritavam e cantavam vitria ao nos ver. O jovem Csar nos olhava de longe, com olhos sinistros. No queria se 
juntar s festividades iniciadas com nossa recaptura. Fez sinal s recepcionistas que cuidassem de ns. Ele j no 
era a mesma pessoa, e o vi em sua caleta andar de um lado para outro, dando voltas como uma fera na jaula.
     A enfermeira do acampamento veio nos ver. Remexeu nossos pertences e, mesquinha, confiscou todos os 
objetos de que gostvamos: a faquinha de cozinha, as vitaminas C efervescentes, as cordas e os anzis que um 
dos rapazes nos passara. E, claro, a lanterna de bolso.
     Fez um monte de perguntas. Fui o mais evasiva possvel. No queria que
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deduzisse a hora nem o caminho que tnhamos pegado para fugir. Mas ela era talentosa. Fez tantos comentrios, 
introduzindo perguntas ardilosas aqui e ali, que precisei me concentrar, mordendo os lbios at sangrarem, para 
no cair na armadilha.
    Clara estava ferida e pedi  enfermeira que cuidasse de minha amiga. Ela sentiu que seu interrogatrio no 
poderia prosseguir e levantou-se de mau humor:
   -                Vou mandar algum para lhe fazer uma massagem - disse  minha companheira.
    Vi quando se dirigiu para a barraca do comandante. Csar parecia discutir asperamente com ela. Era um 
sujeito alto, muito esguio e provavelmente mais moo. Parecia exasperado com o que ela lhe dizia. Deu meia-
volta e a deixou falando sozinha, enquanto subia a ladeira para ir  nossa caleta.
    Chegou com ar grave. Depois de um longo silncio, fez um discurso:
   -                Vocs fizeram uma grande besteira. Poderiam ter morrido nesta selva, devoradas por qualquer 
bicho. Havia onas, ursos, jacars prontos para nos comer. Puseram em perigo sua vida e a de meus homens. 
Vocs no vo mais pr os ps fora do mosquiteiro sem a permisso dos guardas. Para ir aos chontos, sero 
acompanhadas por uma das moas. No tiraremos mais os olhos de vocs.
    Depois, num tom baixo, quase ntimo, me disse:
   -                Ns todos perdemos as pessoas que amamos. Eu tambm sofro, estou longe daqueles que amo. 
Mas nem por isso vou jogar minha vida pelos ares. Voc tem filhos que a esperam. Deve ser sensata. Deve 
pensar agora  em ficar viva.
    Virou as costas e foi embora. Fiquei calada. Seu discurso era absurdo. Ele no podia comparar seu 
sofrimento com o nosso, pois escolhera seu destino, ao passo que ns estvamos sujeitas ao nosso. Claro, devia 
ter passado horas negras de aflio por ter de sofrer a reprimenda de seus superiores devido  nossa fuga. Podia 
at ser julgado pelo conselho de guerra e executado. Eu esperava que ele fosse violento e impiedoso como o 
resto de seus homens. Mas, ao contrrio, era ele que os continha. Evitara as zombarias que os guerrilheiros 
haviam feito conosco no caminho de volta, como se tivesse mais medo por ns do que por ele mesmo.
    Naquela noite, fizeram outra reunio. Pude v-los todos reunidos em crculo no meio do acampamento. 
Falavam baixo. S me chegava o zum-zum das discusses. De vez em quando alguns levantavam a voz. As falas 
pareciam tensas.
    Ao meu lado, encostada numa das estacas que sustentavam o mosquiteiro, uma moa estava de guarda. Era 
a primeira vez que um guarda se instalava nada menos do que dentro da barraca: obviamente, as condies de 
deteno tinham mudado. A lua brilhava tanto que era possvel enxergar como se estivssemos em
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pleno dia. A moa acompanhava com paixo o desenrolar da assembleia, mais treinada do que eu para escutar  
distncia.
     Percebeu que eu a observava e mudou o fuzil de ombro, meio encabulada:
    -                Csar est furioso. Avisaram aos chefes cedo demais. Se tivessem esperado um pouco, 
ningum teria sabido de nada. Agora, o mais provvel  que ele seja afastado do comando.
     Falava sem olhar para mim, em voz baixa, como se pensasse alto.
    -                Quem avisou?
    -                Patricia, a enfermeira. Ela  a segunda no comando... Gostaria de pegar o lugar dele.
     Ca das nuvens. Uma guerra palaciana em plena selva!
     Na manh seguinte, o socio de Patricia - seu namorado, no jargo das Fare - apareceu no raiar da aurora 
diante de nossa barraca carregado de grandes correntes semienferrujadas. Ficou ali um tempo, brincando com 
as correntes, se deliciando em faz-las cantar entre seus dedos, produzindo um estalinho agudo. No quis me 
rebaixar e perguntar-lhe para que serviriam. E ele desfrutava da mortificao que produzia em ns a incerteza 
de nossa condio. 
     Aproximou-se, os olhos brilhantes, os beios arreganhados. Resisti, sentindo que ele tinha medo de 
ultrapassar aquele limite. Olhou para trs. Deu de ombros e declarou, vencido:
    -                Bem, ser nos tornozelos! Azar o de vocs, vai ser mais desconfortvel, vocs no podero 
calar as botas.
     Senti-me muito mal. A ideia de ser acorrentada no era nada se comparada com a realidade de s-lo de 
fato. Apertei os lbios sabendo que teria de me submeter. Na prtica, isso no mudava grande coisa, devamos 
pedir licena para fazer o menor deslocamento. Mas psicologicamente a sensao era horrorosa. A outra ponta 
da corrente estava presa numa grande rvore, e por isso ficava esticada caso resolvssemos nos sentar no 
colcho e sob o mosquiteiro. Essa tenso, necessariamente, acabava cortando nossa pele e pensei em como 
dormiria nessas condies. Porm, acima de tudo havia o horror de perder a esperana. Com aquelas correntes, 
qualquer fuga se tornava impossvel. J no teramos nem mesmo a possibilidade de imaginar uma nova forma 
de evaso: uma chapa de chumbo caa definitivamente sobre ns. Agarrando-me ao irracional, cochichei para 
Clara:
    -                No se preocupe, vamos conseguir fugir assim mesmo.
     Ela se virou para mim com os olhos esbugalhados e berrou:
    -                Chega!  voc que eles querem, no eu. No sou uma poltica, no 
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represento nada para eles. Vou escrever uma carta aos comandantes, sei que me deixaro partir. No tenho que 
ficar aqui com voc.
    Pegou seu saco de viagem, remexeu nervosamente dentro dele. Depois, no auge da irritao, esgoelou-se:
    - Guarda! Preciso de uma folha de papel para escrever!
    Clara era solteira, tinha por volta de quarenta anos. Havamos trabalhado juntas no Ministrio do Comrcio. 
Ela participara de minha primeira campanha quando me candidatei ao Congresso e depois resolvera retornar ao 
ministrio. Fazia anos que eu no a via. Duas semanas antes de nosso sequestro, ela se aproximara de mim para 
juntar-se  equipe da campanha. ramos amigas, mas at ento eu no a conhecia muito bem.
    Clara estava certa. Eu no podia ficar brava. Tnhamos chegado ao ponto em que devamos nos render ao 
bvio: nossa libertao talvez levasse meses. Uma nova tentativa de fuga seria mais difcil ainda porque nossa 
margem de manobra estava encolhendo. Os guardas se mostravam prontos para o que desse e viesse, espiando 
todos os nossos movimentos, limitando ao mximo nossos deslocamentos. S nos tiravam as correntes quando 
amos aos chontos e na hora do banho. Alis, podamos nos considerar felizes: um dos guardas resolvera que 
tomaramos banho com a corrente no tornozelo, arrastando atrs de ns o comprimento que ele soltaria da 
rvore. Tive de apelar para Csar, que se mostrou clemente. Mas, quanto ao resto, nossa situao se deteriorara 
imensamente. No tnhamos acesso ao rdio. Os guardas que se sucediam tinham ordens de responder com 
evasivas a todos os nossos pedidos. Era o modo Fare. No nos diziam "no": postergavam, mentiam para ns, o 
que era ainda mais humilhante. Agiam da mesma forma no que se referia s lanternas: sempre as tinham 
esquecido em suas caletas quando precisvamos delas, mas continuamente as jogavam em cima de ns, o feixe 
de luz em pleno rosto durante a noite inteira. Devamos nos calar. No podamos mais usar seus faces, nem 
mesmo para as tarefas mais rudimentares. Precisvamos pedir a todo momento que nos ajudassem, e eles nunca 
tinham tempo. Ficvamos o dia inteiro sob o mosquiteiro, entediadas, incapazes de fazer um movimento sem 
atrapalhar uma  outra. Sim, eu compreendia a reao dela. Mas sua atitude,  claro, me feria. Ela estava se 
afastando de mim.
    Clara escreveu a carta e passou-a para que eu a lesse. Era uma carta curiosa, escrita no jargo jurdico, 
como se ela se dirigisse a uma autoridade civil. Esse 
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formalismo destoava do mundo onde estvamos. Mas por que no? Afinal de contas, aqueles guerrilheiros nos 
impunham nada mais, nada menos do que sua autoridade.
     Ela fazia questo de entreg-la diretamente ao comandante. Mas o jovem Csar no apareceu. Mandou a 
enfermeira em seu lugar e foi ela que nos garantiu 
que a carta chegaria s mos de Marulanda. Seria preciso esperar duas semanas 
pela resposta. Ou seja, uma eternidade. Com um pouco de sorte, nos soltariam 
antes disso.
     Uma noite, conversando sobre a histria dessa carta e a possibilidade de libertao, Clara e eu nos 
metemos nas areias movedias de nossas hipteses e de 
nossas fantasias. Ela previa sua volta para Bogot, certa de que os chefes recuariam na deciso e lhe 
devolveriam a liberdade. Era obcecada pelas plantas de seu 
apartamento, que deviam ter murchado por falta de cuidados. Arrependia-se por 
nunca ter dado as chaves da casa  sua me e constatava, com amargura, como era 
sozinha na vida.
     Seus arrependimentos despertaram os meus. Tomada por um sbito mpeto, 
agarrei seu brao com fora para lhe dizer, com uma intensidade descabida:
    -                Quando voc for solta, jure que ir ver papai imediatamente!
     Ela me olhou, surpresa. Eu estava com os olhos midos e a voz entrecortada.
Ela concordou com um movimento da cabea, sentindo que eu andava s voltas 
com uma emoo inabitual. Ca em prantos, ainda agarrada em seu brao, e confiei-lhe as palavras que gostaria 
de dizer a papai... Queria lhe dizer que sua bno 
era meu maior socorro. Que constantemente eu repassava na memria a imagem 
daquele momento em que ele se dirigira a Deus para me colocar entre suas mos. 
Eu me recriminava por no ter lhe telefonado naquela ltima tarde em Florncia. 
Queria lhe dizer como sofria por no ter lhe dedicado mais tempo de minha vida.
No turbilho de atividades em que estivera envolvida na poca do sequestro, havia 
perdido o senso das prioridades. Concentrara-me no trabalho, queria levantar o 
mundo e acabara deslocando para longe de mim as criaturas que me eram as mais 
queridas. Agora compreendia por que ele me dizia que a famlia era o que tnhamos de mais importante, e 
quanto eu estava decidida a mudar meu modo de vida 
no dia em que reencontrasse minha liberdade.
    -                Diga-lhe que me espere. Diga-lhe que aguente, por mim, pois preciso saber que est vivo 
para ter coragem de continuar a viver.
     Minha companheira escutou essa confisso trgica como uma intrusa num 
drama que no lhe dizia respeito e diante do qual se mantinha indiferente. Tinha 
sua prpria tragdia a enfrentar e no queria, alm disso, carregar a minha nas 
costas.
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    - Se o vir, lhe direi que voc pensa nele - concluiu, evasiva.
    Lembro-me dessa noite, deitada na beira do colcho, o rosto colado ao mosquiteiro, tentando no acord-la. 
Chorei a noite inteira, calada, sem que nem mesmo o cansao conseguisse secar minhas lgrimas. Desde minha 
infncia papai sempre fizera o possvel para me preparar para o momento de nossa separao definitiva. "A 
nica coisa certa  a morte", costumava dizer, num tom de sbio. Depois, quando teve certeza de que eu 
compreendia que ele no temia a morte, dizia-me com um toque brincalho: "Quando eu morrer, virei coar seus 
ps debaixo das cobertas". Cresci com a ideia dessa cumplicidade inabalvel, que faria com que, alm da morte, 
teramos a possibilidade de continuar a nos comunicar. Depois, resignei-me ao pensar que, acontecesse o que 
acontecesse, Deus me daria a oportunidade de estar perto dele, de mos dadas, quando ele estivesse passando 
para o alm. Quase cheguei a considerar ser esse um direito que me cabia, pois sentia que era sua filha querida. 
Quando, um ms antes, papai quase morreu no hospital, a presena de minha irm Astrid fora meu melhor 
recurso. Sua fora, seu controle, sua segurana, me haviam revelado que aquela mo forte que o ajudaria a 
atravessar o Aqueronte no seria a minha, mas a de minha irm mais velha. Ao contrrio, minha mo arriscava-
se a ret-lo como um peso, tornando sua partida mais dolorosa.
    Eu no tinha considerado a possibilidade de estar ausente  sua cabeceira no dia de sua morte. Isso jamais 
passara pela minha mente. At o alvorecer daquele dia. Depois do caf da manh, o sol penetrou na selva por 
todo lado. A terra exalava os vapores da noite e ns todos tentvamos estender nossa roupa sob os raios mais 
fortes que se filtravam entre os galhos.
    Dois guerrilheiros chegaram com os ombros carregados de troncos recm-descascados, que jogaram 
ruidosamente ao p de nossa barraca. Alguns terminavam numa forquilha, e foi com esses que comearam a 
trabalhar. Fincaram os troncos bem fundo no solo nos quatro cantos de um retngulo imaginrio. Repetiram a 
operao com quatro outros, cortados mais curtos e espetados de modo desalinhado. Com cips que tinham 
trazido enrolados, prenderam uma srie de varas postas na horizontal entre as forquilhas. V-los trabalhar era 
fascinante. No falavam e pareciam perfeitamente sincronizados, um cortando, o outro fincando na terra, um 
prendendo, o outro medindo. Uma hora depois, havia diante de nossa caleta uma mesa e um banco feitos de 
troncos de rvores, a uma distncia que nos permitia chegar ali com nossas correntes.
    O guarda deu autorizao para nos instalarmos ali. Um raio de sol caa direto no banco. No me fiz de 
rogada, procurando me desfazer da umidade da selva que
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impregnava minhas roupas. Sentada onde estava, eu tinha uma vista perfeita para o economato. Por volta de onze 
horas da manh, vi chegarem guerrilheiros, que transportavam nas costas grandes sacos de mantimentos. Havia, 
coisa singular, um estoque de repolhos embrulhados em papel-jornal. Os legumes eram um alimento rarssimo, 
pelo que tnhamos entendido. Porm, mais extraordinria ainda era a presena de um jornal no acampamento.
     Pedi autorizao para recebermos o jornal antes que fosse jogado no buraco destinado ao lixo, e insisti para 
que o pedido fosse formulado ao comandante. Csar concordou. Nossa recepcionista foi encarregada de 
recuperar o jornal. Depois do almoo, trouxe-nos um montinho de folhas amassadas e ainda midas, mas 
legveis. Formamos dois maos e nos instalamos em nossa mesa para a leitura, felizes por termos encontrado um 
passatempo e um uso adequado para nossa nova moblia. A guarda foi trocada e substituda pelo companheiro da 
enfermeira. Ele foi se postar um pouco mais longe, quase escondido atrs da grande rvore na qual estavam 
presas nossas correntes. No tirava os olhos de mim e eu me sentia desconfortavelmente vigiada. Azar, o jeito 
era aprender a me abstrair.
     A folha que eu tinha  minha frente era do jornal El Tiempo de um domingo de maro. Velha de mais de um 
ms. Era uma seo dedicada s fofocas do mundo do espetculo, da poltica e da burguesia do pas. Uma leitura 
obrigatria para quem quisesse ficar por dentro da atualidade social da capital. Eu estava prestes a virar a pgina 
em busca de informaes mais consistentes quando minha ateno foi atrada pela foto do centro da pgina. 
Olhei-a atentamente. Mostrava um padre sentado, vestindo uma casula bordada nas cores prpura e verde, que 
usava por cima da alba. Olhava para dois fotgrafos munidos de teleobjetivas imensas, apontadas para um alvo 
invisvel. O que me chocou no foi a foto em si, mas a expresso do padre, a tenso em seu rosto, sua dor 
evidente, e tambm uma certa raiva manifestada na rigidez do corpo. A curiosidade me levou a ler a legenda: 
"Padre testemunha as manobras de dois fotgrafos em busca do melhor ngulo para fotografar o caixo de 
Gabriel Betancourt, falecido na semana passada".
     Senti uma mo invisvel empurrar minha cabea para dentro da gua. As palavras e as letras danavam 
diante de meus olhos e eu custava a entend-las. Lia e relia, e a ideia tomava corpo lentamente em meu esprito 
aparvalhado. Quando finalmente associei a palavra "caixo" ao nome de meu pai, o horror me gelou a ponto de 
me fazer perder o controle da respirao. O ar no entrava mais. Eu forava, expelia, tragava, sem sucesso, no 
vazio, a boca escancarada como um peixe fora d'gua. Sufocava-me sem entender o que estava me acontecendo, 
sentindo que meu corao tinha parado e que eu ia morrer. Durante todo o tempo da 
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agonia, pensei: "No  ele,  outra pessoa, enganaram-se". Agarrei-me  beira da mesa, suando frio, assistindo 
ao duplo pavor de sua morte e da minha, at que consegui despregar os olhos do jornal e levantar o rosto para o 
alto em busca de oxignio.
    E dei com os olhos dele, que me espiava atrs da rvore, fascinado em assistir  transfigurao, assim como 
uma criana diante da mosca cujas asas acabou de arrancar. Ele sabia de tudo - sabia da morte de papai e 
esperava que eu a descobrisse. Instalara-se no melhor lugar e se deliciava com meu sofrimento. Odiei-o 
imediatamente. Meu dio obrigou-me a me reaprumar, como uma chicotada em pleno rosto.
    Virei-me num pulo, vermelha de indignao. No queria que ele me visse. Ele no tinha o direito de me 
olhar. Eu ia morrer, ia implodir, ia expirar naquela selva de merda. Antes isso, pois iria ao encontro de meu pai. 
Era o que eu queria. Queria desaparecer.
    Foi ento que ouvi sua voz. Ele estava ali, a poucos metros de mim. No podia v-lo, mas o sentia. Era o 
cheiro de seus cabelos brancos que eu beijava ao ir embora, toda noite. Estava em p  minha direita, como uma 
daquelas rvores centenrias que me cobriam com suas sombras, to grande, to slido como elas. Olhei em sua 
direo e uma luz branca me cegou. Fechei os olhos e senti as lgrimas escaparem, rolando devagar em meu 
rosto. Era sua voz sem palavras. Cumprira sua promessa.
    Virei-me para minha companheira e, fazendo um esforo sobre-humano, disse:
    - Papai morreu.
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8. Os marimbondos

Um ms antes - maro de 2002

     Era domingo de Pscoa. O acampamento continuava a ser construdo. O 
jovem Csar mandara erguer uma rancha* ao lado do riacho que contornava o 
acampamento, o economato para estocar os mantimentos e, no meio do crculo 
das barracas, a aula, isto , a sala de aula.
     Eu gostava de dar uma voltinha pela rancha para ver como preparavam os 
alimentos. No incio, cozinhavam em fogo de lenha. Depois, um pesado fogo 
a gs foi transportado nas costas de homens, com seu enorme bujo cheio. No 
entanto, o que me interessava mais eram duas facas de cozinha que ficavam permanentemente na mesa da 
rancha. Pensava que precisaramos delas para a fuga 
que estvamos planejando.
     Enquanto eu costurava, embrulhava, selecionava os objetos para nossa partida e os guardava sob o 
mosquiteiro, observava com ateno a vida do acampamento. Havia em especial um jovem guerrilheiro que vivia 
uma histria atormentada. Chamavam-no El Mico, pois tinha orelhas de abano e uma boca enorme. Era
apaixonado por Alexandra, a guerrilheira mais bonita, e conseguira seduzi-la. Ao 
fim de cada dia chegava ao acampamento um sujeito alto, forte e bonito, que
* Espao que fazia as vezes de cozinha.
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tambm tinha paquerado a moa. Era o masero.* Seu papel era fazer a ligao entre os dois mundos: o da 
legalidade, em que vivia como qualquer pessoa da aldeia, e o da ilegalidade, que implicava levar provises e 
informaes para os acampamentos das Fare. Alexandra era sensvel s suas atenes, enquanto El Mico ficava 
dando voltas em torno dela, vtima de tremendo cime. Perdia tanto o controle de suas emoes que no turno de 
guarda era incapaz de tirar os olhos da moa, esquecendo por completo de cuidar de ns. Rezei para que 
estivesse de guarda no dia de nossa fuga. Estava convencida de que poderamos partir nas barbas dele, pois no 
perceberia rigorosamente nada.
    Nesses dias de preparativos a sorte nos ajudou. Enquanto o acampamento estava em efervescncia e os 
guerrilheiros trabalhavam como formigas, cortando lenha para fazer construes de todo tipo, um deles deixou 
um faco solto por ali, perto de nossa barraca. Foi minha companheira que o descobriu e consegui lev-lo para 
os chontos, a fim de escond-lo. Os chontos que haviam fabricado para ns ficavam entre os arbustos. Prevendo 
algo duradouro, tinham aberto seis buracos quadrados, cada um com um metro de profundidade. Quando o 
primeiro buraco ficasse cheio, seria coberto e passaramos a usar o seguinte. 
    Escondi o faco no ltimo buraco e o cobri de terra. Prendi no cabo uma cordinha, que deixei discretamente 
aparecendo, a fim de que no dia de nossa sada s tivssemos de pux-la para pegar o faco, sem ter de 
mergulhar a mo na terra para procur-lo. Precavida, expliquei  minha companheira que era preciso evitar usar 
aquele buraco, para no complicar a recuperao do faco.
    J era Semana Santa. Eu havia me recolhido todos os dias, tirando de minhas preces a coragem de tentar 
uma nova fuga. O aniversrio de papai era no fim de abril e calculei que, partindo um ms antes, teramos 
chances de fazer-lhe uma boa surpresa.
    Examinara, uma a uma, a lista das tarefas que me impunha, e conclura satisfeita que estvamos prontas 
para a grande partida. Pensava naquele domingo como um bom dia para tentar a fuga. Observara que o jovem 
Csar reunia sua tropa todo domingo  noite para atividades de recreao. Jogavam, cantavam, recitavam, 
inventavam slogans revolucionrios, o que desviava a ateno dos guardas de servio, que se lamentavam de no 
estar ali.
    Portanto, tnhamos de esperar que a oportunidade se apresentasse. Toda noite, na hora do lusco-fusco, 
fazamos uma sesso de ensaio. Eu estava tensa como
** Aquele que fazia o contato com "as massas", ou seja, os camponeses da regio.
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um arco, incapaz de dormir, imaginando na insnia todos os obstculos que podiam surgir.
     Uma tarde, ao voltar dos chontos, vi minha companheira esconder alguma coisa em sua sacola, com um 
gesto brusco. Por curiosidade e disposta a implicar com ela, tentei saber o que procurava dissimular. Descobri 
com estupor que ela j tinha tocado nas nossas reservas de queijo e de comprimidos de vitamina C. Senti-me 
trada. Isso reduzia singularmente nossas chances. Mas, sobretudo, criava um clima de desconfiana entre ns.
     Era o que devamos evitar a todo custo. Devamos ficar unidas, inseparveis, devamos poder contar uma 
com a outra. Tentei explicar-lhe da melhor maneira possvel minha apreenso. Mas ela me olhava sem me ver. 
Peguei suas mos para faz-la voltar  realidade.
     O domingo custou a passar. O acampamento cara numa calmaria soporfera. Estvamos prontas, bastava 
ter pacincia. Eu tinha tentado dormir pensando que o que nos esperava seria penoso e que devamos poupar 
nossas foras. Esforcei-me para ser amvel e vigiei meus gestos para no despertar suspeitas. Sentia que me 
encontrava num estado meio estranho, invadida por uma grande agitao diante da perspectiva de acabar com 
nosso cativeiro e angustiada at a alma ao pensar que poderamos ser apanhadas. Se no tivesse me contido, 
teria engolido a comida sem mastigar, teria esquecido de me enxugar depois de tomar banho, e teria perguntado 
as horas a cada dois minutos. Justamente por isso fiz o contrrio: mastiguei devagar os alimentos, realizei com 
calma as tarefas do dia e me concentrei na sua execuo para imitar o melhor possvel o que eu acreditava ser 
minha atitude habitual. Falava com eles, mas sem procurar conversar. Fazia um ms e uma semana que tnhamos 
sido capturadas. Estavam orgulhosos de nos manter prisioneiras, e senti um prazer verdadeiro com a ideia de 
deix-los.
     Os guerrilheiros fingiam-se de gentis, eu fingia estar habituada a viver entre eles. A aflio pairava sobre 
todas as nossas palavras, cada um avaliava o outro atrs de sua mscara. O dia se passava tanto mais devagar 
quanto aumentava minha impacincia. A angstia ia ficando sufocante. Flagrei-me pensando que aquela 
insuportvel adrenalina que me subia era mais eficaz para fugir do que o medo de que o cativeiro se 
prolongasse. Pontualmente s seis da tarde daquele domingo, 31 de maro de 2002, houve uma troca de guardas. 
Era El Mico que pegava seu turno. Aquele mesmo que era loucamente apaixonado por Alexandra, a bela 
guerrilheira. Meu corao deu um pulo: era um sinal do destino. Tnhamos de ir. Seis e quinze era a hora ideal 
para sair da caleta, andar at os chontos e embrenhar-se na selva. s seis e meia j seria noite.
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    J eram seis e dez. Deixei minhas botas de borracha bem visveis, diante da coleta, e comecei a calar os 
sapatos com que ia partir.
   -                No podemos ir,  arriscado demais - disse Clara.
    Observei ao redor. O acampamento se preparava para a noite. Todos estavam cuidando de seus afazeres. El 
Mico deixara o posto. Afastou-se e chamou a moa, fazendo grandes sinais, bem no instante em que o belo 
masero entrava no acampamento. A moa se preparava para ir at onde estvamos e parou de repente ao ver 
chegar o outro pretendente.
   -                Espero voc nos chontos. Voc tem trs minutos, no mais que isso - cochichei para Clara  
guisa de resposta, com os ps j fora do mosquiteiro.
    Dei uma ltima olhadela para o guarda e me recriminei por t-lo feito. Se ele tivesse me olhado nesse 
instante, meu gesto teria bastado para pr tudo a perder. Mas "o mico" vivia seu prprio drama. Estava 
encostado numa rvore, observando o sucesso do rival. Nada lhe interessava menos no mundo do que o que 
poderia acontecer conosco. Dirigi-me direto para o buraco onde tinha enterrado o faco. A cordinha continuava 
l. Em compensao, o buraco tinha sido usado e um cheiro horroroso emanava dali. "No se irritar, no se 
irritar", eu me repetia puxando a cordinha e trazendo no s o faco, mas imundcies de todo tipo.
    Minha companheira chegou e se agachou, ao meu lado, ofegante, procurando se esconder dos olhos do 
guarda. Algumas palmeiras nos protegiam.
   -                Ele viu voc?
   -                Acho que no.
   -                Est trazendo tudo?
   -                Estou.
    Mostrei-lhe o faco, que limpei rapidamente com folhas. Ela fez uma careta de nojo.
   -                Eu no tinha entendido - respondeu, desculpando-se, com um risinho nervoso.
    Peguei a vara que havia escondido entre os arbustos e me embrenhei no mato, andando sempre em frente. O 
canto das cigarras vinha explodir na floresta, invadindo os crebros at o atordoamento. Eram seis e quinze em 
ponto: as cigarras sabiam melhor que ns, eram de uma pontualidade britnica. Sorri, era impossvel que algum 
conseguisse ouvir a barulheira que fazamos ao andar pelas folhas e os galhos secos que estalavam com 
estardalhao sob nossos passos. Quando tivesse anoitecido de vez, as cigarras dariam lugar ao coaxar dos sapos. 
Os barulhos de fundo seriam perceptveis, mas a essa altura j estaramos longe. Pelos matagais distingui a 
claridade que vinha do acampamento, vi as formas humanas entrarem
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e sarem das caletas. Protegidas pela vegetao, j estvamos no breu. Eles no podiam mais nos ver.
     Minha companheira agarrava-se em meu ombro. Havia na nossa frente um tronco de rvore deitado no 
cho que me parecia imenso. Montei nele, passei para o outro lado e me virei para ajud-la. Era como se algum 
acabasse de apagar a luz. De repente, estvamos na mais densa escurido. A partir de agora, teramos de avanar 
tateando. Com a vara, como uma cega, eu identificava os obstculos e ia abrindo caminho entre as rvores.
     A certa altura as rvores ficaram mais espaadas e depois desapareceram. A marcha se tornou mais fcil e 
nos encorajou a falar. Tive a impresso de estar num caminho que descia em suave declive. Se fosse o caso, era 
melhor nos afastarmos e pegar de novo a floresta. "Um caminho" era sinnimo de guardas, e eu ignorava 
quantos crculos de segurana tinham sido instalados em volta do acampamento. Corramos o risco de cair nos 
braos de um de nossos sequestradores.
     Fazia quase uma hora que andvamos assim, no escuro e caladas, quando senti de repente a presena de 
algum. A sensao de no estarmos mais sozinhas foi imediata e parei na mesma hora. De fato, algum se 
deslocava no escuro. Ouvi nitidamente o farfalhar das folhas sob seus passos e quase achei ter ouvido sua res-
pirao. Minha companheira tentou sussurrar algo em meu ouvido, mas tapei sua boca com minha mo para 
interromp-la. O silncio era de chumbo. As cigarras haviam se calado e os sapos esperavam. Ouvi meu corao 
bater contra o peito e me convenci de que o desconhecido tambm devia ouvi-lo. No devamos nos mexer - se 
ele tivesse uma lanterna, estaramos perdidas.
     Ele se aproximou, devagar. Seus passos deslizaram sem rudo, como se caminhasse sobre um tapete de 
musgo. Parecia enxergar na escurido, pois no havia a menor hesitao em seu andar. Estava ali, a dois passos 
de ns, e parou. Pressenti que ele tinha nos escutado. Senti seu olhar em ns.
     Um suor frio me percorreu a espinha e a adrenalina gelou meus vasos. Fiquei paralisada, impossvel fazer 
o menor movimento ou emitir o menor som. No entanto, precisvamos nos mexer, afastarmo-nos p ante p, 
procurar uma rvore, tentar escapar dele antes que acendesse uma luz e pulasse em cima de ns. Era impossvel. 
S meus olhos nas rbitas mantinham certa mobilidade. Apesar dos esforos que fiz para captar ainda que fosse 
uma sombra, as trevas eram to densas que pensei realmente ter ficado cega.
     Ele se aproximou mais um pouco. Senti o calor que emanava de seu corpo. Era um vapor denso que colava 
em minhas pernas e seu cheiro se elevou, como para zombar de mim em meu pnico. Era uma exalao forte e 
ranosa. Mas no a que
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eu esperava. Meu crebro funcionou  toda, introduzindo as variveis que meus sentidos lhe transmitiam. Olhei 
instintivamente para baixo. No era um homem.
    O animal grunhiu a meus ps. Devia bater na altura de meu joelho, mal me roava. Era um bicho selvagem, 
agora eu tinha certeza. Minutos de eternidade se passaram num silncio de mrmore. Ento o animal se afastou, 
como tinha chegado, num murmrio de vento e num sussurro de folhas.
   -                 um tigre - soprei ao ouvido de minha companheira.
   -                Tem certeza?
   -                No.
   -                Vamos ilumin-lo, precisamos ver o que .
    Hesitei. No devamos estar muito longe do acampamento, eles podiam ver luz e vir nos buscar. Mas no 
havia barulhos, nem vozes nem luzes.
    Acendemos a lanterna um segundo e apagamos.
    O animal desapareceu no mato, como um raio amarelo. Diante de ns, uma pequena trilha serpenteava em 
descida. Dirigimo-nos instintivamente para ela, como se pudesse nos levar a algum lugar. A poucos metros, 
mais abaixo, a trilha ia dar numa pequena ponte de madeira que cruzava um filete de gua. Do outro lado o 
terreno era plano e ressequido, um solo arenoso, coberto aqui e ali por mangues. Eu no tinha mais medo, a luz 
me restitua meus meios.
    Mas eu estava aflita, pois seguir o caminho no era uma boa ideia, sobretudo com a lanterna. Tomamos a 
deciso de margear o riacho para nos afastarmos da trilha. Andvamos depressa, a fim de percorrer um mximo 
de quilmetros num mnimo de tempo. Um raio rasgou a noite e o vento soprou, curvando a folhagem em nossa 
passagem. Sem perder tempo, comeamos a trabalhar. Precisvamos construir o quanto antes um abrigo. Uma 
cordinha estendida entre duas rvores do mangue, o grande plstico preto por cima, e tnhamos um teto. 
Sentadas ali embaixo, encolhidas sobre ns mesmas para cabermos as duas no abrigo, depositei a meus ps o 
faco que acabara de usar e desabei sobre os joelhos, vencida por um sono do incio dos tempos.
    Acordei pouco depois, com a sensao desagradvel de estar sentada na gua. Um verdadeiro dilvio se 
abatia sobre ns. Uma exploso precedida de um rangido sinistro acabou me acordando. Uma rvore gigantesca 
acabava de desabar a poucos metros de nosso abrigo. Poderia ter nos esmagado. Pus a mo na terra em busca do 
faco e encontrei trs centmetros de gua. A tempestade estava no auge. A gua subia e inundava o local onde 
estvamos. Quanto tempo tnhamos dormido? Tempo suficiente para que o filete de gua tivesse multiplicado 
seu volume e transbordasse sem parar.
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     Eu continuava agachada, tateando  procura do faco, quando senti que a gua a meus ps ganhou 
velocidade: estvamos bem no meio de um rio!
     Acendi a lanterna de bolso. Nem pensar em continuar procurando o faco. Ele acabava de ser levado. Era 
preciso recolher nossas coisas e partir o quanto antes. Foi quando me lembrei dos comentrios dos guerrilheiros. 
No inverno, os terrenos ao lado do riacho ficavam submersos, o que explicava a existncia daquelas alamedas de 
madeira construdas sobre pilotis que eu tinha confundido com pontes construdas de qualquer jeito. Em poucos 
minutos o inverno acabava de cair sobre ns, e tnhamos instalado nosso abrigo no pior lugar possvel.
     Sem o faco e com os dedos entorpecidos pela gua e pelo frio, desfazer o abrigo tornou-se tarefa rdua. 
Eu ainda estava tentando desatar os ns para recuperar a preciosa cordinha, e j estvamos com gua at os 
joelhos. Olhei para cima de nossas cabeas. O mangue tecia uma teia apertada de galhos a poucos centmetros 
acima de ns. A gua continuava a subir depressa. Se no encontrssemos a sada, correramos o risco de morrer 
afogadas na vegetao do mangue. Olhei rapidamente ao redor, a gua tinha engolido todas as pistas.
     A chuva insistente, a gua at a cintura, a dificuldade de se deslocar em contra-corrente, tudo conspirava 
contra ns. A lanterna parou de funcionar. Minha companheira entrou em pnico, falava aos gritos, sem saber o 
que fazer no escuro. Andava ao meu redor, me fazendo perder o equilbrio numa corrente que se tornara 
perigosa demais.
    -                Vamos sair dessa. A primeira coisa a fazer  substituir as pilhas da lanterna. Vamos fazer isso 
devagar, juntas. Tire as pilhas da sacola, uma de cada vez. Passe-as para mim, ponha-as com bastante firmeza na 
minha mo. Preciso encontrar o lado certo, assim. D-me a outra. Pronto.
     A operao durou longos minutos. Eu me instalara num arbusto, presa entre os galhos para evitar ser 
desestabilizada pela corrente. S tinha um medo: que as pilhas escorregassem entre meus dedos e se perdessem 
na gua. Minhas mos tremiam e era difcil segurar direito os objetos. Quando afinal apertei o interruptor e a 
lanterna acendeu, estvamos com gua at o pescoo.
     Na primeira varredura de luz, vi minha companheira andando  minha frente.
    -                 por aqui! - ela gritou, enquanto afundava mais ainda na gua.
     No era hora de discutir. De meu lado, ainda trepada no arbusto, escrutei as redondezas tentando encontrar 
algum indcio, uma direo a tomar.
     Ela voltou desanimada, e me olhou, pasma.
    -                Por ali - ordenei.
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    Era mais forte que uma intuio. Era como um apelo. Deixei-me guiar e comecei a andar. "Um anjo!" 
pensei, sem ver nisso um absurdo. Hoje, ao relembrar a cena, gosto de pensar que aquele anjo era papai. Ele 
acabava de morrer e eu ainda no sabia.
    Embrenhei-me ainda mais profundamente na floresta e continuei a andar, obstinada, na mesma direo. 
Senti mais longe que o terreno iniciava uma subida, em declive acentuado. Estvamos no meio de uma imensa 
laguna. O riacho tinha desaparecido, a pontezinha tambm, um verdadeiro rio rolava furioso, inundando tudo ao 
passar.
    Andvamos de costas curvadas, encharcadas at os ossos, tiritndo a cada passo, abatidas. Os primeiros 
clares da aurora atravessaram a vegetao espessa. Tnhamos de fazer o inventrio de nossas perdas e torcer 
todas as nossas roupas. Tnhamos, sobretudo, de preparar o esconderijo para o dia. Eles certamente j estavam 
em nosso encalo e no havamos avanado o suficiente. O sol chegou. Atravs da folhagem cerrada, pedaos de 
azul-claro deixavam pressentir um cu limpo. Os raios de luz que trespassavam obliquamente a vegetao 
esquentavam com tamanha intensidade que os vapores se soltavam do cho, como sob o efeito de um sortilgio. 
A selva perdera seu aspecto sinistro da vspera. Falvamos aos cochichos, planejando meticulosamente as 
tarefas que amos dividir durante o dia.
    Tnhamos resolvido no andar durante a noite enquanto no houvesse lua para iluminar o caminho. Mas 
estvamos com medo de andar durante o dia, sabendo que a tropa havia se lanado  nossa procura e que podia 
estar bem perto. Procurei um lugar onde pudssemos nos esconder. Havia um buraco deixado por uma raiz 
gigantesca que parecia ter sido literalmente arrancada do solo sob o peso da rvore ao cair. A terra  mostra era 
vermelha e arenosa, apetitosa para qualquer tipo de bichinho que rastejava ali em volta. Nada muito perigoso, 
nenhum escorpio, nem "barbas de ndios", como eram chamadas aquelas grandes lagartas venenosas. Pensei que 
poderamos passar o dia camufladas naquele buraco. Precisvamos cortar umas palmeiras pequenas para nos 
esconder. O canivete que eu tinha "pego por emprstimo" no acampamento substitua muito bem o faco.
    Estvamos confeccionando um biombo com galhos e palmeiras, quando ouvimos a voz forte do jovem 
Csar gritando ordens, e depois o barulho de passos rpidos de vrios homens a alguns metros,  nossa direita. 
Um deles xingava e fugia, e ouvimos quando se afastou e desapareceu de vez. Instintivamente nos aninhamos 
dentro do buraco e prendemos a respirao. A calma voltou com o barulho do vento desafiando a copa das 
rvores, o gorgolejar das guas passando
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por ali para se escoar no rio, o canto dos pssaros e a ausncia de gente. Teramos sonhado? No os vimos, mas 
eles tinham passado muito perto. Era um aviso, precisvamos agir rpido. As roupas que vestamos j tinham 
secado. Nossas botinas transbordavam de gua. Bem colocadas sob um poderoso raio de sol, produziam um belo 
turbilho de vapores. As exalaes tinham atrado um enxame de abelhas, que se agarravam em cachos e se 
revezavam para chup-las e tirar-lhes o sal. Assim disfaradas, as botas mais pareciam uma colmeia do que um 
par de calados. Acabei reparando que a ao das abelhas era benfica: funcionavam como uma sesso de 
limpeza, deixando um perfume de mel no lugar do cheiro ranoso que antes saa das botas. Entusiasmada com a 
descoberta, tive a infeliz ideia de pr minha roupa de baixo para secar no galho de uma rvore em pleno sol. 
Quando voltei, ca na gargalhada: as formigas as haviam cortado e levado pedacinhos de tecido com elas. O que 
sobrou foi devorado por traas, para construir seus tneis.
     Resolvemos ento partir na aurora do dia seguinte.  guisa de colcho, usaramos as palmeiras que j 
tnhamos cortado. Poramos um plstico ali em cima e o outro seria pendurado, nos servindo de teto. Estvamos 
no alto de uma colina. Se recomeasse a chover, pelo menos ficaramos livres de inundaes. Quebramos quatro 
galhos para fincar nos quatro cantos de nossa barraca improvisada. Poderamos at nos dar ao luxo de instalar o 
mosquiteiro.
     Havamos acabado de passar nossas 24 horas em liberdade! Do lado de fora do mosquiteiro, besouros 
duros e brilhantes se debatiam como bobos contra a malha. Fechei os olhos depois de me assegurar de que o 
mosquiteiro estava hermeticamente fechado, preso pelo peso de nossos corpos. Quando me levantei de um pulo, 
o sol j estava alto no cu. Tnhamos dormido demais.
     Recolhi tudo s pressas, dispersei as palmas para no deixar vestgios identificveis de nossa passagem e 
apurei o ouvido. Nada. Eles deviam estar longe, j deviam ter levantado acampamento. A conscincia de nossa 
solido me tranquilizou e me angustiou ao mesmo tempo. E se ficssemos dando voltas semanas a fio e nos 
perdssemos para sempre naquele labirinto de clorofila?
     Eu no sabia que direo pegar. Ia avanando por instinto. Clara me seguia. Ela insistira comigo para levar 
um monte de miudezas, remdios, papel higinico, cremes anti-inflamatrios, esparadrapo, roupas limpas e, 
evidentemente, comida. Queria pegar meu pequeno saco de viagem que agora, superlotado, pesava uma 
tonelada. Fiz tudo para dissuadi-la. Mas no consegui levar mais longe a discusso, pois entendi que ela 
armazenava naquele pequeno saco todos os antdotos contra seu prprio medo. Ao fim de uma hora de marcha, 
ela se esforava para no parecer aleijada pela carga e eu fazia o possvel para fingir que nem percebia.
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    Tentei descobrir nossa localizao em relao ao sol, mas algumas nuvens grandes invadiram o cu com 
uma camada cinza, deixando plano o espao debaixo das rvores, sem sombras e, portanto, sem direo. Ns 
duas estvamos  cata de um barulho que nos advertisse a presena de alguma alma, mas a floresta estava 
encantada, suspensa no tempo, ausente da memria dos homens. S havia ns e o barulho de nossos passos 
sobre o tapete das folhas mortas.
    De uma hora para outra, sem aviso prvio, a floresta havia mudado. A luz estava diferente, os sons da selva 
tinham ficado menos intensos, as rvores pareciam mais distantes umas das outras, e nos sentamos menos 
protegidas. Nosso andar tornou-se mais lento, mais prudente. Um passo, dois passos. Acabamos chegando numa 
estrada bastante larga para permitir a passagem de um veculo, uma verdadeira estrada no meio da selva! Dei um 
pulo depressa, pegando minha companheira pelo brao para nos escondermos na vegetao e nos agacharmos 
entre as razes imensas de uma rvore. Uma estrada era a sada! Mas era tambm o maior dos perigos.
    Estvamos fascinadas com essa descoberta. Onde iria dar a estrada? Seria possvel que, seguindo-a, 
fssemos parar num lugar habitado, num canto de civilizao? Estariam por ali os guerrilheiros que tnhamos 
visto na vspera? Conversvamos sobre tudo isso em voz baixa, olhando para a estrada como para um fruto 
proibido. Uma estrada na selva era obra da guerrilha. Era territrio deles.
    Resolvemos ento andar margeando a estrada, a uma distncia razovel, e mantendo-nos constantemente 
protegidas. Queramos avanar o mximo possvel durante o dia, mas com a maior cautela. Por horas a fio 
seguimos nossa determinao inicial. A estrada subia e descia em declives agudos, fazia curvas caprichosas e 
parecia no ter fim. Eu andava rpido, para tentar percorrer a maior distncia possvel durante as horas de luz. 
Minha amiga ia pouco a pouco se atrasando. Ficava l atrs, apertando os lbios para no confessar que sofria 
com o peso de seu fardo.
   -                Passe-me isso, deixe que eu carrego.
   -                No, est muito pesado.
    A estrada se estreitou significativamente e se tornou cada vez mais difcil ficar perto dela: o relevo parecia 
ter enlouquecido. As subidas se transformaram em escaladas e as descidas em tobogs. Fizemos uma pausa 
depois de trs horas, numa pequena ponte de madeira acima de um riacho. A gua era cristalina e cantava, 
correndo sobre um leito de pedrinhas brancas e rosas. Eu estava morta de sede e bebi como um animal, 
ajoelhada na margem. Enchi a garrafinha que levara comigo. Clara fez o mesmo. Ramos como crianas com a 
felicidade simples de beber
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gua fresca. O que ruminvamos na solido de nossos pensamentos tornou-se assunto de debate: tnhamos 
andado durante toda a manh sem encontrar vivalma. Os guerrilheiros sabiam que ignorvamos a existncia 
daquela estrada. Se a pegssemos, poderamos fazer aumentar enormemente a distncia percorrida. Tnhamos 
combinado andar num estreito silncio para conseguir pular e nos proteger ao menor barulho, e eu mantinha os 
olhos fixos ao longe para tentar identificar o menor movimento. Pouco a pouco meu esprito se deixou absorver 
mais pela concentrao do esforo fsico que pela vigilncia que tnhamos combinado manter.
     Chegamos, numa curva, a outra ponte bastante longa que cruzava um riacho seco. Nossas botinas estavam 
imundas de lama e a madeira da ponte parecia ter sido lavada com sabo e gua depois das ltimas chuvas. 
Resolvemos cruzar a ponte para evitar deixar rastros das botas. Ao me esgueirar sob a ponte, notei ramos de 
cips que pendiam tortos sobre excrescncias de musgo. Eu j tinha reparado naquela forma esquisita de 
vegetao pendurada nas rvores e achei que aquilo parecia estranhamente com os cabelos dos rastafris. Podia 
imaginar qualquer coisa, menos que fossem ninhos de marimbondos. E os vi pululando numa das vigas da ponte, 
e o pavor me fez dar um salto, me afastando. Avisei Clara, que me seguia alguns metros atrs, mostrando-lhe 
com o dedo a bola fervilhante de insetos contra a qual quase me espatifara. Um segundo depois, um zumbido 
que foi se ampliando veio me avisar que as vespas tinham voado para nos punir de t-las incomodado.
     Vi o batalho, em formao triangular, precipitar-se para cima de mim. Sa como uma flecha, passei pela 
ponte e continuei a correr pela trilha to depressa quanto possvel at que tivesse a impresso de estar longe do 
zumbido. Parei ofegante e virei-me para assistir a um espetculo digno de pesadelo: minha companheira, em p 
a alguns metros de mim, estava negra de marimbondos. Os bichos perceberam que eu tinha parado e largaram 
sua primeira presa para vir para cima de mim, tal qual uma esquadrilha de caa. Mas eu no podia recomear a 
correr e deixar Clara paralisada  merc do enxame enfurecido. Num piscar de olhos fiquei eu mesma coberta de 
bichinhos raivosos, que se enfiavam profundamente em minha carne com seus poderosos ferres. Um dos 
guardas tinha falado das vespas africanas, cuja picada podia matar o gado num segundo.
    -                So as vespas africanas! - gritei, fora de mim.
    -                Pare! Voc vai excit-las mais ainda! - respondeu Clara.
     Nossas vozes ressoavam em eco na floresta. Se nossos sequestradores tivessem nos ouvido, saberiam onde 
nos achar! Eu continuava a gritar, em pnico, sob o efeito da dor a cada ferroada. Depois, de sbito recuperei a 
razo. Sa da estrada e
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entrei na mata mais prxima. Observei que, ao me deslocar, conseguia me distanciar de alguns marimbondos. 
Isso me deu coragem. A proximidade de uma vegetao mais densa teve como efeito desnorte-los, e outros me 
largaram para se juntar ao enxame. Eu ainda tinha muitos marimbondos agarrados na cala. Pegava-os entre dois 
dedos pelas asas que batiam frenticas e arrancava-os um a um para coloc-los sob o p e esmag-los sem 
perdo. Eles estalavam desagradavelmente e isso me dava arrepios. Obriguei-me a continuar, metodicamente. 
Quase sempre a operao resultava em quebr-los ao meio, deixando o abdmen ainda incrustado em minha 
pele. Agradeci aos cus que fosse eu a viver isso, e no minha me ou minha irm, pois elas morreriam. Fiz um 
enorme esforo para me controlar, no mais sob o efeito do medo, mas sob o domnio de uma averso nervosa 
que me fazia tremer de repugnncia em contato com o corpo frio e mido desses insetos. Por fim ganhei a 
batalha, surpresa de no sentir nenhuma dor, como sob o efeito de uma anestesia, e observei que o mesmo 
acontecera com Clara, com a diferena de que ela sofrera um ataque mais forte do que o meu e conseguira 
manter o sangue-frio melhor que eu.
    - Meu pai tinha colmeias no campo. Aprendi a conhec-las - explicou-me quando expressei minha 
admirao.
    O assalto das vespas nos abalou. Pensei no barulho que tnhamos feito e no rejeitava a ideia de que eles 
poderiam ter enviado um grupo para nos encontrar.
    A ponte das vespas foi a primeira de uma longa srie de pontes de madeira construdas a cada cinquenta 
metros, como as que tnhamos atravessado para chegar ao acampamento de onde fugimos. Por instantes, aquelas 
pontes pareciam viadutos pois se prolongavam interminavelmente ziguezagueando por centenas de metros entre 
as rvores. Deviam ter sido construdas anos antes e estavam abandonadas. As tbuas apodreciam e pedaos 
inteiros desabavam, devorados por uma vegetao faminta. Andvamos ali em cima, a dois metros do cho, 
inspecionando as tbuas e as vigas sobre as quais avanvamos com a angstia de cair no vazio a qualquer 
momento. Estvamos conscientes do risco de nos localizarem caso a guerrilha estivesse na rea, mas aquelas 
pontes evitavam que lutssemos contra a armadilha das razes e cips entrelaados que havia embaixo.
    Decidimos nos revezar para carregar a sacola. Sem comer nada e bebendo pouco, estvamos extremamente 
cansadas.
    Quando as pontes comearam a rarear, resolvemos suspender a sacola na vara que me servia de bengala e 
levar cada ponta no ombro de cada uma de ns, uma na frente e outra atrs. Com essa tcnica a caminhada ficou 
mais leve e prosseguimos assim, num passo mais rpido, durante algumas horas.
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     As cores da floresta ficaram plidas e pouco a pouco o ar se tornou mais fresco. Precisvamos encontrar 
um local para pernoitar. Diante de ns, a trilha subia e uma ltima ponte de madeira nos esperava na sada de 
uma curva. Atrs da ponte, a floresta parecia menos densa, a luz que filtrava era diferente. O rio podia estar 
pertinho e, quem sabe, com o rio a esperana de encontrar camponeses, um barco, uma ajuda qualquer.
     Mas minha companheira estava muito cansada. Vi como seus ps tinham dobrado de volume. Os 
marimbondos a picaram por toda parte. Ela quis parar antes de atravessar a ponte. Refleti. Eu tinha conscincia 
de que o cansao era pssimo conselheiro e rezei para no estar enganada. Ou talvez, por sentir que me 
enganava, apelei para o cu. A noite cairia em menos de uma hora, os guerrilheiros deveriam estar de volta ao 
acampamento para fazer o relatrio de um dia em que tinham voltado de mos abanando. A ideia me trouxe 
serenidade. Aceitei pararmos e expliquei a Clara as precaues que devamos tomar. Eu no tinha notado que, 
antes de descer para beber gua numa fonte que jorrava l embaixo, ela colocara o saco encostado numa rvore, 
visvel do caminho.
     Ouvi as vozes deles. Chegaram por trs e conversavam tranquilamente -enquanto andavam, sem desconfiar 
de que estvamos a poucos metros. Meu sangue gelou. Vi-os antes que me vissem. Se Clara se escondesse a 
tempo, passariam por ns sem nos avistar. Eram dois, a bonita guerrilheira que, sem querer, servira de distrao 
para o guarda e permitira nossa fuga, e Edinson, um jovenzinho com ar esperto que sempre ria s gargalhadas. 
Falavam alto o suficiente para serem ouvidos de longe. Tirei os olhos deles e me virei para o lado de Clara. Ela 
j tinha ido, num mpeto, pegar a sacola, ficando totalmente a descoberto. Acabava de dar de cara com Edinson. 
O garoto fitou-a com olhos que lhe saam das rbitas. Clara virou-se para mim, o rosto lvido, o pavor e a dor 
deformando suas feies. Edinson seguiu seu gesto e me descobriu. Nossos olhares se cruzaram. Fechei os 
olhos. Estava tudo acabado. Ouvi a gargalhada cruel do rapaz, depois uma rajada de metralhadora no ar para 
festejar a vitria e anunci-la aos outros. Eu os odiava por sua felicidade.
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9. As tenses do convvio

    Eu estava com papai. Ele usava os culos quadrados de tartaruga que eu nunca mais tinha visto desde os 
dias felizes de minha infncia. Agarrava sua mo e cruzvamos uma rua de trnsito intenso. Balanava meu 
brao de trs para frente para chamar sua ateno. Era bem pequena. Ria da felicidade com sua presena. 
Chegando  calada, ele parou sem me olhar e respirou profundamente. Apertou minha mo, sempre presa na 
sua, contra seu corao. A boca crispou-se numa contrao de dor e minha alegria se transformou em angstia, 
sem transio.
   -                Papai, tudo bem?
   -                 o corao, minha querida,  o corao.
    Olhei ao redor a fim de encontrar um carro e nos metemos no primeiro txi em direo do hospital. Mas foi 
 casa dele que chegamos, foi em sua cama que o instalei, ele sempre com dor, e eu me esforando para tentar 
encontrar seu mdico, minha me, minha irm, e o telefone continuava mudo. Papai desabou sobre mim. Eu o 
segurava, o sacudia, ele era muito pesado, eu me sufocava sob seu peso, ele estava morrendo em cima de mim e 
eu no tinha a fora fsica de recoloc-lo na cama e ajud-lo, salv-lo. Um grito silencioso permanecia preso em 
minha garganta e me vi sentada sob o mosquiteiro, ofegante e coberta de suor, os olhos arregalados e cegos. 
"Meu Deus! Ainda bem que  s um pesadelo!", pensei. "Mas de que estou falando? Papai morreu e eu estou 
presa. O verdadeiro pesadelo  acordar aqui!" Ca em prantos, incapaz de segurar as lgrimas torrenciais que 
lavaram meu
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rosto e encharcaram minhas roupas. Chorei durante horas e horas, esperando o dia nascer para sepultar minha 
dor nos gestos cotidianos que fazia mecanicamente para me dar a impresso de continuar viva. Minha 
companheira estava com a cabea no sentido oposto  minha, ao meu lado, e se mostrou irritada.
     - Pare de chorar, voc no est me deixando dormir!
     Refugiei-me no silncio, magoada at a alma por sofrer esse destino que no me permitia sequer chorar  
vontade. Recriminava Deus por ter se aferrado contra mim. "Odeio-te, odeio-te! No existes, e se existes s um 
monstro!" Toda noite, durante mais de um ano, sonhei que papai morria em meus braos. Toda noite acordava 
aterrorizada, desorientada, no vazio, procurando saber onde estava, para descobrir que meus piores pesadelos 
no eram nada se comparados  realidade.
     Os meses se passavam numa uniformidade terrvel. Horas vazias que era preciso povoar, pontuadas pela 
cadncia das refeies e do banho. Uma distncia feita de lassido instalara-se entre mim e Clara. Eu no falava 
mais com ela, ou falava muito pouco, apenas o necessrio para seguir em frente, s vezes para me dar coragem. 
Controlava-me para no compartilhar meus sentimentos, para no iniciar discusses que queria evitar. Tudo 
comeou com coisas bem midas, um silncio, um constrangimento de ver na outra o que no queramos 
descobrir. No era nada, s o cotidiano que se instalava apesar do horror.
     No incio, partilhvamos tudo, sem discutir. Logo tivemos de dividir meticulosamente o que nos davam. 
Olhvamo-nos atravessado, ficvamos bravas por causa do lugar que a outra ocupava, deslizvamos 
imperceptivelmente para a intolerncia e a rejeio. A sensao de "cada um por si" comeou a emergir. No 
devamos, em nenhuma hiptese, verbaliz-la. Havia uma fronteira, ou melhor, uma muralha entre ns e nossos 
sequestradores, constituda por nossos segredos, nossas conversas inacessveis a eles apesar da vigilncia 
constante. Enquanto nossa coeso fosse mantida, eu sentia que ficaramos blindadas. Mas o cotidiano nos 
submetia ao desgaste. Um dia, pedi ao guarda que me conseguisse uma corda para pendurar nossa roupa. Ele no 
quis nos ajudar. Mesmo assim a corda chegou no dia seguinte, e tratei de instal-la de uma rvore a outra para 
us-la por inteiro, de modo mais eficaz. Fui pegar minha roupa e ao voltar descobri que no tinha mais lugar 
para minhas coisas. Clara a ocupara inteiramente com as dela.
     Em outra ocasio, o espao sob o mosquiteiro tornou-se um problema. Depois, foi a higiene para o controle 
dos cheiros. Depois, a gesto do barulho. Era impossvel nos entendermos para estabelecer a regra mais 
elementar de comportamento. Havia nessa intimidade imposta um risco maior, o de cair na indiferena e no 
cinismo e acabar obrigando o outro a nos tolerar sem nenhum pudor. Uma
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noite, quando pedi a Clara que se afastasse um pouco, pois eu no tinha mais espao na cama, ela explodiu:
    - Seu pai teria vergonha de voc se a visse!
    Suas palavras feriram meu corao com mais fora que uma bofetada. Fiquei arrasada com a gratuidade da 
ofensa, magoada ao compreender que, dali em diante, perderia a possibilidade de me apoiar nela.
    Cada dia trazia sua dose de dor, amargura, frieza. Eu nos via indo  deriva. Precisava ser muito forte para 
no descontar as constantes humilhaes dos guardas humilhando aquela que compartilhava comigo a mesma 
sorte. Com certeza no era consciente, com certeza no era desejado, mas era uma forma de supurar nossa 
amargura.
    Nessa poca ficvamos acorrentadas 24 horas por dia a uma rvore e no tnhamos outro refgio a no ser o 
mosquiteiro, debaixo do qual passvamos o dia todo, sentadas uma em cima da outra num espao de dois metros 
de comprimento por um metro e meio de largura.
    Consegui que nos trouxessem tecido e linha e agradeci aos cus por ter dado ouvidos a minha velha tia 
Lucy, que, na minha adolescncia, me ensinara a arte do bordado. Minhas primas tinham fugido dessa maada, 
mas eu ficara por curiosidade. Compreendi ento que a vida nos enche de provises para nossas travessias do 
deserto. Tudo o que eu tinha adquirido de modo ativo ou passivo, tudo o que tinha aprendido voluntariamente ou 
por osmose me voltava como verdadeiras riquezas de minha existncia num momento em que eu tudo perdera.
    Flagrava-me refazendo os gestos de minha tia, usando suas expresses e atitudes, explicando a Clara os 
rudimentos do ponto de cruz, do ponto de laada, do ponto feston. Em breve as moas do acampamento, nas 
horas em que no estavam de planto, vieram observar nossos trabalhos. Tambm queriam aprender.
    As horas, dias e meses transcorreram com menos dureza. A concentrao necessria ao bordado tornava 
nossos silncios mais leves. Era possvel encontrar gestos de fraternidade que suavizavam nosso destino. Isso 
durou vrios meses, e muitos acampamentos, at as linhas acabarem.
    Algumas semanas depois de nossa fuga fracassada, mandaram que recolhssemos nossas coisas, sem 
explicao, e em seguida partimos na direo oposta do que eu chamava "a sada". Ns nos embrenhamos ainda 
mais dentro da selva, e pela primeira vez no havia nenhuma vereda, nenhuma marca humana.
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     Andvamos em fila indiana, um guarda na frente, outro atrs. Esses deslocamentos imprevistos me 
enchiam de enorme ansiedade. Essa sensao coincidente, que cada uma de ns imaginava ser idntica na outra, 
volatilizava na mesma hora a guerra do silncio que se instalara entre ns duas e que se alimentava das inces-
santes tenses cotidianas para demarcar nosso espao e nossa independncia.
     Bastava uma troca de olhares entre ns e tudo estava dito. Era nesses momentos terrveis, em que nosso 
destino parecia soobrar ainda mais fundo no abismo, que nos confessvamos vencidas, reconhecendo como 
precisvamos uma da outra. Enquanto a guerrilha estava acabando de desmontar o acampamento e assistamos 
ao desmembramento daquele espao a que estvamos ligadas, enquanto os ltimos guerrilheiros arrancavam e 
jogavam no mato as estacas que tinham sustentado nossa barraca, no restando mais que um terreno baldio e 
lamacento, qualquer prova de nossa existncia naquele lugar acabava de ser totalmente eliminada, Clara e eu 
pegamos nossas mos, caladas, num esforo instintivo de dar coragem uma  outra.
     Esforcei-me em memorizar tudo, na esperana de guardar em algum canto da mente uma coerncia espacial 
que eventualmente me permitisse encontrar o caminho de volta. Mas, quanto mais andvamos, mais se somavam 
a meus clculos novos obstculos se quisssemos recuar. Arrepios de febre percorriam minha pele e minhas 
mos ficavam to midas que eu era obrigada a sec-las continuamente na cala. Depois, veio o enjoo. Eu j 
tinha feito a reconstituio do processo que se desencadeava a cada anncio de partida. Na hora e meia que se 
seguia, no mximo, eu precisava sair correndo para me esconder atrs de uma rvore e vomitar sem ser vista. 
Sempre me prevenia levando comigo um pequeno rolo de papel para enxugar a boca e as roupas, como se isso 
pudesse mudar alguma coisa, quando eu j estava imunda de lama.
     O novo campo que nos esperava era muito diferente do anterior. Consideraram prudente construir nossa 
caleta afastada das habitaes dos demais. Do lugar onde nos instalaram, era impossvel acompanhar suas 
atividades ou sua organizao. Estvamos isoladas, com um guarda de expresso tenebrosa postado a dois 
metros de nosso mosquiteiro, com toda certeza descontente por estar condenado a se entediar longe dos 
companheiros naquele cara a cara constrangedor.
     Achei que era melhor assim. Seria mais simples, quando as condies permitissem, driblar a vigilncia de 
um s homem.
     J tnhamos reencontrado nossas referncias e retomado nosso bordado quando vi Patrcia, a enfermeira, 
aproximar-se com um homem que eu nunca tinha visto. Era jovem, na faixa dos trinta, de pele acobreada, 
bigodinho preto e
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brilhante, o cabelo cortado curto. Usava a cala cqui regulamentar, as botas de borracha de praxe e uma camisa 
desabotoada at o umbigo, que deixava descoberta uma corpulncia peluda no limite do sobrepeso, enfeitada 
com uma imponente corrente de ouro de onde pendia um grande dente amarelado.
    Chegava todo sorridente, balanando os ombros, e no pude deixar de pensar que devia ser um homem 
sanguinrio. Patricia fez as apresentaes:
   -                 o comandante Andrs! - disse, com uma expresso de adulao que me espantou.
    O homem queria evidentemente fazer uma bela estreia e impressionar uma parte do grupo que se reunira a 
alguns metros para assistir  cena.
   -                O que est fazendo? - disse num tom meio autoritrio, meio descontrado.
   -                Bom dia - respondi, levantando o nariz de meu bordado.
    Ele me olhara direto nos olhos, como se tentasse decifrar meus pensamentos, e caiu na gargalhada enquanto 
alisava o bigode. Continuou, sempre sorrindo:
   -                O que  isso?
   -                Isso? Uma toalha para mame.
   -                Deixe eu ver!
    Passei-lhe o bordado, tomando cuidado para no levantar demais o mosquiteiro. Ele fingiu inspecionar meu 
trabalho como um conhecedor e se preparava para me devolv-lo dizendo "nada mau" quando uma moa muito 
bonita que estava atrs dele, e que eu no tinha visto, arrancou o bordado de suas mos com uma confiana que 
no deixava nenhuma dvida sobre a natureza da relao deles:
   -                Ah!, que bonito, quero fazer uma igual! Por favor!
    Ela requebrava os quadris com a clara inteno de seduzi-lo. Andrs parecia radiante:
   -                Veremos, mais tarde - disse ele, rindo.
    Patricia interveio mais uma vez:
   -                 o novo comandante.
    Portanto, agora era com aquele homem que eu teria de me entender. J sentia saudades do jovem Csar, que 
fora simplesmente destitudo do cargo por causa de nossa fuga.
   -                O que  que voc tem no pescoo? - perguntei, para lhe dar o troco.
   -                Isso?  um dente de tigre.
   -                Tigre?
   -                , enorme, eu mesmo o matei!
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     Seus olhos pretos brilhavam de prazer. Sua expresso se transformou, tornando-o quase sedutor.
    -                So animais em risco de extino, no se deve mat-los.
    -                Ns, nas Fare, somos ecologistas! No matamos, executamos!
     Virou as coisas e desapareceu com seu grupo de mulheres. Minha companheira me olhou atravessado:
    -                Voc  uma idiota!
    -                Sou, mas no posso me impedir.
     Mergulhei de novo no meu trabalho, pensando em papai. Fazia dez dias que no comia, na necessidade de 
fazer o luto, de marcar sua morte em minha carne e gravar na memria aqueles dias de dor, num tempo e num 
espao privados de qualquer ponto de referncia. "Preciso aprender a segurar minha lngua", conclu para mim 
mesma, picando-me com uma agulha. Com a escurido, assaltavam-me meus remorsos mais profundos. A 
lembrana de papai era o principal detonador. Parei de lutar contra isso, dizendo-me que era melhor chorar at 
secar meu sofrimento. Mas tambm tinha a intuio de que meu sofrimento, em vez de se esgotar, evolua, e que 
nessa evoluo, em vez de ficar mais leve, tornava-se mais compacto. Portanto, resolvi enfrentar minha desgraa 
por etapas. Autorizei-me a me embalar na tristeza da evocao dos momentos que construram o amor por meu 
pai, mas me proibi o menor pensamento a respeito de meus filhos. Isso era para mim simplesmente insuportvel. 
Nas vezes em que abri uma brecha mnima ao evoc-los, pensei que estava enlouquecendo. Tambm no 
conseguia mais pensar em mame. Desde a morte de papai comeara a me torturar ao pensar que ela tambm 
podia desaparecer a qualquer momento. E essa ideia que vinha sempre colada em sua lembrana, como uma 
obsesso perversa, me enchia de pavor, pois eu tambm tinha imaginado a morte de papai e ela se tornara uma 
realidade, como se eu tivesse adquirido o poder abominvel de materializar minhas apreenses.
     Eu no sabia nada de minha famlia. Desde 23 de maro, dia em que tnhamos concludo nosso primeiro 
ms de cativeiro, dia tambm em que nos proibiram o acesso aos rdios, havamos perdido contato com o mundo 
dos vivos. Uma s vez o jovem Csar viera nos contar as novidades: "Seu pai falou no rdio, pede-lhe que 
aguente, que seja forte, e quer que voc saiba que ele est se cuidando e a esperando!" Depois que soube da 
morte de papai, fiquei me perguntando se Csar no tinha mentido para mim, se no tinha inventado essa 
histria para me acalmar. Mas no queria acreditar nisso, pois me fazia bem pensar que papai quisera me 
tranquilizar antes de morrer.
     Nem por isso, quando a noite chegava, eu deixava de ir encontrar papai e, 
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talvez por ter a convico de que ns dois fazamos parte do mundo dos mortos, de falar com ele e chorar nas 
trevas que dividamos, com a sensao de que ali podia me aninhar como sempre tinha me aninhado em seus 
braos.
    Descobri o mundo da insnia e o encantamento que ele produzia em mim. Aquelas horas de viglia me 
davam acesso a outra dimenso de mim mesma. Uma outra parte de minha mente se substitua  primeira. No 
imobilismo fsico que me forava a dividir o pequeno colcho onde vivamos, meu esprito ia longe e eu falava 
comigo mesma, como falava com papai, como falava com Deus, fazendo daquelas longas horas na escurido os 
nicos momentos de intimidade.
     noite, outro tipo de natureza emergia. Os sons tinham uma ressonncia profunda que dava a medida da 
imensido daquele espao desconhecido. A cacofonia dos grasnidos da fauna era to ampla que se tornava 
dolorosa. Cansava a mente, incomodava-a com as vibraes, submergia-a com estmulos dissonantes e 
impossibilitava a reflexo. Era tambm a hora das grandes ondas de calor, como se a Terra expelisse o que tinha 
armazenado durante o dia, rejeitando na atmosfera calores sulfurosos que nos davam a sensao de termos cado 
num estado febril. Mas esses momentos passavam depressa. Uma hora depois a temperatura baixava 
vertiginosamente e tnhamos de nos prevenir contra um frio que dava saudade das baforadas de ar quente do 
crepsculo. O ar fresco se instalava, os pssaros notvagos saam, quebrando o ar com o batimento seco das 
asas, e cruzavam o espao levando consigo o sinistro ulular de almas solitrias. Eu os seguia em minha 
imaginao, esquivando junto com eles as rvores pelas quais passavam em grande velocidade e voava atrs 
deles para alm da floresta, mais alto que as nuvens, para constelaes onde eu sonhava com as felicidades do 
passado.
    A lua se deslocava entre a folhagem cerrada: estava sempre atrasada, sempre caprichosa e imprevisvel. 
Forava-me a repensar cuidadosamente tudo o que imaginava saber a seu respeito sem jamais verdadeiramente 
compreender: a dana da lua em volta da Terra, suas diferentes fases e seu poder. Ausente, ela me intrigava 
ainda mais.
    Nos dias de lua nova, um feitio caa sobre a floresta. Na escurido total, o solo se iluminava com milhares 
de estrelas fluorescentes como se o cu tivesse se espalhado pelo cho. No incio, pensei estar delirando. 
Depois, acabei admitindo que a selva era encantada. Passava a mo sob o mosquiteiro e recolhia pepitas 
fosforescentes que cobriam o solo. s vezes voltava com uma pedrinha na mo, outras vezes com um fiapo ou 
uma folha que pegava. Mas em contato comigo eles perdiam sua luz sobrenatural. No entanto, bastava pous-los 
no cho para que reencontrassem seus poderes e se acendessem de novo.
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     O mundo inanimado saa de seu torpor e a vida prendia a respirao. Naquelas noites os sons da floresta 
eram mgicos. Milhares de sininhos suspensos no ar comeavam a tilintar alegremente, e aquele barulho mineral 
parecia ter eclipsado as chamadas dos animais. Por mais absurdo que parecesse, havia uma melodia naquele 
carrilho noturno e eu no podia deixar de pensar nos sinos de Natal em pleno ms de julho e de chorar 
amargamente ao evocar o tempo perdido. Numa dessas noites sem lua em que escutava ao longe as conversas 
cochichadas dos guardas, como se tivessem falado ao meu ouvido, ouvi por acaso um deles dizer a Yiseth que 
por um triz no tnhamos conseguido fugir. No final da estrada das pontes podres havia um caserio, um casario 
na beira do rio. Fazia pouco tempo que os militares estavam instalados ali, onde haviam iniciado um trabalho de 
infiltrao para os servios de inteligncia do Exrcito. Essa informao multiplicava meus remorsos: jamais 
deveramos ter parado  beira do caminho.
     Sabia que alguns deles nos espiavam quando tomvamos banho. Quando pedi a Andrs que mandasse 
instalar umas cabanas na beira do rio a fim de bloquear a vista, ele me respondera que "seus homens tinham mais 
o que fazer do que ficar olhando umas 'bruxas velhas'". Mesmo assim, tinha mandado construir a cabine no dia 
seguinte.
     Em outra dessas noites em claro, ouvi um dos guardas dizer: - Pobre mulher, sair daqui quando o cabelo 
dela estiver nos calcanhares! O comentrio me assustou. No conseguia acreditar que isso fosse sequer pensvel. 
Fiz um enorme esforo para aceitar esperar que uma negociao em vista de nossa libertao desse certo, mas 
quanto mais o tempo passava mais se complicava a equao que levaria  nossa soltura.
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10. Prova de sobrevivncia

    Certa manh, El Mocho Csar, chefe da frente que me capturara, apareceu. Embora nada pudssemos ver 
do que acontecia, o vaivm nervoso da tropa, assim como as vestimentas impecveis, os uniformes de gala, 
eram sinais evidentes da presena de um chefe.
    Eu estava sentada de pernas cruzadas sob o mosquiteiro, os ps descalos com a grande corrente presa no 
tornozelo. Iniciava um novo trabalho manual. Tinha conscincia de que minha relao com a durao das coisas 
andava totalmente perturbada. "Na vida civil", para usar a terminologia farquiana, os dias se passavam com uma 
rapidez alucinante e os anos iam correndo devagar, o que me dava uma sensao de ter vivido uma vida bem 
plena.
    No cativeiro, minha conscincia de tempo se invertera por completo. Os dias pareciam no ter fim, 
prolongados cruelmente com o desespero e o tdio. Em compensao, as semanas, os meses e, mais tarde, os 
anos pareciam se empilhar a toda velocidade. Minha conscincia desse tempo irremediavelmente perdido des-
pertava o terror de me sentir enterrada viva.
    Quando Csar chegou, eu estava fugindo dos demnios que me perseguiam, com o esprito concentrado em 
enfiar uma linha na agulha.
    Ele olhou para meus ps inchados pelas inmeras picadas infligidas por bichinhos invisveis... Seu olhar 
me constrangeu e sentei escondendo os ps sob as ndegas, o que provocou uma dor terrvel, pois a corrente me 
cortava.
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     - O que lhe deu para fugir assim, na selva? Voc poderia ser atacada por um tigre, foi uma loucura total!
    -                O que eu teria de fazer? Mandar seu cadver para seus filhos?
    -                No entendo. Voc sabe que no tem a menor chance.
     Eu o encarei em silncio. Sabia que ele no gostava de me ver naquele estado, e no fundo pensava que ele 
tinha vergonha.
    -                Voc teria feito o mesmo. S que teria conseguido.  meu dever recuperar minha liberdade, 
como o seu  me impedir de faz-lo.
     Seus olhos brilharam com um brilho perturbador. Encarou-me, mas no era a mim que ele via. Seriam 
essas as lembranas que ele via desfilar diante de seus olhos? De repente, parecia ter envelhecido cem anos. 
Virou-se encurvado, como se com enorme cansao, e antes de ir embora me disse, com uma voz profunda como 
se falasse a si mesmo:
    -                Vamos tirar as correntes, vou proibir de recoloc-las. Vou lhe enviar frutas e queijo.
     Cumpriu a palavra. No crepsculo, um jovem guerrilheiro veio tirar as correntes. Tentou o tempo todo ser 
gentil, querendo entabular uma conversa, que evitei. No o reconheci, mas era o guerrilheiro que se sentara atrs 
na cabine de nosso carro no dia da captura. Abriu o cadeado com precauo, minha pele debaixo da corrente 
estava azul.
    -                Sabe, isso me alivia mais do que  senhora! - disse, com um largo sorriso.
    -                Como voc se chama? - perguntei, como que acordando de um sonho.
    -                Eu me chamo Ferney, doctora.
    -                Ferney, me chame de Ingrid, por favor.
    -                Bem, doctora.
     Dei risada e ele foi embora correndo.
     As frutas e o queijo tambm chegaram. Csar nos enviou uma grande caixa de papelo com umas trinta 
mas vermelhas e verdes, e cachos grandes de uva. Ao abri-la, tive o reflexo de oferec-las a Jssica, a scia do 
comandante, que nos tinha trazido a caixa. Com um muxoxo desagradvel, ela respondeu:
    -                A ordem  trazer frutas para as prisioneiras. No devemos aceitar nada de vocs!
     Virou as costas e foi embora, estufando o peito. Compreendi que para ela no devia ser fcil. Agora eu 
sabia muito bem que as frutas e o queijo eram um luxo raro num acampamento das Fare. Nossa dieta diria 
constitua-se de arroz e feijoca.
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    Na semana seguinte Csar reapareceu.
   -                Tenho uma boa notcia!
    Os batimentos de meu corao se aceleraram. A toda hora a esperana de uma libertao prxima cruzava 
meu esprito. Com o ar mais distante possvel, perguntei:
   -                Uma boa notcia? Realmente, seria espantoso. Qual?
   -                O Secretariado autorizou que voc envie uma prova de sobrevivncia  sua famlia.
    Fiquei muda e tive vontade de chorar. Uma prova de sobrevivncia era tudo menos uma boa notcia. 
Confirmava o prolongamento de nosso cativeiro. Eu acreditava que negociaes secretas pudessem ter se 
iniciado com a Frana. Sabia que a guerrilha tinha sido duramente atingida pela incluso de seu nome na lista de 
terroristas da Unio Europeia e imaginava que ela poderia empreender contatos para conseguir ser excluda 
dessa lista em troca de nossa liberdade. Essa esperana acabava de se quebrar em mil pedaos.
    A eleio presidencial era iminente: dali a dois meses a Colmbia teria um novo governo e Alvaro Uribe, o 
candidato da extrema direita, tinha todas as chances de vencer. Se as Fare queriam gravar provas de 
sobrevivncia a poucos dias do primeiro turno, era indcio de que no havia contatos para nossa libertao e que 
os guerrilheiros se preparavam para fazer presso sobre o candidato que ganhasse. Se fosse Alvaro Uribe, as 
Fare o odiavam, e ele lhes retribua na mesma moeda. E meu esprito balanou com a ideia de que era mais fcil 
que os extremos negociassem entre si. Pensei em Nixon restabelecendo relaes diplomticas com a China 
Popular de Mao, ou em De Gaulle levando adiante uma poltica de reconciliao com a Alemanha. Imaginava 
que Uribe pudesse ser bem-sucedido onde seu predecessor tinha fracassado, pois sendo o mais feroz opositor 
das Fare estava isento das suspeitas de fraqueza ou de negociaes clandestinas que haviam minado as ltimas 
iniciativas.
    Perguntei a Csar quanto tempo eu teria para preparar a mensagem.
    Ele queria grav-la  tarde.
   -                Use um pouco de maquiagem - acrescentou.
   -                No tenho maquiagem...
   -                As moas conseguiro.
    Eu acabava de compreender por que tnhamos recebido frutas e queijo em abundncia.
    Instalaram-se num espao aberto onde a luminosidade era maior - ali onde
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costumavam secar suas roupas. A sesso durou vinte minutos. Tomei a firme resoluo de no me deixar levar 
pelas emoes. Queria acalmar minha famlia apresentando-lhes um rosto sereno e uma determinao na voz e 
nos gestos que os faria entender que eu no tinha perdido a fora nem a esperana. Quando evoquei a morte de 
papai, enfiei na mo o lpis at sair sangue, de modo a desviar minha ateno por alguns instantes e fazer uma 
barragem para o rio de lgrimas que subia dentro de mim.
     Fiz questo de falar em nome dos outros refns, que, como eu, esperavam voltar para casa. A casca das 
rvores vizinhas  nossa caleta estava machucada de um modo estranho. No mesmo lugar, anos antes, houvera 
uma priso com outros refns tambm acorrentados nas rvores. Eu no os conhecia, mas tinha ouvido falar que 
alguns completaram seums de cativeiro. Fiquei horrorizada, sem conseguir imaginar o que isso representava e 
sem saber que meu prprio suplcio seria bem maior. Pensei que, recusando-se a falar de nossa situao, 
condenando-nos ao esquecimento, as autoridades colombianas tinham jogado no mar a chave de nossa liberdade.
     Nos anos que iriam se seguir, a estratgia do governo colombiano seria deixar o tempo passar, esperando 
que dessa forma a desvalorizao de nossas vidas obrigasse a guerrilha a nos soltar sem contrapartida. 
Estvamos a caminho de pegar a maior condenao que se pode infligir a um ser humano: a de no saber quando 
a pena terminar.
     O peso psicolgico dessa revelao era dramtico. O futuro no deveria mais ser considerado como um 
espao de criao, conquistas, objetivos a alcanar. O futuro estava morto. Quanto a El Mocho Csar, estava 
visivelmente satisfeito com seu dia. Quando a prova de sobrevivncia foi gravada, ele quis conversar comigo, 
sentado sobre o tronco da rvore.
    -                Vamos ganhar essa guerra. Os chulos no podem nada contra ns. So uns idiotas. Dois dias 
atrs matamos dezenas deles. Lanam-se em nosso encalo como patos em formao. Estamos escondidos e 
esperamos por eles.
    -                Alm disso, so muito corruptos. So burgueses, s a grana  que lhes interessa. Ns os 
compramos e depois os matamos!
     Eu sabia que, para alguns, a guerra era fonte inesgotvel de enriquecimento ilcito. Eu tinha denunciado no 
parlamento colombiano contratos de compra de armamentos superfaturados, com o preo verdadeiro at trs 
vezes maior para permitir a distribuio generosa de propinas. Mas o comentrio de Csar me feria bem no 
corao. "Na civil" eu sentia que a guerra no me dizia respeito. Era contra
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por princpio. Agora, com os meses que acabava de passar nas mos das Fare, eu me dava conta de que a 
situao do pas era bem mais complexa. Eu no podia mais ficar neutra. Csar podia criticar as Foras 
Armadas. No entanto, eram elas que os enfrentavam e detinham sua expanso. E os militares eram os nicos a 
lutar para nos libertar.
   -                O dinheiro interessa a todo mundo, e s Fare em particular. Veja como vivem os seus 
comandantes. E, alm disso, vocs matam, mas eles os matam tambm. Quem nos garante que voc estar vivo 
no fim do ano?
    Olhou-me com uma expresso surpresa, como quem fosse incapaz de imaginar a prpria morte.
   -                Voc no tem nenhum interesse na minha morte!
   -                Eu sei. Por isso  que desejo que voc viva muito tempo.
    Ele apertou minha mo entre as suas e me disse adeus, concluindo:
   -                Prometa-me que vai se cuidar.
   -                Sim, prometo.
    Dois meses depois, El Mocho Csar morria numa emboscada militar.
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11. A casinha de madeira

     Numa noite de lua cheia, chegou a ordem de nos mexermos. Fomos parar numa estrada onde nos esperava 
uma grande caminhonete nova em folha. Como era possvel que no meio de lugar nenhum houvesse uma estrada 
e aquele veculo? Estvamos perto da civilizao? O motorista era um cara simptico, beirando os quarenta 
anos, de jeans e camiseta, que eu tinha visto uma ou duas vezes antes. Chamava-se Lorenzo, como meu filho. 
Andrs e sua companheira, Jssica, subiram atrs. O resto do grupo seguiu, caminhando. Eu tinha a impresso 
de que pegvamos a direo norte, como se fizssemos o trajeto de volta. A ideia de voltar atrs me dava nimo. 
E se por acaso um acordo tivesse sido possvel? E se a liberdade estivesse bem perto? Eu ia ficando falante e 
Lorenzo, extrovertido por natureza, dava vazo  sua espontaneidade:
    -                Vocs nos criaram problemas, hein?
     Deu uma olhada para mim, enquanto dirigia, para julgar o efeito de suas palavras.
    -                Eles nos puseram na lista dos terroristas, mas a gente no  terrorista.
    -                Se no so terroristas, no devem se comportar como terroristas. Vocs sequestram, matam, 
jogam garrafes de gs nas casas das pessoas, espalham o terror, como  que querem ser chamados?
    -                Isso so as necessidades da guerra.
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   -                Talvez, mas o modo de fazerem guerra  puro terrorismo. Lutem contra o Exrcito, mas no 
ataquem os civis se no querem ser chamados de terroristas.
   -                A culpa  sua. Foi a Frana que nos incluiu na lista de terroristas.
   -                Bem, se a culpa  minha, libertem-me!
    Tnhamos ido parar num imenso campo  beira de um rio. Uma casa de madeira construda com bom gosto 
dominava a paisagem, e uma linda varanda ao redor, fechada por uma balaustrada de madeira pintada em cores 
vivas lhe dava um aspecto colonial. Eu no me enganava, reconheci aquela casa. Passamos diante dela alguns 
meses antes, sob uma tempestade tropical que cara logo depois de termos avistado, escondidos na outra 
margem, a famosa marrana, o avio militar de reconhecimento.
    Pela primeira vez, depois de tantos meses, revi o horizonte. A sensao de amplitude me apertou o corao. 
Enchi os pulmes com todo o ar que podiam conter, como se assim me apropriasse do espao infinito que se 
abria  minha frente, to longe quanto meus olhos permitiam ver. Era um parntese de felicidade, uma felicidade 
que eu s tinha conhecido na selva, uma felicidade triste, frgil e fugaz. Uma brisa de vero balanava as 
palmeiras imensas que a mo do homem poupara e que permaneciam orgulhosas na beira do rio, fiis 
testemunhas dessa guerra contra a selva que o homem comea a ganhar. Fizeram-nos andar at o embarcadouro, 
que nada mais era do que um sangretoro, uma rvore imponente e nodosa que servia de atracadouro para as 
pirogas. Gostaria de ter ficado ali, naquela linda casa,  beira daquele rio sereno. Fechei os olhos e imaginei a 
felicidade de meus filhos ao descobrir aquele local. Imaginei a expresso de meu pai em xtase diante da beleza 
daquela rvore jogando seus galhos a dois metros do solo como um enorme cogumelo. Mame j estaria 
cantando um de seus boleros romnticos. Bastava to pouco para ser feliz.
    O ronco do motor me tirou do devaneio. Clara pegou minha mo e a apertou com angstia.
   -                No se preocupe. Vai dar tudo certo.
    Verifiquei a direo da corrente enquanto me aproximava da canoa. Se a descssemos, estaramos nos 
embrenhando cada vez mais profundamente na Amaznia. O piloto ps a embarcao a jusante e saiu devagar. 
Imediatamente senti enjoo. O rio se estreitava. Em certos momentos as rvores das duas margens entrelaaram 
seus galhos acima de nossas cabeas e navegamos por um tnel de vegetao. Ningum falava. Esforcei-me para 
no sucumbir  sonolncia geral, pois queria ver e memorizar tudo. Depois de horas, levei um susto ao ouvir 
msica tropical vindo de lugar nenhum. Aps uma curva, trs cabanas de madeira 
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enfileiradas  margem pareciam esperar por ns. Dentro de uma delas, havia uma lmpada acesa pendurada num 
fio eltrico balanando-se suavemente e espalhando na superfcie da gua uma mirade de fascas. O piloto 
desligou o motor e nos deixamos levar em silncio pelo rio para no chamar a ateno. Fixei meu olhar nas 
cabanas, na esperana de ver um ser humano, algum que pudesse nos localizar e falar conosco. Assim fiquei, 
com o pescoo todo esticado, at perd-las de vista. E depois, mais nada.
     Trs, quatro, seis horas se passaram. Sempre as mesmas rvores, as mesmas curvas, o mesmo ronco 
contnuo do motor e o mesmo desespero!
     - Chegamos!
     Olhei ao redor. A floresta parecia ter sido mordida at o lugar onde tnhamos parado. No meio do espao 
vazio, uma casinha de madeira ali nos esperava, de aspecto miservel. Vozes vieram nos receber, reconheci 
facilmente uma parte da tropa que tinha nos precedido.
     Estava cansada e nervosa. Ousava esperar que nos permitissem passar o resto da noite dentro da casinha. 
Andrs desceu. Deu ordens para que seus pertences fossem para dentro da barraca e designou os guardas que 
nos levariam "ao stio".
     Andvamos em fila indiana, iluminados na frente por uma grande lanterna. Atravessamos o quintal da 
casa, e depois o que devia ser um pomar. Deixamos atrs de ns um estbulo que observei com saudades, e nos 
metemos subitamente num enorme milharal, cujos ps de milho de mais de dois metros estavam com espigas j 
maduras. Ouvi a voz de mame proibindo de me aproximar do milharal, quando eu era criana: "Est cheio de 
cobras e caranguejeiras". Apertei a sacola contra o peito, e com a outra mo enxotei todos os bichinhos que 
pulavam em cima de mim e enroscavam as asas e as patas no meu cabelo, milhes de gafanhotos gigantes e 
borboletas-corujas aflitas com a nossa marcha. Custava a avanar, dando cotoveladas e joelhadas, de tal forma o 
milharal era fechado. Tentava proteger o mximo possvel o rosto contra as folhas verdes do milho que 
cortavam como uma lmina de barbear.
     De repente, em pleno milharal, paramos. Eles tinham aberto a faco um espao quadrado e posto quatro 
estacas para sustentar nosso colcho e o mosquiteiro armado como um baldaquino. A populao de insetos, 
atrada pela estranha construo, o colonizara por todos os lados. Gafanhotos vermelhos e brilhantes maiores 
que a mo de um homem pareciam querer impor sua lei. O guarda os enxotou fazendo um amplo movimento 
com a lmina do faco e eles saram voando, pesados, lanando gritos agudos.
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   -                Vocs vo dormir aqui! - O guarda se deliciava, sem o menor pudor, com nossa perturbao.
    Enfiei-me sob o mosquiteiro, tentando bloquear a entrada da fauna ofegante, olhei para o cu aberto acima 
de minha cabea, fervilhando de nuvens pretas, e ca num sono profundo.
    Eles tinham comeado a construir o acampamento no monte* mais alm do milharal e atrs da plantao de 
folhas de coca que rodeava a casa. Ao atravess-la, enchemos os bolsos dos casacos de limes verdes colhidos 
num enorme limoeiro que imperava, fantstico, entre os ps de coca.
    Tinham levado uma motosserra e os ouvi da manh  noite aferrados na derrubada das rvores. Ferney veio 
ajudar a nos instalarmos e concentrou-se em construir para ns uma pequena prateleira onde pudssemos colocar 
nossas coisas. Passou a tarde a descascar a madeira das estacas, orgulhoso de fazer "um trabalho benfeito".
    Quando acabou sua obra, Ferney foi embora, esquecendo o faco entre as aparas da madeira. Clara e eu o 
avistamos ao mesmo tempo. Minha companheira pediu autorizao para ir aos chontos. Na volta, parou para 
trocar umas palavras com o guarda. Foi o que bastou para que eu pegasse o faco, o enrolasse na toalha e o 
escondesse na minha sacola.
    A posse do faco nos deixou eufricas. Isso permitia que nos aventurssemos de novo na selva. Mas eles 
podiam nos impor revistas a qualquer momento. Na manh seguinte, fomos submetidas a uma dura prova. 
Ferney veio acompanhado de quatro companheiros, que vasculharam toda a zona sem nos dizer uma s palavra. 
Estvamos sentadas de pernas cruzadas sob o mosquiteiro. Clara lia em voz alta um captulo de Harry Potter e a 
pedra filosofal, que enfiara na sacola antes de partir de Bogot. Tnhamos combinado nos revezar na leitura. 
Durante a hora em que eles fizeram a busca, a leitura foi meramente mecnica. Lamos sem entender uma pa-
lavra. Estvamos as duas concentradas em seguir com o canto de olho a equipe de Ferney, fazendo o possvel 
para no demonstrar interesse em seus gestos.
    Finalmente um dos sujeitos virou-se para ns e com cara de mau perguntou:
   -                Foram vocs que pegaram o faco de Ferney?
    Uma dose de adrenalina bloqueou meu crebro e respondi, bobamente:
* Bosque.
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    -                Por qu?
    -                Ferney deixou o faco aqui ontem  noite - ele retrucou com ar ameaador.
     Resmunguei, sem saber o que responder, angustiada com a ideia de que minha companheira tambm 
poderia ser interrogada.
     Era mais que evidente que eu estava com medo. Sabia que iam nos revistar, e fiquei em pnico s de 
pensar nisso.
     Foi quando Ferney veio em meu auxlio.
    -                Acho que no o deixei aqui. Lembro-me de t-lo pegado ao ir embora. Acho que deixei perto 
da serraria, quando fui buscar as tbuas. Vou procurar daqui a pouco. Bem, vamos embora.
     Falara sem sequer olhar para mim e virou as costas levando com seu gesto os outros companheiros, 
radiantes de se verem livres dessa tarefa.
     Clara e eu ali ficamos, extenuadas. Peguei o livro de suas mos trmulas e tentei recomear a leitura. Mas 
era impossvel fixar a vista. Deixei-o cair no colcho. Olhvamo-nos como se tivssemos acabado de ver o diabo 
e camos num riso nervoso, dobrando-nos para evitar que o guarda nos visse.
      noite, fazendo um balano dos acontecimentos do dia, senti nascer um sentimento de culpa que me 
pareceu ridculo: senti-me mal por ter enganado Ferney.
     Eles no nos tinham posto de novo as correntes. Podamos nos mexer livremente em volta da caleta. Mas 
ficvamos quase o dia todo sentadas no universo de dois metros cbicos delimitado por nosso mosquiteiro, pois 
nos habituamos a isso. O vu que nos separava do mundo exterior era uma barreira psicolgica que nos defendia 
do contato, da curiosidade e dos sarcasmos de fora.
     Enquanto estvamos sob o mosquiteiro, eles no se atreviam a falar conosco. Mas a sensao de poder sair 
de "nossa caleta" e andar de um lado para outro se desse vontade era uma liberdade mais estimada ainda, porque 
agora compreendamos que no era bvia. Ns a usvamos com parcimnia, temendo que nos vissem muito 
excitadas e pensassem em torn-la um instrumento de chantagem.
     Pouco a pouco enveredei pelo caminho do distanciamento das coisas pequenas e grandes, para me sujeitar 
apenas a meus desejos ou necessidades. Como no tinha mais controle sobre a possibilidade de satisfaz-los, 
tornei-me ainda mais prisioneira de meus carcereiros.
     Eles tambm tinham nos trazido um rdio. Foi to inesperado que nem sequer desfrutamos desse prazer. 
Quem nos enviava era El Mocho Csar, provavelmente porque em nossa ltima conversa eu tinha lhe dito que 
nada sabia do mundo e que, o que parecia extraordinrio, estava pouco ligando para isso. Na
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verdade, desde a morte de papai aparentemente o mundo exterior passara a ser alheio e distante para mim. Para 
ns o rdio era nocivo.
    Era um Sony grande, que os jovens chamavam de "tijolo" por ser quadrado e preto, um modelo que gozava 
de certa popularidade entre os guerrilheiros, pois vinha com um alto-falante poderoso que permitia ao grupo 
ouvir aos berros a msica popular na moda entre eles. Quando Jssica nos trouxe o rdio, compreendi na mesma 
hora que no apreciara o gesto de seu comandante. Pior, ficara indignada com nosso desinteresse:
   -                Aqui, isso  o que vocs podem ter de melhor!
    Ela confundira nossa reao com desprezo, imaginando que "na civil" estvamos acostumadas a algo bem 
melhor. No conseguia entender que em nosso estado mental s a liberdade nos interessava.
    Vingou-se a seu modo. No dia seguinte, veio buscar o canivete que El Mocho Csar tinha me dado antes de 
ir embora, a pretexto de que fora uma ordem do comandante Csar. Eu sabia muito bem que ela guardaria o 
canivete para si. Era a namorada do comandante. Tudo lhe era permitido. Entreguei-o, a contragosto, 
argumentando que tinha sido um presente, o que multiplicou seu prazer.
    Quanto a esse rdio, pouco a pouco tornou-se um pomo da discrdia. No incio, Clara e eu o passvamos 
uma para a outra para tentar acompanhar os noticirios do dia. Mas o exerccio no era fcil, o rdio era um 
tanto caprichoso, tnhamos de mexer no aparelho como num radar, virando-o para todos os lados at encontrar a 
posio mais favorvel e obter a melhor recepo, infelizmente sempre cheia de interferncias.
    O que eu achava surpreendente era que na coleta ao lado houvesse exatamente o mesmo "tijolo", mas com 
uma recepo perfeita. Descobri que eles incrementavam os aparelhos "envenenando" os circuitos e instalando 
uns pedaos de cabos para aumentar a potncia da recepo. Perguntei se algum poderia "envenenar" nosso 
tijolo. Mandaram-me falar com Ferney.
   -                Claro, vou dar um jeito. Vamos fazer isso quando estiverem instaladas na casa nova.
    Ca das nuvens:
   -                Qual casa nova?
   -                A casa que o comandante Csar mandou construir para vocs. Vocs vo estar muito bem, e 
at tero um quarto, no vo mais se preocupar que haja gente olhando enquanto se despem - disse.
    Era a menor de minhas preocupaes. Uma casa de madeira? Preparavam-se para nos manter prisioneiras 
durante meses! Portanto, eu no estaria em casa para
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o aniversrio de Mlanie, nem para o de meu Lorenzo - ele faria catorze anos. Deixaria de ser uma criana. Estar 
longe dele naquele momento me partia o corao. Meu Deus, e se aquilo se prolongasse at o Natal?
     A angstia no me abandonava mais. Perdi completamente o apetite.
     Depois que cortaram as tbuas, a construo da casa durou menos de uma semana. Foi erguida sobre 
pilotis, com um telhado de palmeiras tranadas cujo conjunto me pareceu surpreendentemente belo e engenhoso. 
Era uma construo simples, num plano retangular, fechada com uma parede de madeira de dois metros de altura 
nos trs lados, de modo que a fachada que dava para o acampamento fosse totalmente aberta para o exterior.
     No canto esquerdo desse espao, levantaram duas paredes internas para fazer um quarto com uma porta de 
verdade. Dentro havia quatro tbuas sustentadas por cavaletes,  guisa de cama, e, nos cantos, peas de madeira 
nos serviriam de prateleiras. Fora do quarto fizeram uma mesa para duas pessoas e um banquinho.
     Andrs fez questo de nos levar para nosso novo lar. Estava orgulhoso do trabalho de sua equipe. Eu 
custava a esconder meu desespero. A porta seria fechada com um grande cadeado  noite, e vi que dificilmente 
conseguiramos fugir. Tentei mudar minha sorte:
     - Seria preciso fazer uma janela, o quarto  muito pequeno e escuro, vamos sufocar!
     Ele me deu uma olhada cheia de desconfiana e no insisti. No entanto, no dia seguinte uma equipe chegou 
com a serra para abri-la. Respirei aliviada: com uma janela, teramos mais chances.
     Nossa vida mudou. Paradoxalmente, embora aquele espao fosse mais confortvel que nossas condies de 
vida anteriores, as tenses entre Clara e mim tornaram-se insuportveis. Eu tinha criado uma rotina que me 
permitia ser ativa, evitando ao mximo interferir com ela. Suas reaes no eram normais. Se eu varria, ela me 
perseguia para arrancar a vassoura de minha mo. Se me sentava  mesa, ela queria pegar o meu lugar. Se eu 
andava para l e para c fazendo exerccio, ela barrava o meu caminho. Se eu fechava a porta para descansar, 
exigia que eu sasse. Se eu me recusava, pulava em cima de mim como um gato mostrando as garras. Eu no 
sabia mais o que fazer. Certa manh, ao descobrir uma colmeia num canto da cozinha, comeou a berrar e, 
usando a vassoura, jogou no cho tudo que estava nas prateleiras ao longo da parede. Depois, saiu correndo para 
a selva. Os guardas a trouxeram de volta, empurrando-a com os fuzis.
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    Quando veio cuidar do nosso rdio, Ferney trouxe uma vassoura novinha, que havia feito para ns.
   -                Fiquem com ela,  melhor no pedir coisas emprestado. Isso irrita as pessoas.
    Ele tambm se deu ao trabalho de me explicar quais eram os programas que podamos pegar e as horas de 
transmisso. Antes das seis e meia da manh no havia nada. Em compensao,  noite poderamos nos deliciar 
com todas as estaes do pas. Mas esqueceu de nos avisar o essencial: no tnhamos ideia, nessa poca, da 
existncia de um programa especial transmitido para os refns, atravs do qual as famlias podiam enviar 
mensagens.
    A tenso aumentou certa manh, no raiar do dia, quando fiquei incomodada com um chiado abominvel. 
Clara estava encostada na parede, o rdio entre as pernas, rodando os botes em todos os sentidos, inconsciente 
do barulho que fazia. O cadeado de nossa porta s era aberto s seis da manh. Sentei-me calada,  espera, 
sentindo meu humor abominvel se manifestar. Expliquei-lhe com toda a calma que no haveria transmisso 
antes das seis e meia, na esperana de que desligasse o aparelho. Mas ela estava pouco ligando para o incmodo 
que causava e continuou a fazer o aparelho chiar. Levantei-me, sentei-me de novo, fiquei dando voltas entre a 
cama e a porta, manifestando minha irritao. Pouco antes da abertura do cadeado, aceitou que o "tijolo" se 
calasse.
    No dia seguinte a cena se reproduziu, idntica, exceto pelo fato de que no foi mais possvel conseguir que 
Clara desligasse o aparelho. Olhei para ela, concentrada ao ouvir o chiado do rdio e pensei: "Enlouqueceu".
    Outra manh, quando eu j estava fora e escovava os dentes num balde de gua que a guerrilha colocava, 
cheio, diante da casa, ouvi um barulho dentro do quarto. Corri aflita e encontrei Clara balanando os braos, o 
rdio quebrado a seus ps. Olhava fixamente para o aparelho.
   -                Pacincia, veremos se algum pode consert-lo - disse eu, tentando no ficar brava com ela.
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12. Ferney

     s seis da tarde, quando ainda era dia, o guarda ia pr o cadeado na porta. Rodeava o barraco at os fundos 
e fechava a nica janela com outro grande cadeado. Depois, ia at a frente para assumir seu planto noturno. Eu 
seguia seus gestos com extremo interesse, tentando encontrar a falha do sistema que nos permitisse escapar.
     A operao precisaria ser programada em dois tempos. Antes das seis da tarde, Clara devia sair pela janela, 
pular e correr para se refugiar nos arbustos atrs do barraco, levando a sacola com todo o necessrio. O guarda 
viria s seis em ponto para fechar a porta. Ele me veria, assim como um boneco ao meu lado, o que o levaria a 
acreditar que minha companheira j estava dormindo. Passaria o cadeado antes de dar a volta para fechar a 
janela nos fundos. Eu teria o tempo exato de sair pela janela e pular para o telhado, onde me esconderia. Ele 
passaria o cadeado na janela e se dirigiria para seu posto, na frente da casa, deixando-me o terreno livre para ir 
encontrar Clara nos fundos.
     Em seguida, teramos de pegar  direita para nos afastar do acampamento, depois virar em ngulo reto  
esquerda, o que nos levaria ao rio. Teramos de nadar e nos deixarmos levar pela corrente o mais longe possvel. 
Teramos de nos esconder durante o dia, pois eles estariam em nosso encalo, vasculhando as paragens. Mas 
depois de dois dias de navegao, sem saber para que lado tnhamos ido, no
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poderiam mais nos encontrar. Deveramos ento procurar uma casa de campons e correr o risco de pedir ajuda.
    Eu temia nadar nas guas negras daquela selva em plena noite, tendo visto os olhos brilhantes dos jacars 
disfarados perto das margens  espreita de uma presa. Precisaramos de uma corda para nos agarrarmos, de 
modo que a corrente no nos separasse e que no pudssemos nos perder no escuro. Se uma de ns fosse atacada 
por um jacar, a outra a salvaria graas ao faco. Precisvamos fabricar um estojo para o faco, de modo a poder 
lev-lo  cintura sem que ele nos atrapalhasse na hora de nadar. O saco deveria ser carregado s costas, ns nos 
revezaramos. Seu contedo devia ser todo enrolado em sacos plsticos e fechado hermeticamente com elsticos. 
Nossa resistncia na gua era um verdadeiro problema. Devamos fabricar bias, pois se tratava de nadar 
durante horas.
    Resolvi esse problema usando um isopor que a enfermeira tinha recebido com os remdios. Pedi-lhe para 
guard-lo, Patrcia riu, achando meu pedido curioso, mas me deu o que eu queria como se d a uma criana um 
boto quebrado para brincar. Voltei orgulhosa com minha aquisio e, no quarto, Clara e eu serramos o isopor 
com o faco, falando bem alto e rindo para abafar o hprrvel rangido que a lmina produzia no poliestireno. 
Estvamos fabricando bias com pedaos inteiros de isopor, bastante grandes para nos permitir apoiar o torso e 
suficientemente pequenos para caber nas mochilas.
    O resto dos preparativos foi mais fcil de terminar. Uma noite, descobri na viga da porta, logo antes que 
nos trancassem para passarmos a noite, um imenso escorpio, uma fmea de mais de vinte centmetros de 
comprimento, com toda a sua prole agarrada ao abdmen. O guarda a matou com um golpe de faco e a colocou 
num bocal com formol. Segundo ele, podia-se tirar dali um antdoto milagroso. Insisti ento no perigo de no ter 
iluminao dentro do quarto, impressionada com a ideia de que o bicho pudesse ter ido parar na minha nuca 
quando eu fechasse a porta. Andrs nos mandou a lanterna de bolso, com que eu sonhava para nossa fuga.
    No entanto, embora estivssemos prontas para partir, nosso projeto foi adiado. Tivemos uma semana de 
temperaturas abaixo de zero, em especial quando o sol nascia.
    - So as geadas do Brasil - me disse o guarda num tom de conhecedor. Felicitei-me por no ter fugido 
antes.
    Depois, foi meu resfriado que nos atrasou. Sem remdios, a febre e a tosse se prolongaram. Porm, mais 
que tudo, era o comportamento ciclotmico de Clara que criava um obstculo  nossa fuga. Um dia ela me 
explicou que no ia fugir
131
 



porque tinha vontade de ter filhos e que o esforo da fuga podia perturbar sua capacidade de engravidar.
     Outra tarde, procurando me refugiar no quarto, escutei uma conversa surpreendente. Minha companheira 
contava  moa que montava guarda um episdio de minha vida que eu tinha lhe revelado, com as mesmas 
palavras que eu usara para descrev-lo. Reconheci com exatido minhas expresses, as pausas que fizera, a 
entonao da voz. Tudo igual. O perturbador era que Clara se assumira como o sujeito da histria, tomando meu 
lugar em sua narrao. "Isso s vai piorar", pensei.
     Precisvamos conversar.
    -                Sabe, eles podem nos mudar de acampamento a qualquer momento - eu disse uma noite, antes 
que ela dormisse. - Aqui a gente j conhece a rotina deles, sabe como operam. E, alm disso, com esta casa 
relaxaram a vigilncia,  um bom momento. Vai ser duro,  bvio, mas ainda  possvel. H gente morando a 
dois ou trs dias de nado, ainda no estamos no fim do mundo.
     Pela primeira vez em semanas encontrei a pessoa que eu tinha conhecido. Suas reflexes eram ponderadas 
e suas perguntas, construtivas. Senti um verdadeiro alvio em poder dividir minhas reflexes com ela. Fixamos a 
data da partida para a semana seguinte.
     No dia marcado, lavamos nossas toalhas de banho e as penduramos nas cordas, de modo a bloquear a viso 
do guarda. Eu tinha verificado que, do lugar de onde nos vigiava, ele no poderia ver nossos ps, sob a casa de 
pilotis, no momento em que pulssemos pelos fundos. Cumprimos nossa rotina com exatido, como todo dia. 
Mas comemos talvez mais que de costume, o que fez nossa recepcionista franzir o cenho. Era uma bela tarde 
ensolarada. Esperamos at o ltimo instante.
     Chegada a hora, Clara pulou pela janela, como previsto. E ficou entalada, uma parte do corpo fora, a outra 
dentro. Empurrei-a com todas as minhas foras. Ela caiu desequilibrada, mas logo se levantou. Lancei a sacola 
pela janela e, no momento em que ela ia correndo para os arbustos, ouvi uma voz me chamando. Era Ferney, que 
chegava dos chontos. Ser que a tinha visto?
    -                O que est fazendo a?
    -                Tentando ver as primeiras estrelas - respondi, como Julieta em seu balco.
     Olhei para o cu na esperana de que ele fosse embora. A penumbra caiu depressa. O guarda ia fechar a 
porta com o cadeado. Tive de encerrar a conversa. Aventurei-me a dar uma olhada para onde Clara se 
encontrava. Ela estava invisvel. Ferney continuou.
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   -                Sei que voc est muito triste por causa de seu pai. Gostaria de lhe dizer isso antes, mas no 
encontrei o momento adequado.
    Senti-me representando um papel numa pea de teatro ruim. Se algum tivesse observado a cena, a teria 
achado cmica. Encostada na janela, com o nariz virado para as estrelas, eu tentava tapear um guerrilheiro para 
conseguir fugir, e o dito guerrilheiro a meus ps, ou ao menos sob a janela, na atitude de quem se preparava para 
oferecer uma serenata. Implorei  Providncia que viesse em meu auxlio.
    Ferney achou que meu silncio e minha ansiedade se deviam  emoo.
   -                Sinto muito, eu no devia faz-la pensar em coisas tristes. Mas tenha confiana, um dia sair 
daqui e ser bem mais feliz do que antes. Sabe, nunca digo isso porque somos comunistas, mas rezo por voc.
    Deu boa-noite e se afastou. Virei-me imediatamente, o guarda j estava l, inspecionando o quarto. No tive 
tempo de fazer um boneco adequado.
   -                Onde est a outra prisioneira?
   -                No sei, provavelmente nos chontos.
    Nossa tentativa foi um fracasso lamentvel. Rezei para que Clara percebesse e voltasse o quanto antes. Mas 
o que faria se a encontrassem com a sacola? E, na sacola, o faco, as cordas, a lanterna de bolso, a comida! 
Comecei a suar frio.
    Resolvi ir eu mesma aos chontos sem pedir autorizao ao guarda, na esperana de atrair sua ateno para 
mim e de que ela pudesse retornar ao quarto.
    O guarda me perseguiu aos berros e me bateu com a coronha do fuzil para me obrigar a voltar atrs. Clara 
j estava dentro do quarto. O guarda a interpelou grosseiramente e nos trancou...
   -                Voc est com a sacola?
   -                No, tive de deix-la escondida perto de uma rvore...
   -                Onde?
   -                Perto dos chontos.
   -                Meu Deus! Temos de refletir... Como peg-la antes que a descubram?
    No preguei o olho a noite toda. A aurora despontava, ouvi vozes e gritos dos
lados dos chontos, mas ningum correndo em volta do barraco. Tive a impresso de que me esvaziava da 
angstia que me congestionara a noite toda. Encontrei de imediato uma paz e uma serenidade absolutas. Iam nos 
castigar, era evidente. No importava. Iam ser perversos, humilhantes, talvez at violentos. Isso no me im-
pressionava mais. Pensei simplesmente que isso postergaria nossa fuga, pois sabia que, no mais profundo de 
mim, eu jamais desistiria.
    A porta se abriu antes das seis da manh. Andrs estava ali, cercado por grande parte da tropa. Em tom 
imperioso, disse:
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    -                Revistem-nas, da cabea aos ps.
     As moas tomaram conta do lugar e passaram um pente fino na totalidade de nossos bens. Tinham 
encontrado a sacola e a esvaziado. Fiquei imvel. Quando a varredura terminou, e tendo elas tomado o cuidado 
de nos despojar, a tropa se dispersou. S Andrs permaneceu ali.
    -                V - ele disse a algum que eu no tinha visto, atrs de mim.
     Virei-me.
     Era Ferney, com um grande martelo e uma imensa caixa de pregos velhos enferrujados. Entrou no quarto e 
comeou a enfiar freneticamente os pregos em todas as tbuas, a cada dez centmetros. Duas horas depois, ainda 
no tinha coberto o quarto todo. Desde o incio ele se trancara num mutismo absoluto e resolveu cumprir sua 
tarefa com um zelo doentio, como se quisesse me pregar nas tbuas. Depois, subiu no telhado e continuou o 
trabalho enganchado numa viga, batendo pregos com raiva mesmo ali onde era visivelmente intil, at o esgotar 
de seu estoque.
     Passei o dia olhando para ele. Sabia perfeitamente o que podia estar sentindo. Ele tinha encontrado o faco 
e se sentia enganado. Lembrava-se da conversa que tivemos na janela. No incio, fiquei constrangida, sentindo-
me terrivelmente mal por t-lo tapeado. Mas,  medida que as horas passavam, achei-o grotesco com aquele 
martelo e os pregos, com sua obsesso naquele quarto que ele transformava furiosamente em bunker.
     Passou por mim, com o ar furibundo.
    -                Voc  ridculo! - no pude deixar de lhe dizer.
     Deu meia-volta, bateu com as duas mos na mesa com cara de quem queria pular em cima de mim.
    -                Repita o que acabou de dizer.
    -                Eu disse que voc  ridculo.
    -                Voc rouba o meu faco, debocha de mim, tenta fugir, e eu sou ridculo!
    -                Sim, voc  ridculo! No tem por que estar furioso comigo.
    -                Estou furioso porque voc me traiu.
    -                No o tra. Vocs me sequestraram, me mantm como prisioneira, fugir  um direito meu.
    -                Sim, mas lhe ofereci minha amizade, confiei em voc - respondeu.
    -                E no dia em que seu chefe lhe disser para me tascar uma bala na cabea, ainda terei sua 
amizade?
     Ele no respondeu. Olhou-me com uma grande dor. Fez uma pausa, endireitou-se devagar e se afastou.
     No o vi mais. Uma noite, semanas depois, quando ele acabava de cumprir
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novamente seu turno de guarda e devia nos trancar com o cadeado, tirou do casaco um punhado de velas e me 
entregou.
    Fechou a porta depressa sem me dar tempo de agradecer. Aquelas velas proibidas foram sua resposta. Fiquei 
em p, a garganta apertada.
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13. Aprendiz de tecel

     Em meu tdio, eu lia a Bblia e tecia. 
Deram-me uma grossa Bblia com mapas 
e ilustraes no final. Teria eu descoberto suas 
riquezas se no fosse impelida pela 
falta do que fazer e pela lassido? Creio que 
no. O mundo em que vivia no deixava lugar 
para a meditao nem para o silncio. Ora,  na 
ausncia de distraes 
que a mente mistura as palavras e os 
pensamentos, como quando sovamos uma 
massa para fazer algo novo. Ento, eu relia as 
passagens e descobria por que tinham 
se agarrado em mim. Eram como brechas, 
passagens secretas, pontes para outras 
reflexes, e como uma interpretao totalmente 
diferente do texto. Desse modo, a 
Bblia tornou-se um mundo apaixonante de 
cdigos, insinuaes, subentendidos.
     Foi talvez por isso que me dediquei 
facilmente  prtica da tecelagem. Na 
atividade mecnica das mos, o esprito 
entrava em meditao e eu podia refletir 
sobre o que lera enquanto minhas mos 
estavam ocupadas.
     A coisa comeou um dia em que eu 
acabara de falar com o comandante.
     Ferney estava sentado em seu colcho. 
Beto, o rapaz que dividia a barraca 
com ele, estava em p defronte de uma das 
estacas que sustentavam o colcho, 
concentrado em tecer um cinto com fios de 
nilon. Volta e meia eu os via fazendo 
isso. Era fascinante. Tinham adquirido 
tamanha destreza e suas mos se mexiam 
to rpido que pareciam mquinas. A cada n 
surgia uma forma nova. Sabiam 
confeccionar cintos com o prprio nome em 
relevo. Iam depois tingi-los na rancha, pondo-
os para ferver dentro de grandes caldeires 
com gua fluorescente.
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    Parei um instante para admirar o trabalho dele. As letras de Beto eram mais bonitas que as que eu tinha 
visto nos outros trabalhos.
   -                 o melhor de todos ns! - disse Ferney sem complexos. - O tempo que levo para fazer um, 
Beto faz trs!
   -                Ah, sei!
    Eu custava a achar que era uma vantagem agir depressa num mundo em que havia tanto tempo a perder. 
Naquela noite, em minhas elucubraes noturnas, comecei a pensar que gostaria de aprender a tecer cintos 
iguais aos dele. A ideia me animava. Mas como fazer? Pedir autorizao para Andrs? Perguntar a um dos 
guardas? Eu tinha aprendido que na selva no se ganha nada em agir sob o domnio do primeiro impulso. O 
mundo onde eu cara prisioneira era o do arbitrrio. Era o imprio do capricho.
    Um dia, houve uma tempestade terrvel. Chovera a cntaros da manh  noite. Eu estava sentada no cho 
para ver o espetculo dessa natureza furiosa. Cortinas de gua formavam uma tela e s vamos as coletas mais 
prximas, o resto do acampamento parecia ter desaparecido. Os guardas estavam imveis em seu posto, cobertos 
com o plstico preto da cabea aos ps, como almas penadas. Pareciam flutuar num lago, pois o solo, sem 
conseguir absorver toda a chuva, estava coberto de vrios centmetros de gua marrom. Quem se aventurava a 
andar do lado de fora voltava coberto de lama. O acampamento se imobilizara. S Beto continuava a tecer 
cintos, defronte da estaca, alheio  tempestade. Eu no conseguia tirar os olhos dele.
    No dia seguinte, Beto e Ferney vieram juntos. Exibiam um grande sorriso.
   -                Pensamos que voc ficaria contente de aprender a tecer. Pedimos autorizao e Andrs est de 
acordo. Ferney vai lhe dar fio de nilon e eu vou lhe mostrar como se faz.
    Beto passou vrios dias comigo. Ensinou-me primeiro a preparar a trama e estic-la com a ajuda de um 
ganchinho que eles chamavam de "garabato". Ferney fez um para mim, bonito, e me senti equipada como uma 
profissional. Beto passava  noite e revisava minha obra do dia:
   -                Tem que dar duas voltas por cima com o garabato, seno eles escorregam.
    Pus toda a minha energia em aprender direito, em me corrigir, em seguir suas
instrues com preciso. Tive de enrolar os dedos com pedaos de tecido, pois, de tanto pux-lo, o fio de nilon 
abria minha carne. Mas isso no contava, e diante da obra eu no sentia mais o peso do tempo. As horas 
passavam depressa. Como entre os monges, pensei, que nos exerccios de contemplao se dedicam a elaborar 
objetos preciosos. Senti que a leitura da Bblia e as meditaes que surgiam em minhas horas de tecelagem me 
tornavam melhor, mais serena, menos suscetvel.
137
 



     Um dia Beto veio me dizer que eu estava pronta para fazer um cinto de verdade. Ferney apareceu com um 
carretel inteiro de fio. Cortamos fios de dez "braadas" para fazer um cinto de cinco "quartos". Eram as medidas 
da selva. Eram necessrias duas "braadas" para obter um "quarto" de cinto tecido. Uma "braada" era o 
comprimento entre a mo e o outro ombro, o "quarto" era a distncia entre o polegar e o mindinho quando a mo 
estava bem aberta.
     Quis tecer um cinto gravado com o nome de Mlanie e coraes em cada ponta. Tinha me informado e 
ningum sabia faz-los. Portanto, improvisei e consegui, o que desencadeou uma pequena moda no 
acampamento, pois todas as moas tambm queriam ter coraes em seus cintos.
     A possibilidade de ser ativa, de criar, inventar, deu-me uma trgua. Faltavam apenas duas semanas para o 
aniversrio de Mlanie. Resolvi que o cinto deveria estar pronto antes, mesmo que eu precisasse passar meus 
dias inteiros nele. O exerccio deixou-me num estado de excitao. Eu tinha a impresso de estar em comu-
nicao com minha filha, portanto em contato com o melhor de mim mesma.
     Uma tarde, Beto veio me ver. Queria me mostrar um outro cinto de cores diferentes, que tinha feito com 
uma tcnica nova. Prometeu-me que me ensinaria esta tambm. Depois, na conversa, sem saber muito bem por 
qu, disse:
     - Voc vai precisar estar pronta para correr quando lhe dissermos. Os chulos esto pertinho, e se chegarem 
vo mat-la. O que eles querem  dizer que a guerrilha o fez, e assim no tero de negociar a sua libertao. Se 
eu estiver aqui, vou embora correndo. No vou me deixar matar em seu lugar. Ningum far isso.
     Tive uma sensao estranha ao ouvi-lo. Senti pena dele, como se pela confisso que acabava de me fazer se 
condenasse a no mais receber ajuda de outra pessoa quando precisasse.
     Saiu do acampamento no dia seguinte e partiu "em misso", o que queria dizer que provavelmente seria o 
encarregado de nosso abastecimento nos meses vindouros. Uma noite, quando os guardas conversavam, 
convencidos de que dormamos profundamente, soube que ele tinha sido morto pelo Exrcito colombiano numa 
emboscada, aquela onde El Mocho Csar tinha perdido a vida. Para mim foi um choque terrvel. No s porque 
me vinham em ecos suas ltimas palavras e, com elas, sua furiosa vontade de viver, mas sobretudo porque eu 
no podia entender como seus companheiros falavam de sua morte sem um pingo de tristeza, como se falassem 
do ltimo cinto que ele estava terminando.
     No consegui afastar de meus pensamentos esse sinal macabro do destino,
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essa correspondncia fatdica, compreendendo que, afinal de contas, ele de fato morrera "no meu lugar" por 
causa desse encadeamento exato de acontecimentos que fizeram com que tivssemos nos encontrado, sem 
querer: ele era meu guarda, eu, sua prisioneira. Terminando o cinto que ele me ajudara a comear, perdida em 
minhas meditaes, agradeci no silncio de meus pensamentos o tempo que ele passara a conversar comigo, mais 
que a arte que me transmitira, pois descobri que o que os outros tm de mais precioso a nos oferecer  o tempo, 
ao qual a morte d seu valor.
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14. Os dezessete anos de Mlanie

     Os dias se pareciam e se arrastavam muito lentamente. Eu custava a me lembrar das coisas que tinha feito 
na vspera. Tudo o que vivia caa numa grande nebulosa e s memorizava as mudanas de acampamentos 
porque eram um sofrimento. Fazia quase sete meses que eu tinha sido sequestrada e sentia as consequncias. 
Meu centro de interesses derrapara: o futuro no me interessava mais, o mundo exterior tampouco. Eram-me 
simplesmente inacessveis. Vivia o presente na eternidade da dor e sem a esperana de um fim.
     No entanto, o aniversrio de minha filha me soou como se o tempo tivesse se acelerado caprichosamente, 
s para me perturbar. Fazia duas semanas que eu trabalhava tecendo seu cinto. Estava orgulhosa dele, os 
guerrilheiros desfilavam defronte do barraco para vir inspecionar meu trabalho: "A velha aprendeu!", diziam, 
com uma ponta de surpresa  guisa de congratulaes. Chamavam-me a cucha, a velha, o que na gria deles no 
tinha nenhuma conotao pejorativa. Empregavam o mesmo termo para falar ao comandante, num tom que 
queria ser familiar e respeitoso ao mesmo tempo. Mas eu custava a me habituar. Sentia-me irremediavelmente 
empurrada para o armrio das relquias. Mas, pois , minha filha ia fazer dezessete anos: eu tinha idade para ser 
me de todos eles.
     Tecia assim, perdida em 10 mil reflexes que se enfiavam umas nas outras como os ns que ia dando 
pacientemente em meu trabalho manual. Pela primeira vez desde a captura senti que tinha pressa. Essa 
descoberta me maravilhou. Na
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vspera do aniversrio de Mlanie, s seis da tarde, logo antes que nos trancassem, dei o ltimo n no seu cinto. 
Estava muito orgulhosa.
     Devia ser um dia de alegria. Pensei que era o nico jeito de prestar-lhe uma homenagem, a ela que viera 
espalhar luz em minha vida, mesmo nos confins daquele buraco verde. Durante a noite inteira reconstitu 
mentalmente sua vida. Revivi no pensamento o dia de seu nascimento, seus primeiros passos, o medo, o pnico 
que lhe causava uma boneca mecnica que andava melhor que ela. Revi-a no primeiro dia de escola, com suas 
marias-chiquinhas e botinhas brancas de criana, e de pensamento em pensamento a vi crescer, acompanhando-a 
em seu percurso at a ltima vez em que a apertara nos braos. Chorei, mas minhas lgrimas eram de natureza 
totalmente diferente. Chorava de felicidade por ter estado ali e acumulado tantos instantes mgicos em que podia 
agora beber para matar minha sede de felicidade. Era sem dvida uma felicidade triste, pois a ausncia fsica de 
meus filhos era terrivelmente dolorosa, mas era a nica felicidade que eu podia sentir.
     Levantei-me bem antes que abrissem a porta. Esperei sentada na beira da cama, cantando em minha cabea o 
"Parabns pra voc", cujas vibraes deviam chegar  minha filha, num percurso que eu fazia mentalmente 
daquela casa de madeira, por cima das rvores da selva, mais alm do mar do Caribe, at o quarto dela, na ilha de 
Santo Domingo onde a imaginava dormindo como a deixara. Vi-me acordando-a com um beijo em sua face fresca e 
acreditei firmemente que ela devia me sentir.
     Na vspera, pedira autorizao para fazer um bolo e Andrs tinha dito sim. Jssica tinha vindo me ajudar e 
preparamos uma massa com farinha, leite em p (o que era uma concesso surpreendente), acar e chocolate 
amargo, que fizemos derreter numa panela  parte. Sem forno, resolvemos frit-lo. Jssica se encarregou do glac: 
usou um saco de p para preparar bebidas, sabor morango, e misturou com leite em p diludo num pouquinho de 
gua. A massa espessa que conseguiu fazer transformou o bolo num disco rosa-shocking sobre o qual ela escreveu 
uma frase cheia de arabescos cor-de-rosa, onde se lia: "Feliz aniversrio, Mlanie. Da parte das Farc-Ep".
     Andrs tinha autorizado que pegssemos seu minicassete e Jssica veio para casa com o aparelho, o bolo e El 
Mico, nas barbas de quem tnhamos fugido. Ele estava l para nos fazer danar, pois Jssica estava muito decidida 
a aproveitar a ocasio. De meu lado, tambm me preparei. Vesti o jeans que usava no dia do sequestro e que 
Mlanie me dera no Natal, e o cinto que confeccionei para ela, pois tinha emagrecido muito e minha cala estava 
larga na cintura.
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     Por algumas horas aqueles jovens se transformaram como por encanto. No eram mais guardas nem 
terroristas nem assassinos. Eram jovens, da idade de minha filha, que se divertiam. Danavam divinamente, como 
se s tivessem feito isso na vida. Estavam perfeitamente sincronizados um com o outro, transformando aquele 
barraco num salo de dana, rodopiando com gosto e elegncia. O espetculo era fantstico. Jssica, com seus 
longos cabelos pretos e cacheados, sabia que era bonita e que todos a observavam. Balanava os quadris e os 
ombros, apenas o necessrio para valorizar a harmonia de suas formas. El Mico, embora feio, parecia 
metamorfoseado. O mundo lhe pertencia. Eu gostaria tanto que meus filhos estivessem ali! Era de fato a primeira 
vez que um pensamento desses me ocorria. Gostaria que conhecessem aqueles jovens, que descobrissem seu modo 
de vida estranho, to diferente e no entanto to prximo, pois todos os adolescentes do mundo se parecem. 
Aqueles jovens, eu os conhecera cruis, dspotas, humilhantes. Necessariamente, ao olh-los danar fiquei 
pensando se meus filhos, nas mesmas condies, teriam agido da mesma maneira.
     Naquele dia compreendi que nada nos faz to diferentes uns dos outros. Refleti sobre a poca em que estava 
no Congresso. Por muito tempo eu tinha indigitado aqueles que denunciei ao desmascarar a corrupo em meu 
pas. Agora me perguntava se tinha sido justa. No que tivesse alguma dvida sobre a veracidade de minhas 
acusaes, mas porque tomava conscincia da complexidade da condio humana. Graas a isso, a compaixo me 
aparecia sob um novo enfoque, como valor essencial para administrar meu presente. "A compaixo  a chave do 
perdo", pensei, disposta a recusar qualquer veleidade de vingana. No dia do aniversrio de Mlanie, 
compreendi que no queria perder a ocasio de estender a mo ao inimigo, quando ela se apresentasse.
     Depois desse dia, minha relao com Jssica mudou. Ela veio me perguntar se eu podia lhe dar aulas de 
ingls. O pedido me surpreendeu: fiquei pensando o que uma pequena guerrilheira poderia fazer na selva com 
suas aulas de ingls.
     Jssica chegou no primeiro dia com um bonito caderno novinho em folha, uma caneta e um lpis preto com 
borracha. Ser namorada do comandante oferecia vantagens. Mas tambm era verdade que, desde o primeiro 
contato, ela mostrou todas as caractersticas de uma boa aluna: letra caprichada, uma organizao mental e 
espacial metdica, grande concentrao, tima memria. Sua felicidade de aprender me estimulou a preparar 
melhor as aulas. Flagrei-me esperando com satisfao sua visita.
     Com o correr do tempo, misturamos as aulas de ingls com pequenas conversas mais ntimas. Contou-me, 
trmula, a morte de seu pai - ele mesmo 
142
 



guerrilheiro - e seu prprio recrutamento. Descreveu-me sua relao com Andrs. De vez em quando, elevava a 
voz e me falava do comunismo, da felicidade de ter pegado em armas para defender o povo, do fato de que as 
mulheres no eram discriminadas dentro das Fare e de que o machismo ali era terminantemente proibido. Baixava 
a voz para me falar de seus sonhos, ambies, problemas de casal. Eu compreendia que ela estava preocupada com 
a possibilidade de os guardas nos escutarem.
   -                Temos de tomar cuidado, pois podem entender mal e me pedir explicaes na aula.
     Soube ento que os problemas se discutiam em pblico. Todos estavam sob vigilncia e deviam informar o 
comandante sobre o menor comportamento suspeito de um companheiro. A delao fazia parte de seu sistema de 
vida. Todos a sofriam e a praticavam, indistintamente.
     Um dia, Jssica chegou com a letra em espanhol de uma msica que adorava. Queria que eu a traduzisse em 
ingls para cantar "como uma americana". Ela dava duro para aperfeioar o sotaque.
   -                Voc  to dotada que devia pedir a Joaquin Gmez que as Fare a enviem para prepar-la no 
estrangeiro. Sei que muitos filhos dos membros do Secretariado esto nas melhores universidades na Europa e em 
outros lugares. Pode interessar a eles ter algum como voc que fale um bom ingls...
     Vi seus olhos se iluminarem por um instante. Depois, ela se refez e disse, elevando a voz:
   -                Estamos aqui para dar a vida pela revoluo, no para fazer estudos burgueses.
     No voltou mais para as aulas. O que me deixou triste. Uma manh em que estava de planto, abordei-a a fim 
de lhe perguntar por que tinha abandonado o ingls, quando estava aprendendo to bem.
     Deu uma olhada ao redor e me disse baixinho:
   -                Tive uma briga com Andrs. Ele me proibiu de continuar as aulas de ingls. Queimou meu 
caderno.
143
 



15.  flor da pele

     Certa manh, quase de madrugada, Ferney veio nos ver:
     - Arrumem todas as suas coisas. Vamos partir. Vocs tm de estar prontas em vinte minutos.
     Senti que meu ventre se liquefazia. O acampamento j estava semidesfeito. Todas as barracas tinham sido 
recolhidas e os primeiros guerrilheiros partiam com suas mochilas, em fila indiana, para os lados do rio. Eles nos 
deixaram esperando.
     Ao meio-dia em ponto, Ferney reapareceu, pegou nossas coisas e nos mandou segui-lo. Cruzamos o campo 
de coca como se cruzssemos um forno, de tal forma o sol castigava, depois passamos diante do limoeiro e 
apanhei alguns limes, com que enchi os bolsos. Era um luxo que eu no podia deixar passar. Ferney me olhou, 
impaciente, depois resolveu pegar tambm, intimando-me que continuasse a marchar. Entramos de novo na 
manigua* A temperatura mudou instantaneamente. Do calor sufocante do campo de coca, passamos ao ar fresco e 
mido da mata. Tinha cheiro de podre. Eu detestava esse mundo perpetuamente em estado de decomposio e seu 
fervilhar de insetos dignos de pesadelos. Era um tmulo que s esperava uma leve inadvertncia nossa para nos 
tragar. A gua estava a uns vinte metros apenas, pois nos encontrvamos na beira do rio. Portanto,
* Selva.
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o que nos aguardava era um deslocamento de canoa. Mas no vamos nenhuma embarcao.
     O guarda se jogou no cho, tirou as botas e fingiu se acomodar, como quem ia ficar muito tempo ali. Olhei ao 
redor na esperana de encontrar um local propcio para descansar. Olhei para mim mesma, indecisa, como um co 
que procurasse se sentar. Ferney reagiu rindo:
   -                Espere!
     Tirou o faco e limpou com grandes gestos um quadrado de terreno em torno de uma rvore morta, depois 
cortou imensas folhas de uma bananeira selvagem e as arrumou cuidadosamente em cima.
   -                Sente-se, doctora. - disse em tom zombeteiro.
     Fizeram-nos esperar o dia inteiro, sentadas naquele velho tronco na margem do rio. Atravs da folhagem 
densa, o cu de um azul a cada instante mais profundo enchia-me de saudades: "Por qu, Senhor? Por qu?".
     Todo mundo se levantou. Alm do piloto, que no era outro seno Lorenzo, Andrs e Jssica j estavam no 
barco. Consegui me descontrair ao ver que subamos a corrente. Fomos parar num rio duas vezes maior que o 
anterior. Na penumbra do crepsculo brilhavam aqui e ali as pequenas luzes de um nmero crescente de casas. 
Fiz o possvel para no ceder ao efeito hipntico das vibraes do motor. Os outros roncavam ao redor, em 
posies de tortura para evitar o vento que nos aoitava em pleno rosto.
     Dois dias depois, desembarcamos defronte de uma casinha. Cavalos nos esperavam e, levadas pelas rdeas, 
atravessamos uma imensa fazenda com cercados cheios de gado bem nutrido. Novamente rezei: "Meu Deus, fazei 
que seja o caminho da liberdade!" Mas deixamos a fazenda e seguimos por uma estradinha de terra batida, muito 
bem conservada e salpicada de cercas recm-pintadas. Estvamos de volta  civilizao. Invadiu-me uma sensao 
de leveza. Isso s podia ser de bom augrio. Depois, numa encruzilhada, fizeram-nos descer do cavalo, 
devolveram nossos pertences para que os carregssemos e nos deram ordens de andar. Ergui os olhos e vi uma 
coluna de guerrilheiros que nos precedia e se embrenhava de novo na floresta escalando uma ladeira ngreme. 
Fiquei pensando se conseguiria imit-los. Com um fuzil apontado para minhas costas, consegui subir, um p 
depois do outro, igual a uma mula. Andrs escolhera montar o novo acampamento no topo.
     O abastecimento nesse novo lugar parecia mais cmodo de organizar. Houve uma entrega de xampu e 
produtos de toalete, que fazia meses eu solicitava. No entanto, quando vi a caixa com todos aqueles frascos de 
supermercado, 
145
 



compreendi que minha libertao no estava no programa. Eles antecipavam minha presena ali no Natal. Houve 
uma entrega de roupas de baixo. Devia existir algum comrcio no muito longe. A estrada que tnhamos seguido 
devia levar a algum lugar. Talvez houvesse um posto de polcia nos arredores, ou talvez at um destacamento 
militar?
      Resolvi levar minha rotina cotidiana pensando em adormecer as desconfianas deles. Vivamos numa caleta 
que tinham feito para ns sob um imenso plstico preto. Tnhamos tambm direito a uma mesinha com duas 
cadeiras frente a frente e a uma cama grande o suficiente para nosso nico colcho e o mosquiteiro.
      Eu tinha pedido a Andrs autorizao para que nos fabricassem uma pasera* onde pudssemos colocar nossas 
coisas. Jssica, que estava bem atrs dele, dissera contrafeita:
      - Elas esto instaladas como rainhas e se queixam!
      Seu ressentimento me surpreendeu.
      Foi ao tomar banho que percebi o cime que as moas sentiam de ns. Precisvamos descer uma ladeira - 
que ficou cheia de lama desde o segundo dia de nossa chegada - para termos acesso a um riacho lindo que 
serpenteava o sop da colina. A gua era absolutamente transparente, correndo num leito de pedrinhas de aqurio 
que refletiam a luz numa multido de raios coloridos.
      Era o meu momento preferido do dia. Descamos ao riacho no incio da tarde para no atrapalhar o trabalho 
dos cozinheiros, que iam ao mesmo lugar para se abastecer de gua e lavar as panelas, de manh.
      Duas moas nos escoltavam enquanto lavvamos nossa roupa e fazamos nossa toalete. Tive a infeliz ideia 
de comentar que o lugar era encantador e que eu adorava mergulhar naquela gua cristalina. Pior, me demorei na 
gua alguns instantes mais, antes de cruzar com o olhar malvado de uma das guardas. A partir desse momento, as 
moas que nos vigiavam passaram a descer com o relgio no pulso e nos obrigavam a andar depressa, mal 
chegvamos.
      Mesmo assim, eu estava decidida a no permitir que me estragassem aquele momento. Reduzia ao mximo o 
tempo de lavagem de roupa para aproveitar um pouco o banho. Foi a vez de Jssica nos acompanhar, junto com 
Yiseth. Mal chegou, saiu irritada porque eu tinha me jogado na gua com alegria, igual a uma criana. Imaginei 
que, irritada, iria se queixar argumentando que eu levava muito tempo para tomar banho. Mas tnhamos cruzado 
com Ferney na descida e eu
* Estante.
146
 



contava com ele para dar um jeito na situao. No esperava nem de longe o que ia se seguir.
     Estvamos nuas enxaguando o cabelo, com os olhos cheios de sabo, quando ouvimos vozes masculinas 
berrando obscenidades na descida. No tive tempo de me cobrir antes que dois guardas nos intimassem a sair da 
gua, com o fuzil apontado para ns. Enrolei-me na toalha e reclamei, exigindo que fossem embora para que 
pudssemos nos vestir. Um dos guardas era Ferney, com cara de mau. Mandou que eu sasse dali imediatamente:
     - Vocs no esto de frias, vo se vestir na sua caleta.
     
Outubro de 2002
     Eu me protegia com a Bblia. Tinha decidido comear pelo mais fcil, os Evangelhos. Essas histrias - escritas 
como se uma cmera indiscreta tivesse seguido Jesus sem seu consentimento - estimulavam uma reflexo livre. 
Era, portanto, um homem que ganhava vida diante de meus olhos, um homem que convivia com homens e 
mulheres ao redor e cujo comportamento me intrigava mais ainda porque eu sentia que jamais teria feito igual.
     Houve, porm, um detonador: o episdio das bodas de Cana, que provocou minha curiosidade. Havia ali 
um dilogo entre Jesus e sua me que me deixou pasma, de tal forma me era intimamente familiar: eu poderia ter 
vivido a mesma situao com meu filho. Ao se dar conta de que no h mais vinho na festa, diz Maria: "No h 
mais vinho". E Jesus, que compreende perfeitamente que por trs dessa simples observao esconde-se uma 
incitao  ao, responde de mau humor, quase irritado por se sentir manipulado. Maria, como todas as mes, 
sabe que, apesar da recusa inicial, Jesus acabar fazendo o que lhe sugeriu. Por isso  que vai falar com os que 
servem, pedindo que eles acatem as instrues dele. Como lhe sugeriu Maria, Jesus transforma a gua em vinho e 
comea sua vida pblica com esse primeiro milagre. H um inegvel e simptico sabor pago na preocupao em 
garantir que a festa continue. Essa cena me ocupou a mente dias a fio. Por que Jesus recusa, no incio? Tem medo, 
est intimidado? Como pode se enganar sobre a convenincia do momento, quando supostamente deve saber 
tudo?... A histria me apaixonava. Os pensamentos giravam sem parar em meu crebro. Eu procurava, refletia. E 
depois, de repente me dei conta: "Ele teve escolha!" Era idiota, mas evidente. Isso mudava tudo. Aquele homem 
no era um autmato programado para fazer o bem e sofrer um castigo em nome da humanidade. Sem dvida, 
tinha um destino, mas fizera escolhas, sempre tivera 
147
 



escolha!... E eu, qual era o meu destino? Naquele estado de ausncia total de liberdade, restava-me uma 
possibilidade de fazer uma escolha qualquer? E, se sim, qual?
      O livro que tinha nas mos se tornou meu nico interlocutor fidedigno. O que ali estava escrito tinha 
tamanha fora que eu seria levada a me desnudar diante de mim mesma, a parar de fugir, a fazer, eu tambm, 
minhas prprias escolhas. E, por uma espcie de intuio vital, descobri que tinha diante de mim um longo 
caminho a percorrer, que me transformaria de modo profundo sem que eu fosse capaz de adivinhar sua essncia e 
sua amplido. Havia uma voz atrs daquelas pginas repletas de palavras que se acumulavam a cada linha, e atrs 
daquela voz uma inteligncia que procurava entrar em contato comigo. No era mais apenas a companhia de um 
livro que me desentediava. Era uma voz viva que falava a mim. Falava comigo.
      Consciente de minha ignorncia, li a Bblia da primeira  ltima linha, como uma criana: verbalizando todas 
as perguntas que me vinham ao esprito. Pois tinha reparado que, volta e meia, quando um detalhe da narrao me 
parecia esquisito, eu o colocava de lado no esprito, numa cesta que criara mentalmente para a jogar o que no 
entendia, carimbando-o com a palavra "erros" - o que me permitiu continuar a ler sem me fazer perguntas. A partir 
daquele momento, passei a formular as perguntas, o que estimulou minha reflexo, a fim de me permitir escutar 
aquela voz que me falava ao correr das palavras.
      Comecei me interessando por Maria, simplesmente porque a mulher que descobri nas bodas de Cana era 
bem diferente da adolescente ingnua e meio boba que eu acreditava conhecer at ento. Revisei minuciosamente o 
Novo Testamento, havia muito pouco sobre ela. Maria nunca falava, a no ser no Magnificai, que para mim 
ganhou outra dimenso e que resolvi aprender de cor.
      Meus dias estavam cheios, minhas angstias se suavizaram. Abria os olhos com a impacincia de p-los para 
ler e tecer. O aniversrio de Lorenzo se aproximava tambm e eu quis tornar aquele dia to alegre quanto o do 
aniversrio de Mlanie. Fiz disso um preceito de vida. Era tambm um exerccio espiritual, o de obrigar-se a ter 
felicidade em meio ao maior dos infortnios.
      Dediquei-me a confeccionar um cinto excepcional para Lorenzo: Consegui tecer em relevo os barquinhos que 
precediam seu nome. Tendo adquirido mais destreza, pude termin-lo bem antes da data. Minhas inovaes me 
projetaram no grupo dos "profissionais". Tive com os grandes teceles do acampamento conversas de alto nvel 
tcnico. O fato de ter uma atividade criativa me tornou capaz de fazer algo novo num mundo que me rejeitava, e 
me libertou do peso do fracasso em que minha vida se transformara.
148
 



     Tambm continuei a fazer ginstica. Em todo caso, assim apresentava as coisas, pois o que buscava era me 
obrigar a um treino fsico que me permitisse enfrentar uma futura fuga.
     A leitura da Bblia possibilitou melhorar a relao com Clara. Uma tarde, sob uma tempestade torrencial, 
quando estvamos confinadas debaixo do mosquiteiro, aventurei-me a dividir com ela os resultados de minhas 
ruminaes noturnas. Expliquei em detalhes por onde sair da caleta, como evitar o guarda, que caminho pegar para 
alcanar a liberdade. A chuva fazia uma tamanha barulheira no teto de plstico que custvamos a nos ouvir. Ela 
me pediu que falasse mais alto e assim o fiz. Foi s quando acabei de expor meu plano detalhado que percebi um 
movimento atrs de nossa caleta. Ferney estava escondido ali dentro, atrs da estante que Andrs acabara 
permitindo que construssem para ns. Ouvira tudo.
     Desabei. O que iam fazer? Iam nos acorrentar de novo? Iam fazer novas revistas? Fiquei furiosa comigo 
mesma por ter sido to negligente. Como pudera no tomar todas as precaues indispensveis antes de falar?
     Espiei a atitude dos guardas com o objetivo de detectar alguma mudana, e esperei ver surgir Andrs com as 
correntes na mo. Chegou o dia do aniversrio de Lorenzo. Pedi licena para fazer um bolo, pensando que no me 
deixariam aproximar-me da rancha. No entanto, me deram autorizao e dessa vez Andrs pediu que eu fizesse 
bolo suficiente para todo mundo. Como eu tinha feito o juramento, aquele foi um dia de remisso. Tirei da cabea 
todos os pensamentos de tristeza, remorsos e incerteza e mergulhei na tarefa de dar prazer a todos, como uma 
maneira de retribuir, como compensao por ter recebido tanto com a chegada de meu filho.
     Naquela noite, pela primeira vez havia meses, o sono tomou conta de mim. Sonhos de felicidade, em que eu 
corria por um campo salpicado de flores amarelas segurando Lorenzo, com trs anos, no colo, invadiram aquelas 
poucas horas de folga.
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16. O raide

     s duas horas da manh, fui fortemente sacudida por um dos guardas, que me acordou aos berros, com a luz 
da lanterna apontada para mim.
    -                De p, velha idiota! Quer morrer?
     Abri os olhos sem entender, em pnico com o pavor que pressentia em sua voz.
     Avies militares sobrevoavam rasantes o acampamento. Os guerrilheiros pegavam suas mochilas e iam 
embora correndo, deixando tudo para trs. Era uma noite escura, no se via nada, a no ser os vultos dos avies 
que pressentamos que estariam acima das rvores. Peguei instintivamente tudo o que tinha ao alcance da mo: 
minha bolsa, uma toalha, o mosquiteiro...
     O guarda uivava a plenos pulmes:
    -                Deixe tudo! Eles vo bombardear, voc no est entendendo!
     Tentava arrancar os pertences de minha mo e eu me agarrava a eles, enquanto apanhava mais umas 
coisinhas. Clara j tinha fugido. Fiz uma bola com tudo aquilo e comecei a correr na direo dos demais, 
perseguida pelas vociferaes do guarda.
     Consegui salvar os cintos de meus filhos, meu casaco e algumas roupas. Mas esqueci a Bblia.
     Cruzamos todo o acampamento e pegamos uma trilha cuja existncia eu desconhecia at ento. Tropeava a 
cada dois passos, me reaprumando como podia
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com o que estava ao alcance da mo, mas com a pele lacerada pela vegetao. Atrs de mim o guarda se irritava, 
me xingando com mais fria ainda por no haver nenhuma testemunha. ramos os ltimos e precisvamos 
alcanar o resto do grupo. Os motores dos avies militares roncavam ao redor, afastando-se, depois voltando, e 
como resultado nos afundvamos na escurido, pois o guarda no acendia a lanterna a no ser quando os avies 
tinham se distanciado. Eu conseguira, correndo, pr numa sacola as poucas coisas que salvei, mas no tinha mais 
flego e meu fardo me fazia andar mais devagar.
     O guarda enfiava a ponta do fuzil nas minhas costelas, andando atrs de mim, mas me maltratava tanto que 
eu perdia mais ainda o equilbrio e muitas vezes fiquei de gatinhas, diante da angstia de um bombardeio 
imediato. Ele estava fora de si, me acusava de fazer aquilo de propsito e me puxava pelos cabelos e pelo casaco 
para me pr de p.
     Durante uns vinte minutos de marcha, em terreno plano, consegui avanar a duras penas, como um bicho 
acossado, sem saber muito bem como. Mas o terreno mudava com as descidas ngremes e subidas difceis. Eu no 
aguentava mais. O guarda tentou pegar minha sacola, mas temi que seu objetivo fosse no me ajudar, e sim larg-
la no meio do caminho, como ameaara fazer. Portanto, agarrei-me s minhas coisinhas como  minha vida. De 
repente, sem transio, comecei a andar a passo lento, indiferente aos gritos e s ameaas. Correr? Por qu? Fugir, 
por qu? No, eu no ia mais correr, e azar o das bombas, azar o dos avies, azar o meu, eu no ia mais obedecer 
nem me submeter aos caprichos de um jovem superexcitado e em pnico.
   -                Sua idiota, vou lhe tascar uma bala na cabea para voc aprender a andar!
     Virei-me como uma fera e o encarei:
   -                Mais uma palavra e no dou nem mais um passo.
     Ele ficou surpreso e se recriminou por ter perdido as estribeiras. Preparava-se para me responder, 
empurrando-me com a coronha do fuzil, mas reagi mais rpido que ele:
   -                Proibo-o de me tocar.
     Ele estacou e ficou imvel. Compreendi que no era eu que o intimidara. Virei-me. Na trilha, Andrs vinha 
em nossa direo, a passos largos.
   -                Depressa, depressa, escondam-se na manigua, silncio total, nada de luzes, nada de movimentos.
     Fui jogada num fosso, de ccoras sobre minha sacola, pronta para ver surgirem militares a qualquer 
momento, com a boca dolorosamente seca, s voltas com uma sede mortal, me perguntando onde estaria Clara.
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     Andrs tambm ficou agachado ao meu 
lado, depois foi embora, dizendo-me, antes de 
desaparecer:
    -                Siga as recomendaes ao 
p da letra, os guardas tm instrues bem 
precisas e voc corre o risco de no estar mais 
aqui amanh.
     Assim permanecemos, at de madrugada. 
Ento, Andrs nos mandou andar 
para o vale, cortando caminho pela floresta.
    -                Esses chulos so to 
estpidos que nos sobrevoaram a noite toda e 
nem 
sequer localizaram o acampamento! No vo 
nos bombardear. Vou mandar uma 
equipe pegar tudo o que ficou l.
     E assim foi. Estvamos numa elevao. 
Pela mata cerrada, vi a nossos ps 
uma imensa savana arborizada, quadriculada de 
pastos verde-esmeralda, como se 
o campo ingls tivesse se instalado ali por 
engano, no meio do campo colombiano. Devia 
ser bom viver ali! Aquele mundo que existia no 
exterior e que me era 
proibido parecia-me irreal. E no entanto, estava 
logo ali, depois daquelas rvores 
e dos fuzis.
     Uma enorme exploso nos sacudiu. J 
estvamos suficientemente longe mas 
talvez aquilo viesse de nosso acampamento.
     Quando cruzamos com outros membros da 
tropa, eles s falavam disso.
    -                Ouviu?
    -                Ouvi, bombardearam o 
acampamento.
    -                Tem certeza?
    -                Sei l. Mas Andrs enviou 
uma equipe para reconhecimento.  quase 
certo...
    -                S bombardearam uma 
vez...
    -                No, que nada! Ouvimos 
vrias exploses. Fizeram ataques em srie.
    -                Pelo menos todos os avies 
foram embora, j tem isso de bom.
    -                 bom desconfiar. Eles 
fizeram um desembarque. H contingentes em 
terra. Teremos os helicpteros em cima de ns o 
dia todo.
    -                Esses filhos da puta, no 
vejo a hora de enfrent-los cara a cara, so 
todos 
uns covardes.
     Eu observava, calada. Os mais medrosos 
eram sempre os mais agressivos nas 
palavras.
     Paramos numa clareira minscula 
margeada por um crrego. Minha companheira 
j estava l, sentada sob uma rvore frondosa 
que dava uma sombra aconchegante. No me fiz 
de rogada, estava exausta. Dali onde estava, via 
o teto da 
casinha e o filete de fumaa azulada que 
escapava da chamin. Vozes de crianas 
brincando me chegavam de longe, como o eco 
de dias felizes perdidos em meu
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passado. Quem seriam aquelas pessoas? Podiam saber que no fundo de seu jardim a guerrilha escondia mulheres 
sequestradas?
    Uma das moas, com uniforme de camuflagem, as botas brilhando como que para uma grande parada, 
impecavelmente penteada com uma trana grossa presa num coque, aproximou-se toda sorridente com dois 
enormes pratos. Como fazia para estar impecvel depois de ter corrido a noite toda?
    Ordenaram que recomessemos a marcha. Em fila indiana, pegamos uma trilha que subia, seguindo 
novamente a crista. A guerrilha queria ir depressa, pois o barulho dos helicpteros se aproximava. Eu estava 
surpresa com a resistncia das moas, que carregavam fardos to pesados como os dos homens e andavam to 
rpido quanto eles. Uma guerrilheira, a pequena Betty, era surpreendente. Parecia uma tartaruga curvada sob um 
enorme saco duas vezes maior que ela, como debaixo de um piano. Suas perninhas se mexiam  toda para no 
ficarem para trs, e ela ainda dava um jeito de sorrir.
    Os helicpteros estavam na nossa cola. Senti o ronco dos motores em minha nuca. William, o guarda que 
me fora designado para a marcha, me intimou a acelerar o passo. Ainda que eu quisesse, no conseguiria.        
    Algum me deu uma pancada seca nas costas, que me deixou sem flego. Virei-me, indignada. William 
estava prestes a me dar outra coronhada no estmago.
   -                Merda, voc quer que eles nos matem? No est vendo que esto em cima da gente?
    De fato, acima de nossas cabeas, a sessenta metros do cho, o ventre dos helicpteros parecia roar a copa 
das rvores. Eu podia ver os ps de quem manobrava a artilharia, pendurados no vazio de cada lado do 
armamento. Eles estavam ali. Impossvel que no nos tivessem visto! Se era para morrer, preferia morrer assim, 
numa confrontao na qual teria pelo menos a chance de ser libertada. A ideia de morrer a troco de nada, 
tragada por aquela selva maldita, jogada num buraco e condenada a ser riscada da face da Terra sem que nem 
minha famlia pudesse recuperar meu corpo, me horrorizava. Queria que meus filhos soubessem que, ao menos, 
eu tinha tentado, tinha lutado, tinha feito tudo para fugir e voltar para perto deles.
    O guarda devia ter lido meus pensamentos. Armou o fuzil. Mas em seus olhos li um medo primrio, 
visceral, essencial. No pude me impedir de olhar para ele com desprezo. Ele perdeu o orgulho, ele, que 
bancava o tal o dia todo no acampamento.
   -                Corra como um coelho se lhe der na telha, no irei mais depressa!
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     Sua companheira cuspiu no cho e disse:
    -                Eu no vou morrer por causa 
dessa velha babaca! - E saiu trotando, 
desaparecendo na primeira curva.
     Minutos depois os helicpteros 
desapareceram. Ainda ouvi dois deles, mas j 
tinham dado meia-volta antes de chegarem perto 
de ns e tinham ido embora de 
vez. Fiquei furiosa. Como podiam no ter nos 
visto? Havia uma coluna inteira de 
guerrilheiros bem diante do nariz deles!
     Inconscientemente, comecei a andar mais 
rpido, frustrada e magoada, sentindo que 
tnhamos roado uma chance de libertao. No 
fim de uma longa descida, toda a tropa se reuniu 
na entrada da floresta. Mais alm havia um 
grande 
milharal, depois a floresta de novo. Andrs 
mandou preparar uma bebida em p, 
sabor laranja, com gua e acar.
    -                Beba! Isso evita a desidratao.
     No pedi que repetisse, estava encharcada 
de suor.
     Andrs explicou que atravessaramos o 
milharal em grupos de quatro. Apontou para o 
cu. Distingui, muito longe no azul, um 
minsculo avio branco.
    -                Temos de esperar que ele se 
afaste,  o avio fantasma.
     A ordem foi seguida rigorosamente. 
Atravessei em campo aberto, olhando o 
avio na vertical acima de minha cabea. 
Recriminei-me por no ter um espelho 
para tentar fazer sinais, no tinha nada brilhante 
comigo, nada com que chamar 
a ateno. Novamente eles conseguiram passar 
entre as malhas do Exrcito. Do 
outro lado, na mata, um campons desdentado e 
tostado de sol nos esperava.
    -                 nosso guia - algum cochichou 
na minha frente.
     De repente um vento frio comeou a 
soprar, penetrando na floresta como 
um arrepio. Num segundo o cu ficou cinza e a 
temperatura baixou imediatamente vrios graus. 
Como se tivessem recebido uma ordem 
peremptria, todos os 
guerrilheiros puseram as mochilas no cho, 
tiraram os grandes plsticos pretos e 
se cobriram com eles.
     Algum me passou um, no qual me enrolei 
como os vi fazer. Um segundo 
depois uma chuva diluviana caa sobre ns. 
Apesar de todos os esforos, logo 
fiquei encharcada at os ossos. Choveria assim o 
dia inteiro e toda a noite seguinte. Andaramos 
uns atrs dos outros at a aurora. Atravessamos 
a floresta 
durante horas, calados, curvados para esquivar a 
gua que o vento jogava em 
nossa cara. Depois, no crepsculo, pegamos 
uma trilha que margeava uma encosta, 
transformada agora, com a passagem da tropa, 
em completo atoleiro. A 
cada passo eu tinha de puxar minha bota enfiada 
em cinco centmetros de lama 
grossa e fedorenta. Todo mundo fazia o mesmo. 
Eu estava no limite de minhas
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foras, tiritando de frio. Samos da cobertura da mata, com suas subidas e descidas abruptas, para ir parar nas 
plancies quentes, cultivadas e habitadas. Atravessamos fazendas com ces que latiam e chamins que 
fumegavam. Pareciam nos olhar com desprezo. Chegamos justo antes do crepsculo a uma finca magnfica. A 
casa do proprietrio era construda no melhor estilo dos traficantes de droga. S o estbulo satisfaria, de longe, a 
todos os meus sonhos de habitao. Era tarde, eu estava com sede e fome, sentia frio. Meus ps estavam 
cortados e com bolhas enormes que estouraram, colando a pele nas meias encharcadas. Estava toda picada por 
piolhos minsculos que eu no via, mas sentia formigar em todo o meu corpo. A lama grudada nos dedos 
inchados e sob as unhas me cortava a pele e a fazia rachar. Eu sangrava sem conseguir identificar as 
numerosssimas feridas. Desmoronei, decidida a no mais me mexer.
    Meia hora depois, Andrs deu ordens para partirmos de novo. Estvamos novamente de p, arrastando 
nossa misria, marchando como forados na densidade da noite. No era o medo que me fazia andar, no era sob 
o efeito da ameaa que eu punha um p atrs do outro. Tudo isso me era indiferente. Era o cansao que me 
impelia a avanar. Meu crebro estava desconectado, meu corpo se deslocava sem mim.
    Antes do alvorecer, chegamos ao alto de um morro que dominava o vale. Uma chuva fina continuava a nos 
perseguir. Havia uma espcie de abrigo em terra batida, com um teto de palha. Ferney pendurou uma rede entre 
duas vigas, estendeu no cho um plstico preto e me passou minha sacola.
    - Troque de roupa, vamos dormir aqui.
    Acordei s sete da manh no laboratrio de cocana que nos tinha servido de refgio. Todo mundo j estava 
de p, e at Clara sorria: ela estava feliz por eu ter lhe passado as roupas secas que eu tinha conseguido levar no 
ltimo minuto. O dia tambm se anunciava longo e difcil, e resolvemos vestir de novo as roupas sujas e 
molhadas da vspera e guardar as secas para dormir. Queria muito tomar um banho e me levantei com a ideia 
fixa de encontrar um lugar onde pudesse fazer minha toalete. Havia uma fonte a dez metros dali. Autorizaram-
me ir at l. Passaram-me um pedao de sabo ordinrio e esfreguei o corpo e o couro cabeludo com violncia 
para tentar me desfazer dos piolhos e dos parasitas que acumulara durante a marcha. A moa que me escoltava 
insistia para que eu me apressasse, irritada pelo fato de eu ter tido a ideia de lavar o cabelo, quando tinham dado 
ordens de tomarmos um banho rpido. Mas no havia a menor pressa: quando subimos de novo para o abrigo, 
encontramos a tropa sem ter o que fazer,  espera de novas instrues.
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     O campons desdentado e descarnado da vspera 
reapareceu. Trazia uma mochila, um desses sacos que os 
ndios tecem lindamente, com duas galinhas que, I 
amarradas pelos ps e balanando, soltavam espasmos 
convulsivos. Livrou-se de sua carga com gritos de 
vitria: o caf da manh se transformaria em banquete. 
Quando a euforia passou, aproximei-me do campons e 
pedi, com uma desfaatez que eu mesma no reconhecia 
em mim, que me desse a sua mochila. Ela estava 
engordurada, fedorenta e furada. Mas para mim era um 
tesouro. Poderia pr ali dentro minhas miudezas para a 
marcha, mantendo as mos livres, e depois de lavada e 
recosturada ela me seria til para suspender as 
provises, mantendo-as longe do alcance dos roedores. 
O homem olhou para mim, surpreso, sem entender o 
valor que eu atribua  sua cesta. Entregou-a sem 
reclamar, como se em vez de um pedido acabasse de 
receber uma ordem. Agradeci com tamanha efuso e 
alegria ; que ele deu uma gargalhada, igual a uma 
criana. Aventurou-se ento em ensaiar uma 
conversinha comigo  qual eu estava respondendo com 
prazer quando a voz | de Andrs nos trouxe secamente 
de volta  ordem. Fui me sentar em meu canto e dei uma 
olhada para Andrs, surpresa ao sentir a violncia de 
seu olhar fixado no presente que eu acabava de receber. 
"No a guardarei muito tempo", pensei.
     O dia foi longo. Logo depois de um caf da 
manh consistente em que recebi, para minha 
imensa alegria, os ps da galinha, descemos de 
novo para o vale e seguimos por uma estrada que ia 
em zigue-zague pela floresta. Ferney e Jhon Janer, 
um jovem que se juntara  tropa recentemente e 
que eu achava mais esperto do que malvado, foram 
designados para nossa guarda. Pareciam radiantes e 
andavam a passos largos, falando conosco como se 
fssemos amigos. Visivelmente, o resto da tropa 
seguira um caminho diferente. Quando chegamos a 
uma encruzilhada, eu estava me arrastando, 
mancando, apoiada na lateral do p. Avistei ao 
longe, como numa miragem, o campons 
desdentado segurando pela rdea dois velhos 
pangars. Assim que nos viu, comeou a andar em 
nossa direo e desabei no cho, incapaz de fazer 
mais um gesto. Foi uma alegria rever o velho e 
poder trocar uma palavrinha com ele. Sabia que ele 
gostaria de ter feito mais.
     Instalaram-nos cada uma sobre os animais e 
partimos, trotando devagar. Os guardas corriam a 
nosso lado, segurando firmemente os cavalos pelo 
pescoo. Tnhamos de alcanar a tropa e eles 
calculavam que isso levaria a maior parte do dia. 
Pensei que, a cavalo, podiam levar o dia todo se 
quisessem, e a noite e o dia seguinte. Agradeci em 
silncio aos cus por essa sorte, consciente do que 
ganhava com isso.
     A floresta que cruzamos era diferente da selva 
cerrada em que tnhamos nos escondido durante 
todos aqueles meses. As rvores eram imensas e 
tristes, os raios
156
 



de sol s nos chegavam depois de terem atravessado uma camada espessa de galhos e folhas acima de nossas 
cabeas. A vegetao rasteira no tinha folhagem, nem samambaias, nem arbustos, s havia os troncos daqueles 
colossos tais como as pilastras de uma catedral inacabada. O lugar era estranho, como se lhe tivessem jogado um 
feitio. A correspondncia entre meu estado de esprito e aquela natureza reabriu em mim cicatrizes jamais 
fechadas por completo. E, no sossego de meu sofrimento fsico, com os ps ensanguentados suspensos no ar e 
aliviados pela ausncia de qualquer contato que os machucasse, era a dor de meu corao que despertava, 
incapaz como eu estava de fazer o luto de minha vida pregressa, to amada e agora perdida.
    A tempestade se anunciou com um trovo ali perto. O raio veio cair a poucos metros de mim, entre as 
rvores, e apavorou os cavalos. O temporal desabou. Vi os rapazes lutando com suas mochilas para delas tirar os 
plsticos, quando ns todos j estvamos pingando.
    A chuva ganhou uma fora brutal, como se algum se divertisse em nos jogar baldes de gua da copa das 
rvores. A estrada voltava a ser um atoleiro. A gua cobria quase por completo as botas dos rapazes e a lama os 
aprisionava a cada passo como se fosse uma ventosa. Tnhamos comeado a nos aproximar da tropa. Passamos 
por eles, um a um, curvados sob seus fardos, o rosto endurecido. Senti pena deles: um dia eu sairia daquele 
inferno, mas eles, por si mesmos, tinham se condenado a morrer naquela selva. No quis cruzar com seus 
olhares. Sabia bem demais que estavam nos amaldioando.
    A marcha continuou o dia todo, sob aquele temporal sem fim. Samos da cobertura das rvores e 
atravessamos fincas ricas e cheias de rvores frutferas. A chuva e o cansao nos deixavam indiferentes. Os 
rapazes no tinham fora para esticar o brao e apanhar as mangas e as goiabas que apodreciam no cho. Eu no 
me atrevia, do alto de meu cavalo, a colher as frutas ao passar, temendo irrit-los.
    Numa curva do caminho, cruzamos com crianas que brincavam pulando nas poas. Tinham posto de lado 
sacos carregados de tangerinas. E, ao nos verem chegar, por estarmos a cavalo acharam que ramos 
comandantes da guerrilha e ofereceram a todos ns frutas de seus estoques. Aceitei, agradecida.
    Ao cair da noite continuava a chover e eu tiritava, febril, enrolada num plstico que no mais me protegia 
da chuva, mas ao menos ajudava a me manter aquecida. Devamos entregar os cavalos e continuar a p. Mordi 
os lbios para no me queixar, sentindo a cada passo milhes de agulhas se enfiando sob meus ps e 
atravessando meus membros. Ainda andamos muito tempo, at uma finca ostentatria. A propriedade tinha ao 
lado uma casa majestosa, erguida em terras
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ondulantes como veludo na penumbra da noite. Guiaram-nos at um embarcadouro, onde permitiram que nos 
sentssemos. A espera se prolongou at a chegada de uma enorme chalupa com motor de ferro e espao 
suficiente para toda a tropa, o conjunto das sacolas e uma dzia de sacos de pano plastificado cheios de 
provises.
     Ordenaram que pegssemos um lugar no centro da embarcao. Andrs e Jssica instalaram-se logo atrs 
de ns, ao lado de William e Andrea, uma moa to linda quanto desagradvel, os que nos haviam escoltado 
quando estvamos sendo perseguidos pelos helicpteros. Falavam alto, de propsito para que ouvssemos.
    -                Pois , novamente nos livramos dos chulos\
    -                Se esto achando que vo recuperar a carga to facilmente, tero uma surpresa.
     Riam com ar malicioso. Eu no queria ouvi-los.
    -                Pegaram tudo o que sobrou do bombardeio e queimaram o resto. O colcho das velhas, a 
Bblia delas, todas as baboseiras que tinham juntado.
    -                Melhor assim, agora tm menos coisas para carregar!
    -                E pensar que queriam fugir a nado, essas pobres velhas. Agora vo ficar conosco durante 
anos!
    -                Quando sarem, sero avs.
     Riram s gargalhadas. Houve um silncio, depois Andrs se dirigiu a mim num tom arrogante:
    -                Ingrid, passe-me a sua mochila. Agora ela  minha.
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17. A jaula

    Navegamos dias e dias descendo rios cada vez mais imponentes. Quase sempre o deslocamento era feito 
durante a noite, ao abrigo dos olhares. De vez em quando, mas raramente, nos aventurvamos a navegar de dia, 
sob um sol de rachar. Ento eu tentava olhar ao longe, procurando o horizonte, para encher a alma de beleza, 
pois sabia que, quando protegida pelas rvores, no veria mais o cu.
    Muros de rvores elevavam-se a trinta metros acima das margens, numa formao compacta que recusava a 
luz. Deslizvamos entre elas, sabendo que nenhum ser humano tinha se aventurado ali antes, e sobre um espelho 
de gua cor de esmeralda que se abria  nossa passagem. Os rudos da selva pareciam se amplificar dentro 
daquele tnel de gua. Eu ouvia o grito dos macacos, mas no os via. Em geral Ferney se punha ao meu lado e 
me mostrava os salados. Eu escrutava a margem esperando ver algum animal mitolgico surgir, sempre em vo. 
Confessei que no conhecia o significado dessa palavra. Ele riu de mim e acabou me explicando que era o lugar 
onde as antas, as lapas e os chiguiros* iam beber gua e que os caadores sempre localizavam.
    Em compensao, ningum sabia me dizer os nomes dos milhares de pssaros que atravessavam nosso cu. 
Fiquei surpresa ao descobrir martins-pescadores, garas brancas e andorinhas, radiante de conhecer tais aves 
como se tivessem sado
* Pequenos mamferos.
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de um livro ilustrado. Os papagaios e periquitos de plumagem deslumbrante e
enganadora faziam um escarcu  nossa passagem. Voavam de seus abrigos para
logo voltar, assim que nos afastvamos, o que nos permitia admirar suas asas magnficas. Havia tambm os que 
partiam como flechas rentes  gua, ao nosso lado, 
como se apostassem corrida com nossa embarcao. Eram pssaros bem pequenininhos, de cores maravilhosas. 
s vezes eu tinha a impresso de ver cardeais 
ou rouxinis e pensava em meu av, que, de sua janela, os espiava horas a fio, e o 
compreendia assim como agora compreendia tantas coisas que antes nunca tivera
tempo de compreender.
     Um pssaro me fascinava mais que qualquer outro. Era azul-turquesa, com 
a parte inferior das asas verde fluorescente e o bico vermelho sangue. Alertei todo 
mundo com meus gritos quando o vi, no s na esperana de que algum pudesse 
me revelar seu nome, mas sobretudo pela necessidade de partilhar a viso daquela
criatura mgica.
     Essas vises que, eu sabia, ficariam gravadas para sempre em minha memria 
jamais teriam eco nas lembranas dos meus entes queridos. As boas lembranas 
so aquelas vividas com os que amamos, porque podemos rememor-las juntos. 
Pelo menos, se eu conseguisse saber o nome do pssaro, teria a sensao de poder 
lev-lo comigo. Mas, naquele caso, nada restaria como lembrana.
     Chegamos enfim ao trmino da viagem. Navegamos por um grande rio que 
deixamos para trs e subimos por um afluente secreto, cuja entrada se escondia 
sob uma vegetao densa que serpenteava caprichosamente uma pequena elevao. Desembarcamos na selva 
fechada. Sentamo-nos sobre nossas coisas enquanto, 
a grandes golpes de faco, os rapazes esculpiam o espao abrindo uma rea onde 
se ergueria o acampamento.
     Em poucas horas construram para ns uma habitao de madeira fechada 
de todos os lados e com uma abertura estreita  guisa de porta e um teto de zinco. 
Era uma jaula! Tive apreenso de entrar ali. Antecipei que aquele novo ambiente 
iria aumentar as tenses entre Clara e mim.
     Depois da minha terceira tentativa de fuga, em que Yiseth me encontrara 
perto do rio, um grupo de seis guerrilheiros, entre eles Ferney e Jhon Janer, tinham 
posto uma grade de ferro em torno de nossa jaula. De noite, fechavam-nos com o 
cadeado. Contavam, com isso, evitar qualquer nova tentativa de evaso.
     Atrs da grade metlica, a sensao de estar numa priso me fez afundar 
num desespero insustentvel. Fiquei em p durante vrios dias, rezando para 
encontrar um significado ou uma explicao a esse acmulo de infelicidade: 
"Por qu? Por qu?"
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    Ferney, que estava de guarda, se aproximou. Entregou-me um rdio pequenininho, que podia passar pelas 
grades:
   -                Tome, escute as notcias, assim pensar em outra coisa. Esconda-o. Acredite em mim, isso me 
faz mais mal do que a voc.
    Ele me emprestava o radinho  noite e eu o devolvia pela manh. Depois de ter nos trancado como ratos, 
comearam a escavar um buraco atrs de nossa jaula durante vrios dias, revezando-se. No incio, pensei que se 
esforavam para fazer uma trincheira. Depois, vendo que o buraco ia sendo feito bem fundo e que no dava a 
volta na jaula, conclu que estavam escavando um fosso para nos matar e nos jogar ali dentro. No tinha 
esquecido que depois de um ano de cativeiro as Fare haviam ameaado nos assassinar. Eu vivia num estado 
assustador de palpitao. Teria preferido que anunciassem minha execuo. A incerteza me corroa. Foi s 
quando o vaso sanitrio de porcelana chegou que compreendi, com alvio, que construam apenas uma fossa. 
Acabavam de cavar os trs metros de profundidade que lhes tinham sido encomendados. Brincavam de pular 
dentro do buraco para sair sem nenhuma ajuda, s com a fora dos braos, escalando uma parede lisa e como que 
polida  mquina. Algum teve a ideia de tambm me submeter  prova, o que recusei de imediato, sem 
apelao.
    Minha determinao teve como resultado excit-los mais ainda. Empurraram-me e me vi no fundo do 
buraco, humilhada em meu amor-prprio, mas decidida: eles tinham feito suas apostas. Todos gritavam e 
rolavam de rir, na expectativa do espetculo.
    Clara se aproximou do buraco e inspecionou o local com ar circunspecto:
   -                Ela vai conseguir! - diagnosticou.
    Eu no compartilhava de sua convico. Mas com muito esforo e sorte acabei por lhe dar razo. A alegria 
dos dois guerrilheiros que tinham apostado em mim me fazia rir. Por um instante as barreiras que nos separavam 
tinham se esfumado, e outra diviso, mais sutil, muito humana, se revelara. Havia os que no gostavam de mim 
pelo que eu representava. E havia os outros, curiosos de compreender quem eu era, mais dispostos a estender 
pontes do que a construir muros, mais clementes em seus julgamentos pois com menos necessidade de se 
justificar. Restava Clara, aliviada por ter bancado o rbitro em meu favor. Apesar das tenses que nos 
separavam, sentia-se solidria de meu xito e eu lhe era grata por isso.
    O episdio abriu um intervalo de distenso entre ns todos, o que permitiu nos prepararmos com resignao 
para a chegada de nosso primeiro Natal em cativeiro. Tnhamos de deixar correr a amargura entre os dedos, 
como a gua que no conseguimos mais reter.
    Mais que tudo, para mim era insuportvel a infelicidade que eu atribua aos
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membros de minha famlia. Era o primeiro Natal deles sem meu pai e, para completar, sem mim. De certa forma, 
sentia-me mais afortunada que eles, pois conseguia imagin-los juntos para a ceia natalina, dia de meu 
aniversrio. Nada sabiam de mim, ignorando at se eu ainda estava viva. A ideia de meu filho, ainda garoto, ou 
de minha filha adolescente supliciados pelos horrores que sua imaginao lhes fornecia sobre meu destino me 
enlouquecia.
     Para escapar desse labirinto, ocupei-me em fazer um prespio com o barro retirado da escavao da fossa, 
moldando imagens vestidas de roupas confeccionadas com folhas chatas de um gnero de cirpo tropical que 
proliferava nos pntanos ao redor. Meu trabalho atraiu a ateno das moas. Yiseth tranou uma linda guirlanda 
de borboletas, com o papel de alumnio dos maos de cigarros. Outra veio recortar comigo anjos de papelo, que 
suspendemos no telhado de zinco bem em cima do prespio. Enfim, dois dias antes do Natal Yiseth apareceu 
com um engenhoso sistema de iluminao. Ela conseguira um estoque de pequenas lmpadas das lanternas de 
bolso, que prendera num fio eltrico. Bastava fazer contato com uma pilha de rdio para ter uma iluminao de 
Natal em plena selva.
     Fiquei surpresa ao ver que eles tambm tinham decorado suas caletas para a ocasio. Alguns tinham feito 
at pinheiros de Natal com galhos enrolados em algodo da enfermaria e decorados com desenhos infantis.
     Na vspera de Natal, Clara e eu nos beijamos. Ela me deu o sabo de sua reserva. Eu fiz para ela um carto 
natalino. De certo modo ramos agora uma famlia. Como acontece com as famlias de verdade, no tnhamos 
nos escolhido uma  outra. s vezes, como naquele dia, d certa tranquilidade estar juntos. Juntamo-nos para 
rezar e entoar os villancicos, cantos tradicionais da Colmbia, ajoelhadas no cho defronte de nosso prespio 
improvisado, como se aquelas msicas pudessem nos levar para casa ainda que fosse por alguns instantes.
     Nossos pensamentos partiram bem longe. Os meus viajaram para outro espao e outro tempo, para onde eu 
tinha estado um ano antes com meu pai, minha me e meus filhos, numa felicidade que pensava ser inamovvel, 
e cuja dimenso s agora apreciava por contraste e com a tristeza que me acabrunhava.
     Perdidas em nossas meditaes, no tnhamos percebido que havia um monte de gente atrs de ns: 
Ferney, Edinson, Yiseth, El Mico, Jhon Janer, Camlon e os demais, que foram cantar conosco. Suas vozes 
possantes e afinadas enchiam a floresta e pareciam ressoar cada vez mais alto, alm das muralhas da vegetao 
espessa, rumo ao cu, mais longe que as estrelas, na direo daquele Norte mstico onde est escrito que Deus 
tem seu trono e onde eu imaginava que Ele devia nos ouvir, atento  indagao silenciosa de nossos coraes, a 
que s Ele era capaz de responder.
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18. Os amigos que vm e vo

    Tnhamos um novo recruta. Certa noite, quando acabvamos de montar o acampamento noturno perto do 
rio, uma famlia de macacos atravessou nosso espao, de galho em galho, pela copa das rvores, parando s para 
nos jogar pedaos de pau ou para fazer xixi em cima de ns, como sinal de hostilidade e demarcao de seu 
territrio. A mame com o filhote nas costas agarrava-se conscienciosa em cada galho, verificando de vez em 
quando se seu beb aguentava. William a matou. O beb caiu a seus ps e tornou-se o mascote de Andrea. A bala 
que matara a me machucara sua mo. O bichinho chorava como uma criana e se lambia, sem entender o que 
tinha lhe acontecido, estando agora amarrado por uma corda a um arbusto perto da caleta de Andrea. Comeou a 
chover e vi o macaquinho tiritando, sozinho, com uma cara infeliz, debaixo da chuva. Eu tinha conseguido 
guardar nas minhas coisas um vidrinho de Sulfacol, que levava comigo no dia do sequestro. Tomei a deciso de 
cuidar do beb macaco. O bichinho uivava de pavor, puxando a corda com toda a fora, quase se estrangulando. 
Aos poucos consegui pegar sua mozinha, toda preta e suave como a de um ser humano em miniatura. Cobri a 
ferida com o p e lhe fiz um pequeno curativo em volta do pulso. Era uma pequena fmea. Foi batizada de 
Cristina.
    Ao nos instalarmos no acampamento da jaula, pedi autorizao para dar bom-dia a Cristina a cada dois dias. 
Tinha que cruzar todo o acampamento. Ela estava sempre presa a uma rvore, e quando me via chegar, exultava 
de alegria. E
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eu sempre guardava uma comidinha do almoo para lhe dar. Ela a arrancava de minhas mos e fugia para comer, 
de costas para mim.
     Certa manh, ouvi Cristina dar gritos violentos. O guarda me explicou, rindo, que estavam lhe dando um 
banho porque ela andava fedorenta. Vi quando veio correndo, arrastando a corda e dando gemidos de tristeza. 
Agarrou-se violentamente em minha bota, olhando atrs de si para ver se no a seguiam. Trepou em mim at o 
pescoo e acabou dormindo com o rabo enrolado em meu brao para no cair.
     Eles tinham cortado seu cabelo com um corte militar que chamavam la mesa e que a deixava com a cabea 
achatada, e a mergulharam na gua para lav-la bem. Aventurei-me a comentar que bichos no precisavam se 
lavar na gua como ns e que tinham um leo no corpo que garantia sua higiene e os protegia contra os 
parasitas. Andrea nada respondeu. Aquele banho se tornou uma tortura diria. Ela resolvera que a macaquinha 
precisava se habituar a se lavar como qualquer ser humano. Em resposta, toda manh Cristina esperava a hora do 
suplcio fazendo coc por todo lado, o que deixava Andrea e William histricos. Quando conseguia escapar, a 
macaquinha se refugiava perto de mim. Eu a afagava, conversava com ela e lhe ensinava coisas. Quando Andrea 
vinha busc-la, comeava a berrar e no largava minha camisa. Eu tinha de fazer um enorme esforo para 
esconder minha tristeza.
     Um dia, o homem que trazia os mantimentos numa chalupa a motor trouxe dois cachorrinhos que Jssica 
desejava amestrar. Nunca mais vi Cristina. Uma noite, Andrea veio me explicar que William e ela tinham ido 
para a floresta, onde a haviam soltado. Fiquei muito triste pois tinha muito afeto por Cristina. Mas me senti 
aliviada por ela estar livre e olhava para o cu toda vez que ouvia macacos, na esperana de rev-la.
     Uma noite, novamente s voltas com a insnia, ouvi uma conversa que me gelou o sangue. Os guardas 
brincavam, dizendo que Cristina tinha virado a melhor refeio dos cachorros de Jssica.
     A histria de Cristina me abalou profundamente. Recriminei-me muito por no ter feito mais para ajud-la. 
No podia me dar ao luxo de me afeioar, pois isso era dar  guerrilha a possibilidade de me pressionar e 
agravar minha alienao.
     Talvez fosse por isso que me esforava em manter distncia de todos, em especial de Ferney, que 
costumava ser to gentil.
     Depois de minha fuga fracassada, ele fora me ver. Estava muito desanimado com o tratamento que seus 
colegas me impingiam.
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   -                Aqui tambm existem pessoas boas e pessoas ms. Mas voc no deve 
julgar as Fare em funo do que so as pessoas ms.
    Toda vez que Ferney estava de planto, dava um jeito para iniciar uma conversa em voz alta, que todo o 
acampamento podia acompanhar. Seu tema preferido era "A poltica" Reivindicava a luta armada dizendo que 
havia na Colmbia 
gente demais na misria. Eu lhe respondia que as Fare nada faziam para combater 
a pobreza e que, ao contrrio, sua organizao se tornara uma engrenagem importante do sistema que ela 
pretendia combater, pois era fonte de corrupo, trfico 
de drogas e violncia.
   -                Agora voc faz parte dele - eu argumentava.
    Durante nossas conversas, ele me contou que nascera pertinho do lugar 
onde a guerrilha havia me sequestrado. Vinha de uma famlia muito pobre. Seu 
pai era cego e sua me, de origem camponesa, fazia o que podia num pedacinho 
de terra. Todos os seus irmos tinham se envolvido com a subverso. Mas ele 
amava o que fazia. Aprendia coisas, tinha uma carreira pela frente e fizera amigos 
na guerrilha.
    Uma tarde, me levou para treinar na academia que Andrs mandara construir na entrada do acampamento. 
Havia uma pista de jogging, barras paralelas, 
uma barra fixa, um aro para eles se exercitarem nos saltos perigosos e uma passarela a trs metros do cho para 
trabalhar o equilbrio. Tudo isso fora feito a mo, 
descascando rvores jovens e fixando as barras em troncos resistentes, com cips. 
Mostrou-me como saltar da passarela com uma boa recepo no solo para evitar 
esmagar o tornozelo, o que fiz unicamente para impression-lo. Em compensao, 
fui incapaz de segui-lo quando ele fazia abdominais ou exerccios de resistncia. 
Mas o derrotava em certas acrobacias e nos exerccios de flexibilidade. Andrs 
juntou-se a ns e deu uma demonstrao de fora que confirmava os anos de 
treinamento. Pedi permisso para usar a academia de modo regular e ele recusou. 
Aceitou, porm, que eu participasse do treinamento da tropa, que comeava toda 
madrugada, s quatro e meia. Dias mais tarde, mandou construir perto da jaula 
barras paralelas para que Clara e eu pudssemos us-las.
    Ferney interviera em nosso favor. Agradeci-lhe. Ele respondeu:
   -                Se a gente encontra as palavras certas e faz a pergunta no momento certo, 
tem certeza de conseguir o que quer.
    Uma noite, quando eu acabava de ter problemas com Clara, Ferney se aproximou da grade e disse:
   -                Voc sofre demais. Precisa tomar distncia disso, do contrrio tambm vai 
enlouquecer. Pea que eles separem vocs. Pelo menos ficar em paz.
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     Ele era muito jovem, devia ter dezessete anos. Mas seus comentrios me deixaram pensativa. Havia nele 
uma generosidade de alma e uma retido pouco comuns. Conquistou meu respeito.
     Entre todas as coisas que eu tinha perdido no dia do raide estava meu tero, que eu tinha confeccionado 
com um pedao de linha que encontrara no cho. Resolvi fazer outro arrancando os botes do casaco militar que 
tinham me dado e usando pedaos de fio de nilon que sobraram dos cintos.
     Era um bonito dia do ms de dezembro, a estao seca na selva e a melhor do ano. Uma brisa morna 
acariciava as palmas, enfiando-se entre as folhagens, e chegava a ns trazendo uma sensao de quietude que 
nos era rara.
     Eu tinha me instalado fora da jaula,  sombra, e tecia com aplicao, pensando em terminar o tero naquele 
mesmo dia. Ferney estava de guarda e pedi-lhe para cortar uns pedacinhos de madeira a fim de fazer um 
crucifixo para o tero.
     Clara tinha aulas de tecelagem de cintos com El Mico, que de vez em quando passava l para avaliar seu 
progresso. Assim que seu professor saiu, ela se levantou, o rosto tenso, ao ver que Ferney me trazia o crucifixo. 
Ela largou seu trabalho e se lanou contra ele como se quisesse arrancar seus olhos:
    -                E a? No est gostando do que eu estou fazendo? Ande, diga!
     Ela era muito mais alta, e numa atitude de provocao inclinou o torso para frente, obrigando Ferney a 
levar a cabea para trs para no encostar nela. Ele pegou o fuzil, devagar, a fim de que Clara ficasse fora de seu 
alcance e foi embora recuando, com muita precauo, enquanto dizia:
    -                Sim, sim, gosto muito do que voc est fazendo, mas estou de guarda, no posso ir ajud-la 
agora!
     Minha companheira o perseguiu desse jeito por uns quinze metros, provocando-o, empurrando-o com seu 
corpo para a frente, e ele recuando, a fim de evitar qualquer contato fsico. Andrs, avisado pela tropa, se 
aproximou e deu ordem para que voltssemos para a jaula. Voltei na mesma hora, calada. Maturidade no tinha 
nada a ver com idade. Admirei o autocontrole de Ferney. Ele tremia de raiva, mas no respondeu.
     Quando lhe contei minhas reflexes, ele me disse:
    -                Quanto a gente est armado, tem uma grande responsabilidade perante os outros. No 
podemos nos enganar.
     Eu tambm podia escolher minhas reaes. Mas costumava me enganar. No era a vida em cativeiro que 
me tirava a possibilidade de agir certo ou errado, alis a noo de bem e de mal j no era a mesma. Havia uma 
exigncia superior que no dependia dos critrios dos outros, pois meu objetivo no era agradar ou obter
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apoios. No. Eu sentia que precisava mudar, no para me adaptar  ignomnia, mas para aprender a ser uma 
pessoa melhor.
    Quando estava tomando a bebida quente sempre servida, vi acima de minha cabea um raio azul e vermelho 
cruzando a folhagem. Apontei para o guarda o extraordinrio guacamaya que acabava de pousar a alguns metros 
acima de ns. Era um imenso papagaio paradisaco de cores vivas, que do alto de seu poleiro nos olhava 
intrigado, inconsciente de sua extrema beleza.
    Para qu! O guarda soou o alerta e Andrs se precipitou na mesma hora com seu fuzil de caa. Era uma 
presa fcil, no havia nenhuma proeza em matar aquele bicho suntuoso e ingnuo. Um segundo depois seu corpo 
inerte jazia no cho, num amontoado de penas azuis e laranjas espalhadas por todo lado.
    Interpelei Andrs. Por que tinha feito algo to intil e estpido?
    Ele me respondeu irado, usando as palavras como uma metralhadora:
   -                Mato o que quero! Mato tudo o que se mexe! Em especial os porcos e as pessoas iguais a 
voc!        
    Houve represlias. Andrs sentiu-se julgado e mudou abruptamente de comportamento. Tnhamos de ficar 
no mximo a dois metros de distncia da jaula, e era proibido ir  rancha ou andar pelo acampamento. O pssaro 
acabou no buraco do lixo e suas belas penas azuis se arrastaram semanas a fio pelo acampamento, at que, com 
as novas chuvas, a lama as enterrou de vez. Tomei a deciso de ser prudente e me calar. Eu me observava como 
jamais tinha feito antes, compreendendo que os mecanismos de transformao espiritual demandavam uma 
constncia e um rigor que eu tinha o dever de conquistar. Precisava me vigiar.
    Os dias andavam quentes. Fazia semanas que no chovia. Os riachos estavam secos e a gua do rio em que 
tomvamos banho tinha baixado at o meio. Os jovens organizavam partidas de polo aqutico na gua com as 
bolas que recuperavam dos desodorantes roll-on. Pareciam bolas de pingue-pongue, bem menores, e se perdiam 
facilmente na gua. As batalhas para apanh-las viravam pelejas sempre divertidas. Fui convidada a juntar-me a 
eles. Passamos algumas tardes brincando como crianas. At que o tempo mudou e o humor de Andrs tambm.
    Com as chuvas chegaram as ms notcias. Uma noite, Ferney veio falar comigo atravs da grade. Ia ser 
transferido. Andrs via com maus olhos o fato de que ele sempre tomava minha defesa, acusando-o de ser gentil 
demais comigo. Ele disse, com o corao partido:
   -                Ingrid, lembre-se sempre do que vou lhe dizer: quando lhe fizerem mal,
167
 



responda com o bem. Nunca se rebaixe, nunca responda aos insultos. Saiba que o silncio ser sempre sua 
melhor resposta. Prometa-me que vai ser prudente. Um dia vou v-la na televiso, quando lhe devolverem a 
liberdade. Quero que esse dia chegue. Voc no tem o direito de morrer aqui.
     Sua partida me deixou dilacerada. Porque, apesar de tudo o que nos separava, eu tinha encontrado nele um 
corao sincero. Sabia que naquela selva abominvel precisava me distanciar de tudo para evitar mais 
sofrimentos. Mas tambm comeava a pensar que na vida vale a pena suportar certos sofrimentos. A amizade de 
Ferney aliviara meus primeiros meses de cativeiro e, sobretudo, o face a face sufocante com Clara. Sua partida 
obrigou-me a mais disciplina e resistncia moral. Vi-me ainda mais s.
168
 



19. Vozes de fora

    O rdio que Clara quebrara no funcionava direito. Agora, os nicos programas que conseguamos ouvir 
eram uma missa dominical transmitida ao vivo de San Jos dei Guaviare, capital de um departamento da 
Amaznia, e uma estao de msicas populares que os guerrilheiros adoravam e com a qual eu implicava cada 
vez mais.
    Certa manh, os guardas me chamaram com urgncia porque tinham anunciado que minha filha falaria no 
rdio. Em p diante da coleta, ouvi a voz de Mla- nie. Estava surpresa com a clareza de seu raciocnio e a 
qualidade de sua expresso. Acabava de fazer dezessete anos. O orgulho de ser sua me foi mais forte que a 
tristeza. Lgrimas correram em minhas faces na hora em que eu menos esperava. Voltei para a jaula, habitada 
por uma grande paz.
    Outra noite, quando j estava deitada no meu canto, sob o mosquiteiro, ouvi o papa Joo Paulo pedindo 
nossa libertao. Era uma voz inconfundvel e que significava tudo para mim. Agradeci aos cus, no tanto por 
achar que os chefes das Fare pudessem se emocionar com seu apelo, mas sobretudo porque sabia que seu gesto 
aliviaria o fardo de minha famlia e os ajudaria a carregar nossa cruz.
    Entre as pouqussimas bias que me lanaram nesse perodo, uma me encheu de esperana de conseguir 
reaver minha liberdade: a de Dominique de Villepin. Tnhamos nos conhecido quando entrei na faculdade de 
cincias polticas e no nos revimos por mais de vinte anos. Em 1998, Pastrana, antes de tomar posse
169
 



como chefe de Estado, resolveu ir  Frana: 
queria assistir  Copa do Mundo de futebol. 
Soube que Dominique tinha sido nomeado 
secretrio-geral do palcio do Eliseu* e propus a 
Pastrana que lhe telefonasse. Foi assim que ele 
entrou em contato com Dominique. Ele no 
tinha mudado, sempre generoso e atento aos 
outros. A partir de ento, quando eu passava por 
Paris, no deixava de lhe telefonar. "Voc 
precisa escrever um livro, seu combate precisa 
existir aos olhos do mundo", ele me dissera. Eu 
tinha seguido seu conselho e escrito Corao 
enfurecido.
     A coisa aconteceu uma noite, na hora do 
lusco-fusco, quando eu me preparava para 
guardar meu trabalho. O guarda j balanava as 
chaves do cadeado 
para nos assinalar a hora de nossa clausura. Na 
caleta mais prxima, um rdio no 
parara de chiar a tarde toda. Eu tinha aprendido 
a me abstrair do mundo exterior 
para viver no silncio e ouvir sem escutar. Parei 
de repente. Era um som vindo 
de outro mundo, de outra poca: reconheci a voz 
de Dominique. Dei meia-volta, 
corri entre as caletas e fui grudar o ouvido no 
aparelho que estava balanando preso numa 
estaca. O guarda berrou atrs de mim, para que 
eu voltasse para a jaula. 
Intimei-o a se calar. Dominique se expressava 
num espanhol perfeito. Nada do 
que dizia parecia ter relao comigo. Intrigado 
com minha reao, o guarda tambm foi grudar 
o ouvido no aparelho. A locutora dizia: "O 
ministro das Relaes 
Exteriores da Frana, Dominique de Villepin, 
em viagem oficial  Colmbia, quis 
expressar o compromisso de seu pas com o 
retorno em vida, no prazo mais breve, 
da franco-colombiana e de todos os refns 
que..."
    -                Quem ? - perguntou o 
guarda.
    -                Meu amigo - respondi, 
emocionada, porque o tom de Dominique traa 
a dor que nossa situao lhe causava.
     A notcia se espalhou no acampamento 
como rastilho de plvora. Andrs 
veio escutar o noticirio. Quis saber por que eu 
dava tanta importncia a essa 
informao.
    -                Dominique de Villepin 
veio  Colmbia lutar por ns. Agora eu sei que 
a 
Frana jamais nos abandonar!
     Incrdulo, Andrs me olhava. Era 
absolutamente impermevel s noes de 
grandeza ou de sacrifcio. Para ele, os nicos 
dados a reter eram que eu tinha um 
passaporte francs e que a Frana - pas do qual 
tudo ignorava - queria negociar nossa libertao. 
Ele via interesses onde eu via princpios.
* Cargo equivalente a chefe da Casa Civil da 
presidncia da Repblica no Brasil. (N. T.)
170
 



    Depois dessa interveno de Dominique, tudo mudou. Para o bem e para o 
mal. Meu estatuto de prisioneira sofreu uma evidente transformao. No s diante da guerrilha, que 
compreendia que seu butim se valorizara. Mas tambm diante 
dos outros. A partir desse momento os rdios fizeram questo de martelar minha 
condio de "franco-colombiana", ora como uma vantagem quase indecente, ora 
com uma ponta de ironia, mas no mais das vezes com a preocupao de mobilizar 
os coraes e sensibilizar as mentes. De fato, eu tinha dupla nacionalidade: criada 
na Frana, envolvera-me na poltica colombiana para lutar contra a corrupo. 
Sempre havia me sentido em casa tanto na Colmbia como na Frana.
    Mas era sobretudo nas relaes com meus futuros companheiros de infortnio que o apoio da Frana teria 
repercusses profundas. "Por que ela, e no ns?" 
Foi o que entrevi durante uma discusso com Clara sobre a avaliao que fazamos 
das chances de sermos soltas.
   -                Voc no tem do que se queixar! Voc, pelo menos, tem a Frana, que luta 
por voc - ela me dissera com amargura.
    O Ano-Novo comeou com uma surpresa. Tnhamos visto chegar o novo 
comandante da Frente 15, aquele que substitura El Mocho Csar depois de sua 
morte. Viera escoltado por uma morena alta investida de uma misso sensvel.
   -                Vim lhe transmitir uma grande notcia - disse ela com um sorriso de orelha a orelha. - Vocs 
esto autorizadas a enviar uma mensagem s suas famlias!
    Estava com a cmera na mo, pronta para nos filmar. Olhei-a de cima, inibida e distante. O que nos 
anunciava no era um servio nem uma grande notcia. 
Lembrei-me de como tinham vergonhosamente truncado minha primeira prova 
de sobrevivncia. Haviam cortado as partes em que eu descrevia nossas condies 
de deteno, as correntes que nos faziam carregar 24 horas por dia, bem como a 
declarao de gratido s famlias dos soldados mortos na operao desencadeada
imediatamente depois de nossa captura para nos libertar.
   -                No tenho nenhuma mensagem para enviar. Mesmo assim, obrigada.
    Dei as costas e voltei para a jaula, seguida por Clara, que me segurava pelo
brao, furiosa com minha resposta.
   -                Escute aqui, se voc quer agir assim, aja. No precisa de mim para enviar 
uma mensagem  sua famlia. Alis, voc deveria enviar, seria muito bom que enviasse.
    Ela no me largava. Fazia questo de saber por que eu me recusava a mandar 
uma prova de sobrevivncia.
171
 



    -                 muito simples. Eles me mantm prisioneira, tudo bem, no posso fazer nada. O que no 
admito  que, alm disso, se apropriem de minha voz e de meus pensamentos. No esqueci o tratamento que nos 
deram na ltima vez. Dos vinte minutos que gravamos, enviaram dez, escolhendo arbitrariamente o que lhes 
arranjava. Ral Reyes faz declaraes falando no meu lugar.  inadmissvel. No me presto s palhaadas deles.
     Aps uma longa pausa, Clara se dirigiu  morena alta:
    -                Eu tambm no tenho mensagem para enviar.
     Dias mais tarde, uma bela manh, chegou Andrs, em meio a uma grande excitao.
    -                Tem algum da sua famlia que quer lhe falar pelo rdio.
     Eu jamais tinha acreditado que isso fosse possvel. Haviam instalado uma mesa com o aparelho, debaixo 
uma montagem sofisticada de cabos grossos arrumados em pirmide. O tcnico de rdio, um jovem guerrilheiro 
louro de olhos claros que eles chamavam de Camaleo, repetiu uma srie de cdigos e mudou as frequncias.
     Uma hora depois, me passou o microfone.
    -                Fale! - disse Camaleo.
     Eu no sabia o que dizer.
    -                Al!
    -                Ingrid?
    -                Sim.
    -                Bem, Ingrid, vamos p-la em contato com algum importante, que vai lhe falar. Voc no 
ouvir a voz dele, repetiremos as perguntas e lhe transmitiremos as suas respostas.
    -                Pode prosseguir.
    -                Para verificar sua identidade, a pessoa quer que voc lhe d o nome de sua amiga de infncia 
que mora no Haiti.
    -                Quero saber quem  meu interlocutor. Quem faz essa pergunta?
    -                Algum ligado  Frana.
    -                Quem?
    -                No posso responder.
    -                Bem. Ento tambm no posso lhe responder.
     Senti-me manipulada. Por que no davam a identidade de meu interlocutor? E se fosse uma montagem para 
obter informaes que usariam depois contra ns? Durante alguns minutos eu tinha de fato acreditado na 
possibilidade de ouvir a voz de mame, de Mlanie ou de Lorenzo...
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20. Uma visita de Joaquin Gomez

    Semanas mais tarde, quando eu comeava a confeccionar o quarto cinto, com o projeto de tecer um para 
cada membro de minha famlia, ouvi o barulho do motor anunciando a chegada de mantimentos. A debandada 
que se produzira no acampamento, todos procurando se arrumar, vestir o uniforme, se pentear, me levou a 
pressentir que, junto com as provises, um figuro acabava de chegar. Era loaqun Gmez, chefe do Bloco Sul, 
membro adjunto do Secretariado, a mais alta autoridade da organizao que eles j tinham encontrado! Era da 
regio de La Guajira, e tinha a pele escura dos ndios wayu, do norte da Colmbia.
    Ele atravessou o acampamento a passos largos, as costas curvadas como fazem esses homens que carregam 
responsabilidades muito pesadas, e me abriu os braos vindo em minha direo, antes de me beijar longamente, 
como se eu fosse uma velha amiga.
    Eu estava estranhamente emocionada em v-lo. A ltima vez em que tnhamos nos encontrado, no debate 
televisionado dos candidatos presidenciais, fora em presena dos negociadores do governo e dos membros das 
Fare durante o processo de paz de Pastrana, justamente em San Vicente dei Cagun, quinze dias antes de meu 
sequestro. De todos os membros do Secretariado, era o meu preferido. Mostrava-se sempre relaxado, sorridente, 
afvel, engraado at, longe daquela atitude sectria e carrancuda de praxe entre os comunistas colombianos da 
linha stalinista a que as Fare mostravam fidelidade.
173
 



     Mandou levarem duas cadeiras e sentou-se 
comigo nos fundos da jaula, sob 
a sombra de uma imensa ceiba, verso 
amaznica do baob africano. Tirou do 
bolso s escondidas uma caixa de castanhas de 
caju e a colocou, sem cerimnia, 
em minhas mos, sabendo que isso me daria 
prazer. Ria de minha alegria e, como 
para me surpreender ainda mais, perguntou se 
eu gostava de vodca. Ainda que no 
fosse o caso, eu diria sim: na selva no se 
recusa. Deu instrues para que fossem 
vasculhar em sua bagagem, e uma garrafa de 
Absolut de limo verde veio finalmente 
aterrissar em minhas mos. Era um incio de 
conversa promissor. Bebi com 
parcimnia, pois desconfiava dos efeitos que o 
lcool podia ter em meu organismo 
subalimentado.
    -                Como vai?
     Dei de ombros, sem perceber. Gostaria de 
ser mais corts, mas para que responder o que 
era to evidente?
    -                Quero que me conte tudo - 
continuou, sentindo que eu me continha.
    -                Quanto tempo voc pretende 
ficar entre ns?
    -                Partirei amanh. Quero ter 
tempo para determinar as coisas no 
acampamento, e, sobretudo, quero que a gente 
converse.
     De imediato comeamos a faz-lo. Ele 
queria entender por que a Frana se 
interessava por mim e por que a ONU desejava 
intervir na negociao para nossa 
libertao.
    -                De qualquer maneira, no 
faremos nada com a ONU. So agentes dos 
gringos!
     Seu comentrio me surpreendeu. Ele no 
sabia nada da ONU.
    -                Vocs deveriam aceitar os 
bons ofcios da ONU.  um parceiro 
indispensvel num processo de paz...
     Ele caiu na risada e retrucou:
    -                So espies! Assim como os 
americanos que acabamos de capturar.
    -                Quem so eles? Voc os 
viu? Como vo?
     Eu tinha ouvido a notcia no rdio. Trs 
americanos que sobrevoavam um 
acampamento das Fare tinham sido pegos como 
refns alguns dias antes.
    -                Esto em plena forma, so 
uns grandalhes fortes. Uma temporadazinha 
conosco vai lhes fazer muito bem! O camarada 
Jorge os mantm vigiados pelos 
homens mais baixinhos que temos. Nada como 
uma lio de humildade para lembrar a eles que 
o tamanho no  proporcional  coragem!
     Ele caiu na risada de novo. Havia em suas 
palavras um sarcasmo que me feriu. Eu sabia 
que aqueles homens sofriam. Joaquin deve ter 
sentido minha reserva, 
pois acrescentou:
174
 



   -                De qualquer maneira,  
bom para todo mundo que os americanos 
pressionem Uribe para conseguir a libertao 
dos gringos, e voc ficar livre mais 
depressa.
   -                Vocs se enganaram a 
meu respeito, esto prestando um grande 
servio a 
todos os que me achavam incmoda demais 
para o sistema. O establishment no 
mover nem um dedinho para me tirar daqui.
    Joaquin me olhou muito tempo, com uma 
melancolia que me deixou condoda de minha 
prpria sorte. Apesar do calor, eu comeava a 
tiritar.
   -                Ande, venha, vamos dar 
uma voltinha peripattica!
    Pegou-me pelos ombros e arrastou-me para 
o lado da pista de jogging, rindo 
com uma cara travessa.
   -                Mas de onde voc tirou 
isso? Peripattica! - perguntei, incrdula.
   -                O qu? Acha que sou 
analfabeto? Minha pobre moa, li todos os 
clssicos 
russos! Lembre-se de que passei pela 
Lumumba!*
   -                Muito bem, tovarichl** 
Agradeamos a Aristteles, pois realmente ando 
com vontade de desabafar. E com todos os seus 
guardas ao redor  impossvel!
    Afastamo-nos tranquilamente, seguindo a 
trilha arenosa da pista de atletismo. Andamos 
durante horas, dando voltas e voltas pela 
mesma pista, at o crepsculo. Contei-lhe tudo. 
Tudo o que soframos nas mos daqueles 
homens insensveis e quase sempre cruis, as 
constantes humilhaes, o desprezo, os castigos 
estpidos, os assdios, o cime, o dio, o 
machismo, esses detalhes do cotidiano 
que envenenavam minha vida, a cada dia mais 
numerosas proibies de Andrs, a 
falta de comunicao e de informao em que 
vivamos, os abusos, a violncia, a 
mesquinharia, a mentira.
    E narrei-lhe at os detalhes estpidos, 
como a histria dos ovos daquele galinheiro que 
Andrs mandara construir defronte da nossa 
jaula, para zombar de 
ns, e que eles comiam diariamente e cujo 
cheiro vindo da rancha comichava nossas 
narinas toda manh sem que jamais tivssemos 
recebido um s ovo. Contei 
tudo, ou quase. Pois para mim era simplesmente 
impossvel evocar certas coisas.
   -                Ingrid, vou fazer de tudo 
para melhorar as condies em que voc vive. 
Dou-lhe minha palavra. Mas agora precisa me 
dizer sinceramente por que se recusa a gravar 
uma prova de sobrevivncia.
* Universidade comunista Patrice Lumumba, em 
Moscou, assim chamada em homenagem a uma das 
principais figuras da independncia do Congo.
** Camarada. (N. T.)
175
 



     Joaquin Gmez veio me buscar na jaula na manh seguinte. Tinha dado ordens de matar galinhas e na 
rancha os cozinheiros tratavam de prepar-las au pot, o que me fez salivar a manh toda. Queria que 
almossemos juntos, com Fabian Ramirez, seu lugar-tenente, que eu tinha visto muito pouco pois ele se 
ocupara exclusivamente de Clara. Eu j o tinha visto, quando, antes de meu sequestro, conversara com Manuel 
Marulanda. Era um rapaz de estatura mdia, louro e de pele branco-leite, o que o fazia sofrer tremendamente 
com a exposio contnua ao sol implacvel da regio.
     Deduzi que no devia viver protegido como ns, e que provavelmente devia se deslocar muito de barco 
pelos inmeros rios da Amaznia.
     Quando Joaquin veio me ver, estava com o ar preocupado.
    -                Sua companheira lhe falou do pedido que nos fez?
     Eu no tinha ideia do que ele falava. Na verdade, Clara e eu nos comunicvamos pouco.
    -                No, no sei de nada. De que se trata?
    -                Escute,  algo muito delicado, ela reivindica seus direitos de mulher, fala de seu relgio 
biolgico, que no teria tempo de se tornar me, em suma, creio que deveramos conversar sobre isso antes que 
eu submeta o pedido ao Secretariado.
    -                Joaquin, agradeo suas providncias. Mas quero ser muito objetiva sobre isso: no tenho 
nenhuma opinio a dar. Clara  uma mulher adulta. Sua vida privada s diz respeito a ela mesma.
    -                Bem, se acha que no tem nada a dizer, eu respeito. Em compensao, quero que ela repita 
diante de ns dois o que disse a Fabian. Portanto, vou lhe pedir que me acompanhe.
     Sentamo-nos numa mesinha e Fabian foi buscar Clara, que continuava na jaula. Ela se sentou a meu lado, 
de frente para Fabian e Joaquin, e repetiu palavra por palavra o que Joaquin tinha me dito. Era bvio que 
Joaquin fazia questo no s de que eu fosse informada mas tambm de que servisse de testemunha.
     O pedido de Clara me deixou perplexa. Conclu que tinha uma responsabilidade: conversar com ela. 
Perguntei-me qual seria o conselho de meu pai se eu pudesse consult-lo. Esforcei-me para lhe falar com a 
maior sinceridade possvel, fazendo tbula rasa de todas as dificuldades que tnhamos encontrado na nossa vida 
cotidiana, para lhe expor uma reflexo desinteressada, que a ajudasse a avaliar corretamente as consequncias de 
seu pedido. Ns duas estvamos acuadas num destino terrvel. Cada uma de seu lado, apelramos para os 
recursos psicolgicos
176
 



que tnhamos ao alcance da mo para continuar a viver. Eu me servia de uma enorme reserva de recordaes - 
dando graas por ter acumulado anos a fio uma inacreditvel felicidade - e da fora que tirava de meus filhos. 
Sabia que jamais renunciaria  minha luta para voltar viva ao lar, porque eles me esperavam.
    O caso de Clara era diferente. No havia nada que a retivesse em seu passado. Mas eu estava convencida 
tambm de que seu plano era insensato. Fiz o possvel para encontrar as palavras certas e o tom adequado, no 
queria mago-la. Fiz a lista de todos os motivos que, a meu ver, poderiam dissuadi-la de insistir naquele pedido, 
falando sobre a possibilidade que ela teria, quando libertada, de adotar uma criana, evocando como seria a vida 
de um beb nascido em condies to precrias, sem saber se as Fare iriam aceitar libertar seu filho junto com 
ela quando chegada a hora. Como ltimo recurso, argumentei como gostaria que falassem comigo ou com a 
minha filha. Ela escutou atentamente cada uma de minhas palavras. "Vou pensar", concluiu afinal.
    Joaquin veio me ver no fim da tarde. Estava preocupado com essa histria de prova de sobrevivncia. 
Pressenti que estava sob presso e que sua organizao devia ter um plano que dependia de que soubessem que 
eu estava viva.
   -                Se pode me garantir que a totalidade de minha mensagem ser entregue  minha famlia, que 
vocs no vo suprimir nada, ento poderemos voltar a conversar.
   -                Bem, no lhe prometo nada. O que posso dizer de antemo  que haver regras do jogo. Voc 
no poder mencionar lugares, no poder dar os nomes dos que a guardam, no poder fazer referncias s 
suas condies de deteno, pois o Exrcito, por deduo, poderia encontr-la.
   -                Sou prisioneira, mas ainda posso dizer no.
    Um diabo passou em seus olhos. Claro, eles tinham os meios de me filmar sem meu consentimento. 
Compreendi que ele pensava nisso e acrescentei:
   -                Vocs no faro isso... Seria de pssimo gosto... E mais cedo ou mais tarde isso se voltaria 
contra a sua organizao.
    Ele me beijou afetuosamente e disse:
   -                No se preocupe. Estou de olho em voc. Enquanto eu estiver aqui, h coisas que no deixarei 
acontecer.
    Dei um sorriso triste, ele estava muito longe e muito alto na hierarquia para poder me proteger de verdade. 
Era inacessvel, assim como eu era inacessvel a ele por causa da distncia e do bloqueio de seus subordinados. 
Ele tambm sabia. J
177
 



estava indo embora, eu j o via afastar-se as costas curvadas assim como tinha chegado. Ia sumir de minha 
viso quando de repente se virou e disse:
    -                Pensando bem, acho que o melhor  que eu mande fazer uma casinha para cada uma, o que 
acha?
     Suspirei, isso queria dizer que nossa liberdade no estava prevista para to cedo. Ele compreendeu meu 
pensamento e antes que eu respondesse me disse, gentil:
    -                Bem, como diz Ferney, pelo menos voc viver em paz!
     Meu Deus, me dava grande satisfao ter notcias de Ferney. Meu rosto se iluminou:
    -                Mande um abrao para ele.
    -                Mandarei, prometo!
    -                Ele est com voc?
    -                Est.
     Como prometera, Joaquin mandou construir duas casas separadas a uma distncia razovel entre elas e sem 
vis--vis. O modelo era idntico  casa de madeira que j tnhamos tido, mas menor. Eu tinha um quarto com 
porta de madeira que podia fechar e que nunca estava com cadeado. Portanto, podia me isolar sem ter a 
impresso de estar presa. Dividamos o banheiro, onde instalaram um vaso sanitrio de porcelana, no meio de 
um lugar ermo, dentro de um cubculo com muros de palmeiras e fechado com o pano de um saco de arroz, 
cortado no sentido do comprimento. Havia tambm uma grande cisterna de plstico, que eles enchiam com uma 
bomba que trazia gua do rio e nos permitia tomar banho longe dos olhares indiscretos e na hora que nos desse 
vontade.
     Finalmente eu tinha paz. Joaquin veio ver a casa terminada e disse aos guardas, na minha frente:
    -                Aqui, Ingrid est em casa. Nenhum de vocs tem o direito de pr o p ali dentro sem 
autorizao dela.  como uma embaixada, aqui ela goza de extra-territorialidade!
     Minha vida mudou. Era difcil entender como algum podia ser bom ou malvado sob encomenda. Mas era 
isso mesmo que eu testemunhava. A metamorfose produziu-se em todos os detalhes da vida diria e embora eu 
entendesse que a atitude deles comigo estava longe de ser espontnea, eu descansava e aproveitava essa calmaria 
sem me fazer mais perguntas. Esforava-me para reencontrar um equilbrio emocional que tinha perdido. Aos 
poucos o sono voltou. Conseguia dormir algumas horas por noite e, sobretudo, me surpreendia a fazer sestas 
mais prolongadas que, eu sentia, me faziam muito bem.
178
 



    Tive ideia de pedir um dicionrio enciclopdico e o recebi. Eu no tinha
conscincia do luxo que isso representava. Rapidamente tornei-me uma viciada. 
Passava a manh sentada  mesa de trabalho, com uma vista maravilhosa para o 
rio, e viajava no tempo e no espao virando cada pgina. No incio, seguia o capricho do momento. Mas aos 
poucos acabei estabelecendo uma metodologia que 
me permitia fazer pesquisas sobre um tema preestabelecido com uma lgica de 
um jogo de pistas.
    No conseguia acreditar na minha felicidade. No sentia mais o tempo passar. Quando me traziam o prato 
de arroz e feijoca, eu comia tudo, ainda perdida 
nas minhas dedues eruditas, pensando na prxima etapa de minha explorao. 
Interessava-me por tudo, pela arte, pela religio, pelas doenas, filosofia, histria, 
avies, heris de guerra, mulheres da histria, atores, estadistas, monumentos, pases. Encontrava tudo o que 
queria para satisfazer minha sede de aprender. E como 
todas as informaes eram, por definio, destiladas, minha curiosidade era mais 
estimulada ainda e eu ia procurar em outro canto os detalhes que faltavam.
    Minha solido foi uma espcie de libertao. No s porque eu no estava 
mais sujeita s oscilaes de humor de minha companheira, mas tambm e sobretudo porque podia ser de novo 
eu mesma, regulando minha vida segundo as 
necessidades de meu corao. Depois da minha leitura matutina, impunha-me  
tarde um treinamento fsico exaustivo. Fechava a porta do quarto, empurrava a 
cama que Joaquin mandara fazer e a colocava em p encostada na parede, e transformava o espao livre em 
academia, onde me exercitava em todas as acrobacias 
que havia aprendido em criana e que abandonara na vida adulta. Pouco a pouco 
a memria dos movimentos me voltou, controlei o medo do risco e reaprendi a 
levar cada vez mais longe meus limites.
    Depois tomava banho, olhando os pssaros voarem acima de mim, e conseguia admir-los sem ficar com 
raiva deles. Voltando para casa, sentava-me de 
pernas cruzadas em posio de ltus e partia para uma meditao que nada tinha de religiosa, mas se conclua 
invariavelmente pela conscincia indubitvel da 
presena de Deus. Ele estava ali. Esse Deus em todo lugar, grande demais, forte 
demais. Eu no sabia o que Ele podia esperar de mim e menos ainda o que eu 
estava pedindo. Pensei em suplicar que me tirasse do cativeiro, mas imediatamente achei minha prece pequena 
demais, mesquinha demais, voltada demais 
para meu pequeno ego, como se pensar em meu prprio bem-estar ou solicitar 
Sua benevolncia fosse um mal. Tambm, talvez o que Ele quisesse me dar eu no
desejasse. Lembrava-me de ter lido na Bblia, numa epstola aos romanos, que 
o Esprito Santo nos socorria em nossa necessidade de comunicao com Deus,
179
 



sabendo melhor que ns o que nos convinha solicitar. Lendo aquilo, pensei que no queria que o Esprito Santo 
pedisse para mim outra coisa seno minha liberdade. E, tendo-o formulado assim, compreendi que perdia o 
essencial, pois havia provavelmente outra coisa superior  minha liberdade que Ele poderia tentar me dar e que 
por ora eu era incapaz de apreciar.
     Eu tinha as perguntas. Mas no as respostas. Elas me perseguiam durante a meditao. E nessa reflexo 
circular que se prolongava dia aps dia, via desfilarem os fatos do dia, examinados com preciso. Parava para 
analisar certos momentos. Refletia no significado da palavra "prudncia" ou da palavra "humildade". Todo dia, 
num olhar, numa entonao de voz, numa palavra atravessada, no silncio ou no gesto, todo dia eu me dava 
conta de que poderia ter agido diferentemente e poderia ter feito melhor. Sabia que a situao em que vivia era 
uma oportunidade que a vida me oferecia para me interessar por outras coisas que em geral me repugnavam. 
Descobri outro modo de viver, focado menos na ao e mais na introspeco. Incapaz de agir sobre o mundo, 
desloquei minha energia para agir em "meu mundo". Queria construir um eu mais forte, mais slido. As 
ferramentas que desenvolvera at ali no me serviam mais. Precisava de outra forma de inteligncia, outra 
espcie de coragem e mais resistncia. Mas no sabia como fazer. Foi preciso esperar mais de um ano de 
cativeiro para que eu comeasse a me questionar.
     Seguramente Deus tinha razo e o Esprito Santo devia saber muito bem, pois se obstinava em no querer 
interceder em favor de minha liberdade. Eu ainda tinha muito que aprender.
180
 



21. Segunda prova de sobrevivncia

    A ltima vez que vi Joaquin Gmez foi para gravar a segunda prova de sobrevivncia. Estava acompanhado 
por outros guerrilheiros, entre eles Ferney. Gostei de rev-lo.
    Desconfiava que ele devia ter explicado a seu superior o tratamento que eu recebia e as situaes que tive 
de enfrentar e lhe agradeci por isso, pois as coisas tinham entrado nos eixos. Andrs autorizara que de vez em 
quando eu tivesse leite em p, e Edinson, aquele que tinha nos agarrado durante o ataque dos marimbondos, me 
trazia escondido alguns ovos que eu "cozinhava" na gua fervendo que pedi com a desculpa de tratar de um 
eczema. O que mais me agradava, porm, era que Andrs tivesse me autorizado novamente a passar um tempo 
na rancha. Eu gostava de cozinhar. Aprendi as tcnicas que eles tinham elaborado, em especial a de fazer um 
ersatz de po, as cancharinas, preparadas com uma mistura de gua e farinha que eles fritavam em leo 
escaldante, delcias cujo segredo queria conhecer. Joaquin tivera a delicadeza de me enviar, entre uma e outra de 
suas duas ltimas visitas, um saco preto cheio de coisas gostosas. O miliciano que dirigia a canoa a motor 
recebera instrues precisas de no abrir o saco preto e me entreg-lo pessoalmente. Era um gesto de Joaquin, 
pois no primeiro dia que fizemos nossa marcha "peripattica" eu havia me queixado da discriminao contra ns 
no quesito da comida. Quando a gente no tem nada, os bens mais elementares assumem uma dimenso 
insuspeita.
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     Quando Joaquin chegou, comeamos a trabalhar imediatamente na preparao da gravao. Ele me dera 
sua palavra de honra de que o texto integral da mensagem seria entregue  minha famlia sem nenhuma 
modificao. Estava combinado que minha fala duraria entre quinze e vinte minutos, que seria filmada no 
casebre, instalando-se um lenol como tela de fundo para no fornecer nenhuma indicao de nossa localizao, 
e que eu estaria sozinha. Minha companheira tambm enviaria uma prova de sobrevivncia. Pensei em 
esclarecer um debate delicado do qual tivera alguns ecos ao ouvir os comentrios no rdio. Na verdade, minha 
famlia se opunha firmemente  possibilidade de se fazer uma operao militar de resgate. Alguns meses antes, 
uma dezena de prisioneiros, entre eles Guillermo Gaviria, governador da regio de Antioquia, e Gilberto 
Echeverri, seu conselheiro para a paz, tinham sido assassinados durante uma tentativa de libertao pelo 
Exrcito colombiano na regio de Urrao.* Foi um choque terrvel para mim. No conhecia Guillermo 
pessoalmente, mas achava corajoso seu envolvimento para restabelecer a paz na regio de Antioquia. Admirava 
esse homem que fora at o fim em nome de suas convices.
     Um dia, l pelas quatro da tarde, quando mexia num aparelho de rdio que Joaquin me dera de presente 
numa de suas visitas anteriores, sintonizei por acaso, em ondas curtas, o noticirio da Radio Canad. Era um 
pequeno aparelho de metal, sem muita potncia, que os guardas se divertiam em denegrir pois s sintonizava de 
manh cedssimo ou ao anoitecer. Precisava de um sistema de antenas muito potentes que os prprios guardas 
me ajudaram a fazer com o fio de alumnio de esponjas de esfregar panelas. O fio tinha de ficar pendurado na 
copa das rvores, uma de suas pontas presa bem no alto, com a ajuda de um galho, e a outra enrolada na antena 
do aparelho. O sistema funcionava bastante bem e eu conseguia, sobretudo  noite, acompanhar as notcias. Era 
uma janela para o mundo. Eu escutava e, com minha imaginao, via tudo. Ainda no tinha descoberto a 
frequncia da Radio France Internacional,  qual mais adiante me afeioaria muito particularmente, a ponto de 
memorizar os nomes e as vozes dos jornalistas, como se fossem meus amigos de longa data, nem a da BBC, que 
escutaria religiosamente todo dia com o mesmo prazer que sentia em ir ao cinema "na civil". Por ora, estava 
radiante por ter descoberto a Radio Canad e ouvir falar francs. Mas meu prazer se transformou em pavor 
quando, a respeito dos refns colombianos que tinham sido massacrados pelas Fare, ouvi meu nome. 
* Fato ocorrido em 5 de maio de 2003, conhecido como o "massacre de Urrao".
182


No sabia do que falavam mas fiquei gelada, com o aparelho colado ao ouvido, tentando compreender, 
angustiada porque uma manobra errada no aparelho poderia me fazer perder o sinal fraco da transmisso. No 
queria, sobretudo, perder o resto do noticirio. Minutos depois, repetiram a notcia integralmente e descobri, 
horrorizada, que Gaviria e Echeverri acabavam de ser assassinados. No havia nenhuma outra informao nem 
outros detalhes. Mudaram de assunto, deixando-me trmula entre quatro paredes. Fui me sentar na cama, os 
olhos inchados, imaginando tudo o que podia ter acontecido para que tivessem sido assim executados. E ento 
me lembrei da ameaa das Fare: um ano depois do sequestro, comeariam a nos liquidar, uns aps outros. De 
fato, fazia pouco mais de um ano que tnhamos sido sequestrados. Portanto, era isso: as Fare haviam comeado a 
executar seu plano!
    Sa da cabana como se um raio tivesse cado em cima de mim. Quebrei uma das regras que tinha me 
imposto, a de no ir falar com Clara sem avis-la de antemo. Fui andando pela trilha, seguida de perto pelo 
guarda, que me autorizou a ir v-la. Clara estava varrendo o cho. Fez cara de quem se aborrecera com minha 
chegada.
   -                Escute, Clara,  muito grave, as Fare acabam de assassinar Gilberto e Guil- lermo... 
   -                Ah, ?
   -                Deu no rdio, acabam de...
   -                Est bem. Obrigada pela informao.
   -                Eu... eu...
   -                Que fazer? No podemos fazer nada. Pois , pacincia. O que quer que lhe diga?
    No insisti e voltei magoada para minha cabana. Tranquei-me no quarto. Rezei, sem saber como nem o que 
pedir a Deus. Imaginava as famlias deles, as esposas, os filhos, e sofria visceralmente, fisicamente, encolhida, 
sabendo o que tambm poderia estar sendo o destino dos meus. De noite, o aparelho comeou a captar com fora 
as estaes colombianas. A cada dez minutos transmitiam a voz de Yolanda Pinto, mulher de Guillermo. Ela 
explicava em detalhes as providncias para resgatar os cadveres e as dificuldades que enfrentava pois o acesso 
ao local do massacre estava sob controle militar e era proibido s famlias ir l. O guarda que estava de planto 
me chamou, tambm queria ser informado. Disse-lhe que eles tinham comeado a executar os refns e que eu 
sabia que nossa vez logo chegaria.
    Andrs chegou pouco depois.
   -                Ingrid, acabo de saber da morte de Guillermo e Gilberto. Quero lhe garantir que as Fare no 
vo assassin-la. Foi um acidente, as Fare reagiram a um ataque militar.
183
 



     Eu no acreditava nele. Depois de um ano de cativeiro, tinha entendido que para os membros das Fare 
mentir era apenas uma ttica de guerra.
     No entanto,  medida que as horas passavam, a informao parecia lhe dar razo. Os militares tinham 
tentado uma operao de resgate. S dois refns sobreviveram ao massacre. Eles descreviam como os 
prisioneiros haviam sido reunidos para ser fuzilados - momento em que o comandante compreendeu que estava 
cercado pelos helicpteros militares. Gilberto se ajoelhara implorando clemncia. Fora morto a sangue-frio pelo 
prprio comandante. Os sobreviventes contavam que Gilberto pensava que eram amigos e lembrava isso a ele, 
implorando que no o matasse.
     Eu imaginava a cena do assassinato nos menores detalhes, convencida de que estvamos fadadas  mesma 
sorte, a qualquer momento.
     Foi por isso que, quando Joaquin veio para a prova de sobrevivncia, fiz questo de expressar meu apoio  
operao de libertao pelo Exrcito colombiano, sabendo que depois do massacre de Urrao muitas pessoas se 
oporiam a isso. S podia falar em meu prprio nome. Mas fazia questo de salientar que, como a liberdade era 
um direito, qualquer esforo para recuper-la era um dever superior a que no podia me furtar.
     Tambm gostaria que o pas iniciasse uma reflexo profunda sobre o que a defesa desse direito implicava. 
A deciso devia ser tomada no mais alto nvel e o presidente da Repblica devia assumir o custo poltico de um 
fracasso ou os louros de uma operao bem-sucedida. Temia que, no labirinto dos interesses polticos daquele 
momento, nossas vidas no tivessem mais nenhum valor e que fosse mais interessante organizar um fiasco 
sangrento para poder jogar nossa morte nas costas das Fare, em vez de uma verdadeira operao de resgate.
     Depois que a prova de sobrevivncia foi gravada, precisei esperar sua divulgao pelo rdio e pela 
televiso colombiana. Os meses que se passaram entre os dois momentos foram longos e tensos. Eu tinha 
acompanhado o envio de um avio francs ao corao da Amaznia brasileira, com a esperana de que a presso 
para que eles obtivessem a prova de sobrevivncia estivesse ligada a esse fato. Dias antes que a imprensa 
deixasse filtrar a informao, um mdico das Fare fora nos ver. Era um sujeito que estudara alguns anos de 
medicina em Bogot sem obter o diploma e que tinha sido recrutado com o objetivo de ser o instrutor dos 
enfermeiros a serem enviados para os diferentes fronts, e de assumir a direo de um hospital na selva que devia 
estar a pouca distncia de nosso acampamento. Sua visita me fez aventar a possibilidade de uma libertao. 
Imaginei que as Fare tivessem interesse em libertar os refns em condies que lhes permitissem dourar a plula 
aos olhos
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do mundo. Pensava tambm que talvez essa prova de sobrevivncia que a organizao tinha desejado com tanta 
insistncia podia ser uma das condies pedidas pela Frana para iniciar negociaes que, saltava aos olhos, 
deviam permanecer secretas. Quando o avio partiu sem ns, imaginei que a exposio do caso na mdia tinha 
provavelmente fracassado a misso. Mas a esperana germinara. Vi como a Frana correra riscos reais para me 
tirar dali. Sabia que a Frana continuaria a procurar um jeito de me tirar das garras das Fare e esperava que 
outros contatos acontecessem, que outros emissrios fossem enviados e que outras negociaes fossem 
iniciadas.
     Quando, semanas depois, o miliciano que vinha normalmente com os mantimentos chegou com a ordem 
de nos levar, para mim s podia se tratar do sucesso das negociaes. amos embora no dia seguinte ao 
amanhecer, tnhamos de guardar nossas coisas. Selecionei meus pertences, pegando s o necessrio para os 
poucos dias de deslocamento que, segundo meus clculos, levaramos at alcanar o ponto de encontro com os 
emissrios europeus. Dei todo o resto s moas e, sobretudo, deixei-lhes o dicionrio e um mapa-mndi que 
acabava de terminar, todo colorido, no qual tinha trabalhado semanas e que me dava muito orgulho.
     Andrs organizou uma pequena reunio para nos despedirmos. Os guerrilheiros apertaram minha mo, 
felicitando-me do sucesso das negociaes e de minha liberdade iminente. No dormi  noite, saboreando 
minha felicidade. O pesadelo tinha acabado. Eu estava voltando para casa.
     Estava sentada sobre minha trouxa, pronta para partir. A lua refletia suas luzes de prata na gua indolente 
do rio. L pelas cinco da manh, trouxeram-nos uma xcara de chocolate quente com uma cancharina. Minha 
companheira tambm estava pronta, sentada nos degraus da cabana, com uma bagagem que era o dobro da 
minha: tencionava no deixar nada para trs. Uma estranha felicidade e uma grande serenidade me habitavam. 
No era a euforia que eu tinha 
     previsto
     para quando me anunciassem a libertao, era uma felicidade tranquila, um descanso da alma. Eu refletia 
no que aquele ano de cativeiro significara para mim. Via-me como um ser estranho, como uma entidade distinta 
de meu eu presente. A pessoa que vivera na selva durante todos aqueles meses ficaria para trs. Eu voltaria a ser 
eu mesma. Um lampejo de dvida atravessou meu esprito. Voltar a ser eu mesma? Era esse meu objetivo? Eu 
tinha aprendido o que devia aprender? Livrei-me depressa dessas ideias imbecis. Agora, no tinham a menor 
importncia!
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22. A vidente

22 de agosto de 2003

     Um cu imaculado recortava-se acima de nossas cabeas, entre as rvores das duas margens, como uma 
longa serpente azul. No andvamos depressa, o rio rasgava a selva caprichosamente e nas curvas muito 
fechadas ainda tnhamos de esquivar os troncos mortos encalhados ali. Eu estava impaciente. Apesar da expec-
tativa dessa libertao to prxima, minha barriga se crispara dolorosamente. O cheiro do motor, o perfume 
agridoce daquele universo de clorofila, a incerteza que me obrigava a avanar na vida como uma cega, tudo me 
levou ao momento exato em que senti a armadilha fechar-se sobre mim.
     Foi uma semana depois de nossa captura. Tinham nos mudado de acampamento para acampamento at um 
lugar, no alto de um morro, em que eu descobrira pela primeira vez o oceano verde da Amaznia enchendo o 
horizonte a perder de vista. El Mocho Csar estava de p a meu lado. Ele j sabia que aquela imensido 
impenetrvel acabaria me engolindo.
     Tinham organizado um acampamento de improviso na encosta quase vertical do morro. Tomamos banho 
num riacho transparente que cantarolava ao passar por um leito de pedras translcidas. Eu tinha visto os 
primeiros macacos, que se juntaram acima de ns e se divertiam em nos jogar pedaos de pau para que 
sassemos de seu territrio.
     A floresta era muito densa, impossvel ver o cu atravs das rvores. Minha
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companheira se esticara como um gato, enchera os pulmes com todo o ar que podiam conter e me chocara 
dizendo: "Adoro este lugar!".
    Eu estava to obcecada com nossa fuga que no me permitia nem sequer considerar a beleza que nos 
cercava, temendo que aquilo freasse nosso mpeto. Na verdade, eu me sufocava, e teria me sufocado igualmente 
se estivesse como prisioneira numa banquisa. A liberdade era meu nico oxignio.
    S esperava cair a noite para executar nosso plano. Contava com a lua cheia para facilitar nossa fuga.
    Um caminho vermelho apareceu atrs de uma curva. Como formigas, em menos de dois minutos os 
guerrilheiros carregaram o caminho. J tinham desmantelado o acampamento e ns nem havamos notado.
    Pegamos o caminho que ziguezagueava descendo. Ali havia duas casinhas com chamins fumegando, 
tristes, no meio de um cemitrio de rvores. Uma criana brincava, correndo atrs da bola furada. Da soleira da 
porta, olhava para ela uma mulher grvida, com as mos nos quadris e as costas visivelmente doloridas. Ao nos 
ver, entrou depressa para dentro de casa. Depois, mais nada. rvores imensas que se sucediam, idnticas, 
durante horas. A certa altura a vegetao mudou. As rvores deram lugar a arbustos. O caminho saiu da estrada 
de terra batida e pegou uma trilha apenas visvel entre samambaias e pequenas rvores. Subitamente, diante de 
ns, como pousada ali por engano, uma robusta ponte de ferro, bastante grande para permitir que o caminho 
vermelho passasse. O motorista freou com um chiado terrvel. Ningum se mexeu. Do outro lado da ponte, 
saindo da floresta negra, duas pessoas com uniforme de camuflagem, grandes mochilas nas costas, vinham, 
decididas, a nosso encontro.
    Imaginei que subiriam na caamba e atravessaramos a ponte. No tinha reparado no rio esverdeado de gua 
salobra que se arrastava sob ns. Nem no grande barco que nos esperava, com o motor roncando, pronto para 
partir.
    Foi ento que me veio uma cena  memria. Em novembro de 2001, durante minha campanha presidencial, 
na linda cidadezinha colonial da regio de Santander, eu tinha sido abordada por uma mulher que insistia, grave, 
para falar comigo com urgncia. O comandante do monoplano que fazia nosso transporte aceitara que 
partssemos com meia hora de atraso em relao ao programa inicial, para que eu pudesse ouvi-la. Era uma 
moa bonita, o ar srio, vestida simplesmente, que se aproximou trazendo pela mo sua filhinha de cinco anos. 
Pegou meu brao, depois de pedir  criana que fosse se sentar mais longe, e me explicou nervosa que tivera 
vises e que suas vises sempre se confirmavam na realidade.
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     - No quero aborrec-la, e a senhora vai pensar que sou louca, mas s terei paz quando lhe disser o que sei.
                - O que sabe?
     Parou de me encarar e seus olhos se perderam. 
Senti que ela no mais me via.
    -                H um andaime, alguma coisa que 
cai. No passe debaixo. Afaste-se. H 
um barco, uma embarcao na gua. No  o mar. 
No suba. E sobretudo, escute- ! 
-me bem,  o mais importante, no pegue essa 
embarcao.
     Eu tentava entender. A mulher no fingia. Mas 
o que dizia parecia-me totalmente incoerente. No 
entanto, deixei-me levar:
    -                Por que no devo entrar naquele 
barco?
    -                Porque no voltar...
    -                Eu poderia morrer?
    -                No, no morrer... Mas levar 
muitos anos para voltar.
    -                Quanto tempo?
    -                Trs anos. No, vai ser mais. Mais 
de trs anos. Muito tempo, um ciclo 
completo.
    -                E depois, quando eu voltar...
    -                Depois?
    -                Sim, depois. O que h depois?
     O comandante veio me chamar. O aeroporto 
fechava antes do pr do sol, s 
seis horas em ponto. Ele tinha de decolar 
imediatamente.
     Subi no avio e esqueci o que a mulher me 
dissera.
     At aquele exato instante em que vi a canoa 
debaixo da ponte. Sentada na 
frente do caminho vermelho, observei, estupefata, 
a canoa que nos esperava embaixo, na margem. No 
devia entrar ali dentro. No devia. Olhei ao redor, 
impossvel fugir, todos estavam armados. Senti um 
n na barriga, as mos midas, um 
medo irracional tomando conta de mim, eu no 
queria ir. Um dos homens pegou 
meu brao, achando que eu hesitava em descer a 
ladeira ngreme com medo de escorregar. Os jovens 
pulavam alegremente, estavam orgulhosos de seu 
treinamento. Empurravam-me, puxavam-me. 
Escorreguei pelo barranco de areia preta, at 
embaixo, e pus um p na embarcao, depois o 
outro. No tinha escolha. Estava 
caindo na armadilha. Por muito tempo, ela dissera. 
Um ciclo completo.
     Navegamos do crepsculo  aurora. Era o fim 
da estao seca, o rio estava em 
seu nvel mnimo de gua, tinham de manter o 
barco bem no meio da corrente 
para evitar atolar. De vez em quando um dos 
guerrilheiros pulava todo vestido 
e, com gua batendo na cintura, empurrava o barco 
para solt-lo. Eu estava com
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medo. Como fazer para voltar atrs? A cada hora minha sensao de claustrofobia aumentava.
    No incio, fomos margeando algumas casinhas que olhavam, cegas, para a passagem de nosso comboio. As 
rvores enormes que as cercavam deixavam filtrar os ltimos raios do crepsculo, como para significar que logo 
atrs a floresta tinha sido derrubada, dando lugar a plantaes. Muito depressa a densidade da floresta abafou 
qualquer luminosidad. entramos num tenebroso tnel de vegetao. No havia mais nenhum sinal de vida umana, 
mais nenhum trao de civilizao. Os rudos da floresta nos chegavam em ecos lgubres apesar do ronco do 
motor. Vi-me sentada com os braos segurando o ventre para manter as tripas no lugar. rvores mortas, de 
galhos embranquecidos pelo sol, jaziam na gua como cadveres carbonizados de membros tortos, ainda 
esperando o socorro da Providncia.
    O capito acendera uma luz poderosa para iluminar as guas negras que cruzvamos. Nas margens, luzes 
vermelhas acendiam quando passvamos. Eram os olhos dos crocodilos que caavam na tepidez do rio. "Um dia 
terei de nadar neste rio para voltar para casa", pensei. A lua apareceu tarde da noite, tornando o mundo em que 
penetrvamos um espao fantasmagrico. Eu tremia. Como fazer para sair dali?
    Aquele medo no mais me abandonaria. Toda vez que eu subia numa canoa, era inexoravelmente levada de 
volta s sensaes dessa primeira descida ao inferno, naquele rio negro do Cagun que me engolira.
    Ali, porm, eu deveria ter me deixado levar pela contemplao da luxuriante natureza que celebrava a vida 
naquela feliz manh de agosto de 2003. Mas a angstia borboleteava em meu ventre. A liberdade! Seria bonito 
demais para ser verdade?
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23. Um encontro inesperado

22 de agosto de 2003

     A canoa saiu do labirinto de gua estreito e sinuoso e foi parar no grande rio Yari. Dirigiu-se a 
contracorrente, enviesada, para a margem em frente e ancorou entre rvores que a subida das guas comeava a 
cobrir. Pediram-nos para descer ali. Pensei que estvamos sozinhos, no meio de lugar nenhum. Para minha 
grande surpresa, descobri, escondido entre as rvores, um grupo de guerrilheiros que eu no conhecia, ocupados 
em dobrar suas barracas e empacotar pertences pessoais. Abriram um plstico preto  sombra de uma grande 
ceiba e ali nos instalamos, Clara e eu, acostumadas a esperar sem fazer perguntas. Uma moa se aproximou e 
nos perguntou se queramos comer ovos. Eu no tinha reparado que um pouco mais adiante eles haviam 
instalado uma rancha com fogo de lenha no qual esquentavam marmitas. Ovos! Fiquei de bom humor com a 
ideia de que nos davam um tratamento especial tendo em vista uma libertao prxima.
      nossa direita, um homem sentado como ns, encostado numa rvore, olhava-me de longe. Provavelmente 
um comandante. Levantou-se, andou de um lado para outro e depois, tomando impulso, se aproximou.
     - Ingrid? Eres Ingrid?
     Era um homem maduro, uma barba grisalha lhe cobria o rosto e grandes olheiras escuras emolduravam 
seus olhos inchados e midos como se lgrimas
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fossem lhe escapar. Sua emoo me abalou. Quem era aquele guerrilheiro? Eu j o tinha visto em algum lugar?
   -                Soy Luis Eldio, Luis Eldio Prez. Fumos senadores al mismo tiempo...
    Compreendi antes que ele acabasse a frase. Quem eu achava ser um velho
guerrilheiro no era outro seno meu antigo colega Luis Eldio Prez, capturado pela guerrilha seis meses antes 
de mim. Eu estava no Congresso quando seu sequestro foi anunciado publicamente. Os senadores aproveitaram 
para levantar a sesso em sinal de protesto, e todos voltaram para casa, felizes em ter uma tarde livre. Quando o 
sequestro apareceu nas manchetes dos jornais, fui incapaz de me lembrar dele. ramos cem senadores. Eu 
deveria ao menos reconhecer seu rosto nas fotos. Mas no, nada. Minha impresso era que nunca o tinha visto. 
Perguntei s pessoas ao meu redor para refrescar a memria. Todos falavam de Luis Eldio em termos elogiosos. 
Eu deveria saber quem era. "Sabe, sim, lembre-se, ele se senta atrs de ns, bem ali. Voc o viu mil vezes, ele 
sempre lhe d bom-dia quando voc chega..."
    Recriminei-me imensamente. Procurei no fundo da memria: branco total! Pior, sabia que tinha conversado 
com ele.        
    Ao ouvir seu nome, ao compreender que era Luis Eldio, pulei no seu pescoo, beijando-o, e, em seus 
braos, segurei as lgrimas. Meu Deus, senti tanta dor ao v-lo em to mau estado! Ele parecia ter cem anos. 
Peguei sua cabea entre as mos para olh-lo bem. Aqueles olhos, aquele olhar, onde eu os guardara para que 
no os encontrasse em lugar nenhum? Era frustrante: no conseguia reconhec-lo, nem superpor uma imagem do 
passado no rosto que estava na minha frente. No entanto, acabava de encontrar um irmo. No havia nenhuma 
distncia entre o desconhecido e mim. Peguei sua mo e acariciei seus cabelos como se nos conhecssemos 
desde sempre. Choramos, sem saber se era de alegria por estarmos um com o outro ou de pena por vermos os 
estragos que a condio de refm imprimira em nossos rostos.
    Com a mesma emoo, Luis Eldio foi beijar Clara.
   -                Tu eres Clarita?
    Ela lhe estendeu a mo e, sem se mexer, respondeu:
   -                Chame-me de Clara, por favor.
    Meio sem graa, Luis Eldio sentou-se conosco sobre o plstico preto. Questionou-me com os olhos. 
Respondi com um sorriso. Comeou a falar sem parar, horas a fio, que se transformaram em dias inteiros, depois 
em semanas completas de um monlogo inesgotvel. Queria me contar tudo. O horror de seus dois anos de 
confinamento num silncio estrito (o comandante que no gostava dele 
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proibira a tropa de lhe dirigir a palavra ou lhe responder). A maldade do homem que mandara matar a 
machadadas o cachorrinho que Luis Eldio recolhera e adotara. O medo que o obcecava de acabar seus dias na 
selva, longe da filha Carope, que ele adorava, e cujo aniversrio era justamente naquele dia, 22 de agosto, dia de 
nosso encontro s margens do Yari. A doena, pois era diabtico e dependia de injees de insulina, que no 
recebia mais desde a captura, temendo a qualquer momento cair em coma hipoglicmica que o mataria de modo 
fulgurante, ou pior, lhe queimaria o crebro, deixando-o como um legume para o resto de seus dias. A 
inquietao diante das necessidades da famlia, que com seu sequestro perdera os recursos financeiros 
necessrios a uma vida normal. A angstia de no poder estar l para guiar o jovem filho Sergio nos estudos e 
na escolha da carreira. A tristeza de no estar  cabeceira de sua me que ia envelhecendo e cuja morte em sua 
ausncia ele temia mais que tudo. O remorso que o habitava por no ter estado mais presente no lar, absorvido 
pelo trabalho e pelo engajamento poltico. O sentimento de impotncia que o obcecava por ter cado numa 
armadilha e ter sido capturado pelas Fare. Contou-me tudo de um jato, sob a presso de uma solido que 
execrara.
     Descemos a corrente sob o sol inclemente de meio-dia, e assim at o entardecer. Durante todas as horas da 
travessia eu no dissera uma palavra. Estvamos sentados lado a lado e eu o escutava, consciente da necessidade 
vital que tinha de desabafar comigo. Demo-nos as mos instintivamente, ele para melhor me transmitir a 
intensidade de suas emoes, eu para lhe dar a coragem de continuar. Chorava quando ele chorava, inflamava-
me de indignao quando ele descrevia a crueldade de que fora vtima, e ria com ele at as lgrimas, pois Luis 
Eldio tinha essa capacidade extraordinria de pr numa perspectiva ridcula os momentos mais trgicos da 
ignomnia que soframos. Instantaneamente tornamo-nos inseparveis. Naquela primeira noite em comum, 
continuamos a conversar at que o guarda nos pedisse para nos calarmos. Na manh seguinte, levantamos 
radiantes de poder nos beijar de novo e fomos de mos dadas sentar na canoa a motor. Pouco nos importava 
aonde amos. Breve ele se tornou Lucho, e depois mi Lucho, e finalmente Luchini. Eu o adotara definitivamente, 
sentindo que o alvio que minha presena lhe causava dava-me uma poderosa razo de viver, ou melhor, dava 
um objetivo quele destino que eu no tinha escolhido.
     Tnhamos chegado, depois de vrios dias de navegao, a uma praia de onde partia uma estrada de 
cascalho especialmente bem conservada. Um caminho coberto na traseira por um toldo nos esperava. No nos 
fizemos de rogados e subimos, contentes de estarmos juntos e continuar a conversar.
     - Sei que voc vai dizer no, porque deve pensar que sou um poltico da
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categoria dos que no aprecia, mas se um dia sairmos daqui eu gostaria realmente de poder trabalhar com voc.
    Isso me tocou mais do que tudo. Eu no estava nada em forma: suja, fedorenta, vestida com uns trapos 
imundos, envergonhada por ser vista velha, feia, reduzida a to pouco. Espantava pensar que Lucho pudesse me 
ver como naquela mulher que eu no era mais.
    Baixei a cabea para que no percebesse minha perturbao e tentei sorrir para me dar o tempo de 
responder.
    Tentando me tirar do embarao, ele acrescentou:
    - Mas fao questo de avis-la de que teremos de mudar o nome do seu partido: Oxignio Verde  pedir 
demais para mim! No quero mais ver nada verde em minha vida!
    Todo mundo caiu na risada. Os guerrilheiros, que tinham ouvido tudo, aplaudiram. Clara tambm riu com 
gosto. Eu dava gargalhadas. Rir fazia bem. Olhei para ele. E pela primeira vez, atrs de sua barba branca, atrs 
de seus olhinhos brilhantes, o reconheci. Vi-o sentado atrs de mim no hemiciclo do Senado, me 
cumprimentando com um ar travesso, depois de ter jogado uma bolinha de papel na nuca do colega sentado na 
frente dele, e que se virava, desesperado. Ele sempre me fizera rir, embora invariavelmente eu tentasse manter a 
seriedade por respeito  nossa funo. Atrs de sua mscara de prisioneiro, eu acabava de encontr-lo.
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24. O acampamento de Giovanni

Fim de agosto de 2003

     O caminho parou horas mais tarde, no meio daquela estrada que cruzava o corao da floresta virgem.  
esquerda, entre as rvores, era possvel ver outro acampamento das Fare. Mandaram-nos descer. Minha 
companheira e eu carregvamos nossos sacos de batata, cheios de coisas nossas. Lucho j tinha passado  escala 
superior, carregava uma mochila farquiana, de lona impermevel verde, retangular, com uma profuso de 
correias nos lados onde era possvel pendurar tudo, inclusive a marmita de plstico preto e a barraca enrolada. 
Estava equipado como um guerrilheiro.
     Um homem de aspecto grosseiro, pernas afastadas, parado no acostamento da estrada, batia num gesto 
impaciente no alto da coxa musculosa com a lmina do faco. Tinha olhos muito pretos e brilhantes, olhos como 
verrumas, e um bigodinho cercado por uma barba de trs dias. Ainda estava com todo o corpo suado, 
provavelmente acabara de fazer intensa atividade fsica.
     Dirigiu-nos a palavra com voz rude.
     - Vocs a! Aproximem-se! Sou o novo comandante. Agora esto sob a responsabilidade do Bloco Oriental. 
Entrem a e esperem.
     Mandou que passssemos pela barreira de rvores que escondia mais ou menos o acampamento. Era um 
verdadeiro formigueiro. Ali devia haver muita gente, pois vi caletas em todos os sentidos e homens e mulheres 
tratando de instalar suas
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barracas, apressados, sem a menor dvida para que tudo estivesse pronto antes de cair a noite.
    Olhamo-nos, Lucho e eu, e instintivamente nossas mos se encontraram:
   -                "Nosso comandante" no deve ser fcil...
   -                A cara dele parece a de um assassino de beira de estrada - Lucho me respondeu, sussurrando. - 
Mas no se preocupe. Aqui a gente deve desconfiar dos que tm uma cara simptica. No dos outros.
    O comandante veio nos buscar e o seguimos prudentemente. Dez metros adiante, trs caletas em fila 
acabavam de ser terminadas. A madeira descascada cuidadosamente ainda porejava. Alguns homens estavam 
ocupados em terminar uma grande mesa, com um banco de cada lado.
   -                Pronto, vocs vo se instalar aqui. Os chontos ficam bem atrs. Agora  muito tarde para um 
banho, mas amanh de manh enviarei a recepcionista para que os conduza ao lavadouro. Vou mandar que lhes 
tragam comida, se precisarem de alguma coisa mandem me chamar. Meu nome  Giovanni. Boa noite.
    O homem desapareceu deixando dois guardas em cada ngulo do retngulo imaginrio onde tnhamos sido 
autorizados a circular. 
   -                Guarda? Como fazemos para ir aos chontos? - perguntei.
   -                 ali, siga pela trilha, atrs de uma fila de palmeiras. Tome cuidado, tem tigres...
   -                Sim, tigres, e tiranossauros tambm!
    O guarda fingiu abafar um riso e Lucho me olhou, radiante. Que necessidade eles tinham de sempre nos 
meter medo?
    Instalamo-nos para a noite com a esperana de termos chegado ao ponto de encontro com os emissrios. Eu 
olhava o que Lucho arrumava, ele tambm olhava para o meu lado. Ele tinha um cobertor de l xadrez que me 
dava inveja. Eu tinha um pequeno colcho forrado de tecido impermevel que podia ser dobrado em trs e que 
Lucho parecia cobiar. Sorrimos.
   -                Quer que lhe empreste o colcho? - cochichei.
   -                Mas como  que voc vai dormir?
   -                Ah, eu, tudo bem, puseram umas palmas sobre a minha coleta, ser suficiente.
   -                Quer que lhe passe um cobertor?
   -                Tenho meu casaco - respondi sem convico.
   -                Mas tenho dois cobertores. Alis, para mim seria muito bom se voc ficasse com um, seria 
menos coisa para transportar.
    Eu estava muito contente com nossa troca e ele tambm, visivelmente.
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     Emprestaram-nos lanternas de bolso, uma para cada um. Para ns era o fausto. Pedi licena para ir me 
sentar com Lucho  mesa e o guarda concordou. J fazia noite escura, era um momento privilegiado para se 
confessar.
    -                O que voc acha? - ele me perguntou em voz baixa.
    -                Acho que vo nos soltar.
    -                No acho. Disseram-me que nos levam para outro acampamento junto com todos os outros 
presos.
     Os guardas nos deixaram conversar e no nos atrapalharam. O tempo estava bom, uma brisa morna 
despenteava as rvores. Eu sentia um real prazer em ouvir aquele homem. Tudo o que dizia me interessava e me 
parecia estruturado e refletido. Sabia que sua presena me fazia um bem muito grande. Era uma espcie de 
terapia poder dividir com algum tudo o que fervia em minha cabea. Eu no tinha me dado conta de como me 
faltara at ento o hbito de me abrir com outra pessoa.
     De manhzinha, o despertar foi alegrado inesperadamente pela chegada de uma loura muito bonita que se 
apresentou como nossa recepcionista. Lucho se levantara de timo humor e resolveu bombarde-la de elogios. A 
moa lhe respondia no ato, indo cada vez mais longe o tom picante dos comentrios. Todo mundo ria, mas a 
coisa estava no limite! Lucho no podia imaginar que era a scia do comandante! Quando Giovanni veio nos ver 
no fim do dia, era outro homem. Estava descontrado e afvel. Cumprimentou-nos estendendo a mo e nos 
convidou para ficar com ele  mesa. "A mulher dele nos prestou um grande servio", pensei ao observ-lo. Era 
um fino conversador. Ficou at tarde da noite nos contando sua vida.
    -                Estamos em plena batalha. Os paramilitares esto a trinta metros diante de ns e tem tiro para 
todo lado. Tivemos muitas perdas dos dois lados. A certa altura, quando estava rastejando para me aproximar da 
linha inimiga, recebi pelo rdio uma mensagem de um de meus homens. Ele estava morto de medo. Eu ali, 
deitado no cho, as balas assobiando rasantes sobre minha cabea, tentando falar com ele da melhor maneira 
possvel, como se fosse um filho, para que ele avanasse sobre o inimigo junto comigo, para lhe dar coragem. 
Imaginou a cena? Com meu rdio na boca, vi o inimigo! Ele no me viu, estava na minha frente, tambm falava 
pelo rdio! Aproximei-me devagarinho, como uma cobra, ele no sentiu a minha chegada e, , estupor!, ouvi-o 
falar e compreendi que era ele que falava comigo no rdio. Foi terrvel! Achei que estava falando com um dos 
meus rapazes e ele achava que estava falando com seu chefe. Mas era comigo que falava, esse idiota! E agora 
estava na minha frente e eu tinha de mat-lo! Fiquei alucinado! No podia mais
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mat-lo, era um garoto, entende? Para mim no era mais o inimigo. Ento dei-lhe uma surra, peguei o fuzil dele 
e o mandei dar no p. Ele escapou por um triz, esse imbecil! Se est vivo, tenho certeza de que ainda se lembra!
    Giovanni era muito jovem. No tinha trinta anos. Era um rapaz muito gil, dotado de grande senso de 
humor e de um talento inato para comandar. Era adorado por sua tropa. Eu observava com interesse seu 
comportamento. Era muito diferente de Andrs. Tinha confiana em seus homens, mas era exigente e controla-
dor. Portanto, delegava com mais facilidade que Andrs, e seus homens se sentiam valorizados. Com esse grupo 
eu no tinha mais a sensao de ser espiada.
    Havia uma vigilncia, sem dvida, mas a atitude dos guardas era diferente. Entre eles tambm o ambiente 
era bem distinto. Eu no percebia desconfiana, ao contrrio de antes. No se sentiam espionados pelos colegas. 
Todo mundo respirava melhor sob a autoridade desse jovem comandante.
    Giovanni se habituara a vir jogar conosco, toda tarde, um jogo que Lucho inventara e que consistia em 
avanar num tabuleiro, com gros de feijo, lentilhas e ervilhas  guisa de pies, e em alinh-los eliminando os 
dos outros na passagem. Jamais consegui ganhar. O verdadeiro duelo comeava quando s ficavam Lucho e 
Giovanni frente a frente. Era um espetculo a no perder. Fustigavam-se com comentrios mordazes, 
recuperando todos os preconceitos polticos e sociais que podiam para atacar o outro. Era engraadssimo. A 
tropa vinha seguir o jogo como quem vai a um espetculo.
    A companhia de Giovanni logo se tornou familiar e agradvel. Perguntamos abertamente se pensava que 
amos ser soltos e ele nos respondeu o que pensava. Dizia que isso ainda levaria semanas pois era preciso cuidar 
dos "ltimos detalhes", o que era exclusivamente da alada do Secretariado. Mas declarava francamente que 
precisvamos nos preparar para nossa libertao. Bem depressa isso se tornou o assunto privilegiado de nossas 
conversas.
    Em pouco tempo tnhamos aprendido o nome de todos os guerrilheiros do grupo. Havia uns trinta. 
Giovanni fizera todo o possvel para nos integrar, chegando mesmo a nos convidar para o "salo" para as 
atividades noturnas que costumavam promover. Isso me surpreendeu muito porque no acampamento anterior 
Andrs evitava rigorosamente que pudssemos, mesmo de longe, ouvir o que ali se dizia. Era uma hora de 
descontrao, em que os jovens se divertiam com jogos coletivos. Tinham de cantar, inventar palavras de ordem 
revolucionrias, adivinhar enigmas etc. Tudo isso num ambiente muito bem comportado. Uma noite, na sada do 
salo, um dos guerrilheiros me abordou:
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    -                Voc vai ser libertada daqui a alguns dias. O que vai contar a nosso respeito?
     Olhei para ele, surpresa, e depois, tentando sorrir, respondi:
    -                Direi o que vi.
     A pergunta me deixou um doloroso ressaibo. Tinha dvidas se minha resposta havia sido a melhor.
     Estvamos tomando o lanche da manh quando ouvi um rudo de motores. Fiz um sinal para Lucho.
     Uma grande agitao tomou conta do lugar e, antes mesmo que pudssemos reagir, Jorge Briceno, vulgo 
Mono Jojoy, talvez o mais conhecido chefe das Fare depois de Marulanda, estava entrando. Quase engasguei 
com a bebida. Ele foi andando devagar, com seu olhar de guia, e jogou-se sobre Lucho, abraando-o e 
sufocando-o contra o peito. Mono Jojoy era um homem temvel. Provavelmente o mais sanguinrio chefe das 
Fare. Construra para si mesmo, acertadamente, uma reputao de homem duro e intransigente. Era o grande 
guerreiro, o militar, o combatente de ao, que provocava a admirao de toda aquela juventude que as Fare 
recrutavam aos montes nas regies pobres da Colmbia.
     Mono Jojoy devia ter uns cinquenta anos bem vividos. Era um homem de estatura mdia, corpulento, com 
uma cabea grande e praticamente sem pescoo. Louro, o rosto congestionado e vermelho, sempre sob presso, 
seu ventre proeminente lhe dava um jeito de touro quando andava.
     Eu sabia que tinha me visto mas no veio falar comigo imediatamente. Levou muito tempo falando com 
Lucho, sabendo que minha companheira e eu o espervamos em p diante de nossas caletas, quase em posio de 
sentido. Como eu tinha mudado! A psicologia do prisioneiro marcava os nossos comportamentos mais simples.
     Na ltima vez que o vira ele estava ao lado de Marulanda. Na ocasio, no quis me cumprimentar, eu mal o 
notara. E no teria notado se no tivesse sido pelo comentrio desagradvel que fizera a seus colegas:
    -                Ah, vocs junto com os polticos? Esto perdendo tempo! O melhor a fazer  peg-los como 
refns para o "intercmbio humanitrio". Pelo menos assim eles evitaro nos prejudicar. E aposto que se 
capturarmos uns polticos, este governo ser forado a nos devolver nossos companheiros!
     Eu tinha me virado para Marulanda e interpelado, rindo:
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   -                Puxa!  mesmo? Voc seria capaz de me sequestrar assim no meio de uma estrada?
    O velho fizera um gesto com a mo, como para afastar a m ideia que Mono Jojoy acabava de lhe sugerir.
    Mas, exatos quatro anos depois, tive de constatar que Jorge Briceno executara sua ameaa. Finalmente se 
virou para mim e me apertou contra si, como se quisesse me triturar.
   -                Vi sua prova de sobrevivncia. Gostei. Ela vai ser divulgada em breve.
   -                Pelo menos est claro que no sofro da sndrome de Estocolmo...
    Virou-se para mim e me fitou com uma maldade que gelou meu sangue.
Compreendi no ato que eu acabava de me condenar. O que lhe desagradara? Provavelmente o fato de que eu no 
queria sua aprovao. Deveria ter me calado. Aquele homem me detestava, irremediavelmente, eu era sua presa, 
ele no me largaria mais.
   -                Como esto sendo tratadas?
   -                Muito bem. Giovanni  realmente muito atencioso.
    A, de novo, senti que tinha dado a resposta errada.
   -                Bem, faam sua lista e ditem-na a Pedro, cuidarei para que tudo lhes seja enviado 
rapidamente.
   -                Obrigada.
   -                Vou deix-los em companhia de minhas enfermeiras. Elas faro um relatrio sobre seu estado 
de sade. Digam-lhes tudo o que no anda bem.
    Foi embora me deixando mergulhada numa aflio inexplicvel. Todo mundo concordava em dizer que o 
comandante Jorge era corts e generoso. Eu queria admitir, mas sabia por instinto que sua visita era um pssimo 
pressgio.
    Sentei-me perto de Pedro, enquanto Lucho estava na visita mdica, e empenhei-me em lhe ditar minha lista, 
seguindo a ordem precisa de Mono Jojoy. O pobre homem transpirava sem parar, incapaz de soletrar o nome 
dos produtos de que eu precisava. Lucho, que me escutava, rolava de rir sob os estetoscpios das enfermeiras, 
no conseguindo acreditar que eu me atrevesse a pr na lista artigos de higiene.
   -                J que  assim, pea a Lua! - mexia comigo.
    Acrescentei uma Bblia e um dicionrio. No dia seguinte uma das enfermeiras voltou. Ela assumira o 
compromisso de se apresentar regularmente para massagear as costas de Lucho, que sofria horrivelmente de 
dores. Ele estava nas nuvens e se entregava em xtase diante da moa.
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     Um rangido de freios na estrada me fez apurar o ouvido. Tudo foi muito rpido. Algum berrou dando 
ordens. Giovanni chegou correndo, plido.
    -                Tm que empacotar tudo. Vocs vo embora.
    -                Embora para onde? E voc?
    -                No, eu fico. Acabo de ser afastado de minha funo.
    -                Giovanni...
    -                No tenham medo. Vai dar tudo certo.
     Veio um cara correndo, cochichou alguma coisa no ouvido de Giovanni. Este fechou os olhos e bateu nas 
coxas com os punhos fechados. Depois, se refazendo, nos disse:
    -                Sou obrigado a vendar seus olhos. Sinto muito. Realmente, sinto muito. Ai, que merda!
     Para mim, o mundo desabou: os gritos, os guardas correndo em volta. Empurravam-me, puxavam-me. 
Cobriram-me os olhos com uma faixa grossa, eu no via nada, a no ser em minha cabea: o olhar de fel de 
Mono Jojoy, que ficara gravado na minha memria e me perseguia, desfilava diante de meus olhos fechados 
como uma maldio.        
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25. Nas mos da sombra

12 de setembro de 2003
    
    Eu estava coberta por uma venda e amarrada. Com isso, perdi toda a segurana. O medo instintivo de no 
saber onde punha os ps me bloqueava. Dois homens me seguravam pelos braos. Esforava-me em andar reta e 
normalmente, mas tropeava a cada dois passos e era levantada pelos guardas, avanando sem querer, 
despossuda de equilbrio e de vontade.
    Ouvi a voz de Lucho bem na minha frente. Ele falava alto para que eu soubesse que no estava longe. Ouvi 
tambm a voz de Giovanni em algum lugar,  direita. Ele falava com algum e eu tinha certeza de que no 
estava contente. Tive a impresso de ouvi-lo dizer que devia ficar conosco. Depois houve gritos e ordens dados 
por todo lado. Um barulho surdo. Encolhi a cabea entre os ombros  espera de um tiro ou de uma pancada em 
alguma coisa.
    Muito depressa fomos parar numa estrada. Senti o contato com o cascalho e o calor imediato do sol na 
minha cabea. Um motor velho roncava pertinho, explodindo gases cidos que irritavam minha garganta e meu 
nariz. Quis me coar mas os guardas acharam que eu ia tirar a venda dos olhos. Reagiram com violncia 
exagerada e meus protestos apenas os irritaram ainda mais.
    - Andem logo! Subam com a carga!
    O homem que acabava de falar tinha uma voz estrondosa que me fez mal. Devia estar bem atrs de mim.
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     Logo em seguida fui iada nos ares e jogada no que devia ser a caamba de um caminho. Aterrissei em pneus 
velhos nos quais tentei me acomodar, bem ou mal. Lucho chegou segundos depois, assim como minha companheira e 
meia dzia de guerrilheiros que nos empurravam cada vez mais para o fundo do caminho. Tateando, procurei as mos 
de Lucho.
    -                Tudo bem? - ele me perguntou soprando.
    -                Calem a boca! - berrou algum na minha frente.
    -                Sim, tudo bem - cochichei apertando seus dedos, agarrando-me a ele.
     Algum prendia um toldo na traseira do caminho, uma porta foi trancada
entre rangidos e estalos, o veculo tossiu antes de se sacudir como se fosse se desconjuntar de vez, depois saiu numa 
barulheira grotesca, bem devagar. Fazia muito calor e as exalaes do motor inundavam nosso espao. Os gases 
fedorentos se acumulavam, nos submetendo a uma tortura. A dor de cabea, a vontade de vomitar e a angstia nos 
invadiram. Uma hora e meia depois, o caminho parou com um irritante chiado de freios. Os guerrilheiros pularam do 
veculo e nos deixaram, creio, sozinhos. Devamos ter chegado a um pequeno vilarejo, pois ouvi msica popular vindo 
do que eu imaginava que devia ser uma tienda, onde se vende tudo, em particular bebidas.
    -                O que acha?
    -                Sei l - me respondeu Lucho, arrasado.
     Tentando me agarrar  ltima esperana, aventurei-me a dizer:
    -                E se fosse aqui o ponto de encontro com os emissrios franceses?
    -                No sei. O que posso dizer  que no estou gostando disso. Nada disso me agrada.
     Os homens subiram de novo no caminho. Reconheci a voz de Giovanni. Ele estava se despedindo e anunciou 
que ficaria no vilarejo. Portanto, tinha feito um trecho de estrada conosco. O caminho atravessou uma aldeia, as vozes 
de mulheres, crianas e jovens que jogavam futebol se afastaram e finalmente sumiram. S restaram as exploses do 
motor e o horror dos gases que nos ficavam na garganta, vindo diretamente do cano de descarga. Continuamos assim 
durante mais de uma hora. A sede se somara ao nosso desconforto. Mas era a incerteza, no saber o que nos 
aconteceria, que me causava a maior angstia. Os olhos vendados, as mos amarradas, eu torturava meu esprito 
tentando tirar da cabea os indcios que nos anunciavam que nosso cativeiro se prolongaria mais, indefinidamente. E 
se nossa libertao tivesse abortado? No era possvel, todos nos garantiam que marchvamos para a Liberdade! O que 
tinha acontecido? Ser que Mono Jojoy interviera para fazer as negociaes fracassarem? Afinal de contas, a ideia de 
pegar 
202
 



personalidades polticas como refm para que os guerrilheiros presos fossem soltos era a estratgia que ele imaginara, 
defendera e impusera  sua organizao. Quando samos do Bloco Sul, sob a gide de Joaquin Gmez, para passar ao 
Bloco Oriental, tnhamos cado na rede que ele pacientemente tecera ao nosso redor desde o sequestro. Queria nos ter 
sob seu controle, o que conseguiu.
    O caminho parou num tranco, embicado de frente numa ladeira. Tiraram as vendas de nossos olhos. Estvamos 
de novo  beira de um rio caudaloso. Duas canoas solidamente atracadas na margem balanavam nas ondas 
tumultuosas.
    Meu corao deu um pulo. Subir de novo num barco se tornara para mim um sinal daquela maldio que me 
perseguia. Um homem baixinho, o ventre parecendo uma pipa, os braos curtos e as mos de aougueiro, bigode 
escovinha e pele acobreada, j estava sentado num dos barcos. Havia ali grandes sacos de mantimentos na proa de 
cada um deles. Ele fez sinal para nos apressarmos e disse, com voz autoritria:
   -                As mulheres, aqui comigo. O homem no outro barco.
    Ns trs nos olhamos, lvidos. A ideia de uma separao me deixou doente. ramos destroos humanos, nos 
agarrando uns aos outros para no naufragar. Incapazes de entender o que nos acontecia, sentamos que, fosse qual 
fosse o destino que nos esperava, se fosse compartilhado seria menos doloroso.
   -                Por que nos separar?
    Ele me olhou com seus olhos redondos e, como se compreendesse subitamente todo o tormento que nos corroa, 
disse:
   -                No, no! Ningum vai separ-los! O cavalheiro vai no outro barco para que possamos dividir o 
peso. Mas eles vo estar ao nosso lado durante todo o trajeto, no se preocupem.
    Depois acrescentou, sorrindo:
   -                Meu nome  Sombra, Martin Sombra. Sou o novo comandante de vocs. Estou muito honrado em 
conhec-la. Acompanhei-a pela televiso.
    Estendeu-me a mo sem se levantar de seu assento e a sacudiu energicamente, tomado por uma verdadeira 
excitao que eu no compartilhava. Depois, virando-se para a tropa, deu aos berros umas instrues que para todos 
pareceram insensatas. Havia ali uns quinze homens, todos bem musculosos e muito jovens. Era a tropa do Bloco 
Oriental, famosa por seu treinamento e sua combatividade. Era a elite das Fare, a fina flor daquela juventude 
revolucionria. Maltratava seu batalho e os jovens lhe obedeciam com respeito.
    Em menos de dois minutos ns todos tnhamos embarcado, navegando 
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sobre ondas violentas, empurrados por motores vigorosos em luta contra a corrente impetuosa. Descemos o rio, o que 
significava que nos embrenhvamos mais ainda na Amaznia.
     Durante todo o trajeto Martin Sombra no parou de me fazer perguntas. Eu prestava ateno a cada uma de 
minhas respostas, tentando no cair nos mesmos erros que cometera antes e pelos quais eu continuava a me mortificar. 
Tambm queria estabelecer um contato que me permitisse falar facilmente com aquele que seria nosso comandante 
durante as prximas semanas, talvez prximos meses ou, quem sabe, prximos anos.
     Comigo ele tinha um jeito aberto e cordial. Mas eu tambm o vira agindo com sua tropa e compreendi que podia 
ser perverso, abusivo e sem um pingo de remorso. Como me dissera Lucho, convinha desconfiar dos que tinham um ar 
gentil.
     Sob um sol de chumbo, os barcos pararam numa curva,  sombra de um salgueiro-choro. Os homens ficaram em 
p contra a canoa e se divertiram em ver quem mijava mais longe. Pedi para desembarcar pelas mesmas razes mas 
com a inteno de ser mais discreta. A selva era mais cerrada que nunca. A ideia de partir correndo e me perder 
atravessou-me o esprito. Mas, claro, era total loucura.
     Tranquilizei-me pensando que a hora da fuga chegaria, mas que era preciso prepar-la nos mnimos detalhes para 
no fracassar de novo. Eu carregava com as minhas coisas um faco enferrujado que El Mico perdera perto do 
embarcadouro, depois de uma pescaria no acampamento de Andrs, dias antes de nossa partida. Pensando que eu ia ser 
libertada, fizera questo de guard-lo como uma espcie de trofu. Enrolara-o numa toalha e ningum o descobrira at 
ento. Mas aquele novo grupo pelo jeito no era fcil, convinha redobrar as precaues. S de pensar nisso meu 
corao disparava.
     Voltei para o barco, sempre inquieta. Sombra estava distribuindo refrigerantes e latas de conserva que se abriam 
puxando uma lingueta e continham um tamal, uma espcie de refeio completa  base de frango, arroz e legumes, 
tpica do departamento colombiano de Tolima. Todos se jogaram em cima, famintos. Eu no conseguia nem sequer 
abrir minha lata. Dei minha rao a Clara, que a abriu, radiante. Lucho me olhava. Gostaria que eu tivesse lhe dado, 
mas estava muito longe.
     Recomeamos a navegao, um barco atrs do outro, por um rio que mudava a cada curva, alargava-se 
exageradamente em certos lugares e tornava-se muito estreito em outros. O ar estava pesado, eu me sentia  beira de 
uma indisposio.
     Depois de uma curva, avistei entre os arbustos que obstruam as margens um enorme tambor de plstico azul-rei 
balanando, agarrado no mangue. Era um desses que serviam para transportar os produtos qumicos usados pelos
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laboratrios de cocana. Portanto, devia haver gente pelas paragens. Mais ao longe cruzamos com outro idntico, que 
tambm parecia perdido entre as ondas. A cada vinte minutos cruzvamos com um  deriva. Escrutei as margens na 
esperana de ver casas. Nada. Nenhuma vivalma. S tambores azul-rei no verde geral. "A droga, maldio da 
Colmbia."
    Devemos ter percorrido mais de duzentos quilmetros ziguezagueando por uma faixa de gua interminvel. 
Sombra olhava fixamente para frente, espiando cada curva com olhos de conhecedor.
   -                Acabamos de cruzar a fronteira - disse ao piloto com ar entendido.
    O outro lhe respondeu com um grunhido e tive como que a impresso de que Sombra soltara esse fiapo de 
informao para que eu me desorientasse.
    Numa curva o motor da embarcao parou.
     nossa frente surgiu um acampamento das Fare. Estava construdo  beira da gua. Canoas e pirogas 
balanavam sossegadas, atracadas numa imensa rvore dos manguezais. To longe quanto era possvel ver, o 
acampamento estava afogado num imenso pntano de lama. O trfico incessante da tropa transformava a terra da selva 
em atoleiro. "Eles tero de fazer passagens com tbuas", pensei. Os barcos deslizaram com a proa para a frente, 
abrindo caminho at a margem. Moas com uniforme de camuflagem, botas de borracha preta at o joelho e imundas 
saram uma a uma de detrs das barracas ao ouvirem o barulho dos motores. Colocaram-se num alinhamento 
impecvel e em posio de sentido. Sombra levantou-se depressa, passou por cima da proa da embarcao e com suas 
pernas curtas saltou no cho, respingando lama nas que tinham ido saud-lo.
   -                Digam bom-dia  doctora. - intimou-as.
    Elas responderam em coro:
   -                Bom dia, doctora.
    Eu tinha quinze pares de olhos assestados em mim. "Meu Deus, fazei com que no fiquemos muito tempo aqui!", 
rezei em meu corao, observando o lugar sinistro onde tnhamos ido parar. Duas grandes marmitas estavam ali no 
cho, mal lavadas, e uns porcos se aproximavam, agressivos, com o focinho levantado, tencionando chafurdar ali 
dentro.
    Contrastando com a sujeira do lugar, as moas estavam todas penteadas impecavelmente, o cabelo puxado para 
trs e preso com habilidade em tranas grossas que caiam como cachos pretos e brilhantes sobre seus ombros. 
Tambm usavam cintos de cores vivas e motivos geomtricos que atraram minha ateno. Era uma tcnica que eu no 
conhecia. Deixei-me levar pelo pensamento de que at mesmo nos confins daquele buraco srdido havia uma moda 
entre as moas
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das Fare. Observei-as ostensivamente e elas fizeram o mesmo, e nos olhamos sem complexos. Reuniram-se em 
grupinhos para cochichar ao nos observarem e caram na gargalhada.
     Sombra gritou de novo e os mexericos pararam imediatamente, cada uma indo trabalhar no seu canto. Mandaram-
nos sentar em cima de bujes de gs enferrujados que rolavam na lama, trouxeram-nos comida em tigelas enormes. Era 
uma sopa de peixe. O meu boiava inteiro ali dentro, com olhos mortos que me fixavam atravs de uma camada de 
gordura amarelada. Suas grandes barbatanas peludas pendiam fora da tigela. Eu devia comer, mas no tinha coragem.
     Sombra deu ordem para nos prepararem caletas para a noite. Duas moas foram desalojadas provisoriamente e 
nos cederam seus colches. Quanto a Lucho, foi acomodado bem no meio da lama. Dois bujes de gs  guisa de base, 
duas tbuas de madeira atravessadas fazendo as vezes de cama e uma barraca por cima, em caso de tempestade.
     Cara a noite. A lama fervia com o calor subterrneo. Gases de comida e de fermentao furavam as bolhas de 
lama e subiam  tona. O zumbido doentio de milhes de mosquitos enchera o espao e sua vibrao de ultrassons 
trespassava minhas tmporas como o anncio doloroso de uma crise de loucura. Fazia muito calor. Eu tinha chegado ao 
inferno.
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26. A serenata de Sombra

    No dia seguinte, antes do alvorecer, o acampamento estava numa atividade febril. Uns trinta homens bem 
armados embarcaram antes da aurora nas duas canoas a motor que nos tinham transportado at l. Todas as mulheres 
ficaram no acampamento e Sombra reinava sobre elas como sobre um harm. De meu colcho pude observ-lo, 
esparramado em seu velho colcho furado, sendo servido como um sulto.
    Tive a inteno de ir lhe dar bom-dia, mas a moa que fazia a guarda se interps. Informou-me que eu no podia 
me mexer da coleta sem autorizao de Sombra. Pedi para falar com ele. Meu recado lhe foi transmitido, de guarda em 
guarda. Ele fez um sinal com a mo que interpretei facilmente: no queria ser incomodado. A resposta seguiu o 
mesmo trajeto de volta e a guarda me comunicou enfim o resultado de meu pedido: Sombra estava ocupado.
    Sorri. Dali onde estava o via perfeitamente. De fato estava bem ocupado com uma morena alta de olhos chineses 
que ele mantinha sentada no colo. Sabia que eu o olhava.
    Por ora, no via nenhum espao livre naquele acampamento para nos alojar. A no ser que construssem as 
caletas sobre pilotis, ali onde viviam os porcos, no pntano  esquerda do acampamento. Essa opo parecia 
improvvel. Mas foi exatamente o que eles fizeram. Trs moas designadas para a tarefa saram correndo para o 
barranco com ps, morderam a ladeira com afinco, escavando a terra para
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abrir uma plataforma suficientemente larga, como um balco que desse para o lamaal dos porcos. Ali encaixaram, 
com os ps no barro, enfileiradas contra o barranco, as trs coletas. Fincaram umas estacas em cada extremidade para 
sustentar um grande plstico preto que nos serviria de abrigo. Despacharam-nos para nossos novos alojamentos antes 
do fim da manh. Eflvios de putrefao chegavam em ondas.
     As relaes com Clara estavam novamente tensas. Ela era suspeita de ter escamoteado uns cordes do 
equipamento que pertencia a uma guerrilheira. Minha companheira sabia que eu escondia o faco de El Mico e que se 
houvesse uma revista eu teria dificuldade para explicar a origem dele.
     Sombra veio nos ver. Fingiu verificar nossa instalao e inspecionou nossas coisas. Fiquei aliviada por ter 
tomado precaues. Depois, num tom autoritrio declarou:
    -                Vocs prisioneiros precisam se entender. Aqui no tolero a discrdia!
     Compreendi. Devia estar a par das tenses com minha companheira e vinha
se meter, feliz de representar o papel de pacificador.
    -                Sombra, agradeo o seu interesse e estou convencida de que voc j foi amplamente informado 
sobre nossa situao. Mas quero lhe dizer que as desavenas entre minha companheira e mim s dizem respeito a ns. 
Peo-lhe que no tente interferir.
     Sombra se deitara na coleta de Lucho. Estava de uniforme, com a camisa meio desabotoada que no conseguia 
conter seu enorme ventre. Olhava para mim de olhos semicerrados, sem expresso, avaliando cada uma de minhas 
palavras. As moas que estavam de planto acompanhavam a cena com ateno. A morena alta de olhos chineses viera 
escutar e se mantinha encostada numa pequena rvore a poucos metros de ns. O silncio ficou pesado.
     De repente Sombra estourou numa gargalhada e veio me pegar pelos ombros:
    -                Mas voc no deve se aborrecer assim! S quero ajud-la. Ningum vai se meter em coisa 
nenhuma! Pronto, como castigo, vou lhe oferecer uma serenata. Isso vai relax-la. Mandarei algum busc-la!
     Foi embora bem-humorado, cercado de uma corte de moas. Fiquei pasma. Uma serenata? Que ideia! Estava 
caoando de mim, era evidente.
     Dias depois, quando Lucho e eu j tnhamos concludo que Sombra era louco, fomos surpreendidos pela chegada 
de um batalho de moas nos convidando para segui-las at a caleta do comandante.
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    Sombra nos esperava, estendido sobre seu colcho todo estragado, com o mesmo ventre gordo e redondo 
apertado numa camisa cqui cujos botes pareciam prestes a estourar. Tinha se barbeado.
    A seu lado estava Milton, guerrilheiro de certa idade que eu tinha reparado no dia da nossa chegada. Era um 
sujeito magro, com ossos salientes. Sua pele branca era fortemente marcada pela acne. Sentado desconfortavelmente 
num canto do colcho, como se tivesse medo de ocupar muito espao, segurava entre as pernas um belo violo bem 
envernizado.
    Sombra mandou que nos trouxessem os botijes de gs vazios para nos sentarmos. Quando nos acomodamos, 
como num banco de igreja, virou-se para Milton:
   -                Ande, comece.
    Milton pegou o violo nervosamente com os dedos inchados e sujos cujas unhas pretas se alongavam como 
garras. Ficou com as mos suspensas no ar, os olhos girando para todos os lados,  espera de um sinal de Sombra, que 
no chegava.
   -                Mas ande, comece! - Sombra gritou, irritado. - Toque.qualquer coisa. Eu acompanho!
    Milton estava bloqueado. Pensei que no conseguiria tirar nenhum som do instrumento.
   -                Ah, mas realmente, que idiota! Ande, toque o "Tango de Natal"... Pronto, isso mesmo. Mais 
devagar. Recomece.
    Milton fez o possvel, arranhando as cordas do violo, os olhos cravados no rosto de Sombra. Tocava 
incrivelmente bem, mexendo os grandes dedos escamados com uma destreza que me deixou perplexa. Comearam a 
encorajar Milton e a felicit-lo espontaneamente, o que pareceu no agradar Sombra.
    Irritado, ele comeou a cantar com uma voz grossa de taberneiro. Era uma cano infinitamente triste que 
contava a histria de um rfo que no teria presentes de Natal. Entre os refres, Sombra aproveitava para brigar com 
o pobre Milton. A cena era realmente cmica. Lucho fazia um esforo sobre-humano para no cair na risada.
   -                Pare! Est bom! Chega!
    Milton parou na hora, novamente petrificado, com a mo no ar. Em seguida Sombra se virou para ns, satisfeito. 
Ns trs entendemos: tnhamos de aplaudir o mais forte possvel.
   -                Bem, chega.
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     Paramos na hora.
     - Milton! Vamos cantar aquela preferida das moas. Comece, depressa, santo Deus!
     E recomeou com sua voz grossa e forte, quase afinada, prestes a bater no pobre Milton a cada dois minutos, por 
capricho ou irritao. O espetculo dos dois, um agarrado no violo, o outro se esgoelando, ambos meio enfiados na 
lama, me fazia pensar em o Gordo e o Magro.
     Atrs do ogro que metia medo em todo mundo, descobri um homem que me enternecia, pois eu era incapaz de 
lev-lo a srio. Portanto, no podia ter medo dele e muito menos odi-lo. Compreendia que era um homem capaz de 
muita maldade. Mas sua maldade era um escudo, no sua natureza profunda. Era mau para no ser visto como um 
imbecil. Naquele mundo de guerra e violncia, sua aparncia era proporcional  sua capacidade de castigar.
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27. O arame farpado

    A atividade do acampamento me preocupava. Toda manh, ao raiar o dia, uma equipe de uns vinte homens, 
fortes, saa de canoa, na contracorrente, e voltava s antes do pr do sol. Outra equipe desaparecia na mata, atrs do 
acampamento, mais para l do barranco. Eu os ouvia trabalhar com motosserra e martelo. Quando ia aos chontos, via 
pelas rvores construes de madeira que comeavam a tomar forma e se erguiam a uns cinquenta metros atrs de 
nossas caletas. No queria perguntar nada. Tinha muito medo das respostas.
    Certa manh, Sombra veio nos ver. Estava acompanhado da sua morena alta, a Boyaca, e de uma moa gorda e 
simptica que se chamava Martha. Elas puxavam uns sacos grandes de lona emborrachada e os puseram nas nossas 
caletas:
    -  Mono Jojoy que est mandando! Faam o inventrio, se faltar alguma coisa, me digam.
    Tudo o que tnhamos pedido havia chegado. Lucho no acreditava no que via. No dia em que fizemos a lista, ao 
perceber que eu inclua objetos at ento proibidos, como lanternas de bolso, garfos e facas, baldes de plstico, 
aventurara-se a pedir espuma de barbear e loo ps-barba. Ria como uma criana ao descobrir que sua audcia fora 
recompensada. De meu lado, extasiei-me diante de uma pequena Bblia encadernada de couro com um zper todo em 
volta. Como brinde, Mono Jojoy nos mandava guloseimas que depois de demoradas discusses dividimos entre ns, 
assim como camisetas com cores difceis pelas quais ningum quis brigar.
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     Fiquei surpresa com as provises que chegavam ao acampamento. Um dia, fiz um comentrio a respeito com 
Sombra, que levantou o cenho, me olhando de rabo de olho, e me disse:
    -                Os chulos podem gastar tudo o que quiserem com avies e radares para procur-la. Enquanto houver 
oficiais corruptos, sempre seremos os mais fortes! Veja s, esta zona onde estamos encontra-se sob controle militar. 
Tudo o que se consome aqui deve ser justificado, deve-se indicar quem so os beneficiados, o nmero de pessoas por 
famlia, os nomes, as idades, tudo. Mas basta haver um que queira um dinheirinho extra no fim do ms e todo o plano 
deles vai por gua abaixo.
     E acrescentou, com ar malicioso:
    -                No  s o baixo escalo que faz isso! No  s o baixo...
     Seu comentrio me deixou perplexa. Se o Exrcito fazia esforos para nos encontrar, era verdade que a 
existncia de indivduos corruptos podia representar para ns meses, e at mesmo anos extras de cativeiro.
     Entendemos direitinho a mensagem que Mono Jojoy nos enviara ao nos abastecer com o que queramos. 
Devamos nos preparar para aguentar muito tempo: as Fare consideravam que no havia negociao possvel com 
Uribe. Fazia um ano que ele fora eleito e que movia uma campanha agressiva contra a guerrilha. Todo dia inflamava os 
espritos com discursos incendirios contra os guerrilheiros, e seu ndice de popularidade estava no znite. Os 
colombianos se sentiam tapeados pelas Fare. As negociaes de paz do governo Pastrana foram interpretadas como 
uma fraqueza do Estado colombiano diante da guerrilha, que aproveitara para se consolidar. Os colombianos, 
despeitados com a arrogncia do Secretariado, queriam acabar de uma vez por todas com uma insurreio que 
repudiavam, pois ela atacava a todos e espalhava o terror pelo pas. Uribe, interpretando o sentimento nacional, foi 
inflexvel: no haveria nenhuma negociao para nossa libertao.
      noite, eu ia conversar com Lucho em sua coleta. Ele ligava o rdio suficientemente alto para abafar nossas 
vozes e nos acomodvamos para jogar xadrez num pequeno tabuleiro de viagem que Sombra nos emprestara.
    -                O que acha que vo fazer conosco?
    -                Esto construindo uma coisa grande, l atrs.
    -                Talvez seja um alojamento para eles.
    -                Em todo caso,  grande demais para ns trs.
     Era a Hora dos Boleros, um programa de msica dos anos 1950. Eu gostava. Conhecia de cor as letras das 
msicas que transmitiam porque desde que nasci mame as cantava o dia todo. Era a hora da fossa, das anlises 
pessimistas e da
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contabilidade melanclica do tempo perdido. Lucho e eu nos abramos, um depois do outro, descobrindo os abismos 
insondveis de nossa tristeza.
   -                Tenho medo de morrer aqui, Lucho.
   -                Estou muito doente, sabe?
   -                De jeito nenhum. Voc est em plena forma.
   -                Pare de zombar de mim,  srio. Sou diabtico.  grave. Posso cair em coma a qualquer momento.
   -                Como assim, cair em coma?
   -                 como um desmaio, mas muito mais grave, voc pode perder o crebro, virar um legume.
   -                Pare! Voc me d medo!
   -                Quero que saiba, pois precisarei de voc. Se por acaso me vir empalidecer ou perder a conscincia, 
tem de me dar acar imediatamente. Se eu tiver convulses, precisa segurar minha lngua...
   -                Ningum consegue segurar sua lngua, meu Lucho! - retruquei, rindo.
   -                No,  srio, escute bem. Voc precisa tomar cuidado para eu no me sufocar com a prpria lngua.
    Eu escutava, atenta.
   -                Quando eu voltar a mim, no pode me deixar dormir. Tem de falar comigo o dia todo e a noite 
toda, at que perceba que recuperei a memria. Em geral, depois de uma crise de hipoglicemia a gente quer dormir, e 
pode nunca mais acordar.
    Eu escutava com ateno. Ele era insulinodependente. Antes de ser sequestrado, era obrigado a se aplicar todo 
dia, na barriga, uma dose de insulina. Fazia dois anos que no a recebia. Perguntava-se por qual milagre continuava a 
viver. Eu conhecia a resposta. Ela estava estampada em seus olhos. Lucho se agarrava  vida furiosamente. No estava 
vivo porque tinha medo de morrer. Estava vivo porque tinha paixo pela vida.
    Estava me explicando que as balas que tnhamos recebido podiam lhe salvar a vida quando o guarda nos chamou:
   -                Ei! Parem de escutar msica, esto perdendo o noticirio!
   -                E da? - dissemos em coro.
   -                E da? Acabam de passar as provas de sobrevivncia de vocs!
    Pulamos de nossas cadeiras como se tivssemos recebido um choque eltrico.
Lucho manobrou correndo para sintonizar a Radio Caracol. A voz do jornalista estrela da estao nos chegava forte e 
clara. Ele fazia uma recapitulao de nossas mensagens que acabavam de ser retransmitidas pela televiso. S 
consegui escutar
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trechos de minha fala, sem poder verificar se a gravao tinha sido adulterada. Mas ouvi a voz de minha me e as 
declaraes de Mlanie. A exultao delas me surpreendia. De certa forma, me fazia mal. Quase as recriminei por 
estarem felizes com to pouco. Havia algo de monstruoso naquele alvio que s lhes era outorgado por meus 
sequestradores para prolongar mais ainda nossa separao. Fiquei com o corao apertado ao pensar que ns todos 
tnhamos cado na cilada: aquela prova de sobrevivncia no era uma condio para nossa libertao. No havia 
negociaes com a Frana. Ela anunciava cruelmente uma prolongao de nosso cativeiro. Conseguiam fazer presso 
sem nenhuma inteno de nos libertar. ramos um trofu nas mos da guerrilha.
     Como a ecoar meus pensamentos, a gorda Martha, que estava de guarda, se aproximou de mim:
    -                Ingrid... eles esto construindo uma priso.
    -                Quem est construindo uma priso?
    -                Los muchachos.
    -                Para qu?
    -                Vo fechar todos vocs l dentro.        
     Recusei a me render s evidncias. Como que tomada de tonteira  beira de
um precipcio, dei mais um passo no vazio:
    -                "Todos" quem?
    -                Todos os prisioneiros que esto no campo a uns trinta minutos daqui e vocs trs. H os polticos: 
trs homens e duas mulheres, todos os outros so soldados e policiais. So os que fazem parte do "intercmbio 
humanitrio". Eles vo reunir vocs todos aqui...
    -                Quando?
    -                Muito breve. Provavelmente na semana que vem. Vo pr o arame farpado amanh.
     Fiquei lvida.
    -                Mamita,* vai ser muito duro para vocs - me disse Martha, condoda. - Vocs precisam ser muito 
fortes, se preparar.
     Sentei-me na caleta, vazia por dentro. Igual a Alice, ca num poo sem fim. Sem que nada pudesse me deter, eu 
degringolava. O buraco negro era isso. Eu era tragada pelas entranhas da terra. S estava viva para me ver morrer. 
Ento era isso, o meu destino? Tive uma raiva mortal de Deus por ter me abandonado.
* Mezinha, termo popular e afetuoso entre os colombianos.
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Uma priso, cercas de arame farpado? Eu sofria a cada respirao, incapaz de continuar. Mas devia continuar. Havia 
os outros, todos os outros, meus filhos, minha me. Fechei os punhos sobre os joelhos, furiosa comigo mesma e com 
Deus, e me ouvi dizendo:
    - Nunca me deixes afastar-me de ti! Nunca!
    Com a cabea vazia, levantei-me como um autmato para anunciar a meus companheiros a pavorosa notcia.
    Toda vez que amos aos chontos espivamos o avano das obras. Como a gorda Martha tinha anunciado, 
instalaram uma rede de ao com fios de arame farpado em volta de todo o recinto, com quatro metros de altura. No 
que parecia ser um canto da obra tinham construdo uma torre de vigilncia no alto, dominando todo o conjunto. Dava 
para avistar entre as rvores trs outras torrinhas que se elevavam, tambm com escadas. Era um campo de 
concentrao em plena selva. Eu tinha pesadelos com isso e acordava sobressaltada, coberta de suor, no meio da noite. 
Devia gritar, pois uma noite Lucho me acordou pondo a mo em minha boca. Ele tinha medo de que houvesse 
represlias. Recomecei, portanto, a perder o sono e a me refugiar na insnia para no ser pega desprevenida. Lucho 
tambm no conseguia dormir. Sentvamo-nos em nossas caletas para conversar, na esperana de afastar os fantasmas 
da noite.
    Ele me contava os natais de sua infncia, quando a me cozinhava tamales* - prato tpico da regio do Tolima, 
onde ela nascera. A receita inclua ovos cozidos que Lucho, em criana, roubava, para desespero da me. No dia 
seguinte ele a via de robe de chambre, contando os ovos e perguntando por que sempre faltava um! Lembrando-se 
disso, ele ria de chorar. De meu lado, eu voltava s Seychelles e s lembranas felizes do nascimento de minha filha. 
Voltava, portanto, ao essencial: antes de tudo, eu era me.
    A construo da priso me abalou profundamente. Era indispensvel repetir para mim mesma que eu no era uma 
prisioneira, mas uma sequestrada. Que no tinha feito nada de mau, que no pagava por um delito. Que os que haviam 
me despossudo de minha liberdade no tinham nenhum direito sobre mim. Eu precisava disso para no me submeter. 
Para no esquecer que tinha o dever de me rebelar. Eles chamavam aquilo de "priso". E, como num ato de 
prestidigitao, eu me tornava uma criminosa, e eles, a autoridade. No, no me dobraria.
* Porco e frango cozidos com arroz e milho, misturados com ovos duros e cenouras, sendo o conjunto esquentado com folhas de 
bananeira.
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     Apesar dos esforos, nosso cotidiano ficou sombrio. Observei o humor soturno de meus companheiros, todos ns 
estvamos deprimidos. Lucho pegara o hbito de tomar o lanche da manh com Clara, numa plataforma de madeira 
que devia ter servido para armazenar mantimentos e agora, agarrada pelas guas do pntano, parecia uma ilha flutuante 
no lodaal dos porcos. Lucho ia l toda manh, levando os biscoitos que recebera. Dividia-os sem se preocupar em 
guard-los para mais tarde. Um dia, no voltou mais  plataforma e tomou o lanche sentado na caleta.
    -                O que houve, Lucho?
    -                Nada.
    -                Ande, me diga. Estou vendo que tem alguma coisa que est lhe fazendo mal.
    -                Nada.
    -                Bem, se no quer me dizer, certamente no  importante.
     Quando voltei do rio depois de tomar banho, vi que Lucho tinha tido com Clara uma discusso acalorada por 
causa dos baldes de plstico que a guerrilha nos fornecera. Lucho se oferecera para encher os baldes no rio. Tratava-se 
de ter gua limpa para lavar os dentes, as mos e as tigelas depois de cada refeio. Era uma tarefa difcil, pois era 
preciso carregar os dois baldes cheios e subir com eles uma ladeira ngreme enlameada e escorregadia.
     Era de tarde, a noite no custaria a cair, Lucho j fizera a tarefa daquele dia, j tinha tomado banho, estava limpo 
e pronto para dormir. Clara, porm, usara a gua dos baldes para deixar de molho sua roupa suja. No havia mais gua 
para lavar as tigelas e lavar os dentes antes de dormir. Lucho estava exasperado.
     Esses incidentes midos do dia a dia nos envenenavam a vida, provavelmente pelo fato de nosso universo ter se 
tornado to pequeno. Observei Lucho irado e o compreendi muito bem. Eu tambm me irritara diversas vezes. 
Tambm tive as reaes erradas e as atitudes erradas. s vezes aquilo me surpreendia por eu ignorar as engrenagens de 
meu prprio temperamento. A comida, por exemplo, no me interessava. Mas, certa manh, levantei-me e fiquei 
vergonhosamente chateada porque a maior parte da rao que nos trouxeram no tinha sido para mim. Era ridculo. 
Isso nunca me acontecera antes. Mas no cativeiro descobri que meu ego sofria se eu fosse despossuda do que 
desejava. Com a fome ajudando, era em torno da comida que se travavam os combates silenciosos entre os 
prisioneiros. Eu observava uma transformao em mim da qual no gostava. E gostava menos ainda  medida que no 
a suportava nos outros.
     Essas pequenas coisas do cotidiano envenenavam nossa existncia, provavelmente
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porque nosso universo encolhera. Despossudos de tudo, de nossa vida, de nossos prazeres, de nossos prximos, 
tnhamos o reflexo errado de nos agarrar ao que restava, quase nada: um pouco de espao, um pedao de biscoito, um 
minuto a mais no sol.
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28. A antena parablica

Outubro de 2003

     A priso parecia pronta. Contvamos os dias em que ficaramos no nosso barranco, como condenados  morte 
que tivessem recebido um sursis. Certa manh, Sombra veio me ver. Tencionava instalar uma antena parablica. Tinha 
uma televiso no acampamento. Parte das instrues era em ingls, precisava de minha ajuda.
     Disse-lhe que no entendia nada daquilo. Mesmo assim ele fez questo que eu o acompanhasse para checar os 
equipamentos. Dois enormes alojamentos de madeira tinham sido construdos.
     Havia uma terceira construo, menor que os dois conjuntos de barracas anteriores, com bancos e dezenas de 
cadeiras de plstico empilhadas nos lados. Estavam bem abastecidos, quanto a isso no havia a menor dvida. As 
caixas de aparelhos eletrnicos reinavam no meio do salo, com os manuais de instruo bem arrumados ali em cima. 
Fui andando. Vi ento, atrs da pilha das cadeiras, a priso inteirinha. Era uma imagem sinistra, guarnecida de fios de 
arame farpado e cercada de lama.
     Fingi que estava lendo os manuais de funcionamento, mexi em alguns botes e declarei, vencida:
     - No entendo nada, sinto muito.
     Era incapaz de me concentrar em alguma coisa que no fosse o inferno que tinham construdo. Voltei, 
mortificada, para descrev-la a meus companheiros.
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    Sombra, de seu lado, no se declarou vencido. No dia seguinte, antes da hora do almoo, uma das barcas que 
percorriam o rio voltou trazendo um prisioneiro do acampamento que ficava mais acima do nosso.
    Era um homenzinho magro, o cabelo cortado rente, os olhos enfiados nas rbitas, o rosto cadavrico. Ns trs 
estvamos postados em nosso barranco, curiosos de saber quem era aquele sujeito que Sombra mandara buscar para 
instalar a antena. Ele foi at ns seguindo a trilha usada pela guerrilha, provavelmente ignorando que outros 
prisioneiros se alojavam no acampamento de Sombra. Teria sentido nossos olhares fixos nele? Virou-se e parou de 
repente. Por alguns segundos nos olhamos. Ns todos fizemos o mesmo caminho mental. Nossos rostos refletiam, 
sucessivamente, a surpresa, o horror e a compaixo. Cada um tinha em face de si um farrapo humano.
    Lucho foi o primeiro a reagir.
   -                Alan? Alan Jara?  voc, Alan?
   -                Claro! Claro! Desculpem, eu no os reconheceria. Vocs so muito diferentes nas fotos.
   -                Como vai? - perguntei depois de um silncio.
   -                Bem, bem.
   -                E os outros?
   -                Bem, tambm.
    O guarda enfiou-lhe o cano do fuzil nas costas. Alan sorriu tristemente, nos deu um adeuzinho e se dirigiu para as 
barracas.
    Ns trs nos olhamos, arrasados. Aquele homem era um cadver ambulante. Usava uma camiseta toda 
esfarrapada e uma bermuda imunda. Suas pernas de extrema magreza boiavam dentro das botas de borracha grandes 
demais. Ns trs nos olhvamos como se tivessem nos tirado uma venda dos olhos. Estvamos habituados a nos ver 
assim, mas no estvamos melhores que Alan. A no ser pelo fato de que acabvamos de receber mantimentos. No 
hesitamos um segundo. Fomos buscar o que nos restava no estoque para enviar aos companheiros do outro 
acampamento.
    Sobrava-nos tambm um pedao de bolo que eu acabava de fazer para festejar o aniversrio de Lorenzo e o dos 
filhos de Lucho.
   -                A gente deveria mandar isso para eles - disse-me Lucho -  aniversrio de Gloria Polanco e de 
Jorge Gechem.
   -                Como sabe que  aniversrio deles?
   -                Nas mensagens do rdio, as famlias os felicitaram pelos aniversrios,  dia 15 ou 17 de outubro, 
no lembro mais. Mas  daqui a uns dias.
219
 



    -                Quais mensagens pelo rdio?
    -                Meu Deus, no  possvel, estou sonhando! Voc no sabe que todo dia h um programa de rdio 
na RCN, La Carrilera, apresentado por Nelson Moreno, que transmite mensagens de todas as nossas famlias para cada 
um de ns?
    -                O qu?
    -                ! Sua famlia no chama por essa rdio. Mas sua me lhe manda mensagens todos os sbados pela 
Radio Caracol, Las Vocs dei Secuestro. Foi um jornalista, Herbin Hoyos, que teve a ideia de criar um programa de 
rdio para os sequestrados. Sua me lhe chama e fala com voc, ouo-a todo fim de semana!
    -                Mas como!  s agora que voc me diz?
    -                Escute aqui, sinto muito, pensei que voc soubesse, estava convencido de que escutava o programa 
assim como eu!
    -                Luchini,  maravilhoso!... Vou poder escutar mame depois de amanh!
     Pulei no pescoo dele, que acabava de me dar o mais lindo presente! E ele
queria se desculpar!
     Preparamos um pacote com balas, biscoitos, e tambm o pedao de bolo que reservamos para Gloria e Jorge 
Eduardo. Pedi ao guarda que transmitisse nossa solicitao a Sombra. A resposta no tardou:
    -                Ingrid, voc tem meia hora para falar com Alan e entregar o pacote.
     No me fiz de rogada e segui o guerrilheiro at o salo das cadeiras empilhadas. Alan me esperava. Jogamo-nos 
nos braos um do outro como se nos conhecssemos desde sempre.
    -                Viu a priso?
    -                Vi... Acho que vou ficar no seu grupo.
    -                Como assim?
    -                Sombra vai pr os militares de um lado e os civis do outro.
    -                Ah, bem! Como sabe?
    -                Os guardas... H alguns que nos passam informaes em troca de cigarros.
    -                Ah!...
    -                So quantos civis?
    -                Quatro, dois homens e duas mulheres. Prefiro ficar com os militares. Mas, bem, se ficar com voc, 
vamos nos organizar. Tenho vontade de aprender francs.
    -                Pode contar comigo.
    -                Escute, Ingrid, no se sabe o que vai acontecer, com eles nunca se sabe. Mas acontea o que 
acontecer, seja forte. E tome cuidado. A guerrilha tem dedos-duros por todo lado.
    -                O que quer dizer com isso?
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   -                Quero dizer que convm desconfiar, mesmo entre os prisioneiros. H uns que esto prontos para 
entregar os companheiros por um isqueiro ou uma lata de leite em p. No confie em ningum.  meu melhor 
conselho.
   -                Ok. Obrigada.
-                E obrigado pelas guloseimas. Vo agradar a todo mundo. Deram-nos trinta minutos exatamente. 
Nem um a mais. Voltei, pensativa.
As palavras de Alan me causaram forte impresso. Sentia que, de fato, precisava me preparar para viver uma 
experincia difcil. Eu via a cerca, o arame farpado, as guaritas. Mas ainda no podia imaginar o mundo dentro da 
priso: a falta de espao, a promiscuidade, a violncia, as delaes.
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29. Na priso

18 de outubro de 2003

     De manh, os guerrilheiros se aproximaram de nossa barraca. Havia um alto e magro, de bigode fino e olhar 
venenoso. Usava um chapu de guarda-florestal, daqueles que estavam em voga entre os paramilitares. Ps sua bota 
enlameada na minha caleta e latiu:
     - Embrulhe as suas coisas! Tudo deve desaparecer em cinco minutos. Ele no me intimidava, na verdade o achei 
ridculo com seu uniforme de caubi tropical, mas mesmo assim tremi. Era nervosismo, uma coisa meio esqui-
zofrnica. Eu tinha uma cabea fria e lcida num corpo emotivo demais. Isso me irritava. Devia andar depressa, 
dobrar, enrolar, guardar, amarrar. Sabia por onde comear e por onde terminar, mas minhas mos no seguiam. Os 
gestos que eu repetia todo dia e que s levavam um segundo no me voltavam, sob o olhar irritado do bigodudo. Sabia 
que ele devia estar pensando que eu era uma estabanada e por isso mesmo fui ficando ainda mais sem jeito. Obstinava-
me em querer fazer as coisas com perfeio como para provar a mim mesma que essa aparncia desastrada era 
transitria. Portanto, recomeava a dobrar, enrolar, recolocar e reamarrar como uma manaca. O bigodudo pensava que 
eu estava fazendo aquilo de propsito para atrasar a execuo de sua ordem. No precisou mais que isso para que 
ficasse zangado comigo.
     Lucho observava e se alarmava, sentindo os problemas se acumularem sobre
222
 



nossas cabeas. Eu no tinha acabado de amarrar meu pobre saco de provises quando o bigodudo o arrancou de mim, 
visivelmente irritado, e me mandou segui-lo. Partimos em fila indiana num silncio doloroso, enquadrados por homens 
armados de cara patibular. Eu gravava na memria cada passo, cada acidente de terreno, cada particularidade da 
vegetao que pudesse me servir de indicador para a futura evaso. Ia andando com o nariz cravado no cho. Foi 
talvez por isso que tive a impresso de que a priso caiu em cima de mim. Quando a vi, eu estava prestes a me esmagar 
na grade e no arame farpado.
    A surpresa foi tanto maior porque j havia gente l dentro. Bestamente, eu presumira que, levando em conta que 
estvamos instalados to perto da priso, seramos os primeiros a chegar. Sombra agira de sorte que outros estivessem 
l dentro antes de ns, fosse para termos menos medo de entrar, fosse para indicar que j havia outros donos do local. 
O bigodudo nos mandou fazer um pequeno desvio intil que nos permitiu compreender que a priso estava dividida 
em dois: uma construo bem pequena e outra maior, encostadas uma na outra, separadas por um pequeno corredor 
largo o suficiente para permitir a passagem da ronda dos guardas. A entrada no prdio pequeno se fazia por um ptio 
de terra batida. Toda a vegetao fora eliminada, a no ser por umas poucas arvores pequenas, que jogavam sua 
sombra no telhado dos alojamentos para camuflar os tetos de zinco da observao dos avies militares. Todo o espao 
era fechado por grossas grades de ao. Uma pesada porta de metal, sem falar da corrente imponente e de um cadeado 
macio, vedava o acesso ao local.
    O bigodudo tirou da cala o molho de chaves, ficou mexendo no cadeado para nos deixar bem claro que a 
manobra no era simples e a porta se abriu com um rangido medieval. As quatro pessoas que j estavam ali deram uns 
passos atrs. Ele jogou minha trouxa l dentro como se tivesse umas feras diante de si. Desde que aparecemos no 
campo de viso deles, os quatro refns nos devoravam com os olhos. Todos estavam acabados fisicamente, os traos 
cansados, o rosto famlico, os cabelos brancos, as rugas profundas, os dentes amarelados. Porm, mais que com a 
aparncia fsica, fiquei comovida com a atitude deles, apenas perceptvel, a posio de seus corpos, o movimento do 
olhar, a inclinao da nuca. Quase se podia crer que tudo estava normal. No entanto, algo no era mais o mesmo. 
Como quando um novo perfume trazido pela brisa enche o ar e que ficamos em dvida se realmente o percebemos, 
pois ele j nos escapa embora tenha se impregnado em nossa memria.
    Eles estavam atrs das grades. Por alguns segundos, eu ainda estava fora. Era quase indecente olhar para eles, 
pois sua humilhao estava posta a nu e de nenhuma
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maneira podia novamente se esconder. Aquelas criaturas estavam despossudas de si mesmas,  espera da boa vontade 
dos outros. Pensei naqueles cachorros sarnentos, rejeitados e perseguidos, que no enfrentam mais os golpes, na 
esperana de serem esquecidos pelos que os importunam. Havia algo disso em seus olhares. Eu conhecia dois deles, 
tnhamos compartilhado os bancos do Congresso. Agora os revia diante de mim, vestidos miseravelmente, mal 
barbeados, as mos sujas, mantendo-se eretos, procurando salvar uma aparncia e uma dignidade apesar do medo.
     Doa-me v-los assim e o fato de que soubessem estar sendo vistos. A eles, por sua vez, doa a minha situao, 
conscientes de que dentro de alguns minutos partilharamos a mesma sorte, e doa o horror que liam em meu rosto.
     A porta estava aberta. O bigodudo me empurrou para dentro. Jorge Eduardo Gechem foi o primeiro a se adiantar 
e me recebeu em seus braos. Ele tremia, os olhos banhados de lgrimas:
    -                Minha senhora querida, no sei se devo estar feliz de rev-la ou muito triste.
     Gloria Polanco tambm me abraou calorosamente. Era a primeira vez que nos encontrvamos, mas era como se 
fssemos amigas h tempos.
     Consuelo se aproximou, e Orlando tambm. Ns todos chorvamos, aliviados seguramente por estarmos juntos, 
saber que todos estavam vivos, porm mais arrasados ainda pela desgraa comum. Orlando pegou nossas trouxas e nos 
levou para o alojamento. Era uma construo de madeira com uma grade metlica que cobria todo o interior, do teto 
at as paredes. Havia quatro camas superpostas to perto umas das outras que para chegar a elas tnhamos de nos 
esgueirar de banda.
     Num dos lados, as tbuas de madeira da parede tinham sido parcialmente cortadas, o que abria uma espcie de 
janelo dando para fora da cerca, e tambm inteiramente gradeado. O lugar banhava na penumbra e as camas do fundo 
estavam pura e simplesmente afundadas no breu. Um cheiro de mofo entrava pelo nariz desde a entrada, e tudo estava 
coberto por uma serragem avermelhada que pairava no ar, prova de que as barracas tinham sido construdas 
recentemente.
    -                Ingrid, vamos encarreg-la de distribuir as camas. Escolha primeiro a sua!
     A ideia me surpreendeu e me deixou de p atrs. Era inconveniente atribuir
um papel de chefe a quem quer que fosse. Lembrei-me das palavras de Alan e pensei que o melhor era me manter a 
distncia.
    -                No, no  meu papel. Pegarei a cama que sobrar depois que vocs tiverem escolhido as suas.
     Foi um constrangimento imediato. O nervosismo de uns e a rigidez de outros nos fez compreender muito 
depressa que por trs das boas maneiras havia
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uma verdadeira guerra entre nossos companheiros. Terminamos, os trs, colocados estrategicamente, de modo a servir 
de biombo entre nossos quatro companheiros. Clara no fundo do alojamento, entre Orlando e Consuelo, Lucho e eu 
entre os dois outros e eles. Isso parecia satisfazer a todos, e cada um de ns comeou a se instalar.
    Expliquei a Sombra que precisvamos de vassouras para varrer o alojamento e que seria desejvel abrir uma 
grande janela na fachada para permitir que as camas do fundo recebessem mais luz. Sombra me ouviu, inspecionando 
o recinto, e foi embora me garantindo que mandaria um de seus homens com a vassoura e a serra.
    Meus colegas se juntaram ao meu redor. Para eles a atitude de Sombra era inabitual:
    - Ele sempre diz no a todos os nossos pedidos!  uma sorte que a escute. Ainda assim teremos de ver se vai 
cumprir a palavra.
    Embalados com a ideia de uma nova janela, comeamos a fazer projetos: construiramos estantes com as tbuas 
que iam ser retiradas. Seria preciso pedir tbuas extras para fazer uma grande mesa onde poderamos almoar todos 
juntos e uma mesinha perto da porta de entrada para receber as marmitas das refeies.
    A ideia de conceber projetos que poderamos realizar em comum me entusiasmava. Criara-se um clima de 
fraternidade de que todos ns precisvamos. Mais relaxados, nos reunimos no ptio, sob as poucas rvores que tinham 
sido poupadas, dispostos a contarmos nossos diferentes percursos. Orlando tinha sido o primeiro a ser capturado e fora 
imediatamente colocado com os cinquenta oficiais e suboficiais que as Fare mantinham como refns h anos. 
Consuelo fora a segunda capturada. Trancada com os militares e os policiais, guardava uma lembrana ingrata dos 
meses em que foi a nica mulher no campo das Fare. Gloria tinha sido presa com os dois filhos, e depois subitamente 
separada deles e includa no grupo dos "intercambiveis". Jorge fora sequestrado dentro de um avio, trs dias antes 
de minha captura. A guerrilha havia reunido Gloria e Jorge algumas semanas antes, e depois os trancara com o resto 
do grupo.
    As tentativas de fuga e as traies haviam magoado uns e posto os outros a distncia. A suspeio se infiltrara 
entre eles e reinava a desconfiana. As relaes com a guerrilha eram arriscadas. Fazia mais de um ano que estavam 
nas mos de Sombra. Eles o temiam e o detestavam mas no se atreviam sequer a dizer isso, temendo ser denunciados. 
O grupo de Sombra fazia reinar o terror entre os prisioneiros. Contavam que um dos suboficiais, depois de uma briga 
com outro prisioneiro, foi assassinado.
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     Meus companheiros estavam com vontade de falar, de se abrir, mas as experincias terrveis que tinham vivido 
os obrigavam a ficar em silncio. Era fcil compreend-los. No compartilhamento das lembranas produz-se uma 
evoluo. Alguns fatos so dolorosos demais para ser contados: revelando-os, ns os revivemos de novo. Temos ento 
a esperana de que, com o passar do tempo, a dor desaparecer, e que em seguida ser possvel partilhar com outros 
aquilo que vivemos e nos aliviarmos do peso de nosso prprio silncio. Mas, volta e meia, quando no h mais 
sofrimento na lembrana,  por respeito a si mesmo que a gente se cala. J no sentimos a necessidade de desabafar, e 
sim a de no arrasar o outro com as lembranas de nossas prprias desgraas. Contar certas coisas  permitir-lhes ficar 
vivas no esprito dos outros, quando o que afinal nos parece mais conveniente  deix-las morrer dentro de ns 
mesmos.
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30. A chegada dos americanos

Fim de outubro de 2003        

    A vassoura chegou, como Sombra tinha prometido. Mas no a serra eltrica. Os guardas postados nas torrinhas 
nos eram inacessveis. Para todos os pedidos, era preciso esperar a chegada do recepcionista, que, pela primeira vez, no 
meu caso, no era mais uma moa. S os homens tinham autorizao de se aproximar da priso. E para simplificar as 
coisas, o grande bigodudo com chapu de guarda-florestal, Rogelio,  que foi nomeado para o posto. Ele abria a pesada 
porta metlica de manh e deixava a panela com a comida no cho, sem dizer uma palavra. Nossos camaradas pulavam 
em cima dele para conversar antes que desaparecesse, mas ele os empurrava violentamente para o interior, tornando a 
fechar a porta com toda pressa, gritando: "Depois, depois!".
    Durante o dia, ele passava diversas vezes na frente de nossa tela, ignorando os pedidos urgentes e as solicitaes 
dos meus camaradas. Rogelio ria, se afastando, satisfeito com as reaes que provocava. Minha situao tinha mudado. 
No fim das contas, eu tivera at ento um acesso facilitado ao comandante do acampamento, encarregado de resolver 
meus problemas. Ali, parecia que aquele jovem guerrilheiro  que ia garantir nosso contato com o exterior. Ele se 
tornou ento o nico homem a quem apresentar nossos pedidos. Meus camaradas se esforavam para lhe serem 
agradveis, mas ele reagia com desdm.
    As relaes humanas se transformaram no exato instante em que entramos
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na priso. O torno fechou-se sobre ns, apertando ainda mais. Tnhamos nos transformado em mendigos. Eu me via 
pendurada na tela, miando para chamar ateno. Fazendo um esforo para lamber as botas daquele personagem  custa 
de falsos sorrisos ou de uma camaradagem hipcrita que me era francamente insuportvel. Aquele homem adorava ser 
elogiado. Bem depressa estabeleceu relaes hierarquizadas conosco. Havia aqueles que lhe eram simpticos, a quem 
ele respondia mais depressa, que ele escutava com mais pacincia e, s vezes, mesmo com interesse. E depois havia 
ns, os outros, com os quais ele achava ter a obrigao de ser descorts. Eu me via, ento, pressionada de maneira 
grosseira diante dos meus camaradas cada vez que tinha necessidade de qualquer coisa, enquanto ele se apressava a 
satisfazer os pedidos dos que estavam do seu lado. Durante as horas que se seguiram a nosso confinamento, vi, 
consternada, como esse estrangulamento de relaes complexas ia se colocando. Aqueles que tinham tido a presena de 
esprito de engolir toda vergonha e fazer o papel de cortesos haviam conquistado ascendncia sobre ns, porque 
atravs deles  que era possvel obter certos favores que, em algum momento, pudessem nos parecer indispensveis.
     Essa situao produziu imediatamente uma grave e intensa diviso entre ns. No comeo, no parecia mais que 
uma situao canhestra, porque ao se sentirem observados e julgados pelos outros, aqueles que tinham escolhido ser 
servis faziam o possvel para atender aos pedidos dos outros. Todos se beneficiavam e, no fundo, cada um de ns no 
podia ter certeza de que no fosse agir da mesma forma em um ou outro momento.
     Para Lucho e eu, foi a necessidade de nos prevenirmos contra ns mesmos e de tentar manter a unio do grupo 
que nos levou a insistir com nossos camaradas para escrevermos uma carta de protesto aos membros do Secretariado. 
Eram poucas as chances de que nossa missiva chegasse s mos de Marulanda. Mas contvamos abrir por essa via um 
canal para entrar em relao direta com os chefes, alm de Sombra. Era preciso ultrapassar o recepcionista. E, depois, 
eu queria que houvesse uma declarao escrita, um testemunho de nossa revolta diante do tratamento a que estvamos 
submetidos.
     Eles no tinham o direito de nos trancar num campo de concentrao, mesmo em nome de sua doutrina 
revolucionria. Eu no queria que as Fare se acomodassem confortavelmente numa conscincia tranquila. Eu temia 
que fssemos terminar assim. Tnhamos discutido longamente com Lucho. Ele achava tambm que um de ns seria 
libertado em breve e que era preciso escrever uma carta secreta a Uribe, pedindo-lhe que autorizasse uma operao 
militar para a nossa libertao. Ele acreditava que eu seria a primeira a sair, graas ao empenho da Frana.
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    Reunimo-nos todos em concilibulo dentro do barraco. Tinha comeado a chover a cntaros: nossas vozes eram 
encobertas pelo barulho da chuva no teto de zinco. Os que estavam mais em contato com o recepcionista temiam que 
nossa carta fosse provocar represlias. Mas sentindo que podiam ser acusados de frouxido ou de submisso ao 
inimigo, eles apresentaram objees de forma e no de fundo. A mensagem secreta para Uribe criou menos problemas. 
Em princpio, todo mundo estava pronto a assinar, achando, provavelmente, que no havia nenhuma chance de a carta 
chegar a seu destinatrio. Gloria foi a nica a se abster. Ela havia sido sequestrada junto com os dois filhos mais 
velhos, e depois brutalmente separada deles. No queria que sua autorizao a uma operao militar de salvamento 
pudesse colocar em perigo a vida dos prprios filhos, ainda refns nas mos das Fare. Ns compreendemos suas 
razes.
    A redao da carta ao Secretariado nos ocupou quase toda a tarde. Lucho, como bom negociador, agia como 
intermedirio para acrescentar isto ou suprimir aquilo, de modo a satisfazer a todos. A chuva parou e vi um dos nossos 
falar com o recepcionista atravs da tela. Pensei notar uma atitude de delator, mas resolvi evitar toda emoo que 
pudesse comprometer a harmonia do grupo. Em seguida, vi essa mesma pessoa conversar longamente com Clara. A 
noite, quando nos apressvamos a assinar a carta aos comandantes, Clara anunciou que se recusava a assinar, porque 
no queria ter problemas com Sombra. No insisti. Os que viam com frieza a ideia de nossa ao de protesto 
declararam, aproveitando essa abertura, que devamos ficar todos unidos e que, no sendo esse o caso, eles tambm se 
abstinham. A carta ao Secretariado caiu por terra.
    A carta para Uribe foi assinada secretamente por metade da nossa jovem sociedade, sem que os outros que se 
recusavam soubessem. Os que ficaram at o fim do projeto corriam o risco de que a carta casse nas mos das Fare e 
de serem punidos. A diviso do grupo parecia fatal. A misso de esconder a carta foi confiada a mim, coisa que fiz 
durante longos anos, guardando-a por muito tempo, mesmo depois que fomos todos separados e enviados para campos 
diferentes. Ningum nunca a encontrou, apesar das incontveis buscas. Eu a tinha dobrado, embrulhado em plstico e 
costurado por dentro do reforo do cotovelo de meu agasalho. Eu a lia de vez em quando, mesmo anos depois de a 
termos escrito e assinado, sempre com um aperto no corao: naquele momento, ainda ramos capazes de ter 
esperana.
    No momento em que estvamos ainda machucados por nosso insucesso e pelas fissuras que haviam se instalado 
no grupo, a priso acordou em sobressalto. Ouvimos barulho de motores. Muitas embarcaes rpidas haviam chegado.
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Todos os guardas estavam envergando suas fardas de gala. Rogelio usava farda coberta de munies, boina de 
paraquedista inclinada sobre a orelha com o emblema das Fare. Estava to orgulhoso! No foi difcil obter dele a 
informao. Era Mono Jojoy que vinha fazer uma inspeo...
     Rapidamente nos pusemos todos de acordo sobre o que era preciso dizer a ele quando viesse nos cumprimentar, 
pensando que seria a oportunidade de exprimir a indignao de nossa famosa carta inacabada. Instalamos as redes no 
ptio de acordo com a disposio que tnhamos combinado, porque na vspera o espao fora distribudo 
milimetricamente entre ns e nos pusemos a esperar Mono Jojoy.
     O espao era talvez a nica vantagem que os prisioneiros do acampamento "militar" tinham sobre ns e que ns 
invejvamos. No dia de nossa chegada  priso, eu os vira pela primeira vez. Havia trocado as primeiras palavras com 
Gloria. Alertada por um rudo metlico e gritos agressivos atrs de mim, eu me virara. Por um instante, achei que os 
guerrilheiros estavam perseguindo porcos fugidos, como j os havia visto fazer.
     Do mato surgiram uns quarenta homens esfarrapados, cabelo comprido, barba crescida, uma grossa corrente nos 
pescoos prendendo um ao outro. Ladeados por guardas armados, marchavam em fila indiana, levando pesados sacos 
s costas, com grandes panelas por cima, colches embolorados e meio estripados enrolados na nuca, galinhas presas 
pelas patas balanando penduradas na cintura, pedaos de papelo e latas de leo vazias enfiadas pelo meio de suas 
tralhas e rdios quebrados e remendados pendurados no pescoo como um jugo suplementar. Pareciam prisioneiros. Eu 
no conseguia acreditar em meus olhos.
     Os guerrilheiros circulavam em torno deles, vociferando ordens estpidas para mant-los em marcha. Assisti a 
esse cortejo aterrorizador, agarrada s barras da porta metlica de minha priso, sem ar, olhos arregalados, muda. 
Reconheci Alan. Ele se virou e ao me ver sorriu, pouco  vontade:
    -                Ol, Ingrid...
     Os outros soldados todos se viraram para ns, uns depois dos outros:
    -                 Ingrid!  a doctora...
     A marcha se deteve. Uns me cumprimentaram de longe com um gesto amigo, outros levantaram o punho em 
sinal de resistncia, alguns me fizeram uma metralha de perguntas que eu no podia responder. Os mais ousados se 
aproximaram da porta para apertar minha mo atravs das barras. Eu os toquei, na esperana de que o contato com 
minhas mos pudesse lhes transmitir minha ternura e trazer um pouco de conforto. Esses cabeludos da selva, 
perseguidos, supliciados, tinham
230
 



a coragem de sorrir, de esquecer, de se comportar com uma dignidade e uma coragem que despertavam minha 
admirao. Sua nica reao digna era esquecer de si mesmos.
    Os guardas os insultaram e ameaaram para que no falassem conosco. Eles logo foram trancados no barraco ao 
lado do nosso. No podamos v-los, mas podamos ouvi-los. De fato, j tinha havido conversas entre nossos dois 
grupos, falvamos em voz baixa, colando a boca nas fendas das tbuas que ficavam frente a frente e davam para o 
corredor de ronda dos guardas. A comunicao entre os dois barraces era proibida.
    Assim descobrimos que Sombra tinha tido a generosidade de lhes atribuir um espao para a prtica de esportes, 
privilgio que ns no tnhamos. Na imensido da selva, onde faltava tudo, menos espao, a guerrilha resolvera nos 
confinar num lugar exguo e insalubre que favorecia apenas a promiscuidade e o confronto. As poucas horas de 
coabitao que tnhamos vivido j haviam deixado bem claras as tenses que nascem da necessidade de cada um 
defender seu espao. Como nas sociedades primitivas, o espao passou a ser nossa propriedade essencial, aquela cujo 
valor fundamental era reconfortar nosso amor-prprio ferido. Quem tinha mais espao se sentia mais importante.
    Instalados em nossas redes como num posto de observao, acompanhamos a inspeo de proprietrio de Mono 
Jojoy. Ele caminhava a uma distncia prudente da tela, e fez o giro por nosso complexo de modo que nossas vozes no 
pudessem chegar a ele, evitando qualquer contato visual. Se estivesse fazendo uma inspeo de gado, no teria agido 
diferente. Depois, desapareceu.
    Cerca de meia hora mais tarde, na ala norte da priso, apareceu um grupo de desconhecidos. Trs homens, dois 
loiros grandes e um jovem moreno, de bermudas, mochilas leves, ladeados por meia dzia de guerrilheiros armados 
at os dentes, circundaram nossa jaula, andando pelo caminho de tbuas que a guerrilha tinha acabado de construir e 
que fazia o circuito completo da priso, ao longo dos arames farpados. Eles olhavam  frente e continuaram assim at 
o barraco dos militares:
    - Hey, gringos! How are you? Do you speak English?
    Os militares estavam encantados de pr em prtica suas noes de ingls. Ns trocamos um olhar desconcertado. 
Claro! S podiam ser os trs americanos, aqueles que haviam sido capturados um ano antes e que tambm faziam parte 
do grupo dos "intercambiveis".
    Um de nossos companheiros, daqueles que mantinham boas relaes com Rogelio, declarou, bem informado:
231
 



    -                , so os americanos. Eles vo ficar conosco...
    -                Aqui?
    -                No sei, com os militares ou conosco. Acho que conosco.
    -                Mas como? No h mais lugar!
     Meu companheiro me olhou com ar perverso. Depois, como se encontrasse um jeito de ferir, disse bem devagar:
    -                So prisioneiros como ns. Ns recebemos voc bem quando chegou. Voc tem de fazer a mesma 
coisa com os outros.
     Eu me senti surpreendida em erro. Claro, evidentemente era preciso acolh-los o melhor possvel.
232
 



31. A grande disputa

Novembro de 2003

     A porta metlica se abriu, os trs americanos entraram, maxilares travados, olhar inquieto. Trocamos apertos de 
mos, nos apresentamos e abrimos espao para que pudessem se sentar. O companheiro que tinha me feito o sermo os 
tomou sob suas asas e mostrou as instalaes. Todo mundo comeou a especular sobre o que a guerrilha faria. A 
resposta veio na hora.
     Brian, um dos guerrilheiros mais truculentos do grupo, fez sua apario com a famosa serra eltrica s costas. 
Dois outros homens o seguiam, levando tbuas e uns caibros cortados grosseiramente. Pediram que tirssemos todas 
as coisas e sassemos. Em poucos minutos, um dos beliches foi serrado de sua base e colocado de lado, colado  tela 
de ao debaixo da abertura que fazia as vezes de janela. No espao restante, para nossa imensa surpresa, conseguiram 
engastar um novo beliche, enfiado entre os dois outros, com espao suficiente para passar de um lado apenas. 
Observamos a manobra sem dizer uma palavra. O barraco ficou coberto por uma serragem avermelhada que grudava 
nas narinas. Brian virou-se para mim, banhado em suor:
   -                Bom, como  a janela que voc quer que abra?
     Fiquei pasma. Achava que Sombra tinha se esquecido de nossa solicitao.
   -                Acho que devia abrir aqui - respondi, tentando recuperar o controle.
     Desenhei com o dedo um grande retngulo imaginrio na parede de madeira
233
 



que dava para nosso ptio interno. Keith, um dos 
trs que haviam entrado primeiro na priso, 
murmurou atrs de mim. Ele no parecia contente 
com o projeto e 
resmungou em seu canto. Um de nossos 
companheiros tratou de acalm-lo, mas a 
comunicao no era to simples, porque ele no 
falava bem espanhol. Conseguiu 
dar a entender que queria que a parede continuasse 
como estava. Tinha medo de 
sentir frio  noite.
    -                Ento, resolvam! - Brian 
estava impaciente.
    -                Abra, abra! - exclamaram os 
outros, inquietos com a possibilidade de 
Brian dar meia-volta e nos deixar ali plantados.
     O incidente deixou um incmodo no ar. Keith 
veio falar comigo depois, na
esperana de aplainar as arestas. Disse, em 
ingls:
    -                Sabe que, quando foi 
sequestrada, nossa misso era procurar voc? 
Passamos dias sobrevoando toda a regio... Quem 
haveria de dizer que a gente acabaria
        por se encontrar? Mas desse jeito!
     Era uma novidade. Eu ignorava que a 
embaixada americana tivesse contribudo na minha 
busca. Comeamos a conversar com certa 
animao. Contei que
joaqun Gmez gabava-se de que as Fare tinham 
conseguido derrubar um avio.
-  mentira. Eles no nos 
derrubaram. Ns tivemos uma 
pane no motor. 
        S isso.
     Depois, como se fizesse uma confisso, me 
disse, inclinando-se para perto do
meu ouvido:
-                Na verdade, eles tiveram muita sorte, 
porque ns somos os  
        nicos prisioneiros que contam de verdade 
aqui, ns trs e voc. Ns somos as jias da coroa!
     Eu fiquei quieta. Perturbou-me ouvir essa 
reflexo. Respondi, pesando as palavras:
    -                Ns somos todos 
prisioneiros, somos todos iguais.
     O rosto do homem se transformou. Ele me 
encarou, irritado. No recebeu 
bem o que tomou por uma repreenso. Eu, porm, 
no queria de forma nenhuma
que parecesse que eu estava lhe dando uma lio. 
Abri um sorriso e acrescentei:
    -                Voc tem de me contar em 
detalhes a sua histria. Quero muito saber o 
que voc viveu at agora.
     Lucho estava atrs de mim, eu no tinha visto 
que ele chegara. Ele me puxou 
pelo brao e a conversa acabou a. amos comear a 
construir as estantes. Orlando 
conseguira pregos e um martelo. Era preciso 
trabalhar depressa, o emprstimo s 
valia at o fim da tarde. Comeamos a trabalhar.
     Nessa noite, o barraco vibrou com o ronco 
de todos. Parecia o rudo de uma 
usina. O dia havia sido intenso e cada um de ns 
fora deitar extenuado. Eu olhava
234
 



o teto e sobretudo a tela pregada a dois dedos do meu nariz. Tinham construdo tudo to s pressas que, para chegar 
aos beliches superiores, era preciso engatinhar e rolar sobre si mesmo para deitar, de to reduzido era o espao entre 
as camas e o teto. Era impossvel sentar e, para descer do beliche, era preciso escorregar pouco a pouco no vazio, se 
agarrando  tela como um macaco para chegar  terra. Eu no me queixava muito. Pelo menos, era um lugar abrigado, 
com piso de madeira que nos mantinha secos. A janela nova tinha sido um sucesso. Uma brisa quente penetrava no 
barraco e limpava o ar pesado da respirao de dez pessoas empilhadas ali dentro. Um camundongo atravessou 
correndo a viga que eu tinha diante dos olhos. Quanto tempo precisaramos viver uns em cima dos outros at 
recuperarmos nossa liberdade?
    De manh, ao me levantar, descobri, junto com Lucho, que as estantes que com tanto esforo tnhamos construdo 
na vspera j estavam tomadas pelas coisas dos outros. No tnhamos mais espao! Ao nos ver, Orlando riu no seu 
canto:
   -                V! No faa essa cara.  simples, vamos pedir mais tbuas e fazemos mais estantes naquele canto 
l, atrs da porta. Vai ser melhor para vocs, na frente de seus beliches.
Gloria se aproximou. A ideia lhe pareceu 
excelente.
   -                E poderamos fazer tambm uma outra estante do lado de c da tela!
    Eu no estava contente, simplesmente porque achava muito improvvel que a guerrilha nos fornecesse mais 
tbuas. Sabia que seria preciso novas negociaes, que s de pensar me deixavam cansada. Para minha grande 
surpresa, a pedido de Orlando, as tbuas chegaram naquele mesmo dia:
   -                Voc vai ganhar uma bela estante, no  mesmo? Vou fazer uma escrivaninha para voc, como para 
uma rainha!
    Orlando continuava a caoar de mim, mas eu estava aliviada e tinha recuperado o bom humor. Ele e Lucho 
puseram-se a construir um mvel que servisse ao mesmo tempo de mesa e estante. Contavam tambm fazer uma 
pequena biblioteca para guarnecer o canto de Gloria. Eu queria ajudar. Mas senti que atrapalhava os movimentos 
deles. Retirei-me para o ptio, com a inteno de instalar minha rede, enquanto eles terminavam de trabalhar.
    O lugar que me tinha sido destinado estava ocupado por Keith, que ignorava que antes de eles chegarem j havia 
acordos para a distribuio dos lugares. S havia uma rvore em que eu podia pendurar minha rede, mas, nesse caso, a 
outra ponta teria necessariamente de ficar presa  tela de ao da cerca. Isso levantava dois problemas. Um: que me 
recusassem a autorizao de prend-la na tela exterior. Dois: que a corda de minha rede no fosse grande o bastante. 
Por sorte, Sombra
235
 



estava fazendo a ronda dos barraces e abordei a questo diretamente com ele. Ele concordou e me forneceu o pedao 
de corda necessrio. Meus companheiros ficaram me olhando de soslaio. Todos sabiam que, se eu tivesse dependido de 
Rogelio, no teria conseguido. Eram pequenas coisas. Mas nossas vidas eram feitas de pequenas coisas. Quando 
Rogelio veio trazer a comida da noite, vendo que eu estava instalada em uma rede pendurada na tela, uma sombra 
passou por seus olhos. Eu sabia que estava em sua lista negra.
     Tom, um dos nossos novos companheiros, que havia se instalado perto de Keith, emigrara para o meu lado 
minutos depois. Estava visivelmente zangado com seu compatriota. Ao ver que Lucho se juntava a ns, levantou a voz, 
fazendo um comentrio desagradvel. Teriam de pendurar as trs redes numa mesma rvore. Tentei lhe explicar que 
devamos todos fazer um esforo para nos acomodar, uma vez que o espao era restrito e no havia rvores suficientes. 
Exaltado, ele me respondeu com brutalidade. Lucho assumiu minha defesa e subiu de tom por sua vez. Tom vivia uma 
guerra fria com seu compatriota e se irritava com facilidade. Entendi que queria se afastar dele. Era tambm do 
interesse de Keith ver Tom se afastar. Ele se aproximou da tela enquanto Tom e Lucho se enfrentavam e cochichou 
alguma coisa para Rogelio.
     A porta metlica se abriu com um golpe e Rogelio entrou, zangado:
    -                Ingrid,  voc que est fodendo esta porra?! Aqui todo mundo  igual. No tem isso de um 
prisioneiro ser mais importante que os outros.
     Eu me calei imediatamente, entendendo que no se tratava apenas de um mal-entendido referente s redes.
    -                No quero saber de nada. Voc no  a rainha aqui. Voc obedece e ponto
final.
    -                Vou te acorrentar para voc aprender. Voc vai ver!
     Meus companheiros, aqueles que tinham envenenado Rogelio, foram para os cantos, rindo.
     Rogelio tambm estava adorando a situao. Seus camaradas nas torrinhas olhavam-no com admirao. Ele 
cuspiu no cho, ps de volta o chapu de guarda-florestal e saiu como um pavo.
     Lucho me pegou pelo ombro e me sacudiu ternamente:
    -                Vamos, j vimos isso antes. Onde est seu sorriso?
     Era verdade. Era preciso sorrir, mesmo que fosse duro. E ele acrescentou:
    -                Eles esto faturando em cima da gente. Eu ouvi o que voc respondeu quando o cara falou que 
vocs eram as jias da coroa... Acho que voc no fez um amigo.
236
 



    Mas as coisas tinham comeado bem. No incio, cada um tentava dar o melhor de si. Repartamos tudo, at 
mesmo as tarefas que distribumos entre ns da maneira mais equilibrada possvel. Tnhamos decidido varrer o 
barraco todos os dias, assim como a passarela de madeira que haviam terminado de fazer para acesso aos toaletes. O 
mais crtico, porm, era a limpeza das latrinas. Havamos confeccionado esfreges usando pedaos de camisetas. A 
cada dia, a limpeza das instalaes era feita em duplas.
    Quando era nossa vez, Lucho e eu nos levantvamos ao amanhecer. Tnhamos discutido no comeo, porque ele 
no queria absolutamente que eu fizesse a limpeza das latrinas. Ele fazia sozinho a lavagem do cubculo que nos 
servia de box de banho. Ora, era um trabalho que exigia muito vigor e eu no queria que o esforo lhe causasse uma 
crise de diabetes. No havia nada a fazer, ele ficava sempre com cara de zangado e impedia minha passagem. Eu ento 
me entrincheirava no barraco e arrumava tudo depressa, porque sabia que, quando terminasse sua tarefa, ele viria 
pegar a vassoura de minha mo para terminar o servio em meu lugar. Essa histria s divertia a Lucho e a mim. Era 
uma espcie de jogo para rivalizar nossos afetos.
    Mais do que tudo, eu queria manter uma atmosfera harmoniosa no seio do nosso grupo. Era uma tarefa que ficava 
dia a dia mais trabalhosa. Cada um chegava com sua histria de dor, de rancor ou de indignao. No havia nada de 
muito grave. Apenas pequenas coisas que assumiam uma importncia desmesurada porque estvamos todos em carne 
viva. Qualquer olhar atravessado ou palavra mal colocada era tomado por uma grave ofensa e se tornava fonte de 
rancor, perniciosamente ruminada.
    A isso somava-se a percepo do comportamento de cada um diante da guerrilha. Havia aqueles que "se vendiam" 
e aqueles que "continuavam dignos". Essa percepo era especulativa, porque bastava que qualquer um falasse com o 
recepcionista para que fustigssemos seu comportamento e o acusssemos de compactuar com o inimigo, muitas vezes 
por cime, porque no fim das contas, num momento ou noutro, tnhamos todos de pedir aquilo que nos era necessrio. 
O fato de "obter" aquilo que fora solicitado despertava nos outros uma cobia patolgica e alimentava o azedume de 
no ter a mesma coisa. Olhvamos todos com desconfiana, forados a divises absurdas, independente de nossa 
vontade. O ambiente tornou-se muito pesado.
    Certa manh, depois do desjejum, um dos novos companheiros veio me procurar com cara de poucos amigos.
    Justamente naquele momento eu tinha acabado de entabular uma discusso
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animada com Lucho, Gloria e Jorge. Eles queriam que eu lhes desse aulas de francs e estvamos nos organizando. A 
interrupo irritou meus amigos, mas eu fui com ele, sabendo que teramos muito tempo para continuar discutindo 
nosso projeto mais tarde.
     Ele tinha "ouvido dizer" que, quando eles chegaram, eu no tinha querido que ficassem conosco. Era verdade?
    -                Quem disse isso?
    -                No importa.
    -                Importa, sim, porque  uma verso maldosa e deturpada.
    -                Voc disse isso, sim ou no?
    -                Quando vocs chegaram, perguntei como eles fariam para nos acomodar todos juntos. Nunca disse 
que no queria que vocs ficassem conosco. Ento, a resposta  no, eu nunca disse uma coisa dessas.
    -                Bem, isso  importante, porque quando ns ficamos sabendo, nos sentimos muito mal.
    -                No deem ouvido a tudo que falam. Acreditem mais no que veem. Vocs sabem que, quando 
chegaram, fizemos de tudo para acolh-los bem. Quanto a mim,  um prazer falar com voc. Aprecio a sua conversa e 
gostaria que fssemos amigos.
     Ele se levantou, mais tranquilo, me estendeu a mo num gesto de cordialidade e pediu desculpas a meus 
companheiros por ter me monopolizado durante alguns instantes.
    -                 assim que as coisas so: eles querem dividir para reinar - disse Jorge, o mais prudente de ns. 
Depois, deu um tapinha em minha mo. -Vamos l, madame, vamos comear nosso curso de francs e isso vai obrigar 
todos ns a pensar em outra coisa!
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32. A numerao

    Eu comeava meu dia com uma hora de ginstica no espao compreendido entre as camas sobrepostas de Jorge e 
Lucho, aproveitando que elas ficavam na extremidade do barraco, onde eu no incomodaria ningum. Em seguida, ia 
fazer minhas ablues no cubculo, na hora exata que me coubera no cronograma que havamos estabelecido juntos 
para a utilizao do "banheiro". A entrada era fechada por um plstico preto, nico lugar onde podamos nos despir 
sem ser vistos. Antes do desjejum nos reunamos, Lucho, Jorge, Gloria e eu, sentvamos de pernas cruzadas em uma 
das camas de baixo, cheios de bom humor, trabalhando nossas lies de francs, jogando cartas, inventando projetos 
que realizaramos quando fssemos libertados.
    Quando chegava a comida, era uma debandada. No comeo, havia reflexos de cortesia. Ns nos aproximvamos 
com a tigela na mo e nos ajudvamos uns aos outros. Os homens cediam lugar s damas, havia formalidade. Mas as 
coisas mudaram imperceptivelmente. Um dia, algum exigiu que fizssemos fila. Em seguida, alguma outra pessoa, ao 
ouvir o clique do cadeado que se abria, precipitou-se para se servir antes dos outros. Quando um dos homens mais 
fortes insultou Gloria, acusando-a injustamente de dar cotoveladas para se servir, as relaes entre todos j estavam 
bem deterioradas. Aquilo que devia ser um momento de relaxamento se transformou numa disputa perversa, um 
acusando o outro de querer pegar o melhor de uma comida infecta.
239
 



     A guerrilha possua dzias de porcos. O cheiro de porco assado chegava frequentemente s nossas barracas, mas 
nunca tnhamos direito a ele. Quando mencionamos o fato para Rogelio, ele voltara satisfeito, balanando na mo a 
marmita contendo uma cabea de porco disposta sobre um fundo de arroz. Eram tantos dentes naquela cabea que ela 
parecia sorrir. "Um porco sorridente", pensei. Um enxame de moscas verdes, esvoaando em volta da marmita, o 
acompanhava feito uma escolta pessoal. Era francamente repulsivo, e era por isso que estvamos lutando. Tnhamos 
fome, nos sentamos mal, comeamos a nos comportar como se fssemos menos que nada.
     Eu no queria participar desse estado de coisas. Era absolutamente penoso ser empurrada por uns e vigiada por 
outros como se estivessem prestes a morder uns aos outros cada vez que algum se aproximava da comida! Eu 
observava as reaes, os olhares de esguelha. Lucho concluiu que era mais sbio eu no me aproximar mais da 
comida.
     Ento, eu ficava no barraco e Lucho levava a minha tigela e trazia meu arroz com feijo. Eu observava de longe 
nosso comportamento e me perguntava por que reagamos assim. No havia mais regras de civilidade a orientar nossas 
relaes. Tnhamos estabelecido uma outra ordem que, por baixo das aparncias de um tratamento meticulosamente 
igualitrio, permitia s personalidades mais belicosas e s constituies mais fortes se impor em detrimento dos 
outros. As mulheres eram presas fceis. Nossos protestos, expressos sob forma de irritao e de dor, eram facilmente 
ridicularizados. E se por descuido havia lgrimas, a reao era instantnea: "Ela quer nos manipular!"
     Jamais antes eu havia sido vtima da guerra dos sexos. Chegara  arena poltica no momento bom: era malvisto 
discriminar as mulheres e nossa ao era considerada como uma abordagem renovadora num mundo apodrecido pela 
corrupo. Essa agressividade contra as mulheres no me era familiar.
     Era por um medo irracional do sexo oposto que eu explicava a mim mesma, por exemplo, por que a Inquisio 
havia queimado tantas mulheres na fogueira.
     Certa manh, ao amanhecer, quando ningum tinha se levantado ainda, o recepcionista se colocou diante da 
janela lateral, na companhia de um outro guerrilheiro postado atrs dele, como para secund-lo numa misso que, a 
julgar pela rigidez dos dois, devia ser difcil.
     Rogelio trovejou com uma voz que sobressaltou todo o barraco:
     - Los prisioneros! Se numerem, rpido!*
* Prisioneiros! Digam seus nmeros, rpido!
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    Eu no entendi. Dizer seu nmero? O que ele estava nos mandando fazer? Debrucei-me na direo de Gloria, que 
dormia embaixo, na esperana de obter dela uma explicao. Ela havia passado mais tempo que ns com o grupo de 
Sombra. E eu imaginava que devesse saber o que Rogelio estava ordenando.
   -                 para nos contar. Jorge, que est bem junto da tela, comea dizendo "um", depois  minha vez, eu 
digo "dois", Lucho  o terceiro, ele diz "trs" e assim por diante - Gloria explicou, cochichando rpido, com medo de 
ser chamada  ordem pelos guardas.
    Tnhamos de nos numerar! Achei aquilo monstruoso. Perdamos nossa identidade, eles se recusavam a nos 
chamar por nosso nome. No passvamos de uma carga de um rebanho. O recepcionista e seu aclito se impacientaram 
com nossa confuso. Ningum queria executar a ordem. Algum no fundo do barraco gritou:
   -                Mas que merda! Comecem! Querem que eles fiquem fodendo com a gente o dia inteiro ou o qu?
    Fez-se silncio. Depois, com voz forte, como se estivesse num quartel de sentinela, algum gritou: "Um". A 
pessoa ao lado desse gaitou: "Dois". Os outros seguiram: "Trs", "Quatro"... Quando finalmente chegou minha vez, 
com o corao batendo e a garganta seca, disse, com uma voz que me pareceu mais forte do que eu pretendia:
   -                Ingrid Betancourt.
    E, diante do silncio de pnico que se seguiu, acrescentei:
   -                Quando tiverem vontade de saber se ainda estou aqui, podem me chamar pelo meu nome, eu 
responderei.
   -                Vamos, continuem, no tenho tempo a perder - berrou o recepcionista, para intimidar os outros.
    Ouvi um murmrio ao fundo: alguns de meus companheiros protestavam contra mim. Minha atitude lhes era 
insuportvel, achavam que se tratava de uma expresso de arrogncia.
    No era nada disso. Eu no podia aceitar ser tratada como um objeto, ser denegrida aos olhos no apenas dos 
outros, mas de mim mesma. Para mim, as palavras tinham um poder mgico, sobrenatural, e eu temia por nossa sade 
mental, por nosso equilbrio, por nosso esprito. J tinha ouvido guerrilheiros se referirem a ns como "a carga", "os 
pacotes", e estremecera. No era uma expresso andina. Muito ao contrrio. Tinha a funo de nos desumanizar.  
mais fcil dar um tiro num pacote do que num ser humano. Isso lhes permitia viver sem culpa o horror que nos faziam 
sofrer. J era bem difcil a guerrilha empregar esses termos para
241
 



falar de ns. Mas que ns cassemos na armadilha de utiliz-los ns mesmos me 
parecia horrvel. Eu via nisso o comeo de um processo de degradao que convinha a eles e ao qual eu queria me 
opor. Se a palavra "dignidade" tinha um sentido, 
ento era impossvel aceitar ser tratada como um nmero.
     Sombra veio me ver durante a manh. Tinha sido advertido do incidente. <
     Explicou que a numerao era um "procedimento de rotina", para verificar 
se ningum havia escapado durante a noite. Mas ele disse que compreendia bem  
minha reao e tinha dado instrues para que fssemos chamados por nossos 
nomes.
     Fiquei aliviada. A ideia de travar essa mesma batalha todas as manhs no 
me agradava. Mas alguns dos meus companheiros no gostaram. No conseguiam 
admitir que havia valentia em no nos submetermos.
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33. A misria humana

    Descobri em mim, ento, uma necessidade de isolamento que me levava a me encerrar num mutismo quase 
absoluto. Eu entendia que meu mutismo pudesse exasperar s vezes meus companheiros, mas observei tambm que 
havia momentos em nossas discusses em que o racional no tinha mais lugar. Toda palavra era entendida de um jeito 
atravessado e deturpado.
    No comeo de meu cativeiro, eu tinha sido bastante prolixa. Mas recebera o troco de ter me imposto aos outros e 
isso me deixara mortificada. Era constantemente abordada, em particular, por um dos meus camaradas que dominava a 
arte de impor sua presena a mim nos momentos mais inoportunos, quando eu tinha maior necessidade de silncio para 
encontrar uma paz interior.
    Keith contava em voz bem alta, para os outros escutarem, que tinha amigos muito ricos e que passava as frias 
caando com eles em lugares a que ns, mortais comuns, no teramos acesso. Ele no conseguia se controlar para no 
falar da riqueza dos outros. Era uma espcie de obsesso. Ele pedira a mo de sua noiva porque, aparentemente, a 
moa tinha uma boa agenda de endereos. O assunto preferido de sua conversa era seu salrio. Eu sentia vergonha. Em 
geral, eu o deixava no meio do discurso e me refugiava em minha mesa de trabalho. No conseguia entender como, no 
meio de um drama como o nosso, algum podia continuar vivendo dentro de sua bolha, convencido de que o valor das 
pessoas estava naquilo que possuam. O destino que partilhvamos no era a melhor 
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ocasio para provar o contrrio? No tnhamos mais nada. s vezes, porm, eu perdia esse distanciamento. Um dia, 
quando os guardas puseram um toca-discos a pleno volume do qual saa uma voz anasalada cantando refres 
revolucionrios a uma msica dissonante, eu reclamei. As Fare haviam desenvolvido uma cultura musical que 
acompanhasse sua revoluo, como haviam feito os cubanos antes deles, com muito sucesso. Infelizmente, por no 
terem conseguido seduzir talentos verdadeiros, as canes das Fare eram sempre chatas e sem musicalidade.
     Para minha grande surpresa, meus companheiros retorquiram, exasperados, que no eram obrigados a ouvir 
minhas lamentaes. Fiquei ofendida. Eles me faziam suportar seus monlogos e me impediam de exprimir minhas 
prprias queixas.
     Em condies normais, esse tipo de reao me faria rir. Mas na selva, a menor decepo produzia em mim dores 
inefveis. Essas desiluses que se acumulavam em camadas, dia aps dia, ms aps ms, tinham me deixado cheia de 
fadiga.
     Lucho me compreendia e sabia que eu era alvo de todo tipo de comentrios. No rdio, meu nome aparecia 
sempre e isso no fazia seno alimentar a acrimnia de alguns de meus companheiros. Se eu me mantinha  parte, era 
porque os desprezava. Se eu participava, era porque estava tentando me impor. Em sua irritao contra mim, 
chegavam a baixar o som do rdio quando meu nome era pronunciado.
     Uma noite, quando se falava de uma negociao do Quai d'Orsay para obter nossa libertao, algum rugiu: 
"Estou com o saco cheio da Frana!". Desligou com um soco a panela que nos servia de rdio comunitrio, pendurado 
num prego no centro do barraco. Todo mundo riu, menos eu.
     Gloria aproximou-se e me abraou dizendo:
     - Eles esto com inveja. Tem de dar risada...
     Eu no achava aquilo engraado. Estava machucada demais para perceber que estvamos todos atravessando 
uma sria crise de identidade. Tnhamos perdido nossos parmetros e j no sabamos quem ramos, nem qual era o 
nosso lugar no mundo. Eu deveria ter entendido quo devastador era para eles o fato de no serem mencionados no 
rdio: vivenciavam aquilo como uma negao pura e simples de sua existncia.
     Eu sempre lutara contra a estratgia das Fare de fomentar divises entre ns. Em relao a Sombra, meus 
reflexos continuaram os mesmos. Uma manh, quando nosso grupo j estava completo, chegaram colches de espuma: 
era um luxo que no dava para acreditar! Havia de todas as cores, com todas as estampas, e cada um tinha o direito de 
escolher o seu. Menos Clara. O guerrilheiro que os trouxe destinou a ela um colcho cinzento e sujo, que enfiou a 
fora por um vo da
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porta metlica. Lucho e eu tnhamos assistido  cena de longe. Tentei interferir em favor de minha companheira. Ele 
estava para mudar sua deciso quando Rogelio apareceu. Acreditando que eu estava exigindo alguma coisa para mim, 
partiu para seu discurso preferido sempre que me via:
   -                Voc no  a rainha aqui, voc faz o que a gente manda.
    A questo ficou, ento, resolvida, sem apelao. Clara pegou seu colcho cinzento e girou nos calcanhares sem 
nem um olhar na minha direo. Partiu imediatamente para o alojamento, para tentar trocar de colcho com um de 
nossos companheiros. Lucho me pegou pelo brao para dizer:
   -                Voc no devia ter interferido. J tem problemas que bastem com a guerrilha. E ningum vai te 
agradecer!
    De fato, Orlando, que tinha acabado de ceder de m vontade  troca com Clara, virou-se contra mim:
   -                Se voc estava com vontade de ajudar, bastava dar o seu para ela!
    Lucho sorriu para mim, com um ar de quem tudo entendia:
   -                Viu? Eu no disse?
    Levei tempo para aprender a me calar e isso me custou caro. Diante da injustia, era penoso para mim me 
resignar. Ento, certa manh, entendi que era mais sbio no tentar resolver os problemas dos outros.
    Sombra chegou lvido. Os militares enviaram mensagens a um dos nossos companheiros, em violao s regras 
que estavam estabelecidas. Com efeito, Consuelo recebera bolas de papel, enviadas do barraco ao lado do nosso. Ns 
todos participvamos da recepo das cartas, porque elas podiam cair em qualquer lugar e em particular sobre nossas 
cabeas quando estvamos do lado de fora, instalados em nossas redes. ramos cmplices e tomvamos o cuidado de 
pegar as bolinhas sem alertar os guardas postados no alto das torres de vigia.
    Sombra interrogou Consuelo.
    Vendo-a em dificuldades, pedi a ele para abrandar as regras que havia estabelecido, porque ns todos queramos 
conversar com nossos camaradas do outro barraco.
    Sombra se virou para mim com uma violncia que me surpreendeu:
   -                Bem que me disseram que  voc que arma confuso aqui!
    Ele me preveniu que, se me pegasse trocando mensagens com meus camaradas do outro lado, me trancaria num 
buraco para acabar com minha vontade de ser malcomportada.
    Ningum veio em meu socorro. Esse episdio inaugurou um debate apaixonado durante nosso curso de francs:
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    -                No tente mais, s vai agravar sua situao! - Jorge declarou, opinio que era tambm de Lucho.
    -                Aqui  cada um por si - acrescentou Gloria. - Cada vez que voc intervm, faz mais um inimigo.
     Eles tinham razo, mas eu detestava aquilo em que estvamos nos transformando. Sentia que corramos o risco 
de perder o melhor de ns mesmos, de nos dissolver na mesquinharia e na baixeza. Tudo isso no fazia seno 
aumentar minha necessidade de silncio. Sob os cus mornos de nosso cotidiano, a guerrilha havia, alm disso, 
semeado os germes de uma profunda ciznia. Os guardas fizeram correr o rumor de que os trs recm-chegados 
estavam infectados por doenas venreas. Enquanto se discutia essa informao entre ns, a guerrilha apartou de ns 
os trs novos companheiros para alert-los dos propsitos que devamos ter, e que no eram outros seno as histrias 
que eles tinham feito circular. Os guerrilheiros os acusavam de serem mercenrios e agentes secretos da CIA, fingindo 
ter encontrado transmissores microscpicos na sola de seus sapatos e chips de localizao camuflados em seus dentes. 
Enfim, fizeram correr o boato de que nossos companheiros queriam negociar a liberao deles com Sombra ao preo 
do envio da carga de cocana que eles se ofereciam para fazer entrar nos Estados Unidos utilizando os avies do 
governo americano.
     No foi preciso mais nada para dar origem a uma desconfiana generalizada. Uma noite, explodiu a crise. Uma 
palavra atravessada e as acusaes surgiram de todos os lados: uns eram acusados de espionagem, outros de traio. 
Lucho pediu que as mulheres do acampamento fossem respeitadas. Keith, por sua vez, acusou-o de querer matar com 
as facas de Mono Jojoy! Durante a noite, houve concilibulos com o recepcionista junto  tela.
     Na manh seguinte, foi feita uma busca. Os que estavam na origem dessa inspeo aquiesceram com satisfao. 
No eram as facas que os inquietavam. Essas ns tnhamos obtido "legalmente". Era o faco que tnhamos escondido 
na lama, debaixo do piso do barraco.
    -                 preciso mudar o faco de lugar hoje mesmo - me disse Lucho, uma vez terminada a busca. - Se 
nossos companheiros souberem onde ele est, vo nos denunciar imediatamente.
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34. A doena de Lucho

Incio de dezembro de 2003

    Meu segundo Natal no cativeiro estava chegando. Eu no tinha perdido a esperana de um milagre. O ptio de 
nossa priso, que no comeo no era mais que uma poa de lama, comeou a secar. Dezembro trazia, junto com a 
tristeza e a frustrao de estar longe de casa, um cu azul imaculado e uma brisa quente de frias, que ampliavam a 
nossa melancolia. Era o tempo da lamentao.
    Gloria conseguiu arrumar um baralho e ns nos habituamos, depois da toalete matinal, a nos instalar num canto 
do barraco para jogar bridge. Logo nas primeiras partidas, compreendemos que era imperativo deixar Gloria e eu 
ganharmos se quisssemos garantir o bom humor do grupo. Uma regra tcita se instaurou, que consistia em Jorge e 
Lucho jogarem a nosso favor sem que nos dssemos conta disso. Ns nos dividimos em duas equipes, a das mulheres e 
a dos homens. Gloria e eu fazamos de tudo para ganhar nossas partidas, Lucho e Jorge tudo para perder as deles. Essa 
situao incongruente revelava o melhor do carter de cada um e muitas vezes achei que ia morrer de rir vendo as 
manobras geniais de nossos adversrios para nos fazer ganhar. Lucho era um verdadeiro ator de comdia e ironia, 
chegando mesmo a fingir que desmaiava em cima das cartas para assim poder pedir uma nova rodada que nos 
favorecesse. Na lgica de que quem perde ganha, ns conseguimos brincar com nossos egos machucados, nos livrar de 
nossos reflexos de monopolizar e, acima de tudo, aceitar com mais tolerncia
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nosso destino. Jorge se divertia acumulando erros sutis, cujos efeitos s notvamos
dois ou trs lances depois, e que provocavam da parte de Gloria e de mim, quando  
o resultado se revelava, danas e gritos de guerreiros sioux.
     Desde o nosso sequestro o riso estivera ausente de minha vida e quanto - 
ah!, quanto - ele me fazia falta. Por causa disso, ao final de nossas partidas, eu 
sentia dor no maxilar, de tal forma os msculos de meu rosto estavam tensionados. Era o melhor tratamento contra 
depresso. Passei horas me olhando em um 
pequeno estojo de p de arroz que tinha sobrevivido a todas as buscas. No espelho redondo da tampa, no qual eu no 
conseguia observar seno uma parte do 
rosto de cada vez, havia descoberto uma primeira ruga de amargura na comissura 
dos lbios. Sua existncia havia me aterrorizado, assim como o amarelecimento 
dos dentes de que eu no tinha total certeza, porque a lembrana da cor original 
havia desaparecido. A metamorfose que se operava sub-repticiamente em mim 
no me agradava nada. Eu no queria sair da selva como uma velha murcha, 
devorada pela amargura e pelo dio. Era preciso mudar, no para me adaptar, o 
que me pareceria uma traio, mas para me alar acima daquele lodo espesso de 
mesquinharias e baixezas em que acabamos por chapinhar. Eu no sabia como 
enfrentar aquilo. No conhecia nenhum "modo de usar" para obter nvel superior de humanidade e maior sabedoria. 
Mas sentia intuitivamente que rir era o 
comeo da sabedoria que me era indispensvel para sobreviver.
     Ns nos instalamos ento em nossas redes, nos lugares que no eram mais 
objeto de disputas, e nos escutamos uns aos outros com indulgncia, pacientes 
quando um de nossos camaradas repetia pela vigsima vez a mesma histria. Contar para os outros parte de nossa vida 
nos punha diante de nossas memrias como 
diante de uma tela de cinema.
     Uma tarde, no rdio, as canes de Natal misturaram-se  msica tropical 
adequada s festas de dezembro. Essas rias que escutvamos todos os anos na 
mesma poca evocavam para cada um de ns lembranas ntidas.
     Eu estava em Cartagena, tinha quinze anos, a lua se invertia, preguiosa, na 
gua da baa, fazendo cintilar as cristas das ondas que se sobrepunham. Estava 
com minha irm, convidadas para uma festa de fim de ano. Tnhamos fugido, 
porque um Adnis bronzeado, com olhos verdes de gato, nos fizera propostas 
indecentes. Fomos embora, fugindo depressa, atravessando a cidade em festa 
como se tivssemos o diabo em nosso encalo para nos atirar nos braos de 
papai at o Ano-Novo, rindo, ainda ofegantes por termos deixado l o nosso 
galante e perigoso cavalheiro.
248
 



   -                Foram bobas de ir embora - declarou Lucho. - Nadie le quita a uno ni lo comido, ni lo bailado!*
* Ningum tira da gente o que se come e o que se dana!
    
    Dizendo isso, ele se ps a danar e ns o imitamos, porque no tnhamos nenhuma vontade de deixar que ele se 
divertisse sozinho.
    Passamos o resto da tarde, como nos dias anteriores, em nossas redes. Lucho levantou-se para ir ao toalete e 
voltou coberto de suor. Estava cansado e queria voltar ao barraco para se deitar, disse. Eu no enxergava mais seu 
rosto, porque estava na sombra, mas alguma coisa em sua voz me ps em alerta:
   -                Est se sentindo bem, Lucho?
   -                Estou, tudo bem - gemeu.
    Depois, mudando de ideia, acrescentou:
   -                Venha na minha frente, eu me apoio nas suas costas, voc me leva at minha cama, estou com 
dificuldade para andar.
    Assim que passamos pela porta, Lucho deixou-se cair numa cadeira de plstico. Estava verde, o rosto encovado, 
banhado em suor, o olhar vidrado. No conseguia mais articular as palavras e sentia dor para manter a cabea ereta. 
Exatamente como havia me advertido, estava tendo uma crise de diabetes.
    Lucho havia guardado uma reserva de balas e eu corri a procur-las em seu equipo.** Nesse meio-tempo, afundou 
perigosamente e escorregou da cadeira, correndo o risco de cair de cabea no cho.
   -                Me ajudem! - gritei, sem saber se era melhor ampar-lo, deit-lo no cho ou lhe dar as balas que 
tinha encontrado.
    Nesse momento Orlando chegou. Ele era grande e musculoso. Levantou Lucho nos braos e o ps sentado no 
cho, enquanto eu tentava faz-lo chupar as balas que tinha na mo. Mas Lucho no estava mais consciente. Tinha 
desmaiado e estava com os olhos brancos. Mastiguei eu mesma as balas, para coloc-las trituradas em sua boca.
   -                Lucho, Lucho, est me escutando?
    Sua cabea rodava para todos os lados, mas ele fez alguns grunhidos, que indicavam que em algum lugar na sua 
cabea ainda ouvia minha voz.
    Gloria e Jorge estenderam um colcho no cho para acomod-lo. Tom veio tambm e, com um pedao de papelo 
que desenterrara sabe Deus onde, comeou a abanar com fora o rosto de Lucho.
** Espcie de mochila ou sacola.
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    -                Preciso de acar, depressa, as balas no fazem efeito! - eu disse, alto,  
enquanto sentia as pulsaes de Lucho, que estavam muito fracas.
    -                Temos de chamar o enfermeiro! Ele est correndo perigo - gritou Orlando, que tambm se pusera 
a ouvir os batimentos de seu corao.
     Algum trouxe um saquinho de plstico com uns dez gramas de acar. Era 
um tesouro, aquilo podia salvar uma vida! Pus um pouco de acar debaixo da  
lngua dele e misturei o resto com um dedo de gua, que fiz com que bebesse aos 
golinhos. A metade escorria pelos cantos da boca. Ele no tinha nenhuma reao.
     O enfermeiro, Guillermo, nos gritou atravs da tela:
    -                Que confuso  essa a?
    -                Lucho est com uma crise de diabetes, est em coma. Voc precisa nos 
ajudar!
    -                No posso entrar!
    -                Como assim, no pode entrar?
    -                Preciso de uma autorizao.
    -                V buscar! No est vendo que ele est quase morrendo? Merda! - Orlando praticamente rugiu.
     O homem se afastou, sem pressa, dizendo de longe, com voz entediada:
    -                Parem de fazer barulho, vo chamar a ateno dos chulos, porra!
     Com a cabea de Lucho nos joelhos, senti medo e estava louca de raiva. Como  
aquele "enfermeiro" podia ir embora sem nem tentar nos ajudar? Eles o deixariam 
morrer sem mexer um dedo.
     Meus companheiros tinham se reunido em torno de Lucho, querendo ser 
teis de um jeito ou de outro. Uns tiraram suas botas, outros massagearam energicamente as solas dos ps, terceiros 
se alternavam para manter o ritmo da ventilao.
     Das vinte balas que Lucho tinha guardadas, sobrou apenas uma. Fiz com que 
ele engolisse o resto. Ele tinha me dito que duas ou trs seriam completamente 
suficientes para faz-lo voltar a si.
     Sacudi-o com fora:
    -                Lucho, eu imploro, acorde! No tem o direito de ir embora, no pode me 
deixar aqui, Lucho!
     Um silncio terrvel instalou-se sobre ns. Lucho jazia como um cadver em 
meus braos e meus companheiros tinham diminudo suas atividades para olhar 
para ele.
     Orlando balanou a cabea, consternado:
    -                So uns porcos! No fizeram nada.
250
 



Jorge se aproximou e ps a mo no peito de Lucho. Baixou a cabea e disse:
-                Coragem, madame chrie, enquanto o corao bater, h esperana! Olhei a ltima bala que me 
restava. Azar, era nossa ltima chance. Triturei-a
o melhor que pude e coloquei em sua boca. Vi que Lucho a engoliu.
   -                Lucho, Lucho, est me ouvindo? Se estiver me ouvindo, mexa a mo, eu imploro.
    Ele estava com os olhos fechados, a boca entreaberta. Eu no sentia mais sua respirao. Mas, depois de alguns 
segundos, mexeu um dedo. Gloria deu um grito:
-                Ele reagiu! Ele se mexeu! Lucho, Lucho, fale conosco! Diga alguma coisa! Lucho fez um esforo 
sobre-humano para reagir. Fiz com que bebesse um
pouco de gua com acar. Ele fechou a boca e engoliu com dificuldade.
   -                Lucho, est me ouvindo?
    Com uma voz rouca que fazia sair do limiar da morte, ele respondeu:
   -                Estou.
    Fiz meno de lhe dar um pouco de gua. Ele me deteve com um gesto:
   -                Espere.
    Ao me preparar para enfrentar a possibilidade de um coma diabtico, Lucho tinha me advertido de que o perigo 
maior era a leso cerebral que podia surgir em seguida.
   -                No me deixe entrar em coma, porque no vou conseguir voltar. E se eu desmaiar,  importante 
voc me acordar e me manter acordado durante as doze horas seguintes. So as horas mais importantes para a minha 
recuperao, vocs precisam me obrigar a falar, me fazendo todo tipo de perguntas para que possam verificar se no 
perdi completamente a memria.
    Eu comecei imediatamente a seguir as instrues que ele tinha me dado.
   -                Como est se sentindo?
    Ele balanou a cabea afirmativamente.
   -                Como est se sentindo? Responda!
   -                Bem.
    Era difcil para ele falar.
   -                Como  o nome de sua filha?
-                Como  o nome de sua filha, Lucho, faa um esforo! -... Carope.
   -                Onde ns estamos?
251

      
      Lucho no respondeu.
    -                Onde ns estamos?
      -... Na casa.
    -                Sabe quem sou eu?
    -                Sei.
    -                Como  meu nome?
    -                Est com fome?
    -                No.
    -                Abra os olhos, Lucho. Est vendo a gente?
      Lucho abriu os olhos e sorriu. Nossos companheiros se debruaram sobre ele para apertar sua mo, lhe dar as 
boas-vindas, perguntar como estava. Ele respondia com vagar, mas seu olhar estava sempre bao, como se ele no 
nos reconhecesse. Estava chegando de um outro mundo e envelhecera cem anos.
      Meus companheiros se alternaram a noite inteira para manter com ele conversas artificiais que o 
conservassem num estado de conscincia ativa. At a meia-noite, Orlando tinha conseguido fazer Lucho lhe explicar 
tudo o que era preciso saber sobre a exportao de camares.
      Eu peguei o turno seguinte. Durante essas horas de conversa, descobri que Lucho tinha recuperado a memria 
de fatos relativamente recentes, sabia que ns tnhamos sido sequestrados. Mas perdera por completo a lembrana 
dos acontecimentos de sua infncia e os do presente imediato. O dia anterior ao coma tinha se apagado totalmente. 
Quanto ao tamal, o prato que sua me costumava preparar no Natal, no existia mais. Quando eu lhe fazia a 
pergunta, sentindo que alguma coisa se perdia, ele me olhava com olhos medrosos de criana que no queria ser 
castigada e inventava respostas para me agradar.
      Isso me fazia sofrer mais que tudo, porque o meu Lucho, aquele que eu conhecera, que me contava histrias 
para me fazer rir, meu companheiro, meu confidente, esse Lucho, estava ausente e me fazia uma falta terrvel.
      Durante meses tnhamos trabalhado num projeto poltico que nos fazia sonhar e que contvamos pr em 
prtica quando fssemos libertados. Depois da crise, ele no sabia mais absolutamente nada do que eu falava. 
Talvez o mais atroz fosse que Lucho esquecia imediatamente aquilo que lhe dizamos. Pior, ele se esquecia do que 
tinha acabado de fazer! Tendo j tomado sua rao de desjejum, ele se queixava porque achava que no havia 
comido desde o dia anterior e, de repente, sentia que estava morrendo de fome.
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     O Natal estava chegando. Estvamos todos  espera de mensagens de nossas
famlias, porque, mais do que nunca, a separao deles nos torturava. Mas Lucho 
continuava ausente.
A nica coisa que ele no esquecia era a existncia de seus filhos. Curiosamente, mencionava trs, embora eu s 
tivesse conhecimento da existncia de dois. 
Ele queria saber se tinham vindo v-lo. Eu expliquei que ningum podia vir nos 
ver, mas que ns recebamos suas mensagens pelo rdio. Ele ficava impaciente para 
sintonizar a transmisso e escutar as prximas mensagens, mas caa no sono e na
manh seguinte tinha esquecido tudo.
     A transmisso de mensagens mais longa era  meia-noite dos sbados. Eu 
estava com o corao apertado: no se ouviam mensagens para ele. Eu no conseguia evitar e inventava:
   -                O que eles disseram?
   -                Que te amam e que pensam em voc.
   -                timo, mas me diga do que eles falaram.
   -                Falaram de voc, do quanto sentem sua falta...
   -                Espere, mas Sergio, o que ele falou da escola?
   -                Disse que tem estudado bastante.        
   -                Ah! muito bem, muito bem... E Carope, onde ela est?
-        Ela no disse onde estava, mas disse que este ser o ltimo Natal sem 
        voc e...
   -                E o qu? Me diga exatamente!
   -                E que ela sonha estar com voc no seu aniversrio e que ela...
   -                Ela o qu?
-                E que... ela vai mandar uma mensagem no dia do seu aniversrio. 
Meu Deus! Isso lhe dava tanto gosto que eu no tinha a menor vergonha de
mentir!
     "De qualquer jeito", eu dizia a mim mesma para no ficar com a conscincia
pesada, "dentro de dois segundos ele vai esquecer mesmo tudo o que eu disse."
Mas isso Lucho no esqueceu. Essa histria que lhe contei o prendeu ao presente e alm de tudo o fez sair de seu 
labirinto. Ele vivia  espera dessa transmisso. 
No dia de seu aniversrio, estava de volta entre ns, e nos alegrou a todos com seu 
bom humor.
     Keith, que tinha sido o responsvel pelo caso das facas, parecia se esforar
para que o perdossemos: veio abra-lo e explicou em detalhes o que tinha feito 
para tir-lo do coma. Lucho olhou para ele e sorriu. Tinha perdido muito peso, 
parecia frgil, mas recuperara sua ironia.
253
 



    -                Sim, agora lembro que j tinha visto!  por isso que eu estava com tanto 
medo de voltar!
     Um dos efeitos da priso era nos fazer muitas vezes perder a perspectiva das 
coisas. As querelas de uns com os outros eram vlvulas de escape para aliviar tenses mais fortes. Depois de um 
ms vivendo aglomerados na priso de Sombra, 
havia entre ns alguma coisa como uma reunio de famlia para bater papo, como
faziam Keith e Lucho.
     Eu pensava muito em Clara nestes termos: "Somos como irms, porque, o
que quer que me acontea, somos obrigadas a trilhar juntas nosso caminho de 
vida". No escolhemos uma  outra, fora uma fatalidade, tnhamos de aprender a 
nos suportar. Essa realidade era dura de aceitar. No comeo, eu tinha tido a impresso de precisar dela. Mas o 
cativeiro tivera como efeito esvaziar at mesmo esse 
sentimento de ligao. No comeo, eu procurara seu apoio, depois me submetera 
a seu peso. Paradoxalmente, era mais fcil para mim de longe tentar estabelecer 
novos contatos, uma vez que no esperava nada dela.
     Era isso que eu via entre Lucho e Keith, e, de um modo geral, entre todos ns. 
A aceitao do outro nos dava a sensao de ser menos vulnerveis e, portanto, 
mais abertos. Tnhamos aprendido a moderar.
     Fui procurar os presentes que tinha preparado para Lucho. Gloria e Jorge 
fizeram o mesmo: um mao extra de cigarros (grande sacrifcio para Gloria, que 
tinha se tornado uma fumante insacivel) e um par de meias "quase novas" cedido 
por Jorge. Ento, nos pusemos a cantar os trs em torno de Lucho com nossos presentes nas mos. Um a um, todos 
os outros chegaram, cada um com uma coisinha 
para oferecer.
     O fato de ver que os demais se interessavam por ele, a sensao de ser importante para o resto do grupo, tudo 
alimentava a vontade de viver de Lucho. Ele 
recuperou inteiramente a memria e, com ela, a crescente ansiedade de ouvir as 
mensagens que sua famlia havia prometido. Eu continuava incapaz de desmentir 
minha pequena inveno.
     No sbado, ele ficou acordado a noite inteira, ouvido colado ao seu rdio. 
Mas novamente, como no sbado anterior, no houve mensagem dirigida a ele. 
Ele foi buscar sua xcara de caf preto matinal e voltou de cabea baixa. Sentou-se
perto de mim e me olhou longamente:
    -                Eu sabia - ele disse.
    -                Sabia o qu, Lucho?
    -                Sabia que eles no iam falar.
    -                Por que diz isso?
254
 



   -                Porque em geral  assim.
   -                No entendo.
   -                , olhe, quando voc deseja muito alguma coisa, ela no acontece. Basta 
voc no pensar mais e blam! A coisa cai na sua frente.
   -                Ah, sei...
   -                Bom, de qualquer modo, eles tinham me avisado que iam viajar para as 
festas... No mandaram mensagem nenhuma, no ?
     Eu no sabia o que responder. Ele me deu um sorriso artificial e acrescentou:
   -                Ah, eu no estou chateado. Estava com eles no meu corao, como num 
sonho. Foi o meu presente de aniversrio mais bonito!
255
 



35. Um triste Natal

Dezembro de 2003

     Alguns meses antes da minha captura, eu havia visitado a priso do Bom Pastor, em Bogot.  um centro de 
recluso para mulheres. Fiquei perplexa com aquelas mulheres que se maquiavam e queriam viver normalmente 
em seu mundo enclausurado. Era um microcosmo, um pequeno planeta. Notei as cortinas atrs das grades e a 
roupa lavada secando em todos os andares da priso. Senti pena delas, tocada pela angstia com que me pediam 
pequenas coisas como se me pedissem a lua: um batom, uma caneta Bic, um livro. Eu devo ter prometido e com 
certeza me esqueci. Vivia num outro mundo, pensava que fazia mais por elas acelerando seus processos judiciais. 
Como estava enganada. Era aquele batom, aquela Bic, que podiam mudar suas vidas.
     Depois do aniversrio de Lucho, prometi a mim mesma no deixar passar em branco os aniversrios dos 
demais. Eu me sentia esmagada contra um muro de indiferena. Para o ms de dezembro, trs outros estavam na 
lista de espera. Quando sugeri que comemorssemos o aniversrio dos prximos, meus companheiros recusaram. 
Alguns porque no gostavam da pessoa, outros "porque no havia razo para isso" e os ltimos ergueram os 
olhos com desconfiana: "Ela quer mandar na gente?"
     Lucho riu de meu insucesso:
     - Eu no disse?
256 




     Resolvi agir sozinha.
     Uma semana depois da festa de Lucho, escutei, ao acordar, nos rdios que eram ligados ao mesmo tempo para 
escutar o mesmo programa, a voz da esposa de Orlando, que lhe dava os parabns por seu aniversrio. Foi 
impossvel fingir no ter escutado. Fiquei penalizada de ver Orlando entrar na fila para pegar sua xcara de caf 
enquanto os outros fingiam ignorar o acontecimento que podia mudar nossa rotina. Estava escrito como um letreiro 
em sua testa, ele esperava que algum lhe desse os parabns. Eu hesitei, na verdade, pois no era muito prxima de 
Orlando.
     - Orlando? Quero lhe desejar um feliz aniversrio.
     Uma luz brilhou em seus olhos. Era um homem forte. Ele me abraou como um urso e pela primeira vez me 
olhou de um jeito diferente. Os demais fizeram a mesma coisa.
     Os dias que precederam o Natal foram diferentes. O "tijolo" ficava ligado o dia inteiro para nos permitir ouvir 
nossa msica tradicional. Escutar os clssicos do momento era para ns uma verdadeira sesso de masoquismo.
     Conhecamos de cor todas as letras e melodias. Vi que Consuelo estava jogando cartas com Mare, um dos trs 
recm-chegados, em cima da mesa grande e que enxugava lgrimas furtivas com uma ponta da camiseta. As notas 
de "La piragua" jorravam do rdio. Era a minha vez de ser sentimental. Lembrei de meus pais danando ao lado da 
grande rvore de Natal na casa de minha tia Nancy. Seus ps deslizavam no mrmore branco em perfeita sincronia. 
Eu tinha onze anos, queria fazer igual. Era impossvel ignorar as lembranas que saltavam na nossa frente. Alm 
disso, ningum queria evit-las. Aquela tristeza era a nossa nica satisfao. Ela nos fazia lembrar que no passado 
tnhamos tido direito  felicidade.
     Gloria e Jorge tinham instalado suas redes no canto que ningum nunca disputou, entre dois arbustos sem 
sombra. Lucho e eu tentamos nos aproximar deles, prendendo uma rede para ns dois no canto da tela. No era 
muito confortvel, mas podamos conversar durante horas. Uma noite, houve um rudo seco. Jorge e Gloria tinham 
cado de suas redes e estavam sentados no cho do jeito que haviam aterrissado, duros e doloridos, com toda a 
dignidade de que eram capazes para atenuar o ridculo. As risadas vieram de todos os lados. Acabamos por nos 
enrolar em nossas redes, deixando o espao livre para esboar alguns passos de dana, ao som daquela msica que 
era um chamado irresistvel  festa. Era por causa da brisa quente que soprava atravs das rvores, ou da lua 
esplndida acima de nossas cabeas, ou da msica tropical? Eu no enxergava mais os arames farpados, nem os 
guardas, apenas meus amigos, nossa alegria, nossos risos. Eu estava feliz.
257


     Ouviu-se um rudo de botas, algum se aproximou correndo, um vozerio, 
ameaas, o foco de lanternas sobre ns.
    -                Onde vocs pensam que esto? Desliguem essa merda de rdio, todo mundo para dentro do 
barraco, nenhum barulho, nenhuma luz, entendido?
     Na manh seguinte, ao amanhecer, o recepcionista veio nos avisar que Sombra queria falar com cada um de 
ns separadamente.
     Orlando chegou perto de mim:
    -                Cuidado, h um compl contra voc!
    -                Ah, ?
-        , eles vo dizer que voc monopoliza o rdio e no deixa ningum 
        dormir.
    -                No  verdade. Podem inventar o que quiserem. Pouco me importa.
     Falei com Lucho e resolvemos prevenir Gloria e Jorge.
    -                Deixem que eles falem o que quiserem e se concentrem em pedir o que 
vocs precisam, no  todo dia que o velho Sombra resolve nos receber! - Como 
sempre, a voz de Jorge estava cheia de bom-senso.
     Tom foi o primeiro a ser chamado. Voltou com um grande sorriso e declarou 
que Sombra tinha sido muito amvel e lhe oferecera um caderno. Os outros foram 
em seguida. Todos voltaram encantados com sua entrevista com Sombra.
     Eu o encontrei sentado em uma espcie de cadeira de balano num canto 
do que ele chamava de seu escritrio. Em cima de uma prancha que fazia as vezes 
de mesa, havia um computador e uma impressora, de um branco sujo. Sentei-me 
onde me indicou, na frente dele. Ele tirou um mao de cigarros e me ofereceu um. 
Eu ia recusar, porque no fumo, mas mudei de ideia. Podia guard-lo para meus 
companheiros. Peguei-o e guardei no bolso do agasalho.
    -                Obrigada, vou fumar depois.
     Sombra estourou numa risada e tirou de debaixo da mesa um pacote de cigarros fechado que estendeu para 
mim.
    -                Leve isto. Eu no sabia que voc tinha comeado a fumar!
     No respondi. A Boyaca estava ao lado dele. Ela me observava em silncio. Eu 
tinha a impresso de que ela enxergava dentro de mim.
    -                Pegue alguma coisa para ela beber. O que voc quer, uma Coca?
    -                Isso, obrigada, uma Coca-Cola.
     Ao lado de seu escritrio, Sombra tinha mandado construir um cmodo todo 
de grades, fechado com cadeado. Aparentemente, ali encerrava seus tesouros. Dava 
para ver garrafas de bebida alcolica, cigarros, coisas de comer, papel higinico 
e sabonete. No cho, ao lado dele, um grande cesto de vime continha uns trinta
258
 



ovos. Eu desviei os olhos. Boyaca reapareceu com a Coca-Cola, que ps na minha 
frente, e em seguida saiu.
   -                Ela queria dizer bom-dia - disse Sombra ao v-la sair. - Gosta muito 
de voc.
   -                Que bom. Muito obrigada por me dizer.
   -                So os outros que no gostam de voc.
   -                Quais "outros"?
   -                Bom, seus companheiros de priso!
   -                E por que eles no gostam de mim?
   -                Eles talvez tenham pensado que iam fazer a festa...
     Disse isso com um ar malicioso.
   -                Estou brincando. Acho que eles ficam irritados de ouvir falar s de voc 
no rdio.
     Eu tinha tantas coisas no meu corao. Seu comentrio disparou uma franqueza que eu no tinha previsto:
   -                No sei, acho que h muitas explicaes, mas acho sobretudo que so 
envenenados por Rogelio.
   -                O que ele tem a ver com tudo isso, o pobre Rogelio? 
   -                Rogelio foi muito grosseiro, ele entrou na priso e me insultou.
   -                Por qu?
   -                Porque defendi Lucho.
   -                Achei que era Lucho que defendia voc.
   -                Tambm. Lucho me defende o tempo inteiro. E eu estou muito preocupada com ele. Quando ele 
teve a crise de diabetes, vocs se comportaram como 
monstros.
   -                O que voc queria que eu fizesse? Ns estamos na selva!
   -                Ele precisa de insulina.
     Sombra explicou que no tinha como refriger-la.
   -                Ento, deem a ele uma alimentao diferente: peixe, atum em lata, salsichas, cebolas, qualquer 
legume, eu sei que vocs tm. Ovos, por exemplo!
   -                No posso fazer distines entre os prisioneiros.
   -                Vocs fazem isso o tempo inteiro. Se ele morrer, no haver outro responsvel seno vocs.
   -                Voc ama Lucho, no ?
   -                Adoro, Sombra. A vida nessa priso  infame. As nicas coisas boas do dia 
me vm das palavras de Lucho, de sua companhia. Se acontecer alguma coisa com 
ele, eu no poderia nunca perdoar voc.
259
 



      Ele ficou em silncio um longo momento, depois, como se tivesse tomado uma deciso, acrescentou:
    -                Bom, vou ver o que eu posso fazer.
      Dei um sorriso e estendi a mo:
    -                Obrigada, Sombra...
      Levantei para ir embora, mas num sbito impulso, perguntei:
    -                Realmente, por que voc no me autorizou a fazer um bolo para Lucho? Foi aniversrio dele, 
dias atrs.
    -                Voc no tinha me avisado.
    -                Tinha, sim, mandei um recado por Rogelio.
      Ele olhou para mim surpreso. Depois com sbita determinao, acrescentou:
    -                Ah, sim! Eu  que esqueci!
      Imitei seu gesto, os lbios projetados num bico, os olhos bem apertados, e disse, ao sair:
    -                Claro, eu sei que voc esquece de tudo!
      Ele estourou numa risada e gritou:
    -                Rogelio! Acompanhe a doctora.
      Rogelio saiu de trs da casa, me deu um olhar assassino e me intimou a me apressar.
      Dois dias antes do Natal, Sombra fez entregarem a Lucho cinco latas de atum em conserva, cinco latas de 
salsichas em conserva e um saco de cebolas. No foi Rogelio quem trouxe. Ele havia sido substitudo por Arnoldo, 
um jovem guarda sorridente que deixava bem claro que tinha de manter distncia de todo mundo.
      Lucho pegou suas latas e chegou carregado ao barraco. Depositou tudo em cima da mesa e veio me abraar, 
vermelho de prazer:
    -                No sei o que voc disse para ele, mas deu certo!
      Eu estava to contente quanto ele. Ele me afastou para me olhar melhor e acrescentou com um ar sedutor:
    -                De qualquer modo, sei que fez isso mais por si mesma que por mim, porque agora vou ser 
obrigado a repartir essas coisas com voc!
      Estouramos numa risada e nosso eco encheu todo o barraco. Eu me contive depressa, incomodada por estar 
to contente na frente dos outros.
      Incomodada sobretudo por causa de Clara. Era seu aniversrio. Eu havia escutado as mensagens, no tinha 
vindo nenhuma para ela. Durante dois anos, sua famlia nunca lhe dirigira uma simples palavra. Mame a 
saudava quando
260
 



me enviava mensagens e s vezes contava que tinha visto a me dela, ou que haviam conversado. Um dia, eu tinha 
perguntado a Clara por que ela no recebia mensagens da me. Ela me explicara que a me vivia no campo e que 
era difcil envi-las.
     Voltei-me para Lucho:
   -                 aniversrio de Clara...
   -                Sei. Acha que ela vai ficar contente se a gente lhe der uma lata de salsichas?
   -                Tenho certeza que sim!
   -                Ento, leve voc.
     Lucho queria limitar na medida do possvel o contato com Clara. Ela havia tomado atitudes que o chocaram e 
ele era inflexvel na deciso de no ter contato com ela. Mas Lucho era antes de tudo generoso e tinha bom 
corao. Clara ficou tocada com o gesto.
     O dia de Natal enfim chegou. O clima estava muito quente e seco. Passvamos o dia cochilando, bom meio de 
passar o tempo. As mensagens de Natal nos chegaram adiantadas, porque a transmisso de rdio ia unicamente da 
meia-noite de sbado ao amanhecer de domingo. Ora, esse Natal caiu bem no meio da semana. O programa, 
gravado, tinha sido decepcionante, porque o presidente Uribe prometera enviar uma mensagem aos refns e no o 
fizera. Os chefes das Foras Armadas e da polcia, ao contrrio, tinham se dirigido aos oficiais e suboficiais, refns 
como ns nas mos das Fare, para pedir que resistissem. Nada mais deprimente. Quanto a nossas famlias, elas 
haviam passado horas esperando para poder se manifestar ao microfone, num programa organizado pelo 
jornalista Herbin Hoyos, que as reunira na praa Bolvar. Fazia uma noite glacial que no era difcil de imaginar, 
porque ouvamos o vento nos microfones, e a voz distorcida daqueles que tentavam articular algumas palavras no 
frio de Bogot. Tinha havido o apelo dos fiis, em particular da famlia de Chikao Muramatsu, um industrial 
japons sequestrado anos antes e que recebia religiosamente as mensagens da esposa, que lhe falava em japons, 
sobre um fundo de msica zen, o que punha ainda mais em destaque a dor de suas palavras, que, claro, eu no 
compreendia, mas que entendia perfeitamente. Havia tambm Beatriz, me de David Mejia Giraldo, um menino 
sequestrado aos treze anos e que devia ter quinze agora. Ela lhe pedia que rezasse, que no acreditasse no que a 
guerrilha dizia e que no se tornasse igual aos seus raptores. Mais recentemente, a famlia da pequena Daniela 
Vanegas viera se juntar aos fiis. Sua me chorava, seu pai chorava, sua irm chorava. E eu chorava o tempo todo. 
Uns aps outros, escutava todos, durante toda a noite. Ouvi o apelo
261
 



da noiva de Ramiro Carranza. A moa tinha nome de flor e suas mensagens eram, todas, poemas de amor. Ela 
nunca faltava a um encontro, e nesse Natal estava l, como sempre, junto com todos ns. Tambm estavam ali os 
filhos de Gerardo e Carmenza Angulo, negando-se a acreditar que o idoso casal pudesse j no estar vivo. Havia, 
enfim, as famlias dos deputados de Valle dei Cauca. Acompanhei com especial emoo as mensagens de Erika 
Serna, esposa de Carlos Barragn. Carlos tinha sido levado embora no dia de seu aniversrio e tambm dia em que 
nascera seu filhinho, numa curiosa coincidncia. O pequeno Andrs crescera atravs do rdio. Ns tnhamos 
escutado seus primeiros balbucios, e suas primeiras palavras. Erika era loucamente apaixonada pelo marido e 
tinha transmitido esse amor ao beb, que aprendera a falar com um pai desconhecido, como se ele o tivesse aban-
donado. Havia tambm a pequena Daniela, filha de Juan Carlos Narvaez. Devia ter trs anos quando o pai 
desapareceu de sua vida. Mas ela se apegava  sua lembrana com uma tenacidade desesperada. Eu ficava 
perplexa com aquela menininha de quatro anos e meio que, pelo rdio, contava para si mesma as ltimas 
conversas deles, como se seu papai fosse o nico a escut-la no outro lado das ondas.
     E, depois, havia os nossos, as mensagens para ns, os refns de Sombra. J tinha me acontecido de 
adormecer durante as horas interminveis dessa transmisso. Apagara um minuto ou quem sabe uma hora? Eu 
no sabia. Mas quando isso me acontecia, eu era tomada de angstia e de culpa ao pensar que podia ter perdido a 
mensagem de minha me. Era a nica que falava comigo sem falta. Meus filhos me surpreendiam s vezes. 
Quando os escutava, ficava tremendo de choque. Anos depois, no Natal anterior  minha libertao, recebi uma 
mensagem dos trs, Mlanie, Lorenzo e Sebastian, no meu aniversrio, que era tambm em 25 de dezembro. Senti 
que tinha muita sorte de ainda estar viva, porque aqueles cujas mensagens eu escutava antes, os refns de Valle 
dei Cauca, o industrial japons, a pequena Daniela Vanegas, Ramiro Carranza, os Angulo, tinham morrido no 
cativeiro. Meus filhos estavam ento na Frana, com o pai. Eles cantaram para mim, cada um disse algumas 
palavras, primeiro Mla, depois Sbastien, Lorenzo por ltimo. Eles souberam que eu estava ouvindo, mas s 
muitos anos depois.
     Para esse Natal de 2003, eles no sabiam como eu podia ouvir, nem como entenderia. Recebi a mensagem de 
minha me, esperando estoicamente sua vez no frio sepulcral da praa Bolvar. Recebi a de minha irm, Astrid, e 
de seus filhos. Recebi a de minha melhor amiga, Maria dei Rosario, que tinha ido  praa Bolvar pessoalmente 
com o filhinho Marcos, que apesar da pouca idade no protestava contra o frio e a hora muito avanada, e 
Merelby, meu fiel amigo do partido Oxignio. 
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No recebi mensagem de meu marido. Teria eu dormido por um instante sem me dar conta? Verifiquei com 
Lucho, que ficara acordado. Meus outros companheiros no teriam me contado. Essa atitude no era dirigida 
exclusivamente a mim. Eu via que, mesmo entre amigos, eles reagiam assim, fingindo no ter ouvido e se 
recusando a repetir para o interessado. A selva nos metamorfoseava em baratas e rastejvamos sob o peso de 
nossas frustraes. Eu tinha decidido ir contra essa tentao, aprendendo de cor as mensagens destinadas aos 
outros para me certificar de manh de que eles as tinham recebido direito. Mas s vezes eu constatava que minha 
atitude exasperava o beneficirio, talvez porque ele no quisesse se sentir devedor. Eu no me importava. Queria 
romper os crculos viciosos da nossa estupidez humana.
     Foi assim que, uma manh, resolvi abordar Keith depois de ter ouvido uma mensagem em espanhol que lhe 
era destinada. Os americanos raramente recebiam notcias dos seus. Eles escutavam as transmisses em ondas 
curtas provenientes dos Estados Unidos, em particular A Voz da Amrica, que, s vezes, gravava as mensagens de 
suas famlias e as transmitia em seu setor para a Amrica Latina. Essa mensagem era de natureza diferente. Devia 
ser, eu imaginava, muito importante. A voz feminina anunciou o nascimento de dois meninos, Nicolas e Keith, dos 
quais ele era pai.
     Ele tambm tinha ouvido a mensagem, mas no tinha certeza de ter entendido direito. Seu vocabulrio do 
espanhol ainda era reduzido. Repeti o que tinha memorizado. Ele pareceu muito feliz e muito inquieto ao mesmo 
tempo. Por fim, sentou-se montado ao contrrio numa das cadeiras de plstico e confessou:
     - Eu sou noivo de outra mulher, entende? Me pegaram numa armadilha!
     Eu era capaz de entender, sim. Eu tambm me sentia emaranhada em minhas obsesses: meu marido no 
tinha efetivamente entrado em contato, nem no dia do meu aniversrio. De fato, nunca tinha me mandado 
mensagem nenhuma.
     Depois que o recepcionista saiu com as vasilhas do caf da manh, fui me refugiar em meu beliche: ia 
comemorar mais um ano no vazio.
     Na vspera de Natal,  meia-noite, acordei sobressaltada. Havia uma lanterna de bolso apontada para mim, 
eu estava ofuscada, no enxergava nada. Ouvi risos, algum contou at trs e vi todos eles, na frente da minha 
cama, de p e alinhados como um coral: puseram-se a cantar. Era uma de minhas canes preferidas, um nmero 
do trio Martino, "Las noches de Bocagrande", com todos os efeitos de voz, os silncios e os trinados. "Noites de 
Bocagrande, sob a lua prateada, e o mar bordando estrelas na beira da praia, eu te juraria amor eterno, no vaivm 
de nossa rede."
263
 



     Como no adorar todos eles, de shorts e camiseta, cabelos despenteados, olhos inchados de sono, se dando 
cotoveladas para chamar a ateno dos que desafinavam? Era de tal forma ridculo que era magnfico. Eles eram 
minha nova famlia.
     Algum bateu nas tbuas do lado do dormitrio dos militares:
    -                Calem a boca! Merda! Deixem a gente dormir!
     Imediatamente, um guarda apareceu atravs da tela:
    -                O que foi? Esto doentes ou o qu?
     No, ns estvamos simplesmente ns mesmos.
264
 



36. As querelas

     Clara tinha conseguido unanimidade contra ela. Seu comportamento crispava o nosso grupo bem mais do que 
me contrariava, provavelmente porque a presena dos outros agia como um filtro entre ns. Uma manh, houve 
um problema porque, tendo utilizado o boxe de banho, ela o deixara num estado indescritvel. Orlando reuniu 
todo mundo em conselho para decidirmos a "atitude a tomar".
     Dei de ombros, porque no tinha nenhuma "atitude a tomar", a no ser ir me arrumar. Tinha vivido com ela o 
suficiente para saber que tentar fazer com que raciocinasse tinha o mesmo efeito de falar com uma parede. De fato, 
quando foram protestar, Clara os ignorou altivamente. Uma noite, Clara pegou o rdio comunitrio, que ficava 
pendurado num prego, e levou para o seu canto. s vezes acontecia de alguns de ns, particularmente 
interessados em alguma transmisso, se apropriarem dele por alguns minutos. Mas a, novamente ela deixou "o 
tijolo" crepitar, captando apenas o chiado do nada. No comeo, ningum se deu ao trabalho de prestar ateno, o 
rudo fundia-se com as conversas. Quando todos foram se deitar e ficaram em silncio, aquele incmodo se tornou 
insuportvel. Havia sinais generalizados de desconforto, depois, sinais de impacincia. Uma voz solicitou que o 
rdio fosse desligado, seguida minutos depois por outro pedido, mais insistente, que ficou sem resposta. Depois, 
ouviu-se um grande rudo, seguido da voz rude de Keith, berrando:
265
 



    -                Da prxima vez que eu pegar voc fazendo esse jogo, quebro o aparelho 
na sua cabea.
     Ele havia arrancado o aparelho de suas mos e o desligara. Pendurou-o de 
volta no prego e o canto das cigarras passou a dominar.
     O incidente nunca mais se repetiu. Lembro-me de um professor de francs 
no colegial que nos dizia que, s vezes, a reao mais adequada  o emprego da 
fora, porque certas pessoas provocam um gesto de autoridade para permitirem 
a si mesmas ser controladas. Refleti sobre isso. Naquela coabitao forada, todos 
os meus parmetros de comportamento estavam em crise. Eu era instintivamente 
contra a brutalidade. Mas tinha de admitir que naquela circunstncia a ameaa 
tinha sido til.
     Lucho chegou  concluso de que o inferno eram os outros. Cogitou pedir a 
Sombra que o isolasse do grupo. Ele me contou que tinha sofrido muito de solido, tendo passado dois anos como 
louco falando com um cachorro, com as rvores, com fantasmas. Aquilo no era nada, dizia ele, comparado ao 
suplcio daquela 
coexistncia obrigatria.
     Cada um reagia aos demais de maneiras inesperadas. Havia, por exemplo, a 
questo da lavagem de roupa. Ns a fazamos deixando nossas coisas de molho de 
um dia para outro e um de cada vez nos baldes plsticos que Mono Jojoy tinha nos 
enviado. Comeou a correr um boato de que um de nossos companheiros mijava 
nos baldes s por maldade, com cimes por no ter um balde privativo. Em outro 
dia, encontraram o assento da privada coberto de excrementos. A indignao foi 
unnime.
     Nos grupos que se formaram, cada um apontava o seu "culpado", cada um 
tinha o seu saco de pancadas. Era a ocasio de despejar as mgoas: "Acho que foi 
Fulana, que se levanta s trs da manh para se empanturrar com aquela comida 
podre que ela guarda numa tigela". Ou ento: "O colcho da Sicrana est cheio de 
baratas", "A Beltrana est cada dia mais suja".
     Nesse ambiente tenso com que comeamos o ano, Clara um dia veio falar 
comigo. Eu estava deitada no cho entre dois beliches, fazendo meus exerccios 
abdominais. Tinha instalado uma espcie de cortina com a coberta que Lucho 
havia me dado. Ela a afastou e se manteve de p diante de mim. Ento levantou a 
camiseta e mostrou a barriga:
    -                O que voc acha que ?
     Era to evidente que eu ca das nuvens. Engoli a saliva para me recompor da
surpresa antes de responder:
    -                Era isso que voc queria, no?
266
 



   -                Era, estou muito feliz! Acha que estou de quantas semanas?
   -                Acho que no so semanas, so meses. Deve estar por volta do quinto
ms.
   -                Vou precisar falar com Sombra.
   -                Exija que levem voc para um hospital. Pea para ver o mdico jovem que ns vimos no 
acampamento de Andrs. Ele deve estar por l. Seno, vai precisar ao menos da ajuda de uma parteira.
   -                Voc  a primeira pessoa a saber... Posso lhe dar um abrao?
   -                Claro. Estou feliz por voc.  o pior momento e o pior lugar, mas um filho  sempre uma bno 
do cu.
     Clara sentou-se ao meu lado, pegou minhas mos e disse:
   -                Ela vai se chamar Raquel. '
   -                Certo. Mas pense tambm em nomes de menino, no caso de...
     Ela ficou sonhando, os olhos perdidos no nada:
   -                Vou ser pai e me ao mesmo tempo.
   -                Essa criana tem um pai, voc precisa falar com ele.
   -                No! Nunca!
     Ela se levantou para ir embora, deu um passo e virou-se de novo:
   -                Ingrid?
   -                Diga.
   -                Estou com medo...
   -                No tenha medo. Vai dar tudo certo.
   -                Eu estou bonita?
   -                Est, Clara, est bonita. Uma mulher grvida  sempre bonita...
     Clara se retirou, foi dar a notcia aos outros. Sua histria foi recebida com frieza. Um deles veio me ver:
   -                Como pode ter dito para ela que essa criana  uma bno do cu? Voc no se d conta? 
Imagine como vai ficar isto aqui com os gritos de um beb com fome neste inferno!
     Quando nossos companheiros perguntavam quem era o pai, Clara se recusava a contar, deixando a questo no 
ar, o que os incomodava. Sua atitude foi considerada como uma ameaa pelos homens da priso que achavam que 
ela queria esconder a identidade do guerrilheiro para atribuir a algum deles a paternidade da criana. Keith exigiu 
o nome do pai.
   -                Ser dramtico para nossas famlias se ouvirem dizer que um de ns poderia ser o pai.
   -                No se preocupe. Ningum vai achar que  voc. Tenho certeza de que
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Clara vai dizer que o filho  de um dos guardas. Mas ela no vai dar nomes se no quiser! Basta ela confirmar que 
o pai no  nenhum de vocs.
      Minhas tentativas no conseguiram acalm-lo. Sua histria pessoal o tornava sensvel demais  situao. 
Tinha acabado de ter filhos gmeos que no havia programado e sentia que, no caso de um escndalo, todos os 
olhos se voltariam para ele. Foi ver Clara. Queria que ela revelasse o nome do pai, como garantia de suas boas 
intenes. Ela lhe deu as costas:
    -                Pouco me importam seus problemas de famlia, tenho os meus para enfrentar - ela declarou, 
encerrando definitivamente o assunto.
      Alguns dias depois, Keith discutia com Clara a respeito de mincias, quando explodiu:
    -                Voc  uma puta,  a vagabunda da selva!
      Clara recuou, lvida, e foi embora do ptio. Ele foi atrs, gritando insultos.
      Lucho e Jorge me seguraram, pedindo que eu lhes desse ouvidos uma vez na vida e no interferisse. A cena 
nos imobilizou. Clara cambaleava pela lama, apoiando-se s cadeiras de plstico que ficavam na passagem.
      No dia seguinte, tudo voltou ao normal. Clara falou com Keith como se nada tivesse acontecido. Tnhamos 
todos sido forados a aprender na marra. No fazia sentido continuar alimentando rancores. Estvamos fadados a 
viver juntos.
      Depois disso, Sombra tomou uma atitude. Um guarda veio dar a ordem para Clara embalar suas coisas. Sua 
barriga tinha crescido de repente e quando ela sasse da priso, no teria mais meios de escond-la.
      A vida continuou para ns como antes, com um pouco mais de espao na priso. As notcias que 
escutvamos no rdio eram objeto de grandes debates. Mas havia muito poucas informaes sobre ns e sobre 
nossas famlias. As medidas que poderiam eventualmente nos afetar eram passadas no pente fino: o aumento do 
oramento militar, a visita do presidente Uribe ao parlamento europeu, o aumento da ajuda dos Estados Unidos  
guerra contra as drogas, o incio do Plano Patriota.* Cada um interpretava as notcias segundo seu estado de 
nimo, mais do que como resultado de uma anlise racional dos dados.
      Eu era sempre otimista. Mesmo diante da informao mais sombria, procurava uma luz de esperana. 
* Plano posto em ao pelo presidente Uribe, para capturar os chefes das Fare.
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Queria acreditar que aqueles que lutavam por ns
encontrariam o meio de nos fazer sair dali. Minha disposio de esprito irritava Lucho:
    - Cada dia que passamos neste buraco aumenta exponencialmente as nossas chances de continuar aqui. 
Quanto mais se prolonga nosso cativeiro, mais complicada fica a situao. Est tudo ruim para ns. Se os comits 
na Europa lutarem por ns, as Fare vo se beneficiar com essa propaganda e no tero nenhum interesse em nos 
libertar; mas, se os comits no batalharem por ns, seremos esquecidos e ficaremos mais dez anos trancados na 
selva.
    Nas nossas controvrsias, eu sempre encontrava aliados inesperados. Nossos companheiros americanos 
procuravam, exatamente como eu, razes para manter a confiana. Surpreenderam-me um dia ao me explicar por 
que, segundo eles, Fidel Castro tinha todo interesse em acelerar nossa libertao, hiptese que aceitei sem 
questionar. Estvamos divididos quanto  estratgia a ser adotada para obter nossa liberdade. A Frana 
considerava nossa libertao sua maior prioridade nas relaes diplomticas com a Colmbia, ao passo que os 
Estados Unidos faziam questo de manter uma postura de discrio no caso dos refns americanos, evitando assim 
transform-los em trofus que as Fare se negariam a libertar. Uribe continuava atacando as Fare de frente, 
excluindo por princpio qualquer tipo de negociao por nossa liberdade, e apostando numa operao militar de 
resgate.
    Muitas vezes, por causa de detalhes, de um nada, a polmica se tornava spera. A gente se separava antes que 
azedasse tudo, na esperana de que no dia seguinte alguma outra pequena informao pudesse consolidar nossa 
argumentao, para retomarmos em nosso campo a controvrsia que tnhamos abandonado na vspera: " 
cabeudo como uma mula", dizamos um do outro, para evitar sermos acusados da mesma coisa.
    Ns defendamos, cada um a seu modo, uma atitude de sobrevivncia: havia aqueles que queriam se preparar 
para o pior e aqueles que, como eu, queriam acreditar no melhor.
    Soprou um vento de harmonia. Tnhamos aprendido talvez a nos calar, a deixar passar, a esperar. Voltou-nos 
a vontade de fazer as coisas juntos. Tiramos a poeira de projetos que tnhamos abandonado quando a confrontao 
estava em seu paroxismo. Mare e Consuelo passavam a vida a jogar cartas, Lucho e Orlando a falar de poltica, eu 
lia pela vigsima vez o romance de John Grisham, O advogado, que Tom havia me emprestado, em razo das aulas 
de ingls que ele recentemente tinha comeado a me dar.
    Certa manh nos pusemos de acordo com Orlando para fazer xcaras de plstico, cortando potes de flocos de 
aveia Quaker, que era possvel conseguir com os
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guardas. Eu tinha aprendido a tcnica com Yiseth, que fizera uma para mim no Natal anterior, no acampamento 
de Andrs. Era fcil, mas precisvamos arrumar um faco para cortar o pote e revir-lo, de modo a obter as asas 
da xcara.
     Orlando conseguiu o que precisvamos: o pote de plstico e o faco. J era toda uma performance. 
Instalamo-nos  grande mesa, ao ar livre, no ptio. Eu j estava sentada, o pote na mo, o faco na outra, quando 
nos sobressaltamos com uma grande gritaria atrs de ns.
     Era Tom, que, deitado em sua rede, foi tomado por uma sbita crise de clera. Continuei meu trabalho, sem 
entender que, de fato, era eu o objeto de sua fria. Dei-me conta disso quando vi Lucho numa grande altercao 
com ele. Tom havia se irritado porque o guarda tinha me emprestado um faco, e ele considerava isso uma prova 
de favoritismo. Impossvel fazer com que raciocinasse. Ele estava deliciado com o barulho a que havia dado incio, 
esperando talvez que o recepcionista de planto entrasse para me insultar.
     A porta da priso efetivamente se abriu. Dois grandes guardas entraram e me pegaram pelo brao:
    -                Embale suas coisas, voc vai embora!        
     Aquilo foi to sbito que s tive tempo de olhar para Lucho, na esperana de uma explicao.
    -                Pediram que voc fosse separada do grupo. Eu no queria contar, achava que eles no iam 
conseguir.
     Eu no entendia nada do que estava acontecendo comigo, ainda mais quando todos os meus companheiros se 
levantaram um a um para me abraar, comovidos, antes de minha partida.
270

 
37. O galinheiro

Maro de 2004

     Por um instante, ao sentir aquela porta de ao se fechar atrs de mim, tive um momento de esperana: "E se 
fosse..." Levava minha bagagem s costas, acompanhando um guarda por um caminho de terra que contornava o 
acampamento. J me imaginava num barco, viajando pelo rio. Mas, antes de chegar ao rio, o guarda virou  
esquerda, atravessou uma ponte construda sobre o fosso e me fez entrar em um galinheiro.
     Nos fundos do galinheiro, num canto, saiu de uma cabana com teto de plstico uma mulher. Ela se assustou 
tanto quanto eu ao me ver. Era Clara.
     - Vo estar entre amigas - disse o guarda, com ar de gozao.
     Ns nos olhamos, sem saber o que dizer. Estvamos chateadas por nos revermos, mas, no fundo, talvez no. 
Ela estava instalada em sua pequena cabana, com apenas uma cama e uma mesinha. O espao era muito reduzido. 
Eu no sabia o que eles queriam fazer comigo e, sobretudo, no queria incomod-la em seu espao. Ela me 
convidou a deixar minhas coisas num canto. As frmulas de cortesia que surgiram espontaneamente nos puseram 
 vontade. Eu reencontrava a Clara de antes da selva. Estava surpresa de saber que ela ainda estava no 
acampamento, imaginara que eles a tinham levado embora, para onde tivesse acesso a tratamento. Estava a um 
ms do parto.
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    -                Vou dar  luz aqui, nessa cama - ela me disse, inspecionando o lugar pela centsima vez. - Uma 
moa vem todo dia me fazer massagem na barriga. Acho que o beb est mal posicionado.
      Era, evidentemente, um parto de risco. No adiantava dizer nada, o melhor era criar um clima de confiana, 
para no acrescentar angstia  longa lista de elementos perturbadores.
    -                Recebi as roupinhas que voc fez para o beb. Adorei. Vou guardar sempre comigo, obrigada!
      Ao falar, ela tirou de uma bolsa as pequenas peas que eu tinha feito para o beb. Um pequeno saco de 
dormir, uma camisinha de gola redonda, luvinhas minsculas, vrios sapatinhos e, a coisa de que eu mais me 
orgulhava, uma bolsa canguru para levar o beb e deixar as mos livres.
      O tecido azul-celeste que usei pertencia a um de meus companheiros. Lucho tinha me ajudado a adquiri-lo 
me fornecendo a moeda de troca necessria ao escambo. O tecido era uma verdadeira bno em plena selva. Eu 
havia cortado a pea o melhor possvel para no haver muita perda e consegui com Orlando a linha e a agulha 
necessrias para pr mos  obra. Quando o trabalho ficou pronto, mostrei a Gloria, antes de mandar. Ela havia 
me dado conselhos judiciosos para encontrar botezinhos e zperes, e eu finalizei com um debrum de fio branco 
com a inteno de enfeitar o conjunto. Por intermdio de Orlando, mandara entregar a minha companheira. 
Imaginava que ela estava longe, num hospital de campanha, e que meu presente viajaria horas de canoa antes de 
chegar at ela.
      Passamos o resto do dia conversando, sem sentir o tempo passar. Foi para mim a ocasio de falar com ela 
sobre sua maternidade e de prepar-la para o que estava por vir. Disse-lhe que era importante conversar com o 
beb para que ele tivesse com ela uma relao entremeada por palavras, antes do nascimento. Na verdade, 
procurei inici-la nas reflexes de Franoise Dolto, que tinham sido fundamentais para mim. Tentei narrar de 
memria os casos clnicos que mais tinham me impressionado ao ler seus livros e que melhor ilustravam, a meu 
ver, a importncia daquela relao de palavras entre me e filho. Tambm a encorajei a escutar msica para 
estimular o despertar de seu beb. E, sobretudo, a ficar feliz.
      No dia seguinte, eu a vi sentar para ler em voz alta,  sombra de uma grande paineira, acariciando o ventre 
proeminente e tive a sensao de ter conseguido uma coisa boa. Como na vspera, instalei minha rede entre uma 
das vigas de canto da cabana e uma rvore do exterior. Ficava com metade do corpo para fora, mas no chovia 
havia dias, eu tinha chance de passar uma noite normal. Clara se aproximou de mim e, de maneira muito formal, 
disse:
272
 



   -                Pensei muito e quero que voc seja a madrinha do meu filho. Se acontecer alguma coisa comigo, 
quero que voc cuide dele.
     Essas palavras me pegaram desprevenida. Tinha acontecido tanta coisa entre ns. No era um compromisso 
que eu pudesse assumir levianamente.
   -                Deixe-me pensar.  uma deciso que quero amadurecer, porque  importante.
     Pensei a noite toda. Aceitar seria estar ligada a ela e ao filho por toda a vida. Mas recusar era fugir  
responsabilidade. Eu podia assumir esse papel? Tinha amor suficiente para dar a essa criana que ia nascer? 
Poderia adot-lo plenamente se a situao assim exigisse?
     De manhzinha, uma ideia me assaltou: eu era a nica que sabia quem era o pai da criana. Isso constituiria 
uma obrigao moral?
   -                Ento, tomou sua deciso? - ela me perguntou.
     Fez-se um silncio. Respirei fundo para responder.
   -                Tomei minha deciso, sim. Eu aceito.
     Ela me abraou.
     Clara tinha direito a uma sopa de peixe no desjejum. Ela riu ao me contar que todos os dias seu recepcionista 
ia pescar por ordem expressa do comandante. O galinheiro era, de fato, o meio que Sombra tinha encontrado para 
melhorar a situao de minha companheira, sem ser acusado de favoritismo. Mas isso no proporcionava o acesso 
a cuidados mdicos, que eram indispensveis. Eu esperava que chamassem o enfermeiro, que fazia parte do grupo 
dos outros prisioneiros.
     Ouvi um barulho atrs de ns. Era Sombra, que passava furtivamente atrs das moitas, um fuzil de caador 
pendurado no ombro. Acenei para ele.
   -                Sh! - ele respondeu, olhando apavorado  sua volta. - No diga que me viu!
     Afastou-se sem que eu pudesse lhe falar. Minutos depois, Shirley, uma alegre guerrilheira que fazia o papel 
de enfermeira, passou pelo mesmo lugar, com a mesma expresso de aventureira. Ela se aproximou e me 
perguntou:
   -                Viu Sombra? - E, vendo que eu tinha entendido tudo, acrescentou, rindo: - Tenho um encontro 
com ele, mas se a Boyaca nos v, ela nos mata! - E afastou-se, deliciada.
     Fiquei l, vendo a moa deslizar como uma cora pela vegetao, me perguntando como podiam viver com 
tamanha despreocupao quando, ao mesmo tempo, tinham nas mos os dramas de nossas vidas.
     Estava perdida em divagaes quando ouvi algum me chamar. Assustei-me e olhei: era a voz de Lucho. Vi 
que vinha com um grande sorriso, o rosto
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iluminado, trazendo um saco muito cheio nas costas e, atrs dele, o guarda, com 
cara de mau.
    -                Houve uma briga quando voc saiu, eu tambm fui transferido!
     Veio sentar-se comigo e com Clara e fez uma narrativa detalhada dos ltimos
acontecimentos no interior da priso.
    -                No quero voltar para aquela priso - disse Clara.
    -                Nem eu - Lucho e eu respondemos em coro.
     Morremos de rir e depois,  guisa de reflexo, Lucho concluiu:
    -                C estamos, como no comeo, s ns trs,  melhor assim.
     Enquanto conversvamos, uma equipe de guerrilheiros veio e se empenhou 
em montar com zelo uma cabana idntica  de Clara. Em menos de duas horas, 
tnhamos todos uma cama e um teto para passar a noite. A linda Shirley veio no 
fim da tarde, enviada por Sombra para inspecionar as instalaes. Fora nomeada 
recepcionista do galinheiro. Era a nica guerrilheira autorizada a entrar na rea 
fechada. Olhou nossa cabana e fez uma careta:
    -                Isso aqui est muito triste, deixem comigo - disse, e girou nos calcanhares. 
     Dez minutos depois, reapareceu, carregando uma mesa redonda e duas cadeirinhas de madeira. Fez outra 
viagem e trouxe estantes. Eu lhe dei um abrao, 
de tal forma fiquei contente. Ela havia transformado nossas cabanas em casinhas 
de boneca.
     Sentamo-nos nas cadeiras, cotovelos nas mesas, como velhas amigas. Shirley 
me contou sua vida em dez minutos e seus amores com Sombra durante horas.
    -                Como voc pode gostar desse velho feio e barrigudo? No me diga que 
voc tambm  uma ranguera.
     Ranguera era o termo pejorativo usado pelos guerrilheiros para indicar a 
moa que vai para a cama com um comandante para obter vantagens devidas 
patente .
     Shirley morreu de rir.
    -                A Boyaca  ranguera,  ela que fica com a melhor parte do bolo. Eu no 
tenho direito a nada. Mas amo o velho. De vez em quando, ele faz uma cara to 
perdida que me enternece. Adoro estar com ele.
    -                Espere, voc est apaixonada por ele?
    -                Acho que sim.
    -                E... o que voc faz com o seu scio, ainda esto juntos?
    -                Claro que sim, ele no sabe de nada!
    -                Ele  to legal. Por que o engana?
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   -                Engano porque ele  muito ciumento!
   -                Ah, voc est exagerando!
   -                Bom, quer saber de tudo? Fui eu que salvei a vida do velho Sombra. Durante um bombardeio, 
ele estava com a cara na lama, cado no cho. Completamente bbado. As pessoas corriam em volta dele, ningum 
ajudava. Eu o pus nas costas e o carreguei comigo. Um minuto depois, uma bomba caiu bem no lugar onde ele 
estava antes. Depois, ns ficamos muito chegados. Ele me ama muito, sabe?  carinhoso comigo, e me faz dar 
risada tambm.
     Passamos juntas boa parte da noite. Shirley tinha ido  escola, terminara toda a graduao, por isso era to 
orgulhosa, e estivera a dois passos de se formar. Mas se apaixonara por um rapaz que a convenceu a se incorporar 
s Fare. Era uma exceo. Em geral, o nvel escolar dos guerrilheiros era baixo. Poucos sabiam ler e escrever. 
Quando lhe pedi que me explicasse as bases de seu engajamento revolucionrio, ela mudou habilmente de assunto. 
Ficou ento muito desconfiada e manteve-se distante. Por que uma moa como Shirley acabara se integrando s 
Fare? Havia nela uma necessidade de aventura, de intensidade na vida, que eu no encontrava entre seus pares. Os 
outros tinham entrado para as fileiras da subverso porque tinham fome.
     No dia seguinte, Shirley apareceu cedo, com uma televiso nos braos. Colocou-a em cima da mesa, ligou o 
leitor de DVD e nos fez assistir Como gua para chocolate, baseado no romance de Laura Esquivel.
   -                Sei que  aniversrio da morte de seu pai - ela me disse. - Isso vai fazer voc pensar em outra 
coisa.
     Aquilo me fez pensar em minha me, que tinha me suplicado, meses antes de minha captura, que a 
acompanhasse quele filme. Eu havia recusado. No tinha tempo. Agora, tempo era o que eu mais tinha. No tinha 
mame e nunca mais teria papai. Assistindo ao filme, fiz a mim mesma duas promessas: se algum dia eu sasse 
dali, aprenderia a cozinhar para aqueles que amo. E teria tempo, todo o tempo, para consagrar a eles.
     Lucho estava felicssimo de ficar no galinheiro. A ausncia de tenso tinha lhe devolvido todas as suas 
capacidades. Armou-se com uma p para fazer chontos to grandes que serviriam para uso durante um ms! 
Acabou com grandes bolhas nas mos.
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    -                No quero nem pensar em voltar para a priso! - disse ele.
    -                Fique quieto. No verbalize seus medos!
     Como para fazer eco s minhas queixas, Shirley veio me ver:
    -                Seus companheiros de priso reclamaram porque um dos guardas contou que voc tem 
melhores condies que eles. Querem que volte para l.
     Fiquei boquiaberta.
     Nessa noite, tive a impresso de ter acabado de fechar os olhos quando senti que algum pulava em cima de 
mim. Uma Shirley nervosa me sacudia vigorosamente.
    -                Os helicpteros esto nos atacando. Temos de sair do acampamento. Pegue suas coisas e vamos 
embora!
     Obedeci. Enfiei as botas, peguei minha sacola voando. Shirley arrancou-a de minhas mos:
    -                Venha atrs de mim. Eu levo suas coisas, vamos mais depressa.
     Avanamos na escurido, os helicpteros em voo rasante junto s rvores acima de nossas cabeas. Como eu 
pudera dormir sem escut-los? Eles iam e vinham ao longo do rio, fazendo um barulho infernal. Chegamos perto 
do economato, um hangar com telhado de zinco, todo envolto por grades de ao, com os sacos de provises 
empilhados at o alto. Lucho e Clara j estavam l, com uma expresso mista de angstia e de aborrecimento.
     Obrigaram-nos a seguir uma fila de guerrilheiros que mergulhavam na selva.
    -                Acha que vamos andar a noite inteira?
    -                Com eles, tudo  possvel! - Lucho garantiu.
     Shirley ia na nossa frente, em silncio. Durante um momento, a ideia de propor a ela que fugisse conosco me 
aflorou ao esprito. Era impossvel, tnhamos uma mulher grvida conosco. Como pude sequer pensar nisso?
     Era preciso aceitar nossas tribulaes com pacincia. Depois de uma hora de marcha, paramos. Fizeram-nos 
esperar sentados em nossas bagagens at o amanhecer. Com o dia, os helicpteros foram embora e eles nos 
levaram de volta ao galinheiro.
     Depois da primeira refeio matinal, uma equipe de guarda apareceu. Em quinze minutos, desmantelaram 
nossa cabana. Ficamos olhando, mortificados. Sabamos o que isso significava.
     Clara me pegou pelo brao:
    -                Quero pedir uma coisa. No diga a ningum que estou aqui. No conte
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que nos vimos. Prefiro que acreditem que me levaram para um hospital...entende?
- No se preocupe. No vou dizer nada. E Lucho tambm no. Dei-lhe um abrao antes de ir embora, o 
corao apertado.
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38. Volta  priso

Maro de 2004

     As coisas estavam acontecendo muito depressa. Ao sair do galinheiro, vi Shirley de passagem: ela queria me 
tranquilizar, dizer que ia dar tudo certo.
     A porta de ao rangeu ao se abrir e tive a impresso fsica de estar s portas do inferno. Tomei coragem e 
entrei. A satisfao mrbida no rosto de um dos meus companheiros foi como uma bofetada.
    -                No ficou muito l - sibilou ele, com maldade.
    -                Deve ter sentido a nossa falta - Lucho respondeu secamente. - No foi voc que insistiu para a 
gente voltar logo?
     O homem riu:
    -                Ns tambm temos nossas influncias...
     Seu riso amargou quando ele viu que os guardas arrumavam o espao ao lado dos toaletes. Foi instalado um 
teto de plstico. Shirley tinha mandado a mesinha redonda, as duas cadeiras e a estante. Estavam construindo uma 
cabana igual quela do galinheiro, ali no ptio da priso.
     Brian e Arnoldo comandavam a operao. Fiquei olhando, em silncio. Quando terminaram o trabalho, 
pegaram as ferramentas e foram embora. Brian virou-se para mim e falou alto, para que todos ouvissem:
    -                O comandante no quer mais problemas aqui. Voc vai dormir aqui, ningum vai te amolar. A 
menor falta de cortesia e voc chama o recepcionista.
278        
 



     Comecei a organizar minhas coisinhas, para no ter de enfrentar os olhares agressivos. Ouvi um sussurro:
   -                Est timo assim! Ela que viva com aquele cheiro de merda.
     Eu me sentia culpada. Por que isso continuava a me machucar? Eu devia estar calejada. Senti que um brao 
me segurava pelos ombros. Era Gloria:
   -                Ah, no! Voc no vai chorar agora. No vai dar essa alegria a eles! Vamos, eu ajudo. Sabe, 
estou triste por voc, por terem feito voc voltar. Mas estou contente por mim, voc fez muita falta! E depois, sem 
Lucho, no se dava mais risada nesta priso!
     Jorge tambm veio, sempre corts, beijou minha mo e usou algumas palavras que tinha aprendido em 
francs para me desejar boas-vindas. Depois, acrescentou:
   -                Agora no tenho mais lugar para pendurar minha rede. Espero que me convide para a sua casa, 
madame chrie.
     Mare aproximou-se, tmido. Conversvamos raramente ele e eu, e sempre em ingls. Eu o observava, porque 
ele estava sempre  parte do grupo e era o nico entre ns a no ter tido nunca nenhum confronto com quem quer 
que fosse. Tinha observado tambm que seus dois companheiros o respeitavam e escutavam. Estavam 
constantemente em conflito entre eles, passando de um silncio rancoroso s exploses verbais, curtas e ferinas. 
Mare ficava na posio de intermedirio, procurando apaziguar os nimos. Eu sentia que ele mantinha distncia, 
principalmente em relao a mim. No era difcil de imaginar o que deviam ter lhe falado e eu esperava que com o 
tempo ele pudesse fazer uma outra ideia.
     Fiquei surpresa ao v-lo plantado ali, enquanto ns conversvamos, Lucho, Jorge, Gloria e eu, muito 
animados. Os gestos de todo mundo eram bem calculados na priso. Ningum queria dar a impresso de estar 
suplicando o que quer que fosse, ou de esperar alguma coisa, porque isso poderia ser interpretado como uma 
posio de inferioridade. Ele estava ali, ento,  espera de um espao para participar de nossa conversa. Ns todos 
nos viramos. Ele esboou um sorriso triste, e nos disse em espanhol balbuciante, com os verbos todos no infinitivo, 
que estava contente de nos ver de volta, a Lucho e a mim.
     Suas palavras me tocaram diretamente no corao. No consegui emitir nada mais que um agradecimento 
protocolar, premida pelas emoes muito intensas que tive de esconder. De certa forma, seu gesto me relembrava 
cruelmente a animosidade dos outros, e senti pena de mim mesma. Estava muito vulnervel e me sentia ridcula. 
No inferno, no temos o direito de demonstrar sofrimento.
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     - Mas eu estou sonhando ou voc est falando espanhol? Basta a gente sair trs semanas e voc apronta 
uma surpresa pelas nossas costas.
     Lucho tinha se encarregado da situao.
     Todo mundo riu, porque Mare respondia ao p da letra com as trs palavras de espanhol que tinha 
dominado. Ele traduzia literalmente as expresses americanas, que por milagre assumiam ao passar para o 
espanhol um humor que era a nossa alegria. Depois, despediu-se de ns polidamente e voltou para o barraco.
     No dia seguinte, aconteceu uma coisa inesperada. Os prisioneiros do campo dos militares nos mandaram 
um pacote de livros. Fiquei sabendo ento que, enquanto eles estavam detidos na zona de deteno, durante as 
negociaes com o governo Pastrana, as famlias tinham conseguido fazer chegar a eles bibliotecas inteiras. 
Uma vez abortado o processo de paz, no momento de fuga diante das Foras Armadas, cada um levara dois ou 
trs livros em sua mochila, e os trocavam entre eles. As marchas tinham sido difceis e com certeza, por causa 
do peso, tiveram de aliviar a bagagem do menos necessrio. Os livros haviam sido os primeiros a ir embora. Os 
que chegaram para ns foram os sobreviventes. Eram verdadeiros tesouros. Havia de tudo: romances, clssicos, 
livros de psicologia, testemunhos do Holocausto, ensaios filosficos, livros espirituais, manuais de esoterismo, 
histrias para crianas. Deram-nos o prazo de duas semanas para l-los, depois teriam de ser devolvidos.
     Nossa vida mudou. Ficvamos, cada um em seu canto, devorando todos os livros possveis. Eu comecei 
com Crime e castigo, que no tinha feito muito sucesso entre meus companheiros, enquanto Lucho lia A me, de 
Maksim Grki.
     Descobri mais tarde que algum estava lendo O rei de ferro, de Maurice Druon, e junto com Gloria nos 
inscrevemos numa lista de espera para ter uma chance de l-lo antes da data limite. Para conseguir que a 
circulao do livro fosse mais rpida, propusemos fazer uma estante atrs da porta do barraco, de modo que os 
livros fossem ali colocados quando seus leitores no os quisessem mais.
     Isso nos permitiu folhear a maior parte deles para estabelecer nossas prioridades. Havia livros impossveis 
de ler porque todo mundo esperava por eles. Lembro-me particularmente de A noiva escura, de Laura Restrepo, e 
VAlcaravan, de Castro Caycedo. Mas o que eu queria ler e no consegui nem tocar foi A festa do bode, de Mario 
Vargas Llosa.
     Uma manh, Arnoldo apareceu e levou tudo embora. Foi alguns dias antes da data limite. Um dos nossos 
tinha resolvido mandar tudo de volta para o outro campo, sem consultar os outros. Fiquei particularmente 
frustrada, me sentindo trada. Queria que ele morresse.
280
 



    Falei com Orlando, que tinha adquirido o hbito de conversar com Lucho e comigo,  noite, perto de se 
apagarem as luzes. Orlando era muito hbil para arrancar informaes dos guardas. Era, de fato, o mais bem 
informado de ns, o que percebia aquilo que ns no vamos.
    Eu tinha me afeioado a ele porque entendera que, por trs de seu ar simplrio, havia lugar para um grande 
corao, que ele no revelava seno em determinados momentos, como se tivesse vergonha. Mas era sobretudo 
seu senso de humor que o tornava uma companhia particularmente agradvel. Quando ele se sentava  mesinha 
redonda e juntos escutvamos o rdio, sabamos, Lucho e eu, que nosso senso de argumentao seria posto  
prova e espervamos, encantados, que ele lanasse os primeiros dardos.
    Ele nunca era terno em seus comentrios, nem sobre ns, nem sobre nossos companheiros, mas fazia uma 
exposio to lcida de nossa situao, de nossas atitudes e de nossos defeitos, que s podamos mesmo rir e lhe 
dar razo.
    Alguns companheiros ficaram inquietos por causa de nossa amizade com Orlando. Desconfiavam dele e 
atribuam-lhe todos os defeitos do mundo. Alguns, particularmente, que tinham sido prximos dele desde o 
comeo vinham me prevenir a seu respeito.
    Mas eu no tinha mais a menor vontade de escutar esse tipo de comentrio. Cada um tinha suas prprias 
intenes. Eu queria deixar as portas abertas para todos e chegar a minhas prprias concluses.
    A volta  priso tinha me obrigado a fazer uma introspeco. Eu me olhava no espelho dos outros, vendo 
ali todos os defeitos da humanidade: a raiva, o cime, a avareza, a inveja, o egosmo. Mas era em mim que eu os 
observava. Fiquei chocada ao me dar conta disso e no gostei de ver no que eu havia me transformado.
    Quando escutava os comentrios e as crticas contra os outros, eu me calava. Eu tambm tinha corrido para 
a comida na esperana de conseguir um pedao melhor, tambm havia esperado de propsito que os outros se 
servissem para que me coubesse a cancharina maior, tambm tinha invejado um par de meias mais bonito ou 
uma tigela maior e tambm tinha juntado estoques de comida para alimentar minha avareza.
    Um dia, a proviso de latas de conserva de Gloria explodiu. As latas estavam muito velhas e a temperatura 
subira muito. Todo mundo deu risada. A maioria ficou deliciada por ela ter perdido o que eles j tinham 
consumido e que ela guardara pacientemente. ramos todos iguais, emaranhados em nossas pequenas feiuras.
    Tomei a deciso de me controlar. Para no fazer igual. O exerccio me pareceu difcil. s vezes, minha 
razo me puxava para um lado, meu estmago para outro.
281
 



Eu tinha fome. Ainda estava em busca de boas resolues. Dizia a mim mesma que pelo menos tinha conseguido 
tomar conscincia disso.
     Observava tambm, consternada, nosso comportamento em relao a nossas famlias, particularmente as 
crticas acerbas e os comentrios maldosos que alguns de meus companheiros faziam sobre os membros de suas 
prprias famlias. Havia, na psicologia do prisioneiro, uma tendncia masoquista a acreditar que aqueles que 
lutavam por nossa liberdade o faziam por razes oportunistas: ns no podamos acreditar que ainda ramos 
dignos de ser amados.
     Eu me recusava a acreditar que meus parceiros de vida tivessem feito de nosso drama um modo de 
subsistncia. Os homens sofriam pensando que suas esposas gastavam seus salrios. De nossa parte, ns, 
mulheres, vivamos na angstia de no encontrar um lar quando voltssemos. O silncio prolongado de meu 
marido despertava comentrios dolorosos: "Ele s chama quando tem jornalistas em volta", diziam.
     A atitude de Orlando tambm mudou. Ele se abrandou, procurando mais e mais se tornar til. Era muito 
hbil em encontrar soluo rpida para pequenos problemas.
     Quando expus a Orlando a frustrao que sentira quandolevaram embora os livros, ele me tranquilizou:
    -                Tenho amigos no outro acampamento. Vou pedir que nos mandem outros livros. Acho que 
eles tm toda a srie de Harry Potter.
     Os livros chegaram quando eu estava fazendo minha toalete. Tinham sido todos distribudos, os da srie 
Harry Potter em primeiro lugar. Foi Mare quem leu A cmara secreta. Eu no resisti  tentao de dar uma 
olhada na capa do livro. Ele sorriu ao ver o estado de excitao em que me encontrava. Fiquei envergonhada e 
tentei no reter muito tempo o livro em minhas mos.
    -                No se preocupe, eu tambm estou impaciente para ler.
    -                Na verdade, estou emocionada porque foram os primeiros livros que meu filho Lorenzo leu! 
Parece que fico mais prxima dele - eu disse, para me desculpar. - E, depois, a verdade  que eu devorei o 
primeiro da srie - acabei confessando.
    -                Bom,  o primeiro livro em espanhol que eu vou ler! Tem palavras difceis, mas j est 
apaixonante... Escute, se quiser, podemos ler juntos: eu leio de manh, passo o livro para voc ao meio-dia e 
voc me devolve  noite.
    -                Verdade mesmo? Faria isso?
    -                Claro, mas com uma condio... s seis horas em ponto voc pe o livro na minha estante. 
No quero ter de pedir para voc todos os dias.
    -                Combinado!
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39. O confisco dos rdios

Abril de 2004

    O arranjo que fizemos me encantou. Eu programava meus dias de modo a consagrar todas as minhas tardes 
 leitura e tomava um cuidado particular em depositar o livro s seis da tarde em ponto em sua estante. Tinha 
aprendido que era sobretudo por esses pequenos detalhes que nos julgvamos entre ns, e, mais ainda, que sobre 
eles se baseavam as amizades e eclodiam os conflitos. A promiscuidade a que ramos forados nos expunha ao 
olhar incessante do outro. Estvamos sob a vigilncia dos guardas, claro, mas sobretudo sob a vigilncia 
impiedosa de nossos companheiros de priso.
    Se eu atrasasse um minuto, sabia que Mare ficaria procurando com os olhos no ptio para descobrir a razo 
de meu atraso. Se o motivo fosse trivial, ele ficaria ofendido e uma tenso se instalaria entre ns. 
Funcionvamos todos assim. Ao meio-dia em ponto, eu levantava o olhar. Tinha tido tempo de fazer minha 
ginstica, de me lavar e esperava pacientemente que ele sasse do barraco com o livro. Era o meu momento de 
gratificao, ia mergulhar no universo de Hogwarts, durante algumas horas escaparia daquela priso cercada de 
arames farpados, de guaritas e de lama, e encontraria a despreocupao de minha infncia. Mas minha evaso 
gerava cimes. Eu sentia que algumas pessoas tinham vontade de me arrancar o livro das mos. Eu no tinha 
permisso para nenhum erro.
    Uma tarde, os guardas trouxeram o aparelho de televiso que Shirley tinha
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levado ao galinheiro. Estvamos todos entusiasmados com a ideia de assistir a um filme. Mas o que nos 
apresentaram no tinha nada a ver com um momento de lazer: era a prova de sobrevivncia dos trs 
companheiros americanos, filmada meses antes de sua chegada  nossa priso. O auditrio ficou mudo ao 
assistir a suas mensagens e aquelas que seus familiares tinham gravado em resposta e que faziam parte de uma 
transmisso de televiso realizada nos Estados Unidos alguns meses antes. Nossos companheiros grudaram na 
tela, como se isso lhes permitisse tocar aqueles que amavam. Pouco a pouco recuaram, aquela proximidade 
queimava. Ns ficamos atrs, de p, observando dolorosamente na televiso aquelas famlias que, como as 
nossas, estavam dilaceradas de dor e de angstia. Mas eu observava sobretudo meus companheiros, as reaes 
de esfolados vivos, sem pudor, como numa praa pblica.
     Havia algo de voyeurismo em contemplar a nudez de seu drama. Mas eu no conseguia desviar os olhos 
daquele espetculo de haraquiri coletivo que me remetia quilo que eu prpria vivia.
     Havia enfim associado rostos aos nomes desses desconhecidos que tinham se tornado familiares para mim 
 custa de ouvir falar deles. Tinha acompanhado suas expresses na televiso, os olhares que desviavam da 
cmera, o tremor dos lbios, as palavras sempre reveladoras. Tinha ficado apavorada com o poder da imagem e 
com a ideia de que somos todos to absolutamente previsveis. Eu os vira apenas dois segundos e tinha a 
impresso de ter entendido tudo. Eles tudo revelavam, incapazes de mascarar diante da cmera o melhor ou o 
pior de seus sentimentos. Fiquei envergonhada, mas afinal tnhamos, acima de tudo, direito  intimidade.
     Observei meus companheiros americanos. Os comportamentos eram to diferentes, as reaes, to opostas. 
Um entre eles comentava em voz alta cada imagem e olhava para trs para ter certeza de que o grupo 
acompanhava suas explicaes. Ele fez um comentrio que no passou desapercebido, a respeito de sua noiva:
    -                Eu sei, ela no  muito bonita, mas  inteligente.
     Todos os olhares se voltaram na sua direo. Ele ficou vermelho, e acreditei adivinhar que no era por 
lamentar o que tinha dito. Na verdade, acrescentou:
    -                O anel que dei a ela custou 10 mil dlares.
     Um outro estava escondido em seu canto, coando dolorosamente o queixo barbudo. Seus olhos azuis 
imensos se encheram de lgrimas e ele repetiu em voz baixa:
    -                Meu Deus, como eu fui idiota!
     Ela se descompusera em um segundo. Sua dor me era insuportvel, suas palavras eram as que eu ouvia em 
mim, porque eu carregava, como ele, uma cruz feita de arrependimentos.
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    Senti vontade de abra-lo. Mas no podia. Fazia muito tempo que no nos
falvamos mais. Mare estava ao meu lado. Eu no ousava me virar para olhar para 
ele, porque imaginava que no seria muito delicado. Sentia que ele estava imvel. 
Ento, quando terminou a projeo e fiz meia-volta para sair do barraco, vi sua 
expresso, que me deixou gelada. Uma dor interna tomara conta dele. Tinha o 
olhar vazio, a cabea baixa, o hlito quente, sem poder se mexer, como se tomado 
por uma doena sbita, que lhe inchava as articulaes e apertava o corao. No 
houve nenhum pensamento dentro de mim, nenhuma discusso interior sobre a 
convenincia ou inconvenincia de meu gesto. Eu me vi tomando-o nos braos, 
como se pudesse compensar a maldio que lhe havia sido lanada. Ele caiu em 
prantos, lgrimas que tentava controlar apertando a base do nariz e repetindo, 
escondendo o rosto contra mim: 
- Tudo bem, tudo bem. 
Tudo bem mesmo. No tnhamos escolha.
    Algumas horas depois, ele veio me agradecer. Era surpreendente. Eu imaginara um homem frio, talvez 
mesmo insensvel. Tinha um grande domnio de 
si mesmo, e dava quase sempre a impresso de estar ausente. Eu agora o via com 
novos olhos, intrigada, procurando entender quem era ele.
    Ele vinha de quando em quando conversar com Lucho, Orlando e eu ao cair 
da noite e nos fazia rir com seu espanhol que melhorava dia a dia, mas no exatamente com as palavras mais 
recomendveis. Pedia-me pequenos servios, eu os 
pedia a ele tambm. Tinha comeado a bordar o nome de seus filhos e da mulher 
na farda de camuflagem. Estava obcecado com seu trabalho, aplicado em preencher com linha preta as letras que 
havia desenhado caprichosamente no tecido. 
Dava a impresso de no progredir com essa tapearia de Penlope. Quis ver o que 
estava fazendo e fiquei surpresa com a perfeio de seu bordado.
    Certa manh, quando eu tentava cansar meu corpo subindo e descendo uma 
escada, ouvi seus companheiros americanos lhe dando os parabns por seu aniversrio. Achei que todo mundo 
tinha ouvido, como eu. Mas ningum mais foi 
cumpriment-lo. Estvamos endurecidos, tentando provavelmente nos isolar de 
tudo para sofrer menos com a vida. Resolvi que eu iria, sim. Ele ficou surpreso e 
contente com minha atitude e acreditei que tnhamos ficado amigos.
    At o dia em que Sombra ordenou o confisco de todos os aparelhos de rdio. 
Fomos todos pegos de surpresa, menos Orlando, que suspeitava de uma operao 
por ter escutado o que diziam no barraco dos militares. Ele havia colado o ouvido 
nas tbuas que ficavam em frente ao alojamento deles e ouvira que se tratava de
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um confisco geral dos rdios. Procurou todos os prisioneiros e avisou um a um do 
que nos esperava.
     Senti meu corao parar. Lucho ficou to abalado quanto eu. Entregar a eles 
nossos rdios era nos cortar definitivamente o contato com nossas famlias.
    -                Voc entrega o seu e eu escondo o meu.
    -                Mas, Ingrid, voc est louca, eles vo perceber.
    -                No. O meu eles nunca viram. Usamos sempre o seu porque funciona 
melhor,  disso que eles lembram.
    -                Mas eles sabem que voc tem um rdio.
    -                Eu digo que joguei fora faz tempo porque no funcionava mais.
     Arnoldo irrompeu na priso com quatro de seus aclitos. Mal tive tempo de
jogar meu pequeno aparelho, dado por Joaquin Gmez, debaixo do piso do box de 
banho e de tornar a me sentar como se nada tivesse acontecido. Eu tremia. Lucho 
estava verde, o suor porejando na testa. No havia como voltar atrs.
    -                Eles vo nos pegar - Lucho repetia, cheio de angstia.
     Arnoldo plantou-se no meio do ptio, enquanto os outros quatro guardas 
tomavam conta do lugar.
     Para um prisioneiro, no havia nada mais importante do que seu aparelho 
de rdio. O rdio era tudo: a voz da famlia, a janela para o mundo, nossa noitada 
de espetculo, nossa terapia contra insnia, o preenchimento de nossa solido. Vi 
meus companheiros entregarem seus rdios nas mos de Arnoldo. Lucho entregou 
o seu, resmungando:
    -                No tem mais pilhas. - Eu o adorava ao menos por isso. Ele devolvia 
minhas foras.
     Arnoldo contou os aparelhos.
    -                Est faltando um - declarou. Ento, notando minha presena, gritou 
para mim: - O seu.
    -                Eu no tenho rdio.
    -                Tem, sim.
    -                No tenho mais.
    -                Como assim?
    -                No estava funcionando, joguei fora.
     Arnoldo levantou uma sobrancelha. Tive a impresso de que ele enxergava 
at minhas entranhas.
    -                Tem certeza?
     Mame sempre dizia que era incapaz de mentir e que isso aparecia em seu 
rosto. Eu achava que se tratava de uma espcie de tara familiar providencial, que
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nos obrigava geneticamente a ser honestas. Isso chegava a tal ponto que eu ficava vermelha dizendo a verdade, 
pela simples ideia de poderem achar que eu mentia, de forma que me ocorreu que eu precisava aprender a mentir 
para ser capaz de dizer a verdade sem ficar vermelha. Na vida "civil", a coisa ainda ia bem. Mas, ali, eu sabia 
que tinha de olhar nos olhos dele. Era preciso no desviar os olhos. Era preciso de uma vez por todas que eu 
aprendesse a mentir por uma boa causa. Essa ideia me salvou. Eu fui a nica a esconder o rdio. No tinha o 
direito de fraquejar.
   -                Tenho certeza, sim - disse, sustentando seu olhar.
    Ele deu o assunto por encerrado, recolheu aquele monte de rdios e pilhas  sua frente e foi embora 
satisfeito.
    Fiquei petrificada, sem conseguir dar um passo, apoiada na mesa, a dois segundos de cair no cho, banhada 
em suor frio.
   -                Lucho, dava para perceber que eu estava mentindo?
   -                No, ningum viu nada. Por favor, fale normalmente, esto observando voc das guaritas. 
Vamos sentar na mesinha redonda.
    Ele me pegou pela cintura, como se estivssemos conversando casualmente, e me ajudou a dar os quatro 
passos que nos separavam das cadeirinhas.
   -                Lucho?        
   -                O qu?
   -                Meu corao vai sair pela boca.
   -                Tudo bem, eu saio correndo atrs dele! - disse, rindo, e acrescentou: - Bom, agora a gente est 
em maus lenis. Pode ir se preparando porque um dos nossos tagarelas vai dar com a lngua nos dentes. Vo 
nos picar em pedacinhos se um deles nos trair.
    Tive a impresso de que a morte me acariciava a espinha. Os guardas podiam entrar a qualquer momento 
para revistar minha cabana. Mil vezes mudei o rdio de esconderijo. Orlando, que estava de guarda, me disse, na 
porta do barraco:
   -                Voc ficou com seu rdio, no  verdade?
   -                No, eu no fiquei com nada.
    Respondi instintivamente. As palavras de Alan Jara ecoaram na minha cabea, era preciso no confiar em 
ningum. Lucho veio me ver:
   -                Jorge e Gloria perguntaram se ns ficamos com um rdio.
   -                O que voc disse a eles?
   -                Eu no respondi, virei as costas e sa.
   -                Orlando me fez a mesma pergunta. Eu disse que no.
   -                Precisamos esperar alguns dias para ouvir. Todo mundo est alerta,  muito arriscado.
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     Gloria e Jorge chegaram nesse momento.
    -                Precisamos falar com vocs. O clima est muito pesado no barraco. Os outros sabem que 
vocs no entregaram um dos rdios, e vo denunci-los.
     No dia seguinte, Mare chamou Lucho. Eu podia imaginar facilmente o assunto da conversa, quando mais 
no fosse pelo ar importante que os dois assumiram de repente. Quando Lucho voltou, estava num paroxismo de 
nervoso:
    -                Escute, temos de nos livrar desse rdio. Esto fazendo uma chantagem monstruosa: ou damos 
o rdio a eles, ou nos denunciam. Querem fazer uma reunio no barraco dentro de dez minutos.
     Quando chegamos ao barraco, as cadeiras j estavam dispostas em semicrculo, e eu tive a sensao de ser 
acossada ao banco dos rus. Imaginava que iria passar uns difceis 45 minutos, mas estava decidida a no ceder  
chantagem.
     Orlando abriu a discusso. Seu tom sereno e benevolente me surpreendeu:
    -                Ingrid, ns achamos que voc ficou com um aparelho de rdio. Se for esse o caso, queremos 
ns tambm ter a possibilidade de escutar as notcias e, sobretudo, as mensagens de nossas famlias.
     Isso mudava tudo. Evidentemente, era o ideal. Se no havia ameaas, se no havia chantagem, se podamos 
ter confiana uns nos outros... Refleti intensamente: aquilo podia tambm ser uma armadilha. Na hora em que eu 
revelasse que efetivamente havia escondido o rdio, eles podiam me denunciar.
    -                Orlando, eu gostaria de poder responder. Mas no posso falar com confiana absoluta. Ns 
todos sabemos que h entre ns companheiros ou "um" companheiro apenas que  um delator a servio da 
guerrilha.
     Olhei o rosto de meus companheiros, um a um. Alguns baixaram os olhos, Lucho, Gloria e Jorge 
assentiram com a cabea. Prossegui:
    -                Todas as vezes que tentamos agir em grupo, algum de ns foi avisar a guerrilha, como no dia 
em que quisemos escrever uma carta aos comandantes, ou no dia em que pensamos fazer uma greve de fome. 
Entre ns h "sapos".* Que garantia podemos ter de que aquilo que vai ser dito nesta reunio no seja informado 
a Sombra dentro de meia hora?
     Meus companheiros estavam de olhos baixos, maxilares contrados. Continuei:
    -                Suponhamos que um de ns tenha ficado com o rdio. Que garantia existe de que no haver 
uma nova busca patrocinada por um alcaguete?
* Delator, na gria de estudantes e jovens colombianos.
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    Consuelo se agitou e interveio, dizendo:
   -                Pode ser verdade, sim, com certeza h "sapos" aqui, mas quero dizer imediatamente que no 
sou eu.
    Virei-me para ela.
   -                Voc entregou seu rdio, deu-o nas mos de Arnoldo, est sossegada. Mas 
se algum entre ns tivesse um rdio que servisse para voc receber as mensagens 
de suas filhas e houvesse uma busca, voc estaria pronta a assumir uma responsabilidade coletiva por esse 
rdio clandestino?
   -                No! Por que eu deveria assumir responsabilidades? No fui eu que escondi o rdio.
   -                Admitamos que, nessa busca hipottica, o rdio fosse confiscado definitivamente. Voc 
estaria disposta a dar o seu, se fosse devolvido a voc, para substituir esse que foi confiscado?
- Por que eu? No, fora de questo! Eu no tenho de pagar pelos erros dos 
 outros.
   -                Bem, eu queria simplesmente ilustrar como "todo mundo" est disposto a 
se beneficiar de ter um rdio clandestino sem precisar correr o risco. A questo  a 
seguinte: se vocs querem um rdio,  preciso partilhar os riscos!
    Outro de meus companheiros interveio:
   -                Ns no temos de ir atrs dos seus jogos. Voc  da poltica e acha que 
vai nos enganar com seus belos discursos. Ns fizemos uma pergunta simples, 
queremos uma resposta simples: sim ou no, voc tem um rdio escondido em 
sua coleta?
    Suas palavras me atingiram como um insulto. Eu queria me livrar do sangue 
que fervia dentro de mim. Pedi um cigarro a Lucho. Era o primeiro que eu fumava 
em cativeiro. Azar, queria me acalmar e achava que aspirando aquela fumaa que 
me raspava a garganta ia conseguir me controlar. Fechei-me como uma ostra e 
respondi:
   -                Virem-se sozinhos. Eu no tenho de me submeter s suas presses, aos 
seus insultos e ao seu cinismo.
   -                Ingrid,  muito simples: voc nos d o rdio, do contrrio eu juro que eu 
mesmo vou denunciar voc agora mesmo. - Keith havia se levantado e me ameaava, sacudindo um dedo na 
minha frente.
    Eu tambm me levantei, tremendo, lvida:
   -                Voc no me conhece. Eu nunca cedi a chantagens. Para mim,  uma 
questo de princpios. Voc no teve coragem de esconder seu rdio. No venha 
me dar lies. Pode ir, diga para a guerrilha o que quiser. No tenho mais nada 
a fazer aqui.
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    -                Vamos, vamos embora - disse Keith se dirigindo ao seu grupo. -Vamos agora mesmo falar 
com Arnoldo.
     Mare se levantou, me olhando com raiva:
    -                Pior para voc, voc quis assim.
     Eu respondi, em ingls:
    -                Do que voc est falando? Voc no entendeu nada, nem fala espanhol!
    -                Voc nos toma a todos por imbecis, para mim j basta.
     Se eles iam nos entregar, tnhamos de nos preparar. Lucho estava to plido quanto eu, Jorge e Gloria 
pareciam inquietos.
    -                Ns avisamos, eles so monstros! - disse Gloria. - O que voc vai fazer agora?
     Orlando se levantou antes que eu pudesse sair do alojamento, impediu minha passagem, puxando Keith 
pelo brao:
    -                Pare, no faa nenhuma besteira. Se voc denunciar Ingrid, ningum vai ter notcias do que 
quer que seja!
     E, virando-se para mim, disse:
    -                No v embora, venha, vamos conversar.        
     Ele me levou para o outro extremo do barraco e nos sentamos:
    -                Escute, entendo perfeitamente sua preocupao. E voc tem razo. Existe entre ns algum 
que conta tudo para a guerrilha. S que esse babaca, seja quem for, precisa muito de voc neste momento, 
porque voc  a nica que pode lhe dar acesso s mensagens.  isso. Ningum vai trair voc, eu garanto. 
Proponho um pacto: de manh, eu passo para pegar seu rdio. Escuto as mensagens para todo mundo e informo 
o grupo. Devolvo o rdio s sete da manh, depois do programa de mensagens e dos boletins de informaes. 
Ao menor problema com a guerrilha, eu assumo tudo com voc. Concorda?
    -                Tudo bem, concordo.
    -                Obrigado - ele disse, apertando minha mo com um grande sorriso. - Agora, preciso ir at l, 
convencer esses caras!
     Informei Lucho sobre o nosso pacto. Ele no gostou:
    -                Pode ter certeza, ao menor problema acontecer uma debandada!
     Gloria e Jorge tambm no estavam com uma expresso muito satisfeita.
    -                Por que  Orlando que vai escutar as mensagens? Por que no ns?
     Eu me dei conta de que seria impossvel contentar todo mundo. Ento, pensei que a proposta de Orlando 
tinha o mrito de destravar a situao. Olhei para o ptio. Ele e os demais estavam sentados em torno da mesa 
grande. Keith fuzilava:
    -                Fora de cogitao! Ns damos duas horas para ela nos entregar o rdio.
290
 



Se no puser o rdio em nossas mos ao meio-dia em ponto, eu informo o recepcionista!
    Prevendo uma possvel busca, procurei um esconderijo melhor. Imaginei que, em caso de delao, seria nas 
minhas coisas que eles concentrariam a inspeo. Mas o meio-dia chegou e ningum se levantou. E tampouco 
Mare. O dia passou lentamente, em uma grande tenso, sem que houvesse, por sorte, nem represlias, nem 
movimentos suspeitos da parte dos guardas. Eu respirei aliviada, Lucho tambm.
    Orlando chegou ao cair da noite e sentou-se  mesinha entre Lucho e eu, como sempre.
   -                Precisamos arrumar fones de ouvido - disse ele -, seno corremos o risco de ser pegos.
   -                A recepo do meu rdio  execrvel - eu disse. - Acho que temos de tentar fazer uma antena, 
do contrrio ter sido tudo em vo. Neste momento, nem fones de ouvido iam adiantar.
   -                Bom, ento, vai pegar seu rdio ou no?
   -                Nem pense nisso, no  o momento.
   -                Mas , sim: Lucho e eu, a gente conversa normalmente. Nossas vozes cobrem o barulho do 
rdio. Voc gruda no ouvido, no volume mais baixo, e vamos testar para saber do que ele precisa!
    Os dias correram, ns nos concentramos em melhorar a qualidade da recepo, fazendo todo o possvel para 
no levantar suspeitas. Claro que nossos companheiros no iam cumprir suas ameaas. O resto do grupo 
considerou que a chantagem havia sido vergonhosa. Eu lamentei que mais uma vez nossas querelas tivessem 
criado barreiras permanentes entre ns.
    Apesar de tudo, a rotina se instalou. Ns escutvamos rdio todas as noites e comentvamos todas as 
informaes que recebamos. Orlando havia instalado um polo terra enterrando uma pilha velha enrolada em um 
arame de ferro to grosso como a tela da cerca, ligado a um fio metlico mais fino, que entrava no buraco dos 
fones de ouvido do aparelho. Foi surpreendente: o volume e a clareza de escuta ficaram quase perfeitos. Durante 
a manh, era preciso trocar a conexo e ligar o aparelho a um fio de alumnio to fino que ficava quase invisvel, 
enrolado nos galhos de uma das rvores do ptio  guisa de antena area. De madrugada, a partir das quatro da 
madrugada, a recepo era excelente, mas logo caa, para ficar francamente ruim s oito horas da manh.
    Havia apenas dois momentos em que a escuta era confortvel: ao anoitecer e ao amanhecer. Orlando me 
esperava  primeira luz, impaciente, em p no barraco.
291
 



Tnhamos finalmente estabelecido um procedimento: eu escutava as mensagens at que mame entrasse no ar e 
depois passava o aparelho para ele.
     Durante anos, minha me me chamou apenas nos fins de semana, na transmisso de Herbin Hoyos com 
mensagens para os refns, durante toda a noite do sbado at o domingo de manh. Ela acabara de descobrir La 
Carrilera, de Nelson Moreno, um caloroso apresentador de Valle dei Cauca, que ocorria todos os dias da semana, 
das cinco s seis da manh. Passara a ser a mais fiel das participantes e tinha como obrigao ser pontual, na 
primeira leva.
     Isso servia a todos, porque, quando eu entregava o rdio a Orlando, as mensagens de nossos outros 
companheiros ainda no tinham sido transmitidas. Nossos companheiros estrangeiros e Clara recebiam 
pouqussimas mensagens.
     Aqueles, porm, que esperavam cotidianamente suas mensagens tinham se organizado para se alternar no 
posto e cada um por sua vez escutava uma parte da transmisso. Isso teve como efeito acabar por nos relaxar, 
porque ficou claro que estvamos todos ligados pelo mesmo segredo.
     Orlando veio me ver certa manh, perguntando se podia dar o rdio a nossos demais companheiros. Eles 
queriam ouvir os boletins de informaes.
     - Empreste, sim, mas  preciso garantir que ele no vai entregar o rdio nas mos de Arnoldo - respondi, 
em dvida.
     Nem tinha terminado de fazer o comentrio e j me arrependera. A ferida ainda no estava cicatrizada. Eu 
ainda estava ressentida com eles. O que era ainda mais indigno era a sensao de conseguir perdoar com mais 
facilidade queles que me mantinham fechada numa priso (porque deles, de certa forma, eu no esperava nada) 
do que a meus prprios irmos de cativeiro, meus camaradas de infortnio, porque deles eu sempre esperei tudo.
     A diviso do acampamento reapareceu com uma nova intensidade. Mas eu no estava mais isolada, no 
tinha mais vontade de s-lo. Continuamos com nosso curso de francs, jogvamos xadrez e mudvamos o mundo 
todas as noites. Eu escutava religiosamente os boletins de informaes que comeavam ao anoitecer e meus 
companheiros assumiam o posto e me substituam na escuta durante uma boa parte da noite. Quando alguma 
informao ou comentrio chamava nossa ateno, informvamos os demais e o rumo da conversa mudava 
imediatamente, para que o ltimo tpico que nos chegara fosse posto em discusso.
292
 



40. A libertao dos filhos de Gloria

13 de julho de 2004

    Uma noite, quando eu estava escutando o rdio distrada, tentando ao mesmo tempo acompanhar a 
conversa entre Lucho e Orlando, meu corao deu um pulo: falavam de Jaime Felipe e de Juan Sebastin, os 
filhos de Gloria. Eu me afastei e me agachei num canto de minha cabana, com as mos em concha no ouvido. 
Queria ter certeza de ter ouvido direito. Os filhos de Gloria haviam sido sequestrados junto com a me. A 
guerrilha lhes tomara a casa de assalto e fizera todos sarem de pijamas. O caula, que no acordara, havia sido 
poupado do ataque, assim como o pai, que estava viajando. A guerrilha pediu um resgate grotesco para sua 
libertao. O pai, acreditando fazer uma coisa boa, tinha conseguido, em sua ausncia, eleger a esposa deputada 
de sua regio. Naquele momento, a impresso geral era de que os prisioneiros ditos "polticos" tinham mais 
chance de sair do que os sequestrados "econmicos", e sobretudo mais depressa, porque a guerrilha estava 
envolvida nas conversas de paz com o governo colombiano e a "zona de distenso" fora finalmente cedida s 
Fare. Sua providncia revelou-se nefasta, uma vez que o processo de paz resultou um fracasso. Gloria fora ento 
separada dos filhos. Deram a entender que ela os reencontraria logo mais, mas ela nunca mais os vira. Durante 
todos esses meses de coabitao, mais de mil vezes aninhei Gloria nos braos, porque a ideia dos filhos nas 
mos das Fare, longe dela, a deixava enlouquecida. Adquirimos o costume de rezar juntas todos os dias. Ela
293
 



 que me explicou como faz-lo corretamente, usando meu tero, com suas estaes e devoes de cada dia.
     Era uma mulher maravilhosa, de grande corao e personalidade forte, que no permitia que lhe pisassem 
nos calos e punha as pessoas em seu devido lugar. Eu a tinha visto enfrentar certos companheiros nossos que a 
insultavam. No recuava, mesmo que depois eu a visse chorar de raiva escondida em seu beliche.
     A locutora repetiu a notcia. Na verdade, essa era a manchete de todas as estaes: os filhos de Gloria 
tinham sido libertados. O pai j estava com eles. Tinham sido liberados em San Vicente dei Cagun, lugar onde 
eu me encontrava quando fui tomada como refm.
     Meu corao disparou. A jornalista anunciou que os meninos tinham feito suas declaraes  imprensa nos 
minutos seguintes. Sa correndo at o barraco para procur-la. Lucho e Orlando olharam para mim como se eu 
estivesse louca e, querendo explicar minha agitao, eu s conseguia dizer: "Gloria, Gloria!", retorcendo as 
mos, o que fez com que eles entrassem em pnico tambm:
    -                O que tem Gloria? O qu? Fale, pelo amor de Deus!
     Impossvel dizer mais. Sa correndo, tropeando, tentando calar as sandlias no caminho, correndo o risco 
de cair a cada passo.
     Gloria estava sentada no escuro e eu no a vi. Cheguei ofegante, o rdio escondido embaixo da camiseta. 
Ela veio at mim, apavorada:
    -                O que aconteceu com voc?
     Eu me curvei e cochichei em seu ouvido:
    -                Os meninos, os meninos, foram libertados.
     Ela fez meno de dar um grito, que abafei com as duas mos, e chorei junto com ela, tentando, como ela, 
dissimular nossas emoes descontroladas. Colei o rdio ao seu ouvido, levando-a para o canto mais escuro do 
barraco. E l, escondidas no escuro, escutamos seus filhos falando. Acocoradas uma junto  outra, insensveis  
dor das unhas cravadas na pele at sangrar. Eu ainda estava chorando quando ela j havia parado, transtornada 
pela felicidade de escutar suas vozes e as doces palavras que os dois haviam preparado especialmente para ela. 
Eu acariciava seus cabelos, repetindo:
    -                Acabou, acabou.
     Procuramos a voz dos meninos em todas as estaes at no haver mais nada. Gloria me pegou pelo brao, 
colou-se em mim para me dizer:
    -                No posso demonstrar que estou feliz. Tenho de fingir que no sei de nada! Ah, meu Deus, se 
eles vierem me informar amanh, como eu vou fazer para dissimular minha emoo?
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    Dei-lhe um abrao antes de voltar para meu alojamento, com cuidado para no despertar a curiosidade dos 
guardas.
   -                Espere, est esquecendo do rdio.
   -                Voc precisa ficar escutando a noite inteira. Com certeza vo transmitir as entrevistas com os 
meninos continuamente e amanh de manh as notcias a respeito deles vo estar em La Carrilera. Fique com 
ele.
    Estranhamente, a felicidade de uns parecia afligir outros. O sofrimento de um companheiro podia aplacar o 
de outro que parecia se alegrar com a ideia de ter sido beneficiado pelo destino. Da mesma forma, a felicidade 
de Gloria parecia incomodar alguns de ns.
    No dia seguinte, foi Guillermo, o enfermeiro, que veio lhe dar a notcia. Gloria fez o que pde para 
demonstrar surpresa. Mas ficou aliviada sobretudo por poder falar do acontecimento em voz alta e exprimir sua 
alegria sem restries.
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41. As pequenas coisas do inferno

     Depois da libertao de seus filhos, Gloria tornou-se o foco de pequenos ataques mesquinhos. Caoavam 
dela, a imitavam grosseiramente quando ela virava as costas, punham-se contra ela porque fumava demais. Os 
cigarros chegavam de quando em quando e cada um recebia um pacote que podia usar livremente. Ns, os "no 
fumantes", dvamos nossa proviso aos fumantes. Em todo caso, foi assim no comeo. Pouco a pouco a atitude 
mudou e notei que, s vezes, os que no fumavam guardavam seus cigarros como moeda de escambo para 
conseguir coisas junto aos guardas, ou obter servios de seus companheiros. A ideia me era repugnante. Assim 
que era feita a distribuio, eu entregava o meu pacote nas mos de Gloria e Lucho. Eles eram os que mais 
consumiam.
     Certa ocasio um de nossos companheiros teve a ideia de pedir que a guerrilha no desse cigarros aos no 
fumantes. Ele sentiu que havia um favoritismo no fato de alguns terem o dobro de outros. Gloria e Lucho foram 
diretamente visados. O recepcionista adotou a sugesto: os pacotes ficariam para ele! Na repartio seguinte, ele 
ordenou que s os fumantes se aproximassem. Pedi o meu pacote, ele recusou. Fui obrigada a fumar na frente 
dele para consegui-lo. Ele me ameaou com represlias se descobrisse que eu o tinha enganado. Combinei com 
Gloria e Lucho que, de vez em quando, fumaria um cigarro no ptio de forma ostensiva, para evitar polmicas. 
O resultado foi absurdo. Ao fim de poucas semanas, eu 
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estava fumando no mesmo ritmo. Em vez de ser uma fonte de cigarros para eles, passei a ser uma concorrente 
incmoda!
     As latas de conservas que Lucho recebia para compensar seu diabetes tambm gerava ciumeira. Uma posta 
de atum era um luxo invejvel. Lucho tinha resolvido repartir cada lata que abrisse com um de nossos 
companheiros, estabelecendo um rodzio para que todos comessem um pouco de quando em quando. Ele 
privilegiava Jorge, que estava doente. Quanto a mim, ele nunca se esquecia.
     Alguns ficavam revoltados. Ns os vamos sair do barraco com raiva quando Lucho pegava o cortador de 
unhas para abrir a lata de conservas. A atitude deles contrastava com a de Mare. Durante os ltimos meses de 
nossa estada na priso de Sombra, provavelmente antecipando uma certa libertao (uma vez que o Plano 
Patriota j havia sido lanado), houve uma srie de abates de frangos. A panela nos chegava com o animal 
cortado em pedaos, espalhados sobre o arroz, ou boiando num caldo de gordura duvidosa, a cabea e as patas 
saindo da panela. Era um espetculo repugnante, ainda mais porque no geral o pescoo havia sido mal depenado 
e a ave mantinha os olhos abertos, ainda perplexa pelo sbito assalto da morte. De qualquer modo, para ns era o 
equivalente a uma bacanal e fazamos fila para receber nossa rao. O curioso era que Mare recebia 
invariavelmente a cabea e o pescoo do frango. No comeo, ningum prestou ateno nisso. Mas, como o fato 
se repetia, na terceira vez comeamos a fazer apostas. Quer ficasse no comeo ou no fim da fila, fosse Arnoldo 
ou outro a servir, Mare sempre recebia a cabea do animal, com a crista roxa tremendo e os olhos abertos. Ele 
olhava seu prato com perplexidade, e suspirava, dizendo "Outra vez eu", e ia se sentar. Eu admirava sua 
resignao e achava nobre seu distanciamento. Sabia que todos os outros, inclusive eu mesma, tentaramos 
conseguir uma compensao.
     Essa ideia ajudou a abrandar meu ressentimento contra ele. Eu ficara muito zangada por causa da histria 
do rdio. Depois disso, fizera questo de manter distncia dele. Mas eu no escondia mais os sentimentos que 
incomodavam minha existncia.
     Quando soube, por uma mensagem de minha me, que a me de Mare estava em Bogot, que ela tentaria 
lhe mandar mensagens durante a semana, deixei de lado meus ressentimentos. Considerei sagrada essa 
informao e que era preciso fazer de tudo para que ele conseguisse ouvir a voz da me. Eu pensava tambm na 
ocorrncia dessas situaes em que a vida nos pe diante de ns mesmos, num piscar de olhos do destino: sem 
meu aparelho de rdio, ele no teria sabido que sua me viera at a Colmbia para lutar por ele.
     Dei-lhe a notcia. Ele no fez nenhum comentrio, mas pegou o rdio depois
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da ronda de mensagens dos demais. Efetivamente, a presena de Jo Rosano 
havia sido confirmada. Ela contava falar com as autoridades, sobretudo o 
embaixador dos Estados Unidos na Colmbia. Considerava que o filho havia 
sido abandonado por seu governo, que fazia de tudo, dizia ela, para que ele 
fosse condenado ao esquecimento. Mare ficou incomodado com essas 
declaraes. Achava que as autoridades americanas trabalhavam discretamente 
para obter sua libertao. No entanto, os indcios que nos chegavam no eram 
favorveis. O governo dos Estados Unidos havia reafirmado sua recusa em 
entrar em contato com os terroristas: a resposta ao sequestro de seus cidados 
havia sido o aumento da ajuda militar  Colmbia. No incio do sequestro 
deles, eu achava que sua presena ia acelerar a libertao de todos os refns, 
como sugerido por Joaquin Gmez. Reagi como meus companheiros tinham 
reagido quando fui capturada. Mas, com o tempo, nos rendemos  evidncia de 
que a captura deles tornava a situao dos refns ainda mais complicada. 
Sentamos todos que eles seriam os ltimos a recuperar a liberdade, e cada um 
de ns queria pensar que seu destino no estava ligado ao deles. Essa ideia 
penetrara nos espritos. De vez em quando, um de meus companheiros 
americanos comentava:        ,
     - Voc, pelo menos, tem a Frana para lutar por voc. Mas na nossa terra 
todo mundo ignora o que aconteceu conosco.
     A visita de Jo Rosano  Colmbia lhe deu coragem. Ouvimos dizer que 
ela era a nica que fazia as coisas andarem do lado dos americanos. Minha me 
e Jo haviam se encontrado e as duas caram imediatamente uma nos braos da 
outra. Entendiam-se sem saber bem como, porque Jo no falava espanhol e o 
ingls de minha me era uma lembrana de uma estada em Washington no 
comeo de seu casamento. Mas eram ambas de origem italiana. Isso explicava 
tudo.
     Mare veio durante a semana, ao amanhecer, e ficamos sentados juntos 
para escutar as mensagens de La Carrilera, na esperana de ouvir Jo, mas foi 
em vo. Os retalhos de informao nos chegavam por minha me. As duas 
tinham almoado juntas. Encontraram-se para planejar aes conjuntas. Jo 
voltara frustrada da conversa com o embaixador americano. Ele tinha sido duro 
e grosseiro, dissera ela. Minha me me contou em sua mensagem que isso no a 
surpreendera: "Quando fui v-lo para pedir que apoiasse o acordo 
humanitrio,* ele me respondeu que no era uma prioridade de seu governo, 
que ele considerava os refns como doentes terminais e que no havia nada a 
fazer, seno esperar!". Mame estava indignada.
* Negociaes com as Fare visando uma troca de prisioneiros.
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Mare estava ao meu lado. Tnhamos colado o ouvido ao aparelho e escutvamos juntos o que mame dizia. Mas 
ele no entendia tudo, porque minha me falava depressa e o espanhol de Mare ainda era rudimentar. Fiquei 
aliviada com isso porque no queria que ele entendesse tudo o que eu prpria havia entendido:
   -                Minha me diz que a sua foi jantar com ela, as duas vo tomar aes conjuntas. Sua me 
esteve com o embaixador americano.
   -                E ento?
   -                Ento, nada. Ela vai falar amanh de novo com certeza, no Las Vocs dei Secuestro.  muito 
longo. Se tivermos sorte, elas entram no ar cedo e no teremos de ficar escutando a noite inteira.
    Eu acabava sempre cochilando entre dez horas e meia-noite. Ficava com muito medo de no acordar a 
tempo. Sem relgio, adquiri o hbito de me orientar escutando os programas precedentes. Reconhecia o que 
vinha logo antes de nossa transmisso. Era uma hora dedicada a tangos. Eu sabia ento que precisava ficar  
escuta e me beliscava com fora para no dormir.
    Nessa noite, acordei de um sono inquieto, como acontecia todos os sbados. Liguei o rdio e procurei os 
tangos no escuro. Mare no tinha chegado ainda. Eu me sentia bem desperta. Erro: ca num sono pesado sem me 
dar conta.
    Mare chegou um pouco mais tarde. Escutou o chiado do rdio e pensou que eu estava escutando a 
transmisso deitada em minha cama e que passaria o rdio a ele se sua me chamasse. Esperou assim, sentado 
no escuro, durante horas.
    Acordei sobressaltada. O rdio tinha acabado de anunciar as horas. Duas da manh. Eu havia perdido 
metade do programa! Levantei-me depressa e dei um grito ao ver Mare no escuro, esperando calmamente. 
Fiquei confusa.
   -                Por que no me acordou?
   -                Achei que voc estava escutando o programa!
   -                Devemos ter perdido as mensagens.
    Fiquei muito zangada comigo mesma. Instalamo-nos de ambos os lados do radinho, as cabeas coladas. As 
mensagens se sucediam a cada dois minutos. Eu escutava atentamente na esperana de alguma pista para saber 
se minha me j teria chamado. O programa era longo e os participantes protestavam porque certas famlias 
monopolizavam o tempo de transmisso. Herbin Hoyos, o diretor do programa, se desculpava de todas as 
maneiras e pedia queles que estavam esperando que preparassem mensagens telegrficas para acelerar o 
programa. Enumerou quem estava na lista: minha me e Jo eram as primeiras!
    Mare cochilava. A espera havia sido longa demais e seus olhos fechavam contra a sua vontade. Apertei o 
brao dele:
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    -                Agora, elas vo falar dentro de alguns minutos.
     De fato, a voz de minha me chegou com muita interferncia, mas ainda compreensvel. Ela estava 
emocionada. Anunciou uma viagem prxima  Holanda, onde receberia um prmio em meu nome. A mensagem 
foi interrompida e outra pessoa tomou a palavra. Houve ainda uma grande espera antes de chegar a vez de Jo. 
Mare estava praticamente dormindo na cadeira. Eu o acordei no momento em que sua me entrou no ar. A 
emoo tomou conta dele, agarrado ao aparelho de rdio. Peguei sua outra mo e a acariciei. Era um gesto de 
minha me. Eu o reproduzi instintivamente para tranquiliz-lo, para faz-lo entender que eu estava ali com ele, 
para repartir aquele instante que sabia ser to intenso. Esse gesto, que eu tinha tambm com meus filhos, ajudou 
a me concentrar nas palavras de Jo, a memoriz-las. Na intensidade de nossa escuta, estvamos ligados, Mare e 
eu. Nossas querelas no tinham mais nenhuma importncia. Eu sabia exatamente aquilo que ele estava para 
viver. Lembrava-me do efeito que a primeira mensagem de minha me tivera sobre mim. A voz aveludada que 
eu tanto amava, o timbre, o calor, todo o prazer que tive ao reencontrar sua entonao, a sensao de segurana 
e bem-estar que havia me invadido. Quando ela terminou de falar comigo, eu ainda naquela bolha mgica que 
sua voz construra em torno de mim, me dei conta de que no era capaz de lembrar o que ela acabara de me 
dizer.
     Enquanto a me de Mare falava, reconheci a expresso dele, aquela dor da ausncia que se transformava 
em beatitude, aquela necessidade de absorver cada palavra como um alimento essencial, aquela rendio final 
para mergulhar sem reservas na felicidade efmera. Quando a voz dela desapareceu, Mare olhou para mim com 
um olhar de criana. Entendi de imediato que ele havia feito a mesma viagem que eu. Depois, como se 
despertasse de repente, me perguntou:
    -                Espere, o que minha me disse?
     Relembrei, um a um, cada momento da mensagem, a forma que ela havia utilizado para se dirigir a ele a 
distncia, os nomes amorosos com que cobrira o filho, o apelo  fora e  coragem diante da adversidade, a 
certeza de que ele era resistente e vital, e sua f absoluta em Deus, pedindo que ele aceitasse Sua vontade como 
prova de f espiritual. Deus  que faria com que ele voltasse para casa, ela dissera. Mare no me escutava, 
escutava a voz de sua me dentro dele, em sua cabea, como uma gravao a que tinha acesso atravs de mim. 
Depois de alguns instantes, novamente ele fez a mesma viagem. Quando terminei, estava de novo iluminado e a 
memria de novo ausente.
    -                Desculpe, eu sei que devo parecer idiota, mas pode repetir a mensagem mais uma vez?
300
 



    Eu estava pronta para repetir cem vezes, se ele pedisse. Via-me diante de uma experincia fundamental, 
porque as palavras de uma me so mgicas e penetram na nossa intimidade, apesar de ns mesmos. Ah! Se eu 
tivesse entendido isso antes! Como teria sido menos exigente, mais paciente, mais tranquilizadora na relao 
com meus prprios filhos... A ideia de que as palavras ditas a meus filhos deviam t-los tocado de uma forma 
to intensa quanto aquela me tranquilizou. No decorrer da semana, Mare me pediu para repetir a mensagem de 
Jo e eu o fiz todas as vezes de boa vontade. Notei, depois disso, que seu olhar se abrandou: no somente o olhar 
com que via o mundo, mas o olhar com que via a mim.
301




42. O dicionrio

     Guillermo, o enfermeiro, chegou uma 
manh com o grande dicionrio 
enciclopdico Larousse ilustrado com que 
eu sonhava. Ele me chamou, ps o 
dicionrio em minhas mos e disse:
     - Sombra mandou isto aqui para voc.
     Virou-se e foi embora.
     Fiquei boquiaberta. Eu pedira 
incessantemente o dicionrio. Meu melhor 
argumento tinha sido que Mono Jojoy 
prometera mand-lo. Achava que, afinal, 
no iam mais envi-lo. Imaginava que 
estvamos escondidos nos confins da terra 
e que era impensvel me mandarem um 
dicionrio. Portanto, no consegui conter 
minha alegria e excitao de t-lo enfim 
entre as mos. A chegada do dicionrio 
transformou minha vida, expulsou o tdio e 
me permitiu utilizar de forma produtiva o 
tempo que me sobrava e com o qual no 
sabia o que fazer.
     Tinha guardado meus cadernos do 
acampamento de Andrs e queria continuar 
minhas pesquisas, encontrar informaes 
perdidas e aprender. Se pudesse 
"aprender", ento no estaria perdendo meu 
tempo. Era isso que mais me angustiava em 
meu estado de deteno. A perda de tempo 
era para mim o mais cruel dos 
castigos. Ouvia a voz de meu pai a me 
perseguir: "Nosso capital de vida se conta 
em segundos. Quando esses segundos se 
escoam, no se recuperam mais!"
     Quando estava em campanha 
presidencial, ele se sentara comigo um dia 
para 
me ajudar a fazer um planejamento e traar 
as grandes linhas de transformao
302
 



que eu sonhava realizar. Ele pegara um caderno, rabiscara alguma coisa e dissera: "Voc ter apenas 126144 000 
segundos durante seu mandato. Pense bem, no ter nem um segundo a mais!".
    Essa reflexo me perseguia. Quando me privaram de minha liberdade, eu ficara privada sobretudo do 
direito de dispor do meu tempo. Era um crime irreparvel. Seria impossvel para mim recuperar os milhes de 
segundos perdidos para sempre. O dicionrio era, portanto, para mim, o melhor paliativo. Ele passou a ser uma 
espcie de universidade resumida. Eu passeava por ele  vontade e encontrava respostas para todas as perguntas 
que havia colocado em lista de espera na minha vida. Aquele livro me era vital, porque permitia que tivesse um 
objetivo a curto prazo e me distraa daquela culpa subjacente ao meu estado, de estar dilapidando os melhores 
anos de minha existncia.
    Mas minha felicidade gerou cimes. Assim que o recebi, um de meus companheiros veio me dizer que, 
como tinha sido fornecido pela guerrilha, aquele dicionrio no pertencia a mim e que eu tinha de coloc-lo  
disposio de todos. Eu estava de acordo com ele em princpio. No momento em que estvamos reunidos para 
esperar a comida, convidei os demais camaradas a usar o dicionrio:
   -                Ele estar disponvel durante a manh. Eu o uso  tarde. Basta pegar e colocar de volta no 
lugar.
    Lucho me advertiu:
   -                Pode esperar que vo fazer todo o possvel para tirar o dicionrio de voc.
    Ao longo dos dias seguintes, a tenso diminuiu. Todos usavam o dicionrio.
Orlando teve a ideia de confeccionar uma capa impermevel para o volume. Gloria me forneceu o tecido 
encerado de uma mochila velha que ela estava disposta a reciclar e o dicionrio servia a uns e outros. Foi nesse 
momento que Guillermo reapareceu.
   -                Me d o dicionrio, preciso dele.
    O tom com que disse isso me deixou perplexa.
   -                Tudo bem, claro, quanto tempo vai precisar dele?
   -                Uma semana.
   -                Escute, estou trabalhando com ele. Pegue durante o fim de semana, se quiser.
    Ele me olhou de alto a baixo com um olhar maldoso, mas acabou por ceder. Trouxe o livro na segunda-feira 
seguinte, dizendo:
   -                No estrague o livro. Venho pegar de novo na sexta-feira.
    Na semana seguinte, veio com uma ttica nova.
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    -                Os militares precisam do dicionrio.
    -                Tudo bem, sem problemas. Leve e pea para me mandarem de volta pelo recepcionista, por 
favor.
     Mas dessa vez no me devolveram.
     Havia um comandante novo no acampamento. Era um homem maduro, com mais de quarenta anos, cabelos 
grisalhos e olhar severo. Chamava-se Alfredo. Todo mundo achava que Sombra ia ser afastado, mas eles 
acabaram se instalando em uma coabitao que dava a impresso de que seria duradoura, apesar das evidentes 
tenses entre ambos.
     O comandante Alfredo queria se encontrar com os prisioneiros. Eles nos receberam juntos, Sombra e ele, 
durante toda uma tarde, no lugar que Sombra chamava de seu "escritrio". Eu toquei no assunto imediatamente:
    -                Olhe, eu queria saber se posso dispor do dicionrio como eu quiser. Guillermo deu a entender 
que no. De fato, o livro est com ele, e ele no me devolveu.
     Sombra pareceu incomodado. Alfredo olhou para ele com severidade, como uma ave de rapina 
sobrevoando a presa.
    -                Esse dicionrio  seu. - Sombra declarou, para encerrar o assunto. Deduzi que ele no queria 
dar motivos para Alfredo fazer um relatrio a Mono Jojoy.
     Aquilo bastou. No dia seguinte, Guillermo me trouxe o dicionrio. Ele sorriu ao me entregar o livro:
    -                El que rie de ultimas, rie mejor *
* Quem ri por ltimo ri melhor.
     Seu alerta no conseguiu comprometer minha satisfao. Mergulhei em horas de leitura fascinante, 
procurando conhecer, compreender, encontrar, como num jogo de enigmas.
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43. Meu amigo Lucho

Agosto de 2004

     Lucho e eu nos tornamos inseparveis. Quanto mais o conhecia, mais o amava. Era um ser sensvel, dotado 
de grande sagacidade e senso de humor a toda prova. Sua inteligncia e seu esprito eram para mim to vitais 
quanto o oxignio. Alm disso, ele era o ser humano mais generoso que existe, o que fazia dele uma 
prola rara na priso de Sombra. Eu depositava nele toda a minha confiana e ns dois nunca parvamos de 
cogitar uma maneira de fugir.
     Orlando nos colocou a questo certa noite. Props fugirmos juntos. Sabamos, Lucho e eu, que isso era 
impossvel. Estvamos convencidos de que ele jamais ousaria e tnhamos mais certeza ainda de que ns prprios 
no ousaramos. Mas, alm disso, Orlando era um homem grande e pesado. No conseguamos imagin-lo 
passando despercebido por baixo da tela de ao e dos fios de arame farpado.
     Enquanto isso, de tanto falar no assunto, nos pusemos a analisar as hipteses e a fazer planos. Tnhamos 
chegado  concluso de que precisaramos de meses, anos mesmo, para sair daquela selva, e que era preciso 
aprender a viver nela sem outros recursos alm de nossa engenhosidade.
     Passamos ento a fabricar equipos iguais aos de Lucho. Sombra tinha instalado no acampamento uma 
oficina de trabalhos com couro voltada para a fabricao e reparo de mochilas e equipamentos para a tropa. 
Quando fizemos nosso
305
 



pedido, ele caiu em terreno frtil: por um lado, havia material e, por outro, em caso de evacuao, no sabamos 
como transportar nossas coisas.
     Nossa ideia era de fabricar duas para cada um. Uma de tamanho normal, para levar tudo em caso de 
evacuao. E uma de tamanho menor, que Orlando batizou de "minicruzeiro", para a nossa fuga. Orlando, que 
tinha noes de trabalho com couro, nos orientou na tcnica bsica. Bem depressa, toda a priso se ps a 
trabalhar. No s porque sentamos que um dia ou outro teramos de partir (avies sobrevoavam diariamente o 
acampamento), como tambm porque a possibilidade de confeccionar boas mochilas era atraente para todos.
      noite, Orlando vinha se sentar em minha cama com um fio de ferro que tinha recuperado num canto da 
tela e uma lima grossa que eu havia arranjado num momento de distrao de um dos recepcionistas. Ele queria 
confeccionar anzis.
    -                Assim a gente no morre de fome! - disse bravamente, brandindo um anzol torto, feito a mo.
    -                Com isso a voc s pesca baleia - Lucho brincou, carinhoso.
     Eu tinha conseguido com Sombra uma reserva de acar para fazer frente s crises de Lucho. Isso poderia 
nos ser til em caso de fuga. A falta de acar me preocupava, porque eu tinha muito pouco e a intervalos cada 
vez mais curtos era obrigada a lanar mo dele, j que Lucho estava sempre  beira de uma reao pancretica. 
Eu havia aprendido a reconhecer os sintomas, antes mesmo que ele os sentisse. Acontecia sempre  tarde. Seu 
rosto de repente ficava encovado e a cor da pele tendia a acinzentar. Eu lhe recomendava que ingerisse um 
pouco de acar. Em geral, ele me censurava, carinhoso, dizia que preferia deitar, que j ia passar. Mas quando 
reagia bruscamente, gritando que eu era uma chata e que no ia tomar acar nenhum, eu sabia que nos 
segundos seguintes entraria em convulses. Ento, era uma verdadeira batalha. Eu usava de todos os 
estratagemas para conseguir que tomasse sua dose de acar. Inevitavelmente, a um determinado momento, ele 
oscilava da agressividade para a apatia. Perdia toda a resistncia e eu podia ento pr o acar em sua boca. 
Ficava sentado, abobado, durante minutos, depois voltava a ser Lucho e pedia desculpas por no ter me dado 
ouvidos.
     Essa dependncia mtua era nossa fora, mas tambm nossa vulnerabilidade. De fato, soframos 
duplamente, primeiro por nossas prprias penas e, depois, com a mesma intensidade, pelas aflies um do outro.
     Foi num dia de manh. Mas j no tenho certeza, talvez tenha sido ao amanhecer, porque a tristeza caiu em 
cima de ns como um eclipse e eu guardei no esprito a ideia de um longo dia de trevas.
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    Estvamos sentados lado a lado, em silncio, escutando juntos nosso radinho. Devia ser um dia como os 
outros, mas no foi. Espervamos a mensagem de minha me e mensagens para ele, porque sua mulher o 
chamava toda quarta-feira em outra frequncia e no estvamos numa quarta-feira. Quando ele ouviu a voz da 
irm, Estela, seu rosto se iluminou. Ele a adorava. Retorceu-se de contentamento na cadeira, como se quisesse 
se instalar mais confortavelmente, enquanto a irm, com voz doce e infinita ternura, disse: "Lucho, seja forte, 
nossa mezinha morreu". O sufocamento que eu tinha sentido ao descobrir num jornal velho a morte de meu pai 
voltou com violncia. Lucho sentiu a mesma suspenso opressiva do tempo, a respirao suspensa. Seu 
sofrimento reativou o meu e me retorci sobre mim mesma. No podia ajud-lo. Ele tentou chorar, para recuperar 
o flego, para se livrar da tristeza, deixar que ela escapasse do corpo, para tir-la de si. Mas chorou a seco, e 
isso foi ainda mais atroz. Ele no tinha nada a fazer, nada a dizer. Esse eclipse durou dias, at que a porta da 
priso se abriu e a voz de Arnoldo se fez ouvir:
   -                Peguem apenas o indispensvel, rede, mosquiteiro, escova de dentes. A gente vai se mandar. 
Vocs tm dois minutos.
    Mandaram que fizssemos fila e samos. Eu tinha pego meu dicionrio, no estava nervosa. Despertei 
daquela longa tristeza, daquele silncio sem pensamentos. Desejava sair, desejava palavras:
   -                Isso vai nos fazer bem.
   -                , vai nos fazer bem.
   -                Ela j estava morta.
   -                , ela j tinha ido embora. Esqueceu que eu no estava l.
   -                Eu esperava por isso.
   -                A gente espera, mas nunca est pronto.
    Caminhamos lentamente para atravessar a rea externa da priso.  nossa frente, os refns militares 
seguiam acorrentados, dois a dois. Eles nos viram e nos saudaram com grandes sorrisos em seus semblantes 
cadavricos.
   -                Acha que somos iguais?
   -                Acho que ns somos piores.
    Samos do acampamento, seguimos para alm dos fossos, vinte minutos pela trilhazinha que tnhamos 
seguido no escuro com Shirley, na noite do raide.
    Instalamo-nos entre as rvores, sentados na terra em cima de nossos plsticos pretos, longe dos militares 
que no vamos mais, s escutvamos entre as rvores.
   -                Orlando, voc pegou o rdio?
   -                Peguei, est comigo, no se preocupe.
    Gloria foi instalar sua rede. A espera prometia ser longa. Ela se deitou e caiu
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como uma fruta madura. O que dessa vez no a fez rir, mas a ns, sim. Precisvamos nos sentir leves e bobos. 
Fui abra-la.
    -                Me deixe, estou de mau humor.
    -                Ora!
    -                Me deixe. No gosto que voc caoe de mim. Tenho certeza que foi o Tom que desmanchou os 
ns para eu cair.
    -                No foi, no! No seja boba. O pobre Tom no fez nada!
    -                Me deixe.
     Ordenaram que montssemos as barracas. amos dormir trs em cada uma. Fomos montar a nossa, Lucho, 
Orlando e eu.
    -                Quero avisar que eu ronco horrivelmente - disse Orlando.
     Nesse momento, um rugido crescente nos fez ficar de orelha em p. Paramos todos.
    -                So os helicpteros - disse um.
    -                Pelo menos trs - disse outro.
    -                Esto em voo rasante, vo passar em cima da gente.
     A floresta se ps a tremer. Ns todos olhando para cima. Eu sentia o bater dos motores no peito.
    -                Esto muito perto!
     O cu se tornou sombrio. Os pssaros mecnicos passaram, imensos, por cima de nossas cabeas.
     Orlando, Lucho e eu pensamos a mesma coisa ao mesmo tempo. Pusemos nossos "minicruzeiros" nas 
costas. Segurei a mo de Lucho. Com ele, eu podia enfrentar qualquer coisa.
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44. A criana

    Os guardas carregaram os fuzis e se aproximaram. Estvamos cercados. Eu rezei por um milagre, um 
acontecimento imprevisto. Um bombardeio que criasse pnico e nos permitisse fugir. Um desembarque de 
tropas, mesmo que isso significasse a morte. Eu sabia. A ordem era de me matar. Antes de todas as manobras e 
deslocamentos, um guerrilheiro era destacado para essa misso. Tinha ordem de me proteger e me salvar em 
caso de troca de tiros, e de me executar se eu corresse o risco de cair nas mos dos chulos.
    Anos depois, durante uma das longas marchas que foram nosso calvrio nas mos das Fare, uma jovem 
guerrilheira me explicou cruamente a situao.
    Ela se chamava "Peluche" e na verdade, mida e bonitinha como era, o cognome lhe caa muito bem. Eu 
gostava dela. Tinha um grande corao. Para mim era um grande sofrimento acompanhar o ritmo dos outros. Ela 
havia sido destacada como minha guarda, para meu grande alvio. Mas nesse dia, quando fizemos uma parada 
para beber gua, ao ouvir um movimento no mato, ela armou o revlver e o apontou para mim. Seu olhar se 
transformara, eu mal a reconhecia. Ficara muito feia e fria:
   -                O que aconteceu com voc?
   -                Faa o que eu digo, seno eu atiro. Passe na minha frente. Direto, sem parar, na minha frente 
at eu falar.
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     Eu me pus a trotar na frente dela, atrapalhada com uma mochila pesada demais para mim.
    -                Acelerado! - disse ela, irritada.
     Empurrou-me brutalmente para trs das pedras e ficamos escondidas assim durante alguns minutos. Um 
cajuche* passou correndo, de cabea baixa, a poucos metros de ns. Um rebanho inteiro veio atrs, uns vinte 
animais, visivelmente maiores que o primeiro. Peluche se posicionou, mirou, atirou e acertou um dos caititus. O 
bicho caiu na nossa frente, um sangue escuro borbulhando da parte de trs da cabea.
    -                Sorte nossa que eram cajuches. Mas podia ser o Exrcito e, nesse caso, eu teria de executar 
voc. So as ordens.
     Ela me explicara que se os chulos nos vissem, eles no fariam diferena entre ela e mim, e atirariam em 
mim. E que, se eu no corresse para valer, ela atiraria em mim do mesmo jeito.
    -                Ento, voc no tem escolha, ou melhor, sua nica escolha sou eu!
     Permaneci atrs de Lucho. Os helicpteros passaram acima de ns em voo
rasante, se distanciaram, voltaram outra vez sobre ns, fizeram uma volta e passaram de novo em cima de nossas 
cabeas sem nos ver. Afastaram-se e desapareceram ao longe.
     O dia chegava ao fim, restavam ainda alguns minutos de luz pela frente. Tnhamos o tempo exato para 
montar nossa barraca, estender nossos plsticos, instalar os mosquiteiros e nos deitar para a noite.
     Orlando me passou o rdio.
    -                Escute voc as notcias esta noite. Cuidado, eles esto perto da gente, vou conversar em voz 
alta com Lucho para encobrir o rudo.
     No dia seguinte, com a primeira luz da manh, devolvi o rdio a ele, depois de ouvir mensagens de minha 
me e de Angela, a esposa de Lucho. Fui escovar os dentes e esticar as pernas, enquanto esperava a refeio 
matinal. Orlando saiu da barraca por ltimo, bem perto de ns. Seu rosto estava branco. Parecia um cadver 
ambulante. Lucho segurou no meu brao:
    -                Meu Deus, aconteceu alguma coisa!
     Orlando olhou para ns sem nos ver e foi buscar gua no rio como um autmato. Voltou com os olhos 
vermelhos e inchados, o rosto sem nenhuma expresso.
    -                Orlando? O que foi?
* Javali ou porco do mato, cuja carne era muito apreciada pela guerrilha.
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    Aps um longo silncio, ele abriu a boca.
   -                Minha me morreu - disse num suspiro, evitando olhar para ns.
   -                Merda! Merda! - Lucho vociferou, batendo o p na terra. - Odeio esta
-        Merda! Merda! - Lucho vociferou, batendo o p na terra. - Odeio esta 
        selva, odeio as Fare! At quando o Senhor vai estar contra ns? - gritou, olhando 
para o cu.
    No comeo de dezembro, a me de Jorge tinha nos deixado, depois fora a de 
Lucho, e agora a de Orlando. A morte nos perseguia. Sem mes, meus companheiros sentiam-se  deriva, como 
se tivessem perdido o arquivo de suas vidas, projetados num espao onde ser esquecido pelos outros se tornava a 
pior das prises. Eu 
tremia  ideia de que pudesse ser a prxima vtima dessa maldio.
    Como se o destino quisesse zombar de ns, a vida, como a morte, tambm 
estava presente naquele acampamento do acaso. Pelo menos era o que eu pensava. 
 noite, no silncio das rvores, eu ouvira um choro de beb e conclu que Clara 
tinha dado  luz. Acordei para falar com meus companheiros, mas ningum tinha 
ouvido nada. Lucho caoou de mim:
   -                No foi um beb que voc ouviu, foram gatos. Os militares tm muitos, vi 
que estavam levando gatos quando passaram na nossa frente.
    Os helicpteros no voltaram. Voltamos  priso de Sombra para retomar 
nossos espaos. Durante os poucos dias de nossa ausncia, eles tinham sido colonizados pelas formigas e cupins, 
e, para confirmar as palavras de Lucho, os gatos 
tambm haviam aparecido. Um macho grande com pelagem bege e olhos amarelo-fogo que atraiu nossos 
olhares, sem dvida um hbrido de gato e jaguar, era o rei 
do bando, com gatas to excepcionais como ele e bem mais belicosas. Foi adotado 
imediatamente por nosso grupo, cada um tomando como obrigao contribuir 
para o seu bem-estar. Era um animal magnfico, com peito e patas brancas, o que 
lhe dava a aparncia de estar elegantemente enluvado.
   -                Vou levar esse bicho para a minha casa - disse um de meus companheiros. - J pensou o que 
eu posso vender de gatinhos? Vai render uma fortuna!
    Mas Tigre - foi esse o nome que lhe demos - era um ser livre. No tinha 
dono nenhum e nos tratava a todos com indiferena, desaparecia durante o dia. 
Uma das gatas de seu harm, muito tmida, tinha resolvido vir morar conosco. 
Lucho, desde o primeiro instante, conquistara seu corao. Ela trepou em seus 
joelhos e se instalou, ronronando, e arranhava sem compaixo quem tentasse se 
aproximar. Lucho, intimidado, resolvera esperar que ela decidisse descer para poder se levantar da cadeira. Nos 
dias seguintes, ela fez a mesma coisa. A gata  que 
mandava em Lucho, e no o contrrio. Era uma gata mal-amada, sem nome, com 
um olho doente. Vinha  noite, miando, nos procurar: ele abria suas latas de 
311
 



conserva, no mais para se alimentar, ou reparti-las conosco, mas para alimentar sua  
gata, que chamamos de Sabba.
     Sabba realmente miava igual a um beb chorando. Durante algum tempo,  
achei que tinha me enganado, e que o choro de beb que eu tinha ouvido na final da  
resta era o seu miado. Mas uma noite, com a gata dormindo ao meu lado, ouvi 
de novo os vagidos. No havia mais dvidas. Quando Arnoldo chegou na manh  
seguinte com a comida, eu o assaltei com perguntas. Ele me respondeu que Clara 
ainda no tinha dado  luz e que no estava mais no acampamento.
     Eu sabia que era mentira e minha imaginao se inflamou. Tive um sonho  
atroz essa noite, imaginando Clara morta e o beb perdido.
     De manh, contei o sonho aos meus camaradas, garantindo-lhes que ela devia 
estar em perigo. Interrogamos nossos guardas, um de cada vez, mas a orientao 
era no nos dizer nada. Sombra e Alfredo apareceram uma tarde. Ficaram do outro lado da tela, falando conosco 
como se estivssemos empesteados. A discusso 
acabou se tornando cida e o ambiente ficou extremamente tenso, porque Alfredo 
disse que nossos companheiros americanos eram mercenrios e agentes da CIA. 
     Antes de ir embora, Alfredo declarou:
    -                De fato, sua amiga deu  luz.  um menino e se chama mmanuel. Ela 
voltar dentro de alguns dias.
     Fiquei aliviada, ao contrrio de meus companheiros.
    -                Vai ser terrvel ter um beb aqui nesta priso, berrando a noite inteira! - 
disse-me aquele mesmo que tinha me ensinado uma lio quando da chegada de 
nossos companheiros americanos.
    -                Respondo com suas prprias palavras:  preciso dar as boas-vindas a todo 
mundo.
     Alguns dias depois, Guillermo nos contou sobre o parto de Clara. Ele havia se 
preparado para a interveno assistindo  descrio dos procedimentos no computador. Disse que salvara a vida 
da criana, que estava quase morta quando ele 
interviera e a reanimara. Explicou depois que tinha dado pontos em Clara e que 
ela j estava de p.
     De fato, Clara chegou uma manh, andando, com o bebezinho embrulhado 
entre os braos. Ns os recebemos com emoo, enternecidos por aquele pequeno 
ser nascido em nossa selva, em nossa priso, em nossa infelicidade. Ele dormia de 
olhos apertados, ignorando inteiramente o mundo pavoroso em que havia aterrissado.
     Clara ps o beb em minha cama e nos sentamos para olhar para ele. Ela me 
contou em detalhes como tinha sido sua vida depois que fomos removidos do 
galinheiro, acrescentando:
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   -                Passei dias inteiros muito mal depois do parto. Os guerrilheiros  que cuidaram do beb. Eu 
nunca lhe dei de mamar, ele s vinha uma vez por dia, eu no tinha condies de cuidar dele. Nunca lhe dei um 
banho.
   -                Tudo bem, melhor, vamos fazer isso juntas, voc vai ver,  um momento maravilhoso.
    Peguei o beb para despir e descobri que seu brao esquerdo estava enfaixado.
   -                O que aconteceu?
   -                Quando estava nascendo, puxaram um pouco forte demais e quebraram o brao dele.
   -                Meu Deus, isso deve doer muito!
   -                Ele quase no chora. No deve sentir nada.
    Eu estava profundamente emocionada.
    O dia estava bonito, o ar quente. Enchemos de gua uma bacia que Lucho havia recuperado quando 
estvamos no chiqueiro. Ao despir o beb, revivi o momento em que mame tinha me iniciado com Mlanie. 
Imitei um a um seus passos e gestos, repousando o beb no antebrao, sustentando sua cabea com a mo, e 
mergulhei o corpinho delicadamente na gua, conversando com ele, olhando em seus olhos, cantarolando uma 
melodia alegre para que o seu primeiro contato com a gua viesse a ser para ele uma referncia de prazer, como 
eu a tinha visto fazer. Peguei a gua na concha da outra mo:
   -                Est vendo? Assim, voc despeja a gua na cabea dele com cuidado para no cair nos olhos, 
porque ele pode assustar. E fala com ele, acaricia seu corpo, porque  um momento especial, e cada vez deve ser 
um instante de harmonia entre voc e ele.
    As palavras de mame voltaram  minha mente. Inclinada sobre a bacia, com o beb nos braos, compreendi 
todo o significado que possuam: eu estava vivendo com Clara o que eu sabia que sua me teria gostado de 
partilhar com ela. Clara ficou fascinada, como eu devo ter ficado ao acompanhar os gestos seguros e 
experimentados de minha me. Na verdade, eu no estava transmitindo nada a ela. Meu papel era libert-la de 
seus medos e apreenses, para que ela descobrisse em si mesma seu modo particular de comunicao com o 
filho.
313
 



45. A greve

     Eu tinha pedido que instalassem outra cabana ao lado da minha, colada  tela, para Clara e o beb. Queria 
ficar perto dela, sobretudo  noite, para ajud-la a cuidar da criana sem incomodar ningum. Tentei apresentar 
meu pedido, no momento certo, com as palavras certas, num tom que no deixasse espao para nenhuma 
suspeita. Mas a resposta foi negativa e Clara retomou seu lugar no fundo do barraco, com o beb.
     Isso me deixou ainda mais desolada porque, quase imediatamente, Clara recusou minha ajuda e no aceitou 
que eu tivesse qualquer contato com a criana. Meus companheiros se alternavam na mobilizao em torno dela, 
mas ela recusava a ajuda. Observamos abatidos a falta de jeito daquela me marinheira de primeira viagem que 
recusava qualquer conselho. De imediato, o beb chorou o dia inteiro e o recepcionista veio peg-lo para levar a 
uma guerrilheira qualquer, fora da priso.
    -                Voc no sabe cuidar dele - disse o homem olhando para ela, enfezado.
     Ouvi meus companheiros protestando com ela:
    -                A mamadeira estava muito quente, precisa experimentar antes de dar para ele!
    -                Vai irritar ainda mais a bundinha dele se continuar limpando com papel higinico! Para ele,  
como uma lixa!
    -                Precisa dar banho todos os dias, mas no pode mexer seu bracinho, seno no vai sarar.
314
 



    Quando o beb voltou da guerrilheira, parecia mais calmo, de fato. Calmo demais. Observei isso de longe. 
Comentei com Gloria e Consuelo. Elas tambm tinham notado que alguma coisa estava errada. O beb no 
acompanhava os objetos com o olhar. Reagia a sons, mas no  luz.
    Ns apenas observvamos, compungidos. No valia a pena falar com a me. Estvamos em dvida, 
achvamos que o beb estava doente, mas dizer isso no ia ajudar em nada. Se no tinham levado Clara para dar 
 luz num hospital, com certeza nada fariam para providenciar qualquer cuidado mdico ao beb. Estvamos 
plenamente conscientes de que nos deixariam morrer dentro da priso sem nos estender a mo e isso valia 
tambm para o recm-nascido.
    Eu me lembrava do enfermeiro impassvel enquanto Lucho sofria convulses no cho e de sua atitude 
diante dos sucessivos ataques cardacos de que Jorge tinha sido vtima. Lucho o reanimara fazendo massagens 
no peito que aprendera com sua irm mdica. Tnhamos suplicado que nos fornecessem aspirinas para fluidificar 
seu sangue e diminuir o risco de infarto, sem sucesso. Acabaram por tir-lo da priso, acusando-nos de t-lo 
sufocado e contribudo para sua recada com nossos cuidados. Ele passara uma semana no ateli de trabalho com 
couro, sozinho, deitado no cho.
    Achvamos que iria receber cuidados mdicos, mas ao voltar Jorge nos revelou que tinha tido outros 
infartos em srie, sem que o guarda fizesse qualquer coisa para socorr-lo. Estar vivo, para qualquer um de ns, 
era cada vez mais parecido com um milagre. Mergulhados nesse mundo governado pelo cinismo, onde a vida 
que nos tinham roubado no valia nada, assistamos a uma inverso de valores  qual nunca me resignei.
     noite, deitada em meu beliche, eu acompanhava com tristeza o comrcio que alguns de meus 
companheiros tinham estabelecido junto  tela de ao que nos circundava. Tudo o que podia ser objeto de uma 
transao era usado, com a finalidade de obter um medicamento ou um pouco de alimento. Surpreendi toques 
ousados, porque alguns guardas, valendo-se da confuso e da carncia em que vivamos, pressionavam sempre 
um pouco mais nas suas exigncias, com o fim de aumentar nossa humilhao.
    Eu ficava abalada com o comportamento dos detentos que tinham feito das concesses um sistema de vida. 
Eles justificavam isso como uma ttica para ganhar a confiana dos guerrilheiros com o objetivo de melhorar 
suas chances de sobrevivncia. Fosse qual fosse a verdadeira razo, tinham escolhido ser amigos de nossos 
carrascos. Ento se esforavam para dar provas de submisso cada vez que se apresentava a oportunidade.
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     Quando acontecia a chegada de uma leva de roupas - o que era raro, uma  vez por ano, talvez duas, com 
um pouco de sorte - um de nossos companheiros recebia o que devia ser o artigo mais cobiado do lote. Ele 
declarava ento que no queria aquilo e, em vez de oferecer a um dos nossos, sempre necessitados, dava de 
presente ao guerrilheiro que queria agradar. Seu gesto era apreciado e ele recebia em troca favores de toda 
espcie: alimentao mais generosa e melhor, medicamentos etc.
     Essa atitude foi se espalhando e o resultado foi um condicionamento mental que via nos guerrilheiros 
figuras de autoridade e lhes desculpava todas as crueldades e abusos que se permitiam contra nossos 
companheiros. As relaes tinham se invertido, e os detentos viam os prisioneiros como rivais, pelos quais 
alimentavam averso e animosidade.
     Comeamos a nos portar como vassalos diante de grandes senhores, aos quais tentvamos agradar para 
obter um favor, ou diante dos quais tremamos porque no vamos seno a superioridade do cargo e no a 
realidade humana da pessoa. Ns imitvamos a obsequiosidade de cortesos.
     O sofrimento do filho de Clara teve um efeito catalisador de revolta em nossa pequena comunidade. O 
beb passou da apatia que lhe causava a dor insuportvel do brao quebrado para a apatia sob o efeito de 
sedativos fortes que a guerrilha lhe aplicava sem parar. Tom, que antes havia recusado fazer uma greve de fome 
para protestar contra o tratamento que a guerrilha nos impunha, dessa vez aceitou exigir junto conosco que o 
beb recebesse cuidados peditricos. Ns nos declaramos todos em greve. Lucho fez para si um chapu com 
orelhas de burro e uma placa na qual escreveu: "Abaixo as Fare!". Seguimos atrs dele em fila indiana, gritando 
slogans de protesto, circulando pelo ptio. Orlando teve a boa ideia de deixar fermentar a panela, um pedao de 
rapadura de cana que mantinha guardado havia muito tempo, para fabricar a bebida alcolica domstica 
chamada chicha.
    -                No vamos sentir fome e vai nos dar energia.
     O efeito no se fez esperar: diarreia generalizada e preguia total! Nossos slogans degeneraram. Passamos 
da exigncia de tratamento para o filho de Clara ao protesto contra a falta de alimentao:
    -                Abaixo as Fare, estamos com fome, queremos comida!
     O espetculo era to grotesco e ns, to lamentveis, que acabamos por rolar no cho, sem conseguir 
controlar uma crise de louco riso cada vez que um dos nossos corria  privada para se aliviar.
     Os guardas nos olhavam de fora, consternados. Ouvamos os comentrios de nossos vizinhos: os 
prisioneiros militares queriam fazer como ns, tambm queriam entrar em greve.
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    A porta da priso se abriu. Espervamos todas as represlias. Arnoldo entrou, seguido de dois outros 
guardas que arrastavam um saco de estopa negro de poeira.
    Algum se aproximou para se desculpar, para no cair em desgraa.
   -                Arnoldo, eu sinto muito, voc tem de entender.
    O guerrilheiro o deteve com um gesto de mo.
   -                O comandante Sombra mandou dizer que os prisioneiros tm o direito de protestar e que as 
Fare garantem esse direito a vocs. Mandou protestarem em voz baixa, porque os seus gritos podem chamar a 
ateno dos chulos, se houver algum por estes lados. Aqui tem latas de atum para distribuir entre vocs. O 
comandante Sombra ordena que o beb seja evacuado da priso, porque ele no  prisioneiro. Vai viver em 
liberdade entre ns e vir ver a me de vez em quando. Vamos cuidar dele e aliment-lo direito. Vocs vo ver.
    Ps o saco de estopa em cima da mesa, pegou o beb com todos os seus pertences e foi embora fechando a 
porta, nos deixando mudos.
    O menino cresceu e engordou a olhos vistos. Clara o recebia, brincava com ele por alguns instantes e o 
devolvia aos braos do recepcionista quando o beb se punha a chorar. Uma noite, foi Guillermo, o enfermeiro, 
quem o trouxe. Perguntamos como eles pensavam tratar o bracinho dele. Ele afirmou que o menino estava 
curado, quando sabamos que no era verdade. Clara encerrou a discusso. Agradeceu a Guillermo tudo o que 
ele havia feito pelo menino e declarou:
   -                Queria que voc fosse o pai.
    Eu pensava sempre no menino. De certa maneira, aceitando ser sua madrinha, particularmente naquela 
selva, eu me sentia ligada a ele. Quando Arnoldo vinha, eu passava alguns minutos lhe perguntando coisas. 
Queria saber como tratavam a irritao do bumbum do beb, as bolhas de calor que cobriam seu corpo e, acima 
de tudo, me informei sobre a dieta alimentar que dedicavam a ele.
   -                Vamos fazer dele um homem - Arnoldo me respondeu uma vez. - De manh, lhe damos bom 
caf preto, e ele adora.
    Senti um arrepio. Sabia que esse era um costume bastante difundido na Colmbia. As famlias mais pobres, 
no podendo comprar leite em p para seus bebs, enchiam as mamadeiras com caf.
    Lembrei-me da menininha que eu tinha encontrado dentro de uma caixa de papelo numa lixeira no norte de 
Bogot. Estava voltando do Congresso. Olhei distraidamente pelo vidro do carro quando vi uma mozinha sair 
de uma pilha
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de lixo. Desci do carro e encontrei aquela coisinha, enrolada numa manta imunda que cheirava a urina. Ela havia 
adormecido com uma mamadeira na boca cheia de caf preto.
     Seu irmo mais velho brincava ao lado dela, e me disse que a irmzinha se chamava Ingrid. Bastaria bem 
menos para eu ver naquilo um sinal do destino. Liguei imediatamente para minha me, a fim de saber se ela 
tinha lugar para crianas, para duas crianas pequenas que dormiam na rua...
     Uma mamadeira de caf preto para um beb era o resultado de misria extrema, claro, mas tambm de 
ignorncia. Expliquei a Arnoldo que o caf era uma substncia forte, inadequada para um beb, e que era 
preciso encontrar leite. Ele me olhou com um ar ofendido e retrucou:
     - Isso  frescura da burguesia! Ns todos fomos criados assim e nos demos muito bem.
     Arnoldo fez daquilo uma questo poltica: em minha posio, eu sabia que era intil insistir. Para as coisas 
pequenas, assim como as grandes, eu dependia do humor dos guardas. Ferney tinha me alertado:  preciso 
encontrar o melhor momento, o melhor tom, a melhor palavra.
     Eu havia fracassado lamentavelmente.
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46. Os aniversrios

    Setembro j se aproximava. Um ciclo penoso comeava de novo. No rdio, a msica tropical j anunciava a 
chegada das festas de Natal. Eu no conseguia me resignar ao horror de passar um terceiro aniversrio de meus 
filhos longe deles.
    Queria comemorar os dezenove anos de minha filha, e temia cometer outros erros. Queria, como das vezes 
anteriores, fazer um bolo para Mlanie. Observava o humor de Arnoldo, esperando assim ter mais chance de que 
minha mensagem chegasse a Sombra. Mas Arnoldo ficava dia a dia mais desptico e humilhante, recusando-se 
mesmo a parar um segundo para trocar duas palavras. Ento senti de uma maneira irracional que, se eu 
conseguisse comemorar mais uma vez o aniversrio de minha filha, isso seria um bom pressgio. Essa ideia 
tomou conta de mim. Eu contava com isso.
    Ento, houve um alvio  minha frustrao. Sombra ordenou uma reviso de nossos dentes. Shirley, que 
tinha feito um curso de enfermagem, foi nomeada dentista. Aproveitei para pedir sua ajuda.
    - No prometo nada. Mas vou tentar vender a ideia de voc ir cozinhar com a gente uma tarde. Quando  o 
aniversrio de sua filha?
    Mas os dias passaram e no me chamaram  rancha.
    Acordei no dia 6 de setembro de 2004 e tinha diante dos olhos a imagem de minha filha que eu havia 
beijado em sonho. Felicitei-me por no ter comentado
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com ningum minha ideia, para evitar as gozaes de sempre. "Aprenda a no desejar nada", repeti a mim 
mesma por causa de minha decepo.
     Depois do caf da manh, o chacoalhar de correntes me alertou.
     Atrs de Arnoldo, vinha a Boyaca, com expresso fechada. Trazia nos braos 
um bolo enorme. Arnoldo berrou meu nome:
    -                 para voc. O comandante Sombra mandou.
     O bolo era decorado, com a frase costumeira: "Feliz aniversrio, Mlanie. Da 
parte das Farc-Ep". Dei pulos de alegria como uma menina e me virei para repartir a emoo com meus 
companheiros. Keith tinha dado meia-volta, furioso. 
Lembro-me de uma conversa que tivera com ele meses antes: nossas filhas haviam 
nascido com dois dias de diferena. Todo mundo trouxe as tigelas e eu o chamei 
insistentemente.
     Ainda tnhamos chicha que sobrara de nossa greve, to forte que dava medo. 
Era a ocasio sonhada para termos algum prazer.
     Antes de cortar o bolo, ergui meu copo e disse:
    -                Hoje festejamos dois acontecimentos importantes: o nascimento de Lauren e o nascimento de 
Mlanie. Que Deus lhes d coragem de serem felizes em 
nossa ausncia.
     Quando nossa pequena comemorao terminou, Keith me abraou. Olhou 
para mim, os olhos midos, e com a voz cheia de emoo disse:
    -                Jamais esquecerei o que voc acaba de fazer.
     No rdio, as notcias sobre deslocamento de tropas na Amaznia dentro do 
Plano Patritico eram manchete. Os generais procuravam Mono Jojoy, estavam 
no seu encalo, ele se encontrava doente e tinha dificuldades para acompanhar o 
ritmo. Mame foi entrevistada. Ela pediu ao presidente Uribe que suspendesse as 
operaes e aceitasse negociar com a guerrilha. Tinha medo de que eles pudessem 
nos massacrar.
     Ouvi tambm meu ex-marido na Radio France Internationale. Fiquei contente. Fabrice sempre foi o 
melhor dos pais. Eu sabia que sua obstinao ajudava 
a cuidar de nossos filhos. Ento, esse dia me pareceu bem triste. Ele reclamava 
seu direito de nos defender, num momento em que um pedido como o seu podia 
parecer uma ingerncia nos negcios colombianos. Queria se dirigir a mim. Queria me dar esperana, mas no 
momento de falar caiu em prantos. Fiquei com o 
corao apertado. Entendi naquele momento que nossa situao era pior do que 
eu podia imaginar.
320
 



    Cada prisioneiro comeou a separar e escolher seus pertences. Com o Plano Patriota, se os militares se 
aproximassem, nos fariam marchar pela selva para escapar deles.
    Eu no tinha feito marchas de verdade ainda. Orlando j havia marchado durante semanas. Contava que 
tinham sido obrigados a caminhar, acorrentados pelo pescoo, dois a dois. Quando um caa pelo peso e pela 
fadiga, levava o outro junto na queda. Os equipos que carregavam ao partir eram muito pesados, e aos poucos 
eles iam jogando fora seus tesouros para se aliviar. A maior fonte de angstia era atravessar por cima dos 
troncos de rvores que serviam de pontes, porque se um desse um passo em falso, os dois corriam o risco de 
morrer estrangulados ou afogados.
    Por causa de Lucho, ns resolvemos nos preparar da melhor maneira possvel, e sobretudo estar em forma 
para fugir, no caso de sermos colhidos no fogo cruzado de militares e guerrilheiros. Combinamos sinais para sair 
correndo juntos ao menor sinal de alerta, na esperana de nos juntarmos ao Exrcito, se a ocasio se 
apresentasse.
    Passei a manh subindo e descendo a escada, levando nas coitas o equipo cheio com as coisas que pensava 
levar comigo. No tinha privilegiado o que eu precisava porque sabia que tudo me era necessrio. Ao contrrio, 
tinha feito a lista de tudo o que tinha um grande valor afetivo, dos objetos que me ajudavam a resistir. Havia 
vrios aos quais eu me apegava como  prpria vida.
    O primeiro era um envelope com uma srie de cartas que Sombra trouxera, pelo intermedirio da igreja. Em 
meu pacote, havia uma longa carta de minha me, que eu relia diariamente.
    Mame tinha escrito precipitadamente, depois de um telefonema de monsenhor Castro, que anunciava a 
possibilidade de um contato com as Fare. Ela contava: "Eu estava chateada com a Virgem Santa porque no me 
escutava e tinha dito para ela: se no me der notcias de minha filha at sbado, acabou-se, no rezo mais".
    O telefonema avisara que as provas de sobrevivncia tinham chegado no sbado, antes do meio-dia. Ao 
ouvir o vdeo que lhe foi entregue, ela se sobressaltou porque nele eu lhe pedia justamente que rezasse comigo o 
tero, todos os sbados, ao meio-dia em ponto! Ela viu nessas coincidncias um sinal, uma resposta, uma 
presena protetora e atuante. De minha parte, eu passara a fazer do tero do sbado ao meio-dia o momento 
culminante de minha semana. Consuelo e Gloria nunca deixavam de me chamar.
    A leitura da carta de mame ocorrera naquela rotina quase mstica com a qual eu tentava afastar os 
demnios que haviam invadido meu espao. Com a leitura,
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eu entrava no universo do bem, do repouso, da paz. Podia ento ouvir sua voz, que ressoava em minha cabea  
medida que eu percorria as palavras formadas em sua bela caligrafia. Podia acompanhar as pausas de seu 
pensamento, a entonao da voz, os suspiros, os sorrisos, e ela me aparecia, ali, na minha frente, eu podia v-la, 
no esplendor de sua personalidade generosa, sempre linda, sempre alegre. Naquele pedao de papel, ela 
conseguira aprisionar o tempo. Eu a tinha para mim, s para mim, a cada releitura.
     Eu prezava essa carta mais do que tudo. Guardava-a envelopada num plstico que recuperara da ltima 
entrega de doaes, depois de uma luta furiosa e ridcula com uma de minhas camaradas, que tambm o queria. 
Eu a tinha selado com etiquetas autocolantes de desodorante, para mant-la protegida no caso de eu cair num 
rio. Fizera a mesma coisa com as fotos de meus filhos, que ela havia mandado com a carta e com os desenhos de 
meu sobrinho de quatro anos, Stanislas. Ele havia imaginado meu salvamento pelo Exrcito colombiano em um 
helicptero que me levava enquanto eu dormia e que, evidentemente, ele pilotava. Havia tambm um poema de 
Anastasia, a filha mais velha de minha irm Astrid, com sua ortografia criativa de criana, no qual pedia  av 
que no chorasse, que enxugasse as lgrimas, porque sua filha voltaria um dia "por um ato de loucura, por um 
ato de magia, por um ato de Deus, daqui a um dia ou daqui a trs anos, isso no importa!"
     Sentada de pernas cruzadas em minha cama, espalhei meus tesouros na minha frente. Fiquei olhando 
longamente cada foto dos meus filhos. Observava seus rostos, a expresso dos olhos, o corte dos cabelos, os 
traos que s vezes pareciam com os do pai, s vezes to parecidos com os meus. Analisei o instante que ficara 
fixado e foi muito difcil desviar os olhos. Aquilo machucava, dilacerava. Esse luxo no pesava nada. Eu o 
dobrara de maneira que assumisse a forma do bolso de meu casaco: "Se algum dia eu tiver de ir embora 
correndo, deixando minha mochila, terei salvado minhas cartas. E, se me matarem, ao menos sabero que era 
eu".
     Havia tambm o jeans de Mlanie, pesado demais, mas que eu resistia em deixar para trs. Quando o 
vestia, eu voltava a ser eu mesma. Atravs dele, era o amor de minha filha que eu retinha. No podia me 
desfazer dele. Pior, havia tambm o casaco! Era leve, claro, mas to desajeitado. Enfim, havia o dicionrio. Que 
pesava uma tonelada.
     Lucho resolvera levar meu palet para que eu tivesse lugar para o dicionrio. Orlando aceitou levar o 
jeans. Mare se encarregou da Bblia.
     Eu estava pronta. Ento, as semanas se sucederam sem novidades. Os boatos pareciam no ser nada mais 
que boatos. Pouco a pouco, nos reinstalamos em 
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nosso tdio, que agora nos parecia uma espcie de felicidade, diante da perspectiva angustiante de uma marcha.
     O aniversrio de meu filho chegou. No dia 12 de outubro de 2004, a porta da priso se abriu, eu avancei 
prontamente, convencida de que Arnoldo tinha vindo me buscar para me levar  rancha. Mas tratava-se de outra 
coisa.
     Ele mandou que preparssemos a bagagem mais leve possvel e nos informou que amos nos deslocar at o 
Natal... Devamos levar provises: no haveria muito o que comer.
     - Sombra envia estas garrafas de vodca. Aproveitem,  a ltima vez que vo ver uma coisa dessas. Bebam 
antes de partir, vai dar um impulso para comear a marcha. Estou avisando: tudo indica que ser uma marcha 
dura. Vamos andar depressa e durante muito tempo. Como consolo, uma boa notcia: vai ter carne de porco ao 
meio-dia. Vocs vo se regalar antes de partir.
     Ao longe, ouvi os porcos grunhindo. Pobres animais! Eles preferiam nos fartar a deix-los para os 
militares.
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47. A grande partida

1 de outubro de 2004

     Eu achava que estava pronta, mas no momento de partir coloquei em xeque todas as minhas decises. No 
estava sozinha nisso. A desordem dominava. No ltimo momento, cada um acrescentou novos objetos  
bagagem. A ideia de levar os colches se generalizou. Lucho me convenceu a levar o meu debaixo do brao, 
enrolado e amarrado, inconsciente do fardo que eu levava.
     Refiz minha bagagem de alto a baixo e, uma vez fechada a mochila, Lucho a levantou para avaliar o peso:
    -                Est muito pesada. Voc vai se esgotar.
     Tarde demais, Arnoldo j estava l com uma panela regurgitando de alimento.
    -                Tm meia hora para comer, lavar suas coisas e fechar as mochilas, prontos para partir.
     Ns no comemos, ns nos empanturramos. Obcecados com a ideia de encher a barriga, era impossvel 
saborear o que engolamos. Bebemos as garrafas de vodca do mesmo jeito, para encher de calorias nosso 
sistema, sem nos darmos tempo de saborear nem por um instante a bebida que descia queimando a garganta.
     Eu tive a sensao imediata de receber um golpe no meio das costas. Enquanto lavava minha tigela, sentia 
arrepios na coluna vertebral. "Vou ficar doente", tive tempo de pensar.
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    Lucho pusera o chapu na cabea, o equipo nas costas. Os outros j estavam em formao l fora. Ouvi 
Orlando dizer:
   -                Vo nos acorrentar, esses bandidos, voc vai ver!
    Lucho olhou para mim, angustiado:
   -                Tudo bem? Vamos embora imediatamente! Venha que eu ajudo voc a pr a mochila nas 
costas.
    Quando o peso da mochila finalmente caiu sobre meus ombros, achei que Lucho tinha pendurado um 
elefante em meu pescoo.
    Curvei-me instintivamente para a frente, numa posio difcil de manter numa marcha:
   -                Eu disse, seu equipo est pesado demais.
    Claro, ele tinha razo, mas j era tarde, os outros estavam partindo.
   -                No se preocupe, estou bem treinada, aguento o tranco.
    Arnoldo deu a ordem de partida. Os guardas se puseram entre cada um deles, armados at os dentes, 
levando nas costas mochilas duas vezes maiores que aquelas que eu tinha visto com os sujeitos do Bloco Sul. Eu 
parti por ltimo, depois de dar uma olhada  minha volta. A priso estava juncada de objetos sem vida, detritos 
diversos. Parecia uma favela de Bogot: roupas sujas penduradas em cordas esquecidas entre as rvores, pedaos 
de papelo, latas vazias rolando na terra.
    " isto que os militares vo encontrar quando chegarem aqui. Um campo de concentrao tropical", pensei. 
O guarda que tinha ficado para me escoltar deve ter lido meus pensamentos, porque exclamou:
   -                Tem uma equipe que fica para catar tudo. Vai ser tudo enterrado, para o caso de vocs terem 
deixado seus nomes escritos nas tbuas.
    Eu devia ter pensado nisso, claro, devia ter deixado indcios para orientar as buscas do Exrcito. Ele 
entendeu que, achando que tinha me descoberto, ele  que se revelara. Mordeu os lbios e com voz rouca, 
arrumando o chapu na cabea, vociferou:
   -                V, em frente! J estamos andando!
    Eu me sobressaltei e obedeci com um esforo sobre-humano para dar dez passos. No entendia o que estava 
acontecendo comigo. Estava bem treinada, em boa forma fsica. O orgulho me forou a continuar como se nada 
estivesse acontecendo. Passei na frente do grupo que ainda no tinha sado. "Sem dvida, a equipe de limpeza", 
pensei. Uma das moas estava apoiada em uma espcie de balaustrada que provavelmente tinham instalado 
recentemente. Brincava com um dos gatinhos de Sabba, fruto de seus amores com Tigre.
   -                O que vai fazer com os gatos? - perguntei  moa ao passar.
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    -                Vou levar os pequenos - ela me respondeu erguendo o chapu para me mostrar o esconderijo 
do segundo gatinho.
    -                E os pais?'
    -                Eles vo se virar sozinhos por aqui. So caadores. 
     Olhei os gatinhos com tristeza: no iam sobreviver.
      minha direita, vi o chiqueiro e o local de nossas primeiras caletas presas na encosta. Adiante, havia o rio 
que tinha engrossado com as guas da chuva e cuja corrente estava extremamente acelerada. Tinham construdo 
tambm uma ponte que no existia antes. Sombra estava ali apoiado e me viu chegar:
    -                Voc est muito carregada. Vamos acampar a poucos metros daqui. Precisa esvaziar sua 
mochila. Nem pense em levar esse colcho!
     Eu tinha posto o colcho debaixo do brao, maquinalmente. Senti-me ridcula. Transpirava demais. Sentia-
me tomada por uma febre pegajosa.
     Atravessei a ponte titubeando. O guarda me mandou parar, pegou minha mochila e ps em cima da dele, 
atrs da nuca, como se levantasse uma pena.
    -                Venha comigo. Vamos apressar o passo, a noite j vai cair.
     Depois de uns quinze minutos, a trote acelerado, avistei meus companheiros. Estavam todos sentados lado 
a lado com seus equipos. Alguns metros para a direita, os militares j tinham instalado seu acampamento, tendas, 
redes e mosquiteiros ocupavam o espao.
     Meu guarda jogou no cho meu equipo e foi embora sem dizer nada. Lucho estava  minha espera:
    -                O que aconteceu com voc?
    -                Estou doente, Lucho. Acho que  uma crise de fgado. Tive os mesmos sintomas depois de 
uma hepatite aguda, faz alguns anos.
    -                No  possvel, no agora, voc no vai fazer isso comigo!
    -                Acho que foi a carne de porco e a vodca. Era exatamente o que eu no devia comer.
     A notcia do meu estado se espalhou. Guillermo ficou preocupado. Decididamente, no era o momento de 
cair doente. Ele me deu uma caixa de silimarina e tomei os comprimidos imediatamente.
    -                Amanh venho inspecionar seu equipo - ele me disse num tom ameaador. - Ningum vai 
levar isso a para voc!
     Quase desmaiei. Antes de sair, eu escondera em meu equipo o faco que havia escondido debaixo das 
tbuas do barraco.
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48. A crise de fgado

    Guillermo nos reuniu para informar que durante a marcha ele ficaria encarregado do nosso grupo. Usou seu 
novo poder para tornar nossa vida impossvel. Comeou por nos amontoar uns contra os outros, distribuindo o 
espao com avareza. Naquela selva imensa, encontrara um meio de nos atormentar. Em seguida, fez todo o 
possvel para me afastar de Lucho. Nossa reao foi imediata e, diante de nossos protestos, ele aceitou voltar 
atrs. Um argumento de Lucho o convenceu:
    - Se ela estiver doente, eu cuido dela!
    Com efeito, foi ele que instalou minha tenda, minha rede e meu mosquiteiro. Quando nos chamaram para o 
banho, esforcei-me para me levantar e trocar de roupa. A noite j estava caindo. O guarda iluminava o caminho 
com uma nica lanterna para todo mundo. Eu era a ltima, avanamos s cegas. Tnhamos de tomar banho os 
dez juntos num fio de gua que corria por uma garganta estreita e profunda. A margem era muito ngreme. Era 
preciso escorregar por bem ou por mal agarrada aos espinheiros para tornar mais lenta a descida. Quando 
aterrissei perto do fio de gua, j estava coberta de lama. Meus camaradas j tinham se colocado todos rio 
acima. A gua lmpida no comeo me chegava cheia de lama. Tive a sensao de me sujar mais do que me lavar 
com ela. Alm disso, era a hora dos mosquitos.
    Guillermo vociferou, ordenando que terminssemos quando eu mal havia comeado. O que devia ser um 
momento de relaxamento se transformou em
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calvrio. A volta foi ainda pior. Cheguei  minha caleta mais suja do que tinha sado, tomada por coceiras e 
tremendo de febre. A noite estava negra, ns estvamos todos ocupados em tirar da mochila nossa troca de 
roupa, em pendurar as peas que tnhamos tirado e que estavam molhadas de suor e pesadas de lama, e em torcer 
os mais e shorts usados para tomar banho. Aproveitei a confuso para fazer escorregar o faco debaixo da 
toalha e fui ver Lucho:
    -                Guillermo disse que vai revistar minha mochila antes de partir amanh.
    -                , eu sei. Como voc est?
    -                Mal. Escute: antes de sair, eu escondi o faco nas minhas coisas.
    -                 uma loucura, tem de se desfazer dele imediatamente, no pode guardar isso no seu equipo.
    -                No posso simplesmente jogar fora, h guardas por todo lado. E, alm disso, pode ser til.
    -                No, eu no vou ficar com isso a!
    -                Por favor. Voc eles no vo revistar, depois voc me devolve.
    -                No, no, no!
    -                O que voc quer que eu faa ento?
    -                No sei, jogue em qualquer lugar.
    -                Bom, vou ver como eu me viro.
    -                ... Ah! Que chatice! Me d aqui, eu cuido disso. V dormir. Amanh voc tem de estar em 
forma.
     Quando abri os olhos, vi o rosto de Guillermo colado ao mosquiteiro. O dia j estava claro. Levei um 
susto, sabia que tnhamos de levantar acampamento ao amanhecer.
    -                Vamos embora? - perguntei, angustiada.
    -                No, a partida ficou para amanh. Vou pr voc no soro. Sente.
     Ele de fato tinha na mo um conjunto de agulha, cnula e compressas. Pediu para eu segurar o saco de soro 
acima da cabea, enquanto picava meu brao na curva do cotovelo em busca de uma veia. Cerrei os dentes, 
olhando com repugnncia as mos de Guillermo, as unhas compridas e pretas. Ele fez vrias tentativas at 
encontrar uma veia que o satisfizesse, deixando-me com o brao coberto de manchas roxas que se alinhavam 
desde o pulso.
    -                Mostre a mochila, vamos aliviar esse negcio!
     Estendeu um plstico preto no cho, esvaziou em cima dele o contedo e estacou ao ver o dicionrio. Seus 
olhos brilharam, perversos. Virou-se para mim e, em tom autoritrio, declarou:
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   -                O dicionrio fica!
   -                No, prefiro deixar tudo. Menos o dicionrio!
    Respondi com firmeza, surpresa com o prprio tom sem apelao que tinha utilizado. Ele se ps ento a 
remexer conscienciosamente o monte de objetos espalhados no cho. Todos os livros passaram, menos a Bblia, 
o livro de Gabriel Garcia Mrquez que Tom se recusara a deixar e meu dicionrio. Orlando me devolveu o jeans 
de Mlanie:
   -                Sinto muito, estou carregado demais. Agora voc tem lugar na sua mochila.
    Eu esperava que Mare fosse fazer a mesma coisa. Mas ele arrumou seu equipo e ps minha Bblia entre 
suas coisas. Lucho, por sua vez, estava muito angustiado:
   -                Se resolverem me revistar, me matam.  muito perigoso levar isto aqui.
    Mesmo assim, continuou levando meu faco em sua mochila.
    A minha continuava muito pesada. Ou era eu que estava muito fraca. No momento de pr nas costas a 
mochila para partir, minhas pernas se dobraram com o peso. Ca de joelhos, sem foras.
    Guillermo fez sua apario, ar triunfante. Ps-se.no meio do grupo e gritou:
   -                Venham comigo, em silncio, um a um, cada um com seu guarda. Vocs tm sorte, no tem 
correntes para vocs. O primeiro que fizer uma bobagem, eu mato. Ingrid, voc vai por ltimo. Largue a 
mochila, vamos levar para voc.
    Fiquei aliviada de eles levarem minha mochila, mas alguma coisa me dizia que isso no era bom sinal. 
Estava com o tero na mo fechada. Tomei o lugar que me foi destinado e me pus a seguir aquele que ia na 
frente, rezando mecanicamente.
    A hora de marcha pela selva tinha sido muito penosa. Eu enrolava o p em todas as razes, em todas as 
trepadeiras. Tropeava a cada dois passos e fazia um esforo inaudito para abrir passagem na vegetao. Estava 
atrasada em relao ao grupo, sem ningum na minha frente, no conseguia encontrar o caminho, que era 
preciso adivinhar olhando a linha de arbustos cortados aqui e ali, de um lado e outro de uma pista imaginria.
    Meu guarda, nervoso, resolvera passar na minha frente, violando a orientao que recebera. Eu no tinha 
nenhuma inteno de fugir. Meu crebro estava bloqueado. J era bem difcil pr um p na frente do outro e 
seguir atrs dele. Eu me esforava para ficar perto, a fim de evitar o esforo de ter de alcan-lo. Bastava que o 
guarda se afastasse dois passos de mim para se tornar invisvel entre a vegetao. Se eu ficasse muito perto, 
receberia em pleno rosto os galhos que ele afastava e que voltavam como um chicote  sua passagem:
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    -                Aprenda a manter distncia! - tinham berrado para mim.
     Eu tinha a sensao de ter emburrecido. Meu corpo estava em desequilbrio constante e eu no pensava 
direito. Acabara de perder a pouca confiana que me restava. Sentia-me  merc deles.
     Ao fim de meia hora, reencontrei o restante dos companheiros sentados em crculo numa pequena clareira. 
Um rudo de serra eltrica veio de bem perto. Mas a folhagem  nossa volta era muito densa, tornando 
impossvel ver o que quer que fosse.
     A pausa foi breve e eu me sentia exaurida. Gloria veio me ver, passou o brao pelos meus ombros, me 
abraou:
    -                Voc est abatida - disse ela.
     Depois, em segredo, acrescentou:
    -                Nossos companheiros esto loucos de raiva, dizem que voc est fingindo. Enciumados 
porque esto levando seu equipo. Pode esperar que eles vo infernizar sua vida.
     No respondi.
     A ordem de partir no surpreendeu ningum. Todo mundo se levantou e cada um se ps silenciosamente na 
ordem de marcha que lhe correspondia. Avanamos lentamente, at que, depois de uma volta, o rio nos apareceu 
borbulhante, correndo por uma garganta profunda a toda velocidade. Tinham cortado uma rvore imensa que, 
cada de uma margem  outra, se tornara uma ponte majestosa. Vi os guerrilheiros atravessarem por ela e senti 
vertigem s de olhar. Lucho estava bem na minha frente, virou-se, apertou minha mo e sussurrou:
    -                Eu jamais vou conseguir fazer isso.
     Vi uma das guerrilheiras atravessar, braos esticados para os lados, procurando o equilbrio como uma 
danarina na corda, com seu enorme equipo nas costas.
    -                Vai, sim, vamos juntos, bem devagarinho, um passo depois do outro, chegamos l.
     Todo mundo passou. Os guerrilheiros transportaram de uma margem a outra as mochilas dos que tinham 
mais dificuldade para atravessar. Brian veio para perto de ns quando chegou nossa vez. Pegou minha mo e me 
orientou a no olhar para baixo. Passei numa nvoa de nusea, o fgado cada vez mais inchado, enceguecida.
     Olhei para trs e vi Lucho com o corpo todo trmulo, paralisado no meio do tronco, levando ele mesmo a 
mochila que se recusara a entregar  guerrilha, temendo que tivessem a ideia de revist-la. Em certo momento, 
com o p mal
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colocado sobre um galho do tronco, ele perdeu o equilbrio e caiu para trs com o peso do equipo, como em 
cmera lenta. Sentindo a bile na garganta, murmurei:
    -                Ele vai quebrar o pescoo.
     Nossos olhares se encontraram nesse preciso momento e ele projetou-se para a frente num esforo 
desesperado para manter o equilbrio. Brian pulou em cima da rvore como um felino e correu para pegar seu 
brao e ajud-lo a terminar a travessia.
     Meus msculos pareciam estar enrolados e retorcidos, como sob o efeito de uma cibra. Senti uma massa 
que subia de baixo da caixa torcica. Se aquilo era meu fgado, tinha praticamente dobrado de volume. Senti que 
ia morrer. O menor gesto produzia grandes dores. Escutei a voz de mame. Seria uma mensagem que ela havia 
pronunciado no rdio e que me voltava como uma gravao? Teria eu mesma inventado aquela frase como uma 
forma de divagao? "No faa nada que a coloque em perigo. Ns queremos voc viva."
     Esforcei-me para caminhar durante dez minutos. O grosso da tropa s esperava por ns para retomar a 
marcha. Cheguei dobrada em dois, uma mo no peito para manter a bola l dentro.        
     Um de meus companheiros olhou para mim:
    -                Pare de nos fazer de bobos. Voc no est doente, nem est amarela!
     Ouvi Lucho atrs de mim, que respondia:
    -                Ela no est amarela, est verde. Deixe-a em paz!
     Sombra havia se colocado bem  frente do grupo. Eu o vi, ele tinha observado tudo. Aproximou-se 
mancando. Eu nunca havia notado que ele mancava.
    -                O que est acontecendo? - perguntou-me com ar incrdulo.
    -                Nada.
    -                Vamos, seja corajosa, precisamos ir agora.
    -                Olhe para mim - ele ordenou.
     Virei o rosto.
     Sombra chamou com voz forte um dos guerrilheiros que seguia  frente.
    -                ndio! Venha c.
     O homem se ps a trotar at ns, com sua enorme mochila s costas, como se no pesasse nada.
    -                Deixe seu equipo aqui.
     Era um rapaz jovem, menor que eu, mais largo do que alto, com um torso enorme e braos 
superdimensionados. Tinha o porte de um bfalo.
    -                Voc leva ela nas costas. Mando algum para pegar seu equipo.
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     O ndio abriu um sorriso de belos dentes brancos e me disse:
    -                No vai ser confortvel, mas vamos l.
     Parti nas costas daquele homem que corria atravs da floresta, pulando como um cabrito, a toda velocidade. 
Agarrei-me a seu pescoo, sentindo a transpirao de seu corpo atravessar minhas roupas, tentando me segurar e 
no escorregar, dizendo a cada sacudida:
    -                Meu fgado no vai explodir, amanh eu melhoro.
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49. A pilhagem de Guillermo

    Meu fgado no explodiu, mas no dia seguinte eu no estava melhor. Eu chegara ao local do acampamento 
antes dos outros, mas meu equipo s chegou quando j era noite. Eu tinha acabado de amarrar minha barraca em 
uma das rvores quando o dilvio se abateu sobre ns. Mal tive tempo de pular para dentro para no ficar 
encharcada. Vi uma torrente de gua se formar em poucos minutos e descer velozmente, levando tudo  sua 
passagem, inclusive a caleta de Gloria e a de Jorge. Meus companheiros tiveram de passar parte da noite em p, 
com seus pertences nos braos, debaixo de uma das tendas que se encontrava prxima, esperando que a chuva 
parasse e a inundao diminusse.
    No dia seguinte de manh, com a aurora, me dei conta de que Guillermo tinha revistado meu equipo  
vontade, o que explicava que a tivesse trazido to tarde da noite. Levara meu dicionrio e o jeans de Mla. 
Fiquei arrasada. Ele tinha conseguido meter a mo naquilo que sempre cobiara. Quando reclamei, ele nem me 
deu tempo de explicar.
    - V reclamar com Sombra - respondeu com arrogncia, depois de ter me dito que tinha jogado tudo na 
natureza. Eu sabia que no era verdade. Os cintos que eu fizera para a minha famlia foram distribudos pela 
tropa. Vi Shirley usando o de minha me. Ele me enganara. Eu me censurei por no ter tomado precaues. Mas 
me dei conta tambm de que, no estado em que eu estava, tinha perdido antes de comear. Ningum pensaria em 
arrastar um dicionrio de 2 mil pginas pela
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selva. A no ser ele e eu que gostvamos do dicionrio mais que tudo. Isso ajudou a conter a raiva que eu 
alimentava contra ele. De certa forma, se Guillermo usasse o dicionrio com a mesma paixo que eu, ento era 
melhor que ficasse com ele, que conseguia transport-lo, do que comigo.
     Desliguei-me com menos facilidade do jeans de Mla. Tive um cruel sentimento de culpa, como se aceitar 
que levassem minha mochila tivesse sido equivalente a trair o amor de minha filha. Ento, pouco a pouco, o 
tempo operou seu trabalho. Tambm essa ferida se fechou. Resolvi que o importante no era conseguir 
conservar a cala comigo, mas entender como o gesto de minha filha (porque eu a imaginava procurando o que 
me dar no ltimo Natal) havia me acompanhado nos meus anos de aflio e me rendera um sorriso.
     Na manh seguinte, no foi o ndio que veio me buscar. Sombra ordenou que Brian me transportasse. Ele 
era considerado por todos como o mais forte da tropa. Eu gostava de Brian, que era sempre amvel com todo 
mundo. Imaginava que com ele as coisas pudessem melhorar.
     Ele me ps montada em suas costas e seguiu a passo, deixando o resto de meu grupo para trs. Desde os 
primeiros minutos percebi que alguma coisa no ia bem. Seu caminhar era brusco e a cada passo meu fgado se 
ressentia intensamente das sacudidas. Eu escorregava. Para evitar cair, precisava me agarrar a seu pescoo, com 
o risco de sufoc-lo. Ao fim de uma hora o pobre Brian ficara exausto. Estava to surpreso quanto eu, sem 
entender como na vspera o ndio havia conseguido correr durante horas sem se fatigar, enquanto ele mal 
conseguia recomear.
     Seu orgulho estava ferido, sua falta de resistncia seria objeto de sarcasmos. Ele ento se zangou comigo, 
reclamando de minha falta de colaborao, fazendo o possvel para me humilhar cada vez que cruzvamos com 
outro guerrilheiro no caminho.
     - Me espere aqui - disse, abandonando-me no meio da floresta. Partiu correndo para buscar sua mochila, 
que tivera de deixar onde estvamos antes. Fiquei sozinha no meio do nada. Brian tinha me jogado ali sabendo 
que eu no ia me mexer. O transporte nas costas de homem tinha se tornado um calvrio. Ele me fez pagar por 
seu esforo me sacudindo muito. Senti que ia morrer e me estendi no cho esperando sua volta. Estava deitada 
na terra. Abelhas negras, atradas pelo suor, tomaram de assalto minhas roupas e me cobriram inteira. Achei que 
ia morrer de medo e, prostrada de fadiga e de terror, perdi os sentidos. Em minha inconscincia ou meu sono, 
ouvi o zunido daqueles milhares de insetos se transformar na imagem de um caminho-tanque que corria a toda 
velocidade para me atropelar. Acordei sobressaltada, e abri os olhos para uma nuvem de 
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insetos. Levantei aos berros, o que excitou ainda mais as abelhas. Estavam em toda parte, enroscadas no meu 
cabelo, dentro de minha roupa de baixo, enfiadas por baixo das meias no fundo das botas, procurando entrar em 
minhas narinas e meus olhos. Fiquei como louca, tentando escapar, me debatendo no vazio, batendo ps e mos 
com toda a fora, sem conseguir fazer que fugissem. Matei muitas, deixei muitas tontas. O cho estava coberto 
delas, e no tinham me picado. Exausta, acabei me conformando em coabitar com elas, e me deitei de novo, 
abatida pela febre e pelo calor.
     Depois, a companhia das abelhas negras passou a ser habitual. Meu cheiro as atraa num raio de 
quilmetros e, uma vez que Brian me deixava em qualquer lugar, elas acabavam sempre por me reencontrar. 
Transformaram em perfume o cheiro horrvel que me impregnava. Levavam o sal, deixavam o mel em minhas 
roupas. Era como uma etapa em uma lavanderia. Eu tinha tambm a esperana de que a presena macia delas 
inibisse outros insetos menos amigveis e que sua companhia me permitisse cochilar enquanto eu esperava que 
viessem me buscar.
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50. Uma ajuda inesperada

     Numa dessas etapas, eu tinha desmoronado como um mendigo debaixo da 
ponte. Cheirava muito mal, estava suja, com as roupas de vrios dias, midas do
suor da ansiedade e emporcalhadas. Eu tinha sede, a febre me desidratava tanto
quanto o calor e o esforo que eu fazia para no cair das costas do homem que me 
carregava. Senti que minha cabea estava me fazendo ver coisas. Quando vi a fila 
de homens algemados uns aos outros vindo em minha direo, achei que era um 
sonho. Deitada no cho, primeiro eu sentira a vibrao de seus passos. Parecia que 
um bando de animais selvagens se aproximava de mim e eu mal tive tempo de me 
erguer, apoiando-me nos cotovelos para os ver surgir atrs de mim. Eles se aproximavam afastando a vegetao 
que me separava deles. Eu achava que no tinham 
me visto e iam me pisar. Ao pensar nisso, tive vergonha de que me vissem daquele 
jeito, os cabelos desgrenhados, e com um cheiro horrvel, at mesmo para mim. 
Deixei muito depressa de pensar assim quando os vi mais de perto, a pele acinzentada, de homens bafejados pela 
morte, com a cadncia dos passos dos condenados, 
curvados sob o peso do cansao. Tive vontade de chorar.
     Quando me descobriram, um aps o outro, praticamente tropeando em 
mim, o rosto deles se iluminou:
     - Doctora Ingrid?  a senhora? Fique calma, vamos sair dessa! 
Eles me deram a mo, me acariciaram os cabelos, me enviaram beijos com os 
dedos, me fizeram sinal de vitria e de encorajamento. Aqueles homens, mil vezes
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mais desgraados do que eu, com muito mais anos de cativeiro, acorrentados pelo pescoo, doentes, famintos, 
abandonados pelo mundo, aqueles policiais e soldados colombianos ainda conseguiam pensar no outro.
     A lembrana daquele instante ficou gravada em minha mente. Eles tinham transformado aquele inferno 
verde e mido num jardim cheio de humanidade.
     Passamos pelo ndio, que estava no caminho e me sorriu, como se pudesse ler os pensamentos de todos 
ns. Com humildade, quase com timidez, ofereceu-se para me transportar durante uma parte do caminho. Brian 
hesitou. Ele no queria se dar por vencido. Mas a oferta era por demais tentadora, pois tnhamos chegado a uma 
zona de geografia assustadora. Eles a chamavam de cansa perros, "mata-cachorros". Era uma srie de subidas e 
descidas de dar medo, com desnveis de cerca de trinta metros, como se uma mo gigante tivesse arregaado o 
tecido da terra, produzindo pregas em srie, costuradas umas s outras. Eu pensava que a selva amaznica fosse 
uma longa plancie. Era assim que ela aparecia em meus livros de geografia. Nada mais distante da realidade. O 
relevo daquele mundo era como o prprio mundo: imprevisvel. No fundo de cada declive, naquele espao 
espremido entre duas pregas do relevo, corria um regato. Ns o atravessamos com um pulo s, para logo 
alcanar o outro aclive. Uma vez chegados ao cume, os rapazes desciam o declive para ir beber gua na prxima 
fonte. Mas as alteraes climticas pregavam suas peas. A metade das fontes estava seca, no havia mais como 
matar a sede.
     Brian tinha sofrido muito me carregando nas costas. Eu tentava caminhar para alivi-lo um pouco, mas na 
descida ca sentada. A tropa que ia  nossa frente transformara o caminho num tobog lamacento. Ca 
violentamente no rego cheio d'gua. Estava coberta de lama. Havia  nossa frente uma subida ngreme, que 
teramos de escalar agarrando-nos com as mos e os ps ao paredo. Brian tirou a camiseta, mergulhou-a na 
gua, ao mesmo tempo que lavava o rosto. Antes de vesti-la, lanou um olhar de lado para o ndio e disse:
    -                Me d seu equipo e leve a moa nas costas.
     O ndio fez um movimento com os ombros e deixou cair sua enorme mochila.
    -                Tengo todo el parque.
    -                No interesa, camarada, paselo!*
* Todas as munies esto a.
No tem problema, camarada, me d!
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     Brian preferia carregar uma mochila cheia de munies a me carregar. Ele enfiou as alas e as ajustou, 
depois comeou a escalada sem olhar para trs, levando a bagagem do ndio sem esforo. Cinco minutos depois, 
chegou ao cume, nos lanou um olhadela, visivelmente admirado, e desapareceu na natureza.
    -                Suba a - me disse o ndio.
     Pulei em suas costas, tentando me fazer o mais leve possvel. Ele escalou o paredo to depressa quanto 
Brian e partiu num passo rpido, descendo o declive num segundo. Ele voltava a subir, saltava de um terreno 
desnivelado a outro, descia mais uma vez, de forma que eu tinha a impresso de estar dando pulos no ar, os ps 
dele mal tocavam o cho.
     Brian nos esperava, encostado numa rvore, fumando um cigarro, o ar altivo. Estvamos a dois passos do 
nosso destino.
    -                Somos os primeiros - disse, oferecendo um cigarro a seu companheiro.
     Ele nem me olhou. O ndio pegou o cigarro, acendeu, deu uma boa tragada e
o passou para mim, sem dizer nada.
     Eu no sentia nenhuma vontade de fumar, mas o gesto do ndio me tocou. Brian tinha encontrado seu 
superior. Ele se virou para mim e ladrou:
-                Cucha, tirese alia, detrs de los que estan cortando varas. No se mueva hasta que le den la 
orden. * * Velha, v para l, para detrs dos rapazes que esto cortando as varas. Fique l at que digam que saia.
     
     Essas palavras foram como uma bofetada. Meus olhos estavam midos quando cruzaram com os do ndio. 
Ele esboou um sorriso, depois virou a cabea depressa; j estava s voltas com as alas de seu equipo. Eu me 
sentia uma idiota ao reagir daquele jeito, devia ser culpa do cansao. J estava habituada a ser tratada daquele 
jeito. Era a regra. Se eu estivesse sozinha com Brian, teria engolido seu desprezo sem nenhum problema. Mas, 
com o ndio, eu voltava a ser uma pessoa: sua compaixo tocou fundo em mim. Eu ficava cada vez mais fraca, 
mais frgil.
     Ns tnhamos nos adiantado ao grupo dos militares. O tinir de suas correntes me fez voltar a cabea. 
Berraram-lhes ordens num tom podre de arrogncia. Eles ficaram esperando de bom humor, uns vinte metros 
mais adiante, falando animadamente em pequenos grupos, sempre acorrentados uns aos outros.
     Um deles se apercebeu de minha presena. Conversaram baixinho. Dois deles se aproximaram e se 
acocoraram para me falar por detrs de um arbusto que os escondia.
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   -                Tudo bem? - cochichou um deles.
   -                Tudo bem.
   -                Meu nome  Forero. Ele  Luis Beltran.
    Luis me fez um cumprimento tirando o chapu.
   -                Doctora, temos um presentinho para a senhora. Fizemos um ponche. Mas a senhora tem de vir 
at aqui. No se preocupe! O guarda est sob controle.
    Da ltima vez que eu tinha ouvido falar em ponche, eu devia ter cinco anos. Foi na cozinha de minha av. 
Ela anunciara que estava preparado um e todos os meus primos tinham pulado de alegria. Eu no sabia o que 
era. A cozinha dava para um ptio interno. A mais velha de minhas primas estava sentada no cho, com uma 
tigela cheia de gemas, que ela batia com fora. Mama Nina tinha jogado umas coisas dentro com um ar de quem 
sabia o que estava fazendo, enquanto minha prima continuava a bater. A ideia me fez salivar. Mas, claro, o 
ponche deles devia ser outra coisa, no havia ovos naquela selva! Para minha grande surpresa, eles me 
estenderam uma gamela cheia de gemas recm-batidas.
   -                Onde vocs encontraram isso? - perguntei, estupefata.
   -                 difcil de carregar, mas a gente consegue. No temos mais muitos, comemos tudo durante a 
caminhada. Tnhamos quatro galinhas na priso, elas foram generosas, nos deram muitos ovos. Ns as 
carregamos um dia inteiro. Mas tivemos de com-las logo na primeira noite. Elas no conseguiriam sobreviver 
aos cansa perros.
    Eu os escutava boquiaberta. Como? Galinhas na priso? Ovos?
    Durante uma frao de segundo, uma ideia me transpassou o esprito: aqueles ovos poderiam me fazer mal. 
Afastei esse pensamento na hora: "Se eu no tiver nojo, no podem me fazer mal". Engoli fechando os olhos. Eu 
voltava a ter cinco anos, estava sentada ao lado da minha cozinha, minha av presente. Abri os olhos com 
alegria. Forero me observava com um grande sorriso e cutucou Luis Beltran. O soldado chamado Luis puxou de 
sua camiseta um saco de leite em p.
   -                Esconda depressa - ele me disse. - Se virem, vo confiscar. Misture com acar,  bom para 
sua hepatite.
    Peguei as mos de Forero e de Luis e as beijei, apertando-as fortemente entre as minhas. Depois voltei a 
me agachar no meu lugar, feliz de contar a Lucho o que acabava de acontecer.
    Guillermo ia na frente, meus companheiros atrs. Quando o vi, o sorriso que eu trazia no rosto se apagou.
   -                 proibido falar com os militares. Quem eu pegar tramando, prendo - ameaou ele.
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     Tive de esperar que o acampamento fosse instalado para poder trocar trs palavrinhas com Lucho. 
Preparamo-nos apressadamente para o banho. Os militares j tinham terminado todas as suas tarefas. Mandaram 
chamar Sombra, e ele veio imediatamente.
     Um jovem rapaz falou em nome de todos.
    -                 o tenente Bermeo - explicou-me Gloria.
     Acompanhamos toda a cena, com os olhos voltados para Sombra. Os militares tinham empilhado um 
monte de provises, que haviam sacado de suas mochilas.
    -                No temos mais nada - declarou Bermeo.
     Ouvamos pedaos de conversa. Mas a atitude de Sombra era muito clara. Ele queria acalmar a rebelio.
    -                Deveramos fazer a mesma coisa - disse Lucho. - Estamos mal alimentados, eles nos tratam 
como cachorros, e alm do mais temos de carregar seus mantimentos!
     Keith interveio:
    -                Eu tenho o que comer. Carregarei o que eles me pedirem para carregar.
     Ele olhou ostensivamente o guarda que acompanhava nossa conversa com
grande interesse, depois foi se recostar na rvore de sua barraca, cruzando os braos.
    -                Deveramos fazer igual aos militares por solidariedade - disse Tom, e comeou a tirar os 
sacos de arroz que levava em sua mochila. Os outros fizeram o mesmo. Fez-se um grande silncio para 
acompanhar o que se passava entre os militares.
     Bermeo continuava falando:
    -                Vocs no podem carreg-la desse jeito. Vo acabar matando-a. Se fosse um de vocs, iriam 
carreg-la numa rede.
     Eu no podia acreditar no que ouvia. Aqueles homens estavam tomando minha defesa! Olhei para trs, a 
garganta apertada, procurando o olhar de Lucho.
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51. A rede

    No soubemos qual tinha sido o resultado do boicote dos militares. Uma cobra tinha entrado em nosso 
acampamento e, aos gritos de Gloria, todo mundo partiu para ca-la. Ela havia sumido atrs das bagagens 
postas no cho e podia reaparecer  noite, enrodilhada em alguma delas. Eu no gostava daquelas caadas. 
Exceto as aranhas caranguejeiras, das quais no tinha a menor pena, eu sempre ficava do lado dos animais que 
eram objeto de nossas perseguies. Torcia para que os animais lhes escapassem, da mesma forma que eu 
gostaria de fugir deles. Diante das cobras, eu tinha uma reao que me espantava. Estava longe de ter os 
sentimentos de averso que via nos outros, aquela necessidade de aniquil-las, de mat-las. Palavra de honra, 
devo admitir que as achava belas. No acampamento de Andrs, eu tinha visto um colar vermelho, branco e preto 
no cho, ao p de um dos esteios da barraca. Quando fui peg-lo, Yiseth gritara:
   -                No toque!  uma vinte e quatro horas.
   -                O que  uma vinte e quatro horas?
   -                Ela mata a pessoa em 24 horas.
    As Fare sempre tinham antdotos  mo, mas nem sempre eram eficazes. Eles faziam tambm antdotos 
caseiros, pondo para secar a vescula biliar de um roedor que eles chamavam de lapa. Achavam que esse 
remdio tinha melhor efeito do que os soros fabricados em laboratrio. Talvez porque me sentisse protegida com 
seus antdotos, talvez porque me achasse protegida de uma forma sobrenatural,
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eu me aproximava desses animais sem nenhum medo. At a cobra monstruosa que os guardas tinham matado no 
acampamento de Andrs, capturada quando eles espreitavam uma das guerrilheiras na hora do banho, me 
parecera fascinante. Depois de t-la matado, os jovens haviam estendido a enorme pele para secar, esticada entre 
varas. Ela fizera a alegria de milhares de moscas varejeiras que giravam  sua volta, atradas pelo cheiro imundo 
que ela emanava. A pele ficara ao relento, enfrentando as intempries durante semanas. Apodrecera, e eles 
terminaram jogando-a no buraco do lixo. Eu tinha pensado em todas as bolsas de luxo que haviam se perdido 
naquela operao. Eu no parava de pensar nisso e achei at obsceno ter pensado assim.
     A cobra que Gloria vira era uma casadora, uma "caadora". Era longa e fina, de um verde-ma atraente. 
Veio certeira para cima de mim, desnorteada. Sem pensar duas vezes, fiz de tudo para peg-la e lev-la para 
bem longe, fora da viso de meus companheiros. Eu sabia que ela no era venenosa. Surpreendida ao contato de 
minha mo, ela me olhou em posio de ataque, escancarando a boca com um rudo rouco para me manter 
afastada. Minha inteno no
era assust-la. Fiquei imvel para que ela readquirisse confiana, o que de fato aconteceu, e ela se voltou para 
enfrentar meus companheiros, que se atropelavam  sua volta, como se tivesse sentido que eu no era uma 
ameaa para ela. O guarda ria na sua guarita, observando a cena. Eu a coloquei nos galhos mais baixos de uma 
rvore imensa e a vimos desaparecer subindo de um galho para outro at chegar l no alto.
     Voltei para minha coleta para preparar leite em p com um pouco de gua, o suficiente para obter duas 
colheradas, uma para Lucho e outra para mim. A caminhada tinha sido muito difcil para ele, que estava s pele 
e osso. Eu tinha medo de que ele tivesse um coma diabtico.
     No dia seguinte, de manh, chegaram dois novos rapazes com uma vara bem longa. Entendi que a 
interveno do jovem tenente tinha surtido efeito. Fui lhes devolver minha rede, para que eles a instalassem, 
mas Lucho interveio:
    -                Fique com a minha,  mais resistente. E tambm a sua est cheia de poeira. Voc no vai 
conseguir mais dormir nela.
    -                E voc?
    -                Vou dormir no cho, me far bem, estou comeando a sentir dores nas costas.
     Ele estava mentindo.
     Os guardas pegaram a vara e nela penduraram a rede que ele me dera. Depois
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a colocaram no cho, para que eu entrasse. Num segundo, a vara j estava em seus ombros e eles partiram 
correndo, como se tivessem visto o diabo.
     O entusiasmo inicial de meus carregadores foi posto  prova na travessia de uma srie de pntanos 
profundos onde a gua lhes chegava s coxas. Milagrosamente, atravessei sem me molhar, o que teve como 
efeito deixar todo mundo irritado. Os carregadores, em primeiro lugar, enfurecidos pelo meu conforto, tinham 
se esquecido de que eu estava doente. Sentiam-se humilhados por me transportar como uma princesa. Meus 
companheiros, molhados at os ossos, os ps cheios de bolhas, mortos por dias de caminhadas cada vez mais 
longas, me olhavam de banda. Isso envenenava as relaes. Ouvi um deles discutindo com os guardas, alegando 
que era uma estratgia minha para atrasar todo o grupo; ele sustentava que eu tinha dito isso a Orlando. Fora ele 
quem lhe contara.
     As intrigas de meus companheiros tiveram o efeito de um veneno destilado com preciso. Todos os dias, 
uma nova dupla de homens era designada para me transportar, e todos os dias eles demonstravam estar mais 
rabugentos em relao a mim. Finalmente, chegou a vez de Rogelio e do jovem guerrilheiro do qual ns todos 
zombvamos porque ele lembrava o Zorro, com seu chapu achatado amarrado com um cordo e as calas muito 
acinturadas.
     - Hoje a coisa vai pegar! - eles disseram, com uma piscadela.
     Eu sentia que eles no tinham a menor considerao para comigo e isso estava bem visvel antes da 
partida. Esperei o pior.
     A floresta voltava a ficar intrincada e a vegetao mudara. Em lugar dos fetos e dos arbsculos  sombra 
das ceibas gigantescas, atravessvamos agora espaos sombrios e midos, cheios de palmeiras e bananeiras. 
Estas eram to prximas umas das outras que ficava difcil passar entre elas. A vara muito comprida tornava 
impossvel fazer as curvas que o terreno obrigava. Os carregadores precisavam retroceder um pouco para 
encontrar a posio adequada para enfrentar ou vencer uma curva. Cada passo era uma negociao entre o 
homem da frente e o detrs, e eles discutiam para ver quem impunha ao outro sua vontade. Irritados, eles sua-
vam, e se cansavam. Os troncos das bananeiras eram cobertos de formigas de todos os tipos, grandes ou 
minsculas, vermelhas, amarelas ou pretas. A presena do homem em seu territrio as deixava enlouquecidas. 
Como ramos obrigados a passar roando as bananeiras, elas pulavam sobre ns para nos atacar, ou se 
agarravam a nossas roupas para nos picar ou urinar sobre ns. Sua urina era, de longe, o que havia de pior. Elas 
secretavam um cido forte que queimava a pele e criava bolhas aquosas. Sufocada em minha rede, como se 
estivesse dentro de uma cpsula, eu no podia me mexer. Tinha de deixar os braos estendidos ao longo
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do corpo, sofrendo estoicamente o assalto daqueles bichos que invadiam as zonas mais ntimas de meu corpo. 
Eu no podia dizer nada: os rapazes sofriam mais do que eu, pois estavam sem camisa e ainda carregavam 
aquele peso que lhes vergava os ombros.
     Depois das bananeiras, vieram as silvas. Atravessvamos uma densa floresta de palmeiras cerradas que se 
protegiam do mundo exterior com seus espinhos retorcidos em volta do tronco. De novo, elas eram to prximas 
umas das outras que era difcil no tocar nas pontas aceradas que as cobriam. Rogelio fazia de propsito. Ele se 
vingava, balanando a rede mais do que o necessrio, de forma que a cada balano eu fosse jogada contra os 
espinhos, que primeiro atravessavam a roupa e depois penetravam profundamente em meu corpo. Eu sara 
daquela floresta de palmeiras como um ourio, coberta de espinhos.
     Isso no foi tudo. Vieram outros pntanos, ainda mais profundos que os anteriores, no meio dos quais 
sobrevivia uma vegetao bastante espinhosa. Meus transportadores iam em frente com um humor de co, 
encharcados, durante vrias horas, tateando o caminho, sem saber o que seus ps encontrariam no fundo daquela 
gua escura. De vez em quando, perdiam o equilbrio, e eu emborcava naquelas guas tpidas, me fazendo mais 
pesada. Sempre que eles se desequilibravam, o primeiro reflexo era se apoiar na rvore mais prxima. No fim do 
dia, as mos deles sangravam.
     Naquele dia, a caminhada foi longa, e tambm nos dias seguintes, e nas semanas que estavam por vir. 
Todos ns terminamos por perder a conta das horas que tnhamos vagado por aquela selva sem fim, obrigados a 
ir em frente de qualquer jeito. No havia mais nada para comer, ou quase. Guillermo trazia uma vasilha de arroz, 
cada dia menos cheia. A rao devia nos sustentar at a noite, quando, uma vez instalado o acampamento, os 
rancheros inventavam sopas de gua quente com o que tinham encontrado pelo caminho. Sempre parvamos por 
volta das cinco da tarde. Cada um de ns louco para ter o seu cantinho para passar a noite e cuidar de seus 
ferimentos. Tnhamos apenas uma hora para montar as barracas, instalar as redes, tomar um banho, lavar a 
roupa, que voltvamos a vestir no outro dia de manh ainda molhada, e nos meter debaixo dos mosquiteiros 
antes de a noite chegar.
     Ao amanhecer, quando ainda estava escuro e frio, tornvamos a vestir os uniformes pesados e molhados. 
Isso, para mim, era um verdadeiro calvrio. Se tinha de escolher entre roupas sujas e molhadas e roupas limpas e 
molhadas, preferia lavar meu uniforme todo dia. Mesmo que o esforo para tanto me deixasse esgotada.
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    No havia tempo para pensar no outro, era cada um por si. A exceo era Lucho, que se achava na 
obrigao de me ajudar nos menores detalhes, para que eu no tivesse problemas. Meu estado s piorara. 
Supliquei a Guillermo que me desse silimarina, e ele me respondeu:
    - Para a senhora no temos remdios.
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52. Venda de esperana

     Sempre nos acordavam quando ainda estava escuro, antes de o dia nascer. Certa manh demoraram a nos 
dar a ordem de partida. Fizemos todos os tipos de especulao sobre nosso destino. Alguns diziam que nosso 
grupo ia ser dividido. Ordenaram que caminhssemos em direo a uma clareira, onde as rvores eram mais 
espaadas, um tapete grosso de folhas mortas cobria o cho. O dia estava cinzento. O lugar era sinistro. 
Mandaram-nos sentar em crculo. Os guardas se colocaram  nossa volta, apontando-nos os fuzis.
    -                Vo nos matar - me disse Lucho.
    -                 verdade - respondi -, vo nos assassinar!
     Meu corao batia acelerado. Eu suava demais, como todos os meus companheiros, apesar de estarmos 
quietos, sentados sobre nossas bagagens, de costas para os guardas. Mudei de posio.
    -                No se mexa! - gritou um dos guardas para mim.
    -                Se vocs vo nos matar, quero olhar a morte de frente!
     O guarda deu de ombros e acendeu um cigarro. A espera se prolongou. No tnhamos nenhuma ideia do que 
estava acontecendo. Era quase meio-dia. Eu j via nossos corpos ensanguentados sobre aquele leito de folhas. 
Diziam que, antes de morrer, a vida se passa diante de nossos olhos. Nada se passava diante dos meus. Eu estava 
com vontade de ir ao "banheiro".
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     - Guarda! Os chontos. - Agora eu falava como eles, cheirava to mal quanto eles, e estava ficando to 
insensvel quanto eles.
     Consegui permisso para ir. Quando voltei, Sombra estava l. Ele perguntou quem entre ns sabia nadar. 
Levantei a mo, Lucho tambm, Orlando no. Ser que ele estava mentindo? Talvez Orlando soubesse alguma 
coisa. Talvez fosse melhor dizer que no sabamos nadar.
     Ordenaram que fssemos na frente, e voltamos a caminhar. Vinte minutos depois, chegamos s margens de 
um rio imenso. Ordenaram que tirssemos a roupa e ficssemos s com as de baixo e de botas. Esticaram uma 
corda de um lado a outro das margens. Diante de mim, uma jovem guerrilheira apressava-se a se jogar na gua 
com sua bagagem muito bem embalada num plstico preto. Olhei  volta. O rio fazia uma curva exata mais 
adiante e ficava umas trs vezes mais largo. Ali onde estvamos, ele tinha duzentos metros de largura.
     A guerrilheira se agarrou na corda e se foi, colocando uma mo depois da outra. Logo seria minha vez. A 
entrada na gua me pareceu vivificante. Seu frescor era capaz de revigorar o corpo. A dez metros, a correnteza 
estava muito forte. Era preciso prestar ateno para que ela no nos arrastasse. Eu deixava meu corpo flutuar 
sem resistncia e avanava somente deslocando as mos na corda. Minha tcnica era boa. Chegando  outra 
margem, fiquei aguardando minhas roupas e minha mochila, cercada por uma nuvem de mosquitos. Os 
guerrilheiros tinham um barco para atravessar o gordo Sombra e tambm o beb, mas o barco quase afundou 
com o peso de todas as bagagens. Passei o resto da tarde a secar minhas coisas, tentando preservar as nicas 
roupas mais ou menos secas que me restavam para a noite. Agradeci aos cus que Sombra tivesse decidido 
instalar o acampamento ali e nos poupar de mais horas de caminhada.
     Cada um aproveitou para reorganizar sua mochila, para se livrar de tudo o que podia, para alivi-la. Mare 
veio me ver. Queria devolver minha Bblia, ele estava muito carregado. Clara tambm apareceu. Ela queria vir 
para minha caleta com seu beb. Concederam-lhe uma hora. Instalei depressa um plstico no cho e minha 
toalha para poder acomod-la ali. Uma guerrilheira de seios enormes trouxe a criana amarrada na barriga, no 
canguru que eu havia feito quando ele nasceu. O beb chegou, sorrindo. Estava bem desperto, acompanhava 
nossos dedos com os olhos, escutava atentamente as canes que cantvamos para ele. Aparentava estar bem, 
mas seu brao ainda no estava curado. Clara brincou um pouco com ele. Ao fim de algum tempo, a criana se 
ps a chorar. A guerrilheira de seios enormes apareceu de novo e o levou, sem uma palavra. Foi a ltima vez 
que vi o filho de Clara na selva.
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     A noite caiu de repente. Nem tive tempo de apanhar a rede que Lucho tinha 
emprestado para que me transportassem e que eu dobrava normalmente sobre
minha mochila durante a noite. Dormi escutando um barulhinho de chuva fina.  
"Amanh de manh tudo que  meu estar encharcado", pensei. "Pacincia, estou  
muito cansada para ir ver."
     Por volta de meia-noite, o acampamento foi acordado pelos berros de Clara. 
O guarda acendeu a lanterna. A caleta dela fora invadida por formigas. As 
arrieras 
devoravam tudo por onde passavam. Sua rede estava em farrapos, assim como as 
roupas da caminhada que ela tinha estendido numa corda. Um mar de formigas 
cobria seu mosqueteiro. O guarda fez o que pde para afugent-las, mas muitas 
tinham entrado. Clara queria descer da rede para se livrar delas, mas o cho 
fervilhava de insetos e ela estava sem as botas. S depois foi que me dei conta de 
que o 
barulho de chuva fina no era seno o som das arrieras caminhando. Elas tinham 
invadido o acampamento e j estavam na minha rede.
     A luz do dia nos fez constatar que todos ns tnhamos sofrido prejuzos. A 
rede que Lucho tinha me emprestado tinha virado uma peneira. As alas de minha 
mochila tinham sumido. Do casaco de Orlando s tinha sobrado o colarinho, e 
as barracas estavam todas furadas. Tivemos de remendar tudo rapidamente. Eu 
remendei minha mochila da melhor forma possvel, ajeitei a rede como pude. 
Tnhamos de partir.
     Uma tropa de guerrilheiros chegara trazendo provises de um acampamento 
vizinho. Foram eles tambm que levaram o barco de Sombra e do beb. 
Soubemos 
que estes tinham atravessado o rio num barco a motor. Rostos desconhecidos 
apareceram. Espervamos que o fim da caminhada estivesse prximo. Apesar de 
mais 
bem alimentados, caminhvamos devagar. Os guerrilheiros se queixavam. Todo 
mundo estava com dificuldade para continuar a caminhada. Naquele dia, fizemos 
uma parada depois de duas horas. Sombra estava furioso. Aproximou-se de mim 
esbravejando:
    -                Diga a esses americanos para no pensarem que eu sou um 
idiota. Entendo tudo o que eles falam. Se pensam que vo bagunar isso aqui, vou 
acorrentar 
os trs!
     Olhei para ele, assustada. Uma meia hora depois, eu via chegar Orlando e 
Keith, um acorrentado ao outro pelo pescoo. Jorge caminhava atrs, com Lucho. 
Os demais vinham se arrastando. Guillermo adiantou-se assim que me viu.
    -                Sente-se ali - ladrou, para evitar que eu falasse com meus companheiros.
     Keith estava muito nervoso, segurando com as duas mos a corrente que trazia 
no pescoo. Orlando veio se sentar ao meu lado, empurrado pelos outros, que


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tinham se sentado no espao que Guillermo nos tinha indicado. Orlando fingia brincar com os ps:
    -                Aquele idiota se ps a dar pontaps em sua mochila. Guillermo achou que ele no queria mais 
carregar as coisas dele... Ele disse a Sombra que queramos atrapalhar a caminhada... Agora sou eu que pago por 
isso.
     Enquanto ele falava comigo, Keith se levantou e foi conversar com Sombra, de costas para ns. Sombra se 
ps a sorrir e lhe tirou a corrente, jogando-a sobre Orlando:
    -                Voc vai ficar com ela vrios dias! Assim, vai aprender a no querer bancar o engraadinho 
comigo.
     Keith se afastou esfregando o pescoo, sem coragem de olhar para Orlando. Guillermo voltou com um 
grande vasilhame cheio de gua. Ele a dividiu com todos, nos deixou beber, depois berrou:
    -                Quando ouvirem "marchar!" vo em frente!
     Meus companheiros pularam como autmatos, colocaram as mochilas nas costas e se embrenharam na 
selva, em fila indiana. Eu teria de esperar a volta dos carregadores. Ficaria sozinha. Sombra hesitou. Depois, ao 
decidir me deixar, falou:
    -                No se preocupe com o dicionrio. L para onde voc vai no ser difcil encontrar outro.
    -                Sombra, voc devia tirar as correntes de Orlando.
    -                Isso no  da sua conta. Melhor pensar no que lhe disse. Os franceses esto negociando. Voc 
estar livre muito antes do que muitos pensam.
    -                No estou sabendo de nada disso. O que sei  que Orlando est com uma corrente no pescoo 
e voc devia tir-la.
    -                Vamos l, aguente firme! Isso vai acabar logo - me disse ele, sem conseguir dissimular sua 
irritao. Afastou-se aos pulos e desapareceu.
     Meus carregadores chegaram. Apareceu um de cara nova, porque o que me carregara durante a manh 
tinha tido uma luxao no ombro. Tinha sido substitudo pelo ndio, sempre to sorridente e amvel. Assim que 
ficamos sozinhos por um segundo, ele me disse:
    -                Vo libertar algum. Ns achamos que  voc.
     Olhei para ele, incrdula, sem acreditar numa palavra do que ele dissera.
    -                Libertar como? Voc est querendo dizer o qu?
    -                , alguns vo para Macarena,* outros vo partir com o primeiro front. Mas voc vai com os 
chefes.
* Elevao em meio aos Llanos, entre os Andes e a selva.
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    -                Que chefes? O que  que voc est me dizendo?
    -                Se quiser mais informaes, me d sua corrente de ouro.
     Ca na risada:
    -                Minha corrente de ouro?
    -                Sim,  uma garantia!
    -                Uma garantia de qu?
    -                Que voc no vai me dedurar. Se algum deles souber que lhe contei, vou para o conselho de 
guerra e serei fuzilado.
    -                No tenho corrente de ouro.
    -                Tem, sim! Aquela que est na sua mochila.
     Fiquei admirada.
    -                Ela est quebrada.
    -                Me d a corrente e lhe contarei tudo.
     Seu ajudante chegou. Entrei de novo na rede. A corrente tinha sido de minha av. Eu a tinha quebrado, a 
tinha perdido, voltara a encontr-la milagrosamente e a tinha colocado com todo cuidado entre as pginas de 
minha Bblia. A procura, ento, tinha sido minuciosa. Ao chegar ao novo acampamento, enquanto montvamos 
as barracas para a noite, falei para Lucho:
    -                Eles mexem em tudo... Voc no pode continuar carregando o faco.
    -                O que vamos fazer? - ele me perguntou, nervoso.
    -                Espere, tenho uma ideia.
     O acampamento dos militares estava de novo colado ao nosso. Procurei meus amigos. Eles continuavam 
acorrentados dois a dois e deviam entrar em acordo para se deslocar. Estavam felizes de me ver e me ofereceram 
leite e acar.
    -                Venho com uma misso delicada. Preciso de sua ajuda.
     Eles se posicionaram para me escutar atentamente, agachados ao meu lado.
    -                Eu tenho um faco, porque quero ver se fujo. Provavelmente, vai haver uma revista amanh. 
No quero jog-lo fora. Ser que vocs podiam escond-lo em sua bagagem por uns dois dias, o tempo da 
revista?
     Os homens se olharam em silncio, lvidos.
    -                 perigoso - disse um.
    -                Muito perigoso - disse o outro.
     Um guarda berrou. Eles precisavam ir. Eu os olhei com angstia, tnhamos alguns segundos apenas.
    -                Pacincia, no podemos deix-la em apuros. Conte conosco - disse um deles.
    -                Pegue essa toalha. Enrole nela depois do banho. Voc a passa para ns
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quando escurecer. Diga que eu lhe emprestei minha toalha e est devolvendo - completou o outro.
    Eu estava com os olhos cheios de lgrimas. Eu mal os conhecia e, no entanto, tinha total confiana neles.
    Voltei para contar tudo a Lucho.
   -                Deixe que eu vou entregar. Vou agradecer a eles pessoalmente - ele me disse, profundamente 
emocionado. Sabamos bem demais o risco que eles corriam.
    No outro dia, bem cedo, houve a revista. Nossos amigos retomaram a caminhada e nos fizeram sinal com a 
mo antes de se distanciarem. Podamos ficar tranquilos. Quando chegou a minha vez, Guillermo abriu minha 
Bblia. Pegou a correntinha, brincou com ela um pouco, depois a recolocou entre as pginas e puxou 
cuidadosamente o fecho da capa de couro que a protegia. "Ele no ousar!" pensei.
    O ndio tinha sido de novo designado para mim. Dava para sentir que ele queria falar comigo e procurava o 
momento propcio. De minha parte, eu estava intrigadssima com sua histria. Eu tinha sede de boas notcias. 
Mesmo que no fosse verdade, eu precisava me agarrar a um bom sonho. Achava que, de qualquer forma, se 
Guillermo tinha posto o olho na correntinha de minha av, ele encontraria facilmente um jeito de ficar com ela. 
Assim, quando o ndio se aproximou, eu estava pronta para aceitar suas mentiras.
    O ndio se sentou ao meu lado, dizendo que eu no devia ficar sozinha, porque nos aproximvamos das 
zonas patrulhadas pelos militares. Seu companheiro de equipe no pensou duas vezes e se mandou para 
"rebocar" a bagagem.
   -                Eu vou lhe contar tudo, deixo o resto com a sua conscincia - disse ele,  guisa de introduo.
    E me explicou que eu ia ser levada a um outro comandante, que teria como misso me entregar a 
Marulanda, e que eu ia ser posta em liberdade.
   -                Mono Jojoy pensa em fazer uma grande cerimnia com todos os embaixadores e um monte de 
jornalistas. Ele vai entregar a senhora aos emissrios europeus. Sua companheira ser entregue no front do 
primeiro Bloco Oriental. Emmanuel vai ficar com uma famlia de milicianos, que cuidar dele at ele crescer.
    Ele disse que, quando o garoto ficasse maior, se tornaria guerrilheiro. Seria enviado a um hospital para ser 
operado do brao. Depois, acrescentou:
   -                Os trs americanos vo para Macarena. Os outros sero divididos em grupos e iro para a 
Amaznia.  isso, agora a senhora est a par de tudo. Espero que mantenha a palavra.
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    -                Eu no lhe prometi nada.
    -                A senhora escutou tudo, lhe contei tudo. Agora,  a senhora com a sua conscincia.
     Eu sabia que o ndio estava mentindo. Eu sabia que, entre eles, mentir era considerada uma das qualidades do 
guerreiro. Isso fazia parte de sua aprendizagem, era um instrumento de guerra que eles eram encorajados a 
dominar. Sabiam fazer isso. Tinham conquistado a sabedoria das trevas que se utiliza para fazer o mal.
     Mas o ndio me deixara sonhando. Ao pronunciar a palavra "liberdade", ele abrira a caixa que eu mantinha 
fechada com duas voltas da chave. No conseguia mais conter a onda de divagaes que me submergia. Eu via 
meus filhos, meu quarto, meu co, minha bandeja do caf da manh, as roupas passadas, o cheiro de perfume, 
mame. Eu abria a geladeira, fechava a porta dos banheiros, acendia a luz de cabeceira, usava salto alto. Como jogar 
tudo isso de novo para o esquecimento? Eu tinha um desejo enorme de voltar a ser eu mesma.
     A dvida era para mim uma fonte de esperana. Sem aquilo, eu tinha a eternidade diante de mim no cativeiro. 
De modo que, sim, a dvida era uma trgua, um momento de descanso. Eu lhe era grata por isso. Tomei a deciso 
de lhe entregar a corrente, no como recompensa por suas informaes, mas porque ele me destinara um sorriso, 
uma palavra, um olhar. Eu queria dar uma aparncia louvvel  minha fraqueza.
     Eu adorava minha av. Era um anjo que tinha partido desta terra. Eu nunca ouvira de sua boca um comentrio 
maldoso sobre ningum. Era por isso que todos ns amos lhe contar nossas querelas familiares. Ela escutava rindo 
e terminava sempre dizendo: "No ligue pra isso, esquea!". Ela possua o dom de cuidar de nosso ego machucado, 
tnhamos sempre a impresso de que ela tomava nosso partido. Mas ela facilitava o perdo, porque nos dava uma 
perspectiva e anulava a importncia de nosso ressentimento. Tnhamos uma grande cumplicidade, ela conhecia 
todos os meus segredos. Sempre fora importante em minha vida e seu amor havia sido construtivo. No era 
exigente em seu amor, e isso era provavelmente uma das mais belas lies de vida que ela nos deixara. No exigia 
nada em troca, dava sem esperar nada de volta. No havia manipulao nem culpabilizao em seu amor. Ela 
perdoava tudo. ramos uma mirade de criancinhas, todas convencidas de que ramos suas preferidas. Mame me 
dera a corrente de herana. Minha av sempre a carregara at morrer, e eu desde ento a usava, at que se quebrou.
     Ao entreg-la a um homem que tinha tido compaixo por mim, eu tinha a
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impresso de honrar a bondade de minha av. Eu sabia que, de l de cima, ela concordava comigo. Eu achava 
tambm que algum j vira minha corrente e que tinha grandes chances de perd-la antes do fim da caminhada. Mas 
eu no era idiota. O ndio me vendera uma falsa esperana. Durante dias, eu iria viver daquilo. A espera da 
felicidade era mais deliciosa que a prpria felicidade.
     Depois de um dia particularmente difcil, com uma srie de "mata-cachorros", o ndio veio, como quem no 
quer nada, flanar em nosso acampamento. Ele vinha pegar a recompensa. Eu a tirei da caixinha e a coloquei 
furtivamente em sua grande mo calosa. Ele fechou rapidamente a mo e sumiu como um ladro.
     Ele me evitou nos dias seguintes. Mas eu o encontrei uma noite; ele viera ajudar Gloria a construir sua caleta. 
Eu o chamei de longe. Ele baixou os olhos, incapaz de sustentar meu olhar.
     Eu no havia contado nada dessa histria a Lucho. O que me doeu mais, finalmente, no foi o fato de a 
libertao no passar de uma pura e simples quimera. Foi que o ndio deixou de me ajudar, no me sorria mais e se 
tornou igual a todos os outros.
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53. O grupo dos dez

     Uma tarde Milton* me obrigou a caminhar e mandou meus carregadores para o final da tropa. Eu me 
arrastava naquela selva como um zumbi, com Milton ao meu lado. Ele tentava ser firme e elevava o tom da voz na 
esperana de que me faria caminhar mais rpido. Mas minha vontade parecia estar longe dali. Meu corpo no 
respondia. Quando a noite comeou a cair, eu ainda estava muito longe do acampamento.
     Um grupo de moas nos alcanou. Elas tinham partido com muito atraso do acampamento anterior. Sua 
misso era ir apagando as marcas de nossa passagem. Tinham de enterrar todo tipo de sinal que os prisioneiros 
deixavam na esperana de que o Exrcito colombiano descobrisse. Elas vinham felizes. Com as bagagens nas costas, 
levaram cinco horas caminhando num passo mido, para percorrer uma distncia que nos exigira nove horas.
     Eu tinha me sentado no cho e posto a cabea entre os joelhos para tentar reunir minhas foras. Sem que lhes 
dissessem nada, elas decidiram me carregar.
     A jovem que tinha tomado a iniciativa se agachou atrs de mim, passou a cabea entre minhas pernas e me 
levantou de uma vez, a cavalo, em seus ombros.
     - Ela  levinha.
* Aquele que acompanhava Sombra no violo durante a serenata, o terceiro no comando depois de Alfredo e Sombra.
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     A moa saiu correndo como uma flecha. Elas se revezavam a cada vinte minutos. Duas horas depois, 
chegamos perto de um riacho que corria silencioso entre as rvores. Um vapor parecia subir da superfcie da gua 
que refletia ainda os ltimos raios de luz. J ouvamos o rudo dos faces. O acampamento devia estar bem perto.
     Sombra estava sentado um pouco mais adiante, cercado por uma meia dzia de jovens, que o bajulavam. A 
jovem que me carregava se aproximou trotando e me colocou aos ps dele. Ela no fez nenhum comentrio e o 
olhou demoradamente. O grupo estava em estado de choque e eu no sabia bem por qu. Foi Sombra quem me deu 
a resposta.
    -                Voc est com uma cara terrvel - ele me disse.
     Guillermo estava no grupo. Ele compreendeu, de imediato, que no podia deixar a situao fugir a seu 
controle.
     Tentou me pegar por debaixo do brao, mas no deixei.
     Todos voltavam do banho. Lucho me recebeu, preocupado.
    -                Voc precisa se cuidar. Sem remdios, vai terminar morrendo, e a culpa ser deles! - disse ele, 
bem alto, para ter certeza de que Guillermo o ouvira.
     Orlando se aproximou tambm. Ele me abraou, ainda estava acorrentado pelo pescoo.
    -                So uns porcos. Voc no vai dar a eles o gostinho de morrer. Venha, vou ajud-la.
     Eu j estava sob o mosquiteiro quando Guillermo reapareceu. Ele carregava um monte de caixas. Acendeu a 
lanterna bem no meu rosto.
    -                Pare! - protestei.
    -                Estou lhe trazendo silimarina. Tome duas depois de cada refeio.
    -                Que refeio? - perguntei, achando que ele estava zombando de mim.
    -                Tome sempre que comer alguma coisa. Isso vai fazer voc aguentar mais um ms.
     Ele se foi. Eu disse em voz alta:
    -                Meu Deus, faa com que eu esteja em minha casa daqui a um ms.
     Na manh seguinte, houve um tumulto indescritvel do lado dos guerrilheiros. Eram seis da manh e no 
havia nenhum sinal de partida. Eu tinha chegado muito tarde para notar que os militares tinham acampado bem 
atrs de ns. Meus companheiros aproveitavam para falar com eles de forma animada, e os guardas permitiam. 
Lucho voltou muito plido de sua conversa com nossos dois novos amigos.
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    -                Vo nos separar - contou Lucho. - Acho que ns dois vamos partir com um outro grupo.
     Era o que o ndio tinha me dito. Meu corao deu um pulo.
    -                Como voc sabe?
    -                Os militares so bem informados. Alguns tm amigos nas fileiras de Sombra... Veja!
     Eu me voltei para ver um rapaz alto, jovem, de pele acobreada, bigode fininho, uniforme impecvel, que 
vinha em nossa direo.
     Antes de ele chegar perto de ns, Gloria j estava ao seu lado, bombardeando-o com perguntas. O homem 
sorria, envaidecido pela importncia que estvamos lhe dando.
    -                Venham todos! - ele gritou num tom meio amvel, meio autoritrio.
     Lucho se aproximou desconfiado, e eu fui atrs.
    -                 voc a Betancourt? Voc est com uma cara terrvel. Me disseram que voc esteve muito 
doente!
     Hesitei, no sabendo bem o que responder. Gloria interveio:
    -                 o nosso novo comandante. Ele vai nos dar novos aparelhos de rdio!
     O grupo se aproximou dele, todos queriam saber mais, e sobretudo tentavam causar boa impresso.
     O homem retomou a palavra com o ar de quem sabe medir o peso do que diz:
    -                No para todo mundo. Serei o comandante de uma parte deste grupo. A doctora Ingrid e o doctor 
Prez iro em outro.
     Senti uma contrao na altura do fgado. Por orgulho, no quis fazer as mil e uma perguntas que me 
passavam pelo esprito. Felizmente Gloria as fez no meu lugar, no espao de um minuto. Estava claro, Lucho e eu 
amos ser separados dos demais. Provavelmente para sempre.
     Jorge atravessou toda a nossa seo para me tomar nos braos. Abraou-me bem forte, me tirando o flego. 
Ele tinha os olhos marejados, e com uma voz entrecortada, tentando esconder ainda seu rosto no meu ombro, me 
disse:
    -                Minha querida senhora, cuide-se. Voc vai nos fazer muita falta.
     Gloria chegou atrs dele e o repreendeu.
    -                No aqui. No diante deles!
     Jorge voltou a se sentar e foi abraar Lucho. Eu tambm fiz o possvel para engolir minhas lgrimas. Gloria 
tomou meu rosto entre as mos e me olhou direto nos olhos.
    -                Tudo vai dar certo. Rezarei o tero completo por voc. Fique tranquila.
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     Clara se aproximou.
   -                Eu queria ficar com voc!
     Depois, como para atenuar a carga dramtica de suas palavras, ela se ps a rir e concluiu:
   -                Certamente eles vo nos entregar juntas daqui a alguns meses!
     Guillermo tinha voltado para nos pegar.
     Atravessamos nossa seo, depois uma parte do acampamento da guerrilha. Margeamos o riacho durante dois 
minutos para chegar a um lugar coberto pela serragem, onde eles tinham instalado uma serraria provisria, 
abertamente. Sentei-me num tronco assim que Guillermo nos deu ordem para esperar. Um guerrilheiro fazia a 
vigilncia.
     Eu pensava. O que significava aquilo?
     No tive tempo de responder. Um grupo de oito militares acorrentados dois a dois vinha em nossa direo. 
Ordenaram que parassem. Levantei-me para lhes desejar boas-vindas, e os beijei um a um. Eles estavam sorridentes 
e gentis, e nos olhavam com curiosidade.
   -                Imagino que vamos fazer parte do mesmo grupo agora! - disse Lucho,  guisa de apresentao.
     A discusso comeou na mesma hora. Cada um tinha sua tese, sua opinio, sua maneira de ver. Eles falavam 
com cuidado, escutando uns aos outros educadamente, e prestavam ateno s palavras que empregavam para 
evitar contradies.
   -                Quanto tempo vocs esto prisioneiros? - perguntei.
   -                Eu tenho mais tempo nas Fare que a maioria desses garotos - respondeu um rapaz simptico e, 
virando-se para o guarda, disse: - Voc a, amigo, quanto tempo faz que entrou nessa?
   -                Trs anos e meio - respondeu o adolescente, todo orgulhoso.
   -                Esto vendo? - ele replicou -,  o que eu estava dizendo! Vai fazer cinco anos que estou 
apodrecendo aqui.
Ao dizer isso, seus olhos se tornaram vermelhos e brilhantes. Ele engoliu a emoo, caiu na risada e se ps a cantar: 
"La vida es una tombola, tombola".* * A vida  uma loteria, loteria.
      Era uma musiquinha que o rdio tocava constantemente. Depois, voltando a ficar srio, acrescentou:
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    -                Meu nome  Armando Castellanos, s suas ordens, sou o intendente da Polcia Nacional.
     Nosso novo grupo tinha mais oito homens. Jhon Pinchao, tambm da polcia, estava acorrentado a um oficial 
do Exrcito, o tenente Bermeo, aquele que tinha pedido para eu ser levada na rede. Castellanos estava acorrentado 
ao tenente Malagon. O cabo Arteaga a Florez, ele tambm cabo do Exrcito. Por ltimo, o enfermeiro cabo William 
Perez estava acorrentado ao sargento Jos Ricardo Marulanda, que era visivelmente o mais velho de todos.
     A presena deles me tranquilizou. Eu via agora a separao dos meus antigos companheiros como um mal 
menor. Decidi esperar pelo tempo para criar relaes com eles, sem intermedirios, e evitar toda situao que 
pudesse gerar tenso entre ns. Eles estavam abertos e curiosos para nos conhecer. Tambm tinham passado por 
momentos difceis e tinham aprendido suas lies. A atitude deles em relao a mim e a Lucho era radicalmente 
diferente da dos nossos antigos companheiros.
     Lucho continuava desconfiado.
    -                Ns no os conhecemos, precisamos esperar.
    -                Eu me sentiria melhor se pudssemos tambm mudar de conandante - cochichei a Lucho.
     Foi Sombra quem veio a nosso encontro. Ele se plantou na nossa frente, as pernas afastadas, as mos nos 
quadris. Eu no tinha visto que o guarda tinha se aproximado e estava bem atrs de mim e de Lucho. Ele tinha 
ouvido minha observao porque nos disse, como em segredo:
    -                No tem jeito, voc vai ficar com Sombra por muito tempo! - E caiu na gargalhada.
     Acordamos no outro dia sob uma chuva torrencial. Tivemos de reempacotar nossas tralhas sob a tempestade e 
comear a marcha encharcados. Tnhamos uma ladeira ngrime para subir.
     ' Eu estava muito lenta e, sobretudo, muito fraca. Depois da primeira meia hora, meus guardas decidiram que 
era prefervel me carregar a me esperar. Voltei a ficar presa durante horas numa rede que ia se enchendo com a 
gua da chuva e, quando os guerrilheiros a despejavam, eu tambm ia junto, quando o terreno permitia. Depois 
voltavam a me colocar dentro, o da frente me puxando e o de trs me empurrando. As mos deles escorregavam da 
vara com frequncia, e numa dessas vezes escorreguei perigosamente, na maior velocidade, indo bater contra uma 
rvore que me amparou na queda. Puxei as abas da rede sobre os olhos para
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no ver mais nada. Eu estava encharcada, o corpo modo. Repetia oraes que nem entendia mais, mas pelo menos 
no me deixavam pensar em outras coisas e entrar em pnico. Se algum pudesse escutar meu corao, saberia que 
eu estava pedindo socorro.
     Na descida, meus carregadores pulavam como se aterrissassem sobre as razes das rvores, que os faziam 
recuperar o equilbrio, com meu peso nos ombros. Minha rede balanava demais e ia de encontro s rvores que 
eles nem se preocupavam em evitar.
     No dia seguinte, meus companheiros deixaram o acampamento antes do amanhecer. Fiquei s, aguardando as 
instrues especficas para mim. Os carregadores tinham partido na frente para levar suas bagagens e voltariam 
para me pegar de manh. Sombra designara uma jovem para me vigiar. Ela se chamava Rosita.
     Eu a tinha observado durante a caminhada. Era alta, porte elegante, e um rosto de uma beleza refinada. Tinha 
os olhos pretos, radiantes, a pele acobreada e um sorriso perfeito.
     Enquanto esperava, me pus a organizar algumas coisas que me restavam, sob uma chuva fininha e irritante. 
Rosita me observava em silncio. Eu no estava com vontade de falar. Ela se aproximou de mim, se abaixou e 
comeou a me ajudar.
    -                Tudo bem, Ingrid?
    -                No, de jeito nenhum.
    -                Comigo tambm no.
     Levantei os olhos. Ela estava tomada por uma viva emoo.
     Ela queria que eu lhe perguntasse por qu. Eu no estava segura de querer fazer isso. Terminei de arrumar 
minha mochila em silncio. Ela se levantou, fez um abrigo sob um tronco de rvore que apodrecia no cho. Arriou 
as mochilas, convidando-me a me sentar com ela, sob aquela cobertura.
    -                Voc quer conversar? - terminei por lhe perguntar.
     Ela me olhou com os olhos marejados, me sorriu e disse:
    -                Quero, sim, acho que se no falar com voc vou morrer.
     Peguei a mo dela e disse baixinho:        
    -                Fale, estou escutando.
     Ela falava devagar, evitando me olhar, mergulhada em suas lembranas. Nascera de uma me paisa, habitantes 
de origem espanhola da regio da Antioquia, e de um pai do Llanos. Seus pais trabalhavam duro e no conseguiam 
satisfazer as necessidades de todos os seus filhos. Como os mais velhos, ela havia sado de casa assim que alcanou 
a idade de trabalhar. Tinha se envolvido com as Fare para no ter de terminar num prostbulo.
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      Desde que fora integrada, um chefezinho chamado Obdulio havia cismado que ela seria sua companheira. Ela 
resistira, pois no estava apaixonada por ele. Eu conhecia Obdulio. Era um homem na casa dos trinta anos, com 
correntes de prata no pescoo e pulseiras nos braos, j calvo e semidesdentado. Eu o tinha visto uma s vez, mas 
me lembrava dele porque achei que ele tinha cara de um homem cruel.
      Obdulio tinha sido enviado para ajudar Sombra em suas unidades. Fazia parte de outro front e recebia ordens 
de outro comandante. No grupo que ele tinha constitudo para servir de apoio a Sombra, havia includo Rosita, na 
esperana de vencer sua resistncia.
      Ela terminara aceitando ir para a cama com ele. Nas Fare, recusar os avanos de um chefe pegava muito mal. 
Era preciso dar prova de camaradagem e de esprito revolucionrio. Esperava-se das mulheres fardadas que elas 
estivessem preparadas para saciar os desejos sexuais dos companheiros de armas. Na prtica, havia dois dias na 
semana em que os guerrilheiros podiam pedir para dividir sua caleta com quem bem entendessem: quarta-feira e 
domingo, os jovens apresentavam seus pedidos ao comandante. As moas podiam recusar uma ou duas vezes, mas 
no trs. Seriam repreendidas por falta de solidariedade revolucionria. O nico meio de escapar a isso era a 
mulher se declarar oficialmente comprometida com algum ou obter permisso para viver junto, sob o mesmo teto. 
Mas, se o chefe pusesse os olhos numa das jovens, havia poucas chances de outro guerrilheiro vir a cortej-la.
      Rosita ento tinha cedido. Tornara-se uma ranguera, isto , uma moa que se "juntava" com um suboficial - 
algum que tinha "posio". Ela alcanava assim os luxos verso Fare: alimentao melhor, jias simples, pequenos 
aparelhos eletrnicos e roupas mais bonitas. Rosita pouco ligava para tudo isso. Era infeliz com Obdulio. Ele era 
violento, ciumento e mesquinho.
      Ao entrar para o peloto de Sombra, Rosita encontrara um jovem que se chamava Javier, bonito e corajoso, e 
logo se apaixonaram. Javier pediu para dividir sua caleta com Rosita. Sombra atendeu o pedido deles e isso deixara 
Obdulio furioso. Como ele no era o chefe de Javier, seu poder recaa apenas sobre Rosita. Por isso, ele a sufocava 
com os piores trabalhos. Tudo o que era cansativo, difcil e desgastante ele passava sistematicamente para ela. Mas 
Rosita estava cada vez mais apaixonada por Javier. Assim que ele terminava de fazer seu trabalho, corria para 
ajudar a companheira a concluir suas tarefas.
      Durante a marcha, eu vira Javier correr como um louco para chegar primeiro ao acampamento. Ele havia 
largado ali sua mochila e partira correndo para pegar a
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de Rosita. Ele colocou a mochila dela nas costas, pegou Rosita pela mo e se foram rindo para o acampamento.
     No dia seguinte, os prisioneiros foram divididos em grupos. Javier partiu com sua unidade e Obdulio 
recuperou Rosita. Ele queria for-la a voltar com ele.
    -                Nas Fare,  assim! Perteno a um front diferente do dele, nunca mais vamos nos ver - dizia 
Rosita, chorando.
    -                Fujam, abandonem as Fare.
    -                No temos o direito de largar as Fare. Se fizermos isso, vo matar nossas famlias.
     Ns nem nos demos conta da chegada dos carregadores. Eles j estavam diante de ns quando os vimos. O 
olhar deles era venenoso.
    -                Caia fora - tartamudeou um deles para Rosita.
    -                V, entre na rede, no podemos perder tempo! - me disse o segundo, cheio de dio.
     Eu me voltei para Rosita. Ela j estava em p, o fuzil no ombro.
    -                Direto para o acampamento. E no faa corpo mole, se no quiser terminar com uma bala na 
testa.
     Depois, virando-se para mim:
    -                E voc tambm, cuidado, no estou para brincadeira e vou ter o maior prazer de lhe meter uma 
bala entre os olhos.
     Chorei durante tdo o resto do dia por causa de Rosita. Ela tinha a idade de minha filha. Eu gostaria de t-la 
confortado, de dar-lhe ternura, esperana. Ao contrrio, eu a deixara imersa no medo das represlias. No entanto, 
ainda penso muito nela, e uma de suas frases me ficou para sempre no corao: "Sabe, o que me d mais medo  
saber que ele vai me esquecer".
     Eu no tive presena de esprito suficiente para lhe dizer que isso nunca aconteceria, porque ela era uma 
pessoa impossvel de esquecer.
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54. A marcha interminvel

28 de outubro de 2004

      Tnhamos partido por ltimo e fomos os primeiros a chegar ao local do acampamento, na frente de Lucho e 
dos outros novos companheiros. Disseram que tinham se perdido, mas, ouvindo as conversas, ou pelo menos o que 
eu podia ouvir de suas conversas de p de ouvido, soube que eles tinham se livrado, por pouco, de uma catstrofe. 
Tinham ficado a poucos metros de um esquadro do Exrcito.
      Chovia, uma chuva fininha e teimosa que no parava nunca. Fazia frio. Era uma chuvinha irritante, mas no o 
suficiente para me obrigar a me secar. Ali o tempo se estendia ao infinito, diante de mim no havia nada.
      Escutei um barulho no alto das rvores. Um grupo de uns cinquenta macacos cruzou o espao. Era uma 
colnia bem significativa, os machos maiores iam na frente, e atrs as mes carregando os bebs. Eles me tinham 
visto do alto e me olhavam com curiosidade. Alguns machos se mostravam agressivos, gritavam e desciam at bem 
perto de mim, dependurados nos galhos pela cauda, me fazendo caretas. Sorri. Esses raros momentos em que eu 
podia entrar em contato com os animais eram os que me davam vontade de viver. Eu sabia que era um privilgio 
estar ali entre eles, poder observ-los de igual para igual, sem que seu comportamento pudesse ser afetado pela 
barbrie dos homens. Quando a guerrilha puxasse seus fuzis, o encantamento desapareceria. A histria da pequena 
Cristina se reproduziria. Eles
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urinavam em cima de mim, me bombardeavam com galhos quebrados, na inocncia de sua ignorncia.
      Os guardas os tinham visto tambm. Atravs dos arbustos, eu observava a movimentao deles, ouvia a 
ordem de carregar as espingardas. Eu no via mais nada, ouvia apenas as vozes, e os gritos dos macacos. E, depois, 
o primeiro tiro, um segundo, e mais um terceiro. O rudo seco dos galhos que se quebram e o pluf sobre o tapete de 
folhas. Contei trs. Teriam eles matado as mes para capturar os filhotes? Essa satisfao perversa de destruir tudo 
me enojava. Eu sabia que eles sempre tinham boas desculpas para ficar em paz com a conscincia. Estvamos com 
fome, no comamos nada havia semanas. Tudo isso era verdade, mas no era razo suficiente. Eu no conseguia 
aceitar a caa. Ser que sempre tivera esse sentimento? No estava mais to certa disso. Eu tinha sido tocada 
profundamente pela histria da guacamaya que Andrs tinha abatido por prazer, e pela morte da me de Cristina. Ela 
cara de sua rvore, a bala tinha lhe atravessado a barriga. Ela punha o dedo na ferida e olhava o sangue que corria. 
"Ela chorava, tenho certeza de que chorava", me dissera William, rindo. "Ela me mostrava o sangue com seus dedos, 
como se estivesse pedindo para eu fazer alguma coisa, voltava a colocar o dedo no ferimento e tornava a me 
mostrar. Ela fez isso vrias vezes e morreu. Esses animais so como os humanos", ele conclura. Como matar um ser 
que nos olha nos olhos, com o qual voc estabelece um contato? Claro, isso no tem mais nenhuma importncia 
quando j se matou um ser humano. Eu tambm poderia matar? Oh! Sim, poderia! Tinha todas as razes para me 
convencer de que tinha esse direito. Eu estava cheia de dio contra os que me humilhavam e que tinham tanto 
prazer em me causar sofrimento. A cada palavra, a cada ordem, a cada ultraje, eu os apunhalava com meu silncio. 
Oh, sim! Eu tambm poderia matar! E poderia sentir prazer ao v-los colocar os dedos na ferida, olhar seu sangue, 
ter conscincia de sua morte, enquanto eles esperavam que eu fizesse alguma coisa, e eu no faria, deixando-os 
morrer. Naquela tarde, sob aquela chuva maldita, mastigando minha desgraa, entendi que eu podia ser igual a 
eles.
      Meus companheiros chegaram extenuados. Tinham dado uma longa volta, o que os fizera atravessar um 
pntano infestado de mosquitos e um desfiladeiro de escarpas medonhas para virem se encontrar conosco. 
Disseram-lhes que estavam perdidos, mas eles ouviam tiros que se cruzavam a pouca distncia. Houvera confronto 
com o Exrcito. A guerrilha tinha conseguido salv-los do esconderijo.
      Ali onde estvamos, as rvores se abriam em crculos acima de nossas cabeas, mostrando uma abbada 
celeste com as constelaes que eu conhecia. Ficamos todos do lado de fora, sobre nossos plsticos, a esperar que 
nos trouxessem
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comida. A conversa voltou a se centrar depressa sobre a preocupao que nos era comum. Alguns cochichavam para 
evitar que os guardas escutassem. Eles tinham recebido informaes como a de que amos ser entregues a um outro 
front.
     Comeamos a procurar um lugar para montar nossas barracas.
    -                No se preocupe, doctora - disse um dos militares entre Florez e mim -, vamos armar sua barraca 
em dois minutos. - Era Miguel Arteaga, o jovem cabo de sorriso afvel. - Ns j temos nossa tcnica, Florez corta as 
estacas e eu as enterro - explicou.
     Realmente, eles tinham desenvolvido uma extraordinria destreza naquilo. Observando, tinha-se a impresso 
de que era fcil. Eu s podia admirar-lhes a habilidade e a generosidade. Eles ajudaram a montar minha barraca 
durante os quatro anos que estivemos juntos.
     O guarda chegou carregando duas grandes panelas.
    -                Os pratos! - mugiu ele. - Hoje vocs vo passar bem, vo comer arroz e macaco!
    -                Deixe de mentira - disse Arteaga. - Invente algo melhor, ningum vai engolir essa histria de 
macaco!
     Debrucei-me sobre a panela. Era mesmo macaco. Eles o tinham pelado e cortado em pedaos, mas dava para 
identificar os membros, braos, antebraos, coxas etc. Os msculos estavam colados aos ossos, de tanto tempo que 
ficaram assando, provavelmente em carvo de madeira.
     No consegui comer. Eu achava que estaria me submetendo a uma experincia antropofgica.
     Falei que no comeria e ouvi uma saraivada de protestos.
    -                Voc nos irrita com esse seu lado Greenpeace! - disse Lucho. - Antes de pensar nos animais em 
vias de extino, seria melhor se preocupar conosco, para quem ningum liga mais.
    -                No acho que isso seja macaco - disse um outro -, est muito magro. Acho que  um dos nossos. - 
E fingiu que ia comear a nos contar um por um.
     A carne era uma dessas raras coisas que pareciam ter cado do cu. Ningum queria saber de sua procedncia 
e muito menos se envolver com questes existenciais sobre a convenincia ou inconvenincia de consumi-la.
     Mas minha situao era diferente. Eu estava assustada com minhas pulses criminosas. Se eu era capaz de agir 
como eles, ento corria o risco de me tornar igual a eles.
     O mais grave no era morrer. O pior era me tornar aquilo que eu mais 
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aboninava. Eu queria minha liberdade, agarrava-me  minha vida, decidi que no ia me transformar numa 
assassina. Eu no mataria, nem mesmo para fugir. Tampouco comeria carne de macaco. Eu no sabia por que aquilo 
se grudara ao meu esprito, mas tinha um sentido. Desde aquele 12  de outubro, quando saramos da priso de 
Sombra, era nosso primeiro dia de descanso. Os homens passaram o dia costurando e consertando suas coisas. 
Passei o meu a dormir. Guillermo se aproximou. No tive nenhum prazer em v-lo, embora ele me tivesse trazido 
novas caixas de remdio. Fiz uma lista de meus objetos. Ele levou tudo. S me deixou a Bblia.
     Para mim, havia sido mais fcil me separar de meus objetos queridos do que me livrar da raiva que eu tinha 
dele. Pensara que nunca mais iria rev-lo, que ele tivesse ficado com o outro grupo. Ele sentiu o desprazer que sua 
presena me causava e ficou ofendido em seu orgulho. Curiosamente, sua reao no foi o desprezo e a insolncia 
com que habitualmente me tratava. Ao contrrio, foi gentil e atencioso, e se sentou ao p de minha rede para contar 
sua vida. Ele tinha trabalhado longos anos para a mfia encarregada das finanas de um narcotraficante que agia em 
algum lugar dos Llanos colombianos. E me descreveu o luxo em que vivera, as mulheres e o dinheiro que haviam 
passado por suas mos.
     Eu o escutei sem dizer nada. Ele continuou me explicando que tinha perdido uma soma importante de 
dinheiro e que seu chefe pusera sua cabea a prmio. Havia entrado nas Fare para fugir dele. Tornara-se enfermeiro 
por necessidade, para preencher as exigncis de estudos das Fare. Fizera um curso de formao e o resto tinha 
aprendido sozinho, lendo ou pesquisando na internet.
     Nada do que dizia mudava minha opinio sobre ele. Para mim, era um brbaro. Eu sabia que ele apontaria a 
arma para a minha testa e apertaria o gatilho sem hesitar.
     No consegui reprimir o prazer de lhe recitar a lista detalhada do que ele havia tirado de mim. Vi que ele 
estava se sentindo um nada, surpreso que eu tivesse feito minha lista to depressa.
     - Fique com tudo - eu disse -, porque decididamente voc no sabe mandar.
     Ele se foi irritado, e pela primeira vez, desde muito tempo, eu ria dele. Na priso de Sombra, a presso do 
grupo tinha sido to forte que eu resvalara para uma prudncia que beirava, s vezes, a obsequiosidade. Eu no 
gostava de ver isso nos outros, muito menos em mim. Frequentemente, eu tinha medo de Guillermo, de sua 
capacidade de adivinhar minhas necessidades, meus desejos e minhas fraquezas, e utilizar seu poder para me fazer 
o mal. Quando eu devia enfrent-lo, minha voz tremia, e eu me recriminava por no me dominar. Eu chegava a 
planejar, dias
365
 



inteiros, a frase com que lhe pediria um remdio ou um pouco de algodo. Esse exerccio me colocava numa atitude 
que suscitava em Guillermo reaes de impacincia, de abuso e de dominao.
     A roda da vida tinha girado. Eu me lembrava de Maria, uma secretria que tinha trabalhado comigo durante 
anos. Eu a intimidava, e sua voz se partia quando ela queria me falar. Eu sentia estar ficando igual a Maria, 
perturbada pelo poder, paralisada pela conscincia que eu tinha da necessidade de agradar ao outro para conseguir 
o que, num certo momento, me parecia essencial. Quantas vezes eu tinha sido um Guillermo? Tinha eu tambm 
respondido com impacincia, incomodada com o medo do outro, acreditando que eu era verdadeiramente superior 
porque algum precisava de mim?
     Meu corao endurecia quando Guillermo falava comigo, porque eu condenava nele o que no gostava em 
mim. Eu abria os olhos para a importncia de nos exercitarmos para continuar humildes onde quer que nos 
situemos na roda da fortuna. Precisei descer na escala humana para compreender isso.
     No dia seguinte, Sombra veio ter comigo. Parecia querer falar, estar com tempo disponvel. Sentou-se num 
tronco de rvore e me convidou para sentar com ele.
    -                Eu era pequeno quando sua me era rainha da beleza. Me lembro muito bem dela, era magnfica. 
Era um outro tempo. Antigamente as rainhas eram mesmo rainhas...
    -                Sim, mame era muito bonita. Ela continua bonita - eu lhe respondi, mais por polidez que por 
vontade de tocar no assunto.
    -                Sua me  de Tolina, como eu.
    -                Ah, ?
    -                Sim,  por isso que ela tem aquele temperamento forte. Eu a escuto todas as manhs no rdio, ela 
tem razo no que lhe diz, o governo no faz nada para sua libertao. Na verdade, para Uribe, o melhor  que voc 
no seja libertada.
    -                Ela continua a cuidar dos rfos?
    -                Sim, claro,  a vida dela...
    -                Eu tambm fui rfo. Meus pais foram massacrados durante La Violncia. Eu sa de casa para 
virar uma serpente. Com oito anos, eu j era assassino. Foi Marulanda quem me recolheu, e no larguei mais dele, 
at hoje.
366
 



    -                Sempre fui o homem de confiana de Marulanda. Durante muito tempo, fui eu que guardei o 
tesouro das Fare. Est escondido numa caverna em Tolina. H apenas um acesso, mas s eu conheo.  impossvel 
v-lo de fora, ele d para um barranco. Chegamos l pelos rochedos. As Fare acumularam montanhas de ouro, uma 
fbula.
     Eu me perguntava se ele era louco, ou se a histria que me contava era uma histria inventada para mim. Ele 
estava muito excitado e seus olhos brilhavam mais que o habitual.
    -                H um castelo bem perto.  um lugar muito conhecido, estou certo de que sua me j esteve l. 
Aquelas terras pertenciam a um homem riqussimo. Ele foi morto, dizem. Tudo isso est abandonado hoje. 
Ningum vai mais l...
     Ele acreditava em sua histria. Talvez a tivesse inventado havia muito e, de tanto repeti-la, no sabia mais se 
era verdade ou mentira. Eu tambm tinha a impresso de que aquela histria era tecida de lembranas da infncia. 
Ele a teria escutado quando pequeno, tornando-a sua agora? Eu estava fascinada de v-lo perdido naquele mundo 
mtico que lhe pertencia. Eu aprendera quando era jovem na Colmbia. O real e nunca est circunscrito ao possvel. 
Havia barreiras intransponveis entre o real e o imaginrio, mas tudo coabitava da forma mais natural possvel.
     A histria de Sombra, suas montanhas de ouro, suas passagens secretas, a maldio que ele garantia se abater 
sobre quem tentasse roubar uma parte do tesouro, tudo me levava para aquele imaginrio coletivo do folclore 
colombiano. Eu lhe fiz ento perguntas estapafrdias e ele me respondia, encantado com meu interesse, 
esquecendo, tanto um quanto o outro, que ele era meu carcereiro e eu, sua vtima.
     Eu preferia t-lo odiado. Sabia que ele era capaz do pior, que podia ser cruel e cnico, e que os prisioneiros o 
odiavam.
     Mas eu tambm tinha visto atravs das fendas de sua personalidade uma sensibilidade que me tocava. Eu 
soubera, por exemplo, no amontoado de fofocas que chegavam  priso, que a Boyaca estava grvida. Quando ele 
voltara de sua curta viagem trazendo as cartas de minha me, eu o tinha felicitado, imaginando que ele devia estar 
feliz de ser pai. Ele recebeu minhas palavras como um punhal e eu pedi desculpas, assustada pela dor que tinha lhe 
causado:
    -                 que... - ele hesitou. - Os comandantes no acharam bom a Boyaca continuar grvida. Os 
militares esto por todo canto... ela foi obrigada a abortar.
    -                 terrvel - respondi. Ele concordou, em silncio.
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      O filho de Clara nascera alguns meses depois. Eu o via muitas vezes brincar com o garoto e passear com ele 
nos braos, em torno do acampamento, feliz de estar mimando um beb.
      Eu tinha acumulado contra ele muitas mgoas, mas, quando nos encontrvamos, era difcil manter qualquer 
animosidade. Eu devia dizer a mim mesma que aquele ser grosseiro e desptico me era no fundo simptico. 
Suspeitava que ele devia viver esse mesmo conflito em relao a mim. Eu devia ser a representao de tudo o que 
ele tinha odiado e combatido toda a sua vida, os guardas o tinham alimentado de todas as fofocas possveis e 
imaginveis, e ele devia desconfiar de mim tanto quanto eu dele. Eu sentia, no entanto, que sempre que voltvamos 
a nos falar, nossa bssola nos mostrava um rumo diferente.
      Estvamos nisso quando um guarda o chamou. Ele olhou. Dois homens que eu nunca tinha visto o esperavam. 
Ele se entreteve um longo momento com eles, depois voltou mancando em nossa direo:
    -                O nosso tempo acabou. Estes so seus novos comandantes, de agora em diante vocs devem 
obedecer a eles. Vocs conhecem as regras, no tive problemas com vocs, espero que eles tambm no tenham.
      Acho que havia alegria em minha voz quando estendi a mo a Sombra para lhe dizer:
    -                Acho que no nos veremos nunca mais.
      Ele se voltou como uma cobra em que pisamos e sibilou:
    -                No se iluda, daqui a trs anos serei de novo seu comandante.
      O veneno agiu rpido. Eu nunca considerei a hiptese de ficar cinco anos nas mos das Fare. Quando 
Armando revelou que fazia um lustro que ele estava no cativeiro, eu o olhei como se ele fosse uma vtima de 
Chernobyl, com uma sensao ao mesmo tempo de horror, comiserao e alvio, ao pensar que eu teria um destino 
melhor que o dele. As palavras de Sombra foram um detonador poderoso de angstia. Durante toda a caminhada, 
ele me dera esperanas de que eu seria libertada. Quando falou dos franceses e das negociaes que tinham 
entabulado com as Fare, no tinha sido nada mais que um estratagema para que eu suportasse o golpe, que meu 
estado no se agravasse e eu fosse em frente. Num segundo, revi o filme daquela caminhada sem fim, os pntanos 
invadidos por nuvens de mosquitos, as montanhas-russas dos "mata-cachorros", os barrancos, os rios infestados de 
piranhas que tnhamos de atravessar, os dias inteiros sob um sol inclemente, sob tempestades diluvianas, a fome, a 
doena. Sombra tinha me enganado com muita habilidade e sara ganhando.
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     Dois homens foram encarregados do revezamento para assegurar meu transporte. Sombra e o novo 
comandante acompanhavam a operao. Fiquei em p diante deles:
     - No, no quero ser levada na rede. A partir de agora, vou caminhando.
     Os olhos de Sombra s faltaram pular de susto. Ele tinha previsto tudo, menos isso. Seu olhar era de raiva, 
tanto mais porque eu estava contrariando sua ordem. Ele decidiu finalmente se calar. A tropa de Sombra se colocara 
no caminho para nos ver partir. Eu estava orgulhosa de sair caminhando e de deix-los para trs, e, com eles, a 
priso, as humilhaes, o dio e tudo o que tinha envenenado nossa existncia durante aquele ano. Eu estava 
revidando: eram eles que ficavam. Eu no tinha fora para levar minha mochila, e at o fato de colocar um p diante 
do outro ainda me deixava tonta. Mas eu me sentia como se tivesse asas, porque era eu mesma que estava partindo.
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55. As correntes

Incio de novembro de 2004

      Desde os primeiros minutos de contato com Jeiner, o jovem comandante que tinha substitudo Sombra, eu me 
senti num outro mundo. Desde o comeo, ele caminhou ao meu lado, pegando minha mo para atravessar o mais 
simples riacho e parando todo o grupo para que eu pudesse recuperar o flego. Antes do fim do segundo dia, Jeiner 
destacou um contingente de jovens para providenciar alimentos. Eles nos esperavam no caminho com cuajada fresca 
e arepas.* Mastiguei religiosamente cada pedao, para aproveitar todo o suco e toda a substncia. Fazia muito tempo 
que s comamos pequenas pores de arroz. Tive a sensao de descobrir de novo o gosto dos alimentos. O prazer 
com esse contato foi como um fogo de artifcio. O efeito se prolongou durante horas, as papilas gustativas 
incendiadas e as tripas enlouquecidas, gemendo como uma engrenagem que fosse posta a funcionar sem a devida 
lubrificao.
      O tempo estava bom e a selva aparecia em toda a sua grandeza. Atravessvamos um novo mundo. A luz 
transpassava a folhagem e se dispersava em feixes coloridos, como se estivssemos dentro de um arco-ris. As 
cascatas de gua cristalina saltando nos rochedos polidos e brilhantes se sucediam uma aps outra. 
* Cuajada: queijo campons fresco; arepas: biscoitos de farinha sem fermento.
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As quedas-d'gua jogavam no caminho peixes que voavam da torrente e caam
se mexendo a nossos ps. A gua serpenteava, abrindo caminho entre as rvores sobre leitos de espuma verde-
esmeralda, onde afundvamos at os joelhos. Avanvamos sem pressa, quase passeando. Acampamos alguns dias 
 beira de uma piscina natural de gua azul-turquesa, cujo fundo era de uma areia fina e dourada. Ele se formara 
sob a queda-d'gua de uma torrente que desaparecia logo depois em zigue-zague para se perder misteriosamente na 
floresta. Eu gostaria de ter ficado ali para sempre.
     A equipe que Jeiner comandava era composta de crianas, em que os mais jovens tinham apenas dez anos. Eles 
carregavam seus fuzis como se brincassem de guerra. A mais velha das meninas, Katerina, uma negra ainda na 
adolescncia, tinha sido instruda de como preparar minhas refeies, conforme recomendaes precisas de Jeiner, 
para acelerar minha recuperao. Eu estava proibida de comer sal, e tudo devia ser cozido com umas ervas de gosto 
horrvel, cuja propriedade mais evidente era a de estragar o gosto dos alimentos. Katerina foi repreendida uma 
noite porque eu no tinha comido as massas que ela tinha feito. Senti-me culpada. Entendi logo que o 
subcomandante, um jovenzinho que eles chamavam "o Asno", lhe dava o troco por ela no ter correspondido s 
suas investidas. Suas companheiras foram extremamente duras com ela, pedindo para que algum a substitusse 
imediatamente. O mundo das crianas podia ser s vezes mais cruel que o dos adultos. Eu a vi chorar num canto. 
Esforava-me para lhe sorrir e lhe falar, sempre que passava por ela durante a caminhada.
     Chegamos, assim, perto de uma casa enfurnada no meio da mata virgem, onde rvores frutferas enormes 
enlaavam seus galhos aos de uma floresta conservada a distncia, bem cuidada pela mo do homem. Num dos 
lados da casa, havia uma enorme antena parablica, semelhante a um grande cogumelo azul que teria crescido ali 
sob o efeito de uma radiao ionizante.
     Foi quando conheci Arturo, um dos comandantes do primeiro front do Bloco Oriental, e chefe de Jeiner. Era 
um gigante negro de olhar inteligente e passo firme. Quando me viu, se lanou sobre mim e me sufocou em seus 
braos para me dizer:
     - Voc deixou a gente de cabea quente! Meus rapazes esto lhe dando o tratamento correto?
     Arturo distribua ordens precisas e ele mesmo fazia a metade do trabalho. Sua tropa de meninos se aglomerara 
 sua volta, e ele os abraava como se fossem seus filhos. "Se esses meninos procurassem um pai, certamente o 
teriam encontrado", pensei, imaginando o que poderia ter acontecido em suas vidas para que eles terminassem 
como carne de canho nas fileiras das Fare.
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    -                No se engane - me dissera o tenente Bermeo. - Esses meninos tm mais chance de sobreviver 
na guerra que os adultos. Eles so mais audaciosos, mais hbeis, s vezes mais cruis. No conhecem nada alm 
das Fare. Para eles, no existe diferena entre a brincadeira e a realidade.  depois que a coisa se complica, 
quando eles se do conta de que perderam a liberdade e querem fugir. Mas a  tarde demais.
     Meus novos companheiros observavam a guerrilha e no eram nada tolos. Quando comentei o quanto me 
sentia mal com a histria de Katerina, Bermeo me pusera de sobreaviso:
    -                No exteriorize seus sentimentos. Quanto mais eles conhecerem voc, mais a manipularo. 
Eles conseguiram fazer presso sobre voc e voc comeou a caminhar. Era o que eles queriam, que voc se 
sentisse culpada de ser carregada numa rede, quando isso era o trabalho deles. Eles fazem refns e ainda querem 
que lhes agradeam!
     Alguns dias depois me aproximei de Arturo. Ele parecia estar feliz por conversar comigo. Sentamos um ao 
lado do outro sobre uma rvore cada e falamos de nossas vidas, "a vida civil". Ele me contou sua infncia, l 
para os lados do Pacfico, nos esteros* do rio Timbiqu. A selva l  to fechada quanto aqui. Eu conhecia bem a 
regio. Arturo chegou a falar de suas origens africanas. Sculos antes, homens como ele tinham sido trazidos 
como escravos para trabalhar nas minas e nas plantaes de acar do pas.
    -                Meus antepassados fugiram. Preferiam a selva  corrente no pescoo. Eu sou parecido com 
eles, escolhi a selva para no ser vtima da misria.
     Eu nem pensei, a coisa saiu sem eu querer:
    -                Voc nunca carregou uma corrente no pescoo, mas ainda fala das que seus antepassados 
carregaram. Como pode ver soldados tendo o mesmo destino por culpa sua?
     Ele ficou quieto, imvel, sem resposta. Meus companheiros estavam na nossa frente, mas longe o 
suficiente para no nos ouvirem. Eles se arrastavam com suas correntes, limitados em seus movimentos, 
obrigados a fazer toda espcie de manobra para evitarem o estrangulamento sempre que um se afastava um 
pouco mais do outro. Arturo parecia que estava vendo aquilo pela primeira vez, quando j fazia alguns dias que 
estvamos juntos.
     Aproveitei a abertura que ele me dera:
* Esturios.
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    - No entendo como uma organizao revolucionria pode terminar se comportando de maneira pior do que 
aqueles que ela combate.
    Arturo se levantou esfregando os joelhos. Seus msculos perfeitamente delineados lhe davam um ar felino. 
Apertou minha mo para encerrar nossa conversa e se afastou.
    Depois da refeio da noite, Jeiner chegou com uma penca de chaves, as que Sombra lhe entregara. Ele 
abriu os cadeados um a um, at todas as correntes serem tiradas. Elas eram to pesadas que ele precisou da ajuda 
de dois homens para carreg-las. Elas foram entregues a Arturo.
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56. A lua de mel

     Sem as correntes, ns nos sentamos todos mais leves. O ambiente no acampamento era bom. Arturo 
caminhava na frente e os garotos se comportavam como crianas. Brincavam, lutavam uns com os outros, 
corriam uns atrs dos outros, rolavam no cho, se abraando. Parecamos uma tribo de nmades.
     Eu conversava muito com Lucho. Nas horas mais tranquilas, quando suspendiam nossa caminhada, 
discutamos reformas e projetos que sonhvamos para a Colmbia.
     Eu estava obcecada com a ideia de um trem de alta velocidade, uma daquelas mquinas supersnicas que 
cortaria o espao como um blido, enfiando-se pelas montanhas de meu pas, correndo por um trilho areo, 
desafiando as leis da gravidade. Eu queria que ele interligasse a costa norte da Colmbia e se embrenhasse pelos 
Pramos e vales para servir queles lugares inacessveis e esquecidos que morriam de solido, serpenteando para 
o oeste, procurando uma sada, para terminar se abrindo para uma estrada sobre Valle dei Cauca e alcanar 
aquele Pacfico grandioso e abandonado. Eu queria transform-lo num meio de transporte de todos, ricos e 
pobres, tornar o pas acessvel a todos, convencida de que somente com um esprito de unio e de partilha era 
possvel ser grande. Lucho me dizia que eu era louca. Eu lhe respondia que estava livre para sonhar:
     - Imagine, nem que seja por um instante, se voc pudesse pegar um trem
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num minuto e estar, duas horas depois, danando salsa nas praias de Juanchaco. Com toda segurana.
   -                Num pas infestado pela guerrilha,  impossvel!
   -                Por que impossvel? A conquista do Oeste nos Estados Unidos se fez com bandidos 
salteadores por toda parte, o que no os assustou. Isso  to importante que poderamos nos dar ao luxo de ter 
homens armados a cada quinhentos metros. Voc queria trabalho para desmobilizar a guerrilha, por que no 
esse?
   -                A Colmbia est superendividada, no consegue nem pagar o metr de Bogot! E voc quer 
agora um trem de alta velocidade.  loucura. Mas  genial! - disse Lucho.
   -                Seria um canteiro enorme, que daria trabalho a muitos trabalhadores, engenheiros e outras 
profisses, mas tambm a essa juventude que no tem outra sada seno ficar  disposio do crime organizado.
   -                E a corrupo? - perguntou Lucho.
   -                Os cidados tm de se organizar e ficar atentos, isso em todos os nveis, h uma lei que os 
protege.
    Era a hora do banho. Fomos para um grande pntano na parte em que o rio transbordava. Eles tinham 
instalado duas tbuas na altura da gua, postas entre os galhos de rvores meio submersas, numa extenso de uns 
cinquenta metros. Tnhamos de caminhar em cima, nos equilibrando, para alcanar o lugar que nos haviam 
indicado para tomar banho e lavar nossas roupas. Cada um procurou seu espao ao lado daquelas tbuas para 
tomar o seu banho, guerrilheiros e prisioneiros misturados.
    Era a hora preferida de meus companheiros, porque as moas se lavavam de calcinha e suti e desfilavam 
na passarela para ir se vestir em terra firme. A companheira de Jeiner, Claudia, era a mais admirada de todas. 
Ela era loura, de olhos verdes, com uma pele nacarada, luminosa. Tinha, digamos, de uma coqueteria espontnea 
que se tornava mais evidente quando sentia que a observavam. O dia em que o chefe do front veio, ningum se 
apressou em voltar para o acampamento. Arturo, ao entender por qu, mandou que Claudia sasse e fosse se 
vestir em outro canto.
    O nome de guerra do comandante do Primeiro Front era, de novo, Csar. Ele estava em p, usava um 
uniforme cqui, boina cada  Chavez, e o grande sor.
* Encontrei trs comandantes que se chamavam Csar: o Mocho Csar, que assistiu  minha captura; o jovem Csar, o primeiro 
comandante que nos foi designado, e este.
 * riso branco qumico que deu inveja em muitos.
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 Quando ele nos perguntou, como chefe principal, o que mais queramos, respondemos em coro que queramos 
um dentista. Ele prometeu que iria ver isso, tanto mais que o gordo sargento Marulanda lhe mostrou os estragos 
feitos pelos cinco anos de cativeiro, escancarando a boca na cara dele. Marulanda mostrou o enorme vazio 
deixado por uma prtese perdida durante uma caminhada e Csar achou a ilustrao suficiente.
     Csar autorizou tambm que fizssemos uma lista de alimentos. Recitou de memria aquela que eu tinha 
feito alguns anos antes para Mono Jojoy, acrescentando um aparelho de rdio para todos, porque precisvamos 
muito de um. Desde que passamos a ser um s grupo, havamos ficado inteiramente dependentes do meu 
radiozinho estropiado, que agora funcionava de acordo com seus caprichos, com sua boa vontade, sem nos dar 
nenhuma certeza.
     A excitao dos militares se preparando para nos dar uma ordem contrastou com o abatimento de Lucho.
    -                Eles no vo nos libertar - disse-me com a morte na alma, confessando, assim, que ele tinha se 
alimentado um pouco de minha esperana.
    -                Os soldados me contaram que, quando os recrutas foram libertados,* as Fare deram para eles 
roupas novas, da cabea aos ps - retruquei, obstinada.
    -                Preciso ir embora, Ingrid. No posso mais ficar aqui. Vou morrer.
    -                No, voc no vai morrer.
    -                Me escute. Me prometa uma coisa.
    -                Prometo.
    -                Se no nos libertarem daqui at o fim do ano, a gente foge.
    -                Sim ou no?
    -                 muito difcil...
    -                Sim ou no, responda.
    -                ... Sim.
     Csar mandara erguer uma barraca e, sob ela, mandara colocar uma mesa feita de troncos de rvores. 
Depois puxou de sua mochila um laptop metlico e ultraleve. Era o primeiro VAIO que eu via em minha vida. 
Fiquei maravilhada como uma criana diante da bolsa aberta de Mary Poppins. A cena me parecia incongruente 
e fascinante. Tnhamos uma pequena maravilha tecnolgica diante de ns, um instrumento de vanguarda, uma 
inovao de ponta, em cima de uma
*As Fare libertaram um grupo em junho de 2001.
376
 



mesa digna do Neoltico. Como para fazer eco a meu pensamento, improvisaram uns bancos tambm de troncos 
para nos sentarmos. Csar tivera a amabilidade de trazer um filme, a sesso ia comear. Ele queria que nos 
sentssemos todos diante da telinha, o que fizemos sem nenhum constrangimento. Ele se ps a mexer no 
aparelho com um certo nervosismo.
    Bermeo verbalizou meus pensamentos mais depressa do que eu seria capaz. Cutucando-me, ele cochichou 
no meu ouvido:
   -                Cuidado, ele est tentando nos filmar!
    O alerta se propagou como plvora. Ns nos dispersamos no mesmo instante e s aceitamos voltar depois 
que o filme tivesse comeado. Csar ria como bom perdedor, mas agora estvamos todos desconfiados. Nada do 
que ele nos perguntou depois foi respondido espontaneamente. O que me ficara daquele dilogo de surdos era 
fruto de uma informao distante, que eu tinha conseguido pegar por alto. Csar era o comandante do Primeiro 
Front. Era um homem rico, seus negcios iam muito bem. A produo de cocana abarrotava seu caixa. "Temos 
de financiar a revoluo", ele dissera, rindo. Sua companheira se ocupava das finanas, era ela quem ordenava 
as despesas e autorizava, entre outras coisas, a compra de instrumentos como aquele laptop, do qual Csar tanto 
se orgulhava. Como ele no a deixava em paz, achei que devia estar muito apaixonado.
    No fui a nica a pensar assim. Pinchao tinha me cochichado, com ar travesso:
   -                Espero que Adriana esteja de bom humor quando receber nossa lista!
    Dois dias depois (um tempo recorde), recebemos nosso pedido. Tudo menos
meu dicionrio.
    Naquela noite, Arturo nos apresentou um outro comandante.
   -                Jeiner foi chamado para outra misso.  Mauricio quem cuidar de vocs a partir de hoje.
    Mauricio era um rapaz esbelto, olhar de guia, bigodinho cuidadosamente aparado sobre os lbios finos, e 
vestia um poncho leve de algodo, como o de Marulanda. Mauricio usava o seu de lado, para disfarar o brao 
que lhe faltava.
    Diferentemente de Jeiner, ele chegara como um gato, fazendo a vistoria das caletas com uma cara de 
suspeita. Os soldados desceram das redes para falar com ele e nos chamaram para nos juntarmos a eles:
   -                O que  que voc acha dele? - me perguntou Lucho quando Mauricio se foi.
   -                Prefiro Jeiner - respondi.
   -                Sim, com eles as boas coisas nunca duram.
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     Pela manh, tivemos a visita de um grupo de jovens guerrilheiras muito marotas. No mesmo estilo de 
Mauricio, elas rodaram em torno das caletas, rindo entre si, olhando os prisioneiros de esguelha. Terminaram 
botando a cabea em minha barraca. Uma delas, jovem voluptuosa, de seios proeminentes sob uma camiseta 
bem decotada, com longos cabelos negros em trana at a cintura, olhos amendoados, de clios grossos e longos, 
me perguntou com uma voz de criana:
     - Voc  Ingrid?
     Eu sorri e, querendo deix-las logo  vontade, chamei meus companheiros para apresent-los.
     Zamaidy era a companheira de Mauricio. Ela o chamava Pata Grande ("Perna Longa"), e aproveitava 
claramente a promoo de seu namoradinho para reinar sobre uma corte de adolescentes que a bajulavam 
continuamente. A camiseta fluorescente que valorizava suas curvas causava inveja em suas companheiras. Dava 
para ver que elas queriam se vestir como ela, sem conseguir o mesmo resultado, cujo efeito maior era afirmar o 
poder de Zamaidy sobre o resto do grupo. Se Zamaidy caminhava, elas a seguiam, se ela se sentava, elas faziam 
a mesma coisa, e se Zamaidy falava, elas se calavam.
     O aparecimento de Zamaidy tinha paralisado nosso acampamento. Os soldados se acotovelavam para poder 
falar com ela. Ela no se cansava de repetir seu nome, explicando que se escrevia com um "z". Aquilo lhe 
permitia deixar bem claro que ela sabia ler e escrever.
     Quando o enfermeiro, aquele que acabava de ser designado, entrou para se apresentar, s havia Lucho e eu 
para receb-lo. Camilo era um jovem, inteligente e rpido, com um rosto simptico que o ajudava a se fazer 
amar. Ele nos agradou de cara, sobretudo quando nos confessou que no gostava de combater e que sua vocao 
tinha sido sempre a de aliviar a dor dos outros.
      meia-noite, depois de ter caminhado alguns minutos na escurido e no silncio mais completo, o rio nos 
apareceu em toda a sua magnitude. Uma bruma fina flutuava sobre a superfcie e deixava entrever uma 
embarcao enorme que esperava ancorada na margem. amos fazer uma interminvel viagem nas entranhas da 
selva. A lua se escondeu e os vapores de gua se adensaram. Camilo soltou as amarras e o bongo* estremeceu 
em todos os seus ferros, com um rudo de velho submarino, que nos fez pensar nas profundezas abissais das 
guas que percorreramos.
     Cada um foi se instalar num canto para terminar a noite, enquanto o bongo
* Espcie de barcaa tpica da Amaznia.
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se engolfava nas entranhas de uma floresta cada vez mais densa, com sua carga de crianas armadas brincando 
no deque e prisioneiros cansados, envolvidos com suas lembranas. Mauricio tinha se instalado na proa, com um 
projetor enorme entre os joelhos, iluminando o tnel de gua e rvores que tinha  sua frente. Com seu nico 
brao, ele dava instrues ao capito, que se achava em p na popa, e no pude me impedir de pensar que 
estvamos nas mos de piratas de uma nova espcie.
    Depois de uma hora, Camilo pegou um balde de ferro que estava rolando no deque, virou-o e o colocou 
entre os joelhos, transformando-o num timbal. Seu ritmo endiabrado acordou os espritos e deflagrou a festa. As 
canes revolucionrias se misturaram s populares. Era simplesmente impossvel no participar da embriaguez 
coletiva. As moas improvisavam cumbias* endiabradas e giravam sobre si mesmas como se tomadas pela 
vertigem de viver. As vozes subiam s alturas e as mos ritmavam a cadncia. Camilo tinha espantado o frio e o 
tdio, assim como o medo. Olhei o cu sem estrelas, aquele rio sem fim e aquela carga de homens e mulheres 
sem futuro e cantei com toda a fora, procurando na aparncia da alegria um travo de felicidade.
    Quando atracamos durante a noite perto de um antigo acampamento fantasmagrico, uma voz fanhosa nos 
chamou de longe, do alto das rvores:
   -                Bom dia, gordo beta, que come s, morre s, r, r.
    E mais perto:
   -                Eu estou te vendo, mas-voc, no, r, r.
    Era um papagaio famoso, que no tinha esquecido o que aprendera. Ele aceitou que lhe dessem de comer, 
mas guardou distncia. Resguardava sua liberdade. Eu pensei, observando-o, que ele tinha compreendido tudo. 
No momento de partir, o papagaio desapareceu. Nada o fez descer do alto da rvore.
    Descendo mais o rio, Pata Grande tomou as providncias para construir um acampamento permanente. O 
lugar ficava numa curva do rio, entre casas camponesas que tnhamos avistado do bongo. De novo, tratava-se de 
um acampamento abandonado. Chegamos ali em plena noite, sob uma tempestade violenta. Os jovens montaram 
nossas barracas num piscar de olhos, utilizando uma parte das velhas instalaes que continuavam em p.
    Quando parou de chover, reparei num rapazinho, bem louro, os cabelos cortados  escovinha, com um ar de 
querubim, desconfortvel com um fuzil nas mos.
* Dana folclrica das regies andinas da Colmbia.
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    -                Como voc se chama? - perguntei educadamente.
    -                Mono Liso - ele murmurou.
    -                Mono Liso?  seu apelido?
    -                Estou de guarda, no posso falar.
     Katerina, que passava por ali, zombou dele e disse em minha direo:
    -                No d ateno a Mono Liso,  uma verdadeira cobra.
     Meu desejo de estabelecer relaes com meus sequestradores desapareceu. Fazia dias que eu pensava na 
questo. A partida de Jeiner tinha afetado a convivncia tranquila que predominara durante alguns dias. A 
atitude da tropa estava calcada no comportamento do chefe. Eu estava convencida de que, com o tempo, 
terminavam caindo no abuso. Alguns meses antes de meu sequestro, eu tinha ligado a televiso e visto um 
documentrio apaixonante. Nos anos 1970, a Universidade Stanford tinha levado a cabo uma simulao de uma 
situao carcerria para estudar o comportamento das pessoas comuns. O resultado assustador da experincia 
tinha revelado que jovens equilibrados, normais, que se disfaravam de guardas, que tinham o poder de fechar e 
abrir portas, podiam se transformar em monstros. Outros jovens, to equilibrados e normais quanto eles, 
colocados no papel de prisioneiros, se deixavam maltratar. Um guarda tinha colocado um prisioneiro num 
armrio no qual ele no conseguia ficar de p. Ele o deixara l durante horas at desmaiar. Era uma simulao. 
No entanto, diante da presso do grupo, s uma pessoa tinha conseguido abandonar seu papel e pedido para 
interromper a experincia.
     Eu sabia que as Fare brincavam com fogo. Estvamos num mundo fechado, sem cmeras, sem testemunhas, 
 merc de nossos carcereiros. Durante as ltimas semanas, eu tinha observado o comportamento daqueles 
meninos forados a se comportar como adultos com um fuzil nas mos. Eu via naquilo todos os sintomas de uma 
relao que podia se deteriorar e apodrecer. Achava que era possvel lutar contra, preservando nossa identidade. 
Mas eu sabia tambm que a presso do grupo podia fazer daqueles meninos os guardies do inferno.
     Eu estava perdida em minhas elucubraes quando vi um rapazinho de culos bem enterrados no nariz e os 
cabelos cortados curtos. Ele caminhava como Napoleo, os braos cruzados nas costas. Sua presena me 
incomodou. Havia algo sombrio em torno dele. Ele se aproximou de mim por trs para me dizer, com uma voz 
sussurrante:
    -                Bom dia, eu sou Enrique, seu novo comandante.
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57. Nas portas do inferno

     Tornou-se evidente para todos que a chegada de Enrique mudaria muitas coisas. Ele tinha sido enviado 
para controlar Pata Grande, que estava visivelmente ressentido. Dava para ver a guerra fria que havia entre eles. 
Eles se evitavam e a comunicao entre os dois se limitava ao necessrio. Mauricio passava muito tempo com os 
refns militares. Ele era admirado por meus companheiros. Tnhamos recebido um radiozinho com vrias 
frequncias, depois uma grande panela oferecida por Csar. Finalmente, uma terceira panela tinha chegado com 
grandes alto-falantes, que Mauricio nos emprestava para colocar vallenatos a todo volume, ao longo do dia. Ele 
sabia que agradava aos soldados. Ele aproveitava a ocasio para semear nos outros a antipatia que sentia em 
relao a Enrique.
     Enrique fazia tudo para ser detestado. Sua primeira medida foi proibir as jovens de falar com os 
prisioneiros. Castigava aquela que se aproximasse de ns. A segunda ordem era obrigar os guardas a contar aos 
chefes a mais simples conversa que tivessem conosco. Todos os nossos pedidos passavam por ele. Em algumas 
semanas, as crianas tinham adquirido ar de adultos. Estavam mais tristes. Eu no as via mais rolar no musgo se 
abraando. No havia mais risadas. Zamaidy tinha perdido seu squito de adolescentes. Foi Lili, a scia de 
Enrique, quem deu um basta naquilo.
     No prprio dia de sua chegada ao acampamento, Enrique a levara para sua cama. Lili era uma bela planta, 
sem dvida alguma. Sua pele levemente acobreada
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realava um sorriso de dentes perfeitos. Era morena, cabelos lisos e sedosos, que ela sacudia ao vento com 
graa. Era coquete e travessa, e seus olhos brilhavam quando falava com os soldados, para deixar bem claro que 
no se sentia obrigada a seguir as ordens de Enrique, que ela chamava de "Gafas", com uma familiaridade 
ostensiva. Ela assumira logo depois, com alegria, seu papel de ranguera.
     A rivalidade dos homens tinha se espalhado tambm entre as moas. Zamaidy mantinha-se a distncia, 
evitando proximidades com sua concorrente. Esta se transformou, de um dia para outro, numa tiranazinha, e 
tinha prazer de dar ordens para todo mundo. Rapidamente, o tratamento que nos era dado comeou a se 
deteriorar. Os guardas, que sempre nos falaram com respeito, vinham agora com certas liberdades que no me 
agradavam. Os soldados no viam naquilo nada de errado, gostavam de ser tratados com as brincadeiras pesadas 
de velhos amigos. Eu temia que a perda de algumas frmulas de cortesia abrisse a porta para os maus-tratos, 
como os que eram infligidos na priso de Sombra. Meus temores se revelaram corretos. Muito depressa, o tom 
passou da brincadeira para os xingamentos. Os garotos sentiam que ganhavam poder sobre seus pares se nos 
dessem ordens a cada instante. Eles sabiam muito bem que havia uma rivalidade mortal entre Gafas e Pata 
Grande. A aproximao de Pata Grande dos soldados dera a Enrique a oportunidade de traar novas diretivas, 
jogando a culpa no rival. Os meninos eram suficientemente inteligentes para perceber que teriam o apoio de 
Enrique se fossem severos com os prisioneiros.
     Pata Grande, por sua vez, queria desempenhar o papel de mediador. Acreditava que, mantendo o controle 
sobre os prisioneiros, podia convencer Csar de que a presena de Enrique era desnecessria. Ele pressionara 
para que fssemos convidados para as "horas culturais". Os jovens adoravam isso e nossa presena os 
estimulava. Mandavam-nos sentar em troncos recm-descascados. Havia adivinhaes, recitaes, canes, 
imitaes, e ns ramos todos chamados, um por um, para participar. Eu no tinha nenhuma vontade de ir.
     Eu me via com meus primos, preparando um espetculo para nossos pais, na velha casa de minha av. 
Subamos correndo a velha escadaria de madeira que levava ao sto, o que fazia um barulho enorme. Eu ouvia 
minha av l embaixo, berrando porque ns amos derrubar a casa. Havia no sto um ba onde mame 
guardava seus vestidos de baile e as coroas do tempo em que fora rainha, e os usvamos como fantasias. 
Recitvamos, cantvamos e danvamos, tal como estavam fazendo ali na selva. Um de meus primos sempre 
gritava: "Um rato, um rato", e ento a debandada era em sentido inverso, para nos jogar nos braos de
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minha av antes que ela ralhasse conosco. Essa madeleine de Proust estava ali para me lembrar do que eu havia 
perdido. Aquele tempo que eles me roubavam longe dos meus no podia ser maquiado em hora cultural. Meus 
companheiros achavam que minha atitude era de desprezo e que eu impedia o mundo de girar. O nico que 
compreendia era Lucho.
   -                Ns no somos obrigados a participar - ele me disse, dando um tapinha em minha mo. 
Depois, com uma ponta de humor, acrescentou: - , vamos ficar aqui nos aborrecendo. Podemos at fazer um 
concurso para saber quem vai se aborrecer mais.
    No fui irredutvel, mas meu comportamento foi levado ao conhecimento da guerrilha. Pata Grande veio 
nos avisar:
   -                Ou todo mundo participa, ou ningum.
    Certo dia, um carregamento excepcional de salada de frutas veio de uma aldeia vizinha. Ento havia uma 
estrada que levava ao acampamento e eu me senti aliviada ao pensar que a civilizao no estava assim to 
distante. A salada de frutas foi dividida entre os componentes da guerrilha com exclusividade, mas Gafas auto-
rizou que me dessem um pouco, porque eu estava convalescendo. Eu nunca tinha comido algo to bom em 
minha vida. As frutas eram frescas e bem maduras. Havia manga, damascos, ameixas, melancia, bananas e 
nsperas. A polpa delas era firme e suculenta, tenra, e derretia na boca, com um creme aucarado e untuoso, que 
colava no cu da boca. Perdi a palavra na primeira colherada e, na segunda, me concentrei em movimentada 
lngua na boca para sentir todos os sabores. Eu ia para a terceira, quando fui obrigada a parar, a boca ainda 
aberta: "No, o resto  para Lucho".
    Um dos meus companheiros viu quando eu entreguei o copinho. Ele deu um pulo da rede, como se 
impulsionado por uma mola, e chamou Mauricio. Foi se queixar a ele do tratamento especial que estavam me 
dando. ramos todos prisioneiros, eu no podia comer mais do que eles. No outro dia, senti que estavam mais 
rgidos comigo. Desde Jeiner, tnhamos como hbito ir aos chontos sem pedir permisso. Eu estava me dirigindo 
para l quando o guarda me interpelou secamente:
   -                Aonde voc vai?
   -                O que voc acha?
   -                Voc tem de pedir autorizao, entendeu?
    No respondi, sentindo que as coisas podiam se deteriorar. Foi o que aconteceu, mas por outras razes. 
Uma esquadrilha de helicpteros deu um rasante sobre o acampamento, fez meia-volta a alguns quilmetros e 
passou de novo sobre nossas cabeas, cobrindo-nos com sua sombra, por alguns instantes.
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     Na mesma hora, Mauricio deu ordens para levantar acampamento e nos escondermos com nossas bagagens 
na manigua .* Aguardamos, agachados no mato. Do fim da tarde at a meia-noite, fui devorada por carrapatos 
microscpicos que se apossaram de cada poro de minha pele. Eu no conseguia pensar, s voltas com uma 
coceira que estava me deixando atordoada.
     ngel, um jovem guerrilheiro, queria conversar comigo a todo custo. Era um belo rapaz, no era mau, eu 
achava, embora um tanto lento de inteligncia. Ele ouvia o rdio, apoiado sobre os calcanhares, com ar 
impaciente.
    -                Voc escutou a notcia? - ele me perguntou, arregalando os olhos, para me fisgar.
     Eu continuava a me coar desesperadamente, sem entender o que me atacava.
    -                So carrapatos. Pare de se coar, assim voc d comida a eles mais depressa. Tem de arrancar 
um por um com um alfinete.
    -                Carrapatos! Que horror! Mas eles esto por todo canto!
    -                Eles so minsculos.
     Ele acendeu a lanterna e iluminou seu brao.
    -                Veja, esse ponto que se mexe  um. - Meteu a unha na pele at sair sangue e disse: - Fugiu!
     Uma voz l na frente gritou:
    -                Apaguem as luzes, droga! Querem que nos bombardeiem? Passem a ordem adiante....
     A voz se repetia em eco, cada guerrilheiro a reproduzia de forma idntica, um depois do outro, ao longo da 
coluna, at ela chegar a ngel, que a enunciou com o mesmo tom de reprimenda a seu vizinho, como se aquela 
ordem no fosse tambm dirigida a ele. ngel tinha apagado a lanterna e ria como uma criana pega em 
flagrante.
     Ele falou baixinho:
    -                Ento! Voc ouviu a notcia?
    -                Que notcia?
    -                Vo extraditar Simon Trinidad.
     Simon Trinidad estivera na reunio em Pozos Colorados,** quando os candidatos  presidncia e os chefes 
das Fare haviam se encontrado.
* Sobosque.
** Perto de San Vicente dei Cagun.
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 Eu me lembrava bem dele, ele no tinha aberto a boca, limitando-se a tomar notas e a passar bilhetinhos a 
Ral Reyes, que desempenhava o papel de chefe do grupo. Ele tinha declarado durante as negociaes de paz 
que o Direito Internacional Humanitrio era um conceito "burgus". Seu discurso se tornava ainda mais 
espantoso pelo fato de ser ele mesmo oriundo de uma famlia burguesa da costa, o que lhe tinha permitido fazer 
estudos na escola sua de Bogot, e de fazer curso de economia em Harvard. Eu tinha me levantado antes do 
fim da conferncia para tomar ar. A sesso tinha sido interminvel e fazia calor. Simon Trinidad havia se 
levantado atrs de mim e me acompanhado. Ele tinha tido a gentileza de abrir a porta para mim e segur-la 
enquanto eu passava. Eu lhe agradecera e tnhamos trocado trs palavrinhas. Eu tinha achado que o homem tinha 
algo de spero, de contundente. Depois eu o esquecera.
    At o dia em que ele foi capturado num centro comercial de Quito, no Equador. Ele estava sem 
documentos. As Fare tinham reagido na mesma hora num tom ameaador. A captura de Trinidad significava, 
segundo a organizao, o fracasso das negociaes com a Europa para minha libertao. As Fare sustentavam 
que ele estava em Quito para reencontrar os representantes do governo francs.
    Eu estava convencida de que tinha havido negociaes secretas. Mas, sempre que o rdio anunciava a 
chegada de emissrios europeus, o governo colombiano tirava do armrio as negociaes do acordo humanitrio, 
e as Fare se desinteressavam do contato com o estrangeiro. Aquele entusiasmo terminava sempre em fracasso, 
por causa da incapacidade deles de iniciar as conversaes.
    A captura de Trinidad era, segundo Lucho, o dado que impedia nossa libertao. J eu via nisso um novo  
ingrediente que abria a possibilidade de futuras negociaes. As Fare tinham anunciado bem depressa que 
precisaria incluir Simon Trinidad na lista dos prisioneiros contra os quais eles pretendiam nos trocar... Assim, a 
revelao de sua possvel extradio materializava nosso maior medo. "Se Trinidad for mandado para os Estados 
Unidos, os americanos nunca sero libertados. Nem voc!", Lucho havia me dito meses antes, na priso de 
Sombra, quando analisvamos todos os casos semelhantes.
    Estvamos sentados, uns grudados aos outros, na escurido. Dois outros guerrilheiros tinham se espremido 
entre mim e Lucho. Gafas dera instruo para que os guardas ficassem entre um e outro prisioneiro. Quando 
ngel me comunicou a notcia da extradio de Trinidad, voltei instintivamente para falar a Lucho:
   -                Voc ouviu?
   -                No, voc est falando de qu?
   -                Eles vo extraditar Simon Trinidad.
   -                Oh! Merda! - ele exclamou sem querer, profundamente perturbado.
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     O guerrilheiro que estava entre ns interveio:
    -                O companheiro Trinidad  um dos nossos melhores comandantes. Guarde seus insultos com 
voc. Aqui no gostamos de palavras grosseiras.
    -                Mas voc est enganado. Ningum est insultando Simon Trinidad - eu disse.
    -                Ele disse que era uma merda - replicou ngel.
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58. A descida aos infernos

     O imenso bongo chegou por volta da meia-noite. Ordenaram que descssemos em silncio. Os guerrilheiros 
prenderam suas redes nas barras metlicas que sustentavam o teto do bongo e adormeceram. Um pouco depois 
das quatro da manh, o bongo estremeceu e o barulho do atracamento acordou a tropa. A voz de Enrique 
anunciou o desembarque. Uma enorme casa que dava para o rio parecia estar  nossa espera.' Eu rogava a Deus 
para que nos fizessem passar o resto da noite ali e eu tivesse tempo de instalar minha antena. Queria escutar a 
voz de mame. S mesmo ela para me tranquilizar. Meu radiozinho funcionava muito mal. Precisava de uma 
antena que s podia ser instalada num lugar fixo. Os outros rdios tinham sido guardados e estavam 
inacessveis.
     Mochilas nas costas, fizeram-nos seguir em fila indiana por um caminho que costeava a casa, depois se 
afastava e ia por campos imensos, muito bem cercados por moires impecavelmente pintados de branco. J eram 
4h45. Onde estvamos? Aonde amos?
     O cu tinha adquirido uma cor ocre, anunciando o dia. A ideia de que mame ia me falar dentro de alguns 
minutos me paralisou. Achei que no podia mais caminhar, tropeando num terreno plano que no apresentava 
nenhuma dificuldade, a no ser pela lama que se grudava s botas e pelas sombras alongadas que modificavam o 
aspecto do relevo. ngel caminhava ao meu lado e me dirigiu um gracejo:
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    -                Voc parece um pato!
     Isso foi o bastante para que eu escorregasse e terminasse estendida na lama. Ele me ajudou a levantar, com 
um riso forado e excessivo, olhando em torno, como se temesse que algum nos tivesse visto.
     Fiz que ia ajeitar minhas roupas cobertas de lama, enxuguei as mos na cala e puxei o rdio. Eram 4h57.
     ngel me olhou, exasperado:
    -                Ah, no! Temos de avanar, estamos atrasados.
    -                Mame vai me falar em trs minutos.
     Agarrei-me ao meu radiozinho, sacudindo-o freneticamente. Ele pegou seu fuzil, apontou-o para mim e, 
com a voz alterada, deu um berro:
    -                Ou voc caminha ou eu te mato.
     Caminhamos o dia todo sob um sol torturador. Refugiei-me em meu silncio, atravessando fazendas muito 
bem cuidadas, que se sucediam umas s outras com gado a perder de vista, delimitadas pela floresta virgem.
    -                Tudo isso pertence s Fare - comentou ngel com arrogncia, antes de entrar no sobosque.        
     Ele se deteve debaixo de uma rvore imensa para juntar umas frutas estranhas, cinzentas e aveludadas, 
espalhadas pelo cho. Ofereceu-me uma.
    -                Isso  o chiclete da selva - declarou, enquanto tirava a casca com os dentes e chupava a polpa 
esponjosa chamada juausoco. O gosto era doce e azedo ao mesmo tempo e, na boca, a polpa ficava resinosa e 
agradvel de se mastigar. Foi, para ns, uma fonte de energia que chegou na hora certa.
     Penetramos numa verdadeira muralha vegetal, com lianas do dimetro de um homem, enroscadas umas nas 
outras, formando uma cerca impenetrvel. Horas antes, os batedores tinham passado para abrir uma passagem 
com o faco. Levamos um bom tempo para reencontrar seus passos para sair do labirinto, o que s foi possvel 
graas  concentrao de ngel, que reconhecia os lugares por onde j tnhamos passado, pois as plantas eram 
entrelaadas de tal modo que no nos permitiam tomar algum ponto como referncia.
     Terminamos estupefatos numa verdadeira autoestrada, bastante larga para permitir a circulao de trs 
grandes caminhes de guerra, e ns a seguimos sem parar hora nenhuma at o anoitecer, atravessando enormes 
pontes, construdas com rvores milenares, que eles tinham retalhado com a serra.
    -                Isso  obra das Fare - disse ngel, com orgulho.
     Sete horas depois, vi os outros sentados bem l na frente. Bebiam Coca-Cola e comiam po. Lucho tinha 
tirado as botas e as meias, que secavam em cima de
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sua mochila, cobertas de varejeiras. Os dedos de seus ps estavam roxos, e a pele da planta dos ps, lacerada. Eu 
no disse nada. Tremia diante da possibilidade de uma amputao, muito frequente por causa do diabetes.
     Apareceu um jipe branco, que nos transportou por quilmetros de lama e poeira durante horas. 
Atravessamos uma aldeia fantasma, com belas casas desocupadas, formando um crculo em torno de uma 
pequena arena, com uma arquibancada de madeira e uma rea de cho batido para as corridas. Os faris do 
veculo iluminaram um outdoor na entrada da aldeia. Estava escrito: "Bienve- nidos a La Libertad". Eu sabia que 
aquela aldeia estava situada no departamento do Guaviare.
     Os milicianos que dirigiam tinham entrado em La Libertad com a mesma alegria de El Mocho Csar ao 
entrar em Unin-Penilla. Lucho estava sentado ao meu lado. Ele me sorriu tristemente para me cochichar:
    -                A Liberdade... O destino est rindo de ns.
     Ao que eu respondi:
    -                Acho que no,  um bom pressgio!
     O jipe parou num embarcadouro  margem de um rio imenso. A guerrilha j tinha instalado suas barracas 
por todo canto. Fazia frio e havia prenncio de tempestade. Gafas no permitiu que armssemos nossas redes. 
Esperamos at o amanhecer sob uma chuva fina, exaustos a ponto de nem espantar as moscas, vendo os 
guerrilheiros se dirigir para seus abrigos e dormir.
     Com os primeiros raios do sol, um bongo encostou. Tivemos de nos amontoar na popa, num espao muito 
exguo para ns, uns apertados contra os outros, asfixiados pelas emanaes de leo que vinham direto do 
motor. Os guerrilheiros ocupavam a maior parte do espao. Pelo menos, dava para dormir.
     A travessia durou quase duas semanas, cada vez mais em direo  selva profunda. Navegvamos durante a 
noite. Ao amanhecer, o motorista * que no era o capito, procurava um lugar para acostar, conforme as 
indicaes precisas de Gafas. Podamos, ento, armar nossas redes, tomar um banho e lavar nossas roupas. Eu 
vinha escutando mame religiosamente. Ela no tinha feito nenhum comentrio sobre Simon Trinidad. Estava se 
preparando para viajar, para passar o Natal com meus filhos.
     Uma noite, o bongo parou e nos mandou descer. Na outra margem, as luzes de um grande povoado 
surgiram como algo mgico. O rio estava semeado de estrelas. Tudo nos era inacessvel.
* Mecnico encarregado do motor.
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     Caminhamos ao longo da margem, pulando sobre os rochedos, bem depois das corredeiras que acabvamos 
de descobrir e que agora deixavam bem claro o porqu daquela operao. Um outro bongo nos esperava mais 
adiante. Conduziu-nos na mesma hora para longe do povoado, distante das luzes e dos homens.
     Mais adiante, novas cachiveras* interrompiam o rio. Eram impressionantes. Prolongavam-se por centenas 
de metros, as guas numa fria assustadora. Fizeram mais uma operao.
     Crianas brincavam na outra margem. Havia uma casinha de campons de frente para o rio, com um barco 
para alm das cachiveras. Um cachorro corria em volta das crianas, latindo. Elas no tinham nos visto. 
Estvamos escondidos atrs das rvores.
     Ouvimos um barulho de motor: um barco.
     Ele apareceu  nossa direita, subindo a corrente, a toda velocidade. Era conduzido por um rapaz fardado, 
com duas outras pessoas encostadas na popa, uma com trajes civis, a outra de roupa cqui. Eles foram em frente, 
como se a ideia de subir as cachiveras no os assustasse. O barco saltou a primeira barreira de rochedos, saltou a 
segunda e explodiu ao bater na terceira. Os ocupante voaram, impulsionados como projteis, e desapareceram no 
tumulto das guas escumosas.
     Gafas estava sentado  minha frente. No esboou a menor reao. Eu e Lucho corremos ao mesmo tempo 
para a beira do rio. As crianas j tinham pulado em seu barco e remavam com toda fora para pegar os 
fragmentos do outro, expulsos pelo rio. O co latia na proa, em p, excitadssimo pelos gritos das crianas.
     Uma cabea apareceu  superfcie. O co pulou na gua e lutou desesperado contra a corrente. A cabea 
desapareceu nos redemoinhos do rio. As crianas gritavam bem alto chamando o co, que, desorientado, girou 
sobre si mesmo, depois, levado pela corrente, nadou corajosamente de volta ao barco. Gafas no se mexeu. 
Mauricio j caminhava pela margem com uma vara que ele tinha cortado com o faco, com a destreza de 
maneta, escrutando o rio atentamente. A tropa observava em silncio. Finalmente, Gafas disse:
     - Assim vo aprender a deixar de ser idiotas. - Depois acrescentou: - Encontrem o motor!
     Lucho ps a cabea entre as mos, meus companheiros olhavam o rio horrorizados.  nossa volta, a vida 
continuou como sempre. Apareceu uma rancha improvisada e cada um de ns correu para pegar sua tigela e sua 
colher.
* Cascatas, corredeiras.
390
 



    Partimos  noite num barco igual ao dos meninos, onde instalaram o motor encontrado. Deixaram que a 
corrente nos levasse durante horas at o amanhecer. No se viam mais casas, nem luzes, nem ces.
    Na manh seguinte, quando o sol j estava alto e navegvamos sem parar, Gafas mandou que parassem e, de 
repente, correu para a frente do barco feito um louco.
   -                Meu fuzil! - ele gritou para Lili.
    Era um tapir.
   -                Atire nas orelhas - disse algum.
    Era um animal belssimo. Era maior que um touro e nadava com fora, atravessando o rio. Sua pele 
achocolatada brilhava ao sol. Colocou o focinho para fora da gua, mostrando os lbios rosa-fcsia, de uma 
coqueteria muito feminina. O animal se aproximou da embarcao, inconsciente do perigo, nos olhando 
tranquilamente sob seus longos clios, quase sorrindo em sua curiosidade ingnua.
   -                Por favor, no o mate - supliquei. - So animais em vias de extino.  uma chance nica 
termos um diante de ns.
   -                H muitos desses por a - gritou Lili.        
   -                 o bife de vocs - disse Enrique, dando de ombros. Depois, se dirigindo aos companheiros: - 
Se vocs no esto com fome...
    Todos ns estvamos com fome. No entanto, ningum abriu a boca e Enrique interpretou aquilo como uma 
desaprovao.
   -                Muito bem - disse ele, guardando a arma. - Sabemos proteger a natureza.
    Ele sorria de orelha a orelha, mas seu olhar era de assassino.
391
 



59. O diabo

     Chegamos a um trecho do rio em que a margem formava um paredo abrupto. Estvamos na estao da 
seca e o nvel da gua estava muito baixo. Encontrvamo-nos numa interseo. Do lado direito, havia um 
afluente que fazia um ngulo reto com o rio, onde este se lanava. No vamos seno a garganta de um curso 
d'gua secundrio, profundo e estreito, com um filete de gua serpenteando. Aquilo se tornara uma constante. 
Por onde quer que fssemos, a vazo de gua tinha se reduzido vertiginosamente. Perguntei aos ndios da tropa 
se sempre tinha sido assim. " a mudana climtica!", respondiam.
     Gafas anunciou que ali seria nosso acampamento permanente. Tremi. Viver como nmade era odioso, mas 
pelo menos eu podia me alimentar da iluso que caminhvamos para a liberdade.
     Nossos cambuches* foram construdos  beira do rio, mas a quinhentos metros da margem e bem perto de 
um cano** onde tinha sido feita uma minibarragem para facilitar nossa toalete e a lavagem de nossas roupas. 
Lucho e eu pedimos galhos de palmeira para usar como colcho em nossas coletas, e Tito, um homenzinho com 
um olhar nada amistoso, nos ensinou a tec-las.
* Cambuche: habitao (barraca mais cama); caleta: cama fixada no cho. s vezes se emprega uma palavra pela outra.
** Pequeno curso d'gua.
392
 



     Enquanto ele trabalhava, escutvamos a panela suspensa num prego, na caleta de Armando. Ouvimos o 
presidente Uribe fazer uma proposta s Fare, que, na mesma hora, mandou que fossem suspensos os trabalhos de 
instalao. Ele se dizia pronto para sustar a extradio de Simon Trinidad para os Estados Unidos, se a 
organizao libertasse os 63 refns que estavam em seu poder, antes de 30 de dezembro. Uma excitao tomou 
conta de todo o acampamento, sem distino entre carcereiros e refns. A proposta era audaciosa e os 
guerrilheiros a acharam atraente. Todos sentiam que a extradio de Trinidad seria um golpe doloroso para a 
organizao.
     Pata Grande foi discutir com os refns militares. Ele achava que os chefes das Fare consideravam positiva 
a proposta de Uribe. Meses antes, as Fare tinham declarado, por meio de um comunicado  imprensa, que "a 
hora de negociar tinha chegado", mas pediam uma zona desmilitarizada para iniciar as negociaes. Uribe se 
mantivera inflexvel. Durante as negociaes de paz com o governo anterior, as Fare tinham conseguido um 
enorme territrio, sob o pretexto de ter sua segurana garantida. Elas o tinham transformado em santurio para 
realizar ali suas operaes criminosas.        
     A cartada de Uribe podia ter como efeito desbloquear as coisas. At ento eu achava que a guerrilha tinha 
se esforado para negociar nossa libertao e que o governo de Uribe tomara como misso abortar qualquer 
tentativa nesse sentido. Mesmo a captura de Simon Trinidad me parecera guiada pela vontade de contrariar uma 
eventual negociao. Mas a oferta de no extraditar Trinidad mudou meu ponto de vista. Eu me perguntava, 
agora, se no eram as Fare que nunca tiveram a inteno de nos libertar. De certa forma, ns tnhamos nos 
transformado em seu carto de visita. Eles precisavam nos ter como prisioneiros, porque ramos mais teis como 
trofu do que como moeda de troca.
     A tenso no acampamento aumentou. A rivalidade entre Mauricio e Gafas chegara ao auge. Eu tinha pedido 
acar para Lucho e isso criou toda uma histria. Mauricio veio me ver com um grande pacote, que me entregou 
diante de todos:
     - Tirei esse acar da minha reserva, porque Gafas se recusa a lhe fornecer. Voc deve falar com Csar!
     A relao com os guardas tambm tinha ficado tensa. Gafas endurecera para o nosso lado. Quanto mais 
rigorosos conosco, mais eram aplaudidos.
     O lugar onde ficaramos estava cercado de guaritas. Mono Liso, o jovem de
393
 



rosto angelical, era o sentinela da manh, revlver na mo, levando muito a 
srio 
sua funo de vigilante. Um de meus companheiros tinha ido aos chontos e 
se 
esquecera de avis-lo. De certa forma, no era mesmo preciso, os chontos 
eram 
visveis da guarita.
    -                Aonde voc vai? - berrou Mono Liso de seu poleiro.
     Meu companheiro se voltou, pensou que ele se dirigia a outra pessoa e 
continuou. Mono Liso puxou o revlver, visou e atirou trs vezes nas 
pernas dele.
     Um silncio trgico se abateu sobre o acampamento. Mono Liso era 
um bom 
atirador. As balas tinham raspado as botas, mas no o tinham ferido.
    -                Da prxima vez, atiro na sua coxa para voc saber 
respeitar as ordens.
     Todos ns ficamos lvidos.
    -                Temos de sair daqui - soprou Lucho em meu ouvido.
     Alguns guerrilheiros se ofereciam para nos prover do que nos faltava 
em troca de cigarros, de trabalhos de costura, de consertos de aparelhos de 
rdio. Sempre 
que tnhamos necessidade de qualquer coisa, e isso acontecia diariamente, 
ramos 
obrigados a dar algo em troca. Os guardas, que no comeo se mostraram 
dispostos 
a nos ajudar, tinham tomado conscincia de que detinham sobre ns um 
poder 
absoluto e se tornavam, a cada dia, mais grosseiros e irritveis.
     Lucho e eu soframos mais do que os outros. A ordem tinha como 
objetivo 
nos marginalizar e nos humilhar. Qualquer pedido nosso era 
sistematicamente 
negado.
    -                 porque nos recusamos a trabalhar para eles - me 
advertira Lucho.
     Apareceram casos de leishmaniose entre os guerrilheiros, e depois 
entre ns.
Eu nunca tinha visto os efeitos da doena com meus prprios olhos. 
Embora falssemos sempre dela em nossas conversas, eu no sabia que era 
to grave. Chamavam-na tambm de a lepra da selva, porque primeiro 
produzia uma degenerao 
da pele, depois dos outros rgos que fosse atingindo, como se eles fossem 
apodrecendo. Comeava com uma pequena espinha, a que geralmente no 
se dava 
ateno. Mas a doena continuava a avanar, implacvel. Eu vira os 
estragos numa 
perna e num antebrao de Armando. Era um buraco bem grande de pele 
amolecida, como se houvessem jogado um cido no local. Dava para enfiar 
um dedo 
inteiro sem que o doente sentisse dor. Quando Lucho me mostrou uma 
pequena 
espinha em sua testa, eu no liguei, longe de imaginar que era o famoso 
pito. *
     Quando Pata Grande veio nos dizer que haveria uma festa de Natal, 
Lucho e 
eu achamos que estavam nos preparando uma armadilha. Falamos isso para 
* Leishmaniose.
394


 Bermeo e os outros. Nossos companheiros estavam tambm cheios de desconfiana. Tnhamos medo de que a 
guerrilha criasse um jogo de cena para nos filmar escondido com o objetivo de mostrar ao mundo quo bem 
cuidavam de ns, mas a ideia de uma festa era por demais atraente para ser recusada.
     A guerrilha tinha construdo um espao retangular delimitado por troncos de rvore. O cho estava 
perfeitamente aplainado e com a terra batida. Tinham colocado uma caixa de cerveja num canto e todas as 
jovens da tropa estavam sentadas, umas ao lado das outras, a nossa espera. No havia rapazes em volta do que 
parecia ser uma pista de dana.
     Logo que chegamos, mandaram que sentssemos diante das jovens, e as cervejas comearam a circular. 
Mal tomei um gole e senti minha cabea rodar. Apesar disso, no perdi o esprito e me mantive atenta.
     s vezes acontece de a gente fazer o contrrio do que pensa. Foi o meu caso naquela noite. O som estava 
muito alto. A msica fazia as rvores tremerem  nossa volta. Todas as moas se levantaram ao mesmo tempo e 
convidaram os soldados para danar. Era-lhes impossvel recusar. Quando ngel atravessou o acampamento, 
entrou na pista e me deu o brao, eu me senti uma idiota. Procurei Lucho com os olhos. Estava sentado com uma 
cerveja na mo e me observava. Ele deu de ombros e balanou a cabea. Achava que, se eu recusasse, pegaria 
muito mal para todos. Todos os olhos estavam voltados para mim. Senti brutalmente a presso e hesitei por 
alguns segundos. Finalmente me levantei e aceitei a dana. Eu tinha dado duas voltas na pista quando o vi. 
Enrique tinha uma cmera digital, ultraleve, apontada para mim. Ele estava escondido atrs de uma rvore. A 
luzinha vermelha que se acendia para indicar que a cmera estava em funcionamento o tinha trado. Meu 
corao deu um pulo e eu parei na hora. Larguei ngel e o deixei sozinho na pista para ir me sentar, dando as 
costas para Enrique. Estava com raiva de mim mesma por ter sido to idiota. ngel j tinha ido embora, rindo, 
satisfeito de ter cumprido to bem sua misso.
     Na selva, a educao que eu tinha recebido no me ajudava. Eu me segurava antes de dizer ou fazer 
qualquer coisa, com medo de ferir a suscetibilidade de uns ou de outros. Eu me repetia frequentemente que 
precisava esquecer os cdigos de cortesia, porque ali ningum lhe dava a vez para passar, ningum cedia seu 
lugar, ningum lhe estendia a mo. Depois de assistir a uma cena de falta de educao, eu retornava a mim 
mesma. No, eu no devia fazer igual, eu tinha de ser cada vez mais educada.
     A armadilha de Gafas me fez questionar todas as minhas boas intenes. Eu no podia continuar pensando 
que era possvel transportar os rituais e os cdigos
395
 



do mundo exterior para a minha vida atual. Eu estava sequestrada. No podia achar que aquelas mulheres e 
aqueles homens se comportariam de forma diferente. Eles viviam num mundo onde o mal era o bem. Matar, 
mentir, trair fazia parte do mundo deles. Aproximei-me de Lucho, que estava fora de si:
    -                Devemos falar com Enrique. Ele no tem o direito de nos filmar sem o nosso consentimento.
     A msica foi interrompida. As moas desapareceram e os guardas armaram seus fuzis. Empurraram-nos 
para o nosso canto. Nosso Natal acabava ali.
     Enrique veio falar conosco no dia seguinte. Lucho tinha insistido para que ele viesse nos ver. A discusso 
azedou. Enrique negou, no comeo, que se tratasse de uma encenao, mas terminou dizendo que a guerrilha 
fazia o que bem entendesse, o que era evidentemente uma confisso. Quando Lucho exprimiu sua indignao 
diante de sua atitude, Enrique o acusou de ser um homem grosseiro e de ter insultado o comandante Trinidad.
     Eles se separaram com os piores xingamentos. Conclumos que podamos esperar o pior de Enrique. E o 
pior chegou mesmo. Os guardas receberam ordens para nos seviciar. Lucho levantou-se preocupado certa manh:
    -                No podemos ficar aqui. Temos de fugir. Se em 30 de dezembro as Fare ainda no tiverem 
aceitado a proposta de Uribe... vamos nos preparar para fugir.
     No dia 30 de dezembro, as Fare continuaram em silncio. Na tarde do dia 31, Simon Trinidad embarcou 
num avio para os Estados Unidos, acusado de trfico de drogas. Longos anos de cativeiro nos esperavam. 
Tnhamos de preencher o dia e no pensar no futuro.
     Com a angstia no peito, os casos de leishmaniose pioravam. A pequena espinha na testa de Lucho 
continuava l. Decidimos consultar William, que era enfermeiro do Exrcito, o nico cuja opinio era confivel. 
Seu diagnstico no foi outro:
    -                Temos de comear o tratamento j, antes que a doena atinja o olho ou o crebro.
     Enrique se vingou, proibindo que Lucho recebesse os cuidados necessrios. Sabamos que a guerrilha tinha 
boas provises de glucantima. Ela comprava as injees no Brasil ou na Venezuela, porque na Colmbia, por 
causa da guerra contra as Fare, o medicamento no era vendido livremente. O Exrcito sabia que a guerrilha era 
o principal consumidor, porque operava nas zonas em que a doena era endmica.
     Encarregada dos cuidados, Gira era uma mulher sria e prudente, que, bem
396
 



diferentemente de Guillermo, no transformara a distribuio de remdios em mercado negro. Ela veio examinar 
Lucho e declarou:
    -                O tratamento vai ser longo. Pelo menos trinta injees de glucantima, uma por dia. 
Comearemos amanh.
     No outro dia, Gira no apareceu, nem nos dias seguintes. Ela nos disse que no havia mais glucantima, 
enquanto a vamos aplicar, diariamente, nos outros prisioneiros. Eu acompanhava, com preocupao, a lcera se 
alastrar, e rezava. Na noite em que Tito (o guarda que nos ensinara a tecer o colcho de folha de palmeira) 
estava de sentinela, ele veio falar conosco:
    -                 o cucho* que no quer autorizar seu tratamento. Temos vrias caixas de glucantima e 
estamos esperando mais. Diga a Gira que voc sabe que h injees na farmcia, ela ser obrigada a falar na 
aula.
     Seguimos o conselho de Tito. Gira ficou toda confusa diante de nossa insistncia:
    -                 um crime contra a humanidade - eu disse, melindrada.
    -                A noo de crime contra a humanidade  uma noo burguesa - retorquiu Gira, dando meia-
volta.
* Comandante - no caso, Enrique.
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60. Agora ou nunca

Janeiro de 2005

     Comecei a preparar seriamente nossa fuga. Meu plano era simples. Deveramos deixar o acampamento 
pelos chontos e reencontrar o rio. Lucho no estava  vontade com a ideia de nadar durante horas. Por isso, eu 
tinha feito umas bias com os timbos que tnhamos conseguido. Na realidade, eu havia recuperado as velhas 
latas de leo que meus companheiros no queriam mais, porque eles conseguiram outras novas.
     Eu tambm arranjara um faco. Tigre, um ndio que tinha embirrado conosco porque no quisemos lhe dar 
o relgio de Lucho em troca de ervas que diziam curar a leishmaniose, o tinha esquecido quando estava 
construindo a caleta de Armando. Enrique ameaou aplicar castigos extremos se o faco no fosse encontrado. 
Eu o tinha escondido nos chontos. Eles reviraram o acampamento de ponta-cabea e eu fiquei muito aflita, 
sentindo que todas as suspeitas recaam sobre mim.
     Houve, no fim de janeiro, o anncio inesperado de uma "balada". Enrique queria nos levar para tomar 
banho nas cachiveras, na direo da nascente do rio. O nvel da gua tinha subido, as cachiveras eram agora um 
lugar ideal para nadar. Os soldados estavam todos entusiasmados com a ideia. De minha parte, eu preparava um 
estratagema para nos afastarmos das caletas a fim de efetuar uma investigao
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minuciosa. A ordem foi peremptria: todos eram obrigados a ir. Os dias que precederam foram uma tortura para 
Lucho e para mim. Espervamos ser descobertos a qualquer instante. Eu achava que ia ser o fim do mundo.
     Meus companheiros iam felizes como crianas, Lucho e eu, desconfiados. No entanto, o exerccio teve a 
sua utilidade. Observei os acidentes do terreno, a vegetao, as distncias percorridas num determinado tempo, e 
integrei tudo ao meu plano.
     Autorizaram-nos a pescar, fornecendo-nos o material necessrio: anzis na ponta de um fio de nilon. 
Observei como Tigre encontrava as iscas e como ele jogava a linha. Pus-me a aprender e consegui faz-lo com 
certo sucesso.
     -  sorte de iniciante - caoou Tigre. Porm o mais importante era que consegussemos guardar alguns 
anzis e alguns metros de fio, dizendo que nossa linha tinha quebrado.
     Tigre tinha encontrado ovos de tartaruga ao explorar entre os rochedos. Engoliu dois ovos crus na minha 
frente, sem dar ateno a manhas exclamaes de nojo. Eu o imitei. Os ovos tinham um forte cheiro de peixe e 
um gosto diferente, que no teria sido to ruim se a textura da gema no fosse um pouco arenosa, difcil de 
engolir.
     No caminho de volta, tomei a deciso de entregar o faco. A vegetao que acompanhava o rio era pouco 
densa, no teramos de enfrentar paredes de lianas ou atravessar florestas de bambu como as que eu tinha visto. 
Na verdade, eu no podia mais continuar a viver numa parania que me deixava exausta. Para fugir, para ter 
sucesso em nossa fuga, precisaramos de muito sangue-frio. A pequena incurso teve como efeito nos mostrar 
uma sada: era possvel sobreviver. Ento era bem mais prudente no sermos pegos por causa do faco de Tigre. 
Aproveitei o momento em que alguns homens estavam trabalhando atrs dos nossos chontos. Eles tinham como 
misso cortar o maior nmero de palhas de palmeira para fazer uma maloka.* Deixei o faco no lugar onde eles 
estavam. ngel o encontrou e o levou para Enrique com um ar meio desconfiado, que dava a entender que ele 
no era nenhum idiota. Para meu grande alvio, o caso foi encerrado.
* cabana indgena redonda, com teto de palha.
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Tive a impresso de estar diante de um sinal do destino quando Gafas veio me pedir que lhe traduzisse as 
instrues em ingls de um GPS que ele acabara de
receber. Era um pequeno aparelho preto e amarelo com recepo via satlite, uma bssola eletrnica e um 
altmetro baromtrico.
    -                Sim, claro, entendo ingls - respondi -, mas tenho de cuidar de Lucho, ele est muito 
angustiado por causa da leishmaniose, que vai piorar se ele no tomar glucantima.
     No outro dia, Gira chegou com um sorriso de orelha a orelha. Ela acabara de receber uma nova proviso 
de remdios.
    -                 estranho - comentou Pinchao. - No ouvi nenhum barulho de motor.
     Fizemos que no ouvimos. Gira sabia desinfectar com lcool o local em que aplicaria a injeo de 
glucantima, um procedimento a que outros enfermeiros no davam muita importncia. A picada era muito 
dolorosa, porque o medicamento tinha a consistncia do leo e provocava um ardor enorme.
     A doena tinha progredido muito e Gira se sentia responsvel. Ela optou por um tratamento de choque. 
Decidiu injetar uma parte do lquido diretamente sob a pele do furnculo. O efeito foi imediato. Lucho perdeu 
os sentidos e, sobretudo, a memria.
     Quando Enrique voltou para pedir a traduo das instrues do GPS, aceitei, na esperana de que ele desse 
a Lucho uma alimentao adequada. Eu sabia que os guerrilheiros iam todos os dias pescar. Eles tinham feito 
potrillos, espcie de canoa talhada num tronco de rvore, a balsa,* que parece com uma btula por causa de sua 
casca e que tinha a particularidade de flutuar como cortia, ideal para navegar no rio e chegar at as zonas mais 
profundas, l onde a pesca era abundante. Havia toneladas de peixes. Mas Enrique no permitia que ns os 
comssemos.
     Lucho se recuperou do desmaio, mas perdeu as lembranas da infncia. Mais grave ainda foi perder a 
lembrana de nossos projetos. William dizia que fora um erro ter injetado o remdio na testa. Eu queria 
acreditar que, tratando seu diabetes, seria possvel recuper-lo totalmente, porque o mais importante era ele 
voltar a ser ele mesmo, como antes.
     Enrique nos mandou algum peixe e eu me pus a trabalhar em seu GPS Garmin. Passei a manh toda com o 
aparelho nas mos e anotei a informao que trazia. Havia, especialmente, um lugar que tinha sido registrado 
com o nome de Maloka, com as seguintes referncias: N 1 59 32 24 W 70 12 53 39. Maloka talvez fosse o nome 
que Enrique dera ao acampamento. Eu estava surpresa de que tivessem colocado em minhas mos aquela 
informao, mas certamente eles
* Ochroma lagopus.
400
 


pensavam que eu no conhecia nada daquilo, o que era verdade, a no ser pelo fato de que eu tinha guardado na 
memria as bases das lies de cartografia que aprendera na escola.
     Segura de meu achado, fui falar com Bermeo. Concordamos que seria preciso encontrar um jeito de pr a 
mo num mapa com a indicao dos paralelos e dos meridianos. Esta informao secreta seria essencial para ns. 
Ele achava que tinha visto numa pequena agenda de Pinchao um minsculo mapa da Colmbia, com a indicao 
das latitudes e longitudes. Lembrei-me, ento, de que eu mesma tinha um jogo de mapas-mndi na agenda que 
trazia comigo no dia de meu sequestro.
     Eu a tinha guardado para ver a srie de reunies programadas nos dias, semanas e meses seguintes, e que 
no se concretizaram. Aquela mesma agenda se tornou um instrumento essencial para aliviar meu tdio. Eu tinha 
me dado como tarefa aprender todas as capitais de todos os pases do mundo, sua extenso e o nmero de 
habitantes. Eu brincava com Lucho para passar o tempo:
    -                Qual  a capital da Suazilndia?
    -                Fcil: banana! - ele me respondia, caoando de nossas tcnicas bobas de memorizao.
     Eu tinha, ento, um mapa da Amrica Latina, com uma pequena Colmbia, na qual apareciam 
evidentemente a linha equatorial, algumas paralelas e meridianos indicados de forma incompleta. O mapa de 
Pinchao era muito menor, porm bem mais quadriculado. Tinha tambm, na margem, uma minscula rgua que 
tnhamos reproduzido numa carteira de cigarros para calcular melhor. Bastava dividir a distncia entre duas 
linhas paralelas para saber onde se encontrava o paralelo procurado. Um pouco mais acima do Equador, 
tnhamos uma boa posio da coordenada Nl59 norte. Os meridianos apareciam da direita para a esquerda, a 
partir do 65, que atravessava a Venezuela e o Brasil, o 70 caa em cheio sobre a Colmbia e o 75, a oeste de 
Bogot. W7012 nos colocava alguns milmetros  esquerda do 702 meridiano. Estvamos, pois, provavelmente 
no Guaviara.
     Passei horas absorta no pequeno mapa de Pinchao. Se nossos clculos estivessem corretos, devamos estar 
num pequeno ngulo do departamento de Guaviara, que acompanhava o curso do rio Inirida, na fronteira da 
provncia de Guaina. Esse rio pertencia  bacia do Orenoco. Se estvamos num dos seus afluentes, a corrente 
devia nos transportar at a Venezuela. Eu sonhava. Com minha pequena rgua improvisada, eu media a distncia 
entre esse ponto imaginrio que chamvamos Maloka e Puerto Inirida, a capital de Guaina, aonde devamos 
chegar obrigatoriamente. Havia um pouco mais de trezentos quilmetros em linha reta, mas o rio seguia um 
curso sinuoso que podia triplicar facilmente a distncia real a
401


percorrer. Pensando bem, Puerto Inirida no era o fim de nosso priplo. Bastava-nos encontrar um ser humano 
em nosso caminho que no pertencesse  guerrilha e que aceitasse nos guiar por uma espcie de labirinto.
     Tive a sensao de ser a dona do mundo. Eu sabia onde nos encontrvamos e isso mudava tudo. Eu estava 
consciente de que deveramos nos preparar para nos manter durante muito tempo naquela selva. As distncias 
eram enormes. Eles tinham escolhido bem seu esconderijo. No havia nada de certo a menos de cem quilmetros 
em torno, de um lado ao outro da mais intrincada das selvas. A cidade mais prxima era Mit, no sul, a 
exatamente cem quilmetros, mas no havia ligao possvel por via navegvel. Caminhar pela floresta, sem 
bssola, me parecia uma loucura maior do que a que eu vislumbrava. Era possvel uma tal expedio com um 
homem doente? A resposta era que eu no partiria sem ele. Teria de aprender a viver do que encontrssemos e 
correr o risco. Isso era bem melhor do que esperar ser morto por nossos sequestradores.
     O companheiro de Gira foi um dia cavar novos chontos. Era um ndio enorme, de olhar profundo. Eu 
esperava trocar algumas palavras com ele. Ele me disse, sem rodeios:        
     - As Fare no gostam de vocs. Vocs so aqueles que combatemos. No sairo daqui antes de vinte anos. 
Temos tudo o que  necessrio para mant-los aqui o tempo que quisermos.
     Eu me lembrei, ento, de Orlando falando de um de nossos companheiros de cativeiro: "Vejam, ele se 
comporta como uma barata! Botam ele para fora, mas ele volta". Eu me vi querendo fazer amizade com o ndio, 
igual a uma barata. "Nada mais estimulante para tomar a deciso de fugir", pensei.
     O peixe fez milagres em Lucho. Duas semanas depois, suas lembranas voltaram. Durante seus dias de 
distanciamento, eu tinha a impresso de falar com um estranho. Quando voltou a seu estado normal, e eu pude 
lhe confiar quanto seu estado me tinha feito sofrer, ele se divertiu me fazendo ficar com medo, fingindo novos 
buracos na memria que me deixavam em pnico. Ele caa ento na risada, me abraando, penalizado, mas feliz 
por ver o quanto eu gostava dele.
     Tudo estava pronto. Tnhamos mesmo decidido fugir, suspendendo o tratamento de glucantima que parecia 
interminvel, porque Lucho no ficava bom nunca. Podamos melhorar um pouco mais nossas provises, mas 
contvamos nos alimentar da natureza, para partir com o menor peso possvel. Ficamos s esperando o momento 
propcio: uma terrvel tempestade s seis e meia da tarde. Espervamos por ela todo anoitecer. Curiosamente, 
naquela floresta tropical, onde chovia todos os dias, o ano de 2005 foi de uma seca nunca vista. A espera foi 
longa demais.
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61. A fuga

     Para passar o tempo, decidimos retomar nossas aulas de francs. S Jhon Pinchao, um jovem que tinha sido 
feito refm assim que foi recrutado pela polcia, decidiu se juntar a ns. Ele parecia convencido de que nascera 
azarado e, conforme dizia, o encadeamento dos fatos que o tinham levado at a Maloka era a prova de que sua 
vida inteira estava destinada ao fracasso. Ele era invadido pelo sentimento de injustia que advinha da e o fazia 
se contrapor ao mundo inteiro. Eu gostava muito dele. Era inteligente e generoso, e eu tinha prazer em bater 
papo com ele, mesmo que na maior parte do tempo eu o deixasse irritado, dizendo: "Veja s!  impossvel 
discutir com voc!"
     Ele nascera no bairro mais pobre de Bogot. Seu pai era pedreiro e a me trabalhava no que encontrasse. 
Tivera uma infncia miservel, trancado com as irms num quarto alugado num cortio. Como a me no podia 
tomar conta deles, deixava-os trancados o dia inteiro. A irm mais velha, de cinco anos, preparava para os outros 
o almoo num fogareiro que a me deixava no cho. Ele nunca esquecera a fome e o frio.
     Ele adorava o pai e reverenciava a me. Como fruto de um trabalho intenso e de uma coragem sem limites, 
seus pais tinham conseguido construir com suas prprias mos uma casinha e dar a eles uma educao adequada. 
Pinchao conclura o ensino mdio e tinha entrado para a polcia por no ter podido continuar os estudos.
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     Desde o comeo das aulas, eu tinha observado que Pinchao aprendia muito rpido. Ele fazia todo tipo de 
pergunta e tinha uma grande sede de conhecimento que eu tentava saciar como podia. Ele ficava todo feliz 
quando, depois de ter me espremido como um limo durante todo o dia, eu me dava por vencida e lhe confessava 
que no sabia a resposta.
     Ele confiava em mim e me pedira para ser includo no que ele chamava "meu mundo". Queria que eu lhe 
contasse como eram os outros pases por onde eu andara e nos quais vivera. Eu o levava a passear comigo em 
minhas lembranas, nas diferentes estaes que ele no conhecia. Eu lhe dizia que preferia o outono com seu 
esplendor barroco, embora fosse to curto, que a primavera nos jardins de Luxemburgo era um conto de fadas, e 
eu descrevia a neve, e as delcias de deslizar nela, e ele achava que eu estava inventando tudo s para agrad-lo.
     Depois de algumas aulas de francs, mergulhvamos numa outra matria de estudos. Pinchao queria 
aprender tudo sobre regras de etiqueta. Quando ele fez sua pergunta, eu achei logo que no era a pessoa indicada 
para cumprir essa tarefa.
    -                Decididamente, meu caro Pinchao, voc no est com sorte! Se mipha irm estivesse aqui, ela 
lhe daria o melhor treinamento possvel. Eu no sou boa em etiqueta. Mas posso lhe mostrar o que aprendi com 
minha me.
     Ele estava muito entusiasmado com o projeto:
    -                Eu acho que entraria em pnico se um dia tivesse de me sentar diante de uma mesa com um 
monte de talheres e copos enfileirados  minha frente. Sempre tive vergonha de perguntar.
     Aproveitamos a chegada de umas tbuas para construir uma mesa, dizendo que precisvamos de uma para 
nossas aulas de francs.
     Pedi a Tito para cortar para mim, com o faco, pedaos de madeira para simular garfos e facas, e 
brincarmos de jantar. Lucho, que levava muito a srio nossos cursos de etiqueta, adorava me repreender a cada 
duas palavras:
    -                Os garfos  esquerda, a faca  direita.
    -                Sim, mas  direita voc tambm pode colocar a colher de sopa ou a pina para escargots.
    -                Espere, o que  uma pina de escargots?
    -                No ligue, ele s quer te assustar.
    -                Mas como fazer para adivinhar o que devo fazer? - insistia Pinchao, assustado.
    -                No precisa adivinhar nada! Os couverts so colocados na ordem em que vo ser usados.
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   -                E se voc tiver dvida, olhe seu vizinho - intervinha Lucho mais uma vez.
   -                 um timo conselho. Por outro lado, devemos sempre esperar que o dono da casa d o 
exemplo. No se deve fazer nada antes dele.
   -                Porque poderia lhe acontecer o que aconteceu com aquele chefe de Estado africano, e nem sei 
mesmo se ele era africano, convidado da rainha da Inglaterra. Eles tinham colocado a lavanda na mesa e o 
homem pensou que era para beber. E bebeu. A rainha, para evitar que ele ficasse envergonhado, bebeu a lavanda 
tambm.
   -                O que  a lavanda?
    Passvamos a tarde inteira a falar da forma como arrumar a mesa, servir o vinho, servir-se, comer, e 
entrvamos no mundo da civilidade, dos prazeres refinados.
    Eu dissera para mim mesma que, a partir do dia em que estivesse de volta, prestaria ateno aos detalhes, 
teria sempre flores em minha casa, e perfume, e no me proibiria mais os doces, os sorvetes. Compreendia que a 
vida tinha me dado acesso a muita coisa boa que eu tinha abandonado com displicncia. Tomei nota em algum 
lugar para no esquecer, porque achava que a insuportvel forma ftil de viver poderia me fazer esquecer o que 
eu tinha vivido, pensado e sentido no cativeiro, uma vez que estaria longe dali. Mas, como tudo que registrei no 
papel, queimei, para evitar que casse nas mos das Fare. Eu estava pensando em tudo isso, sentada em minha 
caleta, a preparar as aulas de francs para o dia seguinte, quando, de repente, ouvimos um rugido profundo, 
doloroso, assustador, que crescia e que nos obrigou a levantar a vista. Vi um tremular de folhas do lado dos 
chontos, depois vi Tigre numa desabalada carreira, abandonando seu posto de vigilncia, atravessando nosso 
espao como uma flecha.
    A maior rvore da floresta tinha escolhido aquele instante para morrer. Caiu como um gigante. Nossa 
surpresa foi igual  daquelas jovens rvores que ela arrastava em sua queda e que se partiam com um barulho 
assustador, para cair definitivamente sobre ns, levantando dez metros de poeira. Papagaios voaram, atordoados. 
Meus cabelos foram varridos para trs sob a onda de choque, e meu rosto recebeu uma lufada de p que cobriu 
todas as barracas e as rvores prximas. O cu se abriu de um lado a outro, mostrando nuvens amarelas 
esgaradas, que se estendiam no infinito de um crepsculo incendiado. Todos tinham corrido para se proteger. 
Foi tudo muito rpido.
   -                Eu poderia ter morrido - eu disse, aparvalhada, imaginando que aquele gigante tinha cado a 
dois centmetros do meu p. Mas era muito belo.
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     Fiquei feliz com a ideia de que aquela abertura providencial me permitiria olhar as estrelas.
    -                Esquea! - disse Lucho -, voc vai ver como eles vo mudar de acampamento.
     Alguns dias depois, Mauricio deu o sinal: mais uma mudana.
     O lugar onde nos instalaram era recuado em relao ao rio. Havia um cano  esquerda de nosso 
acantonamento, como na Maloka. Esse acampamento era muito mais amplo e se bifurcava antes de se aproximar 
do rio. O brao mais importante servia a parte da guerrilha. Mauricio j nos esperava no novo stio.
     Muito rapidamente, cada um retomou seus hbitos. Ns nos ocupamos em instalar nossas antenas de 
alumnio nas rvores para nos conectar com o mundo. No perdi mais nenhuma das mensagens de mame. 
Depois da extradio de Trinidad, ela se encarregou da tarefa de entrar em contato com todas as personalidades 
que poderiam ter acesso ao presidente Uribe. Ela agora queria convencer a esposa do presidente. Mame falava 
tudo isso abertamente no rdio, como se estivssemos apenas eu e ela, uma diante da outra.
    -                No sei mais o que inventar - ela me dizia. - Me sinto terrivelmente s. Seu drama no toca as 
pessoas, tenho a impresso de que todas as portas esto se fechando. Minhas amigas no querem mais me 
receber. Me acusam de deprimi-las com minhas lgrimas. E  verdade, minha querida, eu s falo de voc, 
porque voc  a nica coisa que me interessa, e que todo o resto me parece superficial e banal, como se eu 
pudesse perder meu tempo me divertindo, enquanto sei que voc est sofrendo.
     Eu chorava em silncio, repetindo-lhe bem baixinho:
    -                Fique tranquila, mamezinha, eu vou lhe fazer uma surpresa. Em alguns dias, chegarei a 
algum lugar, a um povoado,  beira de um rio. Procurarei uma igreja, porque a guerrilha estar me procurando 
por tudo quanto  canto, e terei medo. Mas verei de longe o campanrio e encontrarei o padre. Ele ter um tele-
fone e eu discarei o seu nmero.  o nico que no esqueci: Dos, doce, ventitres, zero trs* Ouvirei o telefone 
tocar uma, duas, trs vezes. Voc est sempre fazendo alguma coisa. Voc o tirar do gancho. 
* Dois, doze, vinte e trs, zero trs.
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Escutarei o som de sua voz e a deixarei ressoar alguns instantes no vazio, para ter o tempo de, em seguida, 
render graas a
Deus. Direi "Mame" e voc responder "Astrica?" porque nossas vozes se parecem e s poderia ser ela. Eu lhe 
direi, ento: "No, mamita, sou eu, Ingrid".
     Meu Deus! Quantas vezes imaginei essa cena.
     Mame preparava um apelo com o apoio de todas as ONGS do mundo, para pedir ao presidente Uribe para 
nomear um negociador para "o acordo humanitrio". Ela contava com o apoio do antigo presidente Lopez, que 
do alto de seus noventa anos continuava a influir sobre o destino da Colmbia.
     Durante meus anos de poltica, eu me mantivera distante do presidente Lopez. Ele encarnava para mim a 
velha classe poltica. Alguns dias antes de meu sequestro, eu tinha recebido um convite para ir v-lo. Cheguei 
cedo, num sbado de manh, com o nico de meus agentes de segurana em quem eu tinha total confiana. 
Tomei um susto ao tocar a campainha de sua porta porque ela se abriu na hora, e era ele, em pessoa, que me 
esperava.
     Era um homem muito alto, um belo homem apesar da idade avanada, com olhos de um azul-gua que 
mudava de acordo com o humor. Estava vestido com elegncia, com uma blusa de caxemira de gola rul, um 
blazer azul-marinho e cala de flanela cinza impecavelmente passada. Ele me pediu para acompanh-lo at a 
biblioteca, onde se sentou numa grande poltrona, de costas para a janela. Lembro de no ter aberto a boca 
durante as duas horas que durou nosso encontro. Ele me conquistara. Quando me despedi, fui obrigada a 
constatar que ele tinha derrubado todos os meus preconceitos.
     Ele se deslocara at Neiva, uma cidade sufocante como o caldeiro do diabo, para participar da 
manifestao organizada em nosso favor. Mostrara as fotos dos refns durante o trajeto, acompanhado de sua 
mulher, que fora submetida ao mesmo suplcio. Mame estava l, com todas as famlias dos outros refns. A 
intolerncia chegava ao paroxismo. Muitos, na Colmbia, achavam que pedir nossa libertao significava apoiar 
as exigncias da guerrilha e um ato de traio  ptria.
     O presidente Lopez morreu enquanto eu estava ainda amarrada a uma rvore. Antes de morrer, ele 
conseguira convencer que a luta para a libertao dos refns era uma causa "politicamente correta". Foi a 
primeira voz que ouvi, junto com a de minha me, narrando o sucesso da manifestao, quando nos tiraram do 
bongo.
     O novo acampamento tinha sido pensado de forma estranha. Estvamos isolados das acomodaes que os 
guerrilheiros construam para eles e tnhamos apenas dois guardas na extremidade de nosso acantonamento. 
Esbocei um plano que me pareceu perfeito. O tratamento de Lucho, felizmente, havia terminado. Ele
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tomara ao todo 163 injees de glucantima em seis meses, cinco vezes mais que a dose normal. Os efeitos 
colaterais o tinham feito sofrer muito, sobretudo as dores de dente e dos ossos. Mas a leso na testa tinha 
sumido. Restava apenas uma leve escoriao na pele, que ficaria para sempre como sinal de sua longa luta 
contra a leishmaniose.
     Vivamos  espera daquela tempestade providencial, s seis e quinze da noite, que nos permitiria fugir. 
Todas as noites, dormamos decepcionados por no ter ainda partido, mas secretamente aliviados de poder 
dormir um dia a mais no seco.
     Certa manh, Mono Liso e um grupo de mais cinco guerrilheiros comearam a trabalhar cedo, com 
enormes pedaos de madeira que eles tinham cortado para transformar em moures. Eles cercaram nosso 
acampamento, fincando-os a cada cinco metros. Ao mesmo tempo, nos levaram para um lugar onde ficamos 
presos. Pensei que fosse morrer. Eles no tiveram tempo de terminar os trabalhos no mesmo dia. O alambrado e 
os fios de arame farpado seriam instalados no dia seguinte.
     -  nossa ltima chance, Lucho. Se quisermos partir, tem de ser esta noite.

17 de julho de 2005
     No dia seguinte, era o aniversrio de minha irm. Preparei os "minicruzeiros" e os coloquei num canto de 
minha caleta, sob o mosquiteiro. Mono Liso passou naquele instante e nossos olhares se cruzaram. Apesar do 
fil preto do mosquiteiro, ele me olhou e eu compreendi que ele adivinhara tudo. Fui para a fila com minha 
tigela para minha ltima refeio quente, dizendo para mim mesma que estava delirando, que ele no podia ter 
lido meus pensamentos e que tudo iria correr bem. Confirmei que Lucho tambm estava pronto e lhe pedi para 
esperar que eu fosse peg-lo. Eu estava confiante. Grossas nuvens negras se aglomeravam no cu, o cheiro de 
tempestade j se fazia anunciar. De fato, grossos pingos de chuva comearam a cair. Fiz meu sinal da cruz 
dentro de minha caleta e pedi  Virgem Maria para me proteger, porque eu j estava tremendo. Tive a impresso 
de que ela no me escutara quando vi Mono Liso se aproximar. No era a hora de mudana da guarda. Meu 
corao apertou. O rapaz tinha atravessado uma passarela de madeira sobre pilotis que a guerrilha terminara 
fazia pouco, para ligar seu acampamento ao nosso. A passarela dava a volta em todo o acantonamento e passava 
a exatamente trs metros na frente da minha barraca. A chuva j caa pesada. Eram seis da tarde em ponto. 
Mono Liso parou na minha frente e se sentou na passarela, os ps balanando, de costas para mim, indiferente  
tempestade.
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    A culpa era minha, estava nervosa demais, eu tinha me denunciado. No outro dia, eles nos trancariam numa 
priso de arame farpado e eu ficaria vinte anos naquela selva. Eu tremia, as mos midas, aterrorizada at a 
nusea. Comecei a chorar.
    As horas passavam e Mono Liso continuava sentado, montando guarda  minha frente, sem se mover. 
Houve duas trocas de guarda e ele continuou ali. Por volta de onze e meia, "el Abuelo", um outro guerilheiro 
mais velho, o substituiu. A chuva no parava. Mono Liso se foi, molhado at os ossos. O novo sentinela foi se 
sentar debaixo de uma barraca improvisada, ali onde eles colocavam as panelas na hora de servir. Ele estava 
numa diagonal e controlava todos os ngulos da caleta. Ele me olhava sem me ver, perdido em seus 
pensamentos.
    Eu me dirigia a Maria, porque achava que seria bem mais difcil chegar a Deus. Rezei durante muito tempo 
com a fora do desespero. "Minha Nossa Senhora, eu lhe suplico, a senhora tambm  me, conhece o vazio que 
queima minhas entranhas. Preciso ver meus filhos. Hoje  ainda possvel, amanh acabou. Sei que a senhora me 
escuta. Eu queria lhe pedir alguma coisa de mais espiritual, que me ajude a ser melhor, mais paciente, mais 
humilde. Eu lhe peo tudo isso tambm. Eu lhe suplico, venha me buscar."
    Mame me contava que, num sbado, louca de dor, ela tinha se revoltado contra Maria. Naquele mesmo dia 
anunciaram que a guerrilha tinha entregado a ela uma segunda prova de que eu estava viva.
    Eu no acreditava mais em coincidncias. Desde meu sequestro, naquele espao de vida fora do tempo, eu 
tinha tido a possibilidade de revisar os acontecimentos de minha vida com a distncia e a serenidade prprias 
aos que tm tempo sobrando. Eu conclura que a coincidncia no passava de uma forma de confessar a 
ignorncia do que vir. Eu precisava ser paciente, esperar, para que a razo de ser das coisas se aclarasse. Com o 
tempo, os acontecimentos se sucediam numa certa lgica e desfaziam o caos. A coincidncia deixava, ento, de 
existir.
    Eu tinha falado com ela, assim como uma louca, durante horas, utilizando a chantagem afetiva mais 
rasteira para vencer sua indiferena, triunfando sobre ela, enraivecendo-a, e me jogando a seus ps mais uma 
vez. Maria, aquela a quem me dirigia, no era uma dessas imagens populares. Tambm no era um ser sobrena-
tural. Era uma mulher que tinha vivido milhares de anos antes de mim, mas que, por uma graa excepcional, 
podia me ajudar. Frustrada e cansada de minha prece, eu cara num sono sem sonhos. Meu esprito vagava, mas 
no deixava de estar 
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desperto. Eu achava que estava sempre atenta. Senti, ento, que me tocavam no ombro. Depois, como no reagi, 
me sacudiram. Foi quando entendi que tinha dormido profundamente, porque a volta  realidade foi penosa e 
dolorida, e voltei de sbito, perdida no tempo, sentada, os olhos arregalados, o corao acelerado. "Obrigada", eu 
disse por educao. Nada de divino, apenas aquela sensao de uma presena.
     No tive tempo de me fazer mais perguntas. "El Abuelo" tinha se levantado e olhava firme para mim. 
Prendi a respirao porque eu acabava de entender que ele estava entediado e resolvera sair dali. Fiquei imvel, 
apostando no fato de que a penumbra no lhe permitia ver que eu estava sentada. Ele ficou imvel por alguns 
segundos, como um animal selvagem. Afastou-se, dando a volta na passarela, depois retornou. "Maria, por 
favor!" Ele inspecionou de novo a escurido, respirou tranquilizado, e fez um atalho pelo mato para voltar ao 
seu acantonamento.
     Eu estava cheia de gratido. Sem esperar, sa de meu mosquiteiro engatinhando e repetindo em voz baixa: 
"Obrigada, obrigada". Os dois outros guardas estavam atrs da linha das barracas e das redes onde dormiam 
meus companheiros. Eles poderiam ter visto meus ps se olhassem por baixo, mas estavam enrolados em seus 
plsticos pretos, tremendo de frio e de tdio. Era uma e cinquenta da manh. Tnhamos apenas duas horas e meia 
para deixar o acampamento. Era o suficiente para nos perdermos na selva e nos livrarmos deles.
     Fui tateando para as barracas dos militares. Peguei o primeiro par de botas que encontrei no caminho e, 
aventurando-me mais perto dos guardas, peguei o segundo. Eu sabia que havia sido dada a ordem de nos 
vigiarem de forma cerrada, a mim e Lucho. A primeira coisa que a guarda faria seria verificar se nossas botas 
estavam diante de nossos enxerges. Eles veriam as botas dos militares que eu acabava de colocar e ficariam 
tranquilos.
     Depois me dirigi  caleta de Lucho para acord-lo.
    -                Lucho, Lucho, vamos.
    -                Hein, como, o que ?
     Ele dormia profundamente.
    -                Lucho, vamos embora, rpido!
    -                O qu? Voc est louca, no vamos fugir agora!
    -                No tem nenhum guarda!  agora ou nunca.
    -                Ah! Voc quer que eles nos matem?
    -                Escute, faz seis meses que voc me fala dessa fuga...
    -                Est tudo pronto. Tenho at as botas dos militares, eles no vo entender nada.
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     Lucho acabava de ser projetado diante de seu destino e tambm diante de mim. Ele transformou seu terror 
em raiva:
    -                Voc quer se mandar, est bem! Vo atirar na gente. Mas, de qualquer maneira, talvez seja 
melhor do que morrer aqui!
     Lucho fez um movimento brusco, e as caarolas, tigelas, copos e colheres que ele havia empilhado 
cuidadosamente ao p de uma estaca desabaram com um barulho assustador.
    -                No se mexa - eu disse, para segur-lo em seu mpeto suicida.
     Ficamos agachados atrs do enxergo, protegidos pelo mosquiteiro. Um feixe
luminoso passou sobre nossas cabeas, depois se afastou. Os guardas riam. Eles deviam ter achado que era um 
rato que tinha nos feito uma visita.
    -                Est bem, eu vou! Estou pronto, eu vou! - disse Lucho, pegando suas duas latas de leo, sua 
mochilinha, seu bon e as luvas que eu tinha feito para aquela ocasio. Ele se afastou a passos largos.
     Eu ia fazer a mesma coisa, mas me dei conta de que havia perdido uma luva. Em pnico, voltei tateando 
para perto dos militares. "Que idiota! Tenho de partir j!", pensei. Lucho j estava atravessando a passarela e 
caminhava furioso, em frente, pisando todas as plantas por onde passava. As folhas rangiam terrivelmente e 
sibilavam ao roar a cala de polister que ele usava. Eu me voltei. Era impossvel que os guardas no tivessem 
ouvido a barulheira que estvamos fazendo. Mas, atrs de mim, reinava uma calma absoluta. Olhei o relgio. 
Em trs minutos aconteceria a troca da guarda. J estariam certamente a caminho. Eu precisava pular a passarela 
e correr para atravessar o terreno arroteado diante de ns, para ter o tempo de me esconder na mata.
     Lucho j estava l. Eu tinha medo de que ele se esquecesse do que tnhamos combinado. Dobraramos  
esquerda no cano e nadaramos at a outra margem. Se ele fosse em frente, cairia nos braos de Gafas. Fiz o 
sinal da cruz e me joguei correndo, na certeza de que os guardas no poderiam me ver. Cheguei esbaforida atrs 
dos arbustos, bem a tempo de pegar a mo de Lucho e pux-lo para o cho. Agachados um contra o outro, nos 
pusemos a observar o que se passava atravs dos galhos. A troca da guarda acabava de ser feita, eles tinham 
dirigido o feixe de luz primeiro para nossas botas e mosquiteiros, depois para ns, varrendo o terreno vazio em 
todos os sentidos.
    -                Eles nos viram!
    -                No, no nos viram.
    -                Vamos, no vamos esperar que venham atrs de ns.
     Eu tinha feito uma capa para minhas latas de leo e as levava presas ao 
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pescoo e  cintura. Elas me impediam de caminhar direito. Eu ia ter de pular uma poro de galhos e arbustos 
jogados ali depois da limpeza de nosso acampamento. Estava toda atrapalhada com meus pertences. Lucho 
pegou minha mo, suas latas na outra, e partiu direto para o cano. As latas de plstico pareciam explodir quando 
batiam nas rvores cadas, as plantas estalavam dolorosamente sob nosso peso.
     Chegamos  margem do rio. Antes de escorregar no talude, olhei para trs. Ningum. Os faris ainda 
varriam para o lado das barracas. Um passo a mais, tropecei em Lucho e fui cair l embaixo, na praia de areia 
fina, aonde amos todo dia fazer nossa toalete. Quase no chovia mais. O barulho que fazamos no seria 
encoberto pela chuva. Sem pensar um segundo a mais, nos jogamos na gua como animais em pnico. Tentei 
controlar meus movimentos, mas fui arrastada muito depressa pela corrente.
    -                Temos de atravessar rpido, rpido!
     Lucho parecia ir  deriva para o outro brao do afluente, aquele que servia o acantonamento de Enrique. Eu 
nadava com um brao s, segurando Lucho pelas alas de sua mochila. No conseguamos mais controlar a 
direo de nossos movimentos, estvamos tomados pelo medo e procurvamos, pelo menos, no nos afogar.
     A corrente nos ajudou. Fomos arrastados para a esquerda, no outro brao do afluente, para uma curva em 
que a velocidade da gua aumentava. Perdi de vista as barracas da guerrilha e, por um instante, tive a sensao 
de que era possvel. Ns nos afastamos nos perdendo nas mornas guas da Amaznia. O cano se fechava sobre si 
mesmo, cada vez mais estreito, cerrado, escuro, silencioso, como se estivssemos num tnel.
    -                Temos de sair do cano, temos de sair da gua - eu no parava de repetir para Lucho.
     Ancoramos cuidadosamente num leito de folhas grossas, abrindo uma passagem entre as silvas e os fetos.
     "Tudo deu certo. Nenhuma pista", pensei.
     Eu sabia instintivamente que direo tomar.
    -                 por aqui - eu disse a Lucho, que hesitava.
     Penetramos numa vegetao cada vez mais densa e alta. Descobrimos, para alm de uma parede de 
arbustos novos de silvas afiadas, uma clareira de musgo. Joguei-me ali na esperana de diminuir a resistncia da 
vegetao para andar mais depressa, mas ca num enorme fosso que o musgo cobria como uma malha sobre uma 
armadilha. O fosso era profundo, o musgo chegava at o pescoo e eu no
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tinha a menor noo do que ele escondia. Imaginei que havia ali todos os tipos de monstros esperando uma presa 
como eu, para abocanh-la. Tomada pelo pnico, tentei sair, mas meus movimentos eram desajeitados e inteis. 
Lucho se deixou cair no mesmo fosso e me tranquilizou.
    -                No se apavore, no  nada. V em frente, a gente vai sair daqui.
     Um pouco mais adiante, os galhos de uma rvore serviram para que nos agarrssemos e pulssemos fora. 
Eu queria correr. Sentia que os guardas estavam no nosso encalo e achava que eles iam sair de dentro do mato e 
cair sobre ns.
     De repente, a vegetao mudou. Deixvamos os arbustos de silvas e espinhos para penetrar no mangrove. 
Vi o espelho d'gua brilhar atravs das razes das grandes rvores. Uma praia de areia cinza era uma espcie de 
antecmara para o espraiamento do rio. Um ltimo renque de rvores invadidas pela inundao e, mais adiante, a 
imensa superfcie prateada que parecia estar  nossa espera.
    -                Chegamos! - eu disse a Lucho, sem saber se me sentia aliviada ou, ao contrrio, aterrorizada, 
diante da prxima prova que nos esperava.
     Eu estava hipnotizada. Aquela gua que corria rapidamente diante de ns: era a liberdade.        
     Mais uma vez, olhei para trs. Nenhum movimento, nenhum barulho, salvo o do meu corao, que batia 
ruidosamente em meu peito.
     Ns nos aventuramos com cuidado na gua at a altura do peito. Puxamos nossas cordas. Fiz 
conscienciosamente os gestos que eu conhecia de cor por causa dos exerccios cotidianos que aprendera durante 
os longos meses de espera. Cada n tinha uma razo de ser. Precisvamos estar bem amarrados um ao outro. 
Lucho mal conseguia se manter equilibrado  flor da gua.
    -                No se preocupe, uma vez que estivermos nadando voc vai se equilibrar.
     Estvamos prontos. Demos a mo um para o outro a fim de ir em frente, at
que no sentimos mais o cho. Ficamos flutuando, pedalando suavemente at o ltimo renque de rvores. Diante 
de ns, o rio se abria grandioso sob a abbada celeste. A lua imensa clareava como um sol de prata. Eu tive 
conscincia de que uma forte corrente ia nos aspirar. No dava mais para retroceder.
    -                Cuidado, pode ser que haja uma corredeira - eu disse a Lucho.
     Num segundo, uma vez vencida a barreira vegetal, fomos empurrados, sem mais nem menos, para o meio 
do rio. A margem sumiu de nossos olhos em grande velocidade. Eu vi o embarcadouro da guerrilha se distanciar 
e fui invadida por uma sensao de plenitude to grande quanto o horizonte que acabvamos de encontrar.
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     O rio dava uma boa volta, o embarcadouro desapareceu de vez. No havia mais nada atrs de ns, 
estvamos sozinhos, a natureza tinha conspirado a nosso favor, a servio de nossa fuga. Eu me sentia protegida.
    -                Estamos livres! - eu gritava com toda a fora de meus pulmes.
    -                Estamos livres! - berrava Lucho rindo, olhando as estrelas.
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62. A liberdade

18 de julho de 2005

     Conseguimos. Lucho no lutava mais, ele se deixava arrastar tranquilo e confiante, como eu. O medo de 
nos afogarmos tinha passado. A corrente era muito forte, mas no havia remoinhos, o rio corria rpido para a 
frente. De cada lado, uma centena de metros nos separava das margens.
    -                Como vamos fazer para chegar l? - perguntou Lucho.
    -                A correnteza  forte, vai levar algum tempo. Vamos nadar bem devagar para chegar a outra 
margem. Se nos procurarem, investigaro primeiro o lado onde esto. No podem imaginar que atravessamos 
tudo isso.
     Comeamos a dar braadas num ritmo lento mas firme, para no nos cansarmos. Precisvamos manter o 
corpo aquecido e ir pouco a pouco para nossa direita, para nos livrarmos do efeito de suco que nos impelia 
para o meio do rio. Lucho estava um pouco atrs de mim, estvamos ligados pela corda, o que me dava 
segurana, porque eu podia avanar sem precisar olhar para trs, por saber que ele estava ali.
     Eu sabia que nossa maior dificuldade dentro d'gua seria a hipotermia. Sempre fui sensvel a ela. 
Lembrava-me de mame me tirando da piscina quando eu era criana, enrolada numa toalha, me esfregando com 
fora o corpo, enquanto eu tremia descontroladamente, chateada por ter sido tirada de minhas brincadeiras. 
"Voc est com os lbios roxos", ela me dizia, como para se desculpar.
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     Eu adorava a gua. Salvo quando comeava a bater o queixo. Fazia tudo para esquecer isso, mas sabia, 
ento, que eu tinha perdido o jogo e teria de sair. Ao mergulhar, mesmo nas guas tropicais, eu achava que devia 
usar uma roupa grossa porque gostava de ficar no fundo do mar por muito tempo. Eu no pensava nas anacondas 
porque achava que, na gua, elas ficariam perto das margens,  espera de sua presa. Eu imaginava que os guios 
deviam ter provises de alimentos mais fceis do que ns.
     Eu estava mais preocupada era com as piranhas. Eu as vira em ao e no tinha conseguido distinguir entre 
o mito e a realidade. Havia acontecido vrias vezes de tomar banho num cano menstruada. Cercada de homens, 
minha nica preocupao era que eles no notassem.
     No cativeiro, sempre sofri com a atitude displicente com a qual os imperativos femininos eram tratados 
pela guerrilha. A proviso de cigarros e sua distribuio eram bem mais garantidas que a de absorventes. O 
guarda que tinha sido designado para entregar minha cota tinha prazer em gritar bem alto, sob o olhar divertido 
de meus companheiros: "No v gastar  toa, eles devem durar quatro meses!". Eles nunca duravam o tempo que 
me pediam, evidentemente. Muito menos se havia caminhada, porque meus companheiros me pediam para us-
los como palmilhas, quando as bolhas estouravam em seus ps. Quando preparei nossa fuga, a ideia de nadar 
naquela situao tinha me levado a fazer uma proteo pessoal, mas estava certa de que no funcionaria.
     Ali, naquelas guas turvas, eu dava braadas tanto para ir em frente quanto para afastar todo animal que 
pudesse ser atrado por nossa presena.
     Impelidos pela fora de nossa euforia, nadamos durante trs horas. A claridade daquele espao conquistado 
pela lua se transformou com a aproximao do dia. O cu se cobriu de novo com seu manto de veludo negro, a 
escurido caiu sobre ns, e com ela o frio que precede o amanhecer.
     Eu batia o queixo j fazia um bom tempo, mas sem me dar conta. Quando quis falar com Lucho foi que 
notei que mal conseguia articular as palavras.
     - Voc est com os lbios roxos - ele disse, preocupado.
     Tnhamos de sair da gua.
     Aproximamo-nos da margem, ou melhor, da folhagem que acompanhava o rio. O nvel das guas tinha 
subido tanto que as rvores que o acompanhavam estavam completamente cobertas. S aparecia a parte mais 
alta. A margem tinha recuado bastante e, para alcan-la, precisvamos nos enfiar por aquelas galharias.
     Hesitei. Dava medo adentrar aquela natureza secreta. Que haveria sob aquelas folhas silenciosas que s a 
fora da correnteza j assustava? Seria ali que a anaconda
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nos esperava, enrolada no galho mais alto daquela rvore semissubmersa? Quanto tempo precisaramos nadar 
mata adentro para, enfim, pisarmos terra firme?
     Eu me conformei em no escolher o lugar mais propcio, porque no havia nenhum.
    -                Vamos por aqui, Lucho - eu disse, passando a cabea sob os primeiros galhos sobre os quais 
era possvel caminhar.
     O sobosque estava escuro, mas dava para delinear seus contornos. O olho se ajustava. Eu avanava 
lentamente, deixando Lucho me alcanar para pegar seu brao.
    -                Tudo bem?
    -                Sim, tudo bem.
     Os sons chegavam filtrados. O rugir do rio tinha dado lugar ao silncio das guas paradas. Um pssaro fez 
um voo rasante na gua e nos jogamos um pouco de lado. Meus gestos tinham perdido instintivamente a 
amplitude, eu antecipava um mau encontro. No entanto, nada do que eu via era diferente do que eu tinha visto 
mil vezes. Nadvamos entre os galhos das rvores como o bongo que penetrava e abria um caminho at a 
margem. Um leve marulho era sinal de que estvamos prximos da beira.
    -                Veja ali! - cochichou Lucho no meu ouvido.
     Segui o olhar dele.  minha esquerda, um leito de folhas e, mais adiante, as razes de uma ceiba majestosa. 
Meus ps acabavam de entrar em contato com o cho. Sa da gua, cheia de emoo, tremendo, feliz de estar em 
p em terra firme. Eu estava cansada, precisava encontrar um lugar para cair. Lucho saiu escalando a leve 
encosta ao mesmo tempo que eu, e me puxou entre as razes da rvore.
    -                Temos de nos esconder, eles podem surgir a qualquer momento.
     Lucho abriu o plstico preto que guardava entre seus pertences e pegou minha mochila.
    -                Me d suas roupas, uma por uma, precisamos sec-las.
     Fiz o que ele pediu. Fui, na mesma hora, atacada pelas jejenes, umas mosquinhas bem miudinhas, muito 
vorazes, que se deslocavam em nuvens compactas e me obrigavam a executar uma dana primitiva, para mant-
las a distncia.
     Eram quase seis da manh. A floresta ali onde estvamos era to densa que a luz do dia demorava a 
penetr-la. Tnhamos decidido esperar, porque no enxergvamos o que estava  nossa volta. "Meu Deus, hoje  
o aniversrio de minha irm!", pensei, feliz com minha descoberta. No mesmo instante, a luz do sol atravessou o 
sobosque e se espalhou como plvora.
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     No estvamos num bom lugar. Ali, ao p das razes da ceiba, a "rvore da vida", era o nico local seco, no 
meio de um pntano. A alguns metros, algo parecido com uma casa de marimbondos no galho de uma rvore me 
trouxe  lembrana os momentos difceis em que fomos perseguidos por um enxame de vespes.
    -                Temos de ir bem mais para l - disse Lucho. - Alm disso, quando chover, tudo ser recoberto 
com as guas paradas.
     Algum deve ter escutado l em cima, porque comeou a chover na mesma hora. Afastamo-nos da colmeia 
com cuidado, penetrando na floresta. Comeou a chover forte. Ficamos de p com nossas tralhas, usando os 
plsticos como guarda-chuva, muito cansados para pensar em alguma coisa. Quando, finalmente, a chuva nos 
deu uma trgua, joguei meu plstico no cho e desabei. Acordei sobressaltada. Homens gritavam por perto. 
Lucho estava agachado, em alerta.
    -                So eles - murmurou, os olhos arregalados.
     Estvamos numa clareira, bem  vista, com muito poucas rvores para nos escondermos. Era o nico lugar 
seco em meio s guas. Tnhamos de nos abaixar atrs de alguma coisa, se ainda desse tempo. Olhei  volta em 
busca de um esconderijo. O melhor era nos deitarmos e nos cobrirmos de folhas. Lucho e eu pensamos a mesma 
coisa, no mesmo instante. Achei que o barulho que fazamos para pegar as folhas era to alto quanto os gritos 
deles.
     As vozes se aproximavam. Escutvamos claramente a conversa. Eram ngel e Tigre, com um terceiro, 
Oswald. Eles riam. Fiquei arrepiada. Era uma caa ao homem. Eles nos tinham visto, certamente.
     Lucho estava imvel ao meu lado, camuflado sob a coberta de folhas mortas. Se no fosse tanto medo, eu 
teria soltado uma risada. E chorado tambm. Eu no queria dar a eles o prazer de nos capturar.
     Os guerrilheiros continuavam rindo. Onde estavam? Do lado do rio,  nossa esquerda. Mas, ali, a vegetao 
se tornava muito densa. Depois, um rudo de motor, algumas vozes, o eco metalizado de homens que embarcam 
num bongo, o clique dos fuzis, mais uma vez o motor, que agora se afastava, e a volta do silncio das rvores. 
Fechei os olhos.
     A noite caiu muito rpido. Eu estava surpresa de estar bem com minhas roupas molhadas. O calor de meu 
corpo no tinha me fugido. Sentia os dedos doloridos, mas tinha conseguido manter minhas unhas limpas, e a 
cutcula, que algumas vezes me fazia sofrer, no tinha sido afetada. Peguei meus cabelos e fiz uma trana bem 
firme para durar o maior tempo possvel. Tnhamos decidido que comeramos sempre alguma coisa antes de 
pegar o rio e, para aquele primeiro
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dia, estvamos autorizados a comer um biscoito cada um e um pedao de panela .* Eles retomariam a caada ao 
amanhecer, bem no momento em que deixaramos o rio para nos escondermos entre as rvores. Devamos partir 
s duas da manh para viajar trs horas antes de o dia nascer. Queramos chegar a algum lugar com os primeiros 
raios do sol, porque temamos nos enfiar na vegetao como cegos. Estvamos de acordo quanto a tudo isso, 
agachados entre as razes de nossa velha rvore, esperando que a chuva parasse para que pudssemos nos 
encolher sobre nossos plsticos para dormir ainda um pouco.
     A chuva no parou. Mas dormimos assim mesmo, um grudado no outro, incapazes de lutar por muito 
tempo contra o sono.
     Fui acordada com um barulho ensurdecedor. Depois, silncio. De novo, alguma coisa se torcia no pntano 
e tocava a gua com violncia. Eu via apenas o escuro. Lucho procurou a lanterna e, abrindo uma exceo, 
acendeu-a por um segundo.
    -                 um cachirri**- exclamei, aterrorizada.
-                No,  um guio - replicou Lucho. - Est levando sua presa para afog-la. Provavelmente ele 
tinha razo. Lembrei-me do guio que tinha estrangulado o
galo no acampamento de Andrs. Da casinha de madeira eu escutara o "pluf" que ele fizera ao cair dentro do rio, 
arrastando sua presa para o fundo. Era o mesmo barulho.
     Ficamos em silncio. Em alguns minutos, teramos de entrar naquelas mesmas guas escuras. J eram duas 
da madrugada.
     Aguardamos. Instalou-se uma paz assustadora.
-                Vamos, temos de ir - declarou Lucho, amarrando as cordas em suas botas. Entramos no rio, 
apreensivos. Eu me batia nas rvores quando caminhava.
De novo, a corrente nos aspirou bruscamente, nos puxando de debaixo da cpula da vegetao para nos jogar a 
cu aberto, no meio do rio. A corrente estava mais veloz que a do dia anterior, e l fomos ns, rodopiando, sem 
nenhum controle.
    -                Vamos nos afogar! - gritou Lucho.
    -                No, no vamos, no.  normal, choveu a noite toda. No faa resistncia. Tive a impresso 
de estar despencando, tal a velocidade com que nos deslocvamos. O rio se tornara sinuoso e tinha se estreitado. 
* Um torro de acar mascavo.
** Grande jacar da Amaznia.
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As margens eram mais altas e, s vezes, a linha das rvores se interrompia para dar lugar a uma escarpa, como
se a margem tivesse sido devorada. A terra vermelha, desnudada, se abria como uma ferida no meio das trevas 
encrespadas da vegetao.
     Quando senti meus primeiros arrepios, e a necessidade de deixar o rio se tornou premente, a corrente se 
tornou menos agressiva e nos permitiu nadar para a margem oposta, do lado em que a vegetao nos parecia 
menos densa. Ainda no tnhamos alcanado a outra margem quando amanheceu. Apavorada, apressei o ritmo. 
ramos presa fcil para toda a equipe que estava  nossa procura.
     Aliviados, penetramos mais para dentro da floresta, protegidos pela penumbra.
     No alto, o terreno estava bem seco e as folhas mortas estalavam sob nossos ps.
     Deixei-me cair em cima de um plstico batendo o queixo e dormi profundamente.
     Abri os olhos me perguntando onde estava. No havia guardas. Nem barracas, nem redes. Pssaros de todas 
as cores faziam a maior algazarra num galho acima de meus olhos. Quando consegui, atravs de um ddalo de 
lembranas esparsas, voltar  realidade, fui tomada por uma felicidade de tempos imemoriais. Decidi ficar ali, 
quieta.
     Lucho tinha sumido. Esperei tranquila. Ele tinha ido inspecionar o local.
    -                Voc acha que h transporte de civis nesse rio? - ele me perguntou ao retornar.
    -                Tenho certeza. Lembre-se da barca que passou por ns quando acabvamos justamente de 
deixar o acampamento da Maloka!
    -                E se tentssemos parar uma?
    -                Nem pense nisso! Temos uma chance em duas de cair nas mos dos guerrilheiros.
     Eu conhecia os perigos de nossa fuga. Mas o que eu mais temia era que perdssemos a coragem. Depois da 
presso de adrenalina no momento da fuga, vinha o relaxamento da vigilncia quando a gente se sentia fora de 
perigo. Era nessas horas de relaxamento que brotavam as ideias sinistras, e podamos perder a perspectiva do 
sacrifcio j feito. A fome, o frio, o cansao, se tornavam mais fortes que a prpria liberdade, porque a tendo 
reencontrado, ela se desvalorizava diante de nossas urgncias.
    -                Vamos comer, vamos nos dar esse prazer.
    -                Nossas provises do para quantos dias?
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    -                Veremos. Mas temos nossos anzis. No se preocupe, cada dia aqui nos aproxima de nossas 
famlias!
     O sol apareceu. Nossas roupas tinham secado e isso contribuiu para nos dar mais fora. Passamos a tarde a 
imaginar o que deveramos fazer se a guerrilha se aproximasse.
     Partimos mais cedo, na esperana de fazer um trajeto mais longo. Alimentvamos a iluso de encontrar em 
nosso percurso sinais da presena humana.
    -                Se encontrssemos uma barca, poderamos viajar a noite toda a seco - disse Lucho.
     Tnhamos escolhido um terreno que nos parecera propcio, porque a margem, visvel atravs das folhagens, 
se estendia numa praia de uns trinta metros. Chegamos l ao amanhecer e a tnhamos escolhido porque uma das 
rvores que estava dentro d'gua tinha galhos que cresciam na horizontal, o que nos permitiria, pensvamos ns, 
fazer servios de espionagem para vigiar o rio.
     O sol do dia anterior nos tinha revigorado, e o dia se anunciava tambm quente. Decidimos pescar para 
reforarmos o moral. Teramos pela frente, talvez, semanas, seno meses.
     Enquanto Lucho procurava o melhor dos galhos para fazer um canio, me concentrei em procurar iscas. Eu 
tinha visto um tronco cuja metade apodrecia dentro da gua. Com um chute, como eu havia visto os 
guerrilheiros fazerem, o abri. Dentro, uma colnia de minhocas esverdeadas se mexia. Mais adiante, aves-do-
paraso cresciam em abundncia. Com uma de suas folhas, fiz um cone que enchi com as infelizes minhocas. 
Amarrei o fio de nilon e o anzol no canio de Lucho e coloquei conscientemente a isca sempre viva, antes de 
jog-lo na gua. Lucho me olhou ao mesmo tempo com nojo e fascinado, como se o meu ritual me tornasse 
detentora de um poder oculto.
     Mal a isca caiu na gua, puxei um belo caribe (nome mais tranquilizador para designar as piranhas). 
Procurei um forcado que coloquei ao meu lado e nele enfiei minha pesca, certa de que, depois daquela ddiva, a 
sorte continuaria do meu lado. Sem que esperssemos, aquela pesca tinha sido milagrosa. Lucho dava 
gargalhadas. Tnhamos trs forcados com peixe em pouco tempo. Todas as nossas angstias tinham 
desaparecido. Poderamos comer todos os dias at encontrar uma sada.
     Dramos para falar muito alto e nem notvamos. S ouvimos o barulho de um motor quando ele passou na 
nossa frente. Era um barco, muito carregado, que
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navegava bem na superfcie da gua, levando uma dezena de pessoas, todas espremidas umas contra as outras, 
mulheres, uma com um beb, homens, jovens, todos vestidos como civis, com roupas multicoloridas. Meu 
corao deu um pulo. Gritei por ajuda quando o barco j tinha passado, compreendendo que eles no podiam 
mais nos ver, e muito menos nos ouvir. Eles tinham estado to perto de ns por alguns segundos. Ns os vimos 
passar diante de nossos olhos, retendo todos os detalhes daquela apario, dominados primeiro pelo medo e pela 
surpresa, depois por ver escapar de vez a ocasio de sair dali.
     Lucho me olhou com a expresso de um cachorro abatido. Seus olhos se encheram de lgrimas.
    -                Era para vigiarmos o rio - ele me disse, com amargura.
    -                Era, precisamos estar mais atentos.
    -                Eram civis - disse ele.
    -                , eram civis.
     Perdi a vontade de pescar. Puxei o fio e o anzol para guard-los.
    -                Vamos acender o fogo e tentar assar os peixes - eu disse, para esquecer nosso desapontamento.
     O cu tinha mudado. Nuvens se amontoavam sobre nossas cabeas. Choveria cedo ou tarde. Precisvamos 
correr.
     Lucho pegou alguns galhos. Tnhamos um isqueiro.
    -                Voc sabe fazer fogo? - ele me perguntou.
    -                No, mas acho que no  nada complicado. Temos de achar uma bizcocho,* essa rvore que 
eles usam na rancha.
     Passamos duas horas tentando. Eu me lembrava de ter ouvido os guardas dizerem que era preciso descascar 
a madeira quando ela estivesse mida. Tnhamos tesouras e, apesar de todos os nossos esforos, foi impossvel 
descascar mais do que um galho. Eu me senti ridcula com meu isqueiro e toda aquela madeira em volta, incapaz 
de acender a menor chama. Estvamos numa corrida contra o tempo, mas preferamos no falar disso. A doena 
de Lucho no demoraria a se manifestar de uma forma ou de outra. Eu observava todos os sinais que a 
antecediam. At ento, eu no tinha visto nada de alarmante nele, a no ser a expresso de tristeza depois que o 
barco passou, porque, s vezes, antes de uma de suas crises, ele caa num estado parecido de aflio. Nesses 
casos, sua lentido no tinha nenhuma causa especfica. 
* rvore cuja madeira queima mesmo estando molhada.
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Ela aparecia como um sintoma dos descontroles de seu metabolismo,
enquanto o abatimento que eu acabava de observar tinha uma causa evidente. Eu me perguntei, ento, se a 
decepo que o habitava no seria suficiente para desencadear sua doena, e essa ideia me torturou mais do que 
a fome ou o cansao.
    -                Bom, escute, isso no  um problema. Se no conseguirmos fazer fogo, comemos os peixes 
crus.
    -                Agora essa, nunca! - gritou Lucho. - Melhor morrer de fome.
     Sua reao me fez rir. Ele partiu correndo como se achasse que eu ia persegui-lo e for-lo a comer os 
caribes crus com seus dentinhos afiados e seus olhos parados e brilhantes.
     Peguei a tesoura e cortei a carne dos caribes em filezinhos bem finos numa folha de ave-do-paraso e os 
arrumei cuidadosamente. Tive todo o cuidado ao jogar os restos na gua, porque na mesma hora aparecia um 
cardume de peixes vorazes.
     Lucho voltou desconfiado, mas j menos tenso, observando o meu trabalho.
    -                Hum! Est delicioso - eu disse com a boca cheia, sem encar-lo. - Voc nem sabe,  o melhor 
sushi que j comi na vida!
     Sobre a folha no havia mais peixes mortos. Apenas lminas finamente cortadas de carne fresca. Aquela 
viso tranquilizou Lucho, que, levado pela fome, comeu uma, depois outra, e mais outra.
    -                Vou vomitar - ele terminou me dizendo.
     Eu estava mais tranquila. Sabia que, da prxima vez, comeramos aquilo sem dificuldade.
     Era nossa primeira refeio desde nossa fuga do acampamento. O efeito psicolgico tinha sido rpido. 
Preparamo-nos imediatamente para nossa prxima etapa, pegando todos os nossos pertences, fazendo a lista de 
nossos tesouros e do resto de nossas provises. O dia tinha um saldo favorvel para ns. Economizramos dois 
biscoitos e nos sentamos em forma.
     Lucho tinha cortado palhas de palmeira que entranou ao p de uma rvore, estendeu os plsticos e 
arrumou nossas mochilas e nossas latas em cima. amo-nos deitar quando a tempestade caiu sobre ns sem aviso. 
Mal tivemos tempo de carregar nossas coisas e nos cobrirmos com os plsticos que estavam no cho, vendo, 
com resignao, como nossos esforos para nos mantermos secos eram desfeitos por um vento lateral impiedoso. 
Vencidos pela borrasca, sentamos sobre os restos de um tronco podre, esperando que a chuva passasse. Eram 
trs da manh quando a tempestade amainou. Estvamos esgotados.
    -                No podemos pegar o rio nesse estado, seria perigoso. Vamos tentar dormir um pouco, 
partiremos amanh caminhando.
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     Algumas horas de sono tinham sido reparadoras. Lucho partiu na frente, com passo firme.
     Camos numa trilha que contornava a margem do rio e que devia ter sido aberta anos antes. Os arbustos 
que tinham sido cortados de um lado e de outro do caminho j estavam secos. Imaginei que, ali nas redondezas, 
devia ter havido um campo de guerrilha e isso me preocupou, porque se tinha certeza de que ele fora 
definitivamente desativado. Caminhvamos como autmatos e, a cada passo, eu achava que estvamos nos 
arriscando demais. Mesmo assim avanamos, porque a vontade de chegar a algum lugar nos impedia de pensar.
     No caminho, reconheci uma rvore que Tigre um dia tinha me mostrado. Diziam os ndios que, ao passar 
por ela, tnhamos de dar meia-volta e amaldio-la trs vezes seguidas, para que a rvore no nos amaldioasse. 
Lucho e eu, evidentemente, no respeitamos o ritual, sentindo que no se aplicava a ns.
     Fizemos uma parada no fim do dia numa minscula praia de areia fina. Joguei meus anzis e peguei peixes 
suficientes para uma refeio decente. Lucho comeu peixe cru com dificuldade, mas terminou admitindo que 
no era to ruim.
     A luz apareceu, sua claridade foi suficiente para nos permitir reagir quando um formigueiro nos atacou.
     Naquela noite, uma outra praga nos esperava: a manta blanca. Ela nos cobriu com a sua brancura e se 
espalhou sob nossas roupas, chegando  nossa pele, para nos aplicar picadas dolorosas, das quais no 
conseguimos nos livrar. A manta blanca era uma nuvem compacta de mosquinhas microscpicas cor de prola, 
de asas transparentes. Era difcil acreditar que aquelas coisinhas to frgeis, voando desajeitadamente, podiam 
nos infligir tanta dor. Eu tentava mat-las, mas elas eram insensveis  minha ao, porque de to difanas no 
dava para esmag-las contra a pele. Tivemos de sair s pressas e pegar o caminho do rio, antes da hora. 
Mergulhamos com alvio, coando nossos rostos com as unhas, para tentar nos livrar das ltimas mosquinhas 
que nos perseguiam.
     De novo, a corrente nos aspirou para o meio do rio, desta vez, a tempo! Atrs de Lucho, os olhos redondos 
de um jacar apareceram  superfcie. Ser que ele achou que ramos uma presa grande demais para ele? Ou ele 
no queria se afastar da margem? Eu o vi balanar a cauda e dar meia-volta. Lucho no estava bem, tentando 
acomodar suas latas para encontrar um equilbrio que ele perdia a todo instante nos remoinhos da correnteza. 
Mas eu tomei a deciso de partir da prxima vez munida de um pedao de pau.
424
 



     Durante horas, a corrente nos deixou sem rumo. Era difcil no rodopiarmos um sobre o outro, e a corda 
que nos ligava se enrolava caprichosamente, como se fosse nos enforcar. Depois de uma curva, o rio tornava-se 
mais largo, alagando as terras de tal forma que nos assustou. Grandes rvores pareciam ter sido plantadas no 
meio das guas, e eu temia que uma manobra malfeita nos mandasse direto contra elas com a rapidez da 
correnteza.
     Fiz o que pude para nos desviarmos para uma das margens, mas a corrente e o peso de Lucho pareciam 
puxar em sentido contrrio. Ganhvamos sempre mais velocidade, cada vez com menos controle.
    -                Est ouvindo? - perguntou Lucho quase gritando.
    -                No, o qu?
    -                Deve haver quedas em alguma parte, acho que estou ouvindo um barulho de cachoeiras!
     Ele tinha razo, um novo barulho se sobrepunha ao ronco do rio, ao qual j nos tnhamos acostumado. Se a 
acelerao que eu sentia era por causa da existncia de cachueiras, teramos de procurar a margem o mais 
depressa possvel. Lucho tambm tinha compreendido isso. Pusemo-nos a nadar com toda fora, em sentido 
contrrio.
     Um tronco de rvore, levado tambm pela corrente, se aproximou perigosamente. Seus galhos, 
esbranquiados pelo sol, saam da gua como ferros pontudos. A rvore rolava e girava com fria, cada segundo 
mais perto de ns. Se nossa corda se prendesse em suas ramagens, o rolar do tronco seria suficiente para nos 
arrastar e nos afogar. Precisvamos nos esforar muito para isso no acontecer. O que fizemos com sucesso, 
antes de nos chocarmos contra uma rvore no meio do rio. Lucho foi parar em um lado da rvore e eu do outro, 
segura pela corda, agarrada ao tronco.
    -                No se preocupe, no  nada. Deixe comigo, vou at a.
     Consegui alcanar Lucho por meio da corda. De forma inexplicvel, ela tinha dado voltas e ns em um dos 
galhos imersos da rvore. No dava nem para pensar em nos soltarmos para recuper-la. A corrente era muito 
forte. Precisei mergulhar para desatar cada um dos ns, indo do mais prximo ao mais distante.
     Quando nos libertamos, j havia amanhecido fazia um bom tempo. Por sorte, nenhuma embarcao da 
guerrilha tinha passado. Voltamos ao abrigo para nos esconder de novo. Foi quando me dei conta de que tinha 
deixado meu anzol na praia das formigas.
425
 



63. A escolha

     Foi um duro golpe. No tnhamos muitos anzis. O que me restava era muito parecido com o que eu perdi, 
um outro um pouco maior, e uma meia dzia de anzis rudimentares que Orlando tinha feito na priso de 
Sombra.
     Hesitei em falar com Lucho e s o fiz quando me senti suficientemente calma para anunciar o fato com 
naturalidade. Acrescentei que tnhamos outros de reserva.
     Tnhamos chegado a uma praia estreita, escondida pelo mangrove que dava acesso a um terreno mais 
elevado. Ns logo o escalamos, prevendo que, se casse uma tempestade, a praiazinha desapareceria 
completamente com a subida da gua.
     O terreno em relevo ia dar numa clareira em cujo centro havia um monte de rvores derrubadas, como para 
abrir uma janela na floresta cerrada. Penetrava ali um sol impiedoso. Aqueles raios que caam certeiros como um 
laser eram para ns uma bno. Decidi lavar nossas roupas, esfregando-as com areia para tirar o cheiro de 
mofo, e estend-las ao sol cruel do meio-dia. A felicidade de usar roupas secas e limpas me fez esquecer o 
infortnio da perda do meu anzol. Como para nos disciplinarmos, sacrificamos um dia de pesca e nos 
contentamos com o acar que tinham distribudo no acampamento um pouco antes de nossa partida.
     Fizemos planos a tarde inteira, deitados em nossos plsticos, olhando o cu sem nuvens. Rezamos juntos, 
com meu tero. Pela primeira vez, nos lembramos ao mesmo tempo do risco de um coma diabtico:
426
 



    -                Se isso me acontecer, voc vai ter de ir embora sozinha. Voc vai conseguir sair dessa, e se 
tiver sorte, volta para me buscar.
     Pensei antes de responder. Imaginei o momento em que teria minha liberdade numa mo e a vida de Lucho 
na outra.
    -                Oua: ns fugimos juntos. Sairemos juntos ou no.
     Ditas assim, minhas palavras se transformaram num pacto. Seu eco ficou suspenso no ar, sob a abbada 
celeste, que parecia ter se enfeitado com uma poro de diamantes para acompanhar as constelaes de nossos 
pensamentos. A liberdade, essa joia cobiada, pela qual estvamos dispostos, a arriscar nossas vidas, perderia 
todo o seu brilho se fssemos depois viver cheios de culpas.
     Claro que, sem liberdade, a conscincia de ns mesmos se degradava ao ponto de no sabermos mais quem 
ramos. Mas ali, deitada, admirando a exibio grandiosa das constelaes, eu experimentava uma lucidez que 
vem com a liberdade duramente conquistada.
     A imagem que o cativeiro dava de mim mesma tinha trazido  luz todos os meus fracassos. As 
inseguranas que eu no tinha resolvido durante meus anos de adolescncia e as que tinham surgido de minhas 
incapacidades de adulta tinham ressurgido como hidras, das quais eu no podia mais fugir.
     Eu as tinha combatido no comeo, mais por ociosidade que por disciplina, obrigada a viver num tempo 
sempre recomeado, onde a irritao de me redescobrir em minhas pequenezas imutveis me levava a tentar de 
novo uma transformao impossvel.
     Naquela noite, sob um cu estrelado que me levava para anos distantes de uma felicidade perdida, para um 
tempo em que eu contava as estrelas cadentes, acreditando que elas me anunciavam a pliade de graas que 
preencheriam minha vida, compreendi que uma delas acabava de cair naquele instante e que ela permitira o meu 
reencontro com o melhor de mim mesma.
     Ganhamos o rio sob uma chuva de estrelas. O rio tinha diminudo sua fora, e a vazo mais lenta de suas 
guas nos fez pensar que as cachiveras eram pequenas ou tinham acabado. De cada lado da margem, as 
ribanceiras ruam completamente, deixando a nu as razes das rvores que conseguiam se manter de p, 
agarradas a uma parede escarlate que s estava esperando a prxima enchente para tambm desabar.
     Tnhamos avanado sem dificuldade, deixando-nos levar pela gua escura e morna. Ao longe, um casal de 
chiens d'eau* brincava perto da margem, com suas
     caudas de sereia entrelaadas nos jogos de amor. 
* Lontras gigantes da Amaznia.
427
 



Virei-me para Lucho para mostr-las. Ele se deixava levar pela correnteza, a boca entreaberta e os olhos 
vidrados. Tnhamos de sair dali imediatamente.
     Eu o puxei com a corda para junto de mim, procurando nervosamente em meus bolsos o frasco em que 
tinha colocado o acar para as emergncias. Ele engoliu uma quantidade que lhe coloquei sobre a lngua. Um 
momento depois, comeou a saborear.
     Paramos entre as razes de uma rvore morta. Tnhamos de escalar a parede de argila carmesim para 
alcanar a margem. Lucho se sentou no tronco, os ps dentro d'gua, enquanto eu abria um caminho para ns 
dois. Uma vez l em cima, me dediquei aos preparativos da pesca e deixei Lucho descansando.
     Dali onde estvamos a vista era magnfica. Era possvel ver de longe todo o movimento no rio. Eu tinha 
descido para me instalar sobre o tronco, pescar, quando vi Lucho, sempre l em cima, se sentar atrs de um 
arbusto, olhando a imensido do rio. Ele estava com o rosto abatido dos dias ruins. Ele precisava comer, mas o 
peixe no dava sinal de aparecer. Caminhei sobre o tronco, na esperana de lanar o anzol num lugar mais 
profundo, ali onde os peixes deviam morder a isca. Naquele momento, Lucho me chamou, e ouvi um motor se 
aproximar, subindo o rio. Calculei que teria tempo de me esconder. Quando estava voltando, o fio de nilon 
sofreu um repuxo. O anzol tinha se prendido nos galhos de um tronco dentro da gua. No podamos nos dar ao 
luxo de perder mais um. Pacincia, joguei-me na gua e mergulhei. Escutei o barulho do motor se aproximando. 
Continuei em minha obsesso de recuperar o anzol firmemente preso em alguns galhos entrelaados. Puxei 
desesperada e peguei o fio com menos um quarto de sua extenso. Faltava o anzol. Voltei  superfcie quase 
sufocada para ver passar um homem em p, ao lado do motor, numa embarcao cheia de caixas de cerveja. Ele 
no tinha me visto.
     Lucho no estava mais l. Subi, angustiada, e o encontrei cado, no segundo estgio que precedia suas 
crises de hipoglicemia. Tirei de minha mochila todas as nossas provises de acar e dei a ele suplicando para 
que no perdesse a conscincia.
    -                Lucho, Lucho, est me ouvindo?
    -                Estou, no se preocupe, vai passar.
     Eu o olhei pela primeira vez desde nossa fuga com os olhos da memria. Ele tinha emagrecido muito. Os 
traos de seu rosto estavam bem marcados e o brilho dos olhos tinha sumido. Eu o tomei nos braos:
    -                Sim, vai passar.
428
 



     Minha deciso estava tomada.
    -                Lucho, vamos ficar aqui.  um lugar bom, porque poderemos ver de longe as barcas que 
passam.
     Ele me olhou com uma imensa tristeza. Tinha compreendido. O sol estava no znite. Colocamos nossas 
roupas para secar e rezamos juntos, olhando o rio majestoso que serpenteava a nossos ps.
     Durante todos aqueles dias de fuga, tnhamos lembrado com frequncia a possibilidade de acenar para as 
embarcaes que cruzavam o rio. Tnhamos concludo que era, de longe, a opo mais perigosa. A guerrilha 
dominava a regio e controlava os rios. Era provvel que os que nos recolhessem fossem milicianos a soldo das 
Fare.
     Abandonamos a opo de continuar descendo o rio. Lucho precisava se alimentar. Nossas chances de 
conseguir isso dependiam, mais do que tudo, de nossa capacidade de encontrar alimentos. Eu s tinha um anzol e 
acabvamos de perder nossas reservas.
     Pusemo-nos, ento, a esperar, sentados  beira do talude, os ps balanando. Eu no queria exteriorizar 
minhas angstias, porque sentia que Lucho lutava com as dele.
    -                Acho que tenho de voltar para recuperar o anzol que esquecemos no acampamento das 
formigas.
     Lucho emitiu um suspiro de assentimento e de incredulidade.
     Um rudo de motor nos chamou a ateno. Levantei-me para ver melhor. De nossa esquerda vinha um 
barco cheio de camponeses, subindo o rio. Usavam chapu de palha e bons.
     Lucho me olhou, estava assustado.
    -                Vamos nos esconder, no sei, no estou certa de que sejam camponeses.
    -                So camponeses! - gritou Lucho.
    -                No tenho certeza! - gritei de volta.
    -                Eu acho que so. E, de qualquer maneira, no tenho escolha. Vou morrer
aqui.
     O mundo parou de girar. Num timo, eu me via debaixo de um cu, sem muitas sadas. Eu tinha de fazer 
uma escolha.
     Em alguns segundos o barco parou na nossa frente. Subia o rio, perto da outra margem. No teramos seno 
um instante para nos levantar e nos fazer ver. Depois disso, o barco passaria e desapareceramos de seu campo 
de viso.
     Lucho se agarrou a mim. Eu lhe dei a mo. Levantamo-nos juntos, gritando com toda a fora de nossos 
pulmes, agitando os braos energicamente.
429
 



     O barco parou do outro lado do rio, manobrou rapidamente, virou a proa para o nosso lado e veio em nossa 
direo.
    -                Eles nos viram! - exclamou Lucho, louco de alegria.
    -                Sim, eles nos viram - repeti, descobrindo com horror que os primeiros rostos sob os bons 
brancos eram os de ngel, Tigre e Oswald.
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64. O fim do sonho

      Eles se aproximavam de ns como uma cobra de sua presa, cortando a gua, o olhar congelado, saboreando o terror que nos causavam. Todos eles tinham uma tez 
roxo-escuro que eu nunca percebera e olheiras sob os olhos inflamados que acentuavam seu ar malfico.
    -                Meu Deus - disse eu, imvel, fazendo o sinal da cruz. Fiquei toda tensa. A viso daqueles homens me obrigou a cerrar os dentes. S me restava 
assumir e encar-los. Voltei-me para Lucho: - No se preocupe - murmurei. - Vai dar tudo certo.
      Eu poderia me sentir culpada. Poderia acusar o cu de no nos ter protegido. Mas nada disso encontrava lugar em meu esprito. Toda a minha ateno recaa sobre 
aqueles homens e seu dio. Eu tinha diante de mim a encarnao do Mal. Mame me dizia: "As pessoas deixam transparecer no rosto o que lhes vai na alma". Havia naquela 
embarcao, sob a mscara dos traos que me eram familiares, olhos furiosos de ira e soberba, como se possudos pelo diabo.
    -                O golpe dos bons brancos deu certo - silvou Oswald, com toda a sua maldade, para que eu o escutasse. Ps no ombro seu fuzil Galil, para que 
eu pudesse v-lo.
    -                Vocs demoraram muito a chegar! - eu disse, para disfarar o nervosismo.
    -                Entreguem-se! Peguem suas coisas e subam! - gritou Erminson, um 
431


velho guerrilheiro que tentava galgar a hierarquia. Acrescentou, entredentes: - Andem logo, se no quiserem que eu v puxar vocs pelos cabelos. - E riu. Ele me 
olhou com o canto do olho para observar minha reao. Eu no esperava aquilo dele, que sempre dera prova de uma grande gentileza. Como um corao como o dele podia 
ter se transformado tanto?
      Lucho foi pegar suas coisas. Eu teria preferido que ele as esquecesse. Com nossos timbos e nossas mochilas, eles saberiam que tnhamos descido o rio a nado, 
e no queria lhes dar nenhuma informao.
      Quando pus o p no barco, procurando me equilibrar com dificuldade diante dos olhos de nossos sequestradores, me lembrei da advertncia da vidente de anos 
antes. Sentei-me na proa com uma vontade louca de me jogar na gua e desistir da vida. Lucho, ao meu lado, estava desesperado, a cabea entre as mos. Eu me peguei 
falando:
    -                Maria, me ajude a entender.
      Na volta, no reconheci o rio que tnhamos descido. s minhas costas, os rapazes soltavam piadas, e seus risos me feriam. Tive a sensao de que o caminho 
de volta tinha sido muito curto, mergulhada em meus pensamentos a imaginar o que nos esperava.
    -                Eles vo nos matar - disse Lucho, esgotado.
    -                No teremos essa sorte, infelizmente.
      Comeou a chover. Ns nos curvamos sob um plstico. Ali, ao abrigo de seus olhares, Lucho e eu chegamos a um acordo. No devamos falar nada.
      No atracadouro, Enrique esperava, imvel, seu AK-47 nas mos. Ele nos observou descer com seus olhinhos fixos, os lbios contrados. Deu meia-volta e se afastou. 
Na passarela de madeira, recebi a primeira coronhada entre as omoplatas, e fui cair mais adiante. Recusei-me a acelerar o passo. A priso apareceu no meio das rvores. 
A nova cerca de arame farpado tinha mais de trs metros. Meus companheiros pareciam estar vivendo ali. "Como num zoolgico", pensei, vendo que um deles examinava 
a cabea de um outro  cata de piolhos. Uma porta de galinheiro se abriu diante de mim no instante em que um segundo golpe me jogou no meio da priso.
      Pinchao veio me abraar correndo:
    -                Eu achava que voc j estava em Bogot! Eu contava as horas desde que vocs tinham partido. Eu estava to contente que vocs tivessem conseguido 
no nos fazer mais companhia!
      Depois, num tom de reprovao, acrescentou:
    -                Alguns entre ns esto felizes por vocs terem sido recapturados.
432
 

      Fiz que no tinha escutado. Eu tinha fracassado, e isso doa muito. Cada um de ns era para o outro um espelho muito prximo e muito imediato, algo difcil 
de suportar. No era por ter conscincia disso que eu ia gostar menos deles. A frustrao de ser prisioneiro era ainda mais terrvel quando outros conseguiam realizar 
o feito com que todos sonhavam. Eu sentia uma ternura imensa por aqueles rapazes que acumulavam anos de cativeiro e que ficavam aliviados aos nos ver de volta, como 
se aquilo pudesse diminuir seu sofrimento. Eles queriam nos contar o que tinha acontecido desde a noite de nossa fuga, e suas palavras nos ajudavam a aceitar nossa 
derrota.
      A porta da priso se abriu com uma lufada de vento. Por ela entrou um peloto de homens uniformizados. Eles se lanaram sobre Lucho, colocaram em seu pescoo 
uma grossa corrente com um pesado cadeado que ficou pendendo em seu peito.
     -                Marulanda! - gritou um deles.
      O sargento se levantou, com um olhar desconfiado. Passaram a outra ponta da corrente de Lucho no pescoo dele. Os dois se olharam com resignao.
      Os homens, como se fossem um s, se voltaram todos para mim e se aproximaram devagar, como para me cercar.
      Eu recuava, na esperana de dar tempo para eles pensarem. Alcancei bem depressa a grade e o arame farpado. Os homens caram sobre mim, me torcendo os braos 
enquanto algumas mos puxavam meus cabelos para trs e passavam a corrente em meu pescoo. Eu lutava como uma fera. Em vo, porque sabia, de antemo, que estava 
perdida. Mas eu no estava ali, naquele lugar e naquela hora. Eu estava num outro momento, em outro lugar, com homens que me tinham feito mal e que se pareciam com 
eles, e eu lutava com eles, por tudo e por nada. O tempo deixara de ser linear, parou, com um sistema de vasos comunicantes. O passado voltava para ser revivido 
como uma projeo do que podia acontecer.
      A corrente era pesada e esquentava. Eu me lembrava muito bem de como estava vulnervel. E de novo, como depois de minha fuga solitria anos antes perto dos 
pntanos, tive a revelao de uma fora de natureza diferente. A de sofrer. Numa luta que no podia ser seno moral e que estava ligada  ideia daquilo que eu entendia 
como honra. Uma fora invisvel, enraizada num valor ftil e obstrutor, mas que mudava tudo, visto que ela me preservava. Ns nos encarvamos. Eles estavam inflados 
em sua soberba. Eu estava envolta em minha dignidade. Eles me acorrentaram a William, o enfermeiro militar. Eu me voltei para ele e lhe pedi desculpas.
     -                Sou eu que peo... No gosto de ver voc assim - ele me respondeu.
433


     Bermeo tambm se aproximou. Ele estava incomodado. A cena a que assistira o deixara arrasado:
    -                No resista mais. Eles s querem isso, ter uma chance de humilhar voc.
     Quando recobrei a calma, entendi que ele tinha razo.
     Gira, a enfermeira, empurrou a porta da priso. Ela acabava de fazer uma ronda dos doentes para anunciar 
que no tinha mais remdios.
    -                So as represlias - murmurou Pinchao, quase imperceptivelmente, s minhas costas. - Eles 
vo comear a nos tratar com mais rigor.
     Ela passou perto de mim me observando com olhos de reprovao.
    -                Veja, olhe bem para mim - eu lhe disse. - Nunca esquea da imagem que voc est vendo. 
Como mulher, voc devia ter vergonha de participar disso.
     Ela empalideceu. Eu via que ela tremia de raiva. Mas continuou sua ronda, no disse uma palavra e saiu.
     Era melhor eu ficar calada. A humildade comea por segurar a lngua. Eu tinha muito a aprender. Se Deus 
no queria que eu fosse libertada, eu tinha de aceitar que no estava preparada para a liberdade. Eu sentia uma 
dor cruel quando olhava meu Lucho. Tinham-nos proibido qualquer aproximao e, pior, tinham dado ordens 
para serem rigorosos conosco se nos falssemos. Eu o via sentado, acorrentado ao gordo Marulanda, olhando 
para os ps e me olhando, alternadamente. Eu tinha de fazer esforos sobre-humanos para segurar minhas 
lgrimas.
     O presidente Uribe tinha feito uma proposta que a guerrilha recusara. Tratava-se de libertar cinquenta 
guerrilheiros que estavam nas prises colombianas, em troca da libertao de alguns refns. As Fare, por sua 
vez, tinham condicionado toda negociao  retirada prvia das tropas dos departamentos de Florida e de 
Pradera, nas faldas dos Andes, ali onde a cadeia se abre para deixar passar o rio dei Cauca. O governo tinha dado 
a impresso de aceitar, depois tinha voltado atrs, acusando as Fare de manipular a opinio pblica com 
propostas que, na verdade, no visavam seno as vantagens militares tticas. Os analistas polticos diziam, a uma 
s voz, que a guerrilha procurava encontrar uma passagem para desbloquear tropas encurraladas pelo avano do 
Exrcito colombiano.
     Eu no tinha mais vontade de ouvir os comentrios sobre a proposta do governo que faziam as manchetes 
dos programas de opinio. O pas estava dividido em dois. Todos os que sustentavam a criao de uma zona de 
segurana para dialogar com o governo eram imediatamente suspeitos de colaborar com a guerrilha.
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No se tratava de buscar o fim de nossa tragdia. Para o governo, como para os militares, tratava-se de uma 
questo de estar em evidncia. Nossas vidas no passavam de cortias que boiavam em oceanos desencadeados 
pelo dio.
     Eu estava louca para ouvir novamente as mensagens de minha me. Queria que ela me contasse sobre seu 
cotidiano, o que comia, como se vestia, com quem convivia. No queria ouvir as costumeiras lamentaes e 
ladainhas, j vazias de sentido de tanto serem incessantemente repetidas para nossos familiares.
     Sentei-me desconfortavelmente nas tbuas que restavam. A ordem era levar todas. Eles temiam que, depois 
dos esforos empreendidos em nossa busca, os militares no ficassem sabendo que estvamos ali.
     A guerrilha tinha confiscado uma grande parte de meus pertences. Eu, no entanto, tinha conseguido 
preservar as cartas de mame, a foto de meus filhos e o recorte do jornal que noticiava a morte do papa. Eu 
chorava sem derramar lgrimas.
    -                Pense em outra coisa - disse William, sem olhar para mim.
    -                No consigo.
    -                Por que voc est se coando?
     William tinha se levantado para ver mais de perto.
    -                Voc est coberta de carrapatos. Depois do banho, voc tem de ver isso.
     No houve banho, nem naquela noite, nem nas seguintes. Enrique nos embarcou num bongo trs vezes 
menor que os anteriores. ramos dez prisioneiros amontoados num espao de quatro metros quadrados, ao lado 
do motor, com uma lata de gasolina no meio. Era impossvel sentar sem tocarmos a cabea e as pernas uns dos 
outros. Enrique deu ordem para que nos colocassem as correntes de forma que cada um ficasse, ao mesmo 
tempo, preso ao outro e ao barco. Se o barco afundasse, afundaramos com ele. Enrique jogou sobre ns uma 
lona pesada, que no nos deixava respirar direito e ainda retinha os gases que vinham do escapamento do motor. 
O ar se tornou irrespirvel. Ele nos obrigou a ficar assim dia e noite. Fazamos nossas necessidades no rio, nos 
segurando na lona, diante de todo mundo. Parecamos vermes a nos contorcer uns sobre os outros numa caixa de 
fsforos. Gafas era experiente nisso. Ele no precisava levantar a voz nem puxar o chicote. Era um carrasco de 
luvas.
     Aquele ar rarefeito, viciado, que fazia a garganta arder e nos fazia tossir na cara uns dos outros, aquele 
calor que se acumulava debaixo da lona, aquele sol assassino, aquele suor de nossos corpos que cozinhavam em 
fogo lento, aquelas exalaes que nos levavam  agonia, tudo aquilo, claro, era o preo coletivo a pagar por 
nossa fuga.
     Nenhum dos meus companheiros jamais nos dirigiu uma censura.
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65. Punir

Fim de julho de 2005

     Eu no estava dormindo. Como dormir com aquela corrente no pescoo que se esticava dolorosamente cada 
vez que William se mexia? As pernas de meus companheiros se enroscavam em volta de mim, havia um p nas 
minhas costelas, outro p preso atrs da nuca, amassada pela presso dos corpos que no achavam espao, me 
obrigando a me encolher para evitar qualquer contato inconveniente.
     Ergui cautelosamente uma ponta da lona. J era dia claro. Pus o nariz para fora a fim de encher os pulmes 
de ar fresco. O p do guarda prendeu meus dedos, punindo minha ousadia. Ele em seguida tratou de repor a 
lona. Eu estava morrendo de sede e com uma vontade louca de urinar. Pedi autorizao para me aliviar. Enrique 
berrou l da ponta:
    -                Fala para a cucha urinar numa vasilha.
    -                No tem espao - respondeu o guarda.
    -                Ela que encontre espao! - retorquiu Gafas.
    -                Ela diz que no consegue fazer na frente dos homens.
    -                Fala para ela que ela no tem nada que os homens j no tenham visto! - ele riu, 
escarnecendo.
     Ruborizei no escuro. Senti uma mo buscando pela minha. Era Lucho. Seu gesto fez ruir minha barragem 
interna. Pela primeira vez desde nossa captura, desatei a chorar. O que mais eu ainda teria de aguentar, meu 
Deus, at ter o direito de
436
 

voltar para casa? Enrique mandou tirar a lona por alguns segundos: os rostos dos meus companheiros estavam 
deformados, secos, cadavricos. Olhamos em volta, pescoos esticados e amassados, angustiados, sem saber o 
que pensar, piscando os olhos, cegados pelo sol do meio-dia. Por um breve instante, tnhamos vislumbrado a 
extenso do nosso desamparo. Chegramos  encruzilhada de quatro rios imensos. Uma avalanche de gua 
cortando, em forma de cruz, a mata infinda, e ns, um pontinho a chacoalhar perigosamente nos violentos 
turbilhes daquela coliso de correntes.
     Certa manh, por um capricho de Enrique, o bongo se deteve pesadamente. Os guardas desembarcaram. 
Ns, no. Lucho mudou de lugar para ficar perto de mim:
    -                Vai melhorar, voc vai ver - disse eu.
    -                No se iluda, s vai ficar pior!
     Trs dias depois, finalmente, nos mandaram descer no meio do nada.
    -                Se chover - disse Armando -, vamos ficar encharcados.
     Choveu. Meus companheiros estavam ao abrigo dentro das barracas. Enrique me acorrentou a uma rvore, 
afastada do grupo. Fiquei horas debaixo da tempestade. Os guardas se negaram a me passar os plsticos que 
meus companheiros mandavam para mim.
     Encharcada, trmula, fui novamente acorrentada a William. Ele pediu licena para ir aos chontos. Tiraram-
lhe a corrente. Quando ele voltou, pedi permisso para ir tambm. Pipiolo, um homenzinho barrigudo, mos 
rechonchudas, do grupo de Jeiner e de Pata Grande, fitou-me enquanto, devagar, recolocava o cadeado no 
pescoo de William. Manteve um silncio obstinado. E se afastou.
     William me observou, constrangido. Chamou o guarda:
    -                Guarda! Voc no ouviu? Ela precisa ir ao banheiro!
    -                E da? Voc no tem nada com isso. Est querendo arranjar problema? - retorquiu o guarda, 
mal-humorado.
     Ele queria agradar a Enrique. Isso tambm significava o fim do reinado de Pata Grande. Pegou um 
raminho e o usou para palitar os dentes enquanto me encarava.
    -                Pipiolo, eu preciso ir aos chontos - repeti, em voz monocrdica.
    -                Est querendo cagar? Pois faa aqui mesmo, na minha frente, agachada aos meus ps. Os 
chontos no so para voc! - berrou.
     Oswald e ngel passavam por ali carregando toras de madeira nos ombros. Caram na gargalhada e 
desfecharam-lhe um tapa na omoplata,  guisa de felicitaes. Pipiolo fingiu se segurar no fuzil (um Galil 5.56 
mm), encantado por ter uma plateia.
437
 


     Eu ia ter de esperar a troca da guarda.
     William se ps a conversar comigo. Como se nada houvesse. Queria que eu fingisse ignorar Pipiolo, e eu 
lhe era grata por isso. Pipiolo se aproximou. Parou na minha frente:
     - Cale a boca, entendeu? Agora quem est se divertindo sou eu. Enquanto eu estiver aqui, voc no abre a 
boca.
     Enrique deixou Pipiolo o dia inteiro em seu posto. No houve troca de guarda at a noite.
     A tropa trabalhou a toda pressa numa obra que observvamos atravs das rvores. Em um dia, foi 
construda a priso: grades, arame farpado, oito caletas estreitamente enfileiradas, e duas mais afastadas nas 
extremidades. Colada numa delas, montaram uma latrina fechada por uma divisria de palmas. Do outro lado, 
uma rvore. No centro, um reservatrio de gua. Em volta das caletas, um charco de lama.
     Coube-me a caleta que ficava entre a latrina e a rvore,  qual me acorrentaram. Podia me mover o 
suficiente para ir da minha rede at a latrina, mas me estrangulava ao tentar alcanar o tanque de gua. Lucho 
estava do outro lado do reservatrio, acorrentado tambm. Tiraram nossas botas, obrigando-nos a andar 
descalos.
     Minha proximidade da latrina era uma punio refinada. Eu vivia em meio aos permanentes eflvios dos 
nossos corpos doentes. A nusea no me dava trgua, obrigada que era a ser a importuna testemunha do alvio 
corporal de todos os meus companheiros.
     Fiz do meu mosquiteiro uma bolha. Nela me refugiava do ataque da jejen, da pajarilla, da mosca-marrana 
,* e do contato com os homens. Passava 24 horas por dia aninhada em meu casulo, encolhida em minha rede 
num silncio compulsivo que eu j no procurava romper, um silncio sem fim.
     Liguei finalmente o rdio, passei um pente fino em todas as estaes de ondas curtas. Topei um dia com 
um pastor que transmitia desde a Costa Oeste dos Estados Unidos. Ele pregava a Bblia como quem ensina 
filosofia. Ignorei-o vrias vezes, desdenhosa, achando que fosse mais um desses que consideram Deus uma vaca 
leiteira. Certo dia, me arrisquei a escutar. Ele analisava um trecho da Bblia, que dissecou baseando-se com 
erudio nas verses grega e latina do texto. Cada palavra adquiriu um sentido mais profundo e preciso, e tive a 
impresso de que
ele lapidava um diamante na minha frente.
* Insetos voadores vidos por sangue humano.
438
 

 Tratava-se dos primeiros pargrafos de uma carta de So Paulo aos 
corntios. "Basta-te a minha graa, pois  na fraqueza que minha fora manifesta todo o seu poder [...] pois 
quando sou fraco, ento  que sou forte." A carta devia ser lida como um poema, sem preveno. Achei que era 
universal e que qualquer pessoa buscando um sentido para o sofrimento poderia se apropriar dela.
     Entrei em hibernao. J no havia mais, para mim, dia ou noite, sol ou chuva. Os sons, os cheiros, os 
insetos, a fome e a sede, tudo deixou de existir. Eu lia, escutava, meditava, passava em revista cada episdio de 
minha vida  luz de minhas novas reflexes. Minha relao com Deus se transformou. No precisava mais de 
intermedirios para ter acesso a Ele, nem de rituais. Ao ler Seu livro eu via um olhar, uma voz, um dedo que 
apontava, que incitava. Dei-me o tempo de refletir sobre o que me incomodava e enxerguei, nas misrias 
humanas, o espelho que me devolvia o meu prprio reflexo.
     Este Deus me pareceu simptico. Ele falava. Pesava as palavras. Tinha senso de humor. Qual o Pequeno 
Prncipe ao seduzir sua rosa, ele prestava ateno.
     Certa noite, enquanto escutava a retransmisso noturna de uma de suas conferncias, ouvi me chamarem. 
Estava escuro, era impossvel enxefgar qualquer coisa. Apurei o ouvido, a voz ficou mais prxima.
    -                O que foi? - gritei, assustada, temendo que fosse um alerta para fugir.
    -                Xi! Fique calma. - Reconheci a voz de menino de Mono Liso.
    -                O que voc quer? - perguntei, desconfiada.
     Ele passou a mo atravs da grade e tentava me tocar enquanto dizia obscenidades que soavam ridculas na 
sua voz de moleque de calas curtas.
    -                Guaaaarda! - berrei.
    -                O qu? - respondeu uma voz irritada do outro lado da priso.
    -                Chame o relevante*
    -                Sou eu! O que voc quer?
    -                Estou tendo um problema com Mono Liso!
    -                Amanh a gente resolve - ele interrompeu.
    -                Ele tem que aprender a ter respeito! - gritou algum dentro do recinto. - A gente ouviu tudo. 
Esse cara  um escroto. Um canalha!
    -                Calem a boca! - retrucou o guarda.
     O relevante fez uma varredura com a lanterna. O facho de luz mostrou Mono Liso, que se afastara da grade 
e fingia estar limpando seu AK-47.
* Superior encarregado dos turnos de guarda.
439


     No dia seguinte, depois do caf da manh, Enrique mandou Mono Liso com as chaves do meu cadeado. Ele 
apareceu todo cheio de si.
    -                Vem c! - gritou para mim, com a empfia de uma autoridade recm-adquirida.
     Abriu o cadeado e me apertou ainda mais a corrente na garganta. Eu mal conseguia engolir. Satisfeito com 
seu trabalho, saiu estufando o peito. L fora, passou instrues inteis aos que estavam de planto de guarda. 
Fazia questo que soubssemos que ele acabava de ser promovido a relevante.
     Voltei para minha rede e abri minha Bblia. No levantei mais.
     Passados alguns dias, Enrique resolveu visitar a priso. Reuniu os prisioneiros militares e deu uma de 
amigvel. Fingiu tomar nota dos pedidos de cada um. Por fim, quando lhe pareceu que tudo transcorrera da 
melhor forma possvel, e que no havia ningum protestando, perguntou se tinham alguma solicitao em especial. Pinchao levantou o dedo:
    -                Eu tenho, comandante.
    -                Fale, meu rapaz, estou ouvindo - encorajou-o Gafas, com voz melflua.
    -                Queria lhe pedir - Pinchao fez uma pausa para pigarrear -, queria lhe pedir para tirar as 
correntes dos meus companheiros. J so quase seis meses que eles esto acorrentados e...
     Gafas o interrompeu.
    -                Eles vo ficar acorrentados at serem libertados! - ele retorquiu, com dio excessivo.
     Controlando-se, levantou-se sorrindo e disse:
    -                Imagino que seja s isso, no? Muito bem. Boa noite, muchachos.
     No dia seguinte, por volta das seis horas da manh, passaram uns avies em voo rasante sobre o 
acampamento. Minutos depois, exploses em srie ecoaram a cerca de vinte quilmetros dali.
    -                Bombardeio!
    -                Bombardeio!
     Meus companheiros no sabiam dizer outra coisa.
     A primeira coisa que guardei no meu equipo foi minha Bblia. Angustiada, arrumei meus pertences; s fazia 
questo de guardar comigo o que me falava de meus filhos. Eles acabavam de completar vinte e dezessete anos. 
Eu tinha perdido toda a adolescncia deles. Ser que ainda se lembravam do meu rosto? Minhas mos tremiam. 
Precisava jogar todo o resto fora: potes reciclados, roupas remendadas, minha roupa de baixo masculina. O 
contato permanente com a lama, os 
440


bichos, micoses plantares - meus ps estavam de dar medo. Minhas pernas tinham definhado, eu perdera 
a maior parte de minha massa muscular.
     Quando o guarda veio anunciar nossa partida iminente, eu estava pronta para andar.
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66. A retirada

Novembro de 2005

     Enquanto caminhvamos em fila indiana, em silncio, curvados, eu rezava, meu tero na mo. Ningum 
tinha nos dito nada, mas eu imaginava que devamos estar na mesma rea que nossos antigos companheiros, 
Orlando, Gloria, Jorge, Consuelo e Clara com seu Emmanuel. Eu rezava para que o bombardeio no tivesse 
cruzado com nenhum deles em sua trajetria.
     Atravessvamos uma mata cambiante, em que cada passo constitua um risco. Os que iam na frente 
andavam com o rosto deformado pelos espinhos e ataques de marimbondos.
     - Olha os chineses - diziam os outros, escarnecendo.
     Eu caminhava com um bon, o rosto coberto por um vu de mosquiteiro, e luvas que confeccionara usando 
uniformes de camuflagem velhos. "Sou uma astronauta", pensei, sentindo-me como uma extraterrestre 
aterrissando num planeta hostil.
     Eu estava alheia, perdida em minhas oraes, concentrada no esforo, e no vi a montanha se aproximar. 
Olhei para o alto, a parede de vegetao sumia dentro das nuvens. A subida era muito rdua e eu no conseguia 
manter o ritmo. Meus companheiros iam longe na frente, absortos no desafio, excitados pela prova fsica: quem 
andaria mais rpido, quem carregaria mais coisas, quem menos se queixaria. Ns, os refns, no ramos 
indiferentes  emulao. Cada vez que
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tnhamos que atravessar um curso d'gua, equilibrados num tronco de rvore, repetia para mim mesma: "No vou 
conseguir". Mas, uma vez diante do tronco e com todos esperando por mim, respirava fundo evitando olhar para 
o abismo e repetia a mim mesma que cair estava fora de questo. Se Lucho tinha passado antes, eu me beliscava: 
"Eu tambm posso". Se ele vinha atrs, eu pensava: "Se eu passar, ele tambm passa".
    -                No vou conseguir - disse para mim mesma, baixinho.
     ngel se impacientou.
    -                Depressa - gritou, me empurrando.
    -                Me d seu equipo - disse, atrs de mim, uma voz que se queria resignada.
     Era Efren, um negro alto e musculoso que nunca falava. Acabava de nos alcanar a passos cleres. Devia 
estar fechando a marcha. ramos os ltimos do grupo, ele no queria ficar para trs por minha causa.
     Pegou meu equipo, acomodou-o atrs do pescoo sobre sua prpria mochila.
    -                Vamos l - disse ele, com um sorriso.
     Olhei para o alto uma ltima vez e comecei minha escalada, me agarrando a tudo que aparecia ao alcance 
da mo. Trs horas mais tarde, depois de atravessar cachoeiras, paredes rochosas e uma surpreendente esplanada 
de pedras empilhadas em forma de pirmide, qual runas de um antigo templo inca, cheguei ao topo.
     Sentados, alinhados no declive, meus companheiros comiam arroz. Tambm Lucho estava recostado numa 
rvore, faces emagrecidas de cansao, incapaz de um gesto para levar o alimento  boca. Fui at ele. ngel se 
aborreceu.
    -                Volte aqui! Voc vai sentar onde eu mandar.
     Enrique deu ordem para retomar a marcha. Sequer tivramos tempo de descansar um pouco. Efren vinha 
atrs, exausto, protestando contra a deciso de Enrique. Pegou meu equipo para me devolver. Foi chamado l na 
frente e voltou com o rabo entre as pernas. Enrique no tinha gostado da reclamao: como castigo, ele 
continuou carregando meu equipo. ngel tambm protestava. Estava cheio de andar se arrastando atrs de mim e 
perder a oportunidade de comer. Foi substitudo por Katerina, a moa negra que cuidara de mim quando deixei 
Sombra. Fiz o possvel para no deixar transparecer minha alegria.
    -                No vamos deixar que eles tomem muita dianteira - disse ela, meio autoritria, meio cmplice.
     Atravessamos um planalto elevado e desrtico cujo solo de ardsia esquentava ao sol do meio-dia. O 
horizonte aberto descortinava a extenso da mata. Uma linha verde atravessava o cu azul nos 360 graus do 
nosso campo de viso. 
443
 

esquerda, um rio imenso se estirava preguiosamente fazendo circunvolues de tinta nanquim. "Deve ser o rio 
Negro", pensei.
     No fim do planalto, penetramos num claustro de rvores secas e rugosas, sem folhagem nem sombra, que 
cresciam ali amontoadas, uma sobre a outra, barrando a passagem de qualquer ser vivo. Arrancaram meu chapu 
com seus galhos afilados, me prenderam pelas alas da mochila e transpassaram minha bota com um galho 
cortante, rente ao cho, estendido para uma rasteira.
    -                Minhas meias vo ficar molhadas - resmunguei. Foi uma descida vertiginosa, por uma 
vertente disposta em patamares, que descamos aos saltos, correndo o risco de perder um degrau e rolar at 
embaixo em queda livre. No final da descida, um patamar de gua pluvial, represada por um acmulo de musgo 
e arbustos me forou a pular de raiz em raiz para no molhar minhas botas furadas. No dia seguinte, o terreno 
era plano e seco. Uma larga estrada de terra surgida de lugar nenhum veio ao nosso encontro.
    -                Achamos a sada - disse Katerina.
     Tnhamos caminhado bem, no ficramos para trs.
    -                Vamos parar aqui - props ela. - Estou cansada.
     Larguei minha mochila no cho.
    -                O que voc gosta de comer? - ela perguntou enquanto acendia um cigarro.
    -                Gosto de macarro - respondi. 
     Katerina fez um muxoxo.
    -                O meu macarro costuma ser muito bom. Mas aqui, sem nada, fica difcil. Voc gosta de 
pizza?
    -                Adoro pizza.
    -                Quando eu era pequena, minha me me mandou morar com a minha tia, na Venezuela. Essa 
tia trabalhava para uma senhora rica que gostava muito de mim. Ela me levava para comer pizza com os filhos 
dela.
    -                Eles tinham a sua idade?
    -                No, eram mais velhos. O garoto dizia que quando crescesse ia se casar comigo. Eu bem que 
queria me casar com ele.
    -                Por que no ficou l?
    -                Minha me quis que eu voltasse para junto dela. Estava morando em Calamar, com o novo 
marido. Eu no queria voltar. E, quando voltei, houve problemas. A gente no tinha dinheiro e eu no podia 
mais ir embora.
    -                Voc era feliz em Calamar?
444
 

    -                No, eu queria voltar a morar com a minha tia, naquela casa bonita. Tinha uma piscina. A 
gente comia hambrguer. Aqui, ningum sabe o que  isso.
    -                Voc estudou em Calamar?
    -                No comeo eu ia  escola. Era uma boa aluna. Gostava muito de desenhar e tinha uma letra 
bonita. Depois, a gente precisou de dinheiro, eu tive que trabalhar.
    -                Trabalhar no qu?
     Katerina hesitou um momento antes de responder:
    -                Num bar.
     No fiz nenhum comentrio. A grande maioria das mulheres tinha trabalhado num bar e eu sabia o que isso 
significava.
    -                Foi por isso que eu me alistei aqui, pelo menos, se a gente tem um companheiro, no precisa 
lavar a roupa dele. Homens e mulheres so iguais.
     Eu escutava, pensando que no era bem assim. Em compensao, era verdade que as mulheres trabalhavam 
igual aos homens. Eu gravara a imagem de Katerina, de regata e calas de camuflagem, machado na mo, 
rodando os braos para trs numa formidvel toro do quadril para desfechar um golpe preciso na base de uma 
bela rvore, que ela abateu sem dificuldades. A viso daquela Vnus negra exibindo uma agilidade fsica que 
valorizava cada msculo de seu corpo fizera meus companheiros prender a respirao. Como uma moa como 
ela conseguia ficar num lugar daqueles?
    -                Eu queria ser miss - ela me confessou. - Ou modelo - acrescentou, sonhadora.
     Essas palavras dela me transtornaram. Ela carregava seu AK-47 como outras pessoas carregam um livro e 
um lpis.
     A marcha continuou, cada vez mais difcil.
    -                A gente no chega l antes do Ano-Novo - afirmou o companheiro de Gira. Eu no quis 
acreditar, achei que ele falava assim para que apressssemos o passo. Eu no achava que pudesse andar mais 
rpido. Aquele esforo cego, na ignorncia do nosso destino, me consumia.
     Certo dia em que a marcha havia sido penosa, com cansa perros se sucedendo como prolas enfiadas por 
mo invisvel, desabou uma tempestade. A ordem foi uma s: avanar, e ngel sentiu o maior prazer em proibir 
que eu vestisse um agasalho. Eu avanava pingando gua.
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     Topei com Lucho no meio de uma subida, recostado numa rvore, olhar perdido.
    -                No aguento mais, no aguento mais - ele me disse, olhando para o cu que desabava sobre 
ns.
     Aproximei-me para lhe dar um abrao, segurar sua mo.
    -                Continue andando! - ngel berrou. - Nada de enrolar com essas histrias. A gente conhece 
muito bem o joguinho de vocs dois para atrasar a marcha.
     No lhe dei ouvidos. Estava cansada dos seus insultos, seus surtos e suas ameaas. Parei, joguei minha 
mochila longe e peguei o acar que eu sempre guardava comigo.
    -                Olhe, Lucho, tome isso aqui, vamos seguir juntos, devagarinho.
     ngel engatilhou seu M-16 e me enfiou o cano nas costelas.
    -                Deixe para l - disse-lhe uma voz que eu reconheci. - J chegamos, a tropa est descansando a 
uns cinquenta metros daqui.
     Efren pegou a mochila de Lucho e lhe disse:
    -                Vamos, meu senhor, s mais um esforo.
     Pegou o plstico preto que Lucho guardava na lateral de seu equipo lhe entregou. Lucho se enrolou no 
plstico, pendurado no meu brao, repetindo "No aguento mais, Ingrid, no aguento mais". Ele no tinha como 
ver que eu chorava junto com ele, pois com a tromba-d'gua escorria chuva no meu rosto. "Chega, meu Deus!", 
gritei no silncio do meu corao, revoltada.
     Quando cheguei ao topo, estava prestes a desfalecer. Tinha esquecido de encher a garrafinha plstica que 
me fazia as vezes de cantil. J ngel bebia da sua, a gua lhe escorrendo pelo pescoo.
    -                Estou com sede - eu disse, a boca pastosa.
    -                No tem gua para voc, sua velha idiota - berrou ele.
     Ele me encarou com olhos frios de rptil. Levou o cantil  boca e bebeu demoradamente, olhando para 
mim. Depois, virou-o, caram duas gotas. Atarraxou a tampa. Enrique fazia sua ronda, andando com um olhar 
feroz ao longo de toda a coluna. Passou diante de mim. Permaneci em silncio.
    -                Preparem a gua - gritou, ao chegar ao fim da coluna.
     Um som de panelas animou o silncio da montanha. Dois homens, que carregavam com dificuldade um 
caldeiro cheio de gua, pararam a poucos passos dali. Despejaram l dentro dois pacotes de acar e envelopes 
de um p sabor morango. Mexeram com um galho que acabavam de quebrar.
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    -                Quem quer gua? Aproximem-se! - exclamou um deles, qual vendedor ambulante.
     Todos se jogaram sobre o caldeiro.
    -                Voc, no! - berrou ngel, com um mau humor insuportvel.
     Agachei-me, encolhida, a cabea entre os joelhos.
    -                Minha sede est menor que ainda h pouco. Logo, logo, j no vou sentir sede alguma.
     A gua que sobrou no caldeiro foi jogada no cho. Retomamos a marcha. Efren apareceu correndo.
    -                Lucho mandou isso aqui para voc! - e jogou uma garrafa cheia de gua vermelha, que veio 
cair aos meus ps.
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67. Os ovos

     No dia 17 de dezembro de 2005, a marcha se deteve s dez horas da manh. Acabvamos de transpor dois 
lindos cursos d'gua revestidos de pedrinhas brilhantes. Correu o boato de que iramos montar acampamento no 
alto de um morro que se erguia a poucos metros dali.
     "Chegamos antes do Natal", pensei, aliviada.
     O acampamento foi instalado em poucas horas. Coube-me uma rvore na extremidade do acampamento, e 
outra coube a Lucho, na outra ponta. Em seguida nos acorrentaram. Recebi autorizao de construir barras 
paralelas para fazer ginstica. "Eles querem que eu fique em forma para caminhar melhor", pensei. Abriram o 
cadeado que me prendia  arvore, mas fiquei com a corrente inteira, que eu enrolava no pescoo para subir nas 
barras. Dei umas piruetas, diante do olhar divertido dos meus guardas. "Vou cair, a corrente vai ficar presa na 
barra, vou morrer estrangulada", fiquei pensando.
     Eu tinha uma hora para fazer meus exerccios e ir tomar banho.
     - Voc precisa fortalecer a musculatura dos braos - disse-me um jovem que substitura Gira como 
enfermeiro. S a muito custo eu conseguia fazer algumas flexes de brao, e em vo tentara erguer o peso do 
meu corpo suspenso numa das barras fixas. "Vou tentar todo dia, vou acabar conseguindo", prometi a mim 
mesma.
     Meus companheiros me observavam, desolados. Arteaga foi o primeiro a quebrar o silncio que haviam me 
imposto. Falou sem olhar para mim, sem parar
448


de trabalhar no bon que estava costurando 
enquanto me instrua sobre que tipo de 
exerccios eu deveria fazer, e quantos, diante dos 
guardas. No houve comentrios nem 
reprimendas. Um a um, meus companheiros 
voltaram a falar comigo, cada vez mais 
abertamente, com exceo de Lucho.
     Certa tarde, ao retornar do banho, vi que 
Lucho estava passando mal. Tinha um ar 
miservel e seu olhar dos dias difceis. Precisava 
de acar. Peguei rapidamente algum nas minhas 
coisas, as mos trmulas pelo sentimento de 
urgncia. Dei a Lucho minha reserva de acar e 
fiquei algum tempo com ele para me certificar de 
que estava se sentindo melhor. Atrs de mim, 
ngel puxou brutalmente a corrente que pendia 
em meu pescoo.
     - Quem voc pensa que ? - ele berrou. - 
Ou voc  estpida, deficiente mental, ou est 
achando a gente com cara de bobo! No deu para 
entender que voc est proibida de falar com 
quem quer que seja? Esse seu crebro de mula 
velha no funciona? Vou dar um jeito nele com 
uma bala no meio dos seus olhos, voc vai ver 
s!
     Escutei sem piscar, enquanto fervia por 
dentro. Ele me arrastou feito um cachorro at a 
minha rvore e me acorrentou, curtindo cada 
minuto do espetculo que estava dando.
     Eu sabia que tinha feito bem em me 
controlar e ficar quieta. Mas a raiva que eu sentia 
de ngel me desviava das minhas boas 
intenes. Estava meio aborrecida comigo 
mesma. Durante a noite, reconstitu a cena e 
fiquei imaginando todas as respostas possveis, 
inclusive uma bofetada, e me deliciava 
imaginando a desfeita de um ngel que eu 
recolocava em seu devido lugar. Sabia, porm, 
que tinha feito bem em ficar quieta, apesar de as 
ofensas que ele me infligira queimarem feito 
ferro em brasa.
     ngel fez questo de no deixar que eu o 
perdoasse. Perseguiu-me com seu dio e dividiu-
o'com aqueles que, como Pipiolo ou Tigre, 
tinham prazer em me atormentar. Aquelas 
pequenas infmias todas os deliciavam. Sabiam 
que eu esperava a bebida da manh com 
impacincia, pois, por causa de meu fgado, 
evitava o caf preto ao acordar. S se dignavam 
me servir por ltimo e, quando eu estendia minha 
tigela, mal e mal a enchiam, ou ento jogavam o 
resto fora na minha frente, olhando para mim.
     Eles sabiam que eu adorava a hora do 
banho. Eu era a ltima a faz-lo, mas era quem 
eles mais apressavam para sair. Proibiam que eu 
me agachasse no riacho para me lavar. Eu tinha 
de ficar de p, pois, segundo eles, eu sujava a 
gua. Meus companheiros tinham colocado uma 
cortina de plstico para que eu ficasse mais  
vontade no banho. Todos podiam utiliz-la, 
menos eu.
449
 

     Certa manh, quando estava me lavando, percebi um movimento vindo da direo da mata. Continuei a me 
lavar, observando algo que se mexia atrs de uma rvore. Descobri Mono Liso, de cala arriada, se masturbando.
     No chamei o guarda. No fiz nada. S apanhei minhas roupas e voltei para a minha caleta. Quando o 
guarda veio prender minha corrente em volta da rvore, pedi-lhe que chamasse Enrique. Enrique no veio. Mas 
o Ano, seu novo imediato, atendeu ao meu pedido.
     O Ano era um sujeito curioso. Primeiro, porque tinha dois metros de altura, e tambm porque parecia um 
intelectual perdido no meio do mato. No conseguia definir se ele me era antiptico ou no. Achava-o fraco e 
hipcrita, mas podia ser que fosse disciplinado e prudente.
    -                Quero deixar claro que, se as Fare no so capazes de educar esse moleque, eu mesma vou 
tratar disso.
    -                Da prxima vez que isso acontecer, me avise - respondeu o Ano.
    -                No vai haver prxima vez. Se isso se repetir, dou uma surra nele de ficar com vergonha pelo 
resto da vida.
     No dia seguinte, no soltaram a minha corrente para que eu me exercitasse nas barras fora da caleta. 
Fiquei reduzida a fazer flexes de brao embaixo da minha rede.
     Foi de l que avistei a galinha. Ela acabava de pular em cima da caleta de Lucho e se acomodar sobre o 
mosquiteiro que ele deixava dobrado ao p da cama durante o dia. Devia ser um ninho agradvel. Ela ficou ali 
horas, imvel, sem que ningum percebesse, um olho fechado, ereta, como se fingisse dormir. Era malhada de 
cinza, com uma linda crista vermelho sangue, e muito consciente da forte impresso que era capaz de causar. " 
uma vaidosa", pensei, ao observ-la. Ela se levantou, indignada, arrulhando, cacarejou com vontade sacudindo 
sua bola de penas e foi embora sem mais delongas.
     Todo dia, no mesmo horrio, a galinha de Lucho vinha visit-lo. Deixava para ele um ovo, escondido da 
guerrilha. No crepsculo, observvamos os guardas.
    -                Ela estava no acampamento  tarde.
    -                Deve ter deixado o ovo por aqui, no meio das rvores.
     O ovo j estava na nossa barriga. Chegava at mim por vias tortuosas, para que eu o cozinhasse. Eu 
desenvolvera uma tcnica para esquentar minha tigela queimando o cabo plstico das lminas descartveis que 
apareciam no acampamento. Guardava todos eles. Um s era suficiente para cozinhar um ovo, que Lucho 
distribua alternadamente entre os companheiros.
450
 

     Quando chovia, eu cozinhava em srie: a chuva disfarava a fumaa, os odores e os sons. Comamos todos 
os ovos da nossa reserva.
     Lucho acabava de descobrir mais um entre as dobras do mosquiteiro. Fez amplos acenos para avisar a mim 
e a Pinchao. Ficamos supercontentes, pois era o Dia das Mes e assim teramos como comemorar.
     No podamos imaginar que a data seria marcada de um modo bem diferente. Eles no fizeram rudo 
algum: quando percebemos, j estavam em cima de ns.
451
 



68. Monster

Maio de 2006

     O Ano apareceu em seguida, ofegante:
     - Peguem os equipos do jeito que esto, no levem mais nada, estamos indo embora.
     Os helicpteros davam voltas sobre as nossas cabeas, suas ps varriam o ar com um rudo cataclsmico. 
William, o enfermeiro, partiu imediatamente. Estava sempre pronto. Os outros todos tentvamos enfiar, no 
ltimo minuto, algo precioso em nossa bagagem.
     No quis me apressar. Papai sempre dizia: "Se voc estiver com pressa, vista-se devagar". E a morte? 
No me preocupava com isso. Uma bala, rpida, simples, por que no? Mas no acreditava nisso. Sabia que no 
era esse o meu destino. Um guarda latiu, feroz, s minhas costas. Ergui o rosto. Todos tinham ido embora. Estava dentro do meu submarino, com todas as escotilhas 
fechadas. No meu mundo, eu fazia o que queria.
     O guarda me empurrou, pegou meu equipo ainda aberto e saiu correndo. Acima de mim, um dos 
helicpteros estava parado. Um homem, sentado  porta, os ps balanando, perscrutava o solo. Eu enxergava o 
seu rosto. Ele usava culos grandes de operador, e apontava o cano da arma para onde seu olhar pousava. Eu 
queria que ele me visse. Como podia no me ver? Eu estava ali, bem embaixo dele! Talvez fosse por causa de 
minhas calas de camuflagem.
452
 

     Ele iria me confundir com uma guerrilheira e atirar. Eu lhe faria entender que era uma prisioneira. 
Mostraria minhas correntes. Tarde demais, talvez, e deixariam meu corpo estendido em meio a uma poa de 
sangue, as patrulhas militares o encontrariam mais tarde.
    -                Vieja hijue madre, quiere que la maten?*
* Sua velha filha da puta, quer que eles te matem?
     Era ngel. Estava verde, inclinado atrs de uma rvore carregando meu equipo. O sopro do helicptero o 
obrigava a franzir os olhos, abaixar a cabea de lado, como se estivesse com dor.
     Uma rajada fez a mata estremecer. Sobressaltei-me. Corri direto para a frente, peguei ao passar o 
mosquiteiro de Lucho (o ovo ainda estava ali) e fui parar ao lado da rvore, me abrigando junto de ngel.
     A metralha no parava, bem do nosso lado, mas no sobre ns. No acampamento, vozes histricas 
cortavam o ronco do ao. Vi duas garotas e um garoto atravessando nosso campo de viso, curvados sob seus 
equipos, correrem a descoberto por uma frao de segundo e ento desaparecerem na vegetao. ngel sorriu, 
vitorioso.
     O helicptero parou de dar voltas. ngel no queria se mover. Um pouco adiante, protegidos pelas rvores, 
outros guerrilheiros aguardavam como ns.
    -                Vamos! - disse eu, querendo sair dali.
    -                No, esto atirando em tudo que se mexe. Eu aviso quando for para correr.
     Eu estava com o ovo na mo. Enfiei-o no bolso do casaco e tentei enrolar o
mosquiteiro para guard-lo no equipo.
    -                No  hora para isso - rosnou ngel.
    -                Voc ri as unhas, eu guardo as minhas coisas, cada qual com a sua mania! - retruquei, 
irritada.
     Ele me lanou um olhar surpreso, e ento sorriu. Fazia tempo que eu no o via com aquela expresso. 
Pegou meu equipo e o passou com destreza por cima da cabea para prend-lo contra a nuca sobre o seu prprio 
equipo. Pegou minha mo e olhou dentro dos meus olhos.
    -                No trs, a gente sai correndo, e voc s para quando eu parar, sacou?
    -                Saquei.
     Mais helicpteros se aproximavam. O nosso tomou altitude e engatou uma curva. Vi que a sola das botas 
do soldado foram ficando menores. ngel ps-se a correr, com o diabo na cola e eu junto. Quarenta e cinco 
minutos depois, 
453


estvamos novamente abrindo caminho na selva e alcanamos o restante do grupo. Mostrei o ovo para Lucho.
    -                Que boba, voc - disse ele, encantado. O mais importante era o ovo. A ideia de que o Exrcito 
pudesse nos resgatar parecia-nos um sonho impossvel.
     A mata se enfeitara de rosa e malva. Isso acontecia duas vezes ao ano com a florao das orqudeas. Elas 
viviam enredadas nos troncos das rvores e acordavam todas ao mesmo tempo, num festival de cores que s 
durava uns poucos dias. Eu as colhia ao passar a fim de coloc-las no cabelo, atrs das orelhas, prend-las nas 
tranas, e meus companheiros me ofereciam algumas, comovidos por reviverem alguns gestos de galanteria.
     O bongo nos esperava em determinados lugares e nos deixava em outros. Caminhvamos dias a fio e o 
encontrvamos mais adiante. Enrique sempre nos amontoava na traseira, junto ao reservatrio de combustvel, 
mas estvamos demasiado exaustos com a marcha para reparar.
     Atrs de um matagal, a gua cinza-azulada do rio parecia imvel. Aos poucos, a luz foi virando. As rvores 
se destacaram, como que desenhadas com tinta preta sobre um fundo rosa-avermelhado. Um grito pr-histrico 
rasgou o espao. Ergui os olhos. Dois guacamayas iif ompiam no cu, deixando um rastro de festa e poeira 
dourada. "Vou desenh-los para Mla e Loli", pensei. O cu se apagou. Quando o bongo chegou, s restavam as 
estrelas.
     Era um antigo acampamento das Fare. Nosso alojamento foi erguido  parte, num declive que ia dar num 
crrego estreito e fundo. O crrego fazia uma curva em ngulo reto bem  nossa frente, formando um poo de 
gua azul sobre um fundo de areia fina.
     Enrique teve a grandeza de permitir que cada um se banhasse na hora que lhe conviesse. Minha caleta era a 
primeira de uma fileira que subia o morro. Eu tinha uma vista total sobre o poo. Minha felicidade era completa. 
A gua chegava gelada e cristalina. De manhzinha, ficava coberta de vapor, como as guas termais. Decidi ir 
at l logo aps o caf da manh, j que ningum parecia querer disputar aquele horrio e eu queria me demorar. 
A corrente era forte, e um tronco de rvore preso na curva era o apoio ideal para ficar nadando no lugar.
     No segundo dia, Tigre estava de guarda e seu olhar feroz no me deu trgua durante todos os meus 
exerccios. "Ele vai perturbar a minha vida", pensei. No dia seguinte, Oswald o substituiu naquele horrio.
    -                Saia da - gritou ele.
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    -                Enrique disse que a gente podia ficar o tempo que quisesse no banho.
    -                Saia da.
     Quando o Ano passou, fazendo sua ronda, pedi autorizao para nadar no poo.
    -                Vou perguntar ao comandante - ele respondeu, bem farquiano.
     Nas Fare, nenhuma folha era arrancada de uma rvore sem autorizao do chefe. Essa centralizao do 
poder tornava pesado o curso das coisas. Mas servia para dificultar a vida dos outros quando conveniente. Se um 
guarda queria negar alguma coisa, dizia que ia perguntar ao chefe. A resposta do Ano equivalia a uma negativa. 
Fiquei surpresa, portanto, quando ele voltou no dia seguinte declarando:
    -                Pode ficar na gua e nadar, mas tome cuidado com as raias.
     Tigre e Oswald trocaram o fuzil de ombro. Quando estavam de guarda na hora do meu banho, ficavam 
repetindo  exausto: "Cuidado com as raias!", s para me perturbar.
     Eu pegara o hbito de estender, em volta de minha rede, uns lenis que conseguira com meus 
companheiros a fim de poder trocar de roupa sem que ficassem me olhando.
     Monster chegou certa tarde, apresentando-se aos prisioneiros com ar afvel. Fiquei surpresa com seu nome, 
achei de incio que fosse uma brincadeira,
controlando-me a tempo ao lembrar que eles no^falavam ingls e que "Monster"
no devia soar, para ele, como soava para mim. Ele me fez algumas perguntas, querendo se mostrar atencioso, e 
quando ele se foi, pensei comigo mesma: "Mais um Enrique".
     Naquela mesma noite, Oswald, que estava de guarda, me interpelou, descabelado, apontando para os 
lenis que me davam um pouco de privacidade:
    -                Tire essa merda toda da.
     Era, para mim, um duro golpe. Eu precisava realmente me proteger dos olhares dos outros.
     Oswald, exasperado, arrancou ele mesmo minha instalao. Pedi para falar com Monster, na esperana de 
que ele ainda no tivesse sido contaminado. Foi pior. Ele quis se valorizar perante a tropa.
     Daquele dia em diante, Monster sentiu-se legitimado para me detestar! Sua resposta a qualquer pedido meu 
era invariavelmente negativa. Eu aceitava a lio: "Essas coisas fortalecem o carter".
455
 

     Eu havia suplicado, antes da chegada de Monster, que construssem um biombo de folhagem na frente dos 
chontos. Ficavam justo ao lado das caletas, e eu podia ver todos os meus companheiros se acocorando. De minha 
parte, encolhida atrs de uma rvore grande, escondida por suas razes, cavava um buraco com o salto da bota e 
me aliviava rezando para que os guardas no resolvessem me obrigar a usar o buraco na frente de todo o mundo. 
Certa noite, ao retornar, prendi o p numa raiz sobre a qual eu costumava passar. Ao cair, cravei o joelho num 
pedao de pau. Percebi o que acontecera antes mesmo de sentir. Levantei-me com cautela, a ponta do pau estava 
banhada de sangue e, em meu joelho, um buraco, qual uma boca, se abria e fechava espasmodicamente. "Isso 
no est nada bom", diagnostiquei de imediato.
     Negaram-me, evidentemente, qualquer medicamento. Decidi ento no sair mais da minha coleta at que a 
ferida se fechasse, rezando para que no houvesse nenhum raide at meu joelho cicatrizar. Calculei que isso 
levaria uns dois dias. Levou duas semanas de imobilidade completa.
     Lucho, preocupado, procurou conseguir um pouco de lcool  sua volta. Um de nossos companheiros 
sempre tinha uma reserva, e tambm um tubo de creme anti-inflamatrio, que acabou por vir parar 
milagrosamente nas minhas mos. Ele tambm obteve a permisso de Monster para me levar todo dia um galo 
de gua do riacho a fim de que eu pudesse me lavar, o que nos deu oportunidade de trocar algumas palavras 
durante o dia, privilgio que me parecia suficiente para suprir toda a felicidade a que eu poderia aspirar.
     Contei rapidamente a Lucho a histria que andava me mantendo em suspense. Tito aparecera uma noite, 
antes do incidente do joelho, sacudindo minha rede na inteno de conversar secretamente comigo. Julgando que 
ele queria repetir o assdio de Mono Liso, eu o rejeitara, ofendida. Ele se assustara e voltara para o seu posto de 
guarda, no sem me dizer antes de sair:
    -                Posso tirar voc daqui, mas tem que ser logo!
     Eu no lhe dera ateno. Sabia que a guerrilha costumava aprontar armadilhas e imaginei que fora 
mandado por Enrique para sondar minhas intenes. Mas no tornei a ver Tito depois que, certo dia, ele saiu 
como batedor junto com uma moa e outro sujeito. Quem veio me ver foi o Efren. Trouxe um caderno novinho e 
lpis de cor. Queria que eu desenhasse para ele o sistema solar.
    -                Quero aprender - disse.
     Vasculhei minha memria para conseguir situar Vnus e Netuno, preenchendo o papel com um universo 
que eu criava a meu bel-prazer, cheio de bolas de fogo e cometas gigantes. Ele adorou e pediu mais, voltava 
todo dia para buscar o
456
 

caderno e novos desenhos. Tinha sede de aprender, e eu precisava me ocupar. Inventava subterfgios para 
seduzi-lo com assuntos que eu dominava, e ele mordia a isca, contentssimo de voltar no dia seguinte. Foi assim 
que descobri, no vaivm de uma conversa espontnea, que Tito fugira com dois de seus colegas. Tinham sido 
pegos, e fuzilados. O rosto de Tito, com seu olho torto, passou a assombrar meus pesadelos. Lamentei no ter 
acreditado nele.
     A corrente que eu carregava 24 horas por dia ficou ainda mais pesada. O meu consolo era que Lucho j 
no usava a sua durante o dia.
     Sa do banho e me sequei rapidamente: acabava de chegar a marmita matinal. Comamos pouco, e essa era 
a nica refeio que acalmava minha fome. Apressei-me, esquecendo dos bons modos, pensando em como 
fazer para pegar a arepa maior.  minha frente estava Marulanda. Vibrei: ele pegaria a torta pequena, e a minha, 
grada, vinha depois. Tigre estava servindo, me viu chegar, olhou para as tortas e compreendeu o motivo de 
minha alegria. Pegou a pilha e virou-a. Marulanda ficou com a torta grada, e eu, com a pequena.
     Eu estava envergonhada por ter me prestado quele clculo to mesquinho. Tantos anos lutando contra 
meus mais primitivos instintos, sem nenhum resultado. Jurei nunca mais olhar para o tamanho da comida e 
pegar simplesmente a parte que me cabia.
     No dia seguinte, porm, quando abriram meu cadeado para que eu fosse receber a primeira rao do dia, e 
apesar de minha resoluo de me comportar como uma dama, meu demnio se agitou ao cheiro da torta e, 
horrorizada, me peguei com os olhos grudados na pilha de cancharinas, pronta para defender minha vez com 
unhas e dentes.
     Tomei a deciso de ser a ltima a me aproximar da marmita: era preciso apelar para meios extremos. 
Infelizmente, quando chegava a marmita, um outro "eu" prevalecia e me possua com a fora bestial de um 
malefcio. "Isso no  normal", eu pensava depois, "meu ego est fazendo das suas." De nada adiantava: dia aps 
dia eu era reprovada no teste.
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69. O corao de Lucho

     Foi numa dessas manhs, na fila para a marmita matinal, que vi chegarem nossos trs companheiros 
americanos pela trilha que nos ligava ao acampamento da guerrilha. Contra toda expectativa, me senti feliz ao 
rev-los.
     Mare, Tom e Keith chegaram sorridentes. Esqueci das cancharinas, das marmitas e dos guardas, e corri 
para acolh-los desejando-lhes as boas-vindas. Tom me abraou afetuosamente e comeou a falar em ingls, 
sabendo que eu iria gostar de retomar nossas aulas de ingls.
     Monster vinha atrs deles, com a satisfao do vencedor. Lanou-me de passagem um olhar feroz ao me 
ouvir conversando com Tom.
     No dia seguinte ele anunciou, num tom satisfeito:
     - Os prisioneiros podem conversar entre si. Menos com a Ingrid.
     Mas todo mundo j havia esquecido essa regra quando, um dia, uma pobre raia se perdeu dentro do poo. 
Eu a avistei enquanto tomava banho, era uma raia listrada, igual as que eu tinha visto, algumas vezes, nos 
aqurios chineses.
     Armando deu o alerta e o guarda cortou a cauda da raia com o faco. Ela ento foi exibida, no por sua 
pele maravilhosamente jaspeada, mas porque os guerrilheiros comiam seus rgos genitais, dotados de 
propriedades afrodisacas. Os prisioneiros se aproximaram a fim de examinar o pobre espcime, cuja viso os 
deixou impressionados pela semelhana com os rgos genitais do homem.
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     Naquele dia, Enrique aceitou partilhar com 
os prisioneiros as delcias do cinema em DVD.
     Alguns companheiros vistos com bons 
olhos pela guerrilha haviam sugerido 
que isso poderia ser teraputico para as 
depresses que se sucediam entre os prisioneiros. De fato, costumvamos acordar,  
noite, com seus gritos. Minha caleta 
era vizinha da de Pinchao, e era cada vez mais 
frequente ele gritar enquanto dormia. Eu o acordava do seu sonho chamando-o 
pelo nome com voz de general, e ele 
emergia, envergonhado e encharcado de suor.
    -                O diabo estava atrs de mim - 
ele me confessava, sempre impressionado 
ao extremo.
     Eu no queria reconhecer que estvamos 
todos to perturbados quanto ele. 
Tambm acontecia comigo, com mais e mais 
frequncia. Pinchao, na primeira vez, 
me acordou com conhecimento de causa.
    -                Estavam me estrangulando - eu 
disse, apavorada.
    -                 assim mesmo - ele sussurrou 
para me tranquilizar. - A gente no se 
acostuma, vai ficando cada vez pior.
     At ento, Enrique nunca quisera ceder  
fraqueza de distrair seus "detentos", segundo o eufemismo que ele gostava de 
usar. Talvez tenha mudado de ideia 
para impressionar os americanos. Talvez se 
sentisse responsvel por nossa sade 
mental. No importa. A guerrilha gostava dos 
filmes de Jackie Chan e Jean-Clau- 
de van Damme. Mas os que eles conheciam de 
cor eram os de Vicente Fernandez, 
seu dolo mexicano. Eu os observava enquanto 
assistia aos filmes, intrigada ao 
constatar que eles sempre se identificavam com 
os "mocinhos" da histria, e que 
seus olhos se enchiam de lgrimas quando 
assistiam s cenas de amor gua com 
acar.
     Deixamos certa tarde o acampamento das 
raias, sem pressa e sem vontade, 
e mais uma vez nos embrenhamos na manigua. 
s vezes, acontecia de eu ficar 
na frente durante a marcha, pois Enrique, 
sabendo que eu andava mais devagar, 
me fazia partir mais cedo. Alguns companheiros 
no demoravam a me alcanar, 
prontos a me pisotearem para passar na frente. 
Eu me perguntava por que homens 
adultos se apressavam para ficar na frente numa 
fila de prisioneiros.

Final de outubro-dezembro de 2006
     O novo acampamento tinha a 
particularidade de possuir dois locais para banho: um no prprio rio - o que era raro, pois eles 
procuravam nos afastar das vias 
de circulao - e outro atrs de uma pequena 
torrente de guas turbulentas.
459
 

     Quando descamos at o rio, eu nadava contra a corrente e conseguia subir alguns metros. Alguns 
companheiros seguiam meu exemplo e o banho se tornara uma espcie de competio esportiva. Os guardas 
implicaram somente comigo. Eu ento nadava em crculos, ou no lugar, convencida de que meu corpo se beneficiava do mesmo modo.
     Quando, por motivos que no nos revelavam, vinha a ordem de tomarmos banho l atrs, tnhamos de 
passar junto a uma cancha de vlei que eles tinham ajeitado com areia do rio, e ladear o acampamento deles. 
Ao passar, eu avistava em suas caletas mames, laranjas e limes que me davam gua na boca.
     Pedi a Enrique permisso para festejar o aniversrio dos meus filhos. Pelo segundo ano consecutivo, ele 
negou. Tentei imaginar a transformao do rosto deles. Mlanie acabava de completar 21 anos, e Lorenzo, 
dezoito. Minha me dizia que ele tinha mudado de voz. Eu nunca tinha ouvido sua voz.
     A insipidez da vida, o tdio, o tempo sempre recomeando idntico a si mesmo, tinham o efeito de um 
sedativo. Observava as moas ensaiando uma dana de final de ano na cancha de vlei. Katerina era a mais 
jeitosa. Danava cumbia* como uma deusa. Aquelas atividades simples me enchiam de tristeza. A necessidade 
de fugir continuava nos mobilizando. Armando se animava ao me explicar em detalhes a fuga que estava 
sempre planejando para o dia seguinte. Chegava a afirmar que j fugira uma vez.
     De minha parte, a ideia de uma nova fuga me dava comiches. Minha situao estava sensivelmente 
melhor. J podia conversar com Lucho uma hora por dia durante o almoo, e com os demais sem nenhuma 
restrio, sendo rigorosamente proibido para mim o emprego do ingls. Quando terminava minha hora com 
Lucho, Pinchao vinha se sentar do meu lado. Tornara-se corriqueiro marcarmos encontros entre prisioneiros. 
Havia uma espcie de vaidade em avisar que no queramos ser incomodados. De tanto viver juntos, 24 horas 
por dia, sem praticamente nada para fazer, tnhamos criado o hbito de erguer paredes imaginrias. Pinchao 
veio ter comigo para a nossa conversa diria.
     - Quando eu crescer - eu dizia, brincando -, vou construir no Madalena uma cidade em que os 
desplazados** tero boas casas, as melhores escolas para os seus filhos, e vou fazer de Ciudad Bolivar uma 
Montmartre cheia de turistas, bons restaurantes, e um local de peregrinao  Virgem da Liberdade.
* Dana colombiana, praticada originalmente pelos escravos do Alto Madalena (na cidade de Monpox). Inspira as canes africanas 
que utilizam instrumentos indgenas e espanhis.
** Pessoas deslocadas em funo da guerra entre os paramilitares e a guerrilha.
460
 

    -                Voc quer realmente ser presidente da Colmbia?
    -                Quero - eu respondia, s para implicar com ele.
     Ele um dia me perguntou:
    -                Voc no tem medo?
    -                Por que a pergunta?
    -                Ontem, s para testar, tentei sair da coleta sem pedir autorizao para o guarda. Estava to 
escuro que eu no enxergava nem minha prpria mo.
    -                Ea?
    -                Fiquei com muito medo. Eu sou um covarde. Um zero  esquerda. Nunca conseguiria fugir, 
como voc fez.
     Escutei a mim mesma dizendo, baixinho:
    -                Todas as vezes que sa de um acampamento, pensei que fosse morrer de medo. O medo  
normal. Para alguns, o medo  um freio, e para outros, um estmulo. O importante  no se deixar dominar por 
ele. Quando voc decide fugir,  uma deciso fria, racional. O planejamento  fundamental, pois durante a 
ao, sob o efeito do medo, voc no pode pensar, tem que agir. E voc age por etapas. Tenho que dar trs 
passos para frente, um, dois e trs. Agora vou me abaixar e passar por baixo do galho grande. Depois, vou 
virar  direita. E agora, comeo a correr. Os movimentos que voc faz tm de absorver toda a sua 
concentrao. Voc sente o medo, voc o aceita, mas empurra para o lado.
     Poucos dias antes do Natal, tivemos de partir novamente. Curiosamente, a marcha durou menos de meia 
hora. Um acampamento provisrio foi erguido s pressas, sem caletas, sem redes, todos deitados sobre sacos 
plsticos colocados no cho. Em meio  improvisao, os guardas relaxaram a ateno e pude me sentar junto 
de Lucho.
    -                Acho que Pinchao est querendo fugir - confidenciei.
    -                Ele no vai longe, no sabe nadar.
    -                Em trs, teramos mais chances de conseguir.
     Lucho olhou para mim, com um brilho novo no olhar. Ento, como que se negando a se entusiasmar, disse 
num tom carrancudo:
    -                Temos que pensar!
     Eu no tinha me dado conta, durante a nossa conversa, de que ele estava pouco  vontade, mudando de 
posio, preocupado, como que achando difcil se achar no prprio corpo.
    -                Ai! Estou com cibra - disse, contendo o flego.
     Estava com o brao esticado, pensei que tinha se machucado.
461
 

    -                No  a.  no meio do peito. Di muito,  como uma presso muito forte, bem no meio.
     Ele passara de branco para cinzento. Eu j vira isso antes. Primeiro no meu pai, e, de forma diferente, 
mas tambm muito agudo, em Jorge.
    -                Deite-se e no se mexa. Vou buscar William.
    -                No, espere, no  nada. No faa alarde.
     Soltei meu brao que ele estava segurando e o tranquilizei.
    -                Volto num instante.
     William sempre desconfiava. J tinha acontecido de ele acorrer  cabeceira de um doente e deparar com 
uma bela encenao para tentar conseguir mais comida.
    -                Se eu me torno cmplice, por amizade, no dia em que a gente realmente precisar de 
remdios, eles vo negar - ele me explicara, quando fomos acorrentados juntos.
    -                Voc sabe que eu no viria cham-lo se no fosse srio - disse eu.
     O diagnstico de William foi imediato.
    -                Ele est tendo um infarto, precisamos de aspirina imediatamente.
     A reao de Oswald foi glida.
    -                Precisamos de aspirina,  urgente. O Lucho acaba de ter um infarto.
    -                No tem ningum aqui, o pessoal todo est trabalhando na obra.
    -                E o enfermeiro?
    -                No tem ningum. No que me diz respeito, o velho pode bater as botas.
     Dei um salto atrs, horrorizada. Tom acompanhara a cena. Quando me aproximei, Lucho abriu o punho 
cerrado para me mostrar seu tesouro: Tom lhe passara a reserva de aspirina que ele guardava desde a priso de 
Sombra.
     Mesmo depois que chegou o enfermeiro, no conseguimos aspirina para Lucho. Como que se 
desculpando, o velho Erminson me confessou:
    -                Tivemos que preparar uma terra para plantar coca. Enrique vai vender a coca, pois estamos 
sem dinheiro e o Plano Patriota acabou com nossos fornecedores. Por isso  que est faltando de tudo e que 
estamos todos ocupados.
     De fato, desde que chegramos ali, os homens vinham se queixando do trabalho penoso que lhes 
impunham. Tnhamos sido invadidos pela fumaa azulada e spera das queimadas, e reparamos que os turnos 
da guarda estavam reduzidos a dois por dia. Estavam todos muito ocupados.
     Dois dias antes do Natal, porm, voltamos ao acampamento do rio, bem a tempo de instalar as antenas e 
nos preparar para ouvir o programa dedicado a nossas famlias. A noite de sbado, 23 de dezembro de 2006, 
foi estranha. Envolta
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na minha rede e na minha solido, ouvi a voz frgil de minha me e a voz mgica de meus filhos. Mla falava 
num tom comportado e maternal que me cortava o corao:
    -                Escuto sua voz no meu corao e repito a mim mesma todas as suas palavras. Me, lembro de 
tudo que voc me dizia. Preciso que voc volte.
     Tambm chorei ao ouvir a voz de Lorenzo. Era a voz dele, a voz do meu garotinho. Mas estava mudada, 
acrescida de outra voz. A voz de meu pai, com seus acentos graves e quentes como veludo. Ao escut-lo, eu 
via meu filho e via meu pai. Mais que meu pai, porm, eu via suas mos, suas mos grandes de dedos quadrados, secas e lisas. Era uma felicidade to grande poder 
rever tudo aquilo, e machucava tanto. Tambm ouvi 
Sbastien. Ele gravara sua mensagem em espanhol, o que o deixava ainda mais prximo de mim.
     Eu me sentia abenoada no inferno. No conseguia ouvir mais nada. Emoo demais para o meu corao. 
"Ser que eu disse para o Sbastien o quanto o amo? Meu Deus, ele no sabe! Ele no sabe que o lils  minha 
cor preferida por causa daquela canga horrorosa que ele me deu de presente e que eu me neguei a usar." "Eu 
vou esperar", repeti para mim mesma, decidida. "Vou sair viva daqui para poder ser uma me melhor."
     Apesar da hora, os guardas j estavam bbados. Armando jurou que levaria seu plano adiante naquele 
mesmo dia e eu quis acreditar. A noite estava clara, e os guardas, ainda mais bbados. Era uma noite perfeita, 
mas Armando no fugiu. Pinchao acercou-se na manh do dia seguinte.
    -                Armando no foi, ele nunca vi ser capaz.
    -                E voc, seria capaz? - perguntei.
    -                Eu no sei nadar.
    -                Eu te ensino.
    -                Meu Deus! Este  o meu sonho, porque quero ensinar o meu filho a nadar. No quero que ele 
sinta vergonha como eu.
    -                A gente comea amanh.
     Pinchao me retribuiu. Resolveu ser meu treinador e elaborou para mim um esquema rgido de exerccios 
que ele fazia junto comigo. O mais difcil, para mim, era a trao na barra fixa. No conseguia erguer o peso 
do meu corpo um milmetro sequer. No comeo, Pinchao segurava as minhas pernas. Mas, passadas poucas 
semanas, meu corpo comeou a subir e meus olhos chegaram acima da barra. Eu estava exultante. Consegui 
fazer seis elevaes seguidas na barra.
     Uma manh, enquanto fazamos uma srie de flexes de brao, longe dos ouvidos dos guardas, eu lhe 
perguntei sem rodeios.
463
 

    -                Conte comigo - ele disse de chofre. - Com voc e Lucho, eu vou at o fim do mundo.
     Pusemos imediatamente mos  obra. Precisvamos juntar provises.
    -                Vamos trocar nossos cigarros por chocolate amargo e farinha - sugeri.
     Eu acabava de descobrir este alimento, que tinham nos fornecido durante
a marcha. Era farinha de mandioca, granulosa e seca. Misturada com gua, seu volume triplicava e saciava a 
fome. Vinha do Brasil, o que me levava a crer que devamos estar longe, no sudeste da Amaznia.
     Pinchao se abasteceu facilmente em fio de nilon e anzis: ele seguidamente ajudava os pescadores do 
acampamento, que gostavam dele. Eu cuidei de confeccionar os "minicruzeiros", de conseguir umas bias e 
recolher todos os cigarros do grupo, com a vantagem de que Lucho, depois do infarto, deixara de fumar. Fazia 
a troca com Massimo, um velho negro da costa do Pacfico, homem de bom corao, que gostava de Lucho 
porque a famlia dele votara nele a vida inteira.
     Quando se espalhou o boato de que os soldados se aproximavam, soubemos que logo teramos de 
transferir o acampamento. Ns nos reunimos s pressas para ver como amos repartir nossas reservas de 
alimentos: quatro quilos de chocolate e farinha. Transport-los se afigurava um suplcio.
     Lucho no podia se comprometer a carregar mais peso do que j carregava. A minha capacidade de carga 
era prxima de zero.
    -                Azar, vamos ter que jogar fora o resto todo. A gente refaz novas provises no prximo 
acampamento - declarei, firme.
    -                No, nem pensar. Se for preciso, eu carrego tudo - decidiu Pinchao.
     Enrique deu ordem para iniciarmos mais uma marcha. Durante dias, atravessamos um labirinto de cips 
enredados de tal maneira que a abertura praticada a faco pelo batedor fechava-se sobre si mesma, sendo 
impossvel localizar a passagem. Tnhamos de formar uma corrente humana para manter a abertura, o que 
exigia uma concentrao constante por parte de todos, sem possibilidade de descanso. Depois disso, tivemos de 
descer e tornar a subir cerca de vinte vezes uma parede de uns cinquenta metros de altura que ladeava o rio, 
pois em alguns pontos era o nico jeito de passar.
     Pinchao andava feito formiga, furioso por estar to carregado, e eu rezava para que ele no me derrubasse 
as barras de chocolate na cabea. Ele chegou com os ps em sangue e as alas de seu equipo cravadas nos 
ombros.
    -                No aguento mais - ele bertou, furioso, jogando a mochila longe. Nisso, o guarda anunciou 
que um bongo passaria para nos pegar ao cair da tarde. S ento Pinchao aceitou ficar com nossas preciosas 
provises.
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     Atracamos num lugar sinistro. Charcos de guas amarronzadas conviviam com um rio carregado de 
sedimentos. As rvores se jogavam na gua como que perseguidas por um musgo verde e ftido. O sol mal e 
mal passava atravs da copa tropical.
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70. A fuga de Pinchao

29 de abril de 2007

     Eu havia dito a Lucho:
     - No gosto deste lugar, ele d azar.
     Ficamos todos doentes. Ao entardecer, enfiada na minha rede, me senti arrastada por uma fora 
centrfuga que me aspirava por inteiro e me fazia tremer dos ps ao pescoo, como um foguete prestes a 
decolar. Estava com malria. Todos tnhamos sucumbido. Eu sabia que era horrvel. J vira meus 
companheiros sacudidos por convulses, a pele enrugada sobre os ossos.
     Mas o que o corpo incubava e que eu esperava para depois das convulses era ainda pior. Uma febre 
superaguda repuxava os ligamentos como se fossem cordas, em meio a uma estridncia do corpo s 
comparvel  tortura de uma broca de dentista sobre um nervo exposto. Num estado segundo, depois de, em 
meio ao suplcio, ter de esperar que o guarda desse o alerta, que algum encontrasse as chaves e outro algum 
viesse abrir meu cadeado, tive de me levantar, agonizante, e correr para os chontos, derrubada por uma diarreia 
torrencial.
     Depois disso, me surpreendeu o fato de ainda estar viva. O enfermeiro resolveu duvidar de que eu 
estivesse realmente com paludismo. S se disps a me dar remdios no terceiro dia, depois de trs crises 
idnticas  primeira, e quando senti j estar morta.
     Chegou qual um feiticeiro, trazendo caixas de diferentes remdios. Durante
466
 

dois dias, eu precisava tomar dois comprimidos enormes que tinham cheiro de cloro, depois tomar umas 
pilulazinhas pretas, trs no terceiro dia, duas no quarto, trs de novo e, por fim, apenas uma para completar o 
tratamento.
     Aquilo me pareceu loucura. Mas eu no tinha a menor inteno de desobedecer s suas ordens. S o que 
eu queria era que ele me desse ibuprofeno. Era o nico medicamento capaz de fazer sumir a presso dolorida 
acima dos olhos, que me atravessava os snus, me impedindo de ver ou pensar claramente.
     A convalescena foi demorada. Meu primeiro gesto de ressuscitada foi lavar minha rede, minhas roupas, e 
o lenol com que me cobrira. Eu instalara uma corda no nico lugar em que o sol parecia penetrar. Cheguei do 
banho com minha trouxa encharcada, pesada demais para mim, resolvida a me livrar dela o quanto antes. ngel 
me espreitava de seu posto de guarda. No momento em que depositei a roupa na corda, ele correu para cima de 
mim.
    -                Tire isso da. Voc no tem o direito de estender a roupa aqui.
    -                Tire isso da, j falei! No pode ultrapassar o permetro do acampamento.
    -                Que permetro? No estou vendo nenhum permetro, todo mundo colocou cordas do lado das 
caletas, por que eu no posso?
    -                Porque eu falei.
     Olhei para a corda, me perguntando como me virar com aquela roupa toda no colo. Uma voz rabugenta se 
fez ouvir:
    -                Sempre criando problema! Prenda-a na corrente!
     Era Monster, chegando no momento certo.
     Massimo estava de guarda do outro lado do acampamento e tinha visto tudo. Apareceu depois de terminar 
o seu turno. Trazia escondido na manga um tablete de chocolate que estava me devendo.
    -                No gosto que tratem voc desse jeito, me d pena. Mas eu tambm me sinto um prisioneiro 
aqui.
    -                V embora comigo! - eu disse, pensando em Tito.
    -                No,  muito difcil, eu ia acabar sendo morto.
    -                Aqui tambm voc vai acabar sendo morto. Pense nisso, existe uma boa recompensa. Voc 
nunca vai ver tanto dinheiro junto em toda a sua vida. E eu vou ajud-lo a sair do pas, voc pode ir comigo 
para a Frana. A Frana  um pas muito bonito.
    -                 perigoso, muito perigoso.
     Ele olhava ao redor, nervoso.
    -                Pense nisso, Massimo, e me d uma resposta em breve.
467
 

      noite, j estava em minha rede, acorrentada, quando Massimo se aproximou no escuro:
    -                Sou eu, no fale nada - ele sussurrou. - Vamos embora juntos. Isso  um pacto, aperte a 
minha mo.
    -                So mais dois alm de mim.
    -                Trs  gente demais!
    -                 pegar ou largar.
    -                Eu pego dois; trs, no.
    -                Trs, ns somos trs.
    -                Vamos precisar de um barco e de um GPS, deixe eu ver isso.
    -                Conto com voc, Massimo.
    -                Confie, confie - ele sussurrou ao apertar minha mo.
     Com um guia, estaria ganha a parada. Eu no via a hora de amanhecer para poder contar a novidade.
    -                A gente tem que tomar muito cuidado. Ele pode nos trair. Temos que pedir garantias - avisou 
Lucho. Pinchao permaneceu calado.
    -                Partir em trs,  difcil. Mas em quatro  impossvel - ele disse por fim.
    -                Veremos. Por enquanto, o mais importante  voc aprender a nadar.
     Ele se dedicou. Durante o banho, eu o segurava pela barriga para ele ter a sensao de flutuar, e mostrava 
como segurar a respirao debaixo da gua. Depois, Armando assumiu. Uma manh, ele me chamou, vermelho 
de alegria:
    -                Olhe!
     Naquele dia, Pinchao tinha aprendido a nadar e Monster deu ordem para que tirassem minhas correntes 
durante o dia. Eu recobrara a coragem, fugir era novamente possvel.
     A sorte continuou nos sorrindo. Pinchao aceitara fazer um desenho no caderno de um dos guardas. Ao 
folhe-lo, encontrara, copiadas com letra de criana, indicaes precisas para a construo de uma bssola. Era 
fcil. Bastava imantar uma agulha e coloc-la na superfcie da gua. A agulha tinha que girar para se alinhar no 
eixo norte-sul. O restante podia ser deduzido pela posio do sol.
    -                Temos que tentar.
     Acomodamo-nos na minha barraca, a pretexto de confeccionar uma jaqueta, projeto que eu vinha 
acalentando desde algum tempo a fim de poder fugir vestindo algo mais leve e mais adequado  selva. A 
costura era uma atividade comum. Ningum veria nisso nada de anormal.
     Enchemos um frasco vazio de desodorante com gua, e imantamos nossa
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agulha grudando-a nos alto-falantes da panela de Pinchao. A agulha flutuou na superfcie do lquido, virou e 
apontou para o norte. Pinchao me deu um beijo.
    -                 a nossa chave para sair daqui! - disse ele.
     No dia seguinte, ele voltou, ainda sob o pretexto de dar uma de alfaiate. Eu pretendia descosturar duas 
calas idnticas, sendo uma de Lucho e outra da cota que eu recebera. Queria aproveitar o tecido e a linha para 
fazer minha jaqueta. Para a recuperao da linha, usvamos uma tcnica desenvolvida por Pinchao e que 
demandava uma pacincia infinita. Enquanto nos concentrvamos na tarefa, Pinchao me disse:
    -                Quebrei a minha corrente. No d para notar. Posso ir embora agora mesmo, temos todo o 
necessrio. -
     Eu precisava descobrir um sistema para que Lucho e eu soltssemos nossas correntes durante a noite. A 
ideia era os elos da corrente no ficarem muito apertados no pescoo - sendo preciso usar fio de nilon para 
apert-los um no outro. Ao cortar os fios, a corrente se esticaria e assim poderamos passar a cabea. Teramos 
que contar com alguma sorte para que o guarda que fechava o cadeado  noite no percebesse.
    -                Vou fazer o teste - prometeu Lucho.
     Naquela noite, quando me levantei para urinar, o guarda de vigia no posto contguo  minha caleta me 
insultou:
    -                Vou acabar com essa sua vontade de levantar  noite. Vou lhe enfiar uma bala na boceta!
     Eu j tivera muitas vezes de enfrentar a vulgaridade deles. Experimentara todas as tticas para coloc-los 
em seu devido lugar, mas qualquer reao de minha parte s fazia atiar as impertinncias. Era bobagem, eu 
tinha mais era que desprez-los. Em vez disso, ficava magoada.
    -                Quem estava de guarda aqui do lado ontem  noite? - perguntei para o guerrilheiro que fez a 
ronda pela manh para abrir os cadeados.
    -                Eu.
     Olhei para ele, incrdula. Jairo era um homem jovem, sempre sorridente, sempre educado.
    -                Sabe quem gritou obscenidades para mim ontem  noite?
     Ele encheu os pulmes, empinou o quadril como que me desafiando e, todo prosa, respondeu:
    -                Fui eu, sim!
     No houve a menor reflexo de minha parte. Agarrei-o pelo pescoo e o empurrei, cuspindo-lhe no rosto:
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    -                Seu tarado, voc se acha muito valente de arma na mo? Eu vou te ensinar a se comportar 
feito homem. Estou avisando, se fizer isso de novo, eu te mato.
     Ele tremia. Minha raiva sumiu to depressa como tinha surgido. Eu agora me segurava para no rir. 
Empurrei-o mais uma vez:
    -                Sai daqui, vai.
     Ele fez questo de deixar a corrente no meu pescoo, por vingana. Azar. Eu estava satisfeita. Eu j tinha 
avisado vrias vezes. Eles nunca se atreviam a se dirigir aos homens com aquela sem-vergonhice, arriscados 
que estavam a levar um soco. Mas davam uma de valento comigo, j que a reao de uma mulher sempre pode 
ser ridicularizada. Minha reao tinha sido imprudente. Eu podia ter acabado com um olho roxo. Tinha tido 
sorte, Jairo era um garoto baixinho e com uma cabecinha estreita.
     Assim que ele sumiu de vista, comecei a calcular todas as represlias que se seguiriam. Esperava por elas 
sem emoo. Nada do que eles fizessem poderia me afetar. Com tantos maus-tratos, j tinham conseguido me 
deixar insensvel.
     Estava comendo o lanche da manh recostada numa rvore quando Pinchao se acercou. Ostentava um 
sorriso vitorioso, que queria ser notado. Estendeu-me a mo de longe, cerimonioso, e disse:
    -                Chinita, estoy muy orgulloso de ti. * * Garota, estou muito orgulhoso de voc.
     Ele j estava a par, e eu estava louca para saber o que tinha para me dizer.
    -                Use essas correntes com orgulho, pois elas so sua mais gloriosa medalha. Nenhum de ns 
teria ousado fazer o que voc fez. Voc acaba de nos fazer justia.
     Segurei sua mo, comovida com suas palavras.
     Ele acrescentou num sussurro:
    -                Est chegando um carregamento de botas. Faa um furo nas suas para eles lhe darem umas 
novas. Com as botas velhas, a gente pode fazer botinas para a nossa partida,  s dizer que a gente precisa de 
botinas para malhar. Vou avisar Lucho.
     Com efeito, Monster apareceu para conferir o estado das nossas botas e perguntou o nmero de cada um.
    -                Para voc no tem nada - me disse.
     Quando Massimo entrou no alojamento, pedi licena para ir aos chontos. Ele veio com as chaves para abrir 
o cadeado.
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    -                E a, Massimo?
    -                Vamos embora hoje  noite.
    -                Ok. Consiga umas botas para mim.
    -                Vou trazer. Se perguntarem, diga que so suas botas velhas.
     No podamos deixar que nos vissem tendo conversas prolongadas. Dentro das Fare, todo mundo 
dedurava qualquer coisa. O sistema de vigilncia deles era baseado na delao.
     Massimo estava com medo. Efren relatara que andvamos conversando e que achava estranha a nossa 
atitude. Massimo foi chamado diante de Enrique. Declarou que conversvamos sobre o Pacfico, regio que eu 
conhecia muito bem, e Enrique engoliu a histria. Mas Massimo sentia que era objeto de uma estreita 
vigilncia e se sentia cada vez menos animado para partir.
     Ele apareceu  noite perto da minha caleta, estalando galhos secos com um barulho terrvel. Estava com 
as botas. " uma garantia", pensei enquanto o escutava.
    -                A situao est difcil. Todas as embarcaes esto sendo trancadas com cadeado  noite. O 
GPS que o Enrique nos passa de vez em quando pifou...
    -                Esse cara no  srio - disse Pinchao. - Temos que ir agora, antes que ele d o alerta.
    -                No posso ir agora - retrucou Lucho. - Sinto que meu corao est fraco, acho que no 
aguentaria correr na mata com esses caras atrs de ns. Se o Massimo for junto,  diferente, ele sabe 
sobreviver, a a gente consegue.
     Quando Pinchao veio ter comigo na noite seguinte, 28 de abril de 2007, com o novelo de linha 
impecavelmente enrolado e o tecido das calas pronto para ser cortado, fui tomada de inexplicvel tristeza:
    -                Muito obrigada, Pinchao, voc fez um belo trabalho.
    -                No, eu  que agradeo, voc me deu algo para fazer, me ajudou a passar o tempo.
     Olhou dentro dos meus olhos, como sempre fazia quando ia confessar alguma coisa.
    -                Se eu fosse embora hoje, agora, eu iria pela trilha do banadero,* pegaria o barco que est 
amarrado no laguinho e sairia pelo rio, no ?
    -                Se voc fosse embora hoje, o que voc no faria era justamente pegar o barco que est 
amarrado no laguinho, porque eles puseram um guarda de sentinela l, de propsito. Voc teria de sair da 
caleta e cruzar o caminho dos guardas.
4 Lavadouro.
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    -                Eles vo me ver.
    -                Vo, a no ser que voc cruze na hora da troca da guarda. O relevante vai acompanhar a 
rendio, posto por posto, para indicar o lugar de cada guarda. Mas o primeiro posto, que fica bem na frente da 
sua caleta e que ele prprio vai ocupar, fica vago nos dois minutos que ele leva para fazer a ronda.
    -                E depois?
    -                Depois, voc entra direto na manigua. No entre demais, ou vai dar no acampamento deles. 
Uns dez metros, digamos, para cobrir o barulho dos seus passos. Se estiver chovendo, vire rapidamente  
esquerda para se afastar do nosso alojamento, e  esquerda de novo, contornando o acampamento at chegar ao 
rio, para l dos barcos e do laguinho.
    -                Depois voc usa as bias e se deixa levar pela corrente at onde der, at comear a dar 
cimbra. Lembre-se de nadar, de fazer uns movimentos, isso ajuda.
    -                E se me der cimbra?
    -                Voc vai estar com as bias, relaxe, espere passar. E aproxime-se da margem para sair.        
    -                A eu saio e vou reto em frente.
    -                , e presta ateno onde pe os ps. Tente sair do rio num lugar em que haja folhas no cho, 
ou na mangrove. A sua ideia fixa  no deixar rastro.
    -                Certo.
    -                Tora a sua roupa, acione a bssola e siga rumo ao norte-norte.
    -                A cada 45 minutos voc d uma parada e avalia a situao. E aproveita para chamar l no 
alto, pedindo para Ele te dar uma mozinha.
    -                Eu no acredito em Deus.
    -                No faz mal. Ele no  suscetvel. Pode chamar igual. Se Ele no responder, chame a Virgem 
Maria, ela sempre est disponvel.
     Ele sorria.
    -                Pinchillo,* eu no gosto deste lugar. Ele me causa arrepios. Acho at que  amaldioado.
     Ele no respondeu. J estava tenso para a ao, feito a corda de um arco.
     Durante os mais de trs anos que tnhamos passado juntos, nunca houvera entre ns nenhuma 
demonstrao de afeto. L, isso no existia. 
* Tenho inmeros apelidos para Pinchao.
472


 Provavelmente
porque, sendo a nica mulher em meio a tantos 
homens, barreiras exageradas 
tinham se erguido entre mim e meus 
companheiros.
     Mas ali, diante daquele garoto que eu 
aprendera a conhecer e gostar, compreendendo que estvamos nos despedindo, 
ciente de que para ele no haveria 
segunda chance, porque era membro das foras 
armadas e, se capturado, seria 
fuzilado, me senti muito triste. Estendi os 
braos para lhe dar um abrao, sabendo que meu gesto iria chamar a ateno. 
Percebi o olhar de Marulanda nos 
observando e me contive:
    -                Que Deus acompanhe cada 
um de seus passos.
     Pinchao escapuliu, ainda mais emocionado, 
mais tenso, mais preocupado.
     Sbito, houve uma confuso, alguns 
guardas latiram, a tenso no acampamento estava mais uma vez no pice. "Ele no 
vai partir", pensei, quando, j aninhada no meu casulo noturno, a lanterna de 
Monster me ofuscou.
     A tempestade desabou pouco antes das oito 
horas da noite. "Se ele for, esse  
o momento ideal", pensei. "Mas ele no vai, est 
assustado demais." Ca num sono 
profundo, aliviada por no ter de enfrentar a 
fria dos deuses com um tempo 
daqueles.
     J era tarde quando vieram tirar as 
correntes de meus companheiros. Quando sa de minha barraca, com a escova de dentes 
e a garrafa de gua, estavam todos 
olhando para o relevante que saa blasfemando.
    -                O que foi? - perguntei a 
Mare, cuja barraca ficava em frente  minha.
    -                Pinchao no est a - ele 
sussurrou sem olhar para mim.
    -                Meu Deus, isso  
maravilhoso!
    -                , mas agora a gente  que 
vai ter que aguentar.
    -                Se for pela liberdade de um 
dos nossos, por mim tudo bem.
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71. A morte de Pinchao

29 de abril de 2007

     Os comentrios no tardaram. Todos especulavam sobre a maneira como Pinchao teria fugido e ningum 
apostava muito em seu sucesso. "O tempo est bom, ele deve estar avanando", pensei, mais tranquila.
     Correu o boato de que a guerrilha o encontrara. Um dos guardas deixou vazar a informao para um dos 
nossos em quem eles confiavam. "S acredito vendo", disse a mim mesma. Mas foi dada a ordem de empacotar 
as coisas, estvamos indo embora. Soltaram-me da rvore, enrolei os metros de correntes no pescoo e arrumei 
meu equipamento sem pressa, rezando no silncio de meus pensamentos: "Faa com que ele escape".
     Fizeram-nos esperar a manh toda, em p em frente s estacas. Ento veio a ordem de nos prepararmos 
para o banho, e tivemos de desempacotar tudo de novo. Fizemos uma fila indiana entre os guardas, que nos 
empurravam feito gado na pequena trilha que descia at os charcos.
     Cruzamos com cinco homens de torso nu, que atravessaram o acampamento carregando ps nos ombros. 
Um deles era Massimo. Caminhava com energia, tomando o cuidado de no tirar os olhos do cho para no 
encontrar os meus.
     Uma vez na gua, de sabo na mo, Lucho sussurrou:
    -                Voc viu?
    -                Os homens com as ps?
474
 

    -                , eles vo abrir uma 
cova.
    -                Uma cova?
    -                , para jogar o corpo do 
Pinchao.
    -                No fale besteira!
    -                Ele foi executado, os 
guardas avisaram os nossos. Dizem que  culpa 
nossa.
    -                Como assim, culpa 
nossa?
    -                Dizem que ns o 
incitamos a fugir.
    -                Lucho!
    -                E dizem tambm que, se 
ele morreu,  culpa nossa!
    -                E o que voc respondeu?
    -                Nada... E se por acaso 
ele estiver morto e a culpa for nossa?
    -                Lucho, querido, pode 
parar. O Pinchao foi embora porque quis. Ele  
adulto e tomou a deciso dele, como voc e eu 
fizemos. No  hora para isso, voc 
no tem culpa de nada, e eu estou muito 
orgulhosa do que ele fez!
    -                E se o matarem?
    -                No  possvel que 
tenham encontrado Pinchao.
    -                Mas encontraram. No 
est vendo que a gente vai embora? Caramba!
     A volta do banho foi fnebre. Cruzamos 
com os mesmos guardas, que vinham voltando, encharcados de suor, com as ps 
sujas. "Cavaram uns buracos 
para enterrar o lixo", pensei, cada vez mais 
preocupada.
     Depois de nos vestirmos, tivemos que ir 
para mais perto da margem, num 
campo de esportes que eles tinham ajeitado para 
eles. Os guardas no reagiram 
quando sentei junto de Lucho para conversar. 
As horas passaram numa espera 
dolorosa.
     Houve um movimento de tropas atrs do 
que havia sido nosso acampamento. Eu podia ouvir as vozes que nos chegavam 
deformadas pelo eco da vegetao. 
Percebia um movimento de sombras atrs das 
fileiras de rvores.
    -                Eles trouxeram Pinchao 
- disse Armando. - Vo fazer ele passar maus 
bocados. Depois vamos todos embora, o bongo 
est pronto.
     Virei-me. De fato, no lugar onde tnhamos 
tomado banho poucas horas antes, um bongo grande se erguia, qual um 
monstro de ferragem. Estremeci.
    -                Por que no trazem 
Pinchao at aqui? - quis saber Armando, 
cansado 
de esperar.
     Olhei para os pedaos de cu atrs da 
abbada vegetal acima de ns. O azul 
cedera lugar ao roxo e eu sentia, cada vez mais 
preocupada, o frescor do crepsculo
475


deslizando sobre ns. Lueho s respondia com resmungos quando algum lhe dirigia a palavra.
     De repente, recomeou a agitao atrs do nosso alojamento. Sombras, vozes. Houve um estouro, que 
atravessou o calafetamento das folhagens. Um bando de pssaros pretos alou voo em meio s rvores, subindo 
ao cu feito flecha e passando sobre nossas cabeas.
    -                Pssaros de mau agouro - disse eu, estremecendo.
     Mais um disparo, mais um terceiro, e outro, e mais outro.
    -                Contei sete - sussurrei para Lucho.
    -                Acabam de execut-lo - disse ele, exaurido, os lbios secos e trmulos.
     Peguei na sua mo, apertando com fora.
    -                No, Lucho, no! No  verdade!
     Todos pensaram a mesma coisa. Enrique no apareceu. Nem Monster. Aproximou-se um guerrilheiro que 
tnhamos visto algumas vezes, de quem no sabamos o nome. Eu o chamava de "El Tuerto", porque ele era 
caolho. Com voz forte a fim de nos intimidar, pisando firme, mos nos quadris, ele escarneceu:
    -                Com isso, acaba a vontade que vocs tm de fugir, no ? - ele sentiu o peso de nossos 
olhares fixados nele. - Vim comunicar que aquele filho da puta est morto. Tentou atravessar os charcos a 
nado. Foi devorado por um guio. Quando vimos, j estava na goela do bicho, gritando por socorro igual a uma 
mulherzinha. Dei ordem para que deixassem ele se virar, foi arrastado pelo bicho at o fundo do poo.  o que 
se ganha dando uma de heri. Vocs esto avisados.
     A histria no fazia sentido. "Foram eles que mataram o Pinchao, foram eles!", pensei, horrorizada.
    -                Enquanto eu no vir o corpo dele, no vou acreditar - eu disse, quebrando o silncio.
    -                Voc no ouviu o que disse o comandante? Ele foi devorado por uma cobra. Onde  que a 
gente vai procurar o corpo? - berrou Armando, fora de si.
     Essa interferncia me aborreceu. Queria ver o que o comandante tinha para dizer. "O corpo est na cova 
que eles abriram h pouco, com sete balas na cabea", pensei, apavorada.
    -                Peguem os equipos e venham comigo, em silncio - ordenou o homem, dando um fim  
discusso. - Ingrid, voc embarca por ltimo.
     Eu escutava como se a voz dele viesse de um outro mundo. Sobre o rio, o cu parecia caiado de sangue.
     Observei meus companheiros embarcarem no bongo. Alguns faziam piada.
476
 

No espao reservado  guerrilha, as mulheres se penteavam, faziam lindas tranas umas nas outras. O 
comandante sem nome flertava no meio delas feito um sulto dentro de um harm. "Como eles conseguem 
continuar vivendo assim, despreocupados?"
     Eu no queria olhar para aquele pr do sol espetacular, nem para as moas bonitas, nem para o bongo 
singrando as guas calmas como veludo. A abbada estrelada logo encobriu nosso universo e o meu silncio. 
Eu me escondi atrs de Lucho e as lgrimas escorriam como se estivesse com um vazamento no corao. 
Mantinha as mos sobre o rosto para poder enxug-las antes que algum percebesse que eu estava chorando. 
"Pinchao querido, espero que voc no possa me ouvir, que ainda no esteja no cu."
     Fazia vrios dias que navegvamos naquele bongo. Eu no queria mais pensar. Colada em minha dor e  
dor de Lucho, tentava no ouvir nada.
    -                Bem feito para ele - diziam ao nosso redor.
    -                Ser que aquele dentuo, com aquele sorriso de coelho, achava que era melhor do que ns?
     Meus companheiros falavam alto para dar a entender , guerrilha que no tinham nada a ver com aquilo. 
Eu os odiava por isso!
    -                Ele morreu porque quis, era s no dar ouvido aos maus conselhos! - dizia outro, entalado ao 
lado de Lucho.
     Lucho se atormentava, e eu no ajudava em nada com meu choro.
     O bongo se embrenhou na mata, rompendo a natureza feito um quebra-gelo; com sua roda de proa 
reforada, ia abrindo caminho nas entranhas do inferno por canais ainda virgens. Abrigados sob a lona, o 
mundo desabava  nossa volta em meio ao avano teimoso e lento do monstro de ao. "Ele deve estar 
apodrecendo direto na terra. Jogaram ele l feito um pedao de carne", torturava-me.
     O Dia das mes nos surpreendeu, naquele ano, mofando na barriga do bongo. Grudada no meu rdio, eu 
escutara, s quatro da manh, a mensagem da me de Pinchao e a voz clara e comportada de suas irms. "Quem 
vai contar a elas? Como vo ficar sabendo?" Doa-me muito saber que ele estava morto e ouvir aquela 
mensagem para ele.
     Por fim, demos uma parada na embocadura de um canal, numa prainha de areias finas. Desembarcamos, e 
nos esticamos dolorosamente depois da imobilidade das ltimas semanas, em frente a uma casinha de madeira 
cercada por um
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pomar. Mandaram que fssemos para os fundos, sob um teto de chapas de zinco sustentado por cerca de vinte 
travas em torno de um quadrado de cho batido. Cada qual se apossou rapidamente de uma trave para estender 
sua rede. Chegou um caldeiro de gua com chocolate fervendo. Entramos todos na fila, cada qual perdido nos 
prprios pensamentos. Levantei-me, chacoalhada e dolorida, abrindo os olhos para a nova realidade.
    -                Companheiros! - exclamei, com uma voz que eu queria que fosse mais forte -, Pinchao est 
morto. Eu pediria que fizssemos um minuto de silncio em sua memria.
     Lucho assentiu. O guarda que servia me apunhalou com o olhar. Concentrei-me em meu relgio. Aquele 
dentre ns que trabalhava para a guerrilha se acercou do guarda, roando em mim ao passar, e falou com ele 
em alto e bom som. Outros fizeram o mesmo quando Enrique se aproximou. Cada qual achou um jeito de 
quebrar o silncio, alguns com mais premeditao que outros. Lucho e Mare foram os nicos que se sentaram, 
recusando-se a abrir a boca. O minuto se estendeu uma eternidade. Quando, no meu relgio, constatei que 
terminara, dei por mim pensando: "Meu pobre Pinchillo, ainda bem que voc no est aqui para ver isso".
     Retomamos nossa carreira para lugar nenhum, fugindo de um inimigo invisvel que resfolegava em nossas 
nucas. A marcha recomeou, intercalada com deslocamentos de bongo. Os guardas se deram a obrigao de me 
perseguir com seu rancor.
    -                Foi ela que o ajudou a fugir - resmungavam pelas minhas costas a fim de justificar suas 
baixezas.
      noite, instalados em volta de ns, falavam alto para que pudssemos ouvir:
    -                Ainda posso ver o Pinchao com aqueles buracos na cabea e sangue por todo lado. Tenho 
certeza de que o fantasma dele est nos perseguindo - disse um deles.
    -                L onde ele est, j no pode nos fazer mal nenhum - escarneceu outro.
     Certa noite, acabvamos de erguer acampamento num territrio infestado
de majinas.* Eu estava passando mal com as queimaduras que elas me causavam, entrincheirada em minha rede 
e sem condies de esticar o brao para pegar o rdio e ouvir o noticirio, quando escutei o rugido de Lucho:
    -                Ingrid, escute a Caracol!
     Tive um sobressalto.
* Formigas microscpicas cuja defesa consiste em picar com cido.
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    -                O qu? O que foi? - gaguejei, tentando emergir do meu torpor.
    -                Ele conseguiu! Pinchao est livre, Pinchao est vivo!
    -                Calem a boca, seu bando de idiotas! - berrou um guarda. - Dou um tiro no primeiro que abrir 
a boca.
     Tarde demais. Eu mesma gritava, sem conseguir me conter.
    -                Bravo, Pinchao, meu heri! Hurraaaaa!
     Todos os rdios foram ligados ao mesmo tempo. A voz da jornalista anunciando a notcia brotava de todos 
os cantos.
    -                Aps dezessete dias de marcha, o intendente de polcia Jhon Fran Pinchao reencontrou a 
liberdade e sua famlia. Ouam suas primeiras declaraes.
     Ento escutei a voz de Pinchao, repleta de luz naquela noite sem estrelas:
    -                Queria mandar uma mensagem para a Ingrid. Sei que ela est me ouvindo neste momento. 
Quero que ela saiba que devo a ela o maior de todos os presentes. Graas a ela, redescobri minha f. Minha 
pequena Ingrid, a sua Virgem estava l quando chamei por ela. E colocou um peloto de polcia em meu 
caminho.
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72. Meu amigo Mare

Maio de 2007

     Desnudadas as suas mentiras, os comandantes se fizeram ainda mais agressivos. A raiva pela epopeia de 
Pinchao fez crescer o dio que tinham de ns. quela execrao se somavam todos os pequenos detalhes que 
me tornavam diferente aos seus olhos. Puseram-me o apelido de "gara" por estar magra e branca demais. 
Riam de mim, infligiam-me todas as mnimas humilhaes que lhes passavam pela cabea. Proibiam-me de 
sentar onde era esse o meu impulso, e me obrigavam a faz-lo em lugares sujos ou molhados. Sempre me 
achavam afetada e ridcula por querer andar com o rosto e as unhas limpas.
     Eu sempre tivera de mim a imagem de uma mulher segura, equilibrada. Depois de anos de cativeiro, essa 
imagem se esvanecera e eu j no sabia se era verdadeira. Durante a maior parte de minha vida, eu aprendera a 
viver entre dois mundos. Tinha crescido na Frana, descobrindo a mim mesma por contraste. Tentara 
compreender o meu pas para explic-lo aos meus amigos da escola. Ao voltar para a Colmbia, j adolescente, 
me sentira como uma rvore, com os galhos na Colmbia e as razes na Frana. No demorei a perceber que 
meu destino era viver buscando um equilbrio entre esses dois mundos.
     Quando estava na Frana, sonhava com pandeyucas, ajiaco e arequipe. Sentia saudades da minha famlia, 
das frias com os primos e da msica. Quando 
480
 

retornava  Colmbia, a Frana inteira me fazia 
falta, a ordem, o ritmo das estaes, os 
cheiros, a beleza, o barulho reconfortante dos 
cafs.
     Depois de cair nas mos das Fare, de 
perder minha liberdade, tambm perdi 
minha identidade. Meus carcereiros no me 
viam como colombiana. Eu no conhecia as msicas deles, no comia o que eles 
comiam, no falava como eles. Logo, 
eu era francesa. Essa ideia era suficiente para 
justificar sua acrimnia. Com ela, 
podiam disfarar todos os ressentimentos 
acumulados a vida inteira.
    -                Voc decerto vestia roupas 
de grife - inquiriu ngel, prfido.
     Ou me odiar por causa do meu futuro.
    -                Voc vai morar em outro 
pas, voc no  daqui! - me soltou com azedume Lili, a companheira de Enrique, comentando 
sobre o improvvel dia em que 
eu recobraria a liberdade.
     Tal ressentimento tambm estava presente 
nos meus companheiros de infortnio. Em 2006, tnhamos acompanhado com 
paixo a Copa do Mundo de futebol. Ficvamos todos grudados nos nossos 
rdios, que sintonizvamos na mesma 
estao para escutar a transmisso em estreo. A 
final entre Frana e Itlia dividira 
o acampamento. A guerrilha imediatamente 
tomara o partido da Itlia, j que eu 
representava a Frana. Meus companheiros 
fizeram o mesmo. Os que me queriam 
mal por eu ter o apoio da Frana manifestaram 
agressivamente sua averso a cada 
gol. Os que se sentiam gratos  Frana 
festejaram, gritando e danando, cada gol 
da Frana. Estvamos no acampamento das 
raias, eu estava presa pelo pescoo  
minha rvore e quase me estrangulei quando 
Zidane foi expulso na final. Compreendi ento que, quanto mais me acusavam de 
ser francesa, mais francesa eu 
me tornava.
     A Frana havia me aberto os braos com 
uma generosidade de me. J para 
a Colmbia eu era um incmodo. Teceram-se a 
meu respeito lendas de todo tipo 
para justificar a necessidade de me esquecerem. 
"Foi culpa dela, ela provocou", dizia uma voz no rdio. "Ela se apaixonou por um 
dos chefes das Fare." "Ela teve um 
filho da guerrilha." "Ela no quer voltar, est 
vivendo com eles."
     Espalhavam aquela maledicncia para que 
a Frana parasse de se preocupar 
conosco. Isso me deixava muito triste, pois 
percebia que, com as dvidas que assim se criavam, aqueles que lutavam 
abnegadamente por nossa libertao tambm 
iriam comear a duvidar. Quanto a mim, sentia-
me to francesa quanto colombiana. Mas sem o amor da Colmbia j no 
sabia quem eu era, nem por que havia 
lutado, nem por que estava em cativeiro.
Atracamos s trs horas da manh do meio do 
nada, irrompendo atravs da 
mangrove para chegar  terra. Estvamos em 
plena estao das chuvas. Esperamos
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a ordem para descer e armar nossas barracas antes do temporal que desabava todo dia ao amanhecer.
     Toda a tropa j tinha desembarcado quando Monster veio avisar que amos dormir no bongo. A lona j 
tinha sido levada para cobrir a rancha. Eu os tinha ouvido tomar esta deciso.
    -                E com que vamos nos cobrir? - perguntei, ciente de que no havia como armar as barracas no 
bongo.
    -                No vai chover esta noite - Monster silvou, dando-nos as costas.
     Lucho e eu comeamos a arrumar nossas coisas, imaginando que poderamos
instalar nossas redes lado a lado. Monster, como que lendo nossos pensamentos, deu meia-volta e retornou 
sobre seus passos. Apontou o dedo para ns, dizendo:
    -                Vocs dois a! Sabem que esto proibidos de conversar. Lucho, ponha sua rede na popa. 
Ingrid, venha comigo. A sua, voc vai colocar na proa, entre Tom e Mare.
     E foi embora dando uma risadinha, mais uma vez demonstrando o dio que sentia por mim.
     Depois que me proibiram de falar com meus companheiros americanos, senti que eles faziam de tudo para 
me evitar, para atrarem o mnimo de problemas possvel. Eu me sentia como uma pestilenta.
     Monster percebera a situao. Colocou-me onde eu seria menos bem recebida. As redes eram enfileiradas 
de estibordo a bombordo, por meio dos ganchos que serviam para prender a lona. Mare e eu fomos os ltimos a 
pendurar nossas redes. Sobravam apenas dois ganchos. Tnhamos, portanto, de instalar as duas redes no mesmo 
gancho. A expectativa daquela negociao me preocupava. Sabia que qualquer partilha era difcil entre os 
prisioneiros. Eu provavelmente parecia estar perplexa, no querendo pendurar minha rede e colocar meu 
companheiro diante do fato consumado.
     Mare se adiantou:
    -                A gente pode pendurar as duas redes no mesmo gancho - sugeriu, gentil.
     Fiquei surpresa. A cortesia se tornara um produto raro.
     Pendurei minha rede, esticando ao mximo para que, uma vez deitada, o peso de meu corpo no me 
fizesse encostar no cho do bongo. "Se chover, isso vai virar um lago. Alis,  certo que vai chover", pensei, 
pegando o meu plstico mais grosso para pendur-lo em cima da rede,  guisa de telhado. O plstico era suficientemente amplo para sobrar dos lados, mas pequeno demais 
para me cobrir da cabea aos ps. Eu ia ficar 
ensopada. Deitei ento na rede, o plstico sobre a cabea e os ps descobertos, e soobrei, suspirando, num 
sono melecado e profundo.
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     Uma terrvel tempestade tropical desabou como se os deuses estivessem contra ns. Esperei, apreensiva, 
a gua molhar minhas meias, minhas pernas, e me encharcar por inteiro dentro da rede. Passados alguns 
minutos, porm, no sentia nada. Mexi os dedos dos ps, vai que estivesse com as pernas dormentes, mas 
deparei apenas com o calor do meu corpo debaixo do plstico. "O plstico deve ter escorregado para os ps. A 
gua vai vir pelo pescoo", deduzi, estendendo uma mo cautelosa, tateando para verificar a borda do plstico. 
Mas tudo estava no lugar. "Devo ter encolhido", conclu afinal e, aliviada, voltei a dormir.
     J era dia claro e a tempestade continuava. Arrisquei-me a levantar uma ponta do meu telhado preto para 
avaliar a situao, e vi um Tom ainda adormecido banhando numa autntica piscina. Estava sem plstico e sua 
rede estava cheia de gua. A tempestade cedeu lugar a uma chuva fina, e o bongo se agitou. Todos queriam sair 
do abrigo improvisado para esticar as pernas. Foi ento que descobri o que se passara: Mare tivera a ideia de 
dividir seu plstico comigo, cobrindo os meus ps.
     Fiquei ali, com a minha rede recolhida s pressas, coberta pelo plstico, em p, esperando o fim da 
chuva. Tinha a garganta apertada. Entre refns, isso no era comum. Fazia muito tempo que ningum tinha um 
gesto assim comigo.
     "Foi sem querer. Ele no se deu conta de que estava tapando os meus ps", pensei, descrente. Quando 
Mare finalmente saiu de sua rede, aproximei-me.
     - Sim, de outro modo voc teria se encharcado - ele respondeu, quase se desculpando.
     Tinha um sorriso doce que eu no conhecia. Senti-me bem.
     Quando chegou a refeio matinal e tivemos de fazer fila para ganhar a bebida, me esgueirei entre os 
prisioneiros para dar duas palavrinhas com Lucho e tranquiliz-lo. Ele tambm tinha conseguido dormir direito 
e recobrara sua fisionomia serena. O reaparecimento de Pinchao fora um alvio imenso para ele. Nossos 
companheiros vinham falar com ele, tentando faz-lo esquecer as observaes desagradveis com que tanto o 
tinham magoado. Lucho no guardava nenhum rancor.
     Voltei para o meu canto, na proa, e tratei de arrumar minha mochila. Era um procedimento penoso, mas 
indispensvel, j que a chuva tinha molhado todo o seu contedo. Tirei meus rolos de roupa, um por um, 
sequei os plsticos e enrolei tudo de novo, prendendo as pontas com elsticos para manter a embalagem estanque. Era o mtodo Fare para enfrentar os inconvenientes 
de uma vida em meio a um nvel de umidade de 
oitenta por cento. Mare resolveu fazer o mesmo.
     Uma vez concluda a tarefa, limpei zelosamente a tbua em que se 
483
 

encontravam meus pertences e guardei minha escova de dentes e tigela para a refeio seguinte. Por fim, peguei um 
pano para limpar minhas botas at ficarem brilhando.
     Mare me observava sorrindo. Ento, como querendo partilhar um segredo, sussurrou:
    -                Voc se comporta como uma mulher.
     A observao me surpreendeu. Mas, curiosamente, me envaideceu. Comportar-se como uma mulher no 
era um elogio nas Fare. Na verdade, embora fizesse cinco anos que eu me vestia como um homem, tudo em 
mim se conjugava no feminino, era a minha essncia, minha natureza, minha identidade. Virei de costas para 
ele, peguei a escova de dentes e a tigela e me afastei para disfarar minha perturbao, a pretexto de escovar os 
dentes. Quando voltei, ele se acercou, preocupado:
    -                Se eu disse alguma coisa que...
    -                No, pelo contrrio. Fiquei feliz.
     Os guardas me acompanhavam com os olhos e me deixavam conversar, como se tivessem ordens para no 
intervir.
     Fazia mais de dois anos que eu estava proibida de me dirigir aos meus companheiros. O que eu fazia s 
escondidas de vez em quando, por fora da solido. Com Pinchao, tnhamos conseguido burlar a vigilncia dos 
guerrilheiros, pois muitas vezes nossas coletas eram vizinhas e podamos fingir estar cuidando de nossas coisas 
enquanto falvamos baixinho. A partida de Pinchao redobrara meu isolamento, com a reao do grupo diante 
de sua fuga e a impossibilidade de falar com Lucho.
     Quando eu e Mare comeamos a conversar de verdade, levados pelo cio e pelo tdio, numa espera sem 
objetivo na proa daquele bongo, percebi quo cruel era a penalidade que me impusera a guerrilha e quanto o 
meu silncio compulsrio vinha me pesando.
     Curiosamente, retomamos discusses inconcludas que tivramos na priso de Sombra, como se o tempo 
transcorrido desde ento no tivesse existido.
     "O tempo no cativeiro  circular", pensei.
     Contudo, era muito claro, tanto para Mare como para mim, que o tempo tinha mesmo passado. 
Retomvamos os mesmos argumentos que nos opunham, anos antes, em temas to polmicos como o aborto ou 
a legalizao das drogas, e conseguamos encontrar pontes e pontos de aproximao onde antes s havia ir-
ritao e intolerncia. Depois de horas de discusso, nos surpreendia o fato de no nos separarmos cheios de 
despeito e amargura como no passado.
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     Compreendendo que o bongo no sairia dali to cedo, combinamos realizar alguma atividade juntos. Mare 
chamava isso de "projeto". A ideia era obter autorizao para cobrir o bongo em vista das tempestades 
noturnas. Ouvi-o fazer a solicitao num espanhol que melhorava a cada dia, e assisti, surpresa,  aceitao de 
sua ideia.
     Enrique mandou Oswald supervisionar "o projeto". Ele cortou barras e forquilhas que foram colocadas a 
intervalos regulares para que o imenso plstico da rancha e do economato, que no momento no estava sendo 
usado, pudesse cobrir o bongo por inteiro. Minha contribuio foi mnima, mas festejamos a realizao do 
projeto como se tivesse sido uma obra conjunta.
     Quando o bongo voltou a singrar o rio e chegamos ao nosso destino, senti uma profunda tristeza. O novo 
acampamento foi montado num terreno propositadamente estreitssimo. Eram duas fileiras de barracas frente a 
frente, espremidas uma junto da outra, separadas por uma trilha. Essa trilha dava, de um lado, numa pequena 
angra  margem do rio, onde seria construdo o lavadouro, e, do outro, no local onde iam ser construdos os 
chontos.
     Enrique dividiu pessoalmente o espao, atribuindo-me dois metros quadrados para montar minha barraca, 
justo num lugar onde ficava a sada do formigueiro de uma enorme colnia de congas * As congas eram bem 
visveis, andando em fila indiana sobre suas patas escuras, compridas como pernas de pau. As menores deviam 
ter uns trs centmetros de comprimento, e no foi difcil imaginar a dor que seu ferro venenoso seria capaz de 
me infligir. Eu j tinha sido picada, e meu brao ficara quatro vezes maior, dolorido, por 48 horas. Supliquei 
para que me deixassem montar minha barraca em outro lugar, mas Gafas se manteve inflexvel.
     As estacas da minha rede foram fincadas de um lado e de outro do formigueiro, e minha rede, suspensa 
exatamente acima dele. Procurei Massimo para que me ajudasse, mas ele estava mudado desde a fuga de 
Pinchao. Sentira muito medo e era atualmente incapaz de cogitar qualquer tentativa de fuga. Para evitar 
problemas, andava fugindo de mim. Mesmo assim, ao assistir ao incessante bal das congas sobre a minha rede, 
aceitou interceder para que me mandassem um caldeiro de gua fervente a fim de mat-las. Tambm talhou 
um pauzinho, durante seu turno de gurda, para que eu pudesse espetar uma por uma:
     - Cuidado, se atacarem em bando, podem ser mortais.
     Matei sem trgua todas as congas que se aproximavam, num combate que parecia perdido de antemo.
* Formigas gigantescas e venenosas.
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 Olhava para os meus companheiros cheia de inveja. Acabaram de se instalar, e 
cada qual relaxava, retomando sua vida; Arteaga e William costuravam, Armando tecia, Marulanda se 
entediava na sua rede, Lucho escutava o rdio e Mare se ocupava com seu ltimo projeto, o conserto de sua 
mochila.
     "Gostaria de falar com ele", pensei, cercada por um cemitrio de congas, cujo cheiro ftido se grudava em 
minhas narinas. Qual Gulliver s voltas com os habitantes de Lilliput, no podia me permitir um minuto sequer 
de descuido, enquanto esperava pelo caldeiro de gua fervente que Enrique prometera para matar as congas.
     Mare passou em frente da minha caleta para ir aos chontos e olhou para mim, espantado.
    -                Estou com milhes de congas na minha caleta - expliquei.
     Ele riu, achando que era exagero. Na volta, ao ver que eu continuava absorta em meu combate s congas, 
ele se deteve:
    -                O que voc est fazendo?
     Sa da barraca, e ento vi seus olhos se arregalarem de pavor.        
    -                Por favor, no se mexa - disse ele, articulando bem cada palavra e fitando alguma coisa no 
meu ombro.
     Aproximou-se devagar, dedo apontado. Apavorada, acompanhei seu olhar e virei a cabea o suficiente 
para ver uma conga enorme, de couraa reluzente, patas peludas e tenazes erguidas, a poucos milmetros do 
meu rosto. Tive mpetos de sair correndo, mas me contive a tempo, percebendo que o mais sensato ainda seria 
esperar que Mare conseguisse armar seu piparote para me livrar do monstro. O que ele fez sem se afobar, 
apesar de meu trepidar nervoso e meus gemidos. O contato com o animal produziu um som cavo, o bicho foi 
lanado como um projtil e se espatifou na casca de uma rvore gigantesca com um rudo de noz.
     Acompanhei a operao com o rabo do olho, me arriscando a um torcicolo, e pulei de alegria. Mare, 
curvado, chorava de rir.
    -                Voc tinha que ver a sua cara! Queria ter tirado uma foto! Parecia uma menininha.
     Depois me deu um beijo e disse, orgulhoso:
    -                Ainda bem que eu estava aqui.
     Quando Enrique finalmente mandou o caldeiro de gua fervente, j tnhamos matado tantas formigas que 
a gua arrastou mais cadveres do que sobreviventes. Para Mare e mim, nossa amizade foi selada com aquela 
vitria sobre as congas.
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73. O ultimato

     Sa de minha rede, certa noite de breu, para aliviar o corpo, feliz de poder ir l fora sem medo de ser 
picada por uma daquelas criaturas infernais, quando o som de um sopro passou, me deixando arrepiada. Fiquei 
paralisada em meio  escurido, sentindo que alguma coisa tinha atravessado a minha barraca, vindo parar 
pesadamente a dois milmetros do meu nariz. O guarda se negou a me aclarar com a lanterna, de modo que 
achei melhor voltar para o abrigo do mosquiteiro do que me aventurar perto daquela coisa dando sacudidas no 
meu alojamento.
     Ao amanhecer, quando me levantei, percebi que a barraca estava em pedaos. Cara, da palmeira vizinha, 
uma semente do tamanho de uma cabea humana, envolta numa folha grossa cuja extremidade se estendia 
numa ponta afiada. Desprendera-se do tronco numa queda livre de vinte metros e viera se enterrar 
profundamente no solo, bem do meu lado. Em sua trajetria, abrira o meu teto de par em par. "Se eu desse mais 
um passo...", pensei, sem que esse pensamento me consolasse por ver minha barraca destruda. "Vou levar 
horas para consert-la", resignei-me.
     Tive de pedir agulha emprestada para um, linha para outro e, quando finalmente estava com tudo pronto, 
comeou a chover. Mare se aproximou. Queria ajudar. Aceitei, surpresa. Entre prisioneiros, qualquer pedido de 
ajuda era acolhido com mau humor e desprezo. Todos queriam mostrar que no precisavam de ningum. Eu, em 
compensao, estava sempre precisando de ajuda, e Lucho
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- que sempre me ajudava - no tinha o direito de chegar perto de mim. Se eu no pedia ajuda, era para evitar 
conflitos. J estava devendo linha e agulha. Era o quanto bastava.
     O auxlio de Mare se revelou muito oportuno. Seus conselhos aceleraram a concluso do trabalho. 
Passamos quase duas horas juntos, absortos na tarefa, rindo de tudo e de nada. Lamentei quando ele se foi, 
observando-o se afastar. Lucho sempre me lembrava que no devamos nos apegar a nada. No dia seguinte, 
Mare voltou. Queria que eu lhe desse uma lona impermevel e o ajudasse a colar uns pedaos nos buracos que 
as arrieras tinham feito em sua barraca.
     Asrilla, um negro alto e musculoso, acabava de assumir o comando do acampamento. Dividia com 
Monster a responsabilidade do nosso alojamento, revezando-se com ele. Teve a excelente ideia de tirar 
minhas correntes durante o dia e trouxe um pote grande de cola para que Mare pudesse consertar sua barraca. 
Ele voltou  tarde e deparou conosco com os dedos cheios de cola, feito crianas. Reparei na forma com que 
olhava para ns. "Estou feliz demais e d para perceber", pensei, preocupada.
     Mare continuava rindo, enquanto passava cola nos quadradinhos de lona que recortramos com cuidado. 
"Isso  ridculo", pensei, para espantar minha apreenso, "estou ficando paranica."
     No dia seguinte, vi Mare acomodado no cho com todas as peas de seu rdio dispostas  sua frente. 
Hesitei, mas, concluindo que no havia mal nenhum, resolvi me aproximar e oferecer ajuda. A conexo da 
antena com os circuitos eletrnicos do rdio estava danificada. Eu tinha acompanhado os consertos efetuados 
por meus companheiros em casos similares. Ofereci-me como voluntria para arrumar o rdio.
     Consegui rapidamente restabelecer a conexo, sob o olhar de admirao de Mare. Fiquei corada de 
satisfao. Era a primeira vez que eu conseguia consertar alguma coisa sozinha. No dia seguinte, Mare veio me 
buscar para que eu o ajudasse a cortar seus plsticos. Queria poder enrol-los dentro das botas na prxima 
marcha.
     Estvamos sentados em silncio para conseguir a proeza de recortar o plstico em ngulo reto. Fazia 
calor e o menor movimento nos fazia transpirar. Mare moveu a mo na direo da minha orelha e apanhou 
alguma coisa no espao. Ele ficou to surpreso com seu gesto quanto eu. Desculpou-se, embaraado, explican-
do, com certa timidez, que tentara espantar um mosquito que vinha me rodeando havia um bocado de tempo. 
Seu embarao me pareceu encantador e essa ideia tambm me perturbou. Levantei-me rapidamente e voltei 
para a minha barraca. Teria de achar uma desculpa para voltar e passar um tempo com ele. 
488
 

Aquela amizade que crescia entre ns me surpreendeu. 
Fazia anos que nossas vidas se cruzavam sem que nos ocorresse reservar um tempo 
para conversar. Tinha a impresso 
de que havamos feito de tudo para evitar um ao 
outro. Ora, eu agora era obrigada 
a reconhecer que me levantava todo dia 
sorrindo, aguardando o momento de falar 
com ele com uma impacincia de criana. 
"Talvez eu esteja ficando invasiva", pensei. Ento me contive, e durante alguns dias tive 
o cuidado de no me aproximar.
     Ele apareceu na semana seguinte, 
oferecendo-se para instalar a antena do 
meu rdio. Eu tinha tentado fazer isso sozinha, 
j que Oswald e Angel, que eram 
tidos como os bambambs de lanamento de 
antenas, se recusaram a me ajudar.
     Eu conseguia lanar a antena a, no 
mximo, cinco metros de altura, provocando as risadas de todo o mundo. Mare fez 
girar a pilha num estilingue. A pilha 
subiu aos pncaros e minha antena se tornou a 
mais alta de todas.
    -                Foi um golpe de sorte - ele 
confessou.
     Meu rdio rejuvenesceu. Eu escutava 
minha me perfeitamente bem. Tinha a 
impresso de estar do seu lado enquanto ela 
falava. Mais uma vez, ela mencionou 
uma viagem para angariar apoio.
    -                No gosto de sair da 
Colmbia. Tenho medo de voc ser libertada e 
eu no 
estar aqui para te receber.
     S por isso eu j gostava dela.
     Pela manh, aproveitando a fila para a 
refeio matutina, Lucho e eu ramos 
sobre isso.
    -                Voc ouviu sua me? Como 
sempre, no quer viajar.
    -                E, como sempre, ela vai 
viajar - respondi, feliz da vida.
     Era uma de nossas piadas preferidas. 
Depois, eu recebia as mensagens de minha me l do outro lado do mundo, pois onde 
quer que estivesse ela dava um jeito 
de comparecer ao nosso encontro por rdio. Eu 
achava que o fato de estar com 
outras pessoas iria ajud-la a suportar a espera, 
da mesma forma como ouvir sua 
voz revitalizada pela ao me ajudava na minha 
espera. Eu realmente apreciava a 
ajuda de Mare.
     Certa manh, Mare veio pedir minha 
Bblia emprestada. Quando lhe entreguei, ele perguntou:
    -                Por que voc no foi mais 
falar comigo?
     A pergunta me pegou de surpresa. 
Respondi, tentando organizar meus pensamentos:
    -                Primeiro, porque no queria 
impor demais minha presena. Depois, porque tenho medo de comear a gostar e a 
guerrilha enxergar nisso mais uma forma 
de me pressionar.
     Ele sorriu com muita doura.
489
 

    -                Voc no tem que pensar essas coisas. Se tiver um tempinho, gostaria de conversar um pouco 
hoje  tarde.
     Ele se foi e eu fiquei pensando, divertida: "Tenho um encontro!". O tdio era um veneno que as Fare nos 
inoculavam para derrubar nossa vontade, e que eu temia acima de tudo. Sorri. Eu tinha passado de uma vida 
repleta de demasiadas datas, horrios, urgncias, para outra sem nada para fazer. No entanto, naquela selva 
distante do mundo, me agradava a ideia de um encontro.
    -                Um encontro com voc hoje  tarde? Que boa ideia!
     Eu tuteava* Mare naturalmente.
    -                Eu no sei tutear - me disse ele em seu espanhol capenga.
     Ele parecia fascinado por aquela formulao inexistente em sua lngua materna. Captava muito bem suas 
consequentes nuanas e familiaridade.
    -                Quiero tutearte- disse ele.
    -                Ya lo ests haciendo - respondi, rindo.
     Abrimos a Bblia. Ele pediu que eu lesse para ele uma de minhas passagens preferidas. Por fim, optei por 
um trecho em que Jesus perguntava a Pedro, de forma insistente, se este o amava. Eu conhecia a verso grega 
do texto. Mais uma vez, era uma questo de nuanas. Quando se dirige a Pedro, Jesus emprega o termo agape, 
indicando uma qualidade superior de amor, sem contrapartida, bastando-se a si mesmo pelo prprio ato de 
amar. Pedro responde utilizando a palavra philia, que significa um amor que espera retribuio, que busca 
reciprocidade. Na terceira vez que Jesus faz a pergunta, Pedro parece entender e responde empregando a 
palavra agape, que o compromete a um amor incondicional.
     Pedro era o homem que, por trs vezes, tinha trado Jesus. O Jesus que agora o questionava era o Cristo 
ressuscitado. Pedro, homem fraco e covarde, por fora deste amor incondicional, se transformava no homem 
forte e corajoso que iria morrer crucificado devido ao legado de Jesus.
     Fazia cinco anos que eu vivia em cativeiro, e, apesar das condies extremas que havia suportado, era 
muito difcil para mim transformar o meu carter.
* Referncia aos pronomes de tratamento em espanhol, t ou usted, ou, em francs, tu ou vous, que indicam mais ou menos 
intimidade, e so empregados alternadamente ao longo do texto: os farquianos, por exemplo, em geral se dirigem a Ingrid por vous 
(usted). Optamos aqui pelo uso do voc em todos os dilogos, j que no portugus do Brasil as nuanas de tratamento passam por 
diferentes regras e expresses. (N. T.)
490
 

     Enveredamos numa discusso, sentados lado a lado no seu velho plstico preto. Eu nem percebia em que 
lngua estvamos falando, provavelmente nas duas. Concentrada na discusso, houve um momento em que me 
detive, intrigada com o silncio do acampamento. Percebi, muito constrangida, que nossos companheiros 
acompanhavam nossa conversa com o maior interesse.
    -                Est todo mundo ouvindo - eu disse em ingls, baixando a voz.
    -                Estamos felizes demais, isso chama a ateno - ele respondeu, sem me olhar.
     Fiquei preocupada.
    -                Veja no que nos tornamos neste acampamento, a nossa dificuldade em nos unir frente a uma 
guerrilha que nos intimida e ameaa... Os apstolos sentiram medo e somente joo se fez presente ao p da 
cruz. Mas, depois da ressurreio, o comportamento deles mudou. Saram pelos quatro cantos do mundo e 
acabariam sendo mortos ao relatar o que tinham visto. Foram decapitados, crucificados, esfolados vivos, 
apedrejados por defender sua histria. Cada um deles soube se superar, vencer o medo de morrer. Cada um 
deles escolheu aquilo que queria ser.
     Aos poucos, amos abrindo o corao para falar de coisas que sequer tnhamos coragem de confessar a 
ns mesmos. Fazia anos que ele no tinha notcias de ningum, a no ser da me. Nas suas mensagens, no 
havia muita informao sobre sua famlia ou sobre a vida daqueles a quem ele amava.
    -                Tenho a impresso de ver o mundo pelo buraco de uma fechadura - ele me disse, expressando 
sua frustrao. - No sei sequer se a minha mulher ainda est me esperando.
     Eu no tinha como no entender. Fazia muito tempo que a voz de meu marido desaparecera das ondas de 
rdio. Quando, ocasionalmente, ela se fazia ouvir, os comentrios de meus companheiros eram cidos. Em 
compensao, ningum se atreveu a me fazer nenhum comentrio quando uma jornalista do Luciernaga,* um 
dos programas que ouvamos  noite, fizera uma observao, acrescentando: "Falo do marido de Ingrid ou, 
mais exatamente, ex-marido, j que tem sido visto, faz tempo, com outra mulher". Eu tentara virar a pgina, 
mas aquelas palavras tinham conseguido arranhar meu corao.
     Certa manh, enquanto eu'esperava em minha rede que me soltassem as correntes, sobressaltei-me ao 
sentir que me sacudiam pelos ps. Era Mare, a caminho dos chontos.
* Pirilampo.
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    -                Hi Princess!- ele sussurrou, inclinando-se sobre o mosquiteiro.
     "Este vai ser um lindo dia", pensei.
     Como nos dias anteriores, nos instalamos lado a lado sobre o plstico de Mare. Pipiolo estava de guarda, e 
seu olhar pousou sobre mim como o de uma guia sobre sua presa. Estremeci, sabia que ele estava aprontando 
algo ruim. Mal comeamos a conversar e a voz de Monster nos atingiu feito um tiro de canho:
    -                Ingrid!
     Levantei-me de um salto e fui para a trilha central, tentando avist-lo atravs das barracas que tapavam 
minha viso. Ele apareceu afinal, mos nos quadris, pernas afastadas e olhar maldoso.
    -                Ingrid! - berrou novamente, e eu estava diante dele.
    -                Sim?
    -                Eu j disse que voc est proibida de falar com os americanos. Se eu te pegar de novo se 
comunicando com eles, te acorrento na rvore!
     No havia espao para lgrimas, palavras, olhares. Fechei-me, reduzindo ao mnimo meu contato com o 
exterior. Ouvi, proveniente de outro mundo, a voz de Mare. Mas j no o via.
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74. As cartas

     "Vai ser como sempre, ele vai querer evitar os problemas", pensei, ao me virar para sentar na raiz da 
rvore grande que atravessava a minha caleta. Eu precisava me ocupar: costurar, lavar, guardar, encher o 
espao de movimento para me dar a impresso de estar viva. "No pensei que fosse doer tanto", constatei, ao 
entrever o sorriso carniceiro de Pipiolo. Meu olhar cruzou com o de Lucho. Ele sorriu e fez um sinal para eu 
me acalmar. Ele estava comigo. Retribu seu sorriso.  claro que no era a primeira vez que me perseguiam. Eu 
j estava acostumada a ser acorrentada ou solta de acordo com as variaes do humor deles. Fazia tempo que 
esperava aquele golpe, desde que comeara a conversar com Mare. Senti, de certa forma, um certo alvio. No 
seria pior do que aquilo.
    -                Ser que podemos falar em espanhol, como com os outros prisioneiros? - Mare perguntou a 
Monster, que estava parado em p, com ar altivo, em frente  sua barraca.
    -                No, a ordem  muito clara, voc no pode falar com ela.
     A caminho do banho, eu tratava de ser rpida. Tinha de tirar a roupa e vestir o short e a regata de 
polister enrolada na toalha. Era sempre a ltima e os guardas aproveitavam para me atormentar. No tinha 
notado que Mare estava se demorando mais que eu. Seguimos em fila indiana pela trilha que levava ao 
lavadouro. Ele se aproximou por trs e sussurrou em ingls:
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     Gostava muito de conversar com voc. Temos que continuar nos comunicando.
    -                Como?
     Pensei depressa, rpido, rpido. Depois, no poderamos falar mais.
    -                Me escreva uma carta - cochichei.
    -                Andem, vamos! - berrou um guarda atrs de ns.
     No rio, enquanto eu ensaboava o cabelo com o pedao de pasta azul que fazia as vezes de xampu, ele se 
posicionou de modo a que os guardas no pudessem nos ver. Compreendi que iria me escrever no dia seguinte. 
Tive de morder a lngua at sangrar para no demonstrar minha alegria. Lucho me fitou, surpreso. Passei meu 
sabo para ele a fim de despistar os guardas.
    -                Estou melhor - consegui lhe dizer.
     No pensava em mais nada alm daquela carta. Tinha certeza de que ele iria retomar nossa conversa no 
ponto exato em que Monster a interrompera. E, principalmente, me perguntava de que jeito ele ia conseguir me 
entreg-la. Da minha caleta, podia avist-lo na dele. Assim que se vestiu, comeou a escrever.
     Escureceu rapidamente. "A carta vai ser breve", previ. A noite, por sua vez me pareceu muito longa. 
Revivi mil vezes a mesma cena na minha cabea: Monster, mos nos quadris, ameaador. Tornei a sentir medo.
     Mare ps a carta na minha mo na hora em que eu menos esperava. Estava voltando dos chontos, ao 
amanhecer, logo depois de o guarda me soltar. Marc era o terceiro da fila para ir aos chontos, a trilha era 
estreita, ele pegou minha mo e ps o papel dentro dela. Continuei caminhando, mas minha mo ficou para 
trs. Pensei que todos tinham visto e que eu fosse desmaiar.
     Ao voltar para a caleta, fiquei surpresa ao constatar que estava tudo normal, os guardas no tinham visto 
nada, nem meus companheiros.
     Esperei que chegasse a refeio matinal para ler a carta. Apenas uma pgina e meia, com letra de menino 
aplicado. Estava escrita em ingls, com todo o protocolo e frmulas de cortesia de praxe. Achei divertido. 
Tinha a impresso de ler a carta de um desconhecido. Ele dizia o quo sentido estava com a proibio que nos 
era imposta, e continuava fazendo perguntas educadas sobre minha vida.
     "Vou escrever uma linda carta para ele", pensei. "Uma carta que ele vai querer reler muitas vezes."
     Olhei para o meu estoque de papel disponvel: no iria durar muito tempo. Escrevi a carta num jorro s, 
sem meias palavras, j de sada mandando para os ares o "caro Mare" obrigatrio. Escrevi do mesmo jeito que 
falava com ele. "Hi Princess", ele respondeu em sua segunda carta, voltando a ser ele mesmo.
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     Criamos uma linguagem secreta, que se constitua de sinais com a mo que ele descrevia nas cartas e 
ilustrava pessoalmente ao ver que eu terminara de ler sua mensagem. Enviei, por minha vez, alguns sinais de 
minha prpria lavra, e logo j dispnhamos de um segundo meio de comunicao, eficiente para nos alertarmos 
mutuamente se um guarda estava olhando ou se amos depositar uma mensagem na nossa "caixa postal".
     Combinamos colocar nossos pedaos de papel ao p do cepo de uma rvore recentemente cortada na rea 
dos chontos. Era um bom lugar, j que podamos passar por ali sozinhos sem despertar suspeitas. Costurei uns 
saquinhos de lona preta, nos quais enfivamos nossas missivas para preserv-las da chuva e evitar que a 
brancura do papel chamasse a ateno.
     Os guardas devem ter percebido alguma coisa, pois uma manh, quando acabava de juntar minha carta do 
dia, eles me seguiram e deram uma busca no local. Decidimos ento alternar a caixa postal com outros sistemas 
mais acessveis, embora to arriscados quanto. Mare ficava ao meu lado no ajuntamento do almoo e introduzia 
o papel na minha mo, ou, s vezes, eu  que fazia sinal para ele ir ao lavatrio, onde tinha ido encher minha 
garrafa de gua, para pegar minha correspondncia.
     Estava bastante preocupada. Eu tinha reparado nas reaes complexas que surgiam  nossa volta. A 
alegria que sentramos em ficar juntos dera margem  inveja. Houve at quem pedisse que eu fosse apartada do 
grupo. Massimo me alertou: um de nossos companheiros fizera essa solicitao. Eu chegava a ter pesadelos. 
No comentei com Mare, pois no queria atrair o azar. Mas sofria cada vez mais com isso, temendo que o fio 
tnue que me prendia  vida pudesse ser rompido.
     Escrever-nos tinha se tornado a nica coisa importante do dia. Eu guardava cada carta que ele escrevia e a 
relia enquanto esperava a seguinte. Aos poucos, foi se criando entre ns uma estranha intimidade. Era mais 
fcil se expor por escrito. O olhar do outro me pertrbava ao revelar meus sentimentos e, no raro, o que eu 
pretendia partilhar acabava ficando num silncio que me era impossvel vencer. Em compensao, ao escrever 
descobria uma distncia que me libertava. Eu poderia no mandar o que havia escrito, pensava, e essa 
possibilidade me tornava ousada. No entanto, depois que os segredos de minha mente vinham  luz, parecia-me 
que eram muito simples e que no havia mal nenhum em partilh-los. Mare me surpreendia, pois era muito 
mais seguro para lidar com aquela situao e sua sinceridade me encantava. Havia muita elegncia em suas 
palavras e o ser que ele me revelava nunca me decepcionava. Minha impresso era que sua ltima carta era 
sempre a melhor, at ler a seguinte. Quanto mais apreciava sua amizade, mais eu
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me preocupava. "Eles vo nos separar", pensava, imaginando a alegria de Enrique ao descobrir quo importante 
Mare se tornara para mim.
     Houve uma revista astuciosamente organizada por Enrique. Fizeram-nos acreditar que amos deixar o 
acampamento para mais uma marcha. As cartas de Mare tinham se tornado meu maior tesouro e eu as guardara 
no bolso da jaqueta antes de fechar o equipo. Eles nos fizeram andar uma centena de metros at um local que 
utilizavam como serraria. L, pediram que esvazissemos nossas mochilas. Mare estava bem do meu lado, 
lvido. Ser que tinha conseguido esconder as cartas?
     Ele me lanou um olhar insistente, ento se virou, avisou que ia mijar e foi para trs de uma rvore 
grande. Voltou com os olhos cravados nos sapatos, exceto por um breve instante em que me brindou com um 
sorriso confiante, ligeiro como uma piscadela e que fui a nica a perceber.
     Deixei passar alguns minutos e o imitei. Uma vez atrs da rvore, escondi as cartas na minha roupa de 
baixo e, ao retornar, guardei meus pertences no equipo aps a revista. Notei que o velho pote de talco, em que 
eu cuidadosamente enrolara meus mais preciosos documentos a fim de proteg-los da umidade, tinha sumido. 
Dentro daquele pote estavam a carta de minha me, as fotos dos meus filhos, os desenhos dos meus sobrinhos e 
as ideias e projetos em que, durante trs anos, eu tinha trabalhado com Lucho.
    -                Vai ter que pedir para Enrique - disse-me Pipiolo, saboreando cada palavra.
     Aquele foi um golpe baixo. A carta de minha me era minha tbua de salvao. Eu as relia em cada crise 
depressiva. Raramente olhava para as fotos de meus filhos, pois me causavam uma dor fsica insuportvel. Mas 
me tranquilizava o fato de saber que estavam ao alcance da mo. Quanto ao programa, era importante para 
mim. Representava centenas de horas de trabalho e discusso. Contudo, o fato de no terem achado as cartas de 
Mare me enchia de indiscutvel bem-estar. Tampouco encontraram meu dirio, que eu tivera o cuidado de 
queimar fazia tempos.
     Quando achamos que a revista tinha acabado, mais quatro guardas se apresentaram. Tinham sido 
destacados para uma revista "personalizada". Enquanto pediam aos homens que se despissem, Zamaidy pediu 
que eu a acompanhasse.
     Zamaidy se postou  minha frente, desculpando-se previamente por ter de continuar. Deu com meus 
bolsos cheios de tecido cortado em quadrados.
    -                O que  isso? - perguntou, intrigada.
    -                Faz tempo que acabaram meus absorventes higinicos. Pedi mais, mas Enrique 
aparentemente deu ordem para no fornecerem mais.
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    -                Vou lhe mandar alguns - ela resmungou.
     Com isso, suspendeu a revista e me mandou voltar para junto do grupo. Suspirei aliviada, nem queria 
imaginar no que teria de ter inventado para explicar o que ela possivelmente iria encontrar.
     Mare esperava minha volta, angustiado. Retribu seu sorriso. Compreendeu que eu acabava de passar com 
sucesso pela revista. Lucho, violando todas as proibies, perguntou-me se estava tudo bem. Contei-lhe do 
confisco, por parte de Enrique, do meu pote de talco.
    -                Voc tem que ter isso de volta! - ele reclamou.
     Era uma misso que me parecia impossvel. Depois do medo que nos causara a blitz de Enrique, 
redobramos o cuidado e nossa correspondncia se tornou mais intensa. Contvamos tudo um ao outro, nossa 
vida, nossos relacionamentos, nossos filhos. E nosso sentimento de culpa, como se ao descrev-lo pudssemos 
consertar todas as nossas falhas.
     Condenados ao distanciamento, nos tornvamos inseparveis. Quando, certa manh, Mare se aproximou 
enquanto eu estava na primeira fila dos chontos, e disse que tinha de falar comigo de qualquer jeito, fui tomada 
por um pavor irracional. "Ele vai dizer que a gente no deve se escrever mais!" Foi cruel a espera at que s 
restssemos os dois na fila.
     O que ele falou me deixou gelada. Queria que pedssemos a Enrique para anular a restrio imposta por 
Monster. Nisso, o olhar abrasador de Pipiolo me fez voltar a cabea. Ele tinha visto Mare falar comigo, tinha 
visto o efeito que isso tinha me causado. Tnhamos infringido a ordem. Ele teria o maior prazer em nos fazer 
pagar por isso.
     Mais tarde, comecei a escrever uma longa carta para Mare. Expliquei meu medo de que Enrique tentasse 
nos separar, e relatei os comentrios de Massimo: alguns de nossos companheiros estavam de compl contra 
ns.
     Estava me preparando para minha toalete matutina quando fui vtima de agresso por parte de um dos 
homens. Era um sujeito tomado por obsesses, com o qual eu j tinha tido problemas, e que Enrique colocara 
do meu lado como castigo suplementar. Lucho, que ia passando para ir aos chontos, carregando seu galo de 
urina da noite anterior, viu e compreendeu de imediato. Aquelas agresses j tinham sido reportadas a Enrique 
pelos guardas, mas ele retrucara: "Os prisioneiros esto todos sujeitos ao mesmo regime, ela que se defenda 
sozinha". Lucho sabia disso. Largou seu galo de urina e se jogou em cima do homem. O outro lhe desfechou 
um soco no estmago e Lucho, enfurecido, ps-se a bater nele, no cho,
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sem trgua. Os guardas riam, encantados com o espetculo. Eu estava horrorizada. Isso poderia lhes dar um 
pretexto para me apartar.
     Mas ningum apareceu. Nem Enrique, nem Monster, nem Asprilla. Tranquilizei-me pensando que 
Enrique iria aplicar sua lei e o assunto seria encerrado. A carta de Mare, naquele dia, foi mais carinhosa que de 
costume. Ele no queria que eu sofresse com o acontecido.
     Quando, ao amanhecer, escutei a mensagem de minha me no rdio, estava tremendo. O comportamento 
de meu agressor me deixara transtornada. Por mais que dissesse a mim mesma que ele era um perturbado e 
que'sua atitude era fruto de dez anos de cativeiro, sua proximidade me era desconfortvel. Tinha horror ao jeito 
como ele me espiava, segurando um espelho enquanto me observava, de costas para mim.
     Minha me estava com sua voz terna e serena dos dias felizes. Estava ligando de Londres, satisfeita com 
os trmites no sentido de angariar apoio  causa da nossa libertao:
     - Aguente firme, o que quer que acontea, aguente firme. Olhe para o cu e paire acima da maldade que 
possa estar te cercando. Voc vai sair muito em breve para uma vida nova.
     De modo que eu olhava para o cu. Estava um dia bonito, aquela manh de sol s poderia me trazer coisas 
boas.
     Mas o destino decidiu diferente. O rdio informou que onze dos doze deputados da Assembleia Regional 
de Valle del Cauca, refns das Fare como ns, haviam sido massacrados. Eu acabava de ouvir a mensagem que 
a irm de uma das vtimas lhe enviara, sendo que ele j estava morto enquanto ela lutava por ele em Londres. 
Isso me revoltou. Eu escutava todo dia as mensagens destinadas a eles, em especial ao amanhecer daquele 18 
de junho de 2007. Suas famlias decerto tinham acabado de saber da notcia, como todos ns. Devido s 
mensagens dirias no rdio, a notcia me afetava como se fosse um membro de minha prpria famlia. Busquei 
o olhar de Marc em sua coleta e o encontrei, desnorteado por uma dor idntica  minha.
     Quando Asprilla me mandou empacotar minhas coisas, porque estava indo embora, eu j me sentia 
arrasada. Mare pediu licena para vir me ajudar. Insinuadas entre os gestos mecnicos que j fizramos 
milhares de vezes, as demonstraes de afeto se revelavam difceis. Tnhamos nos habituado a ficar prximos 
atravs de nossas cartas, j no sabamos como nos comportar na proximidade um do outro.
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    -                Me mande a sua Bblia, eu a devolvo com as minhas cartas - ele disse, enquanto desmontava 
a barraca.
     Alguns guardas tratavam de abrir um espao junto ao lavadouro. Era ali que iam me instalar.
    -                Pelo menos vamos continuar nos vendo. Prometa que vai me escrever todo dia.
    -                Vou lhe escrever todo dia, sim - assegurei, curvada de dor. Eu acabava de ser fulminada e 
comeava a me dar conta disso.
     Antes que os guardas viessem me buscar, ele me passou disfaradamente o saquinho preto. Quando teria 
tido tempo de me escrever? Tambm ele estava com os olhos marejados.
     A voz de Oswald se fez ouvir:
    -                Vamos l, se mexam!
     Eu estava impossibilitada de me mexer.
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75. A separao

     Do lugar para onde estava indo, poderia avist-los de longe. Agarrei-me a essa ideia, agradecendo aos 
cus por no ter me imposto um fardo mais pesado. O silncio cara sobre mim como uma lpide, tudo soava 
vazio. A dor que me dilacerava o ventre me obrigava a pensar na necessidade de respirar, inalar, e depois 
expirar com um esforo tremendo. "O diabo vive nesta selva."
     Eu tinha organizado meus pertences sobre uma tbua velha que eles resolveram me fornecer. No devia 
nada a eles, e tambm no queria pedir nada. Enclausurei-me. Ningum ia ver que eu estava sofrendo. Algumas 
mulheres foram destacadas para me ajudar em minha instalao. No falei nada. Acomodei-me sobre um tronco 
apodrecido a fim de contemplar a extenso do meu infortnio.
     Minha rede tornou-se meu refgio. S queria ficar nela o dia inteiro, com o rdio grudado no ouvido, 
remoendo a minha solido. No sbado  noite, quando Las Vocs dei Secuestro transmitiram "Dans la jungle", a 
msica de Renaud, tive a esperana de que fosse um sinal do destino. Renaud era o mais amado dos compositores franceses contemporneos. Escut-lo pronunciar meu 
nome, dizendo que me esperava, me deu uma sede 
repentina de cu azul. Fui nadar no aude sem que ningum se atrevesse a me interromper. Avistei Lucho e 
Mare de longe, em meio s rvores.
     Asprilla apareceu, todo sorrisos.
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     - Vo ser s umas poucas semanas, depois voc volta para o acampamento - ele explicou, sem que eu 
tivesse perguntado nada.
     Mare deambulou entre as barracas e acabou descobrindo um ponto em que eu podia v-lo sem ser vista. 
Por meio de sinais, me deu a entender que ia at os chontos e, de l, me jogaria um papel.
     Segui suas instrues. Com alguma sorte, sua missiva poderia chegar at mim. O papel acabou indo parar 
fora do espao em que eu estava confinada. Meu guarda estava de costas, dando mostras de uma inabitual 
civilidade. Embrenhei-me no mato a fim de pegar a mensagem. Era uma carta repleta de palavras encavaladas num espao demasiado estreito.
     Li a carta deitada na rede, abrigada pelo mosquiteiro. Era to triste e, ao mesmo tempo, to engraada! Eu 
o avistava, de p,  espreita, esperando que eu acabasse de ler para ver no meu rosto o efeito de suas palavras.
     A rotina de trocar mensagens daquela forma se instalou dentro da espera, at que a companheira de 
Oswald, que estava de guarda, nos flagrou e imediatamente reportou o caso a Asprilla. Tivemos de mudar o 
sistema. Mare pediu permisso a Asprilla para partilharmos a Bblia, e ele concordou. Tornou-se nossa nova 
caixa postal. Asprilla vinha pegar a Bblia de manh e a trazia de volta  noitinha. Escrevamos a lpis nas 
margens dos Evangelhos e indicvamos onde o outro devia escrever a resposta. Caso ocorresse a Asprilla 
folhear as pginas, s encontraria umas palavras nas margens, s vezes em espanhol, outras vezes em francs, 
ou at em ingls, fruto de cinco anos de reflexes aplicadamente anotadas.
     Este contato cotidiano fez nascer em Asprilla o desejo de se abrir um pouco com Mare. Comunicou-lhe 
que Enrique pretendia nos dividir em dois grupos e que ficaramos ambos no mesmo grupo de Lucho. Essa 
notcia me encheu de esperanas.
     Pedi autorizao para falar com Lucho e Mare. Asprilla me aconselhou a ter pacincia e esperar, no 
queria que Enrique recusasse e resolvesse prolongar meu isolamento. Chegou um carregamento de correntes. 
Eram muito mais grossas e pesadas que as de Pinchao. Fui a primeira a estrear um imenso cadeado em volta do 
pescoo, e outro, to imenso quanto, que prendia minha pesada corrente  rvore. Fui testemunha da angstia 
de meus companheiros americanos, quando perceberam que, pela primeira vez, tambm seriam acorrentados. 
Ver aquela corrente enorme reluzindo em volta do pescoo de Mare me deixou muito mal.
     A carta daquele dia foi agitada. Ele explicava como arrebentar a fechadura do cadeado enferrujando-a 
com sal, ou como abrir o loquete interno com uma pina ou cortador de unhas. Dizia que tnhamos de ficar 
perto um do outro a fim de
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podermos fugir no caso de uma operao militar. L estvamos ns, desnudados frente ao medo da morte, mas 
j no queramos enfrent-la um sem o outro.
     Quando amanheceu e falou-se em preparar a partida do acampamento, empacotei apressadamente meus 
pertences, ansiosa por ficar novamente prxima de Mare e Lucho. O dia estava esplndido, o que era incomum 
durante a estao das chuvas. Fiquei pronta antes de todo mundo. Mas no havia pressa. Sentada no meu 
tronco apodrecido, presa pelo pescoo, vi as horas desfilarem devagar enquanto os sons do acampamento da 
guerrilha indicavam seu desmantelamento completo, lento e organizado. Um rudo de ferragem oca batendo 
surdamente na margem nos avisou da chegada do bongo. "No vai ser uma marcha", conclu, aliviada.
     A tarde j ia avanada quando apareceu Lili, a companheira de Enrique. Surpreendi-me com sua 
gentileza. Na expectativa de uma reunio com meu grupo, eu baixei a guarda.
     Ela se ps a falar sobre vrios assuntos, fazendo simpticos comentrios sobre Lucho. Depois, falou 
sobre os demais prisioneiros e me perguntou sobre Mare. Alguma coisa no seu tom de voz me alertou, mas eu 
no conseguia identificar o perigo. Pensei antes de responder que, de fato, tnhamos nos tornado amigos. No 
se passou nem um segundo e ela se foi, sem sequer se despedir. Fechei os olhos com a terrvel sensao de ter 
cado numa armadilha.
     Ento avistei o velho Erminson. Ele se acercou de mim com a frieza de um carrasco e experimentou as 
chaves de um pesado molho que segurava com afetao na outra mo, at encontrar aquela que abriu meu 
cadeado. Tirou a chave do aro e brandiu-a, vitorioso, berrando para Asprilla e Enrique que estava tudo pronto.
     Os guardas deram a ordem de colocarmos as mochilas nas costas. Depois, dividiram meus companheiros 
em dois grupos. O de Lucho e Mare foi chamado a embarcar na frente, sem mim. "No, no pode ser verdade! 
Meu Deus, faa com que no seja verdade!", rezei com todas as foras. Lucho se deteve para me abraar, 
enfurecendo os guardas. Mare vinha por ltimo, pegou minha mo e a apertou com fora. Eu o vi se afastar 
com seu equipo lotado de objetos inteis, e refleti que nossa vida no tinha valor algum.
     Quando o segundo grupo se ps em marcha, recebi a ordem de acompanh-lo. Massimo estava prximo 
ao bongo e segurou meu brao para me ajudar a embarcar. Procurei por eles com os olhos. Estavam sentados no 
poro, suas cabeas mal sobressaam no convs onde eu estava passando. Enrique mandara erguer uma divisria feita do amontoamento de nossos equipos, e eu precisava 
me instalar do outro lado, com o segundo grupo. 
Fiquei na expectativa de escutar, a qualquer momento,
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a voz de Monster ou Asprilla dando permisso para que eu me sentasse junto dos meus. S ouvi a voz de 
Enrique, fria e cruel, me tratando como a um cachorro:
    -                X! L no fundo, do outro lado, anda!
     Zamaidy estava de guarda, fuzil nas mos, me observando enquanto eu entrava naquele buraco onde meus 
companheiros j disputavam os melhores lugares. Ela manteve um silncio obstinado em meio aos gritos e 
algazarra da tropa que embarcava. O motor enfumaou o ar com um cuspe azulado e nauseabundo, e o ronco da 
mquina tomou conta de tudo. Estvamos mais uma vez sobre a pista lisa das guas do grande rio. Uma lua 
imensa se erguia no cu feito o olho de algum ciclope.
     Eu j no tinha mais dvidas. A sorte me perseguia, levando numa avalanche tudo o que me era caro. No 
restava muito tempo, logo seramos definitivamente apartados. Mare se aproximou da divisria de mochilas 
que nos separava. Tambm me aproximei e passei a mo por cima dela, na esperana de encontrar com a dele. 
Zamaidy olhou para mim:
    -                Vocs tm algumas horas - disse, posicionando-se de modo a nos ocultar. Foi a primeira e 
ltima vez que nos demos as mos. Os outros j estavam dormindo e o barulho do motor cobria nossas 
palavras.
    -                Me fale sobre a casa dos seus sonhos - pedi.
    -                A minha  uma casa antiga, dessas que existem na Nova Inglaterra. Tem uma chamin em 
cada ponta e uma escada de madeira que range quando a gente sobe.  rodeada de rvores e jardins. No quintal, 
esto duas vacas. Uma se chama Ciclo, e a outra, Tmica.
     Sorri. Ele brincou com as slabas da primeira palavra em espanhol que eu acrescentara ao vocabulrio 
dele.
    -                Mas esta casa no vai ser minha enquanto eu no puder compartilh-la com a pessoa que eu 
amo.
    -                Nunca tinha visto uma noite to linda e to triste - disse eu.
    -                Eles podem nos seprar, mas no podem nos impedir de pensar um no outro - ele replicou. - 
Um dia a gente vai ser livre e ter outra noite como esta, com esta mesma lua maravilhosa. Vai ser uma noite 
linda e no ser mais triste.
     O bongo atracou pesadamente. O ar ficou denso de repente. Eles receberam a ordem de desembarcar. 
Lucho se aproximou:
    -                No se preocupe, eu vou cuidar dele e ele vai cuidar de mim - disse, olhando para Mare. - E 
voc, prometa que vai aguentar!
     Ns nos abraamos. Eu estava arrasada. Mare segurou meu rosto entre as mos:
    -                At breve - disse, e me deu um beijo no rosto.
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76. Afagando a morte

31 de agosto de 2007

     Fiquei ali sufocada, paralisada no vazio, alheia ao tumulto ao meu redor. Os guerrilheiros subiam e 
desciam equipos e sacos de mantimentos. Eu esperava, de p, que o bongo se afastasse. Precisava ver a distncia 
tomar forma. Mas a movimentao toda deu lugar a uma calmaria ainda mais desesperadora e compreendi, 
tardiamente, que nosso grupo passaria a noite no poro. Ia chover, com certeza. Olhei para os semblantes 
fechados de meus companheiros. Estavam dispondo seus pertences de modo a demarcar seus espaos. O homem 
que me agredira se agitou no seu canto. "Enrique escolheu muito bem", pensei. Na diagonal, no ponto mais 
distante, sobrava uma faixa de territrio desocupado. William me observava. Esboou um sorriso e fez um sinal 
para mim. Acocorei-me, encolhida, no espao vazio.
     "Tenho que dormir. Tenho que dormir", fiquei dizendo a mim mesma, hora aps hora, at o amanhecer. 
"No vou conseguir passar outra noite igual a esta."
    -                Doctora - algum chamou, perto de mim.
     Doctora? Quem me chamava assim? Ningum, desde muitos anos antes, pois Enrique proibira. Eu era 
"Ingrid", a velha, a cucha, a gara. Mas no doctora.
    -                Pssiu, doctora!
     Virei-me. Era Massimo.
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    -                Doctora, diga para ele, ele est a, fale com ele! Ele pode pass-la para o outro grupo!
     De fato, l estava Enrique, na proa. Fui andando, apesar dos pesares, rente  balaustrada. Ele j tinha me 
visto. Seu corpo inteiro se enrijeceu, feito a aranha ao sentir sua presa se debatendo na teia. "Meu Deus, vou me 
ajoelhar diante deste monstro", pensei horrorizada. Ele sabia. Fingiu estar falando com uma guerrilheira, duro, 
incisivo, humilhante com a garota. Fez-me esperar, de propsito, e no se dignou a olhar para mim durante 
longos minutos. To longos que, no bongo, tudo ficou imvel, como se estivessem todos segurando a respirao 
para no perder uma palavra do que ia ser dito.
    -                Enrique?
     Ele no se virou.
    -                Enrique?
    -                O que foi?
    -                Tenho um pedido a lhe fazer.
    -                No h nada que eu possa fazer por voc.
    -                Tem, sim. Quero lhe pedir para mudar de grupo. 
    -                Impossvel.
    -                Para voc tudo  possvel. Voc  o chefe,  voc quem decide.
    -                No posso.
    -                Aqui, voc  um deus. Tem todos os poderes.
     Enrique encheu o peito e seu olhar pairou sobre o mundo dos humanos. L do alto, satisfeito consigo 
mesmo, deixou cair:
    -                Quem decide  o Secretariado. Recebi uma lista precisa, o seu nome est no grupo do 
comandante Chqui.
     Ele apontou para um homenzinho rechonchudo, de pele porcina e barba arrepiada.
    -                Peo humildemente que tenha um pouco de compaixo por ns.
     Ele respirou amplamente, certo de que o mundo lhe pertencia.
    -                Enrique, eu lhe suplico - repeti. -  a minha famlia, uma famlia que se construiu nesta selva, 
neste cativeiro, neste inferno. No se esquea de que o mundo d voltas. Trate a gente como gostaria de ser 
tratado se um dia acontecer de voc virar prisioneiro.
    -                Eu nunca serei prisioneiro - retorquiu duramente. - Eu me mato antes de me deixar prender. E 
nunca me rebaixaria a pedir o que quer que fosse ao meu inimigo.
    -                Pois eu me rebaixo. A minha dignidade no passa por a. No me envergonho
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de suplicar, mesmo que me custe muitssimo. Mas, veja bem, a fora do amor sempre prevalece.
     Enrique me fitou maldosamente, olhos estreitados, sondando em mim os abismos de sua prpria perfdia. 
Ento percebeu que estava sendo ouvido e, como quem joga as luvas sobre um mvel qualquer, declarou com 
desprezo:
     - Vou levar sua solicitao aos chefes.  s o que posso fazer.
     Deu-me as costas e afagou a cabea da guerrilheira responsvel pela guarda. Saltou na terra com um som 
seco, como de uma guilhotina se abatendo num pescoo.
     O bongo se ps em marcha e o barulho do motor sacudiu a casca oca do meu corpo. Os canais foram 
ficando cada vez mais estreitos. Oswald e Pipiolo, munidos de um cortador, investiam contra as rvores imensas 
que tinham crescido na horizontal, bloqueando a passagem. Estava tudo virado do avesso.
     Duas horas depois, El Chqui, equilibrado em p na proa, fez sinal para acostarem.
     Consolacion, uma ndia com uma comprida trana preta, roou meu ombro com a mo. Estremeci e abri os 
olhos. Fui atrs dela, com minha pesada mochila nas costas.  minha frente, uma subida ngreme, que me pus a 
escalar como fazem as mulas, os olhos grudados no cho. Esbarrei num de meus companheiros que havia 
parado, e ento compreendi que era para descarregar.
     Desabei junto a uma rvore meio afastada dos outros e soobrei no limbo. Algum me sacudiu. A comida 
acabava de chegar. A ideia de me alimentar me repugnava. Senti que no seria fcil me mexer.
     No havia mais nenhuma rvore para prender minha corrente. Tiveram de colocar uma estaca grossa. 
"Agora, a estaca  que est presa em mim", pensei. Pipiolo apareceu, feliz da vida, trazendo o molho de chaves. 
Falou com o rosto colado no meu, lanando perdigotos. Tinha um cheiro asqueroso, no pude evitar um gesto. 
Ele se vingou. Abriu o cadeado e diminuiu em vrios elos a corrente em volta do meu pescoo. Eu fiquei com 
dificuldade para deglutir.
     "Ele quer que eu suplique", pensei, evitando seu olhar. Ele se foi. "No pedir nada, no desejar nada." Os 
dias no passavam de uma sucesso de refeies. Eu me obrigava a me levantar e estender minha tigela, mais 
para evitar comentrios. Mas a panela cheia de arroz e macarro molenga, inchado de gua, me provocava uma 
nusea crnica que vinha em ondas, sempre com o cheiro da marmita, mas tambm com o rudo da troca de 
guarda ou do cadeado se fechando, apertado demais, depois de uma ida aos chontos.
     Algum me deu um caderno escolar novinho, com uma imagem pirateada
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da Branca de Neve. Eu continuava escrevendo para Mare, mas j no tinha graa. Era sofrido, alis, j que no 
havia resposta. Eu relia as cartas dele, que estavam sempre no meu bolso, para ouvir sua voz. Aqueles eram os 
nicos momentos que eu antecipava com alvio e adiava ao mximo, at antes de escurecer, j que depois disso 
restava apenas um infinito vazio de horas sombrias.
     "Estou hibernando", justificava para mim mesma a minha inapetncia.
     Comecei a boiar dentro das calas. Antes, costumava ajustar as calas na cintura. Agora, usava os cintos 
que tinha tecido para as crianas. "Seno, vo acabar apodrecendo", ponderei.
     Certa manh, o ar apavorado de um companheiro que estava na fila com sua tigela me assustou. Virei-me, 
preparada para ver um monstro atrs de mim. Mas era a mim que ele mirava fixamente.
     Eu s tinha um pedao de espelho quebrado que no usava mais. S podia me ver por partes: um olho, o 
nariz, parte da bochecha, o pescoo. Eu estava verde, olheiras roxas do tamanho de uns culos, a pele seca.
     Tinha cavado junto  estaca, com um pauzinho, um buraco onde enterrava as mechas de cabelo que juntava 
diariamente. Meu pente vinha invariavelmente carregado com uma grenha poeirenta que eu escondia para evitar 
que o vento a levasse para os meus vizinhos. "Eles vo se queixar. Vo dizer que sou suja." Eu no era. Com 
toda a minha fora de vontade, vestia os shorts midos e fedidos chamados de "roupa de banho", em estado de 
decomposio porque nunca secavam de fato. Estavam permanentemente cobertos por uma baba transparente. 
Alm disso, para ir ao lavadouro tnhamos de descer - e subir de volta - uma ladeira ngreme, carregando o galo 
para trazer gua e as roupas que eu lavava incansavelmente.
     "Virei um gato", constatava atnita, recordando a frase feliz da minha av, contando que ningum a avisara 
das transformaes da puberdade e que, assustada com as mudanas de seu corpo, conclura que era vtima de 
um feitio e estava se metamorfoseando em felino.
     Minha mutao era menos espetacular. Chegara ao ponto de odiar o contato com a gua. Entrava no ltimo 
minuto, contrada, e saa trmula, azul, cabelos doloridos como se uma mo invisvel os estivesse puxando. 
Botas cheias de gua, pernas e braos arrepiados, subia sem flego, esperando cair dura a cada prximo passo.
     Refugiei-me durante meses em minha rede. O acampamento de Chqui foi construdo na primeira semana 
de agosto de 2007. "Mlanie vai fazer 22 anos." Esta frase continha todo o horror do mundo. Fui aos chontos e 
vomitei sangue.
     Eu bebia pouco e no comia nada. Excretava continuamente uma gua esverdeada que me dilacerava o 
corpo, vomitava sangue, mais por cansao do que
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por violncia, e minha pele estava coberta de pstulas que coavam e que eu arrancava.
     Levantava-me toda manh para escovar os dentes. Era s o que eu fazia durante o dia. Voltava para minha 
rede e ligava o rdio junto ao ouvido, mas ouvia sem escutar, perdida no labirinto de pensamentos ilgicos 
composto de recordaes, imagens, um patchxvork de reflexes com que eu preenchia minha eternidade de 
tdio. Nada me tirava da minha introspeco, a no ser a voz de minha me e a msica do artista colombiano 
Juanes cantando "Suenos" - Sonhos - que eu tanto partilhava.
     Pipiolo apareceu certa noite, olhos fixos e voz melosa. Abriu meu cadeado e soltou alguns elos da corrente 
em meu pescoo. Queria que eu agradecesse:
    -                Vai se sentir melhor assim, recuperar o apetite.
     Que idiota, fazia tempos que aquela corrente j no me incomodava.
     Estava ficando cada vez mais difcil efetuar os gestos simples da vida. Um dia, no me deu vontade de 
tomar banho e me deixei ficar prostrada na cama. "Vou morrer, como o capito Guevara. Todo o mundo morre 
no Ano-Novo, assim fecha um ciclo perfeito", pensei, sem nenhuma emoo.
     Massimo vinha me ver de vez em quando.
    -                Nada - dizia, sabendo que eu continuava esperando uma resposta dos chefes. Toda vez, me 
dava a mesma cimbra.
     "Vou escrever uma carta para Marulanda", decidi. A perspectiva de realizar uma ao a fim de voltar para 
junto de meus amigos me trouxe, por alguns dias, uma animao prxima do delrio.
    -                Se voc entregar uma carta endereada ao Secretariado, o Gafas vai ter que encaminhar, sob 
pena de alguma sano - Massimo me explicou. - Entregue a carta ao Asprilla, ou ao Chqui, para que haja 
testemunhas. Eles tero de repassar para o Enrique e ela vai acabar chegando a Marulanda.
     Asprilla era responsvel pelo outro grupo, e apareceu para nos dar um al. No disfarou o espanto quando 
me viu.
    -                Os seus amigos esto muito bem - afirmou. - Esto comendo bem, fazem exerccios todo dia.
 O capito Julin Guevara adoeceu em dezembro de 2006. Como as Fare se negassem a trat-lo, veio a morrer pouco tempo depois. 
Estava num acampamento no muito distante do nosso, que se encontrava igualmente sob o comando de Enrique.
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     Quase senti raiva deles. Peguei a carta que trazia guardada no bolso e lhe entreguei. Ele abriu o papel 
dobrado em quatro, deu uma olhada e tornou a dobr-lo. Tive ento a impresso de que no sabia decifr-lo.
    -                Posso ler para voc - sugeri, de modo a descartar qualquer suspeita.
     Ele deu de ombros, dizendo:
    -                Se est pedindo para mudar de grupo, esquea. Enrique  inflexvel neste ponto.
     No ouvi mais nada. Tive a impresso de que minha vida acabava ali. Tive uma nova erupo de pstulas, 
os vmitos recomearam e senti que estava perdendo o contato com a realidade. Eu no queria mais sair de 
minha rede.
     Obrigaram-me a ir tomar banho. Ao retornar, descobri que todos os meus pertences tinham sido 
vasculhados. Tinham confiscado o caderno com as mensagens que eu continuava escrevendo, em ingls, para um 
Mare que no passava de um nome, um eco, uma ideia, talvez at uma mania - ser que ele existia de fato na 
vida real? Eu temia que tais constataes conseguissem penetrar no meu universo secreto. Mergulhei ainda mais 
profundamente na minha prostrao.
     Ligava o rdio todo dia, pela manh, num gesto mecnico que exauria, j ao amanhecer, toda a minha 
energia. O rdio estava sempre me pregando peas, parando de funcionar justo quando minha me comeava a 
transmitir seu recado. Eu me preparava desde as quatro da manh para a mensagem das cinco horas e, quando, 
por milagre, o rdio funcionava, eu ficava imvel, prendendo a respirao, hipnotizada pelas inflexes doces e 
carinhosas da voz de minha me. Quando a voz sumia, eu me dava conta de que j no lembrava o que ela 
dissera.
     Certa tarde, William veio me ver. Ele pedira autorizao e soltaram sua corrente por alguns minutos. Era 
um tratamento privilegiado, que a guerrilha s concedia a ele porque fazia as vezes de mdico do acampamento.
    -                Como voc est? - ele perguntou num tom andino.
     Estava para responder com uma frase formal quando me senti submergida por uma avalanche de lgrimas. 
Fiquei tentando encaixar uma palavra entre um soluo e outro para dizer que estava tudo bem. Aquilo durou 
mais de quinze minutos.
     Quando finalmente consegui me controlar, William se atreveu a me perguntar se tinha escutado a 
mensagem da minha me. Ento o rio de lgrimas se tornou inesgotvel, s consegui fazer que no com a cabea 
e ele foi-se embora, impotente.
     No dia seguinte, ao amanhecer, dois guerrilheiros vieram buscar todos os meus pertences para me levar 
para outro lugar. Chqui dera ordens para que 
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construssem para mim uma caleta isolada, afastada dos demais prisioneiros. Em sinal de deferncia, me 
comunicaram que s haveria mulheres me vigiando. Consolacion, a ndia de trana preta,  que estava de 
guarda.
    -                Vamos cuidar de voc - disse ela, como quem anuncia uma boa notcia.
     Depositaram ali uma caixa de papelo cheia de kits de perfuso intravenosa. Peluche, recm-promovida a 
enfermeira, se aproximou toda trmula com a ordem de se iniciar treinando no meu brao. Uma vez, duas, trs, 
na parte interna do cotovelo, a agulha atravessou a veia, negando-se a se posicionar corretamente.
    -                Vamos ter que tentar no outro brao. - Uma vez, duas, trs, na quarta ela resolveu procurar 
uma veia no pulso.
     Monster passou por ali para constatar o estrago e foi embora contentssimo.
    -                Isso  para voc aprender - escarneceu, ao nos dar as costas.
    -                Chame Willie - supliquei afinal.
     Consolacion saiu correndo, pedindo que eu esperasse. Deve ter sido muito persuasiva, pois voltou meia 
hora depois, acompanhada por William e Monster. William examinou meus braos com um franzir de 
sobrancelhas que deixou o grupo todo incomodado.
    -                Eu me recuso a dar outra picada. Ela est fazendo uma flebite. Temos que esperar at amanh. 
- Ento, votando-se para mim, disse com doura: - Coragem. Vou cuidar de voc.
     Perdi os sentidos. Quando abri os olhos, j estava escuro. Consolacion no estava mais ali. Em seu lugar, 
Katerina, com seu AK-47 a tiracolo, me observava com curiosidade.
    -                Voc tem muita sorte! - disse, com admirao. - William decidiu que no ia cuidar de mais 
ningum enquanto voc no fosse tratada como se deve.
     Ao amanhecer, a ndia estava de volta. Ps mos  obra, cortando e descascando lenha. No me passou 
pela cabea perguntar o que estava fazendo.
    -                Vou fabricar uma mesa e um banco, para voc poder se sentar e escrever.
     Eu a detestava. Eles no tinham devolvido meu caderno e l estava ela me
provocando com um privilgio que eu j no queria. Consolacion deve ter percebido o vu sombrio que encobria 
meu olhar, pois anunciou:
    -                No se preocupe, vai se sentir melhor, vamos preparar uma bela sopa de peixe para voc. - A 
gentileza dela era um fardo para mim. Tudo o que eu queria era que me deixassem em paz. A mesa j estava 
pronta quando chegou a marmita. Uma piranha grada boiava dentro dela. A mulher depositou respeitosamente a
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marmita  minha frente, como se se tratasse de um ritual sagrado. Ouvi, vindo das barracas vizinhas, os berros 
do guarda chamando os prisioneiros para a sopa. Suspirei, absorta na contemplao do animal. "No consegui 
convencer Lucho a comer os olhos", pensei.
     Lembrei de um jantar de diplomatas, quando o pai de meus filhos estava servindo em Quito. A esposa do 
oficial anfitrio tinha preparado um peixe magnfico que reinava no centro da mesa. Ela era de Vienciana. 
Nunca a esqueci, com seus cabelos negros perfeitamente arrumados num coque reluzente e seu sarongue de seda 
estampado. Ela explicou graciosamente que, no Laos, a iguaria mais apreciada eram os olhos de peixe. Enquanto 
falava, extraiu com um gesto requintado o olho viscoso do animal e o levou  boca. "Eu deveria experimentar", 
pensei, j no cativeiro, num dia em que a fome era grande. " igual a caviar!", conclu. Lucho me observava e 
ria, absolutamente enojado. Tom fora o nico a me imitar. E, como eu, achara uma delcia.
     Quando a voz de Willie me arrancou do meu torpor, ele j estava manipulando meu brao  procura da 
veia.
    -                Voc ouviu as mensagens de sua filha e sua me hoje de manh?
    -                Acho que ouvi.
    -                O que elas disseram? - ele inquiriu, como quem me tqmasse a lio.
    -                Acho que falaram em alguma viagem?
    -                Nada disso. Elas lhe comunicaram a morte de Pom, sua cadela. Mlanie estava tristssima.
     Sim, lembrei. La Carrilera comeara com uma msica maravilhosa de Yuri Buenaventura, dedicada aos 
refns. Minha impresso era que ele cantava a minha histria, o que mexeu profundamente comigo. Em seguida 
ouvi minha me. Ela havia me dito que Pom farejava por tudo procurando o meu cheiro. Que enfiava o focinho 
nas minhas roupas e andava de quarto em quarto a conferir tudo que era cantinho. "A minha Pom se foi antes de 
mim, para preparar a minha chegada", pensei comigo mesma. Eu tambm estava pronta para partir. Havia, 
naquilo tudo, uma certa ordem que me agradava. Depois, afastei-me do mundo, com o brao conectado  sonda 
cujo gotejar me enchia de um frio mortal.
     Voltei a mim em meio a fortes convulses. Queria arrancar a perfuso, sentindo instintivamente que aquilo 
estava me matando. O guarda me impediu, apavorado, e comeou a gritar pedindo ajuda. Primeiro chegou 
Monster, correndo. Tentou me segurar dentro da rede e ento, sentindo que meu corpo fugia em disparada, saiu 
em pnico pela trilha pela qual viera.
     William chegou e imediatamente tirou a sonda. Eu os ouvira discutir asperamente
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As convulses cessaram. Ele me enrolou num cobertor e eu dormi sonhando que era uma luva velha.
     A perfuso estabilizou afinal o meu estado. William veio me ver muitas vezes. Fazia massagens nas minhas 
costas, falava nos meus filhos, "eles esto te esperando, precisam de voc", e me dava caldo de peixe de colher, 
"uma colher para a sua me, uma para a sua filha, uma para o Lorenzo, uma para a Pom..." Parava por a, 
sabendo que eu recusaria o resto, e voltava mais tarde para tentar a sorte. Eu lhe agradeci. Ele ficou bravo.
     - No tem por que me agradecer. Esses monstros deixaram eu cuidar de voc porque precisam de uma 
prova de sobrevivncia.
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77. Terceira prova de sobrevivncia

Outubro de 2007

     Essa notcia me abalou. Em meio a uma espiral depressiva, eu relia as cartas de Mare. No mais, passava o 
tempo declamando para mim mesma poemas que sempre guardei na memria: "Je suis le Tnbreux, le veuf, 
l'inconsol...".* Mastigava as palavras como se fossem o melhor dos alimentos. "Porque despus de todo he 
comprendido, que lo que el rbol tiene de florido, vive de lo que tiene sepultado."**
     Eu via meu pai, de p, um dedo erguido, declamando os versos com os quais me vestia para a vida. Em 
minhas palavras, era a sua voz que eu ouvia. Voltei ainda mais longe em minhas lembranas. Eu o vi junto de 
mim, murmurando em meu ouvido: "No h silncio que no termine". Eu repetia com ele, espantando meus 
medos com a encantao vitoriosa de Pablo Neruda sobre a morte.
     Este mergulho no passado me trouxe um vigor inesperado. No foram as perfuses que me curaram. 
Foram as palavras! Eu reencontrava a mim mesma, no meu jardim secreto, e o mundo que eu vislumbrava pela 
escotilha de minha indiferena me parecia menos insano.
* "Sou o Tenebroso, o vivo, o inconsolado..." verso inicial do poema "El desdichado" (in Les Chimres, 1854), do poeta francs Grard 
de Nerval (1808-55). (N. T.)
** Composio do poeta argentino Francisco Luis Bernrdez: "Porque depois de tudo compreendi que aquilo que a rvore tem de 
florido, vive daquilo que guarda sepultado".
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     Quando Enrique apareceu, numa manh do final de outubro, eu j estava sentada no meu banco. Ao v-lo, 
a nusea voltou a se agarrar, feito um gato, na minha garganta.
    -                Trago uma boa notcia! - ele gritou, de longe.
     Queria ser cega e surda. Ele se acercou, se fazendo de traquinas, se escondendo atrs de uma rvore e me 
fazendo sinais. Consolacion o olhava divertida, soltando gritinhos ante as gracinhas do chefe.
    -                Meu Deus, me perdoe, mas eu odeio este homem - murmurei, fitando a ponta de minhas botas 
impecavelmente limpas.
     Ele continuou a bancar o engraadinho, sentindo-se mais e mais ridculo. Teve de render-se  obviedade de 
que no conseguiria nada de mim, e acabou se postando  minha frente, desconcertado.
    -                Trago uma boa notcia - repetiu, no querendo se desdizer. - Voc vai poder mandar uma 
mensagem para sua famlia - prosseguiu, sondando minha reao.
    -                No tenho mensagem nenhuma para mandar - respondi com firmeza.
     Eu tinha tido tempo para pensar bem. A nica coisa que me interessava era
escrever uma carta para a minha me, uma carta s para ela, uma espcie de testamento. No queria participar 
do circo em que as Fare tentavam me envolver.
     Tinham chegado aos meus ouvidos,  claro, os esforos realizados pelo presidente Hugo Chvez para nos 
libertar. Ele estava tentando vender s Fare a ideia de que nossa libertao poderia lhes trazer vantagens no 
mbito poltico. Uribe tambm o ouvira. Ele era o nico que podia falar com as Fare, decerto porque Marulanda 
via nele um possvel aliado depois de Chvez ter proclamado que era, tambm ele, um revolucionrio. Chvez 
tinha tambm a vantagem de ser amigo de Uribe.
     De incio, Uribe apostara no fracasso de Chvez e lhe dera rdeas soltas para tratar com as Fare. Julguei 
que Uribe, como eu, estivesse convencido de que as Fare jamais cederiam. Queriam, a um s tempo, nos colocar 
na vitrine e ficar com a mercadoria. Uribe provavelmente queria mostrar ao mundo que a organizao no 
buscava a paz e no tinha, portanto, nenhum interesse em nos soltar.
     Chvez, porm, foi rpido. J tinha se reunido com os delegados das Fare, recebera uma carta de 
Marulanda e at anunciara que o Secretariado ia lhe entregar provas de sobrevivncia que ele pretendia repassar 
ao presidente Sarkozy quando de sua viagem  Frana, prevista para o final de novembro. Eu no acreditava na 
possibilidade de um final feliz para ns, aquilo no passava de uma encenao destinada a promover as Fare.
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     No queria tomar parte naquela horrvel maquinao. Minha famlia j sofria demais. Meus filhos tinham 
crescido em meio  angstia e chegado  idade adulta acorrentados, como eu,  incerteza. Eu fizera as pazes com 
Deus. Sentia que encontrava uma espcie de paz em meu sofrimento ao aceitar o que acontecia comigo. Eu 
odiava Enrique mas, de algum modo, sabia que poderia deixar de odi-lo. Quando Enrique me encarou dizendo 
"voc sabe que posso, de qualquer forma, conseguir esta prova de sobrevivncia", tive a sensao imediata de 
que ele j perdera a parada. Senti pena dele. Claro que ele conseguiria a prova, mas para mim era indiferente. 
Nisso residia a minha fora. Ele no tinha mais poder sobre mim porque eu j aceitava a possibilidade de 
morrer. A vida inteira eu julgara ser eterna. Minha eternidade acabava ali, naquele buraco imundo, e a presena 
daquela morte prxima me enchia de uma quietude que me deleitava. No precisava mais de nada, no desejava 
nada. Estava com a alma desnudada: no tinha mais medo de Enrique.
     Tendo perdido toda a minha liberdade e, com ela, tudo o que era importante para mim; afastada  fora de 
meus filhos, de minha me, de minha vida e de meus sonhos; o pescoo acorrentado a uma rvore, sem poder me 
mexer, levantar, sentar, sem o direito de falar ou calar, comer e beber, ou mesmo satisfazer livremente as mais 
elementares necessidades de meu corpo; naquele estado de mais infame humilhao, eu ainda conservava a mais 
preciosa liberdade, que ningum jamais poderia me tirar: a liberdade de decidir quem eu queria ser.
     Ali, naquele momento, muito naturalmente, decidi que deixaria de ser uma vtima. Eu tinha a liberdade de 
optar entre odiar Enrique ou dissolver aquele dio na fora de ser quem eu queria ser. Arriscava-me a morrer, 
sem dvida, mas eu j estava alm. Eu era uma sobrevivente.
     Quando Enrique se foi, estava satisfeito, e eu tambm. Eu ia escrever uma carta para a minha me. 
Encerrei-me num isolamento. Sabia que s teria aquele dia para escrever. Dispus as folhas de papel, que 
Consolacion se apressara em trazer, sobre a mesinha que iria me servir de escrivaninha. Queria que minhas 
palavras fizessem minha me viajar at onde eu estava, que ela me sentisse e me respirasse. Queria dizer, pois 
ela no sabia, que podia ouvir suas mensagens. E queria que meus filhos falassem comigo. Queria, enfim, 
prepar-los, como eu estava preparada. Queria devolver-lhes a liberdade e lhes dar asas para a vida.
     Dispunha de pouco tempo para retomar uma comunicao interrompida havia seis anos. S tinha direito ao 
essencial. Mas sabia que eles me sentiriam em cada palavra, em todos os nossos cdigos afetivos, que poderiam 
sentir o cheiro de minha pele no traado da minha escrita, e o som de minha voz no ritmo de minhas frases.
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     Foi um monlogo ininterrupto de oito horas. Os guardas no se atreveram a me incomodar, e a tigela 
permaneceu o dia inteiro vazia ao meu lado. Minha mo me transportara por milhares de palavras com uma 
rapidez fulgurante, acompanhando meu pensamento a milhares de quilmetros.
     Quando Enrique apareceu para buscar a carta, eu no tinha concludo minha longa lista de abraos a 
enviar. Ele saiu praguejando, exasperado, mas eu obtive mais uma hora para me despedir. Foi dilacerante. Eu 
acabava de passar o dia com os meus e no queria mais deix-los.
     Ele voltou no momento em que eu assinava, e pegou a carta com uma cobia impaciente que me deixou 
constrangida. Sentia-me nua naquelas folhas que ele enfiava no bolso. Arrependi-me de no ter confeccionado 
um envelope.
    -                Voc est em muito boa forma - disse ele.
     Estava zombando. Eu no o escutava mais, estava cansada, queria ir para baixo do meu mosquiteiro.
    -                Espere, no acabou. Preciso filmar voc.
    -                No quero que voc me filme - disse, surpresa e exausta. - O combinado foi eu escrever uma 
carta, mais nada.
    -                Os comandantes aceitam a carta, mas eles tambm querem imagens.
     Pegou sua cmera digital e apontou-a para mim. O boto vermelho acendeu
e tornou a apagar.
    -                Vamos, diga alguma coisa. D um al para sua me.
     O boto vermelho acendeu de vez. Aquela prova de sobrevivncia era mais uma violao. A carta jamais 
chegaria s mos de minha me. Enrijeci-me no meu banco. "Senhor, sabes que esta prova de vida ser contra a 
minha vontade. Seja feita a tua vontade", supliquei em silncio, contendo as lgrimas. No, eu no queria que 
meus filhos me vissem daquele jeito.
     Antes de sair, Enrique deixou o meu caderno - o que eles tinham confiscado na ltima revista - em cima da 
mesa. No tive energias para me alegrar.
     Fiquei surpresa quando, trs semanas depois, o rdio anunciou que Chvez no entregara a Sarkozy as 
provas de sobrevivncia. Estaria Mono Jojoy fazendo uma jogada, para ver fracassar uma mediao na qual eu 
prpria, sem querer, comeava a acreditar? Sarkozy transformara o caso dos refns colombianos num desafio 
mundial. Desde sua eleio, trabalhara incansavelmente para que as negociaes com as Fare avanassem. Se 
Marulanda tinha anunciado provas de sobrevivncia, se elas tinham sido colhidas a tempo, por que Chvez no 
as obtivera? Ser que existia alguma guerra latente dentro das Fare, entre uma ala militarista e uma faco mais 
poltica? Eu e Willie conversamos sobre o assunto. Eu sabia que
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era a ttica dele para me obrigar a me envolver nas coisas do mundo. Ele vinha dando mostras de impecvel persistncia, acompanhando, hora a hora, minha recuperao. 
Obtivera da guerrilha que me mandassem cpsulas fortificantes e se instalara junto de mim para garantir que eu as tomasse na hora das refeies.
      Mas ns falvamos principalmente de meus filhos e minha me. Todo dia ele perguntava se eu tinha ouvido as mensagens, e eu lhe agradecia por repeti-las para 
mim, pois era um prazer conversar sobre eles.
     -                E voc, por que no recebe nenhuma mensagem?
     -                 difcil para a minha me, ela est sempre trabalhando.
      Ele se fechava feito ostra, evitando qualquer assunto pessoal. Um dia, porm, veio sentar-se do meu lado com a inteno de falar sobre o seu mundo perdido.
      Eu quis saber mais sobre o pai dele. Ele no quis falar a respeito. Como que para se justificar, disse afinal:
     -                Me di demais falar sobre isso. Acho que ainda sinto raiva por ele ter ido embora, mas  cada vez menos. Queria muito dar um abrao nele, dizer 
que o amo.
      No dia seguinte, no programa de rdio, a me dele mandou uma mensagem. Tive um sobressalto quando a anunciaram, sabendo da alegria que ele sentiria ao ouvi-la, 
e prestei ateno.
      Era a voz de uma mulher muito triste, carregando nos ombros um fardo demasiado pesado.
     -                Filho - disse ela -, o seu pai morreu. Reze por ele.
      Willie apareceu, como fazia todo dia. Permanecemos muito tempo lado a lado em silncio. No havia nada a dizer. Eu nem me atrevia a olhar para ele, de medo 
que sentisse vergonha de suas lgrimas. Disse por fim, baixinho:
     -                Fale-me sobre ele.
      Deixamos o acampamento pouco tempo depois. Eu no conseguia carregar minha mochila. Meus pertences foram repartidos entre os guerrilheiros. Eu sabia que no 
teria nem a metade deles de volta. Pouco me importava. Eu tinha a minha Bblia e as cartas comigo.
      Foi quando o rdio anunciou que o Exrcito tinha se apoderado de vdeos que alguns milicianos guardavam escondidos num bairro da zona sul de Bogot. Eram as 
provas de sobrevivncia que Chvez jamais recebera. A mediao de Chvez acabava de ser suspensa depois de uma confrontao virulenta entre ele e Uribe. Minha me 
chorava no rdio. Sabia que havia uma carta que eu tinha escrito para ela, que alguns excertos foram publicados na imprensa, mas que as autoridades se negavam a 
lhe entregar. Tambm tinham sido apreendidas as imagens gravadas por Enrique.
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     Soube que Lueho e Mare tinham tido a mesma atitude que eu, negando-se a falar diante da cmera de 
Enrique. Mare tambm escrevera uma carta a Marulanda, que foi encontrada junto com a prova de 
sobrevivncia. Nela, pedia para ficarmos juntos. Sem saber, tnhamos lutado da mesma maneira. Senti um apaziguamento muito grande. Estvamos ligados por aquele gesto 
de protesto, unidos contra todas as foras que 
procuravam destruir nossa amizade.
     Algo aconteceu com a descoberta daquelas provas de sobrevivncia que vinham revelar nosso estado fsico 
e mental. Pela primeira vez depois de tantos anos, algo mudou nos coraes. As demonstraes de compaixo e 
solidariedade se multiplicavam por toda parte.
     O presidente Sarkozy enviou uma dura mensagem televisiva a Manuel Marulanda: "[...] uma mulher em 
perigo de morte precisa ser salva [...]. O senhor tem uma grande responsabilidade, e peo-lhe que a assuma", 
declarou. " o fim do pesadelo", pensei. Fui dormir feliz, como se a infelicidade j no pudesse mais me atingir. 
As palavras dos outros tinham me curado. No dia seguinte, pela primeira vez depois de seis meses, senti fome.
     Era dia 8 de dezembro, dia da Virgem Maria. Senti uma necessidade premente de ouvir a msica l de fora. 
Estava novamente com sede de viver. Tive o prazer de escutar, por acaso, uma reprise das melhores msicas do 
Led Zeppelin, e chorei de gratido. "Stairway to heaven" era o meu hino  vida. Ouvi-la me fez lembrar que eu 
tinha sido criada para ser feliz. Entre os que me eram prximos, quem quisesse me agradar me dava um disco do 
Led Zeppelin de presente. Eu tinha todos. Tinham sido o meu tesouro no tempo em que se ouvia msica em 
discos de vinil.
     Sabia que, entre os fs, era malvisto gostar de "Stairway to heaven". Tinha se tornado demasiado popular. 
Os entendidos no podiam partilhar os gostos das massas. Mas nunca reneguei meus primeiros amores. Desde os 
catorze anos, tinha certeza de que aquela msica havia sido composta para mim. Quando tornei a ouvi-la 
naquela selva impenetrvel, chorei ao redescobrir a promessa que desde muito ela me trazia:
     And a new day will dawn
     for those who stand long.
     And theforest will echo with laughter*
* Um novo dia h de raiar para aqueles que esperam h muito tempo. E as florestas vo ressoar com risos.
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78. A libertao de Lucho

     Nosso novo acampamento era provisrio. Chqui j avisara que teramos de marchar no Ano-Novo. Pela 
manh, houve uma movimentao no acampamento, mas visivelmente no se tratava de mais uma partida: as 
barracas dos guerrilheiros no tinham sido desmontadas.
     Por volta das onze horas, apareceram as mulheres. Vinham com pratos de papelo cheios de arroz com 
galinha, lindamente enfeitado com maionese e molho de tomate. No tinha visto nada parecido desde o incio de 
meu cativeiro. Em seguida depositaram, no centro de uma mesa fabricada no dia anterior, um enorme peixe 
assado em folhas de bananeira. Contemplei, totalmente desconcertada, aquela exibio de iguarias.
     As guerrilheiras me chamaram e se acercaram com sacos cheios de presentes. Meus companheiros soltaram 
gritos de alegria ante aquele Natal inesperado. Uma preocupao imensa tomou conta de mim. Percorri 
instintivamente os arredores com o olhar, sabendo que as guerrilheiras estavam prestes a me abraar e que aquilo 
certamente tinha um preo. Ento o avistei, camuflado no meio do mato. Mais uma vez, foi trado pelo boto 
vermelho. Enrique estava de p, filmando  nossa revelia com sua pequena cmera digital. Dei meia-volta e fui 
me refugiar debaixo do meu mosquiteiro, negando-me a abrir o pacote que as mulheres, resignadas, acabaram 
deixando a um canto de minha caleta.
     Liguei o rdio, furiosa, para fugir da vergonhosa encenao preparada por
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Enrique. Estava certa de que aquelas novas tomadas de Enrique tinham por nico objetivo melhorar a imagem 
das Fare, muito abalada pela descoberta de nossas provas de sobrevivncia. Estava neste ponto de minhas 
reflexes quando a voz do jornalista me trouxe bruscamente de volta ao momento presente: as Fare haviam 
anunciado a libertao de trs refns. Consuelo, Clara e Emmanuel iam ser libertados. Pulei da rede e corri 
at os meus companheiros. A notcia foi recebida entre abraos e sorrisos. Armando se aproximou, fanfarro: 
"Os prximos seremos ns!". Fui tomada por uma onda de bem-estar. " o comeo do fim", pensei, 
imaginando a felicidade de Clara e Consuelo. Entre prisioneiros, sempre existiu a tese de que se um de ns 
sasse, os outros tambm sairiam.
     Pinchao tinha aberto o caminho. Seu xito ressoara em cada um de ns como um sinal. Nossa vez no 
iria tardar. No dia seguinte, partimos rio abaixo. Foi erguido um acampamento improvisado, com as barracas 
armadas em cachos de uva, indicando o comeo da marcha. Guerrilheiros que h muito tempo eu no via 
passaram por ns carregando um pau grande no ombro.
     - Veja - disse William -, so os guardas do outro grupo. Eles devem estar bem prximos.
     O Natal chegou em meio  esperana de cruzar com eles. O dia havia sido quente. Enquanto voltvamos 
do banho, subindo uma ladeira ngreme e nos segurando nas razes das rvores, uma tempestade diluviana 
sacudiu a floresta e nos atingiu antes de conseguirmos chegar s caletas. O vento furioso tinha arrancado tudo 
e a chuva, aoitando de vis, deixara tudo encharcado. Quase me esqueci do meu aniversrio. Passei a noite 
imaginando o que meus filhos estariam fazendo. Ouvi a mensagem deles, ao lado do pai, me desejando um 
feliz aniversrio.
     Estava em paz por saber que estavam juntos. Sabia que tinham lido minha carta e sentia que algo 
fundamental acontecera. Eles tinham ouvido a minha voz interior. Havia, nas palavras deles, leveza e 
esperana. As feridas comeavam a cicatrizar.
     Sentia tambm que as asas de Sbastien, Mlanie e Lorenzo cresciam na certeza de meu amor por eles. 
Tanto Astrid como minha me eram firmes como a rocha, e me passavam coragem pela tenacidade de sua f. 
Astrid repetia: "Como dizia Pap, armas com discrio, ao passo dos vencedores", e sabia que com isso fazia 
maravilhas dentro de mim. E gostei de imaginar que se Fabrice estivesse ali comigo, carregaria minha 
mochila e me daria a mo sem nunca soltar.
     No dia seguinte ao Natal de 2007, recomeamos a andar. Eu no levava praticamente nada na mochila, e 
surpreendeu-me a fraqueza de minhas pernas. Meus msculos tinham se desmanchado e eu tremia a cada 
passo que dava.
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     Willie, desde o comeo, permaneceu muito atento. Ajudou-me a desmontar a barraca, a fechar meu equipo. 
Abotoou meu casaco at o pescoo, puxou meu chapu at as orelhas, enfiou minhas luvas e me ps uma garrafa 
de gua na mo.
    -                Beba o quanto puder - ordenou como mdico.
     Ele saiu com o grupo, depois de mim, mas foi o primeiro a chegar no local do novo acampamento.
     Quando cheguei, estava tudo pronto me esperando. Ele tinha recuperado os pertences que uns e outros 
levavam para mim, montara minha barraca e instalara minha rede. Cheguei ao cair da tarde, muito cansada.
     Dormi com um olho aberto, nervosa  ideia da marcha do dia seguinte, e comecei a arrumar minhas coisas 
antes de os guardas chamarem, para j no ter nada a fazer quando o rdio transmitisse minha me. Minha irm 
estava l. Eu gostava das mensagens de Astrid. Seu julgamento, como o de meu pai, era sempre perspicaz. "J 
faz muitos anos que ela no tem Natal, nem Ano-Novo, nem aniversrio", pensei, o corao apertado. Ela e 
minha me tinham pedido ao presidente Uribe que tornasse a aceitar a mediao de Chvez junto s Fare. 
Armando tambm ouviu a mensagem delas, assim como a da me dele, que ligava todo dia.
    -                Elas esto otimistas, os prximos seremos ns, voc vai ver!
     Eu o abracei, nostlgica. No tinha tanta certeza.
     A marcha foi suspensa no dia 31 de dezembro. O Ano-Novo era a nica festa que as Fare se permitiam. 
Chegamos a um lugar maravilhoso, com uma torrente de gua cristalina que serpenteava serenamente entre 
rvores imensas. Estvamos a um dia de distncia do outro grupo. Meus companheiros encontraram pertences de 
Lucho, Mare e Berneo no espao que amos reutilizar para montar nossas redes e barracas. William estava 
contente, Monster lhe dera um bom lugar para a sua caleta,  beira do crrego. Fui ter com ele, hesitante. Sabia 
que ele no gostava muito dos rituais que nos ligavam ao mundo externo.
    -                William, queria te pedir um favor.
     Ele ergueu os olhos, divertido.
    -                Estou sem tempo - respondeu brincando.
    -                 o seguinte:  o aniversrio da minha me. Eu queria comemorar de alguma maneira. Pensei 
em cantar "Parabns", mas acho que as ondas chegam at ela com mais fora se cantarmos em vrios. Na 
verdade, no tenho vontade de cantar sozinha.
    -                Voc quer que eu d uma de palhao para te agradar? - ele exclamou sem entusiasmo. - Est 
bem, pode comear.
     Cantamos, baixinho, e achamos muita graa, como duas crianas fazendo
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uma travessura. Ele ento pegou um pacotinho de biscoitos que ele guardara do Natal de mentira de Enrique e 
brincamos de comidinha, fazendo de conta que cortvamos o bolo.
    -                Hoje  o ltimo dia do ano - disse eu. - Vamos fazer uma lista das coisas boas que nos 
aconteceram este ano e agradecer aos cus.
     Sorri. Na selva, eu j no rezava pelo que esperava receber do ano seguinte, e sim por aquilo que j 
recebera.
    -                No. Eu no falo mais com Deus - disse Willie. - Estou bravo com ele, e ele comigo. Eu sou 
cristo, entende? Fui criado na maior disciplina e exigncia moral. No posso falar com ele sem estar em regra.
    -                Encare como uma questo de educao. Se algum faz alguma coisa por voc, voc agradece.
     Willie se fechou feito ostra. Eu acabava de invadir uma zona proibida. Retrocedi.
    -                Bem, a gente s faz a lista. Veja bem, a gente tem a liberdade do Pinchao, a libertao da 
Consuelo, da Clara, do Emmanuel.
    -                E a libertao dos deputados do Valle dei Cauca - ele respondeu com amargura.
     Eu sabia que ele mencionava a desgraa deles para no falar na sua prpria. Ento, como quem volta de 
longe, ele disse:
    -                Este  um lugar muito bonito.  uma sorte esperar pelo Ano-Novo aqui. Vamos chamar este 
lugar de "Cano bonito".
     A marcha que se seguiu foi um calvrio. Tivemos de escalar os flancos de uma alta montanha, dormindo 
vrias noites em suas encostas, agarrados  terra como piolhos. Lavamo-nos numa torrente que caa l do alto, 
quicando em pedras enormes polidas pela correnteza. A gua era gelada, e o cu, sempre cinzento. Tive 
vertigem ao olhar para baixo. "Se escorregar, eu morro."
     Depois, atravessamos um planalto que eu reconheci: as rochas de granito, o cho de ardsia, o mato de 
arbustos espinhosos e as pirmides de pedra negra. Meus companheiros acabavam de passar por ali, pisando o 
mesmo cho, os mesmos lugares, e eu olhava o solo na esperana de que tivessem deixado um sinal para mim.        
     Ao chegar ao p da montanha, prximo a um grande rio, a caravana que formvamos estacou de repente. 
Um dos guerrilheiros tinha tropeado num estranho instrumento, fincado no cho bem no meio da trilha por 
onde estvamos passando.
     A haste metlica era a parte visvel de um sistema sofisticado, enterrado a um
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metro de profundidade. Aparentemente, havia 
uma pilha conectada a um painel 
solar situado em algum ponto no meio das 
rvores, uma cmera e uma antena. 
O conjunto estava dentro de uma caixa metlica 
que a guerrilha, num primeiro 
momento, julgou ser uma bomba.
     Enrique mandou desenterrar tudo com a 
maior cautela, e enfileirar cuidadosamente o material sobre um plstico imenso. 
Os elementos apresentavam 
inscries em ingls. Ele julgou necessrio 
mandar chamar um tradutor para 
decifr-las.
     Quem sabe o tradutor fosse Mare! Ao ir at 
o rio buscar gua, seria possvel avist-lo. Foi Keith, porm, o encarregado 
da misso. Passou horas, com 
Enrique, revisando todos os aparelhos. A 
informao chegou quase instantaneamente at ns. Tratava-se de um material 
americano usado pelo Exrcito colombiano. A cmera servia para enviar imagens via 
satlite. O sistema era dotado de 
um sensor que ligava a cmera ao detectar 
vibraes no solo. Se algum animal 
ou pessoa andasse naquela trilha, era acionada a 
tomada de imagens. De modo 
que algum, nos Estados Unidos ou na 
Colmbia, tinha nos visto, em tempo 
real, passando por ali.
     Minha alegria foi imensa. No porque o 
Exrcito colombiano talvez nos tivesse localizado, mas porque meus amigos 
estavam a apenas poucos metros dali e 
talvez pudssemos ficar juntos novamente.
     Meus camaradas, os soldados colombianos, 
estavam, quanto a eles, furiosos. 
Percebi que parlamentavam, cochichando de 
costas para os guardas, visivelmente 
exasperados.
    -                O que foi? - perguntei a 
Armando.
    -                Isso  traio. Essa informao 
no podia ter chegado ao inimigo - disse 
ele num tom militar, o cenho franzido.
     Mandaram-nos descer at o rio. Na outra 
margem, a uns duzentos metros 
de distncia, avistamos os companheiros do 
outro grupo tomando banho. Acenei 
para eles. No responderam. Talvez no 
tivessem me visto. A margem era desimpedida daquele lado, mas no do nosso. Ou 
talvez um guarda mais difcil estivesse 
vigiando.
     No incio da tarde, chegamos a um antigo 
acampamento das Fare debaixo 
de uma chuva torrencial, como nufragos. 
Enrique, o magnnimo, mandou abrir 
uns engradados de cerveja deixados no 
acampamento abandonado. Enquanto esperava que dessem a ordem de montar as 
barracas, liguei o rdio. A transmisso 
estava pssima, mas me grudei no aparelho com 
a esperana de acompanhar os 
detalhes da libertao de Clara. Meus camaradas 
fizeram o mesmo. A transmisso
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foi longa, e bem depois que terminamos de instalar o acampamento, ainda pudemos ouvir as declaraes de um 
Chvez satisfeito.
     "Haver outras libertaes", ele anunciou.
     "Mas ainda no ser a minha", suspirei, enquanto escutava um comunicado de imprensa em que Sarkozy 
elogiava as grandes mobilizaes, na Frana e na Amrica do Sul, e pedia perseverana.
     Para onde estvamos indo? Para lugar nenhum, provavelmente. Minha impresso era de que tnhamos 
passado semanas andando em crculos. Caminhvamos feito almas penadas naquela selva indomvel, sempre 
prestes a morrer de fome.
     Chegamos, depois de um ms, a um acampamento j existente. No o reconheci de imediato, pois entramos 
pelos fundos. Foi s quando vi a cancha de vlei que entendi que estvamos de volta ao acampamento em que 
passramos o Natal do ano anterior, onde Katerina tinha danado cumbia.
     Estava tudo apodrecido. Minha caleta estava tomada de formigas e cupins. Achei um frasco que eu tinha 
deixado para trs e um grampo de cabelo que tinha perdido. Deram ordem para montarmos as barracas 
enfileiradas no campo de vlei.
     Armando me chamou aos gritos.
     - Veja, seus amigos esto a.
     De fato, atrs de uma fileira de arbustos, a cinquenta metros de ns, o grupo de Lucho e Mare tambm 
tinha erguido acampamento. Lucho estava de p, fazendo sinais para ns. No vi Mare.
     Quando veio a ordem de nos prepararmos para o banho, fiquei pronta em seguida. Para ir at o rio, 
teramos de passar bem perto das barracas deles. Estava emocionadssima  simples ideia de conseguir 
cumpriment-los. Mare e Lucho esperavam por ns na entrada da trilha, braos cruzados, lbios cerrados. Passei 
na frente deles, com meu traje de banho mais remendado que antes. Minha alegria deu lugar ao constrangimento. 
Vi nos olhos deles o horror de me ver no estado em que me encontrava, com o qual eu no me preocupara, 
mesmo porque no tinha espelho. Logo fiquei sem jeito ao ser observada daquela maneira, at porque eles, por 
sua vez, pareciam estar em melhor forma, mais musculosos, e aquilo curiosamente me doeu.
     Vim andando sem pressa na volta do banho. No estavam mais l. Vi o guarda deles tratando de distribuir 
a refeio da noite. Era sbado, voltei para a minha caleta, me organizando mentalmente para escutar as 
mensagens a partir da meia-noite. Verifiquei que o alarme do meu relgio estava ligado e me acomodei para 
passar a noite.
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     J tinha escutado as mensagens da minha famlia quando o rdio interrompeu a programao para anunciar 
uma notcia importantssima de ltima hora:
     "As Fare anunciam para breve a libertao de trs refns."
     Dei um salto, grudada no rdio, segurando a respirao, acabavam de proferir o nome de Lucho.
     Consegui conter um grito que me ficou atravessado na garganta. Ajoelhei-me, corrente no pescoo, 
agradecendo aos cus entre dois soluos. Minha cabea girava com o impacto da emoo. "Meu Deus, ser que 
escutei direito?" O silncio  minha volta me desconcertou: "Quem sabe escutei errado?" Todos os meus 
companheiros deviam ter ouvido a mesma coisa. No houve, porm, nenhum movimento, nenhum rudo, 
nenhuma voz, nenhuma emoo. Esperei, tremendo de impacincia, que repetissem a notcia. Lucho, Gloria e 
Orlando iam de fato ser libertados.
     Pulei para fora da barraca aos primeiros clares da aurora. Ainda presa  corrente, busquei com os olhos o 
lugar onde tinha avistado Lucho no dia anterior. Ele estava ali, me esperando.
    -                Lucho, voc est livre - gritei quando o vi.
     Pulei, me arriscando a arrancar o pescoo fora, para melhor enxerg-lo:
    -                Lucho, voc est livre - gritei, chorando, indiferente s repreenses dos guardas e aos 
murmrios de meus companheiros, irritados com uma felicidade que no podiam partilhar.
     Lucho fez que no com o dedo, a mo diante da boca, chorando.
    -                 sim,  sim! - retruquei, teimosa, com amplos movimentos de cabea.
     O qu? Seria possvel que ele no estivesse sabendo? Gritei com mais fora:
    -                Voc no ouviu o rdio ontem  noite? - berrei, acompanhando minhas palavras com gestos 
passveis de ilustrar minha pergunta.
     Ele fez que sim com a cabea, rindo e chorando ao mesmo tempo.
     Os guardas estavam fora de si. Pipiolo me insultou e Oswald saiu em disparada na direo da cabana dos 
comandantes. Asprilla chegou correndo, disse alguma coisa a Lucho enquanto lhe dava uns tapinhas nas costas e 
veio at mim: "Calma, Ingrid. No se preocupe, a gente vai deixar ele se despedir de voc". Compreendi que 
iriam separar Lucho do grupo nas prximas horas. "No vo deixar eu falar com ele", pensei.
     Veio a ordem de transferirmos nossas barracas para o local de nosso antigo acampamento. De l, eu no 
tinha como avistar Lucho. Mas, na pressa de nos proibir todo tipo de comunicao, eles desconheceram o fato de 
que os chontos usados pelo outro grupo ficavam a poucos passos de nossas barracas. Era constrangedor
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para eles, mas ningum tinha reclamado. Mare foi o primeiro a perceber e se aproximar. Falamo-nos atravs de 
sinais e ele prometeu que iria buscar Lucho.
     Lucho chegou, muito tenso. Conversamos sem transpor a distncia de dez metros que nos separava, como 
se uma muralha se erguesse entre ns. Seguindo um impulso, virei-me para o guarda, o mesmo que eu agarrara 
no pescoo para revidar sua grosseria.
    -                Pode ir - disse ele. - Tem cinco minutos.
     Corri para Lucho e nos abraamos com fora.
    -                Eu no vou sem voc!
    -                Vai, sim, voc tem que ir. Tem que contar ao mundo tudo que estamos passando.
    -                No vou conseguir.
    -                Vai, sim. Voc tem que conseguir.
     E, tirando o cinto que estava usando, acrescentei:
    -                Quero que entregue isso para a Mlanie.
     Apertamos as mos em silncio, o nico luxo que podamos nos permitir. Tinha tanta coisa para lhe dizer! 
Sentindo que o fim se aproximava, quis lhe arrancar uma ltima promessa.
    -                Pode pedir o que quiser.
    -                Lucho, me prometa que vai ser feliz. No quero que estrague a alegria de sua libertao 
ficando triste por minha causa. Quero que voc jure que vai abraar a vida com tudo.
    -                O que eu juro  que, na minha vida nova, no vou deixar um segundo sequer de trabalhar pela 
sua volta!
     A voz do guarda nos trouxe de volta  realidade. Jogamo-nos mais uma vez nos braos um do outro, e senti 
lgrimas me escorrendo pelo rosto, sem saber direito se eram minhas ou dele. Observei-o se afastar, curvado, 
passos pesados. No seu acampamento, comeavam a desmontar as barracas. Eles foram evacuados naquele 
mesmo dia.
     No vimos mais os membros do outro grupo. Contudo, imaginava que no deviam estar muito longe. Em 
27 de fevereiro, trs semanas aps nossa despedida, Luis Eldio aterrissou no aeroporto de Maiqueta, em terras 
venezuelanas, junto com Gloria, Jorge e Orlando. Sua libertao representou um incontestvel xito diplomtico 
para o presidente Chvez.
     Escutvamos a transmisso, acorrentados, encolhidos debaixo dos mosquiteiros, tentando imaginar o que 
no podamos ver. Deviam ser umas seis horas da tarde, o cu do crepsculo devia estar refrescando o ar 
pegajoso de Caracas.
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O canto das cigarras conseguia sobrepujar o barulho das turbinas do avio, que eu imaginava ser grande. Ou era 
em volta da minha caleta que cantavam as cigarras?
     A voz de Lucho estava cheia de luz. Ele tinha se fortalecido nas semanas que antecederam sua libertao. 
Suas palavras estavam claras, e suas ideias, precisas. Que sentimentos estaria experimentando? Ele voltara para 
o mundo. Para ele, tudo aquilo que eu estava vivendo agora pertencia ao passado, como por um passe de mgica, 
um estalar de dedos. Esta noite, ele teria de apagar a luz apertando um boto, teria lenis limpos numa cama de 
verdade, gua quente ao abrir a torneira. Ser que se deixaria tragar por aquele mundo novo, ao redescobrir os 
reflexos de uma vida inteira? Ou faria uma pausa ao acender a luz pensando nisso, iria deitar pensando nisso, 
escolher seu jantar lembrando disso? "Sim, na hora de jantar ele vai voltar para c por alguns instantes."
     Armando gritou do seu cambuche:
     - Os prximos seremos ns!
     A voz dele me doeu. No, eu no. Eu no estaria na lista das libertaes das Fare. Disso eu tinha certeza.
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79.                A discrdia

Maro-abril de 2008

     A marcha se estendeu sem objetivo. Passamos alguns dias dormindo num leito de granito  
beira de um rio preguioso, assediados pelas moscas que espedaavam os restos ftidos de 
peixes cados entre as rochas com a descida das guas. Depois, nos transportaram para a outra 
margem.
     - Eles vo trazer mantimentos - explicou Chqui, apontando o queixo para Monster e mais 
dois rapazes que estavam indo embora com equipos vazios.
     Ficamos esperando. Eles nos autorizaram a pescar com anzis que recolhiam ao cair da 
tarde. Isso incrementou nossas raes.
     Uma noite, Chqui veio avisar para arrumarmos tudo, pois iramos embora assim que o 
bongo atracasse. Fizemos uma breve travessia, um salto minsculo, e passamos o resto da noite 
numa margem lamacenta. Pela manh, recebemos a ordem de nos esconder no mato, proibio de 
falar, ligar o rdio e montar barraca. Ao meio-dia, vimos passar os companheiros do outro grupo, 
em fila indiana atrs de Enrique. No pescoo levavam, feito cachorros, uma coleira que um 
guarda andando atrs deles segurava, enquanto apontava o fuzil para eles.
     No conseguia me acostumar  viso de uma corrente no pescoo de um homem. Meus 
companheiros passaram rente, quase tropeando em ns, no quiseram nos dirigir a palavra nem 
sequer olhar para ns. Mare passou, levantei-me para olhar para ele na esperana de que voltaria 
a cabea. Ele no o fez.
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     Eu fingia no estar interessada.
     Tivemos de segui-los. Tambm em silncio, e tambm levados por uma coleira. Monster acabava de ser 
morto por uma patrulha do Exrcito. Um dos rapazes conseguira fugir e lanar o alerta. Estvamos cercados 
pelos militares.
     A fuga foi extenuante. Para despist-los, Enrique ordenou que andssemos em cortina, ou seja, no 
caminhvamos mais em fila indiana, um atrs do outro, e sim avanando lado a lado numa linha de frente de 
uma s fileira.
     Cada qual tinha ento que abrir seu prprio caminho em meio  vegetao, cuidando para no quebrar 
nenhum galho ou amassar as folhagens. Era uma luta corpo a corpo contra a natureza. Cada um de ns tinha um 
guarda segurando-lhe a coleira. O meu se irritava comigo porque eu tendia a passar por onde j passara o meu 
colega do lado, de modo que ia ficando para trs, quebrando a continuidade da linha de frente.
     Verdade  que eu atrasava o avano de todos, talvez porque, mesmo inconscientemente, esperasse que o 
Exrcito nos alcanasse. Enquanto atravessava as paredes de espinhos, passava sobre os brancos cadveres das 
dezenas de rvores calcinadas que nos barravam o caminho, buscava uma passagem em meio aos cips e razes 
de uma vegetao hostil, eu fantasiava o surgimento, diante de mim, de um comando de soldados com o rosto 
pintado de verde.
     Eles nos atacariam, meu guarda ferido soltaria a minha corrente e eu iria correndo me abrigar junto deles. 
Eu sonhava com a liberdade. Com isso, acabava tropeando, indo na direo errada, enroscava braos e pernas 
nos cips, e o guarda ameaava me enfiar uma bala na cabea porque eu estava fazendo de propsito e 
estvamos todos assustados.
     Eu rezava todo dia para aparecer uma operao militar de resgate, mesmo que fosse grande o risco de 
morrer. No era s pela certeza de, acontecesse o que acontecesse, ser poupada pelas balas ("se no tinha 
morrido at o momento, no iria morrer logo agora"). Era mais forte que eu. Era no fundo, antes de mais nada, 
uma necessidade de justia. O direito de ser defendido. A aspirao essencial  reconquista da prpria 
dignidade. Mas no havia muito que eu pudesse fazer.
     Aquela marcha, em meio a uma luta tenaz contra os elementos, com a corrente no pescoo, era ainda mais 
penosa e humilhante pelo fato de me obrigar a investir engenho e vontade para fugir do que eu mais queria, 
recobrar minha liberdade. Censurava-me por cada passo que eu dava.
     Mais uma vez, transpusemos os limites da mata e deambulamos em terrenos de fincas imensas 
recentemente queimadas pelas tropas antidroga. Algumas cabeas de gado nos olhavam passar, assustadas, 
enquanto enchamos os bolsos
 529


de goiabas e tangerinas colhidas em rvores frondosas poupadas pelo fogo. Ento tornvamos a sumir sob a copa 
espessa da selva.
     Numa tarde do ms de abril, quando chegamos junto a um grande rio de guas tranquilas e eu no queria 
nada da vida alm de um banho e algum descanso, Chqui veio at mim e me fez sair da fileira em que nos 
faziam esperar.
    -                Recebemos um comunicado do Secretariado. Deram ordem para te mudar de grupo.
     Dei de ombros, sem de fato acreditar no que ele dizia.
    -                Arrume suas coisas, vamos efetuar a troca imediatamente.
     Minutos depois, eu estava no cho, tomada de angstia, enfiando do jeito que dava meus poucos pertences 
na mochila.
    -                No se preocupe - dissera William, de p atrs de mim -, vou ajudar
voc.
     Seguindo El Chqui, atravessamos um pequeno crrego com o leito coberto de pedrinhas cor-de-rosa e 
escalamos sua margem em abrupto aclive. Camuflado entre as rvores, a cem metros de ns, o outro 
acampamento, j erguido para a noite, fervilhava de atividade. Enrique estava de p, braos cruzados, olhar 
assassino.
    -                L! - resmungou ele, apontando a direo com o queixo.
     Segui com os olhos sua indicao e vi as barracas de meus companheiros amontoadas uma sobre a outra. 
Eu tremia de impacincia  ideia de rever Mare.
     A barraca dele era a primeira do alojamento. J tinha me visto e estava parado, ereto, diante de sua caleta. 
No se movia. Tinha uma pesada corrente em volta do pescoo. Adiantei-me. A alegria que eu sentia ao rev-lo 
era diferente do que eu havia imaginado. Era uma alegria triste, uma felicidade cansada de tantas provaes. 
"Ele est em boa forma", pensei, observando-o mais de perto, como que justificando meu ressentimento.
     Abraamo-nos contidamente, nossas mos se apertaram por um instante e se soltaram em seguida, como 
que intimidadas por reviver uma proximidade que nunca tnhamos tido.
    -                Lembrei muito de voc.
    -                Eu tambm.
    -                Tive medo.
    -                Eu tambm.
    -                Agora a gente vai poder conversar.
    -                , acho que sim - respondi, sem ter certeza.
     O guarda atrs de mim se impacientou.
530
 

    -                Queria as minhas cartas de volta.
    -                Se quiser... E voc me devolve as minhas?
    -                No.
    -                Por qu?
    -                Porque quero ficar com elas tambm.
     O pedido dele me surpreendeu. As cartas estavam no meu bolso. Bastava devolv-las. Mas no fiz isso. 
"Amanh a gente v", pensei, sentindo que havia muito trabalho pela frente at reconstruirmos as pontes.
     Meus companheiros prosseguiram suas atividades sem cerimnias. Cada qual se ocupava no seu canto, 
tomando o cuidado de no perturbar o vizinho e no mexer com as suscetibilidades.
     Nos dias seguintes, retomei cautelosamente as conversas com Mare. Sentia uma alegria imensa em passar 
novamente alguns momentos com ele, mas tinha disciplinado minhas emoes e me obrigava a usar com 
parcimnia a liberdade que tinha de falar com ele.
    -                Sabe que o Monster morreu? - perguntei-lhe um dia, julgando que ele j no estava mais ali 
para nos prejudicar.
    -                Sim, me disseram.
    -                E ento?
    -                Nada. E voc?
    -                Isso mexeu comigo. Eu vi quando ele saiu do acampamento com o equipo vazio. Estava indo 
ao encontro da morte. Ningum sabe o dia nem a hora. Todos os que nos perseguiram acabaram mal. Voc sabia 
que o Sombra foi capturado?
    -                Sim, escutei no rdio. O Rogelio tambm morreu, na Macarena.
    -                O Rogelio? O nosso recepcionista na priso de Sombra?
    -                . Foi morto numa emboscada. Ele tinha se tornado particularmente cruel com a gente. E o 
que  feito da Shirley, a guerrilheira bonitinha que fazia as vezes de enfermeira e dentista do Sombra?
    -                Faz tempo que eu no a vejo. Est no grupo dos militares, com Romero e Rodriguez. Eles 
fazem parte da caravana que est na nossa frente. Ela agora est com o Arnoldo, aquele que ficou no lugar do 
Rogelio na priso de Sombra.
     O nosso mundo era aquele. Nossa sociedade, nossas referncias, nossos conhecidos comuns eram os 
homens e mulheres que nos mantinham prisioneiros.
     Com Mare, tomamos a resoluo de recomear a fazer ginstica juntos. Estvamos sempre mudando de 
acampamento, mas j no era uma marcha contnua. Ficvamos duas semanas  proximidade de um crrego, trs 
semanas  margem do rio, uma semana atrs de uma plantao de coca. Em cada lugar, dvamos um
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jeito de montar umas barras paralelas e fabricar halteres com pesos. Nossa rotina de exerccios tinha um 
objetivo definido, o de preparar a nossa fuga.
    -                Temos que fugir na direo do rio. Depois, ir para onde esto os helicpteros - dizia Mare 
com obstinao.
    -                Os helicpteros esto o tempo todo mudando de direo. No d para prever onde eles vo 
estar. Temos que fazer o que fez o Pinchao. Ir para o norte.
    -                Mas isso  loucura! A gente no vai ter mantimentos para chegar a Bogot!
    -                Mais loucura ainda  achar que a gente consegue alcanar a base dos helicpteros. Essa base 
no  fixa, eles esto um dia aqui, outro acol.
    -                Tudo bem - Mare acabava concordando -, a gente vai at o rio em direo aos helicpteros, e 
depois segue para o norte.
     Mas o nosso plano de fuga enfrentava cada vez mais dificuldades.
     A histria das cartas que ele me pedia estava virando um srio motivo de tenso entre ns. Eu tentava 
evitar o assunto, mas ele sempre voltava a ele. Aos poucos, fui me distanciando, limitando nossos momentos 
juntos aos exerccios fsicos. Ficava triste com isso, mas no via como sair daquela confrontao absurda.
     Certa tarde, depois de uma discusso mais acalorada que de costume, um dos guardas veio falar comigo.
    -                Qual  o seu problema com o Mare? - inquiriu.
     Respondi com uma evasiva. William me passou um sermo.
    -                A autoridade aqui so eles - alertou-me. - Pode haver uma revista a qualquer momento.
     Eu sabia que ele tinha razo. As cartas poderiam ir parar, de repente, nas mos da guerrilha. Resolvi 
queimar as que estavam comigo, certa de que Mare no iria me devolver as minhas.
     Durante uma das marchas breves que tomamos o hbito de fazer, consegui queimar uma parte sem ser 
vista.
     Pelo menos foi o que pensei, pois uma guerrilheira tinha observado meus movimentos e alertado Enrique. 
Fui convocada. William me puxou  parte:
    -                Diga as coisas como elas so. Eles j sabem da histria das cartas.
     Enrique foi seco:
    -                No quero ver problemas entre os prisioneiros. Devolva ao seu companheiro o que lhe 
pertence, eu vou dar um jeito de ele devolver o que  seu - disse ele de chofre.
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     Embora humilhada por aquela situao, a atitude de Enrique me tranquilizou. Ele no parecia estar 
particularmente interessado nas cartas. Senti que estava feliz da vida por poder dar uma de juiz entre Mare e 
mim. Era a sua vingana pessoal.
     Mare tambm foi convocado. Estvamos num acampamento diferente, bem no meio de uma plantao de 
coca germinando, com rvores frutferas no meio e, rente  plantao e em suas extremidades, altos mamoeiros 
solitrios. Duas casas geminadas de madeira e um forno de argila completavam o conjunto.
     Tinham nos instalado num matinho atrs da plantao. Enrique armara sua barraca logo atrs das casas de 
madeira, no quintal, antes da orla da mata. Mare ficou algum tempo discutindo com Enrique. Quando voltou, fui 
ter com ele. Mare estava com sua fisionomia dos dias ruins, me fez esperar, enquanto terminava de guardar suas 
coisas no meu equipo, antes de falar comigo. Essa histria era realmente muito boba. Teria bastado uma palavra 
para que desabassem as muralhas que se erguiam entre ns. Seu olhar furioso me bloqueou. Entreguei o rolo de 
cartas, que ele pegou sem olhar. Hesitava em revelar que j no estavam todas ali, e fiquei ali plantada, 
pensando em como lhe dizer. Ele ergueu um olhar duro e me disse, equivocado quanto ao motivo da minha 
espera:
    -                Vou ficar com as suas tambm, sinto muito.
     Por que ele queria ficar com elas a qualquer custo? Ser que planejava us-las mais tarde? A 
desconfiana tomou conta de mim.
     No dia seguinte, depois da refeio matinal, Enrique mandou El Abuelo como mensageiro, com a ordem de 
pegarmos nossos equipos e irmos nos instalar numa das casinhas de madeira.
    -                Vo passar uns filmes para vocs - ele anunciou.
     Ningum acreditou, pois a ordem de levar nossas mochilas s podia estar ligada a alguma outra lgica.
     O grupo foi dividido em dois. Mare, Tom e Keith foram para a segunda casinha e ns ficamos na casa 
contgua ao forno. El Abuelo pediu para Mare abrir a mochila e tirar todos os seus pertences. Inspecionou cada 
objeto cuidadosamente e demonstrou interesse pelo caderno de Mare, que lhe servia de dirio. Ele me chamou.
    -                Isso aqui  seu? - perguntou, mostrando o caderno.
     Fiquei parada dentro da casa, me recusando a transpor o espao entre mim e eles. Um guarda se 
aproximou.
    -                Vamos, mexa-se! No v que o camarada est chamando - disse, irritado.
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     As casinhas eram construdas sobre pilotis a um metro do solo. Saltei para o cho e me aproximei.
    -                Isso no  meu - respondi.
     Mare, por um momento, pareceu perturbado e ento disse, para se recompor:
    -                J posso guardar as minhas coisas?
     Meus outros dois companheiros vociferavam e faziam gestos de exasperao, indignados por terem sido 
obrigados a ficar esperando com seus equipos. J El Abuelo estava irritado com o comentrio de Mare. Estava 
saindo, sua misso cumprida, mas mudou de ideia:
    -                Voc! Abra seu equipo! - disse, furioso, a Keith.
     Fez-se um silncio mortal.
     Escutei o guarda exclamar, asperamente:
    -                Isso  para ele aprender a bancar o Rambo!
     Os outros guerrilheiros, que estavam prximos do forno fazendo a comida, caram na risada. Massimo 
estava com eles. Veio para perto de mim, observando a cena.
    -                Ui! - ele exclamou, sacudindo a mo como se sentisse dor. - Esse a tem uma lngua ruim 
demais!
     Aquela srie de reaes me deixou um gosto amargo. "Que estrago", pensei, fitando Mare enquanto ele 
guardava suas coisas. As cartas j no tinham importncia. "A amizade dele era a nica coisa a preservar."
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80. O Sagrado Corao

Junho de 2008

     Mergulhei numa imensa melancolia. O fato de no poder falar com Mare, j no por causa da guerrilha, 
mas de nossa prpria teimosia, me fizera perder o interesse por tudo.
     Antes de chegar ao acampamento das duas casinhas, ainda durante a marcha, Asprilla me trouxe um 
dicionrio Larousse grande, o mesmo que eu tinha pedido a Mono Jojoy anos antes. Eu sabia que ele estava no 
acampamento havia muito tempo. Consolacion e Katerina tinham me avisado, no perodo em que eu estava no 
isolamento, convalescendo no grupo de Chqui.
     Na poca, era Monster que o carregava. Ele s vezes deixava que eu o folheasse. Em troca, queria que eu 
lhe explicasse como fora a Segunda Guerra Mundial. As mulheres tambm aproveitavam, encantadas, e 
ficvamos olhando o dicionrio enquanto elas faziam minhas tranas.
     "Monster est morto, ningum mais quer carregar", pensei. Achei que Mare fosse querer consult-lo, mas 
ele se negou a mostrar qualquer interesse. Keith no raro o pedia emprestado, e combinamos que eu o deixaria 
fora do meu equipo enquanto estivesse fazendo ginstica para que ele pudesse us-lo  vontade. Mas sua 
curiosidade no durou muito e, por fim, William era o nico que passava horas consultando o dicionrio.
     Certa tarde, enquanto esperava que William terminasse de us-lo e matava o
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tempo conferindo os programas de rdio em ondas curtas, a voz de um homem falando sobre as "promessas do 
Sagrado Corao" chamou minha ateno. Talvez porque, quando criana, eu ia com frequncia  baslica do 
Sacr Cur em Paris, ou talvez porque me tocasse a palavra "promessa", o fato  que parei de girar o boto da 
sintonia para ouvir.
     O homem explicava que o ms de junho era o ms do "Sagrado Corao" de Jesus e listava as graas 
concedidas queles que o invocavam. Peguei rapidamente um lpis e anotei num pacote de cigarros as 
promessas que consegui gravar.
     Duas delas pareciam expressar particularmente uma de minhas mais profundas esperanas: "Derramarei 
minhas bnos sobre todos os seus projetos", "Tocarei os coraes mais duros". Meu projeto era simplesmente 
nossa liberdade, minha e de todos os meus companheiros. Aquele era um reflexo imediato. A transformao dos 
coraes endurecidos era uma promessa feita sob medida. Muitas vezes, nas conversas com Pinchao, tnhamos 
empregado aquela expresso. Havia ao redor de ns demasiados coraes duros, os coraes duros dos nossos 
carcereiros, os coraes duros dos que sustentavam que devamos ser sacrificados  razo de Estado, e os 
coraes duros dos indiferentes.
     Sem pensar, me dirigi a Jesus: "No peo que me liberte. Mas, se so verdadeiras as suas promessas, quero 
pedir-lhe uma coisa apenas: neste ms de junho que  o seu, faa com que eu saiba quantos meses ainda temos 
de cativeiro pela frente. Se fizer com que eu saiba isso, vou conseguir aguentar. Pois estarei vislumbrando o fim. 
Se fizer com que eu saiba, prometo que rezarei a voc todas as sextas-feiras do resto da minha vida. Essa ser a 
prova de minha devoo, pois saberei que voc no me abandonou".
     O ms de junho, no entanto, foi pobre em esperana. Escutei,  claro, o apelo dos partidos verdes e dos 
membros do parlamento europeu, que continuavam pedindo a libertao de todos que estavam na selva. Tinha 
havido manifestaes de multides no incio do ano, no s na Frana e em toda a Europa como tambm, pela 
primeira vez, na Colmbia. Multiplicavam-se os comits de apoio aos refns e seus militantes agora se 
contavam aos milhares. Todos os presidentes da Amrica Latina haviam se manifestado a favor de uma 
negociao com as Fare durante a posse de Cristina Kirchner, tendo ela aberto as portas para que nossas famlias 
pudessem solicitar ajuda aos seus pares.
     Em junho, porm, nossa situao parecia mais entravada que nunca. A Operao Fnix, conduzida pelo 
Exrcito colombiano em 2 de maro de 2008 no territrio equatoriano, visando a derrubar Ral Reyes, o 
segundo comandante na hierarquia das Fare, resultara numa crise diplomtica envolvendo Colmbia,
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Equador e Venezuela, cuja gravidade no escapava a ningum. Os contatos pela libertao dos novos refns 
tinham sido totalmente suspensos.
     A morte de Manuel Marulanda, chefe supremo das Fare, em 24 de maro, apenas duas semanas depois da 
morte de Ral Reyes, seu sucessor, parecia ter decapitado a organizao e jogado para as calendas gregas o 
acordo humanitrio e nossas chances de libertao.
     "No vai ter nada para voc", dizia a mim mesma para no criar falsas iluses. No dia 28 de junho, porm, 
recebi uma visita surpreendente.
     Enrique se aproximou silenciosamente, pensando em como entrar na minha caleta, com a visvel inteno 
de se sentar para conversar. Imaginei que mais uma desgraa fosse se abater sobre mim. No gostava de 
encontrar com Enrique. Fiquei imvel, msculos contrados.
    -                Uma comisso europeia est vindo visitar vocs. Querem conversar com todos, verificar o 
estado de sade dos refns. Precisamos nos preparar. Vamos ter que nos deslocar.  possvel que um ou vrios 
de vocs sejam libertados.
     Eu aprendera a no demonstrar minhas emoes. Meu corao saltou dentro do peito como um peixe 
pulando do aqurio. No queria que Enrique achasse que podia me enganar novamente. Ele adoraria ver minha 
decepo. Eu fingia no estar interessada.
    -                Dei ordens para que comprem roupas para vocs, e mochilas menores. Levem apenas o 
essencial, nada de barraca e mosquiteiro: a rede, mudas de roupa e s. Deixem os equipos aqui com o resto todo.
     Ele passou por todas as caletas, falando com cada um no mesmo tom cansado e cuidadoso, decerto 
obedecendo a ordens recebidas. A iniciativa pessoal era um valor pouco estimulado no interior das Fare.
     Quando Enrique saiu do alojamento, cada qual tinha uma verso do que havia sido dito. Os cochichos 
corriam de vento em popa. Na minha cabea, havia um s pensamento: queria obter a resposta que eu esperava 
antes do fim de junho.
     Pouco me importava a veracidade das informaes que Enrique fizera circular. Se viesse uma comisso 
internacional, haveria a possibilidade de conversar com gente de fora e avaliar nossas chances de soltura. O 
rdio vinha tocando no assunto desde alguns dias.
     Depois da Operao Fnix, as Fare tinham acusado os delegados europeus de terem comunicado ao 
Equador as coordenadas de Ral Reyes. Agora o governo colombiano autorizava dois delegados europeus a 
viajarem at o corao da Amaznia para se encontrarem com Alfonso Cano, o novo chefe das Fare. Tratava-se 
de Noel Saez e Jean-Pierre Gontard. Os dois homens dedicavam a vida  causa de
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nossa libertao. Se conseguissem reconstruir canais de comunicao com as Fare, havia alguma chance de que 
houvesse uma negociao  vista.
     No dia seguinte, Lili apareceu carregada no alojamento. Trazia calas novas, camisas xadrez para os 
homens, e uma jeans com uma camiseta azul-turquesa bem decotada para mim. Mare recusou as roupas novas, 
devolvendo-as a Lili. Tom vestiu a camisa xadrez nova imediatamente. Era bvio que queriam nos envolver 
numa encenao. "Vou usar minha roupa velha", resolvi, refletindo sobre a atitude de Mare.
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81. O embuste

     Depois de tudo recolhido, fizeram-nos andar at as 
casinhas de madeira. 
Para nossa grande surpresa, descobrimos os refns dos 
outros grupos j acomodados numa delas. Nossos companheiros, Armando 
Arteaga  frente, conversavam com o caporal Jairo Duran, o tenente de polcia 
Javier Rodriguez, o caporal Buitrago, conhecido como Buitraguito, e o sargento 
Romero, que era sempre 
muito corts. Ficaram felizes por rev-los. Durante as 
marchas, acontecera de ficarmos juntos horas a fio esperando o bongo. Tnhamos 
ficado amigos. amos de 
um para o outro, querendo saber tudo num minuto e 
partilhando nossas reaes 
e sentimentos acerca do que nos esperava. Ningum 
sabia de nada. Ningum ousava perguntar ao outro se achava que haveria alguma 
libertao, pois ningum 
ousava acreditar nisso.
     Acerquei-me de Armando, gostava da sua 
companhia e do seu irredutvel 
otimismo. Ele me abraou, encantado:
    -                A prxima vai ser voc!
     Rimos, no mais que eu ele acreditava nisso.
    -                Olha s, o Arteaga arranjou uma 
namorada - disse ele, mudando de 
assunto.
     Virei-me para olhar, era bonitinho. Miguel estava 
com um pequeno cosumbo 
domesticado no ombro e beijava seu focinho.
    -                Quem deu esse cosumbo para 
ele?
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    -                No  um cosumbo,  um quati! - declarou Armando, entendido.
    -                Espera a, o que  um quati?
    -                 parecido com um cosumbo.
     Rimos, a perspectiva de uma mudana na rotina nos dava asas.
    -                E a, para onde estamos indo?
    -                Para lugar nenhum, vamos ficar no Camboja - ele falou, irnico.
     Era a mxima preferida dele para indicar que tudo podia acontecer e que estvamos em muito maus 
lenis, nas mos de Pol Pot. Eu sempre achava graa.  primeira vista, talvez parecesse despropositada, mas 
era certeira - tratava-se da mesma selva, do mesmo extremismo e fanatismo mascarados pela retrica comunista, 
e do mesmo cruel sangue-frio.
    -                Ele come mais que leishmaniose! - disse ele, apontando para algum atrs de si.
     Eu j estava rindo, antes de saber a quem ele se referia. A um canto, afastado de todos, agachado com sua 
tigela, Enrique se empanturrava com os restos de arroz daquela manh.
     Foi dada a ordem da partida. Nossos equipos foram todos empilhados num quarto da casinha, cuja porta era 
trancada por um cadeado grande, cuja chave, por sua vez, foi parar no bolso de Enrique. "Nunca mais vamos ver 
nossos equipos", pensei, feliz por ter pego, no ltimo minuto, os cintos que eu tecera para Mla e Lorenzo alguns 
anos antes, as nicas coisas que tinham sobrevivido s inmeras revistas. Enrique, indiferente ao tempo, limpava 
aplicadamente o seu novo AR-15 Bushmaster, que substitura o seu AK-47. O bongo nos aguardava.
     A travessia foi surpreendentemente breve. Cobriram nossas cabeas com uma lona grossa, mas consegui 
ver a margem oposta, salpicada de casinhas bonitas, pintadas de cores brilhantes.
     "Onde ser que estamos?", pensei, surpresa ao ver tantos civis.
     Atracamos defronte uma residncia imponente. Um lindo jardim, com palmeiras formando um leque no 
meio de um gramado impecvel, precedia uma casa sobre pilotis que se estendia em trs alas perfeitamente 
equilibradas. A parte central tinha todo o jeito de ser a rea social. Uma mesa enorme, com uma quantidade de 
cadeiras de plstico, parecia perdida numa sala imensa que no se preenchia nem mesmo com a grande mesa de 
bilhar que havia do outro lado.
     Levaram-nos imediatamente para a ala esquerda da casa. Em geral, nos instalavam nos galinheiros ou 
laboratrios, nunca nas casas. Veio a ordem de colocarmos os equipos no cho, nos fundos da casa, e pegar 
nossos trajes de banho. Em dois tempos, estvamos todos no rio.
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    -                Voc agora  uma autntica soldada - disse-me Rodriguez, brincando.
     Algum pegou um frasco de xampu pela metade.
    -                Uau! - exclamamos todos em coro.
     Aquele era um tesouro que em geral ningum partilhava. Mas havia uma leveza no ar, e o frasco circulou. O cheiro que ele exalava me trouxe o desejo por uma 
outra vida, e mergulhei na gua para enxaguar o cabelo me fazendo de sereia.
    -                Betancourt, para fora! - chamou Oswald, perverso.
     Juntei meu pedao de sabo e sa antes de todo mundo. Sorri ao pensar que 
um dia aquilo tudo iria acabar, e fui buscar meu equipo para trocar rapidamente 
de roupa antes de ser devorada pelos mosquitos.
     Um dos guardas abriu a porta lateral da ala esquerda da casa.
    -                Guardem os equipos e peguem as correntes - disse ele num tom presunoso.
     Vi meus companheiros se amontoando para serem os primeiros a entrar. 
Olhei para o cu uma ltima vez. A noite estava clara. Nenhuma nuvem. L no 
alto, a primeira estrela comeava a brilhar.
     Meus companheiros se agitaram em torno de uma pilha de colches rasgados 
que, tudo levava a crer, no seriam suficientes para todos. William conseguiu pegar 
dois colches de casal e me mostrou o espao que reservava para mim.
     O guarda fez soar seu molho de chaves. Cada qual se acomodou a um canto, e 
o guarda passou de um em um para fechar os cadeados e prender as correntes nas 
vigas que sustentavam as camas. Quando ele se foi, peguei o meu radinho e, como 
toda noite, me pus a ouvir os programas colombianos. Sentia-me bem debaixo 
daquele teto, naquela cama, naquele colcho.
     Acordei s trs horas da manh e peguei meu tero. Era quarta-feira.
     Naquele dia, rezei com mais alegria, pois estava convencida de que meu pacto com Jesus havia sido selado. "Ele cumpriu sua palavra", repetia a mim mesma, 
mesmo no tendo a menor ideia do que me esperava.
     A voz de minha me me alcanou ao amanhecer. "Preciso tomar o avio hoje 
 tarde," dizia, "mas no quero te deixar."
     Sorri, lembrando de Lucho. "Amanh ela vai me ligar de Roma", pensei. Mlanie tambm apareceu no rdio. Estava chamando de Londres. Sorri ao pensar que, 
se eu fosse libertada, no haveria ningum para me esperar na chegada.
     Fabrice falou em seguida. Graas  carta que eu escrevera para minha me, 
descobrira que eu escutava as mensagens pelo rdio. Ele ento andava chamando 
de tudo quanto era lugar, e sempre acabava desligando pois sua voz traa demais 
sua emoo. Nesse dia, conseguiu me contar que estava junto com a me de Mare,
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e que Jo vinha lutando por ele feito uma leoa. Falou em francs, e ningum alm de mim poderia avisar Mare.
     O guarda j estava passando para abrir os cadeados. Para minha surpresa, tirou as correntes de meus 
companheiros e guardou-as. "No se iluda, ele vai deixar voc a", disse a mim mesma ao ver que se tratava de 
Oswald. No entanto, ele tirou minha corrente.
     Um barulho de loua chamou minha ateno. Um guerrilheiro apareceu, trazendo um prato de porcelana 
cheio de sopa em cada mo. Estendeu-os para ns, fazendo uma ida e volta a cada dois minutos. Ficamos todos 
inclinados sobre nosso prato, em silncio, concentrados em pescar os cubinhos de batata dentro do caldo.
     Um agito de cumprimentos me fez voltar a cabea. O comandante Csar fazia sua entrada, dirigindo-se 
com cortesia a cada um de meus companheiros, um por um, at chegar a mim.
     Todos saram, deixando-me sozinha com o chefe do front, tanto por cortesia como por desejo de aproveitar 
uma manh de sol sem correntes e um bom caf da manh.
    -                Ns somos o exrcito do povo - disse Csar em tom de oratria.
     "So iguaizinhos  antiga classe poltica colombiana", pensei. Ele fez uma declarao dentro dos 
conformes, explicando o motivo pelo qual mantinham "retidos" - um eufemismo para "refns" - e como, se 
recorriam ao dinheiro da droga para se financiarem, era para no terem de recorrer aos sequestros econmicos.
     Olhei para ele, impassvel, sabendo que tudo o que estava me dizendo tinha um objetivo. O que ele temia? 
Queria que eu fosse sua testemunha? Queria que eu passasse algum recado? Garantir sua retaguarda? Quem 
iramos encontrar? Os estrangeiros? Os chefes das Fare? Suspirei. Alguns anos antes eu teria enfrentado, teria 
tentado desmontar seus argumentos. Eu me sentia como um cachorro velho. J no latia, nem sentada, nem de 
p. S observava.
     Passada uma hora, Csar continuava com seu discurso. Olhei para a minha sopa fria sobre o colcho 
fervilhante de pulgas em que eu tinha dormido. Quando pareceu que ele tinha concludo, me arrisquei a 
perguntar o que devamos esperar daquele dia.
    -                Uns helicpteros vo vir buscar vocs. Vamos provavelmente encontrar com o Alfonso Cano. 
Depois disso, no sei - confessou. - Vocs talvez sejam transferidos para outro acampamento.
     Mare estava em p na frente de seu beliche. Estava guardando a tigela na mochila. S estava ele no quarto. 
Hesitei, e ento me aproximei:
    -                Mare, queria que voc soubesse que ouvi hoje de manh, no rdio, que a
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sua me est em Londres. Est l com a minha famlia, num frum sobre a paz, ou Direitos Humanos, acho. 
Segundo o Fabrice, ela est lutando por voc feito uma leoa.
     Mare continuou fechando a mochila enquanto eu falava. Por fim, ergueu os olhos e vi neles tanta doura 
que senti vergonha do tom severo com que lhe falara. Ele me agradeceu de maneira formal, e eu me afastei para 
no prolongar um face a face que podia se tornar desconfortvel.
     Ouvi o ronco dos helicpteros se aproximando. Meus companheiros todos j estavam com o nariz apontado 
para as nuvens, perscrutando o cu. Comecei instantaneamente a transpirar, com dolorosas cimbras no abdome. 
Meu corpo reagia como se se tratasse de um raide militar.
    -                Sou uma boba... Nem sei o que  isso, mas no posso me impedir - murmurei. Estava com a 
boca pastosa e ainda tremia quando o velho Erminson berrou para entrarmos na casa com as mochilas. Ele nos 
fez seguir em fila indiana at a sala de bilhar. Era uma revista. Mais uma.
     Havia um guarda para cada prisioneiro. A revista foi muito rpida. Confiscaram tudo que fosse cortante, 
at os cortadores de unha. O meu estava em meu bolso, escapou da blitz. Ainda em fila indiana, nos levaram at 
o bongo. Cada qual seguido de perto por um guarda. O meu era uma mulher que eu via pela primeira vez. Estava 
muito nervosa e berrava comigo, enfiando-me a ponta do fuzil nas costelas.
    -                Devagar, devagar - eu disse, tentando acalm-la.
     Atravessamos o rio de bongo, e atracamos logo em frente, numa plantao de coca que se estendia atrs de 
uma casinha de madeira. No meio da plantao, um campo cercado parecia ser o local escolhido pela guerrilha 
para a aterrissagem de helicpteros. Dois helicpteros davam voltas no ar, l no alto, sumiam entre as nuvens e 
reapareciam em seguida. Um deles iniciou a descida. Era todo branco, com uma franja vermelha sob a hlice. O 
barulho do motor foi ficando ensurdecedor e parecia seguir o ritmo de minhas palpitaes. Quanto mais ele 
descia, mais as vibraes se propagavam dentro do meu corpo. Ele pousou, a porta se abriu. Enrique posicionara 
o grosso de sua tropa em cortina ao redor da cerca. Os guardas tinham um olhar ruim e seu nervosismo era to 
visvel quanto o ar quente que tremia junto ao cho. Ns, os prisioneiros, tnhamos instintivamente nos 
agrupado, colados ao arame farpado, para ficar o mais perto possvel do helicptero e evitar sermos ouvidos 
pelos guardas. Fiquei um pouco para trs, desconfiada.
     Um grupo de homens saltou do helicptero. Um deles, muito alto, de bon branco na cabea, andava 
inclinado para o lado como temendo desequilibrar-se
543
 

com o vento varrido pelas hlices. Correndo 
atrs dele vinha outro homem, magro, 
de barba loira, e uma mulher baixinha de 
jaleco branco trazendo uns formulrios 
numa mo e uma caneta na outra. Um sujeito 
alto de olhos muito escuros e olhar 
penetrante andava meio de lado. Lembrou-me 
um rabe. Mais atrs, afastado e  
esquerda do grupo, um homenzinho escuro, de 
cmera em punho, colete branco e 
camiseta do Che Guevara parecia concentrado 
em filmar toda a cena. Por fim, um 
jovem jornalista de leno vermelho, brandindo 
um microfone, tentava visivelmente falar com os comandantes.
    -                Ser que so os europeus? 
- perguntavam meus companheiros, me cutucando com o cotovelo.
     Fazia um esforo para enxergar, 
incomodada pela reverberao da luz. Fazia 
um calor bestial.
    -                No, no so os europeus.
     O homem alto de bon branco se postou 
do outro lado do arame farpado, 
nos enchendo de perguntas bobas, com seu 
aclito pronto a tomar nota.
    -                Voc est em boa sade?
    -                Est com alguma doena 
contagiosa?
    -                Sente vertigem ao andar de 
avio?
    -                Sofre de claustrofobia?
     No se interessava por ningum em 
particular, passando de um para o outro 
sem esperar pelas respostas.
     Aproximei-me para examinar a 
identificao plastificada pendurada em seu 
pescoo: "Misso Humanitria Internacional", 
estava escrito, num logo sobre fundo azul-claro e uma pomba de asas abertas 
estilo sabonete Dove. "Isso  um embuste", pensei, horrorizada. Aqueles homens 
eram obviamente estrangeiros, quem 
sabe venezuelanos ou cubanos. O sotaque, 
pelo menos, era das Carabas.
     "No  nenhuma comisso internacional, 
no vai haver nenhuma libertao, 
vamos ser transferidos sabe Deus para onde. 
Ainda vamos estar presos daqui a dez 
anos", conclu.
     O homem de bon branco deu ordem para 
descarregar do helicptero uns 
engradados de refrigerantes e, magnnimo, os 
ofereceu a Csar.
    -                Isso  para a tropa, 
Companero - consegui ler em seus lbios, 
antes que 
trocassem os tapinhas nas costas de praxe. Os 
guardas estavam postados a cada 
dois metros, formando crculos em volta de 
ns. Deviam ser perto de sessenta. 
Estavam orgulhosos, em posio de sentido, 
bebendo com os olhos tudo o que se 
passava. Enrique, no muito falante, retrado 
diante de um Csar satisfeitssimo e 
cheio de si.
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     O homem de bon branco voltou para junto de ns. Com uma voz que ele queria autoritria, declarou:
    -                Muchachosl Temos que ser rpidos, no podemos ficar mais tempo em solo. Temos um 
compromisso com as Fare e vamos respeit-lo. Todos devem subir no helicptero com as mos atadas. Ponham-
se em fila. Trouxemos umas algemas, que esto com os guardas. Peo que colaborem para garantir o sucesso 
desta misso.
     Inesperadamente, e pela primeira vez, houve uma revoluo entre os prisioneiros. Ningum queria subir 
nos helicpteros. Todos protestavam. No podamos aceitar daqueles desconhecidos o que vnhamos aceitando 
havia anos da guerrilha.
     Os guardas apontaram as armas a fim de refrescar nossa memria. Alguns companheiros se deitaram no 
cho, desfechando pontaps em quem quer que se aproximasse. Foram brutalmente amarrados pelos guardas e 
intimados, sob os fuzis, a subir no aparelho. Outros tentaram expressar seus protestos diante da cmera, foram 
empurrados, amarrados e, por sua vez, obrigados a subir. O guarda que colocava as algemas era um garoto de 
humor violento. Atou-me as mos fazendo tanta fora que chegou a perder o equilbrio. Eu no disse nada, 
estava arrasada com a ideia do que tnhamos pela frente.
     A enfermeira quis me ajudar a carregar minha mochila. Recusei secamente. As cenas que eles filmavam 
sem parar deveriam mostrar ao mundo a imagem de uma guerrilha humana. Eu no queria me prestar ao jogo 
deles. No abri a boca e subi no helicptero como quem vai para o matadouro. L dentro, em cada lugar havia 
um agasalho branco. "Estamos indo para Paramo",* pensei, mordendo os lbios, "no territrio de Alfonso 
Cano",** conclu.
     Estava sentada entre Armando e William, ao lado da porta, j que fomos os ltimos a entrar. Tinha minha 
mochila entre as pernas e tentava dissimuladamente tirar as algemas para restabelecer meu fluxo sanguneo. 
Foi fcil, eram correias parecidas com essas usadas para malas nos aeroportos.
    -                Ponha a algema de volta, isso  proibido - me alertou Armando, escandalizado.
    -                Estou me lixando - respondi, deprimida.
     A porta se fechou. Enrique se sentou em seu lugar. O helicptero tomou altitude. Pela janelinha atrs de 
mim, avistei os guerrilheiros, todos em posio de sentido, nos olhando partir. 
* Regio dos picos andinos, muito fria e mida.
** O novo chefe das Fare, que substitura Marulanda aps a morte deste.
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Foram rapidamente diminuindo 
de tamanho, at
j no serem mais que um alinhamento de pontinhos pretos no meio do verde. "A gente podia neutraliz-los e 
tomar o controle do avio", pensei, olhando para a cabine.
     A enfermeira se aproximou novamente e me ofereceu algo para beber. No quis aceitar nada, ressentida 
com ela por se prestar a um jogo que s iria prolongar nosso cativeiro. Rejeitei-a com frieza, irritada com seu 
olhar amvel.
     Nisso, eu o vi. Num movimento rpido, Enrique caiu de seu assento. O rabe estava em cima dele. Meus 
companheiros davam-lhe pontaps. No entendia o que estava acontecendo. Nem ousava acreditar. Meus 
pensamentos travaram. Nada parecia ser coerente.
     O homem de bon branco se ps de p, o rabe ainda em cima do corpo de Enrique. Eu no enxergava 
nada alm da luta ganha de antemo entre aqueles gigantes e aquele homem que eu detestava tanto. Vi o colosso 
jogar o bon branco para cima, gritando com toda a fora:
     - Somos el Ejrcito de Colombia! Estn libres!
     O barulho do motor enchia a minha cabea de vibraes e me impedia de entender. As palavras levaram 
algum tempo para atravessar as camadas de incredulidade que durante tantos anos tinham se tecido como 
carapaa em volta do meu crebro. Senti que elas me penetravam como as primeiras chuvas, atravessando as 
camadas de dor e desespero cristalizadas dentro de mim, me enchendo aos poucos de uma fora que brotava 
como a lava de um vulco em erupo.
     Um longo, muito longo e doloroso urro brotou do mais profundo de mim, me enchendo a garganta como se 
eu vomitasse fogo at o cu, me obrigando a me abrir inteira como num parto. Quando terminei de esvaziar os 
pulmes, meus olhos se abriram para um outro mundo, e compreendi que acabava de ser catapultada para a 
vida. Uma serenidade densa e intensa se instalou em mim, feito um lago de guas profundas cuja superfcie 
espelha a imagem dos picos nevoentos que o circundam.
     Peguei meu tero, que eu usava como pulseira, e o levei aos lbios num indescritvel impulso de gratido. 
William se agarrava em mim, e eu nele, assustados que estvamos pela imensido do tempo de liberdade que se 
abria diante de ns, como se estivssemos para levantar voo, nossos ps  beira de uma falsia.
     Virei a cabea. Meu olhar cruzou com o de Mare pela primeira vez do outro lado da vida, no mundo dos 
vivos, e reencontrei, naquele exato momento, a fraternidade de alma que descobrramos quando acorrentados, 
que escrevramos um para o outro. Mare sorriu para mim. "O que nos tornamos l  o que somos
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aqui hoje", pensei, repleta de paz, com a serenidade de alma de que falam os textos dos sbios.
     A meus ps, encolhido como um feto, ps e mos atados, jazia Enrique. No. No gostei da nossa violncia 
e dos pontaps que lhe demos. Aqueles no ramos ns. Peguei na mo de William que chorava ao meu lado.
     - Acabou - disse, afagando-lhe a cabea. - Estamos indo para casa.
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82. O fim do silncio

     William ps o brao em volta dos meus ombros. S ento me dei conta de que eu tambm estava chorando. 
Era meu corpo, que tinha explodido, se reequilibrando atravs das lgrimas, submergido por uma infinidade de 
sensaes esparsas e desconectadas chocando-se umas nas outras. Andei mais alguns instantes, descala sobre as 
tbuas de uma madeira preciosa que eles tinham cortado a serra no acampamento do horror, e que agora 
apodrecia no passado junto com os milhares de rvores derrubadas naqueles seis anos e meio de desperdcio. 
Pensei no meu corpo que no recobrara suas funes de mulher desde minha pequena morte e que parecia parar 
de hibernar no momento mais inoportuno. Essa ideia me fez sorrir pela primeira vez na vida.
     Meus companheiros pulavam em volta dos corpos estendidos de Csar e Enrique, arrebatados numa dana 
de guerra que clamava nossa vitria em altos brados. Armando cantava nos ouvidos de Enrique: "La vida es una 
tombola, tombola, tombola..."
     "O helicptero vai cair", falei, em meio a um pico de adrenalina, subitamente angustiada com as 
chacoalhadas que nossa euforia impunha ao aparelho. Tornei a sentar-me, tensa. Vai que a maldio continuasse 
a nos perseguir. Imaginei, sem querer, o acidente.
     - Em quanto tempo vamos aterrissar? - berrei na esperana de me fazer ouvir.
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     Na cabine, algum se virou com um sorriso imenso, mostrando os cinco dedos da mo.
     "Meu Deus", pensei, "cinco minutos! Uma eternidade!"
     O homem alto de chapu branco parou na minha frente e me levantou do assento num abrao de urso que 
me tirou o flego. Apresentou-se:
    -                Major do Exrcito colombiano - disse, informando o nome. "Tem a estatura de um gladiador 
da Trcia", pensei na hora.
     Ele grudou a boca em meu ouvido, com as mos em concha:
    -                Faz mais de um ms que deixei minha famlia para assumir o comando desta misso. No 
podia dizer nada para ningum, era sigilo absoluto. Quando nos despedimos, minha mulher me beijou e disse: 
"Isso que voc vai fazer  importante demais. Sei que voc vai buscar a Ingrid. Minhas oraes vo te 
acompanhar, sei que voc vai conseguir e que vai voltar. Saiba que, o que quer que acontea, eu sei que dividi 
minha vida com um heri". Ingrid, eu queria que voc soubesse que todos os colombianos estivemos com voc, 
todos os dias, carregando a sua dor como se fosse nossa prpria cruz.
     Eu chorava, suspensa em suas palavras, agarrada nele como se em seus braos todas as condenaes  
desgraa tivessem acabado.
     Foi ento que dei graas a Deus, no por minha libertao, mas por aquela libertao, repleta que estava do 
amor desinteressado daqueles homens e mulheres que eu no conhecia e que, com seu sacrifcio, davam 
transcendncia a tudo o que eu tinha vivido.        
     Invadiu-me uma imensa serenidade. Estava tudo em ordem. Olhei mais uma vez pela janela atrs do meu 
assento. O pequeno lugarejo de San Jose dei Guaviare, em meio a um jardim de verdura, crescia sob os meus 
ps. "Ali est o osis, a terra prometida", pensei. Seria possvel?
     A porta se abriu. Meus companheiros saltaram do helicptero pulando por sobre os corpos dos dois homens 
derrotados. Enrique parecia estar inconsciente, estendido no cho de roupa de baixo. Senti uma imensa 
compaixo. No havia nada para cobri-lo. Ele ia sentir frio. A mulher que fizera o papel de enfermeira durante a 
operao me segurou pelo brao: "Acabou", disse ela suavemente. Levantei-me e abracei-a com fora. Ela me 
empurrou para a porta, e pulei no solo com minha mochila.
     No final da pista, o avio presidencial esperava para nos levar at Bogot. Um indivduo de uniforme abriu 
os braos para mim. Era o general Mario Montoya, o homem responsvel pela Operao Jaque. Sua alegria 
exuberante era contagiosa. Meus companheiros danavam, acenando os lenos em volta dele.
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     No avio, ele nos colocou a par dos detalhes da operao e dos preparativos para garantir seu xito. Os 
helicpteros tinham sido pintados de branco em plena selva, num acampamento secreto em que, durante um ms, 
a equipe ensaiara, na mais estrita disciplina, o plano da operao. Tinham conseguido interceptar a comunicao 
entre Csar e Enrique e o seu chefe, Mono Jojoy. Este pensava estar falando com seus subordinados, quando na 
verdade se tratava do Exrcito colombiano. Csar e Enrique, por sua vez, julgavam estar recebendo ordens de 
Jojoy, quando na verdade quem os instrua eram os homens de Montoya. Primeiro ordenaram que aproximassem 
os dois grupos, e em seguida, que nos juntassem num s grupo. Ao ver que as ordens eram executadas, se 
atreveram a exigir que nos embarcassem no helicptero da falsa comisso internacional. Copiaram o 
procedimento criado para as libertaes unilaterais do incio do ano, e deu certo, porque a operao parecia se 
inscrever na lgica das aes anteriores. A morte de Marulanda e Ral Reyes tornou crvel a possibilidade de 
um encontro com o novo chefe, Alfonso Cano, o que alis explicava o entusiasmo de Enrique e Csar  ideia de 
viajar no helicptero. Como num grande quebra-cabea, todas as peas foram se encaixando precisamente no 
lugar certo, na hora certa.
     Eu escutava o general. Ele falava dos meus filhos e me dava notcias de minha me e minha irm.
    -                Minha famlia j foi informada? - perguntei.
    -                s treze horas em ponto, fizemos o anncio para o mundo inteiro.
     Ento, sem pensar, pedi licena para ir ao banheiro. Ele se calou e me fitou
com carinho:
    -                Voc no precisa mais pedir licena - sussurrou. Levantou-se educadamente pedindo 
permisso para me conduzir at l.
     Troquei de roupa e refiz a trana que prendia meu cabelo, pensando que tinha um espelho de verdade na 
minha frente, uma porta de verdade, fechada, e ri  ideia de que nunca mais teria de pedir licena a ningum 
para ir ao banheiro.
     amos aterrissar dentro em pouco. Procurei entre meus camaradas e descobri Mare, na dianteira do 
aparelho, mergulhado no silncio. Fiz um sinal para ele e fomos nos sentar a um canto onde havia vrios 
assentos vagos.
    -                Mare, queria te dizer... Queria que voc soubesse que as cartas que no te devolvi,  porque eu 
j tinha queimado...
    -                Isso no tem a menor importncia - disse ele baixinho, para me fazer calar. Nossas mos se 
uniram e ele cerrou os olhos para murmurar: - Estamos livres.
     Quando abriu os olhos, surpreendi a mim mesma dizendo:
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    -                Prometa que quando estiver na sua vida, no vai se esquecer de mim.
     Ele me olhou como se acabasse de buscar no cu pontos de referncia, e disse
meneando a cabea:
    -                Eu vou saber onde te encontrar.
     O avio aterrissara, e o general Montoya estava recebendo o ministro da Defesa, que ainda se encontrava 
na entrada do aparelho. Fazia muitos anos que eu no via Juan Manuel Santos. Ele me abraou afetuosamente 
dizendo:
    -                A Colmbia est em festa, e a Frana tambm. O presidente Sarkozy est enviando um avio. 
Seus filhos chegam amanh. - Ento, sem me dar tempo de reagir, pegou minha mo e me puxou para fora do 
avio. Na pista, uma centena de soldados gritava vivas para nos saudar. Desci a escada como que em sonhos, 
deixando-me abraar por aqueles homens e mulheres de uniforme, como se precisasse de seus gestos, suas 
vozes, seus cheiros, para acreditar.
     O ministro me passou um celular: " a sua me", disse com orgulho. "Quando a gente acredita nelas, as 
palavras viram realidade", pensei. Eu tinha imaginado tantas vezes aquela cena. Tanto a desejara e tanto 
esperara por ela.
    -                Al, me?
    -                Astrid,  voc?
    -                No, me, sou eu, a Ingrid.
     A felicidade de minha me foi como eu tinha imaginado. Sua voz estava cheia de luz e suas palavras eram 
um prolongamento daquelas que eu escutara no rdio, no amanhecer daquele mesmo dia. Ns nunca tnhamos 
nos separado. Eu vivera aqueles seis anos e meio de cativeiro presa  vida pelo fio de sua voz.
     Deixamos Tolemaida, uma base militar a poucos minutos da capital onde fizramos escala. Durante o 
trajeto para Bogot, cerrei os olhos num exerccio de meditao que me fez rever tudo o que eu tinha vivido 
desde a minha captura como numa projeo em alta velocidade. Vi minha famlia inteira, tal como a imaginara 
durante aqueles anos todos de separao. Sentia um medo indescritvel, como se eu pudesse no reconhec-los, 
ou que eles pudessem passar por mim sem me ver. Meu pai estava, para mim, quase mais vivo do que eles, ou 
melhor, estavam todos to distantes de mim quanto ele. Eu precisava me dispor a enterr-lo de fato, e isso ainda 
me doa. Iria precisar, eu sabia, da mo de minha irm para cumprir meu luto, mas como me dispor a d-lo por 
morto quando eu estava voltando  vida! O que me aguardava era um empreendimento titnico. Eu teria que me 
redescobrir em casa entre os meus, sabendo-me outra, j quase uma estrangeira para eles. Meu maior desafio era 
no perder a conexo com os meus filhos, refazer
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o contato com eles, recriar a confiana, nossa cumplicidade, recomear do zero e, ao mesmo tempo, me 
abastecer em nosso passado para restabelecer os cdigos do nosso amor. Meu filho era uma criana quando fui 
capturada. Que lembranas teria guardado da me de sua infncia? Haveria lugar para mim na sua vida adulta? E 
Mlanie, quem era Mlanie? Quem era essa jovem mulher determinada e sensata a exigir que eu aguentasse 
firme? Ficaria decepcionada com a mulher que eu havia me tornado? Ser que ela seria capaz, ser que eu seria 
capaz, de recriar a intimidade que nos unia de forma to profunda antes de meu desaparecimento? Meu pai tinha 
razo. O mais importante, na vida,  a famlia.
     Aquele mundo novo, que no significava mais nada para mim, s tinha sentido por eles e com eles. 
Durante os anos de agonia que eu acabava de deixar, eles tinham sido, sem trgua, meu sol, minha luz e minhas 
estrelas. Eu tinha escapado dia aps dia do inferno, levada pela lembrana ardente de seus beijos infantis, e para 
que no me confiscassem a memria de nossa felicidade passada, eu a escondera nas estrelas, perto daquela 
constelao do Cisne que, brincando, eu dera de presente  minha filha quando ela nasceu. Destituda de tudo, 
concentrara minha energia na felicidade de escutar a voz de meu filho mudada em voz de homem e, como 
Penlope, fizera e desfizera minha obra na espera deste grande dia.
     Mais algumas horas e encontraria todos eles, minha me, meus filhos, minha irm. Ficariam tristes ao me 
ver consumida pelo cativeiro? Respirei, os olhos fechados. Sabia que estvamos todos mudados. Eu percebera 
isto ao olhar para Willie, Armando, Arteaga. Estavam todos diferentes, como que brilhndo de dentro para fora. 
Eu tambm devia estar assim. Fiquei muito tempo de olhos fechados. Quando tornei a abri-los, sabia 
perfeitamente o que iria fazer e dizer na descida do avio. No havia impacincia em mim, no havia medo nem 
exaltao. Em meu corao, tudo o que eu havia pensado durante os ciclos interminveis de acampamentos e 
marchas, ao fio das estaes, estava maduro para ser exposto. A porta se abriu.
     Na pista, estava a minha me, intimidada por tamanha felicidade, trazendo no rosto, como se quisesse 
escond-las de mim, as marcas de seus anos de sofrimento. Aquela sua nova fragilidade me agradou, pois me era 
familiar. Desci lentamente os degraus do avio para ter tempo de admir-la, e de melhor am-la. Nos abraamos 
com a energia da vitria. Uma vitria que s ns entendamos, pois era a vitria sobre o desespero, o 
esquecimento, a resignao, uma vitria exclusivamente sobre ns mesmas.
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     Meus companheiros tambm tinham descido do avio. Armando me pegou pela mo e me arrastou. 
Caminhamos nos segurando pelos ombros, felizes como crianas, andando nas nuvens. Foi ento que senti, 
estremecendo, que tudo era novo, tudo era denso e leve ao mesmo tempo, e, naquela luz que surgia, tudo sumira, 
tudo fora levado embora, esvaziado, limpo. Eu acabava de nascer. No havia mais nada dentro de mim alm de 
amor.
     Ca de joelhos diante do mundo, e agradeci antecipadamente aos cus por tudo o que ainda estava por vir.
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Ia EDIO [2010] 3
ESTA OBRA FOI COMPOSTA POR 2 ESTDIO GRFICO EM MINION E 
IMPRESSA PELA GEOGRFICA EM OFSETE SOBRE PAPEI. PLEN 
SOFT DA SUZANO PAPEL E CELULOSE PARA A 
EDITORA SCHWARCZ EM NOVEMBRO DE 2010

***FIM***
